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Entrevista de eduardo campos a folha de são paulo
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Entrevista de eduardo campos a folha de são paulo

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  • 1. ENTREVISTA DE EDUARDO CAMPOS A FOLHA DE SÃO PAULONarração de abertura: O governador de Pernambuco, Eduardo Henrique Accioly Campos, tem 46 anos e nasceu no Recife. É oatual presidente do PSB, Partido Socialista Brasileiro, que também foi de seu avô, Miguel Arraes.Eduardo Campos é formado em economia pela Universidade Federal de Pernambuco. Já exerceu mandatos de deputado estaduale federal. Foi ministro de Ciência e Tecnologia no governo Lula.Em 2010, apoiou Dilma Rousseff para presidente.Nas especulações sobre 2014, Eduardo Campos aparece citado como possível candidato a senador, vice-presidente e atépresidente da República.Folha/UOL: Olá internauta. Bem-vindo a mais um "Poder e Política Entrevista".O programa é uma parceria do jornal Folha de S. Paulo, do portal Folha.com e do portal UOL. E a entrevista é sempre gravadaaqui no estúdio do Grupo Folha, em Brasília.O entrevistado deste programa é o governador de Pernambuco, Eduardo Campos.Folha/UOL: Olá governador, muito obrigado por sua presença.Eduardo Campos: Olá Fernando, é um prazer estar aqui com você e com todos que estão aí na internet nos acompanhando.Folha/UOL: Governador, hoje, dia 21 de setembro, quarta-feira, o sr. comparece aqui ao estúdio do Grupo Folhadepois que a Câmara dos Deputados escolheu em votação a deputada Ana Arraes para uma vaga no Tribunal deContas da União, o TCU. Ana Arraes, sua mãe. Como foi sua campanha a favor de Ana Arraes nesse processo.Eduardo Campos: Olha, Fernando, eu fui deputado federal em três legislaturas. E tive a oportunidade de votar várias vezespara vários companheiros irem ao Tribunal de Contas da União. Porque, segundo a Constituição, três dos 11 ministros do TCUsão de indicação privativa da Câmara dos Deputados.Na verdade, nunca passou pela nossa cabeça que a deputada Ana, do PSB, da bancada pernambucana seria candidata ao TCU.Até pensamos, quando apontava ali a aposentadoria do ministro Ubiratan Aguiar, em quem eu votei em 2011 para ir para o TCU,em outros nomes, que declinaram do convite... Enfim. Mais do que de repente um conjunto de parlamentares animaram adeputada Ana para esse desafio. E como presidente do partido eu não poderia faltar ao nosso apoio.Muitas pessoas que a conheciam pouco porque ela está no segundo mandato passaram a conhecê-la. Ou eram companheirosmeus de Câmara, de atividade política no movimento estudantil, na formação do nosso partido pelo Brasil afora. A quem meprocurou eu pedi um voto. Não poderia fazer diferente.Folha/UOL: Mas a impressão que se tem é que nessa campanha pela eleição da deputada Ana Arraes ao TCU a suapresença foi muito robusta. O sr. como governador de Pernambuco fez campanha, isso não era segredo, falou commuitos agentes políticos externos. Falou com governadores de Estado, falou com o ex-presidente Lula, com o ex-governador de Minas Gerais, agora senador, Aécio Neves. Muita gente enxergou nessa sua campanha uma pressãoexcessiva sobre a Câmara. Existiu isso?Eduardo Campos: De forma nenhuma. A Câmara é soberana. A Câmara não aceita esse tipo de interferência. O voto noplenário ele se dá numa outra lógica. Fui parlamentar, fui líder partidário, vivi intensamente a Câmara. Qualquer movimento naCâmara que venha de fora para dentro ele é normalmente refutado.Os que disputaram com ela [com Ana Arraes] são parlamentares experimentados, respeitáveis, nomes consolidados na políticabrasileira. Foi uma disputa que o parlamento decidiu. Você não imagina que eu tendo uma companheira de partido, que foi adeputada federal mais votada do meu Estado, pela expressão dos votos, que tem formação em direito reconhecida, que éconcursada da Justiça brasileira, por concurso público, se coloca legitimamente dentro da regra estabelecida pela legislaçãobrasileira numa disputa, e que eu não pudesse dar um telefonema a um