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Metamorfoses na poesia de Péricles Prade

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  • 1. METAMORFOSES NA POESIA DE PÉRICLES PRADE Mirian de Carvalho
  • 2. São Paulo - 2006
  • 3. © Mirian de Carvalho é marca registrada de Oliveira Rocha - Comércio e Serviços Ltda.Todos os direitos desta edição reservados aOliveira Rocha - Comércio e Serviços Ltda.Rua Sena Madureira, 34CEP 04021-000 - São Paulo - SPe-mail: atendimento@dialetica.com.brFone/Fax (0xx11) 5084-4544www.dialetica.com.brISBN nº 85-89866-04-1Na capa, reproduz-se, em destaque,detalhe de obra de Marola Omartem.Revisão de texto: Viviam Silva MoreiraProjeto (miolo)/Editoração Eletrônica: MarsFotolito da Capa: Duble Express Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Carvalho, Mirian de Metamorfoses na poesia de Péricles Prade / Mirian de Carvalho. -- São Paulo : Quaisquer, 2006. Bibliografia. ISBN 85-89866-04-1 1. Crítica literária 2. Prade, Péricles, 1942- - Poesia - Crítica e interpretação I. Título. 06-3502 CDD-869.9109 Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia : Literatura brasileira : História e crítica 869.9109
  • 4. Foi nutrido sem grão, sem transtorno; só com a possibilidade de serE esta deu-lhe tanta força e poder (...). Rilke
  • 5. 7 Índice Introdução Metamorfoses do Unicórnio poético, 9 1 Das serpentes alegres à errância do Unicórnio, 14 1.1. A poética das metamorfoses, 14 1.2. A questão técnico-poética na poesia de Prade, 18 2 Panbarroco e endobarroco, 24 2.1. Elementos “barrocos” na escrita hodierna, 242.2. O fusionismo e as instâncias ideativas na poética de Prade, 29 3 Eterno barroco, barroco e endobarroco, 33 3.1. O “eterno barroco” na filosofia de Eugenio d’Ors, 33 3.2. Digressões e reflexões sobre o “eterno barroco”, 34 3.3. O barroco cíclico e sua transposição à literatura, 40 4 A amplitude do “barroco” literário, 44 4.1. Os critérios de Hatzfeld na abordagem do barroco, 44 4.2. O barroco no Brasil: um endobarroco, 47 5 O universo da imaginação na poética das metamorfoses, 54 5.1. A desconstrução do mito, 54 5.2. A imaginação e o espaço poético, 59 6 O tempo na poética das metamorfoses, 63 6.1. O instante poético e o lugar poético, 63 6.2. O carpe diem, 67 7 A imaginação poética e as variações dos elementos, 76 7.1. Variações da água, 76 7.2. Variações do fogo, 82
  • 6. 8 Metamorfoses na Poesia de Péricles Prade 8 Contemplações do Unicórnio, 86 8.1. O Unicórnio da chama-em-forma-de-corno, 86 8.2. Contemplações do instante, 91 9 Do binarismo alquímico às metamorfoses poéticas, 95 9.1. O Unicórnio poético, 95 9.2. Os nove espelhos do anel de Mercúrio, 100 10 A superação do Uno e do múltiplo, 105 10.1. A desconstrução do Uno na poética do Unicórnio, 105 10.2. Do amor ao Unicórnio, 110 10.3. Proposição, 113 11 Invocação, ofertório e narrativa, 115 11.1. Invocação, 115 11.2. Ofertório, 118 11.3. Narrativa, 120 Conclusão O código dos não-ditos, 127 Epílogo, 127 A superação das dualidades, 130 Alcance social da poética do Unicórnio, 133 Referências bibliográficas e obras consultadas, 137
  • 7. 9 Introdução Metamorfoses do Unicórnio Poético Rinoceronte. Búfalo. Peixe. Escaravelho. Animal das metamorfo-ses, ao Unicórnio pertencem diversos corpos. Acompanhando-lhe asvariações do corpo, insurgem-se variações do nome: Mercúrio. K’i-Lin.Og. Adão. Sofia. Do Unicórnio sabem-se muitas diferenças. Qualidades.Estados anímicos. E andanças. Errante, ele muda de lugar e transforma-se. Renasce de si mesmo. Renasce em outras terras. Renasce diverso.Benfazejo. Primogênito. Domado. Maléfico (muito raramente). Consa-grado. Perfeito. Em fuga. Ao Unicórnio - inúmeras atribuições. Ao Uni-córnio do chifre-em-forma-de-chama cabem leituras e leituras. Esta queaqui se inicia faz-se por adesão às imagens deflagradas pelas metamor-foses desse animal encantado. E, seguindo-lhe os movimentos, ante asvariações do corpo, o chifre único desmente idéia e atributos da unida-de. Chama. Vulva. Falo. Aura. Elixir. O solitário chifre não se reportaao Uno. Referenda o diverso e a transformação - em desvio do absoluto. Multiforme, o Unicórnio visita o mundo. Atravessa continentes.Rios. Mares. Terras. Lagos. Em errância, ele se transforma. Luminoso.Fluido. Telúrico. E etéreo. O Unicórnio integra-se e completa-se noselementos primordiais e oníricos da cosmogonia remota. Encarnando avida do elemento que o substancia - e transforma - o eu poético exaltano Unicórnio o chifre em forma de chama. Exalta o fogo. E as qualida-des do fogo - substância primeira que ilumina o fabuloso animal. Mas,igualmente, a poesia comemora a água que acolhe o Unicórnio. No per-curso desse animal encantado, a ele se revela sua origem metamórfica,refletida e realizada no espelho d’água - na matéria que o acolhe entreambivalências e paradoxos. Eis na poesia de Péricles Prade a visão pri-meira das Variações sobre o Unicórnio. Atravessando os séculos, o Unicórnio surge e ressurge nos mitose na poesia dos povos. Igualmente metamórfico no ideário alquímico, erepresentado nas lendas orientais e ocidentais através de outros seresquiméricos, ao Unicórnio atribuem-se poderes benfazejos relacionadosao chifre único: “órgão” e “objeto” simbólico. Tal como nos relatos dosestudiosos que visitaram as lendas, há Unicórnios em forma de cavalo,peixe, asno, escaravelho, pássaro, dentre inúmeras outras configurações.Através dos tempos, o Unicórnio integrou-se à simbologia do paganis-mo e à do cristianismo, identificando-se com a divindade em várias ins-
  • 8. 10 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradetâncias. Das figurações do Cristo ao lápis primordial, o Unicórnio tran-sita pelos símbolos da liturgia religiosa. E percorre os símbolos da tran-substanciação alquímica, simbolizando Mercúrio. Para compor versão poética da fábula e da Alquimia, Prade percor-reu estórias do Unicórnio. Percorreu figurações no campo das Artes Plás-ticas, que aparecem referidas em alguns poemas. E teceu articulaçõesdesse animal com outros seres do bestiário mítico. Visitando a obra li-terária de Prade, seja na ficção, seja na poesia, encontramos o Unicór-nio inserido no rol dos animais fantásticos que percorrem o imagináriodo autor. Nesse percurso pelo encantatório, “filho de uma abelha gigan-te”, ele surge na obra Alçapão para Gigantes, como tema do conto “OUnicórnio Voador”. Imagem da fábula transformada pelo poético, o fa-buloso animal reaparece na poesia de Prade, inscrevendo-se em diferen-tes poemas, e ressurge como imagem fundamental na obra Em Formade Chama: Variações sobre o Unicórnio, centralizada neste ensaio, apartir das imagens e do logos em desvio do signo lingüístico e da tradi-ção cultural. Mas constituiria lugar comum afirmar que a poesia de Prade reve-la-se desvio do signo lingüístico e da cultura enquanto tradição, por serda natureza do poético o desviar-se do discurso e da verossimilhança.Partindo das metamorfoses do Unicórnio, nossa meta consistiu em lo-calizar o diferencial na poética de Prade. Buscando esse diferencial,detectamos ordenações semânticas, que, intrínsecas à imagística, se exa-cerbam na obra Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, emsendo próprias da poesia desse autor desde os primeiros poemas. Porém,transcendendo à mera descrição de ordem estilística, localizamos nesseviés imagético-semântico o ponto-chave do desvio das amarras do sig-no e da cultura, a partir da dinâmica das imagens marcadas por fortescontrastes: contrastes ideativos que, reunindo oposições e diferenças, selançam à desconstrução de antíteses, a partir do trabalho da imaginaçãodando qualidades aos elementos característicos da poesia de Prade.Conduzindo figurações de cunho fantástico, na poesia de Prade as ima-gens transcendem aos sentidos do símile e da metáfora. Reunindo opostos e diferenças, na poética de Prade as imagensassumem paradoxos, e algumas vezes tangenciam oximoros, criandoplurivocidade que desmonta os indicativos antitéticos de cunho binário.E desfaz a demarcação territorial do absoluto. Desse modo, criam-sejogos de palavras e de idéias sugerindo latência semântica a ser desve-lada, predominantemente nos não-ditos, ou seja, a ser desvelada nosendossentidos pertinentes às tensões imagísticas e ao logos: a “palavra”
  • 9. Mirian de Carvalho 11primeira “dizendo” a experiência primeira. Desviando-se de modelos,essas tensões se intensificam na poética do Unicórnio a partir das varia-ções que o concebem diverso. Diverso de corpo e alma. Diverso de nomee chama. Mas, nas Variações que assim o envolvem, o Unicórnio existetambém em estados indiferenciados. Mostra-se transitivo, ao fluxo dasmetamorfoses. Mostra-se transitivo no âmago das tensões imagísticas.Essa dinâmica é dita por um logos que referenda a base imagético-se-mântica da poesia de Prade na linha de um Endobarroco. Porém, nãose trata de retomada do Barroco através de um Neobarroco. Nem de um“eterno barroco” de expressão universal, tal como concebido pelo pen-samento de Eugenio d’Ors: autor que, no plano das Artes Plásticas, trans-porta o “barroco” à Pré-história, inclusive. Neste ensaio, o nome Endobarroco compreende traços comuns àLiteratura e às Artes, abrangendo características subjacentes a estratosimagísticos e ideativos, que, passando por transformações e períodosdiversos, se insurgem nos dias de hoje. Na poesia, trata-se da convivên-cia de oposições e diferenças afetas a palavras e idéias, deixando trans-parecer tensões intrínsecas ao nascedouro das imagens, no plano daimaginação poética. Trata-se de dinâmica refletida no logos, que nascejunto à imagística, e subsume contrastes no plano do dizer. Porém, nes-sa fusão, o conceito de Endobarroco refere-se a uma dinâmica perten-cente não só às imagens e à semântica, mas extensiva a estratos morfos-sintáticos e sonoros, caracterizados por oposições e/ou diferenças. Abar-cando e insuflando ambivalências, paradoxos e oximoros, dentre outraspossibilidades imagísticas, o Endobarroco revela como característicabásica o desvio do princípio de identidade, afluindo na instância ima-gético-semântica da poesia. Caracterizando uma poética desconstruto-ra de modelos, em certo sentido esse desvio deixa transparecer insurgên-cia de pensamento divergente quanto ao plano sociocultural. Ao Endobarroco relacionam-se jogos de idéias e palavras, ou seja,entrelace do pensar e do dizer, articulados predominantemente pela ima-ginação - origem e força movente das instâncias imagético-semânticasna poesia. Diferenciando-se em escalas e estágios diversos, o Endobar-roco congrega traços que se insurgem desde os alvores da Cultura Mo-derna e chegam aos nossos dias, repetimos, traduzindo-se em manifes-tações de um “barroco” gerundivo - de um “barroco” em processo. Nãoestritamente estilístico. Não fixado no Seiscentismo. E com lastro sin-gular na Literatura Brasileira. À definição do Endobarroco partimos dosestudos de Ivan Cavalcanti Proença, que identificou elementos singula-res nas Literaturas Brasileira e Portuguesa, e metodizou técnicas de uma
  • 10. 12 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeescrita característica, a que denominou panbarroca, no âmbito da pro-dução literária hodierna. A partir das observações desse autor, realiza-mos estudos abrangentes das Artes Plásticas e da Poesia, com base nostextos de vários teóricos que se debruçaram sobre questões atinentes aoBarroco, seja enquanto mundivisão, seja enquanto estilo, destacando-sedentre eles: Eugenio d’Ors, Heinrich Wölfflin e Helmut Hatzfeld. Mas ao abordarmos o Endobarroco na poesia de Prade, tangencia-mos outras questões. Dando continuidade à fundamentação dos argu-mentos aqui apresentados, recorremos a vários outros autores, além dosjá mencionados, cujas idéias traduzem neste ensaio base filosófico-epis-temológica, adequando-se a temáticas e questões próprias da poética dePrade. Para compreender sua poética como desvio do discurso, recor-remos ao pensamento de Jacques Derrida, visitando a noção de descons-trução. Mas interpretando-a através de desdobramentos. E, para tratar aquestão da poesia como desvio da cultura, recorremos à filosofia deGaston Bachelard, igualmente através de desdobramentos. Na Poéticabachelardiana, enfatizamos as noções de matéria, imagem, imaginação,espaço e tempo poéticos. Considerando essas instâncias, localizamos napoesia de Prade tensões endobarrocas a partir das matérias que lhes ser-vem de estofo imaginativo: o fogo e a água. Intensificando-se nas trans-formações do Unicórnio, esses elementos dinamizam imagens que setangenciam através do diverso, enfatizando variações do corpo e donome do fabuloso animal. Outros nomes. Outros corpos. Outros senti-dos. Tais variações podem chegar à reversibilidade, tal como nas trans-formações do fogo e da água - que se correspondem. Que se misturam.Que se transubstanciam, transubstanciando o Unicórnio em outro. Con-cebendo-o em estados indiferenciados. E intermediários. Nessas Variações, ressalte-se: reluzente corno em forma de chamacoroa a cabeça do Unicórnio. E haverá mobilidade maior que a da cha-ma transformando-se ante o olhar? Transformando-se no tempo? Haverátransformação maior que a do fogo movendo-se - para nascer de si mes-mo? Para nascer outro? Entre metamorfoses poéticas, o chifre únicoperde seus contornos precisos. Refletindo espaços metamórficos, mate-rial e ideativamente a unidade se desfaz. Em sendo variacional, o soli-tário chifre não encarna qualidades do Uno. Do ponto de vista do gênero, guardando afinidades com algunstrabalhos do autor, a obra Em Forma de Chama: Variações sobre o Uni-córnio caracteriza-se por implicações épicas, desvelando episódios davida desse animal encantado, ao fluxo das metamorfoses. Por caber ametáfora, denominamos poética das metamorfoses às singularidades
  • 11. Mirian de Carvalho 13técnico-poéticas intrínsecas à poesia de Prade. Tais singularidades ca-racterizam-se pela desconstrução da estrutura do signo e pelo desvio datradição, através de recursos imagísticos com acentos hiperbólicos, de-senraizados de qualquer resquício de verossimilhança externa. Nas trans-formações do Unicórnio há convergências e desdobramentos do corpoe do nome desse animal fantástico, desfazendo figurações duais, pormeio de uma perspectiva ideativa que transcende à bipolaridade do Unoe do múltiplo, na passagem da lenda à poesia. Nessa passagem, o poetadesenvolve jogos de palavras e de idéias confluindo em diferenças, quemostram o Unicórnio em escorço e/ou sob visão prismática. Lançando-se à desconstrução da antítese Uno/múltiplo nas figurações do Unicór-nio, bem como tangenciando a desconstrução de outras antíteses, a poe-sia de Prade induz o leitor à apreensão de estrato semântico que desmon-ta a raiz do pensamento ancorado na razão como critério da verdade.Trata-se então de ler os não-ditos. E perscrutá-los à escuta das metamor-foses, conduzindo o eu poético à Cidade do Homem. Mas na obra de Prade, o poético percorre caminhos do espaço e dotempo. À sincronia das transformações do Unicórnio trazido ao instan-te poético, o autor concebe o fabuloso animal na instância do espaçoonírico, inaugurando lugares intrínsecos à poesia. Lugares de acolhi-mento do Unicórnio em estado de amorosidade. E no tempo das trans-formações. E, em esquiva da razão absoluta, o eu poético abandona otempo cronológico - ou seja, o tempo do discurso e das sucessões - paralançar-se ao tempo da poesia. Temporalidade imagística. Instante emfuga. Aos caminhos do Unicórnio, a temporalidade referenda o toposcarpe diem. Na poesia de Prade, o carpe diem desvela-se tempo do “ago-ra”, atualizando-se enquanto tempo das imagens e do logos. E fazendo-se tempo dos desdobramentos intuídos na poética das metamorfoses.Realizando Variações sobre o Unicórnio, o autor inaugura semânticadesviante da narrativa lendária, ao apreender o fabuloso ser através deamoroso sentimento. Para detê-lo na trama do poema, Prade visitou onascedouro do Unicórnio, ou seja, a imaginação que o traz à vida trans-formando-se. Iluminado pela chama, o Unicórnio adquire propriedadesda chama. Que sempre renasce outra. Quimérico, o Unicórnio revela-se animal das nuvens. Cidadão domundo, o Unicórnio visita os quatro cantos da Terra. Encantado e hu-mano, habita os elementos. Cavalga pelo Universo. Desviando-se doUno, o fabuloso ser vive encantatório tempo poético. Vive o instanteparadoxal. Chama. Vida. Transformação. Vive o intimismo do eu entre-laçando-se ao kósmos.
  • 12. 14 1 - Das Serpentes Alegres à Errância do Unicórnio Perto do laranjal as serpentes tranqüilas voltam o rosto para este ser que se alonga com seus pés mordidos na noite1. Convertido em pomba branca giro agora & sempre à sombra das coisas do mundo21.1. A Poética das Metamorfoses Situados em obras de períodos distintos, os versos que compõemas duas epígrafes deste capítulo assinalam a presença do encantatório naobra de Péricles Prade. Nascedouro das serpentes alongando-se nos pri-meiros versos acima mencionados, o encantatório percorre outros tra-balhos do poeta nas décadas de 60, 70, 80 e 90, e conduz o leitor à obraEm Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio. Na segunda epígra-fe, pertencente à obra nomeada, encontramos o fabuloso animal conver-tido em pomba branca, conduzido por asas na simbologia do EspíritoSanto. E, no referido trabalho, captando-lhe a existência transforma-cional, o autor segue rastro e transformações do fabuloso animal de chi-fre único, que, entre constantes variações, salta do mito para a poesia,convertendo-se em touro sagrado, escaravelho, divindade desmembra-da, seguindo o fluxo de tantas e inúmeras outras mutações, que subsu-mem o indiferenciado e as qualidades das substâncias gerando imagens.Refletindo resíduos de fábula e ironia, a poesia de Prade traz ao leitorum Unicórnio errante, capturado nas malhas do poético. Eis que o Uni-córnio encarna a fábula da solidão. E a fábula do tempo poético. Eclodindo nos idos de 1960, já àquela época a poesia de Praderevelava-se original, lançando-se ao que chamamos poética das meta-morfoses: trata-se de veio poético que, através de concepção hiperbóli-ca da imagem, adere ao encantatório em esquiva do princípio de identi-dade. Nessa adesão, realiza-se um logos desviante da armadura do sig-no lingüístico e da tradição cultural. Desviando-se da linearidade dodiscurso, o poeta distancia-se da tradição, por meio de imagística desti-1 PRADE, Péricles. “Perto do Laranjal”. Este Interior de Serpentes Alegres. Florianó- polis: Roteiro, 1963, p. 11.2 PRADE, Péricles. “Pomba Alquímica”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio. São Paulo: Quaisquer, 2005, p. 12.
  • 13. Mirian de Carvalho 15tuída de qualquer verossimilhança externa, transcendendo aos sentidosda metáfora e da similitude. Ultrapassando os recursos imagéticos usuais,Prade nega o discurso, bem como o espaço e o tempo atrelados à obje-tividade e à medida, para tangenciar a dimensão da experiência primei-ra captada pelas metamorfoses, recriando o mundo a partir da matériaimaginada. Originárias da imaginação poética, as metamorfoses se al-çam ao plano do dizer e do pensar, não afeitos à forma ou à estruturalingüística, nem à tradição cultural. Distanciando-se do discurso e datradição, por fim o poeta desvia-se do símbolo, para demarcar seu dife-rencial poético nas circunscrições do paradoxo. Partindo do princípio de que a obra poética requer leitura e análi-se concernentes a valores intrínsecos, ao visitar a poesia de Prade tan-genciamos questões afetas à imagem e à linguagem compreendidascomo instâncias criadas pela imaginação. Para encaminhar a questão quenorteia este ensaio, ou seja, para estabelecer o diferencial instaurado pelapoética das metamorfoses na obra Em Forma de Chama: Variações so-bre o Unicórnio, rastreamos o trabalho do poeta desde os primeiros ver-sos, buscando uma realidade intrínseca à sua poesia, realidade essa quese inicia nas circunscrições da imaginação da matéria3. Nessa busca,chegamos à dinâmica da imaginação criando imagens a partir dos ele-mentos fundadores da poesia de Prade: o fogo e a água. Mas, em sendopoéticas, as imagens surgem desvinculadas das referências objetivas damatéria, tornando-se relevantes para o leitor, enquanto sentido originá-rio de algo captado pela primeira vez, e relevantes para o poeta, que asacolheu no nascedouro e as engendrou no logos poético. As imagens poéticas não preenchem lacunas no teatro do mundo.E a poesia de Prade encarna o próprio teatro do mundo - lugar dos acon-tecimentos vividos pela primeira vez. Lugar dos despertares vividos antea solidão primeva, quando se revelam sentidos originários das coisaspulsantes antes do verbo. Nas Variações sobre o Unicórnio, criam-sesentidos da solitude primeira. A solidão veste o Unicórnio. Sozinho, elerealiza travessias. Ante a solitude, ele se tinge de múltiplo. Mas renascediverso. Em sendo diversidade, ele atua na imaginação, desmontando aantítese Uno/múltiplo. Em sendo logos, ele se mostra chama. E olha-senas águas noturnas. Como se não houvesse solidão. E finge que é soli-dão, a solidão que deveras o acompanha. Mas, estado anímico do eu3 Questão que se encontra presente nas chamadas Poéticas de Bachelard: obras dedi- cadas ao estudo da imaginação dos quatro elementos. Ver Referências Bibliográfi- cas.
  • 14. 16 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradepoético, a solidão referenda desígnio de solidariedade. Nesse encontrocom a solidão, o Unicórnio encontra o tempo. E, à companhia do desa-companhado, o tempo reveste-se do carpe diem - a realidade possívelante o desvio do absoluto. Viver o “agora” torna-se máxima a impulsio-nar as metamorfoses do Unicórnio. Na poética de Prade, do possível sefaz a realidade. Da água chegamos ao fogo. E vice-versa. As antítesesque compreendem a água e o fogo desconstroem-se nas variações des-se fabuloso animal. Do fogo à água desvelam-se oposições. Diferenças.Mas não há binarismo. Nem exclusões. Trazendo ao leitor um vasto universo de seres imaginários e crian-do linguagem para designar seus nomes e feitos, o poeta cria uma reali-dade singular - sem a mediação do conceito e/ou da linguagem discur-siva. Na poesia de Prade, o dizer surge realizante. Realizante de seresde imagem. Diversos dos seres de razão concebidos na esfera abstrata -afeta ao plano metafísico e/ou afeta à episteme -, os seres de imagempossuem colorido. Voz. Textura. E outras qualidades sensíveis. Animi-zam-se. Personificam-se. Encarnando qualidades sensíveis, os seresimagísticos são regidos por um tempo intrínseco à poesia e habitam lu-gares propícios à sua existência - lugares criados pela imaginação4 -,dando outra ordem ao mundo e ao kósmos. Substancializando e dessubs-tancializando a matéria. Criando imagens que implicam espaços e tem-pos poéticos, a poesia funda semântica alheia aos campos da presençae da ausência, ao desatrelar-se do binarismo que caminha com a lingua-gem discursiva. Por enraizar-se em jogos imagéticos, à abordagem da poesia dePrade não caberia método ancorado em princípio atrelado às causalida-des formal e eficiente, visto que, ao elaborar as metamorfoses do Uni-córnio, o poeta transporta ao plano lúdico as instâncias do Uno e domúltiplo, desencadeando paradoxos. Desviando-se da repetição, Pradetraz as imagens e a linguagem ao campo das diferenças. Mas o percur-so pelas diferenças torna-se roteiro da solitude. Desviando-se do Uno,a solidão apresenta-se como dúvida. Atravessa o mito. Consubstancia-se nas várias imagens do Unicórnio. Apresenta-se como possibilidade.Em sendo possibilidade, a solidão revela-se percurso. Seguindo a trilhadas metamorfoses, o Unicórnio desgarra-se da lenda, para renascer ima-4 A questão do tempo e do espaço na poesia foi tratada neste trabalho a partir das idéias bachelardianas desenvolvidas nos escritos do filósofo sobre a imaginação poética, conforme Referências Bibliográficas constantes deste trabalho.
  • 15. Mirian de Carvalho 17gem primeira. E possibilidade do logos, ante solidão da experiência pri-meira. Ao surgir como realidade poética, esse animal não referenda o jogoilusório do par ausente/presente, jogo esse que, ao longo da história dopensamento ocidental, quase sempre se norteou por um recorte afeito auma razão que desconstrói “todas as significações que brotam da signi-ficação do logos”, como observa Derrida5, ao apontar para a escritacomo desconstrução das instâncias do logos afeto ao primeiro referen-te. Tirando ilações dessa afirmativa, acrescentamos: se concebido esselogos como existência primeira, o discurso pode ser considerado afas-tamento da experiência originária. Como conseqüência desse fenôme-no, localizam-se no discurso lacunas aderentes ao signo lingüístico, umavez que a noção de signo, ao mesmo tempo em que implica separaçãodo significante e do significado, implica também convenção entre am-bos. Sob esse prisma, havendo separação e convenção no plano do sig-nificado, tal circunstância posiciona o signo em distanciamento do mun-do sensível, distância que maior e mais intensa se faz com relação aoencantatório - acessível somente à linguagem poética. Habitando espaços e tempos quiméricos, na poesia de Prade o eupoético desconstrói o signo. Mas o termo desconstrução, ainda que sereferindo ao texto de Derrida, surge neste ensaio em acepção diversa.Ganha sentido de ontogênese afeta às imagens e ao logos, desviando-se do estabelecido e do absoluto. Nesse sentido, a desconstrução indicadiferença e diferencial instaurados pela poesia. Diferença e diferencialregidos pelo trabalho da imaginação posicionando-se como desvio, ouesquiva, ou desmonte, ou transgressão, porque, negando-se à repetição,a poesia de Prade se desvia do discurso, da cultura e do mundo objeti-vo, através do encantatório. Mas, de modo paradoxal, dirige-se aos mean-dros da urbe. Assim sendo, neste escrito o termo desconstrução relacio-na-se aos processos criativos na poética das metamorfoses, produzindoas imagens e o logos, em esquiva do estabelecido. Na poesia de Prade, as desconstruções tangenciam a origem dasimagens e do logos. Em esquiva do plano do conceito, essas descons-truções vão à raiz da experiência primeira. Por tratar-se de um logosaderente à imagística, reportamo-nos às imagens desde as sensações,quando, nos poemas, os estratos imagético-semânticos deixam transpa-5 Gramatologia. Trad. de Miriam Chnaiderman e Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Perspectiva, 2004, p. 15.
  • 16. 18 Metamorfoses na Poesia de Péricles Praderecer movimentos da imaginação trabalhando a matéria. Em movimen-to inventivo, a poesia de Prade desvia-se do discurso para acolher o lu-gar e o tempo do logos originário. Para receber o logos dizente dos fe-nômenos poéticos, traduzindo-se em estados anímicos. Mas não se tra-ta de psicologismo. Trata-se de sentimentos intrínsecos à poesia. Senti-mentos que nascem nas propriedades e qualidades da matéria transfor-mada pelo poético. E fluem - tal como se fossem nossos sentimentos. Em errância, o Unicórnio se faz acompanhar de sentimentos e es-tados anímicos advindos das impressões das substâncias originárias. Aofogo, a luminosidade. À água, o intimismo. Ao encontro do fogo e daágua, a solidão. O amor. O difuso. Os estados indiferenciados. As me-tamorfoses. Com vida imagética, a solidão do Unicórnio não significasolidão. Às diversas atribuições do solitário osso do Unicórnio, a soli-tude se transforma. Ganha poderes de doação. Nos limites e desdobra-mentos do chifre único transformado em chama, ocorrem jogos imagé-ticos. Aos efeitos lúdicos das idéias e palavras, nesse fabuloso animalemergem variações do solitário chifre. Fogo de uma chama benfazeja,nesse órgão e objeto de variações, a solidão pulsa. Ilumina-se. Ilumina-da, oferece ao eu poético a ambivalência que lhe sustenta a vida, nessemovimento do signo desconstruindo-se. Na poética do Unicórnio a so-litude adere a outros sentidos. Substancializa-se. Transforma-se em ou-tras imagens a serem pronunciadas. Ou mantidas em silêncio pelo lo-gos poético. Palavra primordial. Tangenciando o encantatório e o fantás-tico, a poética das metamorfoses revela singularidades técnicas e poéti-cas no trabalho de Prade.1.2. A Questão Técnico-poética na Poesia de Prade Seguindo o rumo do Unicórnio, das serpentes alegres, das coisas,das paisagens e interiores, que se animizam ou personificam nos versosde Prade, encontramos um verdadeiro universo de seres fantásticos per-correndo sua poesia. Inseridos na imagística do poeta, em ambiênciaonírica esses seres são ditos pelo logos, que conduz elementos tensio-nais, desconstruindo antíteses e ressaltando paradoxos afetos às diferen-ças e ao diferencial técnico e poético na obra do autor. Quanto às sin-gularidades técnico-poéticas na obra de Prade, seus comentaristas regis-tram diretrizes e enfoques diversos entre si, mencionando, por exemplo,vínculos com o Expressionismo, com o Surrealismo e com o Barroco.Atendo-nos à poesia de Prade, ao refletir sobre tais liames, identifica-mos insurgência de traços que se negam às técnicas expressionistas esurrealistas. Quanto aos vínculos barrocos, observe-se, eles existem
  • 17. Mirian de Carvalho 19numa acepção própria. Conforme o mencionado, na obra de Prade apoética das metamorfoses indica relação imagético-semântica e outrasimplicações que envolvem a noção de Endobarroco, tal como definidaneste ensaio. Desse modo, no curso da poética das metamorfoses, não há, napoesia de Prade, liames afetos à escrita expressionista, que se define,dentre outras características, por marcantes estruturas de subordinação,o que não ocorre na poética do autor. Caracterizando-se, salvo rarasexceções, por escrita ordenadamente caótica, a poesia de Prade revelaausência de subordinações e subsume outras origens. Observe-se aindaque, no bojo das técnicas expressionistas, as imagens caminham pelametáfora, com resquícios de verossimilhança externa, acrescentamos,enquanto na poesia de Prade os recursos imagéticos enveredam peloencantatório. Por outro lado, alguns recursos morfossintáticos, tais comoanáforas, paralelismos, refrão - comuns aos procedimentos expressio-nistas6 -, não se mostram numericamente suficientes para assim carac-terizar a poesia de Prade. Quanto à interpretação do mundo, nos textosexpressionistas quase sempre se percebe posicionamento social, de certaforma particularizado. De modo diverso, na poesia desse autor a adesãoà problemática social não se particulariza, estende-se a todo um povo7.E, acrescentamos, realizando-se pelos não-ditos, volta-se para visão daexistência como questionamento dos limites da vida e do Homem. Comoquestionamento dos limites que se impõem à liberdade, no sentido delivre-arbítrio, bem como no sentido de atuação do animal político. Sob esse prisma, a crítica à sociedade e às convenções viabiliza-se pelas imagens desviando-se da cultura, através do logos esquivando-se do signo e por meio da desconstrução dos dados objetivos e/ou dasconvenções na esfera social, enfocados sob prisma encantatório. Acres-cente-se a esse movimento a desconstrução da subjetividade centrada emsi mesma, a dar outra ordem ao mundo. Assim sendo, Prade não se lan-ça ao psicologismo, tal como este se relaciona às técnicas da escritaexpressionista hoje, como herança do Expressionismo8. Ressalte-se que6 Mencionamos aqui algumas observações de Proença, quanto às estruturas de subor- dinação e quanto aos recursos morfossintáticos, na escrita expressionista hodierna (notas de aulas).7 GIUDICE, Maria del. Realismo Simbolico e Surrealismo Paradossale. In FIGUEI- REDO, Guilherme e PRADE, Péricles. Palermo: Italo-Latino-Americana, 1980, p. 35.8 COUTINHO, Afrânio. Introdução à Literatura no Brasil. 8ª ed. Rio de Janeiro: Ci- vilização Brasileira, 1976, p. 241.
  • 18. 20 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradena poética das metamorfoses, a bem dizer, não há subjetividade em opo-sição à objetividade. As duas esferas ultrapassam-se, em busca de umpensamento aberto a outras possibilidades poéticas e lógicas, sem per-der de vista o mundo. Sem arredar o pé do chão, para reunir o quiméri-co e o corpo. Com visão aguçada dirigindo-se à realidade, no poema“Viagem do Enforcado além da Corda”9, que alude ao caso WladimirHerzog, o poeta não se prendeu aos fatos de modo descritivo ou panfle-tário: “verifica-se que Péricles Prade se esquivou brilhantemente de to-das as tentações à grandiloqüência e à retórica, tão freqüentes no trata-mento dessa temática”10. Por outro lado, acentua Willer, o tema do en-forcamento aparece em obras ficcionais anteriores, imbricado em simbo-logias diversas11 - o que não exclui de seu trabalho a dimensão social -,não se perdendo ele da realidade nem da consciência política afetas aoacontecimento, ao universalizar a referida temática, inserindo-a comdestaque em sua poesia. No trabalho de Prade, o único traço que poderia rememorar pro-cedimentos expressionistas seria a presença das antíteses, simbolizan-do contrastes entre luz e sombra, e acentuando oposições. Mas lembre-mo-nos de que na poética das metamorfoses as antíteses se descons-troem, desmontando o discurso e criando referentes de natureza poéti-ca. Quanto aos teóricos que qualificam a obra de Prade como surrealis-ta, talvez essa observação se deva às referências ao mito e a seus con-gêneres constantes da poesia desse autor, bem como à presença do fan-tástico inserindo-se em sua imagística. Mas a poesia de Prade não se co-aduna com as técnicas surrealistas. Ainda que, sob os aspectos analíti-co e interpretativo, tenhamos enfatizado neste ensaio a imagística e o lo-gos, em sentido genérico não se faz possível, com relação à poesia, umaleitura que se afaste totalmente das questões morfológicas, bem comonão se faz possível uma análise que ignore a interação dos traços semân-ticos e imagísticos que, na poesia do autor, marcam um diferencial téc-nico-poético não pertinente ao Surrealismo. Para refletir sobre o veiosurrealista na poética das metamorfoses, iniciamos por um argumentoque, embora se refira à ficção, julgamos adequado ao campo da poéti-9 In PRADE, Péricles. Os Faróis Invisíveis. São Paulo: Massao Ohno, 1980, pp. 9-15.10 WILLER, Cláudio. “Posfácio”. In PRADE, Péricles. Os Faróis Invisíveis. São Pau- lo: Massao Ohno, 1980, p. 49.11 Idem.12 RONALD, C. “A Aventura Criadora de Péricles Prade” (Prefácio). In PRADE, Péri- cles. Os Milagres do Cão Jerônimo. 5ª ed. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1999, p. 11.
  • 19. Mirian de Carvalho 21ca, ao observar-se que Prade “não automatizou a linguagem”12. Sabemosque no Surrealismo, e entre os que adotaram técnicas surrealistas emmomentos posteriores, a escrita automática não é uma regra. Mas há umpressuposto que se relaciona à escrita surrealista. Seja ela automática ounão, no tocante à captação e ao registro dos temas e motivos, no Surrea-lismo a escrita deixa transparecer recorrência ao irracionalismo. Assim sendo, considerando-se aspectos imagísticos e semânticosadvindos do fazer literário, observamos que a escrita surrealista relacio-na-se a sintaxes que apresentam disjunções próprias dos estados aními-cos puros, numa tentativa de apreendê-los, tal como ocorreriam no ho-mem primitivo, na loucura, no esoterismo, ou em instâncias similares,através de registros inconscientes. Realizando ou não escrita automáti-ca, os poetas surrealistas tendem a registros que se opõem à razão cog-noscitiva13, tendência não verificada na poesia de Prade. Observe-seque em sua poética a dimensão cognoscitiva ganha outros rumos, quese traduzem em pensamento divergente, deflagrando estratos ideativos.Corroborando esse dado, verificamos acurado trabalho na poesia dePrade, trabalho esse que se relaciona a técnicas não calcadas no aleató-rio e/ou no acaso captando fluxos mentais próprios do registro incons-ciente. Relembremos que nos alvores do Surrealismo, assim como emperíodos posteriores, alguns poetas se lançaram à captação direta dopsiquismo inconsciente ou subconsciente, numa prática que se traduziana desordenação ideativa e sintática do poema. Nessa circunstância, comantecedentes dadaístas, devem ser mencionados casos de recorrência aestados mentais livres das amarras sociais e de outras convenções, per-mitindo criações coletivas, tal como a famosa experiência que gerou “lecadavre exquis”: técnica de trabalho coletivo em que vários autores es-creviam ou desenhavam algo num pedaço de papel, sem saber o que osoutros haviam registrado14, cujo exemplo mais conhecido registra o es-crito: “Le cadavre exquis boira le vin nouveau.” Prade tangencia o nonsense. Sua poesia alcança as paragens doonirismo. Porém, em seus versos tais instâncias diversificam-se entreironia, sátira e até mesmo em incursões burlescas, que, entretanto, nãose revelam antíteses da razão, mas apenas se esquivam de uma “certarazão”, que se assume antítese do poético. Se o fantástico demarca pon-tos nodais na poesia de Prade, note-se, porém, que, não restrito ao Sur-13 DUROZOI, Gerard; LECHERBONNIER. Le Surréalisme. Paris: Larousse, 1972, p. 12.14 Ibidem, p. 122.
  • 20. 22 Metamorfoses na Poesia de Péricles Praderealismo, o material onírico e o devaneio15 compõem o universo poéti-co de modo amplo e diversificado. Em contrapartida, conduzindo pro-postas estéticas que se distanciam da razão cognoscitiva, o Surrealismonão se reduz ao plano do onirismo imagístico. Ainda que sua tônica sejao irracionalismo, os surrealistas tangenciaram “projeto político”, talcomo se depreende dos Manifestos. Ao descartarmos na poética de Pradeo veio surrealista, deve ser notado que, no Brasil e no restante da Amé-rica Latina, muitas das manifestações poéticas “classificadas” comosurrealistas relacionam-se ao Endobarroco, e, em alguns casos, sãotransposições do realismo mágico ao plano da poesia - questões essasque carecem de conceituação e, como tal, merecem ser estudadas. Ainda que relacionada ao simbolismo mítico e receptiva ao oniris-mo subjacente aos mitos, a poesia de Prade conduz o leitor a ilaçõessugestivas de um pensar autônomo, por meio de uma razão aberta e dia-lógica16, isto é, como enfrentamento da razão centrada em si mesma.Como desvio da razão ordenada como limite e unidade. Como desvioda razão absoluta. E como desvio de uma razão pura. No trabalho dopoeta, a razão não se mostra antítese do poético, repetimos. Condizentecom uma razão aberta - em virtude dos elos endobarrocos que permi-tem contradições -, a poesia de Prade sugere caminhos em esquiva doprincípio lógico de identidade. Lembremos quanto a isso que, na tradi-ção ocidental, pautada na identidade, a ordem do pensar tem sido quasesempre concebida como busca do Uno, seja ele: eidos, arquê, telos, ener-geia, ousia, alétheia, etc.17 Os surrealistas igualmente negaram essa ra-zão fechada e centralizadora. Porém, enfrentando-a através de um irra-cionalismo que admite o acaso na criação poética. Afastando-se dos es-quemas centralizadores, na obra poética de Prade, sobretudo nas Varia-ções sobre o Unicórnio, o afastamento da estrutura sígnica exacerba-seem virtude das metamorfoses que integram imagem e logos. Ao fazeralusões ao Uno e ao múltiplo, mormente na concepção do Unicórnio,Prade conduz as imagens e a linguagem ao campo das diferenças nosplanos existencial e ideativo, e não na instância do princípio de identi-15 Trata-se da imaginação poética, denominada igualmente devaneio, na filosofia de Bachelard. Consulte-se especificamente A Poética do Devaneio. Trad. de Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1988.16 Questão que pode ser estudada a partir de O Novo Espírito Científico (trad. de Juve- nal Hahne Júnior. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1968), de Bachelard, com des- dobramentos que, sob outros ângulos e temáticas, foram realizados por outros filósofos, dentre eles Derrida, no tocante à linguagem. Ver Referências Bibliográficas.17 DERRRIDA, Jacques. A Escritura e a Diferença. Trad. de Maria Beatriz Marques Nizza da Silva. São Paulo: Perspectiva, 2002, p. 231.
  • 21. Mirian de Carvalho 23dade. Seguindo essa dinâmica, o trabalho do autor deflagra jogos deidéias desviantes do irracionalismo, bem como dos esquemas fixos daracionalidade e do dogma. A imagística de Prade sugere um pensar des-pido de abstrações: O gato é a razão impura Olhos verdes de Kant sobre as mesas onde o que fica não se situa18 Nestes versos reveladores de ironia incontida no título do poema“Esboço de um Gato enquanto penso”, o poeta sugere uma razão anco-rada no mundo, tônica que abrange sua poesia como um todo, ao guiar-se por perspicácia voltada para as falácias do pensamento direcionadoà abstração pura. Desmontando o gradio das jaulas amorosas19, ondehomem e animal se vêem em espelho, a razão que se aceita impura sol-ta-se ao pisar no chão. Sem bagagem irracionalista, ela anda pela cida-de, desdobrando-se em reflexões sobre o estabelecido. Desviando-se dasverdades absolutas, dos esquemas de pura abstração, bem como da estru-tura do signo, as imagens poéticas criam suas direções e abrem-se ao lo-gos, recortando-se como olhar agudo sobre o mundo, revendo-se anteas metamorfoses que culminam nas variações do Unicórnio. As imagensafloram no momento áureo desse ser gerado nas obras anteriores, nascercanias do espaço e do tempo das serpentes, dos pássaros e dos ani-mais ferozes, conduzindo o pensamento ao paradoxo. Paradoxais, asmetamorfoses desordenam e ordenam o mundo. Ordenam. E desorde-nam. Na tessitura do logos poético. Desconstruindo-se, as antíteses deflagram invenções e desdobra-mentos imagísticos e lingüísticos. Desconstruindo-se, os pólos antitéti-cos geram por vezes figurações reversíveis. Geram imagens em proces-so. E imagens transientes. Realizando-se em variações, o corpo do Uni-córnio não se define como forma. Não é alvo de conceitos. O Unicór-nio integra o absurdo e o fantástico à razão alerta ao mundo. Alerta àurbe. No conjunto, esses traços afetos a estratos imagético-semânticosna poética das metamorfoses revelam no trabalho de Prade vínculosendobarrocos - tópico que mereceu especial análise no decorrer desteensaio.18 PRADE, Péricles. “Esboço de um Gato enquanto penso”. Jaula Amorosa. Florianó- polis: Letras Contemporâneas, 1995, p. 87.19 Referência à obra Jaula Amorosa, op. cit.
  • 22. 24 2 - Panbarroco e Endobarroco Sou e não sou mal crescente, monstro generoso, animal opositor de cabeça purpúrea, metáfora de um Deus de intenções ambíguas12.1. Elementos “Barrocos” na Escrita Hodierna Dando prosseguimento à identificação das características de cunhoimagético-ideativo na poética de Prade, percebemos que nas metamor-foses do Unicórnio as oposições eclodem em simultaneidades. Multifa-cetas, as oposições tornam-se ambivalentes ou plurívocas. Nos nomese no corpo do Unicórnio, e nas qualidades e atribuições do seu chifre,as variações referendam a antelinguagem, valorizando semânticas an-teriores ao discurso, e de origem diversa do discurso: trata-se dos senti-dos das imagens primeiras captadas pela imaginação, acolhendo estra-tos ideativos de aguçado pensar através das imagens reunidas ao logos.Insurgindo-se como questionamento da razão fechada e centrada em simesma, a poesia de Prade enraíza-se nos desdobramentos do pensamen-to contemporâneo. Em transformação e em escorço, o Unicórnio induzo leitor a pensar o mundo, através das diferenças afeitas às metamorfo-ses, deflagrando imagens inusitadas, tais como “A cabeça é a de Osíris:o acéfalo antigo”, “parafuso faminto”, “antes do primeiro coito alado”,“carne espiritual”, “chave cifrada”, que, sugerindo outras possibilidadeslógicas, atingem contradições afetas ao ser e ao não-ser, nas figuraçõesdo Unicórnio: Sou e não sou2 Entre possibilidades afetas à diversificação das imagens e do pen-samento, a poesia de Prade encarna o onirismo em vigília. Origina-senos olhos despertos. Voltados para os sentidos. Conjugando articulações1 PRADE, Péricles. “Representações”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Uni- córnio. São Paulo: Quaisquer, 2005, p. 20.2 Idem.
  • 23. Mirian de Carvalho 25singulares, o poeta busca instâncias semânticas que transcendem às su-bordinações gramaticais. E, reconhecendo o liame endobarroco no tra-balho do autor, torna-se necessário fundamentar tal afirmativa, observan-do-se que, em afastamento do Modernismo, marcadamente a partir de1970, mas com alguns recuos significativos na década de 60, algunsartistas3 e escritores vêm buscando padrões auto-referentes. Nessa bus-ca, torna-se possível identificar manifestações estético-artísticas singu-lares que extrapolam a denominação Pós-Modernismo, cuja abrangên-cia é muito ampla, e meramente cronológica. Face às atuais diferençasno campo da ficção e da poesia, segundo o professor e ensaísta IvanCavalcanti Proença, verifica-se a partir dos anos 90 uma exaustão domodernismo no campo da Literatura, com a insurgência de poetas querecorrem à forma fixa e à isometria, mas sem conotações passadistas decunho parnasiano4, convivendo com autores que continuam adotando overso livre, porém interpretando e transgredindo certos recursos moder-nistas, como a escrita sincopada e a inexistência de adjetivação. No bojo desse momento poético que admite grande flexibilidadeformal e revisão de recursos atinentes à linguagem e ao gênero, define-se clima propício a incursões endobarrocas, tal como ocorre na poesiade Prade. Para definir tais incursões, consideramos importante visitarteorias relacionadas ao Barroco, em acepções diversas, mas considera-das relevantes para o entendimento da noção de Endobarroco, engloban-do as seguintes abordagens: a noção de eterno barroco no pensamentode Eugenio d’Ors; a concepção cíclica de Heinrich Wölfflin transpostaao plano da Literatura; os estudos de Helmut Hatzfeld referentes aostraços barrocos em períodos que vão do Renascimento ao Rococó; ealguns tópicos do pensamento de Arnold Hauser. Mas para caracterizaros caminhos do Endobarroco, vamos iniciar pelos estudos de Proença,que, em substituição ao nome Neobarroco, que conota estilo, optou peladenominação Panbarroco - mencionada igualmente por Afrânio Couti-nho5, ainda que em sentido diverso. Assim como a noção de “eternobarroco” no pensamento de Ors abrange as Artes e a Arquitetura atra-vés dos tempos, a noção de Panbarroco nos estudos de Proença abran-3 Encontra-se em fase de preparo editorial texto de nossa autoria sobre o Endobarro- co na pintura de César Romero.4 Como exemplo destaque-se a poesia de Maria Theresa Noronha, O Verso Implume. Rio de Janeiro: Oficina do Livro, 2005.5 Introdução à Literatura no Brasil. 8ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976, p. 96.
  • 24. 26 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradege a Literatura através dos tempos. Sob esse prisma, ressalte-se, domesmo modo, o Endobarroco não se refere a estilo de época. Engloban-do interpretação das Artes e da Literatura, neste ensaio o nome Endo-barroco abrange traços “barrocos” diferenciados, eclodindo em diferen-tes obras e épocas, do Renascimento aos dias atuais. Para caracterizar o Endobarroco no tocante à escrita, conforme omencionado, buscamos subsídios nos estudos de Proença, que localizouprocedimentos panbarrocos em autores do século XX e em autores con-temporâneos, e metodizou técnicas da escrita no âmbito do fazer literá-rio hodierno. Ao delinear o perfil dos recursos pertinentes ao Panbarro-co, Proença define-os em várias instâncias da ficção e da poesia. Em seusestudos, o ensaísta enfatiza a freqüente transgressão da ordem direta dodiscurso, em alguns casos gerando escrita densa - recurso esse que, doponto de vista da poesia, pode resultar no verso longo. Notando-se queo Panbarroco abrange traços formais, morfossintáticos, sonoros, semân-ticos e imagísticos, Proença ressalta na poesia a presença de “jogos an-titéticos, inversões, paradoxos, oximoros, jogos de palavras usadas emsentido lúdico, massas fônicas, paralelismos sintáticos e semânticos,quiasmos, etc.”6 Ainda quanto a essa tendência no fazer literário hodier-no, Proença afirma: “No Panbarroco, cultismo e conceptismo se apro-ximam enquanto jogo de palavras e jogo de idéias, respectivamente.Brincar com as palavras, inclusive associadas às construções antitéticas,é bem-vindo, admitindo-se ainda as construções hiperbólicas, metáfo-ras e símiles.”7 Porém, observemos, uma vez que o Panbarroco não representa re-tomada do estilo seiscentista, à escrita literária atual não cabem exage-ros na elaboração de escritos, qual fossem feitos àquela época: “Já nãose confundem os textos literários com os trocadilhos e jogos de palavrasgratuitos, presentes no Barroco. No entanto, as perífrases e repetiçõessimétricas de palavras e massas fônicas ocorrem no Panbarroco hoje.”8Ao identificar essa tendência no plano da Literatura, a par dos jogosverbais, Proença ressalta figurações relativas à angústia do homem e arecorrência ao topos carpe diem9. O ensaísta destaca também, como tra-ço da escrita panbarroca, as oposições, tais como: “céu e terra, virtude6 Notas de aulas.7 Notas de aulas.8 Notas de aulas.9 Notas de aulas.