deputado amigo meu um voto ou uma atenção para acandidatura dela. É óbvio que fiz isso, como fiz de outros companheiros muitas vezes. Ela disputou a eleição com Aldo [Rebelo,PC do B-SP], que é um querido amigo de quem eu fiz campanha para presidente [da Câmara] por mais de uma vez da Câmarados Deputados.Folha/UOL: Ainda assim há uma interpretação de que a sua participação no processo de eleição da deputada AnaArraes, sua mãe, ao TCU, acabou robustecendo um pouco mais a figura do político Eduardo Campos, que égovernador de Pernambuco, que tem alguma inserção nacional e passou a ter um pouco mais agora. O sr. sente umpouco mais de força política depois desse processo?Eduardo Campos: Não, de forma alguma. Isso não tem uma relação com o mundo da política cá fora do Parlamento. Essa éuma discussão própria do Parlamento brasileiro para uma corte de contas, como se faz rotineiramente. Eu tive oportunidade,como disse há pouco, de diversas vezes apoiar candidatos nem do meu partido nem do meu conjunto político, mas que era
  • 2. próprio da dinâmica ali do Parlamento. Pessoas que demostravam ter experiência, ter espírito público, ter formação, para serjulgador.Folha/UOL: O sr. falou com o presidente Lula, que o ajudou, ele estava a favor da candidatura da deputada AnaArraes. Como foi sua conversa com ele? Porque havia outro candidato, que era Aldo Rebelo, que foi ministro deLula.Eduardo Campos: Eu estava na casa do presidente Michel Temer, num debate com diversos partidos sobre a reforma política,quando chegou o resultado das eleições. Então era inevitável que eu falasse [com Lula], o presidente estava ali do lado, dequem eu também fui ministro, de quem eu sou amigo. E quem expressou, claramente, em algumas oportunidades, em reuniõesque fez, o apoio político à candidatura de Ana, como outras lideranças que não são sequer da base de sustentação do nossogoverno federal que falaram também. Como o governador Alckmin, como outros companheiros do PSDB, o próprio líder [doPSDB na Câmara] Duarte [Nogueira], o próprio senador Aécio Neves...Folha/UOL: A deputada Ana Arraes havia dito que se eleita se declararia impedida quando algum assunto fossediretamente ligado ao governo de Pernambuco porque o sr. é o governador de Pernambuco. Não seria o caso de nofuturo imaginar um TCU que fosse mais infenso à presença dos políticos lá. E que a Câmara e o Senado indicassemoutro tipo de integrante para o TCU, que não fosse ex-integrantes do Parlamento?Eduardo Campos: Não. Isso é uma definição da Constituição, né...Folha/UOL: Mas a Constituição não obriga a eleger um deputado...Eduardo Campos: Mas também não veta. Não é porque é parlamentar que não presta para ser ministro. Isso é uma visãopreconceituosa, errada. Até porque foram os parlamentares eleitos pelo povo que criaram a institucionalidade do Tribunal deContas com a expressão que ele tem hoje.Não fosse os políticos, nós não teríamos Ministério Público, nós não teríamos Tribunal de Contas, nós não teríamos PolíciaFederal enfrentando, como têm enfrentado, a corrupção, as mazelas do patrimonialismo. Essa visão contra político nos levou emdeterminado momento a uma ditadura aonde as cortes de contas não apitavam nada. Aonde faltou política, liberdade,Parlamento livre, falta transparência, falta liberdade de imprensa. Eu acho que essa visão de jogar preconceito sobre os políticosé uma visão completamente equivocada.Folha/UOL: Mas nesse caso específico é só a auditoria, porque a função do TCU é a de autidar... Como ele auditatambém o Congresso, não fica um pouco complicado?Eduardo Campos: Pela lei, pela Constituição, o Poder que cabe fiscalizar é o Poder eleito pelo povo. Até porque, esse podertambém é fiscalizado pelo povo. O povo tira. Quem vai para lá e faz errado, o povo saca na eleição seguinte. E muitas vezes oque passou simplesmente por um concurso ele está ali permanentemente. O instrumento de retirar é muito mais... Hoje, essesórgãos têm uma equipe técnica muito consistente.Eu digo isso porque quando cheguei ao governo de Pernambuco eu me vali, para formar a nossa equipe, de