  • 25. Mirian de Carvalho 27e pecado, crença e descrença, paixão e ódio, luz e trevas, etc.”10 Ao iden-tificar escritores cujas obras, em parte ou no todo, apresentam as carac-terísticas mencionadas, Proença relaciona ao Panbarroco a narrativa deGuimarães Rosa e a poesia de Carlos Pena Filho, dentre inúmeros ou-tros exemplos, incluindo autores contemporâneos. Em virtude da afini-dade lingüística, Proença igualmente localiza tais procedimentos emautores portugueses, dentre eles José Saramago. Nesse sentido, não cabeao Panbarroco qualificativo de imprecisão quanto à validade crítica ehistórica, como menciona Coutinho11, uma vez que sua validade não seatém a critérios estilísticos relacionados à abordagem do Barroco. Do mesmo modo, deve ser ressaltado que ao Endobarroco não seadequam critérios de análise puramente estilística, posto ter ele impli-cações ideativas abrangentes de uma dinâmica sociocultural, marcando-se na Poesia e nas Artes através de estratos imagético-semânticos emesquiva do princípio de identidade. Quanto à insurgência do Endobar-roco, seja de modo parcelar ou mais abrangente, variando em gradações,seus traços desdobram-se de modo diverso na poética de diferentes au-tores. Assim sendo, ressalte-se que a diferença entre o Endobarroco e oPanbarroco metodizado por Proença não se situa no plano da escrita li-terária, mas no plano da concepção filosófico-cultural, que se insere noEndobarroco, tendo como princípio a imagística hiperbólica conduzin-do vínculo ideativo intrínseco, que, em desvio do princípio de identida-de, atua desconstruindo antíteses e revelando, de modo explícito ouimplícito, instâncias de um pensamento divergente, relacionado a algumplano da cultura. Compondo a poética das metamorfoses, convergem na poesia dePrade essas características afetas à imagística e os traços do fazer lite-rário aqui mencionados, interagindo com outros aspectos analisados aolongo deste texto. Ainda que não pautada esta leitura em visão forma-lista, destacamos na produção poética do autor elementos endobarrocosexplicitados, sobretudo, por estratos imagéticos, privilegiando “oposi-ções” e diferenças, gerando paradoxos e oximoros, que se intensificamem vários poemas em virtude das sonoridades. Assim sendo, na poesiade Prade igualmente merecem destaque os estratos sonoros, que, diver-sificando-se em sintagmas diacríticos, vocalizações, aliterações, colite-rações, algumas poucas rimas e outros recursos fônicos, intensificam10 Notas de aulas.11 Op. cit., pp. 95-96.
  • 26. 28 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradecontrastes imagéticos e ritmos gerados por liames morfossintáticos. Mas,atuando por meio de jogos verbais e ideativos e alçando-se às diversifi-cações semânticas, o Endobarroco na poética de Prade lança-se à iro-nia, à sátira e ao burlesco, intrínsecos ao percurso poético do autor. Além dos traços já mencionados, para compreender o Endobarro-co na poética de Prade, do mesmo modo analisamos e valorizamos, deacordo com uma visão contemporânea, aspectos morfológicos e ideati-vos descritos por autores que visitaram o Barroco em diversos estudose linhas. Revisitados, esses aspectos foram analisados na perspectivaendobarroca, com ênfase na obra Em Forma de Chama: Variações so-bre o Unicórnio, dando-se destaque ao trabalho da imaginação, trans-formando o nome e o corpo desse ser fantástico, em face das metamor-foses que se iniciam nos elementos postos em relevo na poética de Pra-de: o fogo e a água. Do ponto de vista de uma incursão endobarroca napoesia de Prade, enfatizamos na poética das metamorfoses, sobretudo,as seguintes características: a imagística hiperbólica, que, ultrapassan-do a metáfora e o símile, conduz ambivalências e paradoxos; a descons-trução de antíteses; a escrita caótica e/ou paratática; os jogos de pala-vras e de idéias; e a insurgência do topos carpe diem. E primordialmenteo encantatório, mobilizando jogos ideativos em desvio do princípio deidentidade. Tais características evidenciam no trabalho de Prade processos daimaginação, produzindo estratos imagético-semânticos, seja na prosapoética, seja no verso livre, ou na forma fixa. Destacando qualidadesrítmico-sonoras, ao valer-se da forma fixa, Prade não se prende à rigi-dez. Quanto às variações formais, a par do verso livre, o poeta igualmen-te recorre ao soneto, às quadras, aos tercetos, aos dísticos, porém semesquema rímico. Quanto à isometria, esta se faz recurso raro, ainda quese insurgindo em alguns trabalhos do poeta, para manter regularidadesrítmicas afetas a alguns versos, como, por exemplo, em Ciranda Anda-luz, observando-se ainda que, em determinadas obras, contracenam for-mas fixas e versos livres: “Em realidade, Péricles Prade realiza com essamiscigenação de ritmos a fusão da tradição e da modernidade.”12 Nessamiscigenação, Prade desconstrói formas tradicionais, bem como des-constrói os preceitos do Modernismo, cabendo aludir a um movimentointrínseco ao Endobarroco, atuando como desvio de padrões. Em sen-do as potencialidades imagéticas ponto áureo na poesia de Prade, ul-trapassando metáforas, alegorias e símiles, elas se exacerbam através da12 GOMES, Álvaro Cardoso. “Orelha I”. In PRADE, Péricles. Além dos Símbolos. Flo- rianópolis: Letras Contemporâneas, 2003.
  • 27. Mirian de Carvalho 29personificação, da animização, da hipálage, da hipérbole e de outras pos-sibilidades desviantes da verossimilhança externa. De acordo com esse desvio, em certos poemas ocorre enumeraçãocaótica, articulando imagens inusitadas e costurando o logos poético pormeio do paradoxo: “Assim, a um poema anterior, liga-se umbilicalmenteo poema seguinte ou os versos de um poema ao título do mesmo, de sorteque, permanentemente, há uma tensão cuja leitura (percepção e tradu-ção) exige do leitor uma constante atenção e adesão ao texto.”13 Dessemodo, na poética de Prade, o verso curto não significa facilidade ou pres-sa. Estabelecendo articulações intrínsecas à totalidade da obra em quese insere, o verso curto pontua e interliga lugares e tempos poéticos. Einterliga oposições e diferenças, por meio de articulações singulares.Assim como no Barroco estilístico, no Endobarroco as imagens asso-ciam jogos díspares de palavras e idéias, mas tais jogos não repetem exa-tamente as mesmas figurações barrocas. Eles se renovam de acordo como pensamento característico de cada época. E diversificam-se na poéti-ca de Prade, renovando traços do fusionismo, que se caracteriza peloencontro de opostos nas instâncias semânticas intrínsecas às imagens.Essas instâncias revelam-se como endossentidos, ou seja, trazem senti-dos implícitos às imagens indicando oposições, diferenças e contrastes,que se reúnem sob vários aspectos na poética das metamorfoses.2.2. O Fusionismo e as Instâncias Ideativas na Poética de Prade Na poesia de Prade, detectamos vários traços endobarrocos que,articulando-se a instâncias semânticas, se desdobraram da estilísticabarroca, e, renovando-se nos dias atuais, foram mencionados e/ou ana-lisados com referência ao todo da poética do autor, dentre outros queagora complementam esta leitura. Esses traços decorrem primordial-mente de um fusionismo, ou seja, de uma harmonia entre os opostos,questão essa estudada pelos teóricos do Barroco literário e mencionadanos textos de Hatzfeld14. Igualmente descritas por diversos autores erelacionando-se, diretamente ou não, ao fusionismo, no Endobarrocodetectam-se inúmeras outras características comuns à escrita “barroca” -características essas que, guardadas as diferenças relativas à poesia ho-dierna, surgem modificadas e relacionam-se ao percurso poético de Pra-13 HOHLFELDT, Antônio. “Pequeno Tratado Poético das Asas: Exegese” (Posfácio). In PRADE, Péricles. Pequeno Tratado Poético das Asas. Florianópolis: Letras Con- temporâneas, 1999, p. 76.14 Estudos sobre o Barroco. Coleção Stylus. Trad. de Célia Barretini. São Paulo: Pers- pectiva, 2002, p. 89.
  • 28. 30 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradede, em ramificações semânticas aqui descritas, com ênfase nas metamor-foses do Unicórnio: a - Ordem desordenada15: em oposição à clareza do texto “clás- sico”, a configuração da escrita endobarroca muitas vezes apre- senta enumeração caótica, inversões, adornos, inexistência de conectivos, etc., dentre outros indícios. Quanto à ordenação em desordem, destaque-se que esse modo de concepção do poema acompanha a poesia de Prade desde os primeiros versos, em desvio da ordenação lógica, com grande ênfase na obra Em For- ma de Chama: Variações sobre o Unicórnio. Nesse trabalho, as imagens sofrem variações e renovam-se sob diferentes circuns- tâncias, explicitando sentidos afetos à linguagem, que se articula de modo desordenado em virtude da quase total inexistência de conectivos e em virtude de muitas inversões. Seguindo essa es- crita ordenadamente caótica, o poeta recriou o corpo e o nome desse animal fabuloso, vivendo existência de variações, que abrangem estados indiferenciados. E transitivos. b - Perspectivismo16: enfoque singular do mundo, do kósmos e da vida, captados pelo eu poético. Tal angulação realiza-se numa paisagem abrangente de coisas e seres apreendidos em ângulos singulares e até particulares. Trata-se de espécie de aura envol- vendo o personagem, a cena ou a imagem, ou simultaneamente todos eles, conforme a natureza do texto. Sob esse ângulo, ao descentrar o signo, o Unicórnio revela-se em errância, por des- locar-se ele abandonando o centro e a angulação privilegiada para revelar-se heteróclito. Para revelar-se “eu” e outro, encar- nando diferença e diferencial entre corpos e nomes, e deflagran- do outras possibilidades de existência, tal como se fosse ele concebido em escorço17, rememorando a perspectiva de ponto múltiplo, própria do Barroco. Assim apreendido o Unicórnio, como que surpreendido numa visão singular, realizam-se no poema imagens e ideação em esquiva do Uno e do absoluto. Intimamente relacionado ao perspectivismo, deve ser então con- siderado o estilo prismático renovando-se enquanto faceta en- dobarroca.15 O tema remete a Casalduero apud Hatzfeld, op. cit., p. 91.16 Esse tema remete a comentários de Galileu sobre os escritos de Tasso, através da abordagem de dois autores. Cf. Spoerri e Toffanin apud Hatzfeld, op. cit., p. 91. Hatzfeld, (loc. cit., nota nº 38) refere-se também a Aristóteles, mencionando na Po- ética do filósofo passagem alusiva a afinidades entre a Epopéia e a Tragédia.17 Expressão atribuída a Toffanin apud Hatzfeld, op. cit., p. 91.
  • 29. Mirian de Carvalho 31 c - Estilo prismático18: trata-se do enfoque de ações de um he- rói ou anti-herói refletindo-se na consciência de outros perso- nagens com os quais interage e aos quais se remete entre ações e pensamentos - circunstância cabível à poesia épica. Analisa- da neste ensaio como Epopéia, a instância ou “refração” pris- mática, ou seja, a referência a um ato com possibilidades de desdobramentos, adequa-se a outros momentos épicos da obra de Prade. Mas relaciona-se em especial à obra Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, poema em que o fabulo- so animal ganha luzes de herói, cujos feitos, ações, afetos e atri- buições refletem-se em outros “personagens” referidos pelos estados anímicos do Unicórnio. Tal como ocorre na pintura bar- roca, em que os planos se entrelaçam, observamos que, através das metamorfoses, ao fabuloso animal imbricam-se muitos cor- pos e nomes - atuando como espelho e diferencial. O espelho mostra diferenças. Nunca a mesma imagem. E o diferencial se explicita a cada nova imagem que se cria para trazer ao mundo o Unicórnio, através de prismas espaciais e temporais, em ho- ras e circunstâncias diversas, que, por sua vez, se relacionam ao elemento água: espelho e reflexo das variações do Unicórnio. Espelho e reflexo do fogo, em visão prismática. d - Claro-escuro19: aspecto que, trazido metaforicamente das Ar- tes Plásticas, revela tensões comuns ao Endobarroco por meio de contrastes. Assim como nas Artes e na Arquitetura, esse cla- ro-escuro concentra tensões entre luz e sombra, atribuindo à poesia certa tragicidade, entre oposições e relações do claro e do escuro em contrastes abruptos. Na poesia de Prade, esse en- contro abrange os estratos sonoro, morfossintático e imagético, apresentando-se por meio de graduais diferenciações, no percur- so da produção poética do autor, vindo a integrar oposições que se intensificam e acompanham a Epopéia do Unicórnio, entre figurações simbólicas da chama. e - Amálgama paradoxal do racional com o irracional20: trata- se de recorrência ao encontro do racional e do irracionalismo no18 Esse tópico se reenvia a Ortega y Gasset e Spitzer apud Hatzfeld, op. cit., pp. 91-93.19 Relacionando-se às oposições entre luz e sombra, esse tema remete aos estudos de Spoerri e de Grilo apud HATZFELD, op. cit.20 A questão da complementaridade do racional e do irracional remete-se ao trabalho de Schmarsow apud HATZFELD, op. cit., p. 97.
  • 30. 32 Metamorfoses na Poesia de Péricles Prade plano literário, admitindo o paradoxo como raiz do pensamen- to. Esse traço se revelou no Barroco, refletindo nas imagens in- cursões do pensar e do imaginar, lançando-se à fantasia, ao len- dário, ao mito e seus congêneres. De modo similar, no Endobar- roco esse liame com o onirismo determina-se pela imaginação, revisitando e recontando lendas e mitos. E desviando-se da nar- rativa. Na errância do Unicórnio, esse amálgama paradoxal abrange a matéria imaginada de onde nascem seres fantásticos, como o Unicórnio coroado pelo fogo. Na confluência dessas instâncias endobarrocas, algumas delas re-lacionadas ao fusionismo, o Unicórnio modifica-se como o movimentoda chama, gerando outros animais fabulosos que com ele convivem.Dragões. Serpentes. Búfalos. Touros. Ou tantos outros, desdobrando-seem atos e nomes. E trazendo à tona irradiações dos não-ditos. Torna-seentão possível transpor ao Unicórnio a frase que originariamente se re-fere ao surgimento da Fênix nas obras poéticas: “é essencialmente umaimagem tornada Verbo”21. Assim como a Fênix, o Unicórnio torna-severbo originário. Esse verbo se inicia nas mutações do fabuloso cavalocoroado pelo chifre-em-forma-de-chama. Adornado pelo fogo, o Uni-córnio revela sua origem na matéria imaginada. Mas ante as singulari-dades endobarrocas intrínsecas à poética de Prade e considerando quenenhum estilo se repete, não realizamos mera descrição de traços mor-fológicos constantes da poesia desse autor. Ainda que através de digres-sões e desdobramentos, visitamos o pensamento de alguns autores, cu-jas idéias corroboram as diretrizes do Endobarroco. Como foi mencionado, para fundamentar a noção de Endobarro-co recorremos a alguns aspectos do pensamento de Eugenio d’Ors noque tange a uma leitura da questão do “barroco” através dos tempos,opondo-se à concepção do Barroco enquanto estilo de época. Assimsendo, observando-se que, no terceiro e no quarto capítulos deste tra-balho, a partir do pensamento de Eugenio d’Ors, Heinrich Wölfflin eHelmut Hatzfeld foram enfatizadas questões gerais atinentes ao Barro-co estilístico ou não, caso o leitor não queira se deter em tais referên-cias, poderá dar continuidade à sua leitura a partir do quarto capítulo,que se remete à abordagem da poesia de Prade enfocada do ponto devista da imaginação criadora.21 BACHELARD, Gaston. Fragmentos de uma Poética do Fogo. Trad. de Norma Tel- les. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 52.
  • 31. 33 3 - Eterno Barroco, Barroco e Endobarroco Deus mutante, as vestes da terra são as do paraíso mas Adão continua nu, a costela quebrada13.1. O “Eterno Barroco” na Filosofia de Eugenio d’Ors Reconhecendo singularidades imagético-ideativas na poética dePrade, chegamos à noção de Endobarroco, a partir dos traços da escritapanbarroca, tal como descrita por Proença, bem como por meio de as-pectos ideativos marcadamente explicitados pelas imagens encantató-rias, e ao logos poético em desvio do princípio de identidade, descons-truindo antíteses para criar possibilidades semânticas. Sob esse aspec-to, sem vincular a noção de Endobarroco a instâncias meramente esti-lísticas, não descartamos de todo a importância dos referenciais morfo-lógicos. Mas, ao tangenciá-los na poesia de Prade, consideramos algunsaspectos do pensamento de Eugenio d’Ors e destacamos certos conteú-dos que tangenciam a noção de eterno barroco, ainda que através dedigressões, ressaltando-se que Ors inaugurou importante vertente depensamento sobre o Barroco, vertente essa que abarca o domínio meta-físico trazido ao plano sensível. Realizando articulação entre o arquetí-pico e o cultural, o autor remete seu pensamento à Escola de Alexandria,cujos princípios filosóficos se pautam na noção de éon. Segundo Ors, o éon implica constância arquetípica aflorando noplano cultural. Com relação ao Barroco, verifica-se uma constante, eclo-dindo em manifestações múltiplas e variacionais - nunca por meio darepetição. Nessa constante, a base arquetípica não lhe confere rigidezcategórica, porque o éon barroco se revela diversificado através dos tem-pos, mostrando-se singular nas Artes e nas demais manifestações dacultura. Segundo o referido filósofo, o éon abarca as constantes barro-cas com abrangência universal, diferenciadas das constantes clássicasinseridas em certas expressões artísticas. Mas Ors não se prende à aná-lise formal da Arte: trata-se de entender o “barroco” enquanto concep-ção de mundo. Enquanto estilo de cultura. Quanto à eclosão barroca,1 PRADE, Péricles. “Osíris”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio. São Paulo: Quaisquer, 2005, p. 26.
  • 32. 34 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradesegundo esse autor, em que pese a insurgência de uma constante tangen-ciando o domínio metafísico, o éon sempre ressurge em transformação.Do ponto de vista das expressões plástico-artísticas, o “barroco” assimconcebido localiza-se inclusive na Pré-história, e, alcançando diversifi-cações em tempos históricos, abarca o Oriente e o Ocidente. Ao cursode tal abordagem, o autor não se ocupou da classificação de espécies,nem de tipologias, nem de elementos no plano das Artes, uma vez quea constante barroca é variacional, observemos. Seguindo diretriz filosófico-cultural, Ors esquadrinhou no “barro-co” manifestações estéticas caracterizadas por tensões e contrastes, talcomo a natureza explodindo viva e lúdica. Explodindo livre. Trazendosentido libertário, no campo das Artes o éon congrega eventos “polimor-fos”2, ainda que guardando uma referência arquetípica. Aqui, o arquéti-po refere-se a um dinamismo intrínseco aos fenômenos culturais, ouseja, trata-se de movimentos vitais, inscrevendo o Barroco em váriascircunscrições da experiência humana do pensar e do fazer - inclusivena esfera política. De acordo com a filosofia de Ors, seguindo fluxo di-ferencial, o “barroco” insurge-se contra o estabelecido. Questiona odefinitivo. Desestabiliza o absoluto. Recriando-se, o “barroco” conce-bido fora das diretrizes estilísticas “pode renascer e traduzir a mesmainspiração através de formas novas, sem a necessidade de copiar literal-mente”3. Em esquiva do conceito de evolução, Ors analisa essa constantena perspectiva de um eterno barroco4: um princípio universal cujo “mo-delo” originário é a natureza caracterizada pelo movimento5 - a nature-za relacionada à vida e à renovação.3.2. Digressões e Reflexões sobre o “Eterno Barroco” De acordo com o entendimento do “barroco” como polimorfia ecomo negação do absoluto, e de acordo com as características da escri-ta panbarroca, aspectos que respectivamente se referem aos estudos deOrs e de Proença, identificamos características endobarrocas na poesiade Prade. E do mesmo modo as identificamos em obras de outros auto-res e artistas contemporâneos, bem como localizamos tais característi-2 ORS, Eugenio d’. Du Baroque. Trad. de Agathe Rouart-Valéry. Paris: Gallimard, 2000, p. 70.3 ORS, Eugenio d’. Op. cit., p. 91.4 DASSAS. “Présentation”. In ORS, Eugenio d’. Du Baroque. Trad. de Agathe Rouart- Valéry. Paris: Gallimard, 2000, p. XI.5 ORS, Eugenio d’. Op. cit., p. 103.
  • 33. Mirian de Carvalho 35cas em vários outros períodos anteriores e posteriores ao século XVII,de acordo com diferenciações próprias desses períodos. Assim sendo,torna-se viável admitir, de acordo com a teoria de Ors, analogias esté-ticas relacionadas ao Barroco, em momentos não pertinentes ao Seiscen-tismo. Porém, enfatizando-se que esse autor destacou em seus estudoso campo Artes, tecemos algumas reflexões sobre suas idéias nesse cam-po, considerando-se que elas conduzem questões implicitamente afetasà Literatura, do ponto de vista do trabalho da imaginação criando ima-gens. Sob esse prima, seja na instância das Artes ou na instância da Li-teratura, relembramos que as imagens, conforme o mencionado na In-trodução, e tal como objeto de estudo ao longo deste ensaio6, não se re-lacionam à representação, nem guardam vestígios de verossimilhançaexterna. A imaginação poética produz imagens não calcadas na objetivida-de. Atuando como desvio dos padrões da repetição, no Endobarroco asimagens trazem princípios ideativos, isto é, instauram semânticas queimplicam pensamento divergente. Sendo fonte primeira do Seiscentis-mo, a imaginação igualmente se explicita de modo singular nas Artes ena Poesia de cunho endobarroco. Em sendo impossível nesta análisedescartar inteiramente os aspectos morfológicos, deve ser valorizada, notocante às Artes e à Arquitetura, uma dinâmica relacionada à linha cur-va, gerando ou sugerindo contracurvas, o que sinaliza oposições e con-trastes, expressando-se em fluxos simultâneos, seja nas superfícies, sejanos volumes. Tal fenômeno, guardadas as devidas diferenças, pode serestendido a muitas das expressões artísticas orientais, enraizando-se emconcepções ideativas, que, em curso diverso das causalidades formal eeficiente, aglutinam elementos díspares, algumas vezes em virtude derecorrência ao encantatório. Trata-se de mundivisão e cosmovisão queadmitem relações espaciais e temporais fora dos parâmetros do espaçogeométrico e do tempo seqüencial, levando às expressões artísticas so-luções espaciais e temporais correspondentes a esquemas mentais queadmitem contradição, bem como outras possibilidades paradoxais. Quando Ors menciona um “barroco búdico”7, atribuindo-o a uméon, em contraposição a esse argumento metafísico e em favor da nos-sa argumentação, deve ser lembrado que no Budismo se inscreve a ins-tância do Caminho do Meio - instância cognoscitiva que se explicita porum pensar não afeito nem ao princípio de identidade, nem ao princípio6 Temática abordada neste ensaio de acordo com o pensamento de Bachelard.7 Op. cit., p. 123.
  • 34. 36 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradede contradição, deflagrando outros esquemas possíveis na condução dopensamento. Esquemas correspondentes podem ser detectados no Taoís-mo e no Hinduísmo8. Nesta breve menção às filosofias orientais, devemser lembrados processos não regidos pelas noções de ser e não-ser, nempela identificação do ser com a presença - questões que só recentemen-te se insurgem no pensamento ocidental, levando à Estética possibilida-des de acesso às Artes e à Literatura, por meio de valores intrínsecos,desviantes de uma episteme conduzida pelo pensamento girando emtorno do Uno. Relembrando que a análise orsiana volta-se para as Artes, obser-ve-se que em suas variáveis as expressões plásticas podem apresentarcontrastes imagísticos, deixando transparecer alicerces não afetos a pa-drões preestabelecidos. Assim sendo, observamos, as analogias referi-das por Ors relacionam-se a sistemas ideativos diversos, gerando expres-sões plásticas diferenciadas entre si. Tais expressões têm como pontocomum o desvio do princípio de identidade: princípio pertinente ao equi-líbrio clássico, que, por sua vez, implica analogias formais próprias doClassicismo, em momentos histórico-culturais diversos. E pode ser ob-servado que, em maior ou menor escala, os processos mentais regidospelo princípio de identidade admitem antíteses, a serem transpostas ousuperadas por um equilíbrio estático e harmônico, tal como ocorreu noRenascimento e nos demais Classicismos, através da síntese das oposi-ções, amenizando e/ou eliminando contrastes atinentes à cor, à linha, aovolume, dentre outros. Porém, no Barroco, as antíteses desconstroem-se, e as oposições ganham equivalências e correspondências, observan-do-se que o pensamento seiscentista conviveu com inúmeras oposições.Não só morfológicas. No Barroco, oposições de toda ordem articularam-se em simultaneidades, permeando concepções diversas, como: mundocristão e mundo laico; finitude e infinitude; centro e descentro; Refor-ma e Contra-Reforma; terra e cultura européias e terra e cultura da Co-lônia. Essas oposições, ainda que antecedentes ao Seiscentismo, inten-sificaram-se no Barroco, deixando lastro deflagrador de outras oposiçõese/ou diferenças. Ante tal complexo de ambivalências, acentuavam-secontrastes, que, por sua vez, se articulavam a fatores sociopolíticos, cul-turais e religiosos, refletindo-se nas manifestações artísticas e literárias8 Quanto ao pensamento oriental consultem-se as obras indicadas nas Referências Bibliográficas.
  • 35. Mirian de Carvalho 37representativas do mundo laico. E, em que pese uma faceta religiosarelacionando o Barroco à Contra-Reforma, esboçava-se àquele períodooutro modo de pensamento, como se depreende dessa pergunta seguidade resposta: “Isso quer dizer que a arte barroca, tão freqüentemente acu-sada de ser conformista e hipocritamente devota, foi uma arte laica? Foilaica mesmo tendo servido à Igreja: já naquela época era possível que ozelo devoto encorajasse a religião a converter-se em política.”9 Já à épocado Seiscentismo, junto às vertentes religiosas do Barroco inauguraram-se vertentes laicas, cujos desdobramentos ganharam no Brasil dimensõeshíbridas e sincréticas, que hoje se refletem nas Artes e na Literatura,gerando singularidades afetas ao Endobarroco. Refletindo sobre o pensamento de Ors, observe-se que, se há nasArtes uma constante barroca, ela nem se deve à dimensão metafísica,nem se revela universal, mas advém do trabalho da imaginação criado-ra dinamizando o percurso das curvas, que se direcionam à diagonal,congregando linha e massa em movimento. Essa dinâmica, em verdadeuma dinamogênese criando qualidades espaciais, incide numa conver-gência de forças contrárias, assinalando polimorfias no plano estético esinalizando um pensar divergente, em alguma instância cultural. Pormanifestar-se circunscrito à cultura, o “eterno barroco” de Ors pode serentendido como desvio de normas estéticas e, potencialmente, de outrasnormas, ao ressurgir sempre renovado. Esse aspecto torna-se comum ànoção de Endobarroco, enfatizando-se que este não traz a extensão uni-versal do conceito orsiano. Quanto ao Endobarroco, ressaltem-se doRenascimento aos nossos dias contrastes e ambivalências que abarcammanifestações multifárias, bem como matérias e simbolismos efeitostanto às expressões plásticas quanto às literárias. Nas Artes, assim comona Literatura, matéria e imaginação interagem. Do ponto de vista plás-tico, matéria e simbolismo vivem o dinamismo das curvas. Em especialna Poesia, matéria e simbolismo vivem jogos de palavras e idéias defla-grando tensões imagéticas. Se, de acordo com o pensamento de Ors, nas Artes e na Arquitetu-ra de diferentes períodos “barrocos” se faz possível detectar certa ana-logia, esta se constitui em diferenças que afloram como desvio do esta-belecido, enquanto negação do definitivo e do absoluto - argumento queaceitamos com referência às idéias desse autor. Mas refutamos em sua9 ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão. Trad. de Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 10.
  • 36. 38 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeteoria a idéia de uma constante metafísica e a universalidade do “barro-co”, repetimos. Considerando, por exemplo, períodos como o Helenís-tico, o Gótico e o Romântico, dentre inúmeros outros, bem como abran-gendo expressões artísticas e arquitetônicas orientais, torna-se possívelpensar que as analogias referidas por Ors relacionam-se à imaginaçãocriando contrastes implícitos às imagens. E, desdobrando o pensamen-to de Ors, observe-se que o “barroco” se explicita pela exceção e peladiferença. Se o modelo de Ors foi a Natureza, ela pode ser concebidacomo dinamogênese. Note-se que a Natureza mostra-se como transfor-mação, através de diversidades apreensíveis no plano sensível. A olhonu, captamos mudanças entre o dia e a noite. Entre a vida e a morte.Acompanhamos semente e floração. Percebemos as águas movendo-seàs oscilações das marés. E hoje, torna-se possível captar outras diferen-ças sutis - não perceptíveis no plano sensível -, ou seja, fenômenos quepodem ser objeto de experimentação no campo da ciência. Mas as re-gularidades por nós sistematizadas, seja no plano sensível, seja no pla-no teórico, advêm de algo que se revela como diferença. Ao relacionar a dinâmica barroca aos movimentos da Natureza,Ors possivelmente foi atraído pela transformação. O “barroco” assimconcebido encarna e/ou admite contradição. Possibilidades. Admitemultiplicidade interpretativa. Encarna ruptura com o conceito. Recorta-se nos acontecimentos eventuais e nos grandes acontecimentos relacio-nados à cultura, bem como relacionados ao espaço e ao tempo. Situan-do o “barroco” como mundivisão e cosmovisão, Ors transporta-o aoplano ético, reconhecendo nas expressões barrocas sentido de liberda-de, questão que pode ser relacionada a vários planos de atuação do Ho-mem, sobretudo ao campo das Artes e da Literatura. Refletindo sobreas idéias de Ors, e reconhecendo tal dinâmica, pode ser inferido que,resguardadas as diferenças culturais, as instâncias endobarrocas, talcomo definidas neste ensaio, atravessam fronteiras e chegam aos dias dehoje assinalando-se como desvio do estabelecido. Nessas circunscrições,no Endobarroco a imaginação aflora nas imagens reunindo animus eanima - forças intensas e forças tênues -, numa complementaridade que,assim como na vida, se opõe ao imobilismo. E a vida se revela fuga dealgo que a quer perecimento. A partir do pensamento de Ors, pode ser inferido que a insurgên-cia “barroca” mobiliza forças renovadoras do pensamento e da ação,quando a vida se faz ato. E energia. Energia, tal como esse filósofo aconcebeu: como impulso. Impulso que enfatiza o valor da vida. E a vidacomo valor. E como liberdade. Liberdade essa que induz o pensamento
  • 37. Mirian de Carvalho 39à busca do diferencial nas manifestações “barrocas”, vistas como fenô-menos não datados no Seiscentismo. Desse modo, se analisadas no Bar-roco as antíteses do ponto de vista de uma ordenação ideativo-semânti-ca, elas não implicam síntese: acepção que pode ser metaforicamentetransposta ao equilíbrio clássico, que, sob a ótica pictórica, advém deuma síntese do claro-escuro ou chiaroscuro. No Barroco insurgem-seluzes e sombras. Prevalecem o claro e o escuro. Encontram-se o dia e anoite. Os opostos convivem em simultaneidade. Porém, observando que o pensamento orsiano volta-se para as ex-pressões plásticas, ao refletirmos sobre o “eterno barroco” no plano li-terário, torna-se impossível encontrar traços e liames que, em sentido tãoamplo, possam abranger aproximações entre Ocidente e Oriente, englo-bando todos os tempos históricos. Entre diferenciações que vão da es-crita alfabética ao ideograma, torna-se inviável uma abrangência quecompreenda e localize traços barrocos em expressões lingüísticas tãodíspares. E, ao ser traduzida, a poesia é reescrita. Um hai-kai traduzidoperde todos os liames semântico-filosóficos e simbólicos que o origina-ram - sem mencionar a ordem das sonoridades. Quanto à insurgência doEndobarroco no fazer literário, procuramos estabelecer convergênciasgeográficas e culturais que o definem a partir de textos renascentistas,chegando aos dias de hoje com fisionomia própria, mas sempre guardan-do vínculos com contrastes afetos às imagens e aos aspectos ideativos,gerando desvios relativos ao estabelecido. Porém, mesmo aceitando al-guns princípios ideativos da teoria de Ors, ressalve-se: se o “eterno bar-roco” orsiano tem abrangência universal, o Endobarroco circunscreve-se a um espectro temporal que chega à contemporaneidade, mas cominício no Renascimento, repetimos. Voltando ao “eterno barroco”, lembremos: essa noção que privi-legia o dinamismo nas Artes permitiu a Ors afastar-se das abordagensformalistas do Barroco, tal como o fizeram vários teóricos. Diferencian-do-se das concepções cíclico-evolutivas, e voltado para as diferenças noplano estético, o estudo de Ors concebe “uma entidade cuja materializa-ção pode se revestir de diversos aspectos”10, em momentos históricos di-ferenciados, e bem diversa do “barroco cíclico” concebido por Wölfflin,uma vez que as manifestações barrocas não advêm do desaparecimentode um estilo, tal como na concepção desse teórico. Mas, ainda que se-guindo orientação diversa da de Wölfflin, tornou-se necessário revisi-10 DASSAS. Op. cit., p. XI.
  • 38. 40 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradetar as idéias do autor, por terem sido elas transpostas ao plano literário,nas primeiras tentativas de identificação de uma Literatura Barroca.3.3. O Barroco Cíclico e sua Transposição à Literatura De etimologia incerta, e a princípio rechaçado por vários estudio-sos, o Barroco traz um estranhamento intrínseco, e não foi objeto deapreciação teórica por parte de seus contemporâneos. Tendo sido clas-sificado como exotismo por teóricos de visão atrelada aos parâmetrosclássicos, esse estilo foi gradativamente aceito, e relacionado à belezaem sentido amplo, ao ser referido por adjetivos tais como: bizarro, ca-prichoso, voluntarioso, extravagante11, não mais em sentido pejorativo.Com traços morfológicos e ideativos bem definidos, em virtude de suaplasticidade o Barroco congregou sentidos e olhares específicos, sendopor fim reconhecido como estilo no plano das Artes e da Literatura, comdiferenças marcantes nos países europeus. Mas em sendo diversas asinterpretações do Barroco, e uma vez aceitas neste estudo algumas idéiasde Eugenio d’Ors, torna-se necessário mencionar outras visões sobre otema, remarcando-se que a referência a um “barroco” não estritamenteseiscentista, ou seja, a identificação de um “barroco” extensivo a outrosperíodos históricos, não é exclusividade do pensamento de Ors. Ao atribuir perspectiva cíclica ao Barroco, Wölfflin buscou refe-rências em outros historiadores, e procurou vestígios que pudessem re-ferendá-lo em períodos antecedentes ao Seiscentos, remontando, porexemplo, a Michelangelo. Nos escritos de Wölfflin12 encontram-se re-ferências a características visuais das Artes vinculadas a certa morfolo-gia cíclica situada em outros períodos históricos, vindo a constituir naAntiguidade um fenômeno paralelo ao Barroco, inclusive pontuado poroutros autores através do termo Barroco13. Tal denominação abrange ofenômeno de decadência da Arte antiga, compreendida como fenôme-no cíclico: “A arte ‘morre’ apresentando sintomas semelhantes aos daRenascença”14, observação que conduziu o Barroco à condição de esti-lo, quando Wölfflin o sistematizou do ponto de vista plástico em con-traponto às formas renascentistas. Apercebendo-se das amplas questõesformais implícitas ao Barroco, esse autor estabeleceu como meta o re-11 WÖLFFLIN, Heinrich. Renascença e Barroco. Trad. de Mary Amazonas Leite de Barros e Antonio Steffen. Coleção Stylus. São Paulo: Perspectivas, 2000, p. 34.12 Trata-se de Renascença e Barroco, op. cit.13 Sybel apud WÖLFFLIN, Heinrich. Op. cit., p. 26.14 WÖLFFLIN, Heinrich. Op. cit., p. 26.
  • 39. Mirian de Carvalho 41gistro dos sintomas relativos ao desaparecimento da Arte Renascentis-ta15. Para desenvolver tais estudos, que se voltavam para a visualidade- como era comum à metodologia àquela época -, Wölfflin enfatizou nareferida obra as transformações dos elementos clássicos em sua evolu-ção para o Barroco, dando destaque à arquitetura romana, porque emRoma as expressões clássicas favorecem exemplos de acentuados con-trastes na passagem para as formas barrocas. Wölfflin ocupou-se de umatipologia que abrange os dois períodos, de acordo com característicasatinentes aos elementos plásticos, tais como linha, plano, abertura, fe-chamento, luz e sombra, cor, massa, chegando ao estudo dos elementosprojetados no espaço, dentre eles: pilastras, colunas, cúpulas, frontões,todos dimensionados por efeitos visuais determinantes de uma oposiçãoentre a beleza tranqüila e a emoção avassaladora16. Sua preocupação comos elementos visuais mais tarde se aprofunda na obra Conceitos Funda-mentais da História da Arte, em que, diferenciando as formas clássicase as barrocas, ele estabeleceu os famosos padrões antitéticos que podemassim ser resumidos: 1) evolução do linear ao pictórico; 2) evolução doplano à profundidade; 3) evolução da forma fechada à forma aberta; 4)evolução da pluralidade para a unidade; 5) clareza absoluta e relativa doobjeto17. Wölfflin descreveu oposições marcantes entre as tipologias clás-sica e barroca, vendo-as como confronto e evolução cíclica. Esboçandodiretrizes diversas, ressaltem-se em Wölfflin e Ors enfoques voltados,respectivamente, para a morfologia e para a dinâmica intrínseca às ma-nifestações barrocas. Mas tanto a ênfase na visualidade explicitada porWölfflin quanto o dinamismo do Barroco no pensamento de Ors enfati-zam as Artes Plásticas e a Arquitetura, lembremos. E a transposição doselementos barrocos ao plano literário foi realizada progressivamente poroutros autores que, com base nos princípios de Wölfflin, abordaram di-ferentes Literaturas e dimensionaram questões morfológicas voltadaspara a oposição entre as formas clássicas e as barrocas, vistas comoantíteses. Ainda que em princípio relacionada aos elementos formais, aaplicação do conceito de Barroco à Literatura “esclarece, precisamen-te, a posição daquele estágio intermediário entre o Renascimento (até15 Idem.16 WÖLFFLIN, Heinrich. Op. cit., p. 47.17 WÖLFFLIN, Heinrich. Princípios Fundamentais de História da Arte. Trad. de João Azenha Jr. São Paulo: Martins Fontes, 2000, pp. 18-20.
  • 40. 42 Metamorfoses na Poesia de Péricles Prade1580 mais ou menos) e a fase neoclássica (depois de 1680)”18, clarifi-cando nesse período uma etapa não classificada no âmbito literário doponto de vista do estilo, e de um espírito de época refletindo ideologiase conceitos. Rastreando características literárias relacionadas ao Endobarroco,torna-se relevante uma visitação a questões gerais que se dirigem à idéiade um espírito de época. Mencionado por vários autores, e com raízesvárias, trata-se de tensões implícitas à linguagem e à Literatura seiscen-tistas, refletindo grandes mudanças que, passando pela religião e pelacosmologia, situam a perplexidade do Homem ante a finitude e a infi-nitude. Ante o mundo laico e o mundo religioso. E ante outras diferen-ças marcantes no pensamento da época. Para alguns autores, vislumbra-se nesse período mundivisão e cosmovisão que integram um espíritobarroco voltado para as oposições: “Como elemento geral do estilo bar-roco, aponta-se a preferência pelo ‘wit’, agudeza, ‘concetti’, combina-ções de imagens dissimilares ou revelação de semelhanças ocultas emcoisas aparentemente díspares.”19 Exibindo ordem diversa daquela doClassicismo, ao Barroco visto como estilo de época inseriram-se elemen-tos díspares, em várias combinações, trazendo ao texto jogos de palavrase/ou de idéias, em expressões literárias conduzindo sentidos em aberto,contrapondo-se ao significado. Tais sentidos em aberto traduzem fortes oposições entre sombra eluz, nos textos ficcionais ou poéticos, se comparados com a disciplinapautada nas simetrias, gradações tênues e harmonias, que delineiam aLiteratura Renascentista. Conduzindo aspectos semânticos que lhes sãointrínsecos, as imagens no Barroco completam-se numa afluência deidéias que revelam pensamento divergente, tal como ocorreu no campofilosófico, marcadamente no pensamento de Giordano Bruno20 e deCopérnico, que, do ponto de vista cronológico, anteciparam questõesafetas ao Seiscentos. Abrangendo questões relacionadas às noções deinfinitude e finitude, à sua época ambos tangenciaram, de modos diver-sos, oposições afetas à tradição filosófico-científica e à tradição religio-sa. Correspondendo a esse desvio, que se enraíza no plano ideativo, no18 COUTINHO, Afrânio. Introdução à Literatura no Brasil. 8ª ed. Rio de Janeiro: Ci- vilização Brasileira, 1976, p. 92.19 COUTINHO, Afrânio. Op. cit., p. 109.20 In CARVALHO, Mirian de. “Entre Sombras e Sombras: as Chamas do Desvelamen- to em Giordano Bruno de Montaldo”. Dialoghi: Rivista di Studi Italici vol. IV, nos 1-2, Rio de Janeiro: Proita/UERJ, 2001, pp. 45-56.
  • 41. Mirian de Carvalho 43plano literário inserem-se outros, tais como: a atitude naturalista mes-mo diante da morte; o culto da solidão e da melancolia; o expressionis-mo no que diz respeito aos contrastes; o sensualismo que conduz à obs-cenidade; o pessimismo frente ao conflito entre homem e o mundo; ostemas de luta e combate; a humanização do sobrenatural, direcionando-se a um sentimento barroco, que comporta naturalismo, ilusionismo,exacerbação da individualidade21. A partir dos estudos do Barroco literário, tornou-se possível com-preender os escritos por meio de aspectos gerais relativos a ideologiase a outras instâncias afetas ao pensamento da época, bem como identi-ficar traços típicos pertinentes aos diferentes idiomas a partir de sutile-zas próprias da linguagem, sutilezas que hoje ressurgem em variáveis noEndobarroco e que se anteciparam ao Seiscentismo. Assim, dando con-tinuidade aos fundamentos da noção de Endobarroco, dentre os estudosque determinaram as características barrocas no plano da Literatura,merece especial destaque o trabalho de Hatzfeld, cujas idéias, tomandorumo diverso daquelas propostas por Wölfflin e Ors, conferem ampli-tude ao Barroco, cujos traços foram considerados a partir de manifesta-ções anteriores e posteriores ao século XVII, o que nos serviu de baselocalizar no Renascimento o início de algumas manifestações endobar-rocas. As instâncias morfológicas e ideativas descritas por Hatzfeld con-ferem amplitude ao Barroco literário e corroboram à compreensão doEndobarroco, que se pauta sobretudo no desvio do princípio de identi-dade, produzindo tensões intrínsecas a imagens, lembremos. Contrarian-do cânones, em tempos atuais, as manifestações endobarrocas podem serlidas como desvio dos modelos modernistas, bem como podem surgircomo desvio da homogeneização na sociedade globalizada, que se re-flete em certos aspectos da produção literária, através da proposta deuma Literatura “sem literariedade”. Porém, a globalização não pode serdimensionada apenas por essa ótica. No mundo globalizado desenvol-vem-se filosofias da diferença, e produz-se uma poesia de acurado tra-balho técnico. E poéticas inusitadas, tal como se verifica na produçãoliterária de Prade, em esquiva da estrutura do discurso e da tradição cul-tural, trazendo o encantatório ao mundo da urbe. Eis a dinâmica do En-dobarroco abrangendo circunscrições do espaço e do tempo intrínsecosà poesia desse autor.21 Referências de Afrânio Coutinho (Introdução à Literatura no Brasil, op. cit., pp. 96-111) com base em outros autores que estudaram o Barroco.
  • 42. 44 4 - A Amplitude do “Barroco” Literário Ao adepto fiel presenteia-me o âmbar-gris ou a chave cifrada do tríptico tesouro na câmara selvagem14.1. Os Critérios de Hatzfeld na Abordagem do Barroco Ao recorrermos ao pensamento de autores que se ocuparam doBarroco sob enfoques diversos, nossa meta é fundamentar a noção deEndobarroco, para dar continuidade à “leitura” da poesia de Prade se-guindo a ordenação heteróclita das imagens. Em face da constatação deoposições de várias naturezas intrínsecas ao “barroco” em suas diver-sas acepções e cronologias concebidas por diferentes autores, nesse sen-tido o “barroco” transita pelos conceitos afetos ao estilo, bem como afe-tos à visão de mundo opondo-se ao estabelecido, implicando singulari-dades no plano da escrita. Reunindo questões relacionadas a esses po-sicionamentos, delimitamos como característica básica do Endobarro-co a presença de tensões marcadamente afetas às imagens, tal como elasse desdobram através dos tempos, e tal como surgem hoje, assumindoproblemática própria da contemporaneidade. Relacionando-se a instân-cias abstratas, na Literatura Seiscentista, as oposições implicavam so-bretudo fortes contrastes ideativos, tais como: “ascetismo e mundanei-dade, carne e espírito, sensualismo e misticismo, religiosidade e erotis-mo, realismo e idealismo, naturalismo e ilusionismo, céu e terra”2; tra-duzindo-se em jogos de idéias e de palavras que caracterizam espíritode época, posicionando o homem ante a oposição finitude/infinitude, eexplicitando vínculos com os preceitos laicos e religiosos. Mediante elos relativos à Contra-Reforma, dentre inúmeros outrosvínculos relacionados a oposições ideativas em outras esferas do pen-samento e da ação, à caracterização do Barroco devem ser consideradasigualmente as diferenças relativas a um “desvio” do princípio de iden-tidade, em virtude do contacto, ainda que remoto, com outras culturasno Novo Mundo, conduzindo o olhar a diferenças, que se refletiram nas1 PRADE, Péricles. “Integridade”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicór- nio. São Paulo: Quaisquer, 2005, p. 40.2 COUTINHO, Afrânio. Introdução à Literatura no Brasil. 8ª ed. Rio de Janeiro: Ci- vilização Brasileira, 1976, pp. 98-99.
  • 43. Mirian de Carvalho 45Artes e na Literatura. Assim sendo, ao realizar estudo do Barroco com-parado a outros estilos literários, Hatzfeld define critérios abrangentesde instâncias “barrocas” em sentido amplo, antecipando-se ao Seiscen-tismo e ultrapassando-o. Em virtude desse enfoque que se inicia noRenascimento, localizam-se recursos “barrocos” nos sonetos de Ca-mões, numa poética eivada de paradoxos e antíteses3. O autor aludeigualmente à onomatologia religiosa em Dante, mencionando trechos daDivina Comédia4, mas, quanto à poética de Dante, acrescentaríamosincursões barrocas na fase das chamadas rimas de pedra5, com tradu-ção em língua portuguesa6. Ao citar trechos de autores como Tasso, Cervantes e Racine, Hatz-feld ocupa-se igualmente das incursões “barrocas” nos textos de Gôn-gora, Marino, Calderón, Quevedo, dentre outros, numa extensão abran-gente de escritos relacionados ao Renascimento, ao Maneirismo e aoRococó. À identificação dos traços “barrocos”, o autor menciona a tra-dução da literatura religiosa realizada por Corneille e Racine, deixandotransparecer àquela época uma fascinação pelo pensamento espanhol,situando o homem através do enfoque trágico-dramático, e conceben-do-o nos limites das instâncias celestiais e terrenas. Nessa reunião do céue da terra, o homem era foco de imagística literária e de pensamento quese concentravam na reunião de oposições7. Mas a tendência a relacio-nar o homem a grandes oposições no campo literário, tal como o men-cionado pelo autor, em verdade ultrapassa o pensamento espanhol, ca-racterizando grande parte do pensamento da época, observamos. Na mesma perspectiva, ampliando e instigando a busca de novostemas e questões, os estudos de Hatzfeld englobam outros exemplosenfatizados através de contrastes, que abrangem o “maneirismo” deMontaigne, dentre várias outras visitações a autores que, de algummodo, trazem alguma referência “barroca” atinente à linguagem8. E tor-na-se importante ressaltar a abrangência desse fusionismo, ou seja, do3 HATZFELD, Helmut. Estudos sobre o Barroco. Coleção Stylus. Trad. de Célia Bar- retini. São Paulo: Perspectiva, 2002, pp. 156-160.4 HATZFELD, Helmut. Op. cit., pp. 120-124.5 CARVALHO, Mirian de. “Rimas de Pedra, Luzes Paradisíacas e a Dolce Tessitura da Poesia”. Dialoghi: Rivista di Studi Italici vol. II, nos 1-2, Rio de Janeiro: Proita/ UERJ, 1998, pp. 177-184.6 Consulte-se obra de Haroldo de Campos, Pedra e Luz na Poesia de Dante. Rio de Janeiro: Imago, 1998.7 HATZFELD, Helmut. Op. cit., pp. 120-125.8 Ibidem, pp. 171-219.