muito técnicos doFisco -onde você tem carreiras e muita gente com capacidade de treinamento e formação-, das Procuradorias -tanto do Estadoquanto nacionais- e muito do Tribunal de Contas, onde você tem técnicos de grande valor, aonde a gente pode montar boasequipes. Esses técnicos, essa massa crítica que a instituição ganha, ela efetivamente tem uma grande importância parasubsidiar, para lastrear decisões que são decisões do plenário, de quem vai para lá conhecendo o Brasil real, sabendo como éum município de 3.000 pessoas no alto sertão do Nordeste, em termos de equipe técnica para proceder uma licitação, para fazerum projeto, para prestar contas num balancete de responsabilidade fiscal. Ou seja, porque eu acho muito importante os órgãosde controle. Muito. Acho que é algo que a gente deve valorizar, e muito. Mas nós também precisamos no Brasil valorizartambém a formação dos gestores em nível dos municípios. Até porque legislação hoje para quem gere a coisa pública, oconjunto de regulamentos que existem, se você não treinar bem o gestor e sua equipe, naturalmente esse gestor vai terdificuldades.Folha/UOL: O sr. esteve hoje, nesta quarta-feira, numa reunião com o vice-presidente da República, Michel Temer,que aliás está exercendo a Presidência da República agora, com a não presença de Dilma Rousseff, que está emNova York, e com o ex-presidente Lula. O tema foi reforma política. O que foi discutido e o que se decidiu.Eduardo Campos: Avançar no financiamento público de campanha e ao mesmo tempo em regras do próprio sistema eleitoral,como a questão de coligações, por exemplo.Folha/UOL: Quem estava? Michel Temer, Lula...Eduardo Campos: Estavam a direção do PMDB, a direção do PSB, a direção do PDT, a direção do PC do B e a direção do PDT.Folha/UOL: E do PT também?Eduardo Campos: Do PT também. E vamos seguir falando com outros partidos.Folha/UOL: O que foi pactuado?Eduardo Campos: O pactuado: o financiamento público, exclusivamente público. Isso é o que os partidos vão decidir nas suasdireções, mas ali ficou claro de que a gente tinha que fechar uma posição, aí cabe a cada um levar para debater nas suas
  • 3. instâncias. No nosso caso [do PSB] já está resolvido, nós apoiamos o financiamento exclusivamente público. Pactuado tambémque iríamos votar o relatório do Fontana [Henrique, deputado do PT-RS], para que a discussão possa avançar, mesmo quetenhamos divergências sobre alguns pontos do relatório do Fontana. Mas dá prova de que há possibilidade ainda de haveralguma reforma. E algo que surgiu, Fernando, e eu queria aqui destacar, é a necessidade de a gente olhar longe nessa questão,não querer fazer uma reforma política já para a próxima eleição. Poder operar algumas mudanças dessas para daqui a oito anos,outras para daqui a 12 anos. De maneira que a gente consiga retirar ao máximo aquela visão de quem vai votar: isso aqui ébom ou é ruim para mim que vou me submeter à próxima eleição?Folha/UOL: O sr. esteve com o ex-presidente Lula, conhece bem, agora, a presidente Dilma. Qual é a diferença deatuação política entre Lula e Dilma?Eduardo Campos: Dilma é sucessora de um mesmo projeto político e de um projeto no país...Folha/UOL: Mas eles têm diferenças.Eduardo Campos: Têm diferenças, claro...Folha/UOL: Quais o sr. apontaria?Eduardo Campos: Não... [eles] têm diferenças de caminhada, de estilo pessoal. Mas o fundamental é que eles estão no mesmoprojeto. Quem imaginar que vai colocar Dilma num projeto e Lula em outro efetivamente eu acho que está imaginando errado.Não vai conseguir. Claro que os estilos, a formação pessoal, a história de vida de cada um, em tudo isso dá para perceberdiferenças. Mas no fundamental, no que é objetivo, no que é essencial ao projeto político e de país eles vão estar juntos.Folha/UOL: Algum exemplo, assim, na forma de atuação prática de atuação entre ambos, Lula e Dilma? O sr. nota?Eduardo Campos: A presidente Dilma ela tem mais um viés, digamos, mais executivo, de quem cuidou por oito anos, inclusive,da gestão no governo do presidente Lula. Ela nunca foi, assim... teve mandatos no