  • 44. 46 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeencontro de contrários, fazendo-se presente nas dimensões espaciais etemporais atinentes ao campo das Artes e da Literatura, que culmina noséculo XVII. Embora os teóricos do Barroco sempre se refiram a essasoposições como antíteses, nossa compreensão de tal fenômeno não assitua como antitéticas, visto que elas indicam ou deixam transparecerambivalências advindas da concepção de mundo nos alvores da Cultu-ra Moderna, através de um pensar que se extasia ante novas possibili-dades, defrontando-se com contradições. Mas essas possibilidades querevelam abalo quanto ao princípio de identidade seguem outros esque-mas sob a égide do Racionalismo e do Iluminismo, guiando o pensamen-to através de “regras” rumo à razão absoluta e/ou à razão pura, confluin-do mais tarde na estética do Neoclassicismo. Porém, no campo das Ar-tes e da Literatura, configuram-se exceções de cunho endobarroco, de-sembocando em algumas manifestações ao curso do século XVIII, e emtextos posteriores que abrangem o Romantismo, o Realismo, o Natura-lismo e o Simbolismo, chegando aos tempos atuais. Revelando-se multifário no bojo da cultura do século XVII, aoBarroco vinculam-se vários aspectos estéticos e formas de pensamen-to, que, em diferentes gradações, se originaram em tempos anteriores.Mas, observe-se, a par das influências religiosas relacionadas ao Barro-co, naquele período verificou-se, conforme o mencionado, uma passa-gem da religião para a política9, deflagrando oposições de várias ordens,ao que se pode acrescentar a influência das concepções científicas abar-cando o Heliocentrismo, e relacionando-se a conceitos e ideologias quetangenciam a oposição finitude/infinitude. Essa oposição, ou melhor,essa relação, refletiu-se no campo literário, bem como em outros aspec-tos do Barroco, encontrando correspondências no campo plástico, pormeio de curvas, contracurvas, diagonais10, e pela forte tensão entre luze sombra. As obras barrocas são simultaneamente claras e escuras. NaPintura, raramente se localizam regiões intermediárias. No campo dapoética, esses traços encontram correspondência nos contrastes e ambi-valências de cunho imagístico que, por sua vez, com implicações sono-ras e morfossintáticas, enraízam na Literatura sugestivo desvio da pla-cidez comum ao Classicismo.9 ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão. Trad. de Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 10.10 Questão desenvolvida por Arnold Hauser, História Social da Literatura e da Arte. Trad. de Walter H. Geenen. T. I. 2ª ed. São Paulo: Mestre Jou, 1972.
  • 45. Mirian de Carvalho 47 Considerando os estudos de Hatzfeld, constata-se a amplitude dasmanifestações barrocas. Segundo esse autor, faz-se possível conceber oBarroco por meio de traços estilísticos, englobando vários séculos demanifestações artísticas e literárias. Com base nessa amplitude, o pen-samento desse autor nos serviu de base para fundamentar cronologica-mente o Endobarroco e nele circunscrever características imagético-se-mânticas que surgiram no Renascimento e, por meio de variações, che-gam aos tempos hodiernos. Mas, atualmente, as oposições revelam ou-tros sentidos, não mais arraigados à finitude e à infinitude, como no sé-culo XVII. Essas oposições agora revelam mudanças concernentes aouniverso das Artes e da Literatura, que, através dos tempos, aderindo atemáticas e problemáticas diversas, configuram neste ensaio a noção deEndobarroco. Nessa amplitude cronológica, porém não ampla como o“barroco” orsiano, consideramos relevante mencionar questões relativasao Barroco no Brasil: uma vez que, assim como o Barroco europeu, oBarroco no Brasil é uma expressão do Endobarroco.4.2. O Barroco no Brasil: um Endobarroco Refletindo sobre os desdobramentos do Barroco no Brasil, torna-se possível constatar nas Artes e na Literatura um desvio, senão um aba-lo, com referência ao princípio de identidade, em face das diversidadesculturais e étnicas convivendo em terras brasileiras. Esse impacto cir-cunscreveu-se ao plano das identidades cultural e subjetiva, subsumin-do singularidades nas manifestações estéticas. Congregando traços que,de certa forma, o relacionam e desviam do Barroco europeu, o Barrocono Brasil integrou uma vertente popular. Quanto a essa questão, note-se que, extremamente diversificado, o Barroco na Europa igualmentesubsumiu facetas populares ao direcionar-se a metas pedagógico-religio-sas11. Ainda que com o mesmo propósito, no Brasil as incursões barro-cas ocorreram de modo peculiar, legando ao colonizador traços cultu-rais, que foram absorvidos em face da confluência de etnias diversas,ressonando no plano estético. Tais confluências dentre outras circuns-tâncias, aqui se acentuaram a par da “cultura portuguesa” absorvendoherança estética de outros povos, em decorrência da mão-de-obra afri-cana e indígena deixando vestígios explícitos nas expressões artísticas,e vestígios implícitos às expressões literárias, denotando esse contatocultural.11 HAUSER, Arnold. Op. cit., pp. 555-569.
  • 46. 48 Metamorfoses na Poesia de Péricles Prade Na Literatura, considerando-se uma época de poucos leitores, des-tacam-se as palavras catequéticas, que, voltadas para finalidades peda-gógico-religiosas, atingiam seu objetivo através de temática condizentecom a compreensão popular. Mas igualmente ressalte-se: “Nas mãos deum pugilo de poetas e oradores sacros, esse barroco luso-brasileiro che-garia a ombrear com a produção dos escritos da metrópole.”12 Quanto àoratória, sobretudo visando à compreensão por parte do povo, ela seapresentava eivada de oposições, acentuadamente no tocante às imagens- ponto áureo no Barroco. Do ponto de vista literário, muitos desses tex-tos alcançaram certa autonomia “dentro de uma perspectiva já brasilei-ra”13, ou seja, as incursões barrocas adquiriram desenho próprio, comvariações que atingiam segmentos sociais diversos, porém preservandotraços básicos, que aqui se expandiram com suas contradições e diferen-ças estéticas. No Brasil, o colonizador convivia com mesclas culturais propí-cias ao contacto com oposições ideativas tais como: coisas terrenas e coi-sas celestes, razão e fé, imaginação e racionalidade, luz e sombra, con-duzindo símbolos e manifestações no plano das Artes e da Literatura,com exacerbada recorrência à imaginação. Voltando-se para os costu-mes, na poesia satírica de Gregório de Matos localizam-se fortes oposi-ções, que, integradas ao ritmo, dizem o andamento das imagens transi-tando entre o sagrado e o profano. Na poesia de Matos, as oposições,ainda que atenuadas, ressurgiram nas instâncias do lirismo e atingiramo religioso-confessional nos versos do poeta. Mas em todas essas eta-pas, em maior ou menor grau, há marcantes contrastes. Do mesmomodo, enfatizando opostos, destacam-se os Sermões de Vieira, pois, vi-sando à conversão dos gentios, o autor imprimiu à linguagem figuras queenfatizam comparações entre opostos, mediante busca de sentidos apartir da fala. Nesse clima propício à imaginação poética, deve ser consideradaa plasticidade originária do Barroco, intensificando-se em terras daquie percorrendo nossa Literatura em escritos de naturezas diversas. Osestudiosos destacam textos com valor de crônica, tal como o registro doevento cívico e religioso referente às “solenes exéquias de Dom João V”,12 MERQUIOR, José Guilherme. De Anchieta a Euclides. 3ª ed. Rio de Janeiro: Top- books, 1996, p. 29.13 AVILA, Affonso (org.). O Lúdico e as Projeções do Barroco. Vols. I-II. São Paulo: Perspectiva, 1994, p. 45.
  • 47. Mirian de Carvalho 49bem como os sermões pronunciados em igrejas brasileiras14. Segundoesse autor, tais registros, ainda que não representem fato literário signi-ficativo, posicionam-se como fato barroco regional, e, como tal, apre-sentam grande relevância para os estudos do Barroco no Brasil15, cujasmanifestações se relacionam ao Barroco europeu, a ele se filiando pormeio de aspectos políticos, econômicos, ideológicos, religiosos, cientí-ficos, dentre outros, refletindo-se nas oposições concernentes às ima-gens. Porém, esses exemplos, que vão da sermonística e das cartas aoplano da poesia, marcam desde então a presença do Endobarroco noBrasil, implicando expressões artísticas e literárias caracterizadas pelaordem das imagens, conduzindo internamente tensões reveladoras dedesvio ou abalo relativo ao princípio de identidade na instância cultu-ral, ou em outra perspectiva. Refletindo paradoxos ante a terra descentralizada que se expandiana extensão da Colônia, com acentuadas diferenciações o Barroco noBrasil relaciona-se ao Barroco europeu, que, por sua vez, se relaciona acertos fatos históricos metaforicamente barrocos, ou seja, originariamen-te endobarrocos, do ponto de vista do pensamento em contacto e/ou emconflito com diferenças, que se demarcam a partir das Grandes Nave-gações. Numa visão não afeta ao Seiscentismo, esses fatos não definemcronologias estilísticas. Quanto às mesclas culturais, pode ser dito queno Brasil as expressões artísticas, e posteriormente as literárias, emer-gem em clima endobarroco, revelando-se nas primeiras manifestaçõespopulares, como a elaboração de ex-votos. Relembre-se que essa obser-vação não se refere à periodicidade histórica, mas à mundivisão implí-cita à confluência de pensamentos e simbolismos diversos. Congregan-do manifestações culturais heteróclitas, nosso “barroco” fervilhou numcadinho de diferenças, que se configuram no Endobarroco. Longe daEuropa, ele absorveu de modo singular a polimorfia e o hibridismo afe-tos a uma estética aberta à convergência de etnias várias. Sob esse pris-ma, se os Sermões de Vieira encarnaram estilística de berço europeu, suatemática e sua imagística enraízam-se nas diversidades das terras daqui. Desviando-se dos padrões da cultura européia, a Literatura Brasi-leira desenvolveu-se sob forte influência do imaginário, face à experiên-cia da nova terra e ao ineditismo dos costumes. Não se trata da nova terrado ponto de vista geográfico. Mas da terra enquanto lugar aberto à ima-14 AVILA, Affonso (org.). Op. cit., p. 225.15 Idem.
  • 48. 50 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeginação. Enquanto quimera tangível na natureza e na cultura. Longedaqui, missivistas e leitores concebiam imagens no plano textual. E omundo indígena e a natureza eram representações no imaginário. Oumundivisão contemplativa. Mas, para os que aqui viveram, a quimeratornara-se experiência sensível. Nas Artes e na Literatura, a imaginaçãotornada tátil atuou de modo inexorável, desdobrando-se múltiplice einventiva nos caminhos do Endobarroco entendido como fenômeno derenovação. O Endobarroco sempre se revela em processo, encarnandono plano estético uma ontogênese, que se impõe sobre o estabelecido.Com passagem pelo Romantismo, esse mesmo trabalho da imaginaçãoressurgiu no Simbolismo na poesia de Cruz e Souza16, bem como emoutros autores, e chegou ao Modernismo em desdobramentos que alcan-çaram aspectos diferenciados, entre desvios do estabelecido. Esse desvio do estabelecido atingiu outros desdobramentos, poden-do relacionar-se à eclosão de imagens a partir, por exemplo, do planotemático, tal como em Cobra Norato, de Raul Bopp; ou a partir do pla-no ideativo, tal como ocorreu em Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima17;e na poesia de Carlo Pena Filho18. Esse mesmo desvio do estabelecidopode deflagrar-se ainda em jogos de palavras e de idéias, e em imagensinusitadas, tal como em vários momentos da herança simbolista emCecília Meireles19, dentre outros autores que apresentam incursões en-dobarrocas. Entre variações, tais circunstâncias verificam-se hoje napoesia de autores que se desviam do Modernismo. Porém, este apresen-tou incursões endobarrocas, como as mencionadas. Mas, por outro lado,note-se que no Modernismo desenvolveu-se uma vertente “clássica”,inserindo-se nesse caso a poesia de Henriqueta Lisboa20. E certos poe-mas de Manuel Bandeira21 e de Vinícius de Moraes, bem como versos16 Dentre vários exemplos, destacam-se os sonetos: “Alma Solitária” e “Cavador do Infinito”. Últimos Sonetos. Florianópolis/Rio de Janeiro: UFSC/Casa de Rui Barbo- sa/Fundação Catarinense de Cultura, 1984.17 Consulte-se especialmente a Parte XIV do Canto II, Invenção de Orfeu. São Paulo: Aguilar/Círculo do Livro, s/d.18 De Carlos Pena Filho consultem-se os poemas: “A Palavra”; “A Solidão e sua Por- ta”; e “Soneto ao Recanto”. Os Melhores Poemas de Carlos Pena Filho. Seleção de Edilberto Coutinho. 4ª ed. São Paulo: Global, 2000.19 De Cecília Meireles, dentre inúmeros exemplos, veja-se o poema “Epitáfio da Na- vegadora”. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983.20 Consulte-se o poema “Convite”. Casa de Pedra. São Paulo: Ática, 1980.21 Consulte-se o poema “A Canção das Lágrimas de Pierrot”. Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986.
  • 49. Mirian de Carvalho 51de outros poetas, ainda que na obra de Vinícius constatem-se algumasafinidades endobarrocas, tal como ocorre em alguns sonetos, destacan-do-se aqui o conhecido verso: “Que seja infinito enquanto dure”22; reu-nindo oposições e fusão de idéias concernentes ao espaço e ao tempo. Corroborando a idéia de Endobarroco, observe-se que, não cono-tando estilo, seus traços permeiam manifestações diversas afetas às Ar-tes e à Literatura. Implícitas ao Endobarroco, surgindo hoje como trans-gressão de alguns aspectos do Modernismo, bem como do próprio Pós-Modernismo. Quanto às manifestações hodiernas, os elementos demar-cam-se de modo singular, mas sempre relacionados a tensões intrínse-cas às imagens. Seguindo trajetória variacional, o Endobarroco atravessaos tempos, integrando transformações afetas às mudanças socioculturais,e a ele se filiam expressões artísticas várias, abrangendo, por exemplo,letras de música, em especial as produzidas nos idos de 1960, tal comopode ser verificado no ensaio de Perrone23, relacionando-as ao Barroco. Com características endobarrocas, a poesia de Prade apresenta sin-gularidades afetas a poética das metamorfoses: uma poética fundada emtensões implícitas às imagens, porém transgressoras da metáfora e dosímile, ao aderirem aos recursos pautados no encantatório. Na poesia dePrade, os opostos reúnem homem e mundo, homem e natureza, corpo emente, destacando jogos de idéias e de palavras, descostruindo o signoe a cultura. A poética de Prade revela-se ontogênese, criando Unicórnios,dragões e animais personificados, ou criando objetos e lugares animi-zados, que participam das qualidades da matéria que se transforma emimagens ditas pelo logos poético. Em conformidade com esses traços,na poesia de Prade define-se revelador intimismo, que, de modo para-doxal, conduz o eu poético ao plano da urbe, numa relação com o hu-mano e com a solidão. Ainda que enraizada no encantatório, a poesia dePrade se expande nos espaços da rua. Habita lugares onde a solidão nãose faz ideal romântico. Nem concepção metafísica do existir. Nos versos de Prade enraíza-se uma solidão poética. E, por serpoética, ela habita o instante. Em fuga da eternidade. Em fuga da repe-tição. Habitante do tempo poético, a solitude atua em movimentos desolidariedade. Na obra Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicór-22 Antologia Poética. 24ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983, p. 77.23 “De Gregório de Matos a Caetano Veloso e ‘Outras Palavras: Barroquismo na Músi- ca Popular Brasileira Contemporânea’”. In ÁVILA, Affonso (org.). Barroco - Teo- ria e Análise. Coleção Stylus. São Paulo/Belo Horizonte: Perspectiva/Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, 1997, pp. 333-347.
  • 50. 52 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradenio, o poeta realizou um cântico à solidão. Pomba branca. Touro alado.Osíris desmembrado. Unicórnio. Todos esses seres relacionam-se a sen-timentos, paixões e atos dos humanos. Todos assumem momentos demetamorfose do Homem em Unicórnio, ou em outro ser encantado. Evice-versa. Todos caminham pela cidade. Todos eles se tornam parado-xais. Completam-se no amálgama das oposições. Todos caminham pelaimaginação mítica, mas nesse percurso encontram o mito desconstruí-do. Nas instâncias imaginativas relacionadas ao Endobarroco, destaca-se a recorrência às imagens míticas. Mas na obra de Prade o mito nãose revela nem como narrativa, nem como crença. Trata-se de descons-trução do pensamento mítico, bem como das oposições binárias intrín-secas ao mito, subsumindo claro senso de revisão da realidade do mun-do visto por aguçado olhar. E por sofrido lirismo enraizado nas coisasanímicas, tangenciando o sentimento do desconhecido gerado pela des-construção do absoluto. Nesse caminho vivem em simultaneidade solidão e errância. Lon-ge do absoluto, resta a poesia. E, ainda que visitando os mitos, por serPrade um estudioso do pensamento mítico, ele se esquiva do irraciona-lismo. Mas se apropria do inverossímil, enquanto desvio da verossimi-lhança externa, em distanciamento do absoluto. Mas, longe do absolu-to, há desamparo. E solitude. Solitude da imaginação poética acompa-nhando o caminhante em esquiva desse amparo, que o sufoca e imobi-liza. Aos desígnios da imaginação, ocorre um diálogo das diferençasgerando imagens imiscuídas no sentido trágico da existência. Tal comonos poemas de Jorge Luis Borges ou de Saint-John Perse, na poesia dePrade as imagens voltam-se para a captação desse sentido trágico daexistência: sentido esse que se vê desconstruído pelo poético cantandoa vida. Cantando a vida à imagem do Unicórnio. Em esquiva do paraí-so do discurso. Em esquiva da morte. Em transformação, e habitante dacontemporaneidade, o eu poético traz o encantatório ao espaço poético,que lhe serve de habitat, ao questionar as fronteiras da cidade. Assumin-do viés irônico, em sendo solidária ao tempo da vida, a poesia de Pradetem alcance social, no sentido de desestabilizar o estabelecido: No futuro a lança entre mil livros será mais que objeto, talvez a face dos tempos, venenos de sólida forma2424 PRADE, Péricles. “O Escorpião Sonolento”. Nos Limites do Fogo. São Paulo: Mas- sao Ohno, 1979, p. 5.
  • 51. Mirian de Carvalho 53 Tal como nos versos descentrando significados e convenções nes-sa junção da forma e do veneno, em sua poética, Prade descentra o con-ceito e o absoluto, e desmonta os simbolismos da cultura. E cabe à suapoesia observação, em princípio relacionada à prosa do autor, ao afir-mar-se que ele “manteve a cada instante a ratio estrutural acesa e vigi-lante em direção ao um objetivo único: criticar com ironia - e o melhorcaminho para a ironia é o onírico - os sonhos da individualidade burgue-sa”25. Se objetivo único, não se faz nossa a afirmativa. Mas esta via émarcante na poética de Prade. Para desviar-se das ilusões da sociedadeburguesa, o autor busca e encontra uma razão em diálogo, que abala aordem da urbe. E dos mitos da urbe. Não só os mitos arcaicos, mas so-bretudo os “mitos hodiernos” se desfazem nos desdobramentos da poé-tica das metamorfoses, compondo o universo da imaginação poética.25 RONALD, C. “A Aventura Criadora de Péricles Prade” (Prefácio). In PRADE, Péri- cles. Os Milagres do Cão Jerônimo. 5ª ed. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1999, p. 12.
  • 52. 54 5 - O Universo da Imaginação na Poética das Metamorfoses No joelho direito e rico Messalina devorando o fâmulo e Mescalina caindo entre os dedos de Adamastor, este roedor de unhas pandas se Camões nos bolsos não trouxer sereias1. Não sou um dos filhos de Egeu nem o sobrinho de Palas mas vejo sangue nos alvos de Creta25.1. A Desconstrução do Mito Na produção poética de Prade encontram-se inumeráveis referên-cias míticas, inserindo-se nas várias obras. Pressentimos o tropel dosCavalos de Diomedes. No Oriente e no Ocidente surgem profetas dizen-do sina e destino do homem. Das arcádias aos desertos, esfinges pro-põem enigmas, enquanto divindades solares marcam as horas. E as lu-nares sonorizam as noites, ou o dia. Personagens históricos e míticoscaminham pelas ruas. Poetas e filósofos habitam o dia-a-dia da cidade.Reis e marinheiros desnudam à flor da pele o dom da mortalidade. Ani-mais encantados e deuses convivem com os humanos. Surgidos da tran-substanciação alquímica, seres andróginos deixam prole e revelam suamatéria originária. Gigantes dos mares e coisas animizadas aproximam-se das paisagens íntimas em trilhas indicando cartas de Tarô. Ou mapasastrológicos. Mitos e lendas de todas as regiões são referidos na poesiade Prade. Mas, observe-se, ao andamento da poética das metamorfoses,as referências míticas transformam-se ao curso do encantatório. Nesseprocesso, desfaz-se a condição arcaica do mito. Seres e acontecimentos que tangenciam esquemas do pensamentomítico e seus congêneres surgem na poesia de Prade através de descons-truções. Em seus versos, a instância mítica revela-se matéria poética.Seguindo o encantatório, a poesia de Prade mostra-se dádiva do traba-lho da imaginação produzindo imagens, que confirmam o dito filosófi-1 PRADE, Péricles. “Aparência”. Jaula Amorosa. Florianópolis: Letras Contemporâ- neas, 1995, p. 26.2 PRADE, Péricles. “A Espera”. Jaula Amorosa, op. cit., p. 63.
  • 53. Mirian de Carvalho 55co: “Aqui o passado cultural não conta; o longo trabalho de relacionare construir pensamentos, trabalho de semanas e meses, é ineficaz”3; vistoque, na poesia, a imagem nega a tradição cultural. Na poesia de Prade,ao desconstruir-se a tradição cultural, as instâncias míticas explicitam-se como símbolos. Não como signos. Observe-se que, do ponto de vis-ta poético, o símbolo não se submete nem à linguagem enunciativa, nemà pura abstração. Torna-se ambivalente e/ou polivalente. Explicita osditos e os não-ditos. Mantendo vínculo com o sensível, o símbolo nãoaceita as rédeas do discurso encadeado, como via definidora da realidaderecortada pela razão direcionada à unidade e ao fechamento. Atuando fora do encadeamento discursivo, o simbólico não perdede vista a experiência primeira das coisas e do mundo. Ainda que possaremeter ao abstrato, o símbolo fundamentalmente se reúne ao sensível,indicando sinestesias. Além dos significados que possam relacioná-loaos planos lingüístico e metafísico, há movimento. Errância. Entretan-to, Prade desconstrói o próprio símbolo, retirando-lhe a dimensão abs-trata, ao acolher-lhe a raiz onírica para atingir semânticas abertas antesdo simbólico, existentes antes do mundo do significado. Priorizando osmeandros da imaginação, o poeta chega às coisas do cotidiano, em buscada substância deflagradora do simbólico. Na poética das metamorfoses,a matéria do sonho revela-se bruta. Revela-se primordial à imaginação.O que resta do simbólico mostra-se matéria das imagens realizadas nopoema. Na poética de Prade, a simbologia mítica substancializa-se namatéria imaginada. Nascidas dos elementos, as imagens são outras quenão as do mito. E o logos poético emerge distanciando-se da narrativapertinente às mitologias. Quanto aos significados de natureza mítica na obra ficcional des-se autor, merece destaque observação que também se faz pertinente àpoesia: “O escritor então não é o crente que aceita a integridade dosmitos, é o irreverente que os contesta. Se cria em cima dos mitos, nãoos transfere apenas. A sua criatividade não permite que os mitos che-guem à ficção ainda em sua primitiva condição. Todos os elementos uti-lizados formam já o texto especificamente.”4 Através de irreverênciacontestadora, Prade não só desestabiliza as verdades míticas, mas exal-ta diferenças que se exacerbam na tessitura poética, contrariando o imu-tável e a linearidade da narrativa mítica. Seja na errância do Unicórnio,3 BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. Trad. de Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 1.4 SILVA, Luz e. O Cão e o Alçapão. São Paulo: Editora do Escritor, 1999, p. 79.
  • 54. 56 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeou em visitação a Creta, ou às Sereias, o poeta desvencilha-se do arcaís-mo para trazê-lo ao mundo hodierno. E, se ele recorre a oposições, elasnão se mostram regidas pelo binarismo excludente de uma terceira pos-sibilidade e de tantas outras. Em seu percurso poético, entre metamor-foses que se exacerbam na errância do Unicórnio, Prade enfatiza a mul-tiplicidade de sentidos atribuídos ao nome. Enfatiza a transformação ea mudança do nome, através de imagens inusitadas. Quanto a esse pro-cedimento, Maria del Giudice5 observa na obra de Prade uma tentativade superação dos esquemas e convenções, numa constante busca de ori-ginalidade e renovação artística. Destacando a originalidade formal nos escritos de Prade, a autorareconhece na obra do poeta um sentido misterioso da vida relacionan-do-se a um viés barroco na acepção latino-americana, conduzindo opo-sições que exaltam a trágica contenda existencial6. De fato, na obra poé-tica de Prade encontram-se oposições relacionadas ao sentido trágico daexistência. Mas essas oposições burlam a antítese vida e morte, porque,figurado pelo fantástico, o existencial volta-se para as potencialidadesda vida e do viver. Volta-se para o ato de viver. Volta-se para o viver atu-ante. Eivado de contrastes, esse existencial abrange e enraíza-se numaconvivência com a urbe, abrangendo-a entre jogos de idéias em fuga doabsoluto. Unicórnio em metamorfose, a razão desapropria-se dos signi-ficados afetos ao signo e setoriza-se no logos poético à escuta da ima-gem. Numa prática já inscrita nas primeiras obras do autor, sua poesiacondensa estratos filosóficos indutores do pensamento divergente. Nesseponto, pode parecer contraditório o argumento que afirma a desconstru-ção das antíteses e, ao mesmo tempo, admite o pensamento divergente.Mas aqui não há contradição. Ao desconstruir pólos antitéticos, atravésde jogos de idéias, elabora-se pensamento divergente, porém esse pen-sar não se atrela ao binarismo. Por isso, cabe mencionar e enfatizar napoesia de Prade os contrastes e paradoxos, desmascarando o absolutono plano metafísico. E desmascarando o imutável no plano cultural. Realizando esse desmascaramento, em Além dos Símbolos expli-cita-se uma poética do caos, atribuindo novos sentidos ao simbólico e/outransgredindo simbolismos e desconstruindo o discurso e a cultura. Tra-ta-se de procedimentos que se intensificam na obra Em Forma de Cha-ma: Variações sobre o Unicórnio, por meio das metamorfoses desse5 Realismo Simbolico e Surrealismo Paradossale. In FIGUEIREDO, Guilherme e PRA- DE, Péricles. Palermo: Italo-Latino-Americana, 1980, p. 9.6 GIUDICE, Maria del. Op. cit., pp. 37-38.
  • 55. Mirian de Carvalho 57fabuloso ser dos múltiplos corpos. Das múltiplas origens. E das múlti-plas andanças. Através das Variações, o eu poético emerge em lingua-gem errante. Observe-se que, ao transcender à metáfora e ao símile, poranalogia denominamos metamorfose poética a essa ontogênese de cu-nho fantástico, que encarna a figura máxima da desestabilização dosconceitos, dos padrões, dos espaços e tempos atrelados à ordem do dis-curso. Produto da imaginação, as metamorfoses subsumem variações docorpo e do nome do Unicórnio, afastando-se dos critérios que dirigemo pensamento ao Uno. Eis que, transgredindo o signo, a metafísica e omito, deflagram-se sentidos que ultrapassem os limites da unidade e damultiplicidade. Do mito às imagens e ao logos, instaura-se uma onto-gênese do fantástico. Se os comentaristas divergem quanto à diretriztécnico-estilística na obra de Prade, as observações desses teóricos,abrangendo seja o texto ficcional, seja a poesia, encontram univocidadena alusão ao mito e/ou a seus congêneres relacionados à obra do autor. Esoterismo. Fábula. Saga. Astrologia. Magia. Cabala. Folclore.Alquimia. Tarô. Estas e tantas outras instâncias simbólicas inserem-sena poesia de Prade. Porém, pondo em xeque esquemas arraigados amodelos, os escritos de Prade não só se esquivam dos ditames do pen-samento mítico enquanto irracionalismo, como também se distanciamdo arcaísmo. Seguindo a errância do Unicórnio, o leitor se apercebe deque o fabuloso animal torna-se nome e corpo em transformação. Emtransformação, ele carrega consigo o dia e a noite. Ele carrega consigotempos transitivos e reversíveis. Ele carrega consigo o fogo transforma-cional que o conduzirá ao espelho d’água. No poema, os termos chamae água não são nomes atribuídos aos elementos. São matérias que setocam. Matérias que se misturam. Que se correspondem na existênciado Unicórnio. Ser encantado. Ser da fábula. Ser do cotidiano. Ser dologos. Dando curso ao poético, Prade apreende a plasticidade originá-ria das expressões endobarrocas, que prismatizam o mundo e a vidaapreendidos em escorço, quando imagem, sentidos e errância se dizemno logos poético. E esse dizer não narra. Esse dizer realiza o encantató-rio fora dos limites do pensamento mítico. Mencionando a presença do mito na obra de Prade e destacando aimportância do fantástico no campo da Literatura, Gianfranco De Tur-ris7 alude ao mito como princípio de um povo referido através de narra-7 “Prefazione”. Frontiere dell’Immaginario: Mito e Rito nella Scrittura di Péricles Prade. Palermo/São Paulo: Italo-Latino-Americana, 1987, p. 7.
  • 56. 58 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradetivas de acontecimentos aceitos como verdades. Trata-se de fatos que,segundo o autor, surgem, ao sabor da civilização, renovados e revistosatravés de várias manifestações culturais. Às palavras desse teórico, coma decadência das civilizações, os conteúdos míticos migraram para aslendas, sagas, estórias populares, e também para o folclore, para as fá-bulas e epopéias, sugerindo valores relativos ao mito, com símbolos econceitos camuflados8. Porém, observe-se, a poesia de Prade não suge-re símbolos nem conceitos camuflados. Sua poética não representa ale-goria transposta à urbe. E, em pertencendo ao universo poético, atémesmo a Epopéia dos antigos não traz vestígios restritos ao histórico,mas inaugura cidades e civilizações de natureza poética, assim como aEpopéia do Unicórnio inaugura a fábula poética, transgredindo o mitoe o simbólico, repetimos. Nas mutações do Unicórnio não há camufla-gem referente a verdades anteriores. Há imagens primeiras, descons-truindo o próprio simbólico. Dito pelo poético, o pensamento mítico perde seu estatuto origi-nário, uma vez que nas imagens a recorrência aos arquétipos não obe-dece a causalidades advindas do passado. Se nesse campo se supõe “arelação entre uma imagem poética nova e um arquétipo adormecido nofundo do inconsciente, será necessário explicar que essa relação não épropriamente causal”9. As lendas não são representações na poesia dePrade. Sua poética inicia-se na imaginação da matéria. Mas não há pontofixo. Não há imobilismo. Na errância do Unicórnio ocorre movimentode reversibilidade: se o mito se refere aos primórdios da civilização, nospoemas de Prade ele ressurge através de arquétipos mobilizados pelapoesia invertendo o curso cronológico. Em sentido oposto ao das cau-salidades formal e eficiente, a poética mobiliza os arquétipos por meiode uma reversibilidade ocasionada pelas imagens. Não se trata de umrefluxo do passado ao presente no tempo sucessivo: “É antes o inverso:com a explosão de uma imagem, o passado longínquo ressoa em ecos ejá não vemos em que profundezas esses ecos vão repercutir e morrer. Emsua novidade, em sua atividade, a imagem poética tem um ser próprio,um dinamismo próprio.”10 Através do poético, a fábula torna-se hodier-na. Atualiza o pretérito. Então, esse “passado” é outro, que não o quese perdeu no tempo antigo.8 Idem.9 BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço, op. cit., p. 2.10 Idem.
  • 57. Mirian de Carvalho 59 Seguindo a fábula do Unicórnio poético, sem a mediação do sig-nificado e do significante, ela se distende. Não como um passado trazi-do pela memória, mas numa trama cujas partes podem ser trocadas delugar. Iluminado pela chama, o Unicórnio torna-se chama. E inicia aven-tura que lhe permite desacorrentar Prometeu. Senhor do fogo poético,tal a chama - o belo animal transmuta-se. Do luminoso e solitário cornoque o adorna, o Unicórnio recolhe sua matéria primordial - o fogo. Apoesia nasce nas experiências da matéria imaginada, aquiescendo aosnão-ditos. Do mito à poesia. Do homem à cidade. De metamorfose emmetamorfose, na poesia de Prade transparecem mesclas ideativas e es-téticas advindas do Endobarroco, insurgindo-se nos contrastes que seiniciam nas matérias imaginadas. Ao criar imagens, a imaginação pro-duz espaços e tempos de natureza poética. Espaços e tempos que nas-cem do encontro da imaginação e dos elementos.5.2. A Imaginação e o Espaço Poético Dentre as várias características do Endobarroco, enfatizamos comoponto nodal o estrato imagético-semântico. Em desvio do princípio deidentidade e da razão absoluta, as imagens carregam oposições e/ou di-ferenças que se articulam em jogos de idéias e de palavras, declarando-se sob algum aspecto como desvio do estabelecido. Esse desvio podeapontar para um estilo vigente, ou para convenções no plano sociocul-tural, ou para o plano cosmológico, dentre várias possibilidades, talcomo ocorreu com o Heliocentrismo, que, antecipando-se ao Seiscen-tismo, se reflete de vários modos nas concepções artísticas e literáriasafetas ao Barroco. Do mesmo modo, bem antes do Barroco, as GrandesNavegações, revelando-se princípio ideativo transformador do conheci-mento vigente à época, insurgiram-se na imagística dos Lusíadas. Masaqui não há critério vinculado à causalidade eficiente. Há relações pos-síveis entre simbolismos e concepções ideativas em busca de caminhos.Seguindo a imaginação das águas, as Navegações atuaram como focode pensamento divergente, confluindo no imaginário poético. Do mes-mo modo, na poesia de Dante, a escrita em língua vernácula deflagranovas incursões imagéticas. Notem-se, sobretudo na Divina Comédia,os contrastes entre os versos alusivos ao “Paraíso” e ao “Inferno”, comooposições articuladoras da obra, realizando-se com suas matérias origi-nárias consubstanciadas no ar e no fogo. Sob impacto dos contrastes de cunho endobarroco, Prade escolheuas matérias que convêm à sua poesia. Das serpentes dos primeiros poe-mas ao Unicórnio-do-chifre-em-forma-de-chama, tal como ocorre na
  • 58. 60 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeontogênese afeta ao trabalho dos pintores, na poesia há produção deoutras matérias e seres11. O mundo e seus habitantes animados ou ina-nimados brotam dos elementos, através das imagens poéticas: “Pede-sea um leitor de poemas que não encare a imagem como um objeto, mui-to menos como um substituto do objeto, mas que capte sua realidadeespecífica.”12 Sob esse prisma, deve ser ressaltada essa captação da rea-lidade específica da imagem nascendo dos elementos, numa ontogêne-se realizadora de espaços com qualidades poéticas. Trata-se de umaontogênese de seres do espaço, dando existência às imagens do espaçoe realizando lugares intrínsecos ao poético. Esses acontecimentos sãoregidos por temporalidades poéticas. Do ponto de vista do espaço, torna-se possível confirmar na obrade Prade uma fusão das substâncias fundantes de suas imagens: o fogoe a água. Eles criam lugares propícios aos seres e acontecimentos poé-ticos. Paisagens e interiores criados pela imaginação constituem espa-ços poéticos. Vazios e cheios, assim como posições e localizações, en-carnam espaços poéticos. Tudo aquilo que nos acolhe na poesia se fazespaço, isto é, lugar habitado pelo poeta e pelo leitor. Pequenos objetosou coisas que imaginamos fora dos parâmetros da objetividade, ou gran-des extensões que nos envolvem, dimensionam-se espaços poéticos. Oscofres, as gavetas, os armários, os cantos, as conchas, os ninhos, todossão lugares habitados pela imaginação, tal como as correspondênciasque estabelecemos entre o interior e o exterior dos lugares e das coisas,entre o aberto e o fechado, entre a miniatura e a amplidão. Na poesia, aimaginação funda espaços13. E a casa concentra grande potencial ima-ginativo. Mas a casa torna-se o lugar onde habitamos. Ela se enraíza emespaços íntimos. Ela se define como lugar onde habitamos a poesia. Na poética das metamorfoses, as referências a lugares circunscri-tos à fábula poética subsumem coisas e seres quiméricos realizados pelaimaginação, tecendo qualidades espaciais. Criando superfícies. Profun-didades. Densidades. Espessuras. A imaginação habita lagos, alturas,terras e rios imagéticos. Ela personifica animais. Personifica e/ou ani-11 Quanto à questão da ontogênese, consulte-se o ensaio “O Pintor Solicitado pelos Elementos”, bem como outros textos de Bachelard constantes da Parte I de O Direi- to de sonhar. Trad. de José Américo Pessanha e outros. São Paulo: Difel, 1986. Con- sulte-se também a obra de Vincent Thérrien, La Révolution de Gaston Bachelard en Critique Littéraire. Paris: Klincksiek, 1970.12 BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço, op. cit., p. 4.13 Os exemplos aqui mencionados fundamentam-se em Bachelard, A Poética do Espa- ço, op. cit.
  • 59. Mirian de Carvalho 61miza coisas. Nesse universo do espaço poético, vivem Unicórnios eoutros seres encantados. Peixes. Pássaros. Feras. Divindades. Caixas.Cofres. Nos versos e na prosa poética de Prade, reúnem-se coisas, lu-gares e seres de fábula. Nesse sentido, o espaço inaugura lugares de atra-ção14. O espaço poético mostra-se espaço desejado. Seguindo a errân-cia do Unicórnio, habitamos os lugares que acolhem esse fabuloso ani-mal, ao transformar-se a partir de suas matérias originárias. Nesse Uni-córnio-do-chifre-em-forma-de-chama, o corno torna-se chama. Lugariluminado. Ultrapassando a similitude, a imagem realiza um animal sim-bolizado pelo luminoso. Ultrapassando o simbólico, realiza-se um ani-mal luminoso. E esse lume não é reflexo, mas presença do fogo. Quali-dade do fogo. Elemento movente, na imaginação, o fogo arde. Nas andanças do Unicórnio, as imagens revelam-se encontro damatéria e da imaginação, criando espaços e tempos poéticos15. Quantoa esse liame dos elementos e da imaginação, enfatizamos na poesia dePrade as metamorfoses enquanto processos intrínsecos à imagística e àlinguagem como experiências primeiras. Atribuindo caráter hiperbóli-co e paradoxal à imagística, as metamorfoses concebem o Unicórnioatravés de seres diferenciados: pomba branca, touro, escaravelho, bú-falo e tantos outros que, nos espaços e tempos do poema, integram oUnicórnio. Eles são e não são o Unicórnio. E encarnam igualmente oindiferenciado. O transformacional. Encarnam potencialidades. Errân-cia. Desconstruções do absoluto, nomeando o insólito. Eis o paradoxotransposto ao plano do logos na poética das metamorfoses. Ante a trilha das serpentes nascidas nos primeiros poemas, identi-ficamos na poesia de Prade um parto de seres imaginários. Mas as ser-pentes e o Unicórnio são imagem primeira. Imagem originária. Na poé-tica das metamorfoses, o Unicórnio e outros seres fabulosos são ditospela primeira vez. Balbucio. Nascedouro. Ritmo. Silabação. O poeta trazao leitor uma via de acesso às coisas concebidas ao primeiro olhar - antesda fala. Trata-se de experiências afetas à antelinguagem, emitindo sen-tidos que se desvencilham das seqüências do discurso, que, em sendocaudatário da escrita alfabética16, se articula a uma sintaxe que lhe é14 Temática igualmente desenvolvida por Bachelard em A Poética do Espaço, op. cit.15 O estudo do “instante poético” em Bachelard constitui o ensaio “Instante Poético e Instante Metafísico”, O Direito de sonhar, op. cit. Ainda sobre o tempo na poesia, consultem-se as obras: A Dialética da Duração. Trad. de Marcelo Coelho. São Pau- lo: Ática, 1988; e L’Intuition de l’Instant. Paris: Stock, 1992.16 DERRIDA, Jacques. Gramatologia. Trad. de Miriam Chnaiderman e Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Perspectiva, 2004, p. 3.
  • 60. 62 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeanterior no tempo. E a uma gramática que o norteia. Criando sua pró-pria sintaxe, Prade desvencilha-se das armadilhas dos enunciados dis-cursivos e da esfera metafísica, tal como se ele articulasse pergunta eresposta: - Que opinião tenho sobre as causas e efeitos?17 - Amar é a eterna inocência, E a única inocência não pensar...18 Na poética das metamorfoses, amar é inocência e dádiva, quandoo eu poético cria lugares para acolher o ser amado. Se na poesia de Pra-de tais meandros são espaços de amorosidade, o Unicórnio revela-seamado em seu ninho poético. Em ato de inocência, ele salta do mito parao poema. Habita o poema. Habita os espaços do mundo. Ao percurso daimaginação trabalhando a matéria que se transformará em imagem, criam-se lugares habitados por corpos em metamorfose. E o corpo do Unicór-nio desnuda-se como lugar de amorosidade. Ao batismo das metamor-foses consagra-se o logos. Mas o logos poético mostra-se instantâneo.Surge em esquiva do tempo cronológico exaurindo-se ante o tempo poé-tico. Desarticulando antíteses espaço-temporais, o Unicórnio desmontaos vínculos dos espaços limítrofes e das temporalidades seqüenciais. Navigência do instante poético, desconstroem-se o tempo dos fenômenose os referenciais do tempo no plano sociocultural19. O poético atua noesquecimento do verbo. Pulsa no âmago dos espaços íntimos. E no es-quecimento do tempo sucessivo.17 CAEIRO, Alberto. “O Guardador de Rebanhos”. In PESSOA, Fernando. Obra Poé- tica. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1969, p. 206.18 CAEIRO, Alberto. Op. cit., p. 205.19 Sobre essa questão, consultem-se “Instante Poético e Instante Metafísico”, de Bache- lard, O Direito de sonhar, op. cit.
  • 61. 63 6 - O Tempo na Poética das Metamorfoses Fixo a lâmina o rosto, o tempo16.1. O Instante Poético e o Lugar Poético Na poética de Prade as metamorfoses descentram o tempo da du-ração. Relacionando-se aos trabalhos anteriores, na obra Em Forma deChama: Variações sobre o Unicórnio, o tempo não se constitui relaçãocausal. Nem sucessão. Desdobrando-se em não-ditos, os episódios davida do Unicórnio desconstroem a temporalidade do discurso, posto queas variações do Unicórnio não seguem ordenação sucessiva. Em orde-nação intrínseca ao poema, vislumbra-se o corpo e o nome do fabulosoanimal vivendo o êxtase temporal da transformação, em esquiva do Uno.Nessa Epopéia, do ponto de vista da “narrativa”, os episódios articulam-se tal um mosaico. Nada aconteceu antes. Nem depois. O Unicórnionasce de si mesmo, habitando esses Cantos de errância. Habitando es-paços onde seus atos e mutações ordenam-se em sincronicidade. Ele nãofoi antes peixe. Ele não foi búfalo. Ele não foi Manu, antes de ser pom-ba branca. Ele existe enquanto dragão. Escaravelho. Osíres. Ou outro.No poema de Prade, as transformações do Unicórnio não são diacrôni-cas, e se porventura trocada a ordem dos Cantos, não alteraria a tramado poema. O Unicórnio existe no tempo de atuação das metamorfoses. Na trama poética do Unicórnio, articulam-se impermanência e eter-nidade, para superar a grande antítese figurada na oposição vida e mor-te. Não mais se orquestra a antítese do fugaz e do absoluto, ante a er-rância das imagens inaugurando travessias. Ao conceber o Unicórnio emlugares encantados, o poeta rege os acontecimentos pelo tempo da poe-sia. Em errância, o Unicórnio nasce no instante poético - uma tempora-lidade arredia que eclode no poema para deter-se à configuração dasimagens: “Em todo verdadeiro poema é possível encontrar os elemen-tos de um tempo detido que não segue a medida, de um tempo que cha-maremos de vertical para distingui-lo do tempo comum, que foge hori-zontalmente com a água do rio, com o vento que passa.”2 No tempo ver-1 PRADE, Péricles. “Entre o Fruto e a Linha”. Nos Limites do Fogo. São Paulo: Mas- sao Ohno, 1979, p. 37.2 BACHELARD, Gaston. O Direito de sonhar. Trad. de José Américo Pessanha e ou- tros. São Paulo: Difel, 1986, p. 184.
  • 62. 64 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradetical, os opostos se reúnem. Nessa reunião não há centro. Nada se re-duz ao Uno. Ao real, encrava-se o fantástico. E este se mescla ao real.Nesse encontro não há realidade. Nem irrealidade. Unicórnio, homeme quimera se enlaçam, para suportar e ultrapassar a tragédia do sentidotrágico da existência: a morte. Fixando o sentido do instante que acompanha a imagem, o tempovertical não se atrela à duração. Conseqüência dos atos de atenção, dosenfoques perceptivos e do pensamento, a duração é uma metáfora3, quesubsume a descontinuidade. Na poética de Prade, o instante poéticodessedimenta a duração, posto que, espacializando o signo, a duraçãoarraiga-se ao discurso caracterizando o sucessivo. A duração é uma abor-dagem do tempo cronometrado, uma perspectiva do tempo conduzindoseqüências na instância dos fenômenos socioculturais. Na poesia dePrade, a temporalidade torna-se fenômeno do instante poético. E o ins-tante - ruptura -, tal como o pressentiu a poeta: Eu canto porque o instante existe E a minha vida está completa. Não sou alegre nem triste: sou poeta4. Detido na poesia, o instante poético expõe a ordenação multifor-me das imagens. Visitando as obras poéticas de Prade, ricos são os mo-mentos desse tempo vertical deflagrando simultaneidades, bem comosão ricas as circunstâncias da instauração do lugar poético. A título deexemplo dessa dinâmica do espaço e do tempo regendo os acontecimen-tos imagísticos, em Pequeno Tratado Poético das Asas, Prade vislum-bra a ascensão e a queda da espécie humana, que, seguindo a trajetóriadas aves, sobrevoa e pousa em lugares encantados e terrenos. Sobrevoan-do e pousando com suas qualidades e defeitos, aves e humanos movem-se por lugares imaginários. Se o homem é capaz de tecer a imaginaçãoprivilegiando espaços da casa onírica, com a mesma intensidade eleurde espaços imaginários nos meandros dos objetos que habitamos napoesia. Gavetas, armários, cofres, caixas, vasos - e coisas congêneres -tornam-se espaços poéticos. Em regiões veladas, eles são as casas das3 BACHELARD, Gaston. A Dialética da Duração. Trad. de Marcelo Coelho. São Pau- lo: Ática, 1988, p. 104.4 MEIRELES, Cecília. “Motivo”. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983, p. 81.
  • 63. Mirian de Carvalho 65coisas5. Transformando dimensões do nosso corpo, com eles habitamosessas casas imaginárias. Habitamos simultaneamente lugares abertos efechados. O semi-aberto. E o semifechado. Nos espaços poéticos vive-mos o encantatório, assim como nesse Pequeno Tratado, pássaros e hu-manos comprazem-se em pousar em lugares fantásticos e viajar por lu-gares animizados. Elevando-se. Ou descendo. Mas, por vezes, eles seprojetam no roteiro de ascensão e queda, que os reúne nas simultanei-dades do destino e da sina. Em ângulos diferenciados e circunstânciasdiversas, pássaros e humanos encontram-se no instante poético, que re-úne contrários, diferenças e lugares dissímeis: Ave imortal levada ao Alto pelo grego, mensagem sem peso, tatuagem cifrada que flutua6 No tempo poético, subida e descida podem constituir movimentoscorrespondentes. E constituem ritmos sincronizando movimentos instan-tâneos. Sem peso, a tatuagem do tempo urde a imaginação. Entre subirsem peso e gravar-se tatuagem, o autor rastreia o kósmos das aves. En-tão a imortalidade se faz instantânea - um fenômeno poético. Sempreaquiescendo ao encantatório, Prade se desfaz das causalidades, postoque o tempo vertical encarna “pluralismo de eventos contraditórios en-cerrados num só instante”7. Nesse pluralismo, pássaros e homens encon-tram-se no instante dos percalços e contradições do mundo. Condizen-te com esse tempo vertical, a imagística do pássaro igualmente se recortana obra Nos Limites do Fogo, quando, ao vôo do anjo e da ave, se reú-nem elementos fantásticos, que os levam a lugares oníricos existentesnas coisas - tal o vaso e o cofre em quimérica paisagem. Na adesão aopoético, o espaço ganha qualidades sensíveis. Paisagem e cofre animi-zam-se no tempo simultâneo. Existem no instante. Convergem no ins-tante que se detêm na poesia. Acompanham a fuga do tempo que se de-tém na evasão do instantâneo:5 BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. Trad. de Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1998, pp. 20-21.6 PRADE, Péricles. “Presságios”. Pequeno Tratado Poético das Asas. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1999, p. 23.7 BACHELARD, Gaston. O Direito de sonhar, op. cit., p. 185.