parlamento, ou vida orgânica nos partidos.Isso tudo se percebe o quanto um tem mais desenvoltura na articulação política, no diálogo com os dirigentes partidários. Mas ofato objetivo é que, eu tenho dito isso várias vezes, a presidenta Dilma tem se saído melhor, a meu ver, como presidenta do quecomo se saiu como candidata. Eu tenho expressado em nome do nosso partido a ela a nossa solidariedade com as decisões queela tem tomado, com o equilíbrio que ela tem demonstrado.Folha/UOL: O sr. mencionou que ela era uma pessoa que sempre esteve mais dentro da gestão, do Estado, e menoscomo política, porque não exerceu mandatos. Mas ela fez a nomeação do ministério dela e agora já houve quatroministros que tiveram que sair por causa de alguma suspeita de irregularidade. Ela não deveria ter tomado maiscuidado nessas nomeações?Eduardo Campos: Em qualquer democracia do mundo há mudanças de ministros. Ela não vacilou quando foi chamada a tomardecisões. É isso que eu destaco.Folha/UOL: Está muito cedo ainda: 2014, o melhor candidato do campo do governo hoje seria Lula ou Dilma?Eduardo Campos: Todo o esforço do conjunto da base do governo é no sentido de dar à presidenta Dilma as condições de fazera disputa de 2014.Folha/UOL: O PSB tal como em 2010 estaria pronto para apoiar uma reeleição da presidente Dilma?Eduardo Campos: Estaria. Nós temos, nós estamos na base [de sustentação do governo]. Nós temos torcido pelo êxito dogoverno dela, temos sido parte da solução, não temos sido parte do problema [risos]. Temos todo o interesse de ajudá-la paraque ela ajude o Brasil em um momento tão complexo da vida mundial. Nós temos dois grandes blocos econômicos importantespara o Brasil vivendo uma crise que a meu ver não vai ser superada em uma questão de dias ou de meses. Como o queacontece hoje na Europa e nos Estados Unidos da América, ainda em consequência de 2008. E nós precisamos pensar o Brasil,pensar as futuras gerações, até para não vivermos os mesmos problemas que estão sendo enfrentados por esses blocoseconômicos. Nós temos aí uma janela demográfica importante, para tomar decisões importantes, para alavancar o investimentopúblico, para investir em inovação, para dar competitividade à economia brasileira. Essa é uma temática que eu acho que devevir para a mesa do debate brasileiro.Folha/UOL: Em que circunstâncias a presidente Dilma não poderia concorrer à reeleição.Eduardo Campos: Eu não vejo. Um ato pessoal dela de não querer, de não desejar e não pleitear. Fora disso na tradição,jovem tradição brasileira com a permissão de reeleição, todos os governantes, prefeitos, governadores e presidentes têm idopara a reeleição e na maioria das vezes, na esmagadora maioria das vezes, não havendo um desastre de administração, oscandidatos à reeleição, ou não tendo uma competição muito desequilibrada do ponto de vista político, os gestores têm tido êxitonuma reeleição.Folha/UOL: O sr. não pode ser candidato em 2014 à reeleição, porque já está no segundo mandato. Olhando para afrente, o sr. tem desejo de continuar na carreira política em qual caminho?Eduardo Campos: Eu já fui na política mais do que imaginavam e do que eu imaginava que ia ser. Eu tenho 46 anos de idade.Já fui deputado estadual, com papel no meu primeiro mandato reconhecido pela sociedade pernambucana. Depois, três vezes
  • 4. deputado federal, tendo sido deputado federal mais votado do meu partido, fui ministro, fui secretário de estado, governadorpela segunda vez. E acho que a gente pode fazer política sendo candidato a muitas outras coisas, mas não necessariamentetendo mandato. Eu sou presidente de um partido político, que é uma atividade que me encanta muito, construir um partido.Folha/UOL: O sr. se sente qualificado para estar numa chapa presidencial no futuro?Eduardo Campos: Eu não discuto isso, Fernando. Sinceramente, porque eu acho que é tão longe 2014, que eu acho que atécom respeito ao eleitorado e com respeito ao bom senso brasileiro... Quem fica discutindo eleição três anos antes discute,discute e não consegue êxito. Eu fiz duas eleições majoritárias