  • 64. 66 Metamorfoses na Poesia de Péricles Prade A paisagem exposta no vaso o anjo medieval sustenta e o pássaro sopra o destino em direção ao cofre8. Objetos. Anjos. Destino. Elementos díspares encontram-se em es-pelho, encontram-se face a face, nos versos e poemas de Prade. Orde-nada pelo tempo vertical, sua obra poética atinge referência auto-sincrô-nica. No tempo vertical as oposições subsumem o encontro das diferen-ças: “No instante poético o ser sobe ou desce, sem aceitar o tempo domundo, que reduziria a ambivalência à antítese, o simultâneo ao suces-sivo.”9 Mas em sendo instante, esse tempo se faz acompanhar da soli-dão, que o habita desde o nascedouro das imagens. Longe do absoluto,e desfeita a cadeia da eternidade, o tempo se concentra em fuga. Cap-tando o tempo em fuga, Prade encontra a solitude poética no instanteintuído como realidade do tempo. Trata-se da solitude como experiên-cia do instante, uma experiência paradoxal de esgotamento e dádiva dotempo10, sempre a morrer e renascer. Fragmentar. E inteiro. Concebidoo tempo como instante, ele pode ressuscitar, mas para isso se faz neces-sário morrer. A morte do tempo, além de nos isolar dos outros, isola-nosde nós mesmos, tornando-nos conscientes da solidão11. Conscientes doisolamento. Imiscuída nesse isolamento existencial, a vida do Unicórnio agar-ra-se ao instante. À solidão. Sob esse ângulo, a consciência de si vê asolidão. O ver se torna solidão do logos em terras do Unicórnio, descen-tralizando o “sujeito” e o encadeamento gramatical circunscrito ao dis-curso. Deslocado do centro o sujeito construtor da sintaxe, o tempo regeo logos, que se torna andarilho do espaço poético. Reunindo as terrasdo dia e da noite, o eu poético realiza travessias. Nessa errância, nasceo Unicórnio das Variações, para comemorar o carpe diem. E para co-memorar o fogo, que lhe coroa a cabeça. Na obra poética de Prade, ofenômeno da verticalidade do tempo integra-se ao topos carpe diem. Noinstante, intuímos o carpe diem, posto que o instante nega as seqüên-8 PRADE, Péricles. “Hermananto”. Nos Limites do Fogo. São Paulo: Massao Ohno, 1979, p. 31.9 BACHELARD, Gaston. O Direito de sonhar, op. cit., p. 184.10 Questão centralizada na obra L’Intuition de l’Instant (Paris: Stock, 1992), de Gas- ton Bachelard.11 BACHELARD, Gaston. O Direito de sonhar, op. cit., p. 13.
  • 65. Mirian de Carvalho 67cias e a eternidade. Nem passado. Nem futuro. Esse tempo do “agora”fugidio atua de modo diverso do tempo idealizado no discurso, que re-corre ao passado. E direciona-se à eternidade, através da norma grama-tical e da ordenação lógica. Reunindo consciência de si e da solidão, Prade desmistifica o sta-tus quo das coisas imutáveis. Para isso, ele desmonta o discurso atravésde uma semântica atuante fora dos referenciais afetos ao signo. E ope-rante no tempo das sucessões que conduzem o significado e o signifi-cante. Para isso, a imagística de Prade conduz contrastes e aproxima-ções. Nesse paradoxo, o Unicórnio se assume um ser de transitividade.Expectativa. Êxtase. Transitório e instantâneo, o animal encarna o tem-po poético. E se reveste do carpe diem, determinando-se topos anuncia-dor dos processos vitais do “agora” - de um “agora” participativo: atuan-te no tempo em que o eu poético se reconhece em ato. No tempo preté-rito, tudo se distancia entre memória e/ou esquecimento. Do que virádepois, nada sabemos. O tempo realiza-se no instante, direcionando-seao carpe diem. Mas não há frivolidade nem descaso no carpe diem. Elese torna condição e momento decisivo que, percorrendo a poesia doautor, se exacerba em Além dos Símbolos, e expande-se na obra Em For-ma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, como ímpeto das Varia-ções. No carpe diem intui-se o momento da consciência de si.6.2. O Carpe Diem No conjunto das obras poéticas de Prade, o carpe diem surge emvários momentos exaltando a vida. Em sendo momento de realização dopoético, no carpe diem o panbarroco sinaliza-se pela desmitificação edesmistificação de certezas e estabilidades quanto ao tempo absoluto.Os acontecimentos regidos por esse tema realizam-se nos espaços poé-ticos. Tal como mencionamos, na poesia de Prade o espaço afasta-se dasconcepções geométricas pertinentes ao conceito e ao discurso. O espa-ço torna-se lugar. Lugar criado pelas imagens. Lugar da antelinguagemcaptada pelo logos poético. Nesses meandros de uma poética do espa-ço12, ou seja, nesses meandros de lugares imaginários trazidos à poesia,inscreve-se o tempo vertical - o instante poético - regendo eventos en-raizados no encantatório. Nesses lugares, tal como no poema “Perto doLaranjal”, ao ritmo de versos longos o tempo constitui-se instante, des-12 Trata-se do espaço intrínseco à poesia, tal como concebido por Bachelard na obra A Poética do Espaço, op. cit.
  • 66. 68 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeviando-se do tempo da duração. Em esquiva do amanhã, a poesia viveo carpe diem, como impulso das metamorfoses. Em sendo instante, otempo perece para renascer outro. Para renascer “agora”: Não quero que exista o amanhã - e nos meus quintais as serpentes serão alegres serpentes ou leve perspectiva de claro e misterioso veneno13. Ao instante desperto em esquiva do amanhã, habita o carpe diemencarnando ambivalências nesse claro e misterioso veneno. Aproveitaro dia. Aproveitar o momento, eis a máxima que percorre a poesia dePrade. Essas serpentes alegres revelam-se na ambivalência da clarida-de e do mistério mortal. Encarnam clareza e perigo. Luz e morte. En-tão, o eu poético deseja viver o instante. Nessa temporalidade, a poéti-ca das metamorfoses guarda latente solidão vindoura. E atual. Posto que,ao ser instante, o tempo poético torna-se solidão. Haverá solidão maiorque a do instante? Mas, de modo paradoxal, o instante se detém na poe-sia. E não se trata de um absoluto, posto que o carpe diem o comemoracomo possibilidade. Entre o instante e o carpe diem, com a mesma ver-ve rítmica dos versos, Prade vai à prosa poética na obra Ah a Lâmina,conduzindo a imaginação das coisas sentidas em tom de erotismo. Nessemomento, acentua-se o sensualismo da hora visitada ante a experiênciade animizar a matéria de sonolenta árvore, que se coloca ao alcance doeu poético “transformado” em navio. Construtor de embarcações e ru-mos incertos, cercado de solidão, o eu se agarra ao instante, concentran-do-se no carpe diem, em esquiva da morte nesse apelo ao encantatório: Rasgo as folhas de uma árvore mística e sonolenta e fabrico o navio infantil mais veloz do mundo. Acompanho sua trajetória rumo ao incerto e também sou navio em meu momento de espumas quentes14. Entre serpentes, navios, espumas e instantes, entre coisas e seresde fábula, o cotidiano e a quimera se entrelaçam na poesia de Prade,13 PRADE, Péricles. “Perto do Laranjal”. Este Interior de Serpentes Alegres. Florianó- polis: Roteiro, 1963, p. 11.14 PRADE, Péricles. “Sei que estou Só”. Ah a Lâmina. Florianópolis: Literatura Con- temporânea, 1963, p. 4.
  • 67. Mirian de Carvalho 69posto que “seus textos são fantásticos, não há nenhuma dúvida, masinteiramente diferentes de outros transgressores do real em nossas le-tras”15, observando-se em sua imagística hiperbólica uma ultrapassagemdos liames da metáfora e do símile. Nessa urdidura de imagens, na obraSereia e Castiçal, o poeta alcança o momento poético da transmutaçãodas substâncias em ambiência de fábula. Em certos momentos, as ima-gens contracenam, dando ao eu poético existência intrinsecamente ve-getal e humana. Aqui não há metáfora. Tal como ocorre na poética doUnicórnio, o corpo humano - simbolizado por disposição anímica -muda de estado. Veludo e trama. Parede e pulsação. Jangada e pulsa-ção. Reúnem-se no instante matérias e sentimentos. Entre sufocamentoe ternura, o carpe diem sinaliza o caminho das águas incertas. Mar?Corpo? Ruas? Ante a solidão, o tempo poético escolhe roteiro. No es-paço poético criam-se direções privilegiadas pelo afeto. Criam-se qua-lidades da matéria que gerou o espaço: É de um veludo intenso tudo o que corre em direção desta parede que sou (parede, este coração, e livre jangada)16 Entre tecido e caminho de viagem, nos lugares incertos o eu en-contra a solidão dos horizontes e águas. Por isso, intuitivamente, ele selança à máxima do carpe diem, ante a liberdade da embarcação. E, se-guindo errância em que se alternam potencialidades dos elementos, opoeta alcança outros espaços e tempos nas imagens inscritas na obraintitulada Nos Limites do Fogo, tangenciando as metamorfoses das ma-térias intensas, animadas na reincidência do fogo e da água - elementosprevalentes na poética de Prade. Constituindo-se matéria imaginada, ofogo mostra-se agora luz contida. Farol. Mito. Cristal. E metamorfose.Nessas cercanias, o fogo posiciona-se no limite do inferno. Chama.Beleza. Quimera. E se espraia ao tempo de um bailado de chamas e som-bras. Das sombras às chamas, o carpe diem revela-se viagem e surpre-sa seguindo uma dança que cresce, para atingir os limites da própriamatéria extenuada. E nascente em seus limites, enquanto o viajante daprópria beleza geme nas sombras do inferno que se encrava no poema:15 FISHER, Almeida. “Orelha I”. In PRADE, Péricles. Jaula Amorosa. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1995.16 PRADE, Péricles. “Veludo Intenso”. Sereia e Castiçal. Florianópolis: Roteiro, 1964, p. 4.
  • 68. 70 Metamorfoses na Poesia de Péricles Prade No porto do inferno Apolodoro geme nas sombras (...) No pátio dos cristais o bailado cresce nos limites do fogo17 Nas fronteiras das coisas caminhantes entre dor e apoteose, o car-pe diem assinala-se tempo de decisão dos deuses e dos homens. E trans-parece no instante das coisas que crescem nas fronteiras do fogo, renas-cendo nas cercanias do belo. Temporalidade e desejo, o carpe diem re-nasce nos versos e entreluzes da obra Os Faróis Invisíveis, quando a luzcresce caudalosa. Quando a luz cresce multiplicando instantes. Quan-do a luminosidade intensifica-se ao conclamar seres e fenômenos encan-tatórios, aparentados com aqueles que se localizam nas obras anterio-res. Visitando Eros à luz desses lugares, o corpo aquiesce ao carpe diem.E nesse tempo surgem seres de diversas greis. Santos. Guerreiros. Pás-saros. Anjos. Surgem imagens pertencentes a um rol de seres fantásti-cos. E, tal como em outras obras de Prade, o corpo humano surge emmetamorfose. Gozo. Dor. Calcanhar. Cabeça. Nesse conjunto de poemaspassam águas de rio. E vislumbra-se o mundo com seus círculos vicio-sos, captados pelo eu poético negando-se ao discurso da repetição. Enegando-se ao olhar imóvel da cidade: Valha-me o delírio nos trançados vegetais do sonho (...) Tesouro algum suporta o pranto (navalhas de prata facas de ouro e outras armas de nobre encanto)18 Nesse rol de objetos, deparamos com a corda do enforcado. Anteesse rol de objetos dizimadores, o homem se reconhece dentro da cida-17 PRADE, Péricles. “Nos Limites do Fogo”. Nos Limites do Fogo. São Paulo: Massao Ohno, 1979, p. 14.18 PRADE, Péricles. “Eros no Poço das Sedas”. Os Faróis Invisíveis. São Paulo: Mas- sao Ohno, 1980, p. 5.
  • 69. Mirian de Carvalho 71de. Ante esse rol de objetos dizimadores, a poética das metamorfosesdistancia-se das ideologias. Dentro da urbe poética, o carpe diem aquies-ce ao delírio, para levar sobre os ombros o peso do pranto. E para su-portar o tempo da morte. Ao pranto, as metamorfoses evisceram túmu-los e prisões. À lucidez do delírio, o corpo trafega entre o invisível dasluzes. Em sendo luzes, nada lhes escapa por inteiro. Nem o invisível,ainda que através do contraste de lume e sombra. E, ao paradoxo de umaluminosidade emparelhada ao que se oculta, o poeta atinge os meandrosdas clausuras e os espaços dos animais que habitam sua Jaula Amorosa- obra em que Prade reúne os bichos e os homens, compondo seres deexistência ambivalente e paradoxal: O gato é a razão impura (...) Leve em Maio o Gato Veneza é a ponte não os suspiros enquanto o mês se desgoverna19 Nesse poema que se intitula “Esboço de um Gato enquanto pen-so”, já mencionado por ocasião da abordagem das características técni-co-poéticas20 da obra de Prade, reafirma-se nessa imagem atenta e irô-nica uma implícita referência ao “agora”. O poeta aproveita o dia paradesconstruir as verdades de um determinado Ocidente. Nessa experiên-cia de realizar poesia galgando diferenças, o viés endobarroco na poé-tica das metamorfoses descentra o sujeito da fala, duvida do absoluto edeflagra pensamento divergente. Ante essa experiência da palavra pri-meira, ou seja, do logos poético, o corpo se reconhece coração e fera,habitando e/ou visitando pirâmides, gavetas, espelhos, mar e peixe. Aoespaço da Jaula Amorosa, o carpe diem sustenta-se no reino dos animais,expondo instância anímica e existencial em que somos o gato da razãoimpura. Ao desvio do puro pensar, o eu poético desconstrói o mito dasmetafísicas essencialistas, e reescreve a Pasárgada banderiana, ao repe-tir três vezes o refrão que o localiza nos barcos da agonia:19 PRADE, Péricles. “Esboço de um Gato enquanto penso”. Jaula Amorosa, op. cit., p. 87.20 Cf. capítulo 1.
  • 70. 72 Metamorfoses na Poesia de Péricles Prade Teseu quis o meu lugar nos barcos da agonia Era um dos sete jovens de boa companhia Ir para Creta mas lá não sou amigo do Rei21 Com valor de carpe diem, o refrão lança o eu poético ao tempo do“agora”. Ao dia de hoje. E ao espaço poético. Nos caminhos de Creta,o poeta situa de modo explícito a impossibilidade da Pasárgada, enquan-to a razão impura, terra a terra, desfaz mitos e paradigmas cognosciti-vos. Mas a solitude é o amálgama da razão impura. Assim como o euem esquiva do absoluto, o pecado do saber-se em desvio da pureza dopensar traz como castigo a poesia. Traz o eu poético à solidão das tra-vessias. Ao lugar das travessias, “onde” a imobilidade é impossível. E“onde” a poesia se mantém à distância das coisas intactas e inumanas.Se, desconstruindo-se o mito da razão auto-suficiente, em Jaula Amo-rosa enfatiza-se o sentido épico da animalidade no corpo do homem,nesse Pequeno Tratado, o poeta se lança aos malabarismos da espéciecarregando asas emplumadas. Ao tempo do vôo, o carpe diem mostra-se potencialidade. Subida. E descida. Colar do sol. Constelação de al-mas azuis. Anjo falante. Em sendo humano e plumagem, o eu poéticofunda lugares onde vive experiências de ascese e descese: Pássaro de fogo Cor de púrpura Fênix alquímica, alma egípcia Revelada. No espelho as faces da Águia22 E, assim, em espaços contíguos aos da Jaula Amorosa, atingimosos espaços do vôo em Pequeno Tratado Poético das Asas, registrandoas metamorfoses do homem e do pássaro. Mas tendo o encantatório poralicerce da poética das metamorfoses, esse vôo da espécie não se alteiapor escapismo. Desconstruindo visões do etéreo, o eu poético desce àÁrvore do Mundo, para captar e desconstruir hierarquias. Trata-se de21 PRADE, Péricles. “Em Direção de Creta”. Jaula Amorosa, op. cit., p. 64.22 PRADE, Péricles. “Fênix”. Pequeno Tratado Poético das Asas. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1999, p. 45.
  • 71. Mirian de Carvalho 73referência a uma árvore “narrada” em mitos da Índia e do Ocidente,mencionando uma hierarquia entre os pássaros23. Com ironia, o poetaperscruta coisas prosaicas. Com ironia, o poeta expõe o chão das asas.Com ironia, uma vez mais o poeta desconstrói o mito. A poética dasmetamorfoses é também uma poética dos não-ditos. Nela se desdobramjogos semânticos em busca de outros espaços e de outros sentidos. Nelase ressaltam entremeios da antelinguagem. E da pós-linguagem. Únicoe Uno, esse olhar do pássaro de puro conhecimento não olha ao redor: Um pássaro se alimenta Outro não come Único, olha com sabedoria (puro conhecimento) pendendo a dupla cabeça24 Concentrado em sua unidade, esse pássaro não vê em si o peque-no monstro de duas cabeças, cindindo-se entre unidade e dualidade.Entre o absoluto e o maniqueísmo, a ironia desnuda o olhar daquele quesó conhece uma, ou duas direções. Desviando-se da imobilidade, o poetarevela uma poética da errância. A poética das metamorfoses é tambémuma poética da errância da linguagem, anunciando latência de dizerese contrastes intrínsecos ao poético, em desvio do absoluto. Então, maisuma vez, insurge-se a pergunta: haverá solidão maior que a do afasta-mento do absoluto? À indagação, entre os não-ditos e as sonoridades, apoesia de Prade transporta-se às sete sonoridades, ou seja, aos sete po-emas reunidos em Guardião dos Sete Sons, articulando imagens hiper-bólicas. Em solidão, o eu poético desconstrói símbolos para revisitar asfronteiras do mundo ocidental, surpreendendo personagens e feitos,entre quimera e chão: Brilha na guilhotina o fundo do poço. No rosto a tatuagem é um cardume de ausências: não só os inimigos com espelhos se alimentam2523 Ibidem, p. 67.24 PRADE, Péricles. “Sabedoria”. Pequeno Tratado Poético das Asas, op. cit., p. 18.25 PRADE, Péricles. “Tatuagem”. Guardião dos Sete Sons. Florianópolis: Sanfona, 1987, p. 6.
  • 72. 74 Metamorfoses na Poesia de Péricles Prade Nessas tensões que percorrem a poética de Prade, há articulaçõesde temas, de procedimentos, de imagens e de dizeres, reunindo feras,pássaros, rios, anjos, vasos, caixas, divindades, anti-heróis, sombras,num encadeamento encantatório. Reunidos os opostos, percebemos veiosde uma desordem ordenando-se. Circunstância essa que se exacerba emAlém dos Símbolos, prosseguindo nas desconstruções do discurso e dacultura. Se em Jaula Amorosa e em Pequeno Tratado Poético das Asas,o eu poético se metamorfoseia respectivamente em fera e pássaro, eleagora se conduz à desconstrução do próprio símbolo. Imiscuindo-se nosmitos urbanos, tal desconstrução já se iniciara em Guardião dos SetesSons, localizando em escorços feitos e vividos por anti-heróis. Comolhar e versos, o poeta perscruta frestas no eu que sobrou da véspera.De modo nu e cru, desviando-se das afirmações categóricas, Prade es-cava o interior do simbólico no âmago do herói/anti-herói: “Afinal, oherói sonhado não é o ‘Cavaleiro Negro’.”26 O herói sonhado é sombra.Mas concretiza-se no anti-herói correndo atrás da sombra. Realiza-se noanti-herói captado no instante. A razão impura o provê de água e alimen-to. E o carpe diem o provê de sobrevida ante as coisas inadiáveis. Anteas coisas inadiáveis, cantando as sutilezas da poesia de García Lorca,Prade o homenageia em Ciranda Andaluz. E nessa comemoração, visi-tando lugares amados, uma vez mais Prade festeja o Unicórnio nos fei-tos utópicos do poeta de Fuente Vaqueros: E no rural piano bordas como arqueiro de flechas leves um belo manto de neves para o amante do unicórnio27. Passando por esse bordado musical, por fim, chegando à obra es-pecificamente enfocada neste ensaio, Em Forma de Chama: Variaçõessobre o Unicórnio, cria-se o momento áureo da comemoração do carpediem. As imagens festejam esse tempo vivido com intensidade. Por isso,viver a imagem poética. Comemorar com ela o instante das metamor-foses do Unicórnio. Chama. Cálice. E concha. Falo e lança. Macho efêmea. Variações. E o corpo enlaçando-se ao erotismo em busca de sua26 GOMES, Álvaro Cardoso. “Orelha II”. In PRADE, Péricles. Além dos Símbolos. Flo- rianópolis: Letras Contemporâneas, 2003.27 PRADE, Péricles. “Variações ao Redor de um Berço”. Ciranda Andaluz. Florianó- polis: Letras Contemporâneas, 2003, p. 20.
  • 73. Mirian de Carvalho 75máxima. Em busca de seu tema e êxtase, o poeta atribui às metamorfo-ses a meta do carpe diem. Às mutações do Unicórnio, o eu poéticoaquiesce à solidão ao aventurar-se ao tempo da errância. E o Unicórniose apercebe imagem e corpo. Mercúrio. Fênix. Dragão. Touro. Metamor-fose. Fênix ressurgindo da chama. Atual, o Unicórnio desvia-se do mitopara viver o instante poético, ante a transformação da matéria imagina-da.
  • 74. 76 7 - A Imaginação Poética e as Variações dos Elementos Perto do poço o olho do chacal é lâmpada, nervo de fogo17.1. Variações da Água Na poética das metamorfoses, ao acolher os elementos, a imagi-nação engendra espaços e tempos que convergem nas imagens. Trata-se de lugares onde se realizam “acontecimentos” quiméricos com exis-tência poética. E trata-se de tempos que reúnem em simultaneidadesesses acontecimentos heteróclitos. O processo das metamorfoses inicia-se no trabalho da imaginação, cultivando a matéria para criar lugares einstantes. Criando contrastes afins ao Endobarroco, ao nascedouro dasimagens, dois dos elementos primordiais das cosmogonias ganham po-tencialidades na poesia de Prade: o fogo e a água. Ao diálogo das diver-sidades imagéticas há um encontro da luminosidade com o sombreadointegrando o fogo e a água. Quanto à afinidade dos opostos ou das dife-renças, torna-se possível mencionar um princípio ideativo transformandoo mundo e os elementos: “A obra de Prade evoca um princípio de or-dem espiritual que deforma a matéria reinventando o sentido comum davida.”2 Em verdade, esse princípio, de ordem espiritual que deforma amatéria e reinventa o sentido comum da vida, inicia-se na imaginação,insuflando as metamorfoses dos elementos animizados pelo poético. No rastro das substâncias imaginadas na poética das metamorfo-ses, sempre contracenam o fogo e a água. Rememorando esse diálogona epígrafe que abre este capítulo, ao olho do chacal repousa a águarefletindo o luminoso. Clarifica-se uma luz transiente. E percorrendo oconjunto de obras poéticas de Prade, essas duas substâncias imaginadasinstauram semânticas recorrentes à antelinguagem. Mas ao transformaras matérias fundamentais, o eu poético percorre a inexorável solidão doafastamento do absoluto, ao surpreender o mundo e as coisas em seu1 PRADE, Péricles. “Luz no Sangue”. Nos Limites do Fogo. São Paulo: Massao Ohno, 1979, p. 43.2 ANCONA, Franzina. Frontiere dell’Immaginario: Mito e Rito nella Scrittura di Pé- ricles Prade. Palermo/São Paulo: Italo-Latino-Americana, 1987, p.14.
  • 75. Mirian de Carvalho 77tempo íntimo. Nesse encontro da matéria e da imaginação, inicia-se asolitude poética, produzindo imagens primeiras que se deterão no tem-po poético: que se vê pela primeira vez, existe em estado de solitude.Aquiescendo a experiências primeiras, as metamorfoses as conduzem aologos poético, à palavra primordial, que se reúne às imagens no instan-te em fuga, que, paradoxalmente, se detém na poesia. Perfazendo o ins-tante, correspondem-se o eu e o kósmos. Correspondem-se o tempo doeu poético e o tempo do mundo, vivendo a solitude dos lugares poéti-cos. Que se contempla ao primeiro olhar, conduz latente solitude. Quese diz pela primeira vez, nasce da solidão, direcionando-se à solidarie-dade. Traço relacionado aos contrastes semânticos, posto que a existên-cia que se exime da repetição surge sozinha, na poética das metamorfo-ses a solitude habita o universo da matéria, que em princípio se diferen-cia pelo trabalho da imaginação. Na poética de Prade, a solidão inicia-se no ermo dos lugares da matéria, que se transformará no logos dizen-do o mundo da experiência primeira vez. Ainda que solitárias, as primei-ras experiências se lançam à poesia direcionando-se ao outro. No inti-mismo do poético, há um diálogo em ressonância. Há um diálogo damatéria e da imaginação, ansiando pelo outro. Nessa expectativa, inicia-se um habitar. Em Ah a Lâmina, ao mundo visto e nomeado ao primei-ro olhar, Prade circunscreve a solidão à substância imaginada no mitode Narciso, transformando a narrativa mítica e “escrevendo-a” à expe-riência de um olhar turvando a água. Com terríveis aves, nesse baldoespaço de um desenho visível, o olhar habita a água: Sei que estou só e não há luas sem serenatas. Sei que os olhos da tarde estão secos. Vejo somente meus dedos desenhando aves malditas na água3. Aos indícios de luminosidade velada, a solidão urde o sentimentodas coisas ante tênue luz sombreando águas desenhadas. E, despertan-do a imaginação da matéria, a solidão recorta-se no instante, que é aúnica realidade do tempo4. Assim sendo, concebido como descontinui-dade, o tempo é uma ordem, e toda ordem é um tempo5. Na poesia, o3 PRADE, Péricles. “Sei que estou Só”. Ah a Lâmina. Florianópolis: Literatura Con- temporânea, 1963, p. 4.4 Tema abordado por Gaston Bachelard em L’Intuition de l’Instant. Paris: Stock, 1992.5 BACHELARD, Gaston. O Direito de sonhar. Trad. de José Américo Pessanha e ou- tros. São Paulo: Difel, 1986, p. 185.