recentes. Graças a Deus e à generosidade do povopernambucano, tive êxito nas duas. Porque discuti eleição no tempo certo. Cada dia que passa a sociedade deseja mais dospolíticos discutir a sua pauta e não a pauta dos políticos.Agora mesmo, vim de uma reunião na Presidência da Câmara, na casa do presidente da Câmara, Marco Maia, com todos oslíderes partidários e diversos governadores, para discutir a questão da saúde. Mais recursos para a saúde.Folha/UOL: Nesse caso da saúde o que foi decidido?Eduardo Campos: Que vai se votar a Emenda 29, a meu ver sem nenhum imposto. A regra, só a regra da Emenda 29, vai parao Senado.Folha/UOL: E como vai se resolver a forma de obter os recursos que estão ali disciplinados pela Emenda 29 agoracom essa regulamentação?Eduardo Campos: No nosso caso, por exemplo, em Pernambuco, nós temos já 17,5% da receita já sendo investidos em saúde.Investimos em saúde 17,5%, então a Emenda 29 não resolve. Talvez aí a "Emenda 40", a Emenda 29 já passamos e muito.Acho que melhorar a qualidade do gasto é um caminho, um outro caminho é você... O SUS, as verbas federais poderemdiferenciar os Estado que já estão fazendo muito. Ou seja: quem bota mais, receber mais também. Tem a possibilidade, surgiuuma... foi feita uma proposta no sentido de a União rever a taxa de juros que está sendo cobrada a alguns Estados e esserecurso que hoje está indo para os juros os Estados se comprometerem a investir mais em saúde.Folha/UOL: Juros de quê?Eduardo Campos: Da dívida [dos Estados com a União]. Tem juro de 18%, 19%.Folha/UOL: Vários colegas seus governadores são favoráveis à criação de uma nova forma de arrecadação, umtributo, a contribuição social, por exemplo, que está aí pensada, uma nova CPMF, um imposto do cheque. O Sr. achaque não deve ter isso de maneira nenhuma?Eduardo Campos: Eu acho que não deve ter isso. O momento passou, era um momento do debate da CPMF lá atrás, quando setentou e eu procurei ajudar isso, uma pactuação entre governo e oposição, e muitos da oposição ajudaram para a gente cumpriro que era o discurso e não foi a prática, que era o dinheiro da CPMF para a saúde. Na hora que fizeram a CPMF e não colocaram100% na saúde se perdeu o link com a sociedade para defender o imposto do cheque para a saúde.Folha/UOL: Essa proposta que apareceu de reduzir o juro cobrado pela União dos Estados sobre as dívidas apareceuagora nessa reunião de hoje ou é algo que já existia e se consolidou?Eduardo Campos: Não, essa proposta estava na pauta dos governadores com a presidenta já há uns cinco meses. Hoje é quese falou, o governador do Mato Grosso falou, o Silval [Barbosa, do PMDB], no sentido de vincular: se vier a reduzir [os juros],que esse dinheiro seja bloqueado para uso na saúde.Folha/UOL: Houve um certo consenso em torno dessa proposta para levar ao governo...Eduardo Campos: O presidente Marco Maia disse que iria criar uma comissão para se debater novas fontes de financiamento,não necessariamente criando novos impostos. Pode-se ter recursos no próprio orçamento da União, mecanismos outros definanciamento, que já constem do próprio orçamento da União.Folha/UOL: Quem vai vocalizar agora essa proposta para o Ministério da Fazenda a partir de agora? Ficou alguémdesignado para fazer isso?Eduardo Campos: Eu acredito que a Emenda 29 ela vai ter curso normal, Câmara e Senado, sem se tratar de imposto. Emparalelo a isso, há uma frente nacional da saúde muito articulada, suprapartidária, com gente de grande expressão noparlamento. E com essa ideia do presidente Marco Maia de criar uma comissão, acho que todas essas pessoas, que sejamgovernadores, prefeitos, movimento da saúde pública no Brasil vão ter a oportunidade de trazer uma sugestão como essa quefoi feita.Folha/UOL: O sr. diria que essa hoje é a mais exequível ou não?Eduardo Campos: Acho que essa é a mais exequível, porque não é justo também que os Estados mais pobres do Brasil estejampagando o dobro da Selic ao governo Federal. Quer dizer, o governo federal se financia há 11% e cobre 19% na intermediaçãofinanceira que tem feitos com os Estados.
  • 5. Folha/UOL: Queria voltar ao tema de 2014. Ciro Gomes pertence ao PSB. Ele já foi candidato a presidente duasvezes e continua a ter aspirações. Que papel terá Ciro Gomes em 2014? Ele poderá voltar a ser candidato pelo PSB?Eduardo Campos: Ciro é um grande quadro da política, um talento, alguém com grande capacidade técnica. Um brasileirohonrado, que nos honra muito tê-lo, como ter o governador Cid, no nosso partido nos ajudando a caminhar. Ele terá, sempreque se fizer um debate sobre o Brasil, Ciro terá um papel importante e estratégico dentro do partido e além das fronteiras dopartido.Folha/UOL: Mas como candidato a presidente?Eduardo Campos: Eu acho que hoje é precipitado dizer que vamos ter um candidato a presidente. Nós somos parte de umabase de uma presidenta que pode ir à reeleição. Nós apostamos que ela tenha as condições de ir à reeleição. Na hora em quenós entendermos que o partido deve ter um candidato eu acho que chega a hora de a gente sair do governo e ficar a vontade.Mas neste momento a decisão do partido é muito claramente de apoiar a travessia da presidenta Dilma no seu primeiro instantede governo, ajudar o Brasil e tratar de eleição lá em 2014. Antes é precipitação.Folha/UOL: O seu partido tem alianças regionais, municipais ou estaduais, com outros partidos que são oposição aogoverno federal. Sobretudo com o PSDB. O sr. também tem uma relação amistosa com Aécio Neves [senador peloPSDB-MG]. E Aécio Neves é um dos presidenciáveis do PSDB. O sr. descartaria então, eventualmente em 2014,estar ao lado de Aécio Neves caso ele seja candidato a presidente?Eduardo Campos: Nós já estamos ao lado de Aécio lá em Minas. Em Belo Horizonte em particular estamos do lado de Aécio.Nós e o PT também que nos ajudaram, tanto o Aécio [Neves, senador pelo PSDB-MG], Anastasia [Antonio Anastasia, governadorde Minas pelo PSDB], como Fernando Pimentel [do PT, ex-prefeito de Belo Horizonte] e as lideranças do PT nos ajudaram aeleger o Márcio Lacerda [prefeito de Belo Horizonte, do PSB].Folha/UOL: Mas isso é para trás?Eduardo Campos: Não. É a repetição dessa aliança. E se você for andar em Minas Gerais, tem mais aliança lá no interior do PTcom o PSDB do que com o PSB. Como tem também em outros Estados. No meu Estado, por exemplo, existe esse tipo dealiança.Folha/UOL: Mas... Aécio Neves 2014?Eduardo Campos: 2014 não chegou ainda para a gente estar discutindo 2014 agora. Eu faço parte de um conjunto de forças eAécio, que é meu amigo, de quem fui colega na Câmara, tive oportunidade de votar nele para presidente da Câmara, fazer suacampanha, ele foi um grande presidente da Câmara, que cumpriu os compromissos que assumiu, inclusive com a oposição. Aprópria Comissão de Participação Popular que era sugestão da [deputada Luiza] Erundina [PSB-SP] para ele para apoiá-lo elecumpriu e honrou e a primeira presidenta foi a Erundina. Nós temos uma relação muito boa. Nós somos amigos a despeito dapolítica. Ele hoje está na oposição. Ele está bem na oposição e eu estou bem no governo.Folha/UOL: O PSB, o seu partido, e o sr., se não ajudaram propriamente não atrapalharam nem de longe a criaçãodo PSD, partido que está aí sob o comando do prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, essa nova legenda. Háindicação de que o partido de Kassab formado dentro do Congresso haverá uma aliança PSB-PSD. Isso é um fato já?Eduardo Campos: Não. O processo ainda está acontecendo de consolidação do partido. Eu fui colega do Kassab aqui noCongresso Nacional, temos parcerias do PSD com o PSB em diversos Estados. Além do PSB com o PSD em outros tantos. É fatotambém essa parceria que ele tem com Estados com o próprio PT, em outros com o próprio PSDB.Folha/UOL: Mas poderia ser feito um bloco na Câmara?Eduardo Campos: Não discutimos isso ainda. Não houve esse debate.Folha/UOL: O sr. vê com bons olhos?Eduardo Campos: Esse debate caberá à Câmara fazer. Não cabe a mim...Folha/UOL: Mas como presidente do partido o sr. acha que é um bom aliado?Eduardo Campos: Eu que é um bom aliado. Um bom aliado nos vários Estados será um bom aliado nosso. Mas a dinâmica doParlamento vai cabe às nossas bancadas decidir.Folha/UOL: Uma vez consolidado, o PSB será o 28º partido político brasileiro com registro no TSE. São muitospartidos e as alianças são variadas também. O PSB faz alianças com um arco grande de partidos. Isso não confundea cabeça do eleitor?Eduardo Campos: Olha, na verdade nós temos uma democracia muito recente, Fernando. A gente fica querendo ter o mesmopadrão dos partidos importando de situações completamente distintas da nossa, de países que têm 100 anos, 200 anos deestrutura partidária. Eu acho que a gente já avançou muito para um país que tem hoje o mais largo período... o mais largoperíodo democrático e só faz 22 anos que a gente elege um presidente da República. Veja um jovem de 22 anos. Quando eu
  • 6. tinha 22 anos eu achava que tinha a maior maturidade do mundo. Achava que já tinha acabado minha formação superior,achava que conhecia muita coisa. E hoje eu vejo o quanto eu não conhecia. O quando eu tinha de imaturidade, o quanto eutinha para aprender. Você imagina... A nossa democracia é isso. Nós temos muito que aprender. Eu acho que mais 50 anos. Agente tendo liberdade de expressão, de organização partidária, o povo votando, comendo mais, educando mais, a gente vai terpartidos muito melhores que a gente tem hoje.Folha/UOL: O sr. é do PSB, Partido Socialista Brasileiro, é neto de Miguel Arraes. O PSB tem uma tradição naesquerda do espectro político do Brasil. O sr. se considera um político de esquerda?Eduardo Campos: Me considero. Me considero um político de esquerda, sim. Até porque essa foi a minha formação, minhacaminhada. Agora, o que é que é ser de esquerda hoje? É a mesma coisa que ser de esquerda no início do século passado naUnião Soviética? Não é. Quer dizer, o mundo mudou, a relação de trabalho se alterou. Eu acho que muitas experiências nãoderam certo, outras deixaram um legado, enfim. Nós precisamos compreender as alterações que foram processadas pela ciênciae pela humanidade para compreender o que é ser de esquerda hoje.Folha/UOL: Pré-sal. Qual vai ser a melhor forma de partilha dos recursos do pré-sal e como vai se chegar a esseacordo?Eduardo Campos: Bom senso e equilíbrio.Folha/UOL: Mas é o que está faltando...Eduardo Campos:...Por isso que a gente tem de colocar. Bom senso para compreender que não dá para tirar de quem já temali aquela receita. Ou seja, não dá para você chegar num Estado que tem sua Previdência praticamente lastreada com essesrecursos e dizer assim: "Amanhã você não vai ter". Não é assim. Bom senso para saber que nós vamos poder rasgar contratos.Porque esse é um valor que o Brasil tem consolidado ao longo de governos. O governo Fernando Henrique [Cardoso - 1995-2002] cuidou disso. O governo do presidente Lula [2003-2010] cuidou disso. O governo da presidenta Dilma tem cuidado disso.Folha/UOL: O sr. imagina um acordo próximo ou falta muito ainda?Eduardo Campos: Eu acho que a gente está mais próximo, mas muito mais próximo de um acordo do que no ano passado,quando o calor da eleição esquentou muito o debate...Folha/UOL: A Pernambuco interessa a partilha por igual ou aquela que preserva os Estados produtores?Eduardo Campos: Olha, nós temos de sentar à mesa para fazer um acordo. Eu não posso sentar na mesa para fazer um acordocom você achando que eu vou impor o meu desejo. Para fazer o acordo nós já temos três estágios. O primeiro estágio é o queestá rodando hoje em termos de exploração de petróleo. O outro estágio é aquilo que vai rodar no futuro sobre as novas regras.E aqui no meio está aquilo que já foi concedido, mas não rodou. Tem os três estágios. Já há uma aproximação de acordo sobre oprimeiro estágio. Os Estados entre si e agora tem de chamar a União. Acordar o seguinte: nós não vamos tensionar para tirarnada de quem já tem. Ao mesmo tempo, quem é chamado produtor acorda que no futuro a gente topa uma regra mais paritáriapossível. Ou seja, não é 100% paritária, mas seria quase. Ou seja, todos seriam tratados iguais. Aonde é que está o nó, aonde éque está o problema. O problema é a travessia dos próximos oito anos. Criou-se uma expectativa nos prefeitos, nosgovernadores que entraria algum recurso já no próximo ano. E não tem esse recurso se alguém não abrir mão. A União, quedizia não, já admitiu abrir mão de alguma coisa. Nós [Estados] temos de abrir mão também da pedida também, ou seja, pedirum pouco menos nessa transição. Agora restam uns ajustes para acertar esse tempo de transição e agente evitar que esseprocesso vá para a Justiça. Porque é ruim para a Justiça, vai ser ruim para as partes e acho que será ruim para o Brasil.Folha/UOL: Um cronograma exequível para chegar a esse acordo seria quanto tempo?Eduardo Campos: Até o dia 5 de outubro [de 2011, data pré-marcada para que seja votado o veto presidencial ao projeto jáaprovado pelo Congresso]. Porque já se adiou várias vezes essa votação. Agora o presidente [José] Sarney [do Senado] afirmouque colocará em votação. Se o presidente Sarney colocar em votação o veto aposto pelo Lula ao projeto que dividia tudo, oantigo, o novo e o futuro por igual, se o Senado derrubar o veto vai, na verdade, vai valer essa regra e essa regra, valendo, elaquebraria o Estado do Rio de Janeiro, e municípios, como também o Estado do Espírito Santo. Logo, esses governantes irão àJustiça e terão uma possibilidade, aí é 50% a 50%, pode ser sim ou não, mas terão uma possibilidade enorme de ter umadecisão suspendendo. E aí quando é que se resolve isso? Quem queria 100% vai ter zero.Folha/UOL: Ou seja, tem de ter um acordo antes da votação do veto?Eduardo Campos: Tem que ter um acordo antes, acho que está evoluindo. O ministro Guido [Mantega, da Fazenda] temconversado. Esta semana pararam as conversas um pouco porque ele acompanhou a presidenta nessa ida dela aos EstadosUnidos, mas eu quero crer que a próxima semana será muito animada nesse tema.Folha/UOL: Governador Eduardo Campos, muito obrigado por sua entrevista.Eduardo Campos: Obrigado, FernandFonte:Folha UOL