  • 76. 78 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeinstante é a ordem do tempo regendo a sincronia dos ritmos do versopsíquico, ou seja, a sincronia do verso apreendido em leitura intimista,sobrepujando o tempo objetivo no verso escandido6. Nessa leitura inti-mista, captamos o sentido do verso e do poema seguindo acentos e ca-dências que ressaltam qualidades das imagens, enquanto no verso escan-dido o ritmo se vê aprisionado pelas quantidades. À leitura intimista,apreendemos sincronias. Ao curso do verso escandido, marcamos umasilabação diacrônica. Na leitura que adere ao dizer intrínseco à poesia,experimentamos simultaneidades de jogos de idéias e palavras transitan-do pelo encantatório. Trata-se da reunião de instantes diversos, quebran-do a ordem dos acontecimentos diacrônicos. O instante nasce na ima-ginação da matéria, ao negar-se à seqüência das coisas que são porquesão. Na poesia de Prade, assumindo-se ruptura e em esquiva do abso-luto, o instante traduz descontinuidade relativa ao pensamento. O ins-tante traduz primordialmente uma ruptura com o tempo horizontal dascoisas afetas à cultura. Uma ruptura com o tempo do signo no discurso.Absorvendo as hachuras do tempo, na poética das metamorfoses não háesquemas seqüenciais. Às Variações, o Unicórnio está simultaneamen-te em todos os lugares, em que pese tratar-se de uma errância. Do mes-mo modo, em outros poemas, despertam seres imagéticos em tempossimultâneos, conduzindo tensões intrínsecas às imagens. Trata-se decorrespondências. Trata-se do encontro de instantes poéticos reunindoo eu e o Universo. Mas esse encontro se inicia nas potencialidades damatéria imaginada, transformando-se para ressurgir como imagem notempo vertical. Lembremos que o tempo poético é vertical. Em sendovertical, o tempo da poesia não escoa. Esse tempo concentra forças daimaginação, atuando a partir dos elementos. Em verticalidade, o tempoexpõe movimentos intrínsecos à matéria. Expõe os desdobramentos dassubstâncias animizadas. E sensualizadas. Voltemos ao fragmento ritma-do em prosa poética: Rasgo as folhas de uma árvore mística e sonolenta e fabrico o navio infantil mais veloz do mundo. Acompanho sua trajetória rumo ao incerto e também sou navio em meu momento de espumas quentes7.6 Questão abordada em A Dialética da Duração (trad. de Marcelo Coelho. São Paulo: Ática, 1988), em que Bachelard dá primazia à leitura íntima que concebe a poesia a partir de um ritmo intrínseco ao do leitor.7 PRADE, Péricles. “Sei que estou Só”. Ah a Lâmina, op. cit., p. 4.
  • 77. Mirian de Carvalho 79 Nesse jogo da matéria imaginada, Prade muitas vezes erotiza aimagística advinda das substâncias, tal como na insurgência das águasardentes do corpo, desaguando em lugares de acolhimento. Nuas e ve-ladas, tais imagens originam-se nas experiências primeiras do onirismo.Se poeticamente nascemos das águas vivas, o calor do fogo mantém acontinuidade da vida. Ao erotismo, as substâncias emitem qualidadescalóricas. Observe-se que as imagens ganham qualidades das substân-cias imaginadas. E muitas vezes essas qualidades animizam e/ou perso-nificam a matéria, tal a água que se transubstancia e ressurge, encarnan-do a fluidez de outro elemento. Imaginada com outras qualidades, emoutro momento poético, a água se recria, aderindo às imagens da mor-te. Transubstanciando-se, em sinestesias, a água encarna qualidades dovinho e assume o cheiro e o enfretamento da morte. Nessa poética, amatéria desdobra-se em possibilidades de uma solitude solidária, que seacompanha do outro, que está só. Então, no tempo poético ressalta-se omomento das transformações do elemento líquido: Esperarei por ti e juntos caminharemos o cheiro da morte - esta que nos persegue como o vinho e borbulha em mim como um poço8. Entre metamorfoses, algo borbulha quando o buliçoso líquido, emprofundidade, mostra-se ativo, ao nomear-se uma morte que não signi-fica morte, mas instância viva na antelinguagem, revelando-se gêneseimagética. Ao dinamismo da imaginação, as metamorfoses dos elemen-tos atuam, assim como nas primeiras Cosmogonias, dando mobilidadeaos elementos. Concebendo-os como origem. Realizando experiênciasprimeiras no plano do espaço e do tempo poéticos, o logos deflagra se-mânticas advindas da matéria imaginada, ao que cabe a observação:“acredito que neste mundo físico e de espaço-tempo da nossa experiên-cia existam coisas que não se ajustam ao esquema da expressão grama-tical”9. Nesse universo semântico alheio à ordenação lógica do discur-so, a poética das metamorfoses mais uma vez se fascina ante as quali-dades do fogo e da água, quando o poeta rememora o rio da infância:8 PRADE, Péricles. “Veludo Intenso”. Sereia e Castiçal. Florianópolis: Roteiro, 1964, p. 4.9 LANGER, Susanne K. Filosofia em Nova Chave. Trad. de Janete Meiches e J. Guins- burg. São Paulo: Perspectiva, 1971, p. 96.
  • 78. 80 Metamorfoses na Poesia de Péricles Prade rio imemorial curso/transcurso pedras e peixes visíveis10 Aquiescendo à matéria imaginada, o tempo atualiza-se em verti-calidade, revelando sempre o âmago das metamorfoses poéticas. Rio-da-terra-natal. Rio antigo. Rio quimérico. Aqui não há reconstituiçãogeográfica, ou qualquer descrição objetiva. Entre memória e imemorial,a matéria torna-se metamorfose da lembrança. Nesse rio, matéria orgâ-nica e inorgânica integram o organismo vivo da água em curso e trans-curso no tempo instantâneo. Transgredindo significado e significante, aoriginalidade da imagem primeira suscita o logos dizente das qualida-des dos elementos. Então, no instante poético deita-se o rio da infância.Pulsa o elemento transformador da paisagem. Assim como o tempo ver-tical, esse rio não corre. Pedra que te quero rio. Rio que te quero peixe.Peixe que te quero escama. Água que te desejo imagem. Nas potencia-lidades das substâncias, criam-se gerações de seres imagéticos. Criam-se meandros de acontecimentos e dizeres, emergindo em espaços poé-ticos, reunindo o chão e o kósmos. Conduzindo estratos semânticos não verbais, a imagem carregasempre consigo tensões afetas ao seu elemento originário. Onipresente,o elemento das mutações líquidas surge agora noturno e marinho. Sur-ge com qualidades de espelho. Mas inaugura lugares sombrios. Noite.Surpresa. Contida em si, a lembrança se traduz umbilical. Mas nos es-paços e tempos poéticos, essa memória surge contida e incontida. Sur-ge paradoxal ante as águas da noite. Incitando a lembrança, o eu poéti-co evoca o desconhecido. Evoca as metamorfoses da água placentária,desvelando-se à imaginação: Nós nos conhecemos água noturna espelho marinho Surpreendi o mar em sua febre azul10 PRADE, Péricles. “Nos Capins da Cobra Coral”. Os Faróis Invisíveis. São Paulo: Massao Ohno, 1980, p. 2.
  • 79. Mirian de Carvalho 81 Oh placentária lembrança revelada e contida11 Recorrendo às primeiras sensações da substância imaginada, no-turna e marinha, a água explicita-se no esbatimento da luz velada. Noespelho marinho, a luz vem de algum fogo distante. Relembra um fogovivo, que revela e contém a memória, refletindo-se nas animizadas águasda noite. Nessa comemoração dos elementos, a água foi igualmente lem-brada na homenagem a García Lorca, à comemoração poética de umaviagem real e imaginária, animizando paisagens e interiores, quando amemória se inscreve no imemorial. Ao universo do imemorial, a atua-ção dos elementos tem suas qualidades amenizadas ou intensificadas, talcomo essas águas que se concentram em nuvens de tempestade em ter-ras da Espanha: Negras nuvens o dilúvio precipita destruindo jardins, pontes e rochas12. Ao movimento de uma ciranda, Prade deu à imaginação outrasmatérias. Percorreu cidades, paisagens, ruas, templos, palácios, museus,prisões. Rememorou festas, música e dança. Porém, registre-se, a ima-ginação poética não se detém nos meandros da objetividade. Nas ima-gens de Espanha, o eu poético desenhou o sentimento diante do mundoe da terra da visitação “Ciranda, incansável viajante, alguém que andade um lado para outro, que dá voltas e volta como o que viu, apalpou,respirou.”13 Assim como alguém que traz na mala a poesia. Ao ritmodessa ciranda, Prade transformou as coisas e os espaços em lugares ani-mizados, dando-lhes voz e colorido próprios, tal a casa de Lorca, queguarda e balança o berço numa infância que se atualiza pelo poético. Àvisão do viajante, igualmente em Ciranda Andaluz, o fogo e a água tran-substanciam-se ao andamento das variações, na poética das metamor-foses.11 PRADE, Péricles. “Convivência com a Água”. Nos Limites do Fogo, op. cit., p. 22.12 PRADE, Péricles. “O Fim”. Ciranda Andaluz. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2003, p. 34.13 SCHMIDT, Jayro. “Orelha I”. Ciranda Andaluz. Florianópolis: Letras Contemporâ- neas, 2003.
  • 80. 82 Metamorfoses na Poesia de Péricles Prade7.2. Variações do Fogo Complementares, as imagens alusivas à água e ao fogo sempreressurgem no percurso poético de Prade, posto que a desconstrução dasantíteses inicia-se pela matéria, repetimos. Inicia-se no encontro doselementos diversos. Nessa desconstrução, matérias diferentes comple-tam-se em correspondências. Entre contrastes e tangências, o fogo e aágua animizam-se. Atuam. Rememorando os versos alusivos à placen-tária lembrança14 inscrita em obra mencionada como exemplo das va-riações da água, registre-se que no mesmo trabalho, em diálogo com oelemento líquido, o fogo se inscreve em muitos poemas, tal como seanuncia no título do livro: Nos Limites do Fogo - desdobrando-se emimagens deflagradas pelo elemento luminoso. Participando das varia-ções estelares, o eu poético concebe seu elemento como salvação, atra-vés do poema de sugestivo título: “Luz no Sangue”, em apelo ao fogocósmico que o salvará da morte através do lume de Aldebarã: Vamos, Aldebarã, que só as estrelas salvam-me da morte15 Na poesia de Prade, o fogo encarna um kósmos complementar àágua cósmica, produzindo imagens de caminhante luminosidade emespaços de amparo e solitude. Em espaços de perigo e soteriologia. Aotrabalho da imaginação dos elementos, torna-se intensa a atuação da an-telinguagem, deflagrando sentidos enraizados no espaço e no tempo daexperiência poética. Integrando-se às metamorfoses, a água e o fogoincontidos na natureza animizam-se nas tensões imagísticas. Em diálo-go com a água, o fogo substancial recria-se no colar do sol. Pássarosencantados, os personagens solares deixam suas figurações mitológicaspara renascer nos versos ao som da cítara: Cítara régia tocada pelo sopro das asas Iurya e Vinexu O colar do sol pendurado nos pescoços1614 Cf. nota nº 11, neste capítulo.15 PRADE, Péricles. “Luz no Sangue”. Nos Limites do Fogo, op. cit., p. 44.16 PRADE, Péricles. “Tocador de Cítara”. Pequeno Tratado Poético das Asas. Floria- nópolis: Letras Contemporâneas, 1999, p. 31.
  • 81. Mirian de Carvalho 83 Esse colar de substância ígnea conduz o paradoxo de pertencer aum corpo que se mostra metade humano e metade pássaro, encarnandoum ser tocador de cítara, como na figuração hindu de Kinnara, que cor-responde a Vinexu, Surya ou Buda - personagens de natureza solar17.Porém, uma vez mais, note-se aqui a desconstrução do pensamento mí-tico. Como nas metamorfoses do Unicórnio, igualmente desdobram-seos sentidos imagéticos em esquiva do mito, para ganhar dimensão poé-tica nas imagens regidas pelo fogo. Ao curso das obras de Prade, esselume originário, ora mais intenso, ora mais brando, multiplica-se emoutras imagens advindas da substância luminosa, que, eclodindo eminstantes poéticos, sempre encontra correspondência nas imagens daágua. Ao diálogo desses dois elementos, na mesma obra, inscrevendo-senos versos de outro poema, o eu poético encontra nas qualidades da flui-dez a expansão da água em descese, movendo-se pelo tempo vertical: Coroa de nuvens na cabeça A chuva se precipita18 Nesse processo de oposições, não há sentido antitético. A água eo fogo completam-se e complementam-se, desconstruindo o signo. Aoreincidente jogo da água e do fogo, criam-se elos de uma semântica re-velada por resíduos substanciais articulados nas imagens, deixandotransparecer sua fonte primordial na instância da antelinguagem: “Poisexiste uma possibilidade inexplorada de genuína semântica além doslimites da linguagem discursiva.”19 Essa possibilidade se deve a dizeresnão verbais que exaltam a matéria. E eclodem no logos dizente das qua-lidades e metamorfoses das substâncias originárias, ao encontro do tem-po poético. Ao encontro do tempo que não corre. Do tempo que nãoescoa. Nele, articulam-se milênios e instante. Eternidade e instante.Guardião do mundo imagético, o instante poético preserva o intimismodo eu poético, reunindo espaços e temporalidades quiméricas. Guardiãodo mundo íntimo, o tempo poético desmonta a eternidade que marca o17 PRADE, Péricles. Pequeno Tratado Poético das Asas. Florianópolis: Letras Contem- porâneas, 1999, p. 68.18 PRADE, Péricles. “Sob o Signo do Aquário”. Pequeno Tratado Poético das Asas, op. cit., p. 47.19 LANGER, Susanne K. Filosofia em Nova Chave, op. cit., p. 94.
  • 82. 84 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradetempo indizível, bem como desmonta duração e distância afetas aos tem-pos longos. Na poética das metamorfoses, o instante concentra a infle-xibilidade dos milênios no “agora”. Então, o fogo torna-se lugar da co-memoração desse tempo do visitante: Celebremos as colchas de fogo A esfinge celebremos o potro o triângulo o mapa da aventura dos milênios20 Na obra de Prade, esse espelhamento da água e do fogo se faz cons-tante, exaltando qualidades da matéria, enquanto qualidades das coisasdo cotidiano, das paisagens e dos interiores, animizando-se. Entre des-construções da cultura e do signo, Prade tangencia a desconstrução dosimbólico, através de imagens hiperbólicas, recorrendo ao encantatório.Ao desviar-se do símbolo, posto que na poética das metamorfoses o sim-bólico também se desconstrói, o poeta reúne a água e o fogo para rece-ber circunstâncias e habitantes inusitados de um aquário quimérico.Nesse lugar imaginário, a objetividade perde seus limites. Não mais ostácitos peixes emparelhados pela transparência. Não mais as águas em-paredadas pelo vidro. Ou o vidro emparedado pelas águas. Não mais afuga do oceano dos mares imensos. Nesse aquário, que seria outro emsendo o mesmo, intercalam-se entreolhares do fogo e da água conduzin-do não-ditos. Encontram-se olhares na solidão das águas de paredestranslúcidas, desconstruindo símbolos. No aquário dos seres imaginá-rios, desenha-se o receptáculo das águas partejadas pelas chamas de altofogo ascendente: E se no aquário fogo alto houvesse, água alguma porventura dentro dele, como fazer para outro nome dar-lhe? Seria sempre enfim o mesmo aquário refletindo neste traço dos desenhos de outra água como a luz do pranto21.20 PRADE, Péricles. “Celebração”. Jaula Amorosa. Florianópolis: Letras Contemporâ- neas, 1995, p. 23.21 PRADE, Péricles. “No Aquário”. Além dos Símbolos. Florianópolis: Letras Contem- porâneas, 2003, p. 25.
  • 83. Mirian de Carvalho 85 E tão logo publicada, em 2003, a obra Além dos Símbolos, em queo autor mais uma vez realiza desconstruções do signo e da cultura atra-vés do encantatório, iniciamos leitura da versão digitalizada da obra EmForma de Chama: Variações sobre o Unicórnio. Inaugurando momen-to áureo da poética das metamorfoses, surge o Unicórnio no instante dasolidão. Surge ele em fuga da solidão do absoluto. Em fuga da morte.E, em fuga da morte, o Unicórnio transforma-se. E contempla-se. E sereconhece em transformação à confluência dos elementos: Vejo-me n’água22 À fusão dos elementos, a poética de Prade conduz uma ontogêne-se. Compactuando, os elementos plasmam-se em variações afetas à ima-gística primeira. Complemento do fogo, a água nasce e renasce ao seuencontro na trama do Unicórnio, subsumindo uma solitude solidária antea desconstrução do absoluto e encarnando a desconstrução das antíte-ses no plano da matéria. Detectando na poesia de Prade instâncias en-dobarrocas enfatizadas pelo encantatório, constata-se reunião de oposi-ções e/ou diferenças através de jogos de idéias e de palavras, implican-do desvio de algum princípio hierárquico afeto a alguma instância cul-tural ou ao signo - que também se integra à cultura. Nesse sentido, napoética de Prade, as desconstruções iniciam-se pelas substâncias, trans-cendendo à cisão da matéria e da forma, quando o fogo e a água encar-nam equivalências, transubstanciação e desvio do conceito.22 PRADE, Péricles. “De moy je m’épouvante”. Em Forma de Chama: Variações so- bre o Unicórnio. São Paulo: Quaisquer, 2005, p. 62.
  • 84. 86 8 - Contemplações do Unicórnio Águas em excesso o moinho evita como toda floresta evita as tochas1.8.1. O Unicórnio da Chama-em-forma-de-corno Na poética de Prade, as correspondências do fogo e da água des-fazem a primeira antítese localizada na diferença entre os elementos. Noinstante poético, fundem-se o fogo e a água, transubstanciando-se aoencontro do Unicórnio errante, entre jogos de corpos e nomes. Entrejogos de imagens. E entre jogos de palavras e de idéias. Em variações.Reunindo elementos, coisas e sentimentos díspares, nas transformaçõesdo Unicórnio Prade tece a cumplicidade das diferenças - uma cumpli-cidade existente em obras anteriores -, uma cumplicidade que ora acom-panha as metamorfoses do animal encantado. Nesse encontro das dife-renças, as coisas, as paisagens, os interiores, as localizações, igualmen-te se ordenam por afinidades quiméricas imiscuídas no logos: “(...) opoeta brinca com as palavras, diverte-se com a prodigiosa multiplicaçãode sentidos que é capaz de deflagrar, sem finalidade aparente. O que omove é ou a gratuidade ou a inversão da lógica convencional (esses ex-tremos que se tocam...), ou ainda o prazer que daí advém.”2 (enfatize-se) Faceta do Endobarroco, aquiescendo a esse jogo lúdico da palavrae do sentido desviantes do signo, o poeta brinca com o mundo, desmon-tando discurso e representação. Mas em sua poesia, lembremos, nessejogo lúdico, não há escapismo. Não há enlevo cantando as alegrias dainfância. E em momento decisivo, as metamorfoses encarnam o nome,o corpo e o destino do Unicórnio, enveredando pelas desconstruções datradição. Destacando-se o Uno e o múltiplo na obra Em Forma de Cha-ma: Variações sobre o Unicórnio, percebemos que eles ultrapassam asregras do jogo dos nomes imbuídos de significado, visto que as meta-morfoses fixam como eixo desse escrito a desconstrução da antíteseUno/múltiplo, enquanto o eu poético segue a errância desse ser de fá-1 PRADE, Péricles. “O Fim”. Ciranda Andaluz. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2003, p. 34.2 MOISÉS, Carlos Felipe. “Péricles Prade, ou o Poeta como Alquimista” (Posfácio). In PRADE, Péricles. Jaula Amorosa. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1995, p. 128.
  • 85. Mirian de Carvalho 87bula, realizando outras desconstruções ao longo do poema. Então, astransformações do animal surpreendem a vida em ato. O Unicórnio jogao solitário jogo da vida brincando com a morte. O Unicórnio brinca como tempo. Reúne lugares, coisas e seres, que “perigosamente” ousamvariações. O fabuloso animal fixa o jogo da vida desviando-se da mor-te, para jogar o jogo das imagens errantes desdobrando-se da materiali-dade onírica dos elementos: Vejo-me n’água3 Saltando da chama para a água, o Unicórnio encontra-se no ins-tante poético. Rompendo o tempo do conceito fixado pelo discurso, nasmutações do Unicórnio a temporalidade norteia a fala do logos que des-monta o Uno, e igualmente desmonta o múltiplo enquanto reproduçãoou simulacro. O Unicórnio norteia o paradoxo de mostrar-se, em simul-taneidade, Uno e múltiplo - não sendo nem Uno nem múltiplo - e defla-grando sentidos em desvio do Uno e do múltiplo. Sob esse enfoque, ini-cia-se uma dessedimentação do pensar a episteme e a diacronia comodomínios dos eventos acabados e/ou definitivos e/ou articulados porcausalidades formais e eficientes, e por verdades definitivas. Nesse pe-rigoso e delicado jogo das variações, os opostos e contrastes abrem ca-minhos e tempos poéticos em conformidade com as instâncias endobar-rocas atuando em níveis ideativos. Se o instante poético se faz acompa-nhar da solidão, esta se revela roteiro do Unicórnio. Roteiro de ida.Haverá volta? Ante possibilidades heteróclitas, as oposições entre ir evoltar entrecruzam-se. Na poética das metamorfoses, o Unicórnio é cha-mado ao jogo lúdico de enfrentamento do demônio. Não será o absolu-to uma metáfora de Lúcifer? E de outros demônios que se alojaram noOcidente? Mas essa demonologia desconstrói-se pelo poético. Eis aí a base da nossa observação no Posfácio à obra Além dos Sím-bolos: “Na tessitura da poética do caos, da certeza à incerteza, assumindoo lugar do cavaleiro andante - assim como no Sétimo Selo de Bergman- o eu lírico joga xadrez com a morte. O diabo contempla a cena. Semtrapacear, a poesia ganha o jogo. Carpe Diem!”4 Essa máxima, que se3 PRADE, Péricles. “De moy je m’épouvante”. Em Forma de Chama: Variações so- bre o Unicórnio. São Paulo: Quaisquer, 2005, p. 62.4 CARVALHO, Mirian de. “Além dos Símbolos: a Tessitura Poética do Caos na Poe- sia de Péricles Prade” (Posfácio). In PRADE, Péricles. Além dos Símbolos. Floria- nópolis: Letras Contemporâneas, 2003, p. 107.
  • 86. 88 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeexalta no instante poético, desdobra-se no sentido das imagens, enfati-zando o agora. O instante poético desconstrói a eternidade. Transgrideo tempo definitivo. Essa transgressão, que se realiza como desvio dodiscurso e do estabelecido, define as andanças do Unicórnio, ante asmetamorfoses do animal encantado ressurgindo em outros corpos. Eressurgindo outro, no tempo que se desenvolve em profundidade ou emaltura. Trata-se do tempo detido na imagem e no logos. O Unicórnio sedetém nas imagens e no logos, encarnando o paradoxo de ser variacio-nal. Nem Uno, nem múltiplo. Ele assim aflui na poesia como paradoxoda fala e do ato em convergência no tempo poético, ultrapassando o pró-prio paradoxo ao levá-lo ao absurdo - desfazendo convenções do signo. As existências do Unicórnio convergem no instante poético, forados critérios do tempo horizontal, ou seja, fora do tempo dos aconteci-mentos socioculturais relativos à sucessão, lembremos. Na poética dasmetamorfoses, o instante surge e rege as andanças, o nome e o corpo doanimal encantado. Em ascese, predominam as imagens do chifre - rela-cionando-se ao fogo. Em descese, prevalecem as imagens do espelho -relacionando-se à água. Mas essas imagens encontram-se na correspon-dência do diverso. Na verticalidade do tempo, por caber a analogia, di-zemos: ao esquivar-se da antítese Uno/múltiplo, o fabuloso animal des-constrói o conceito. E o tempo corrobora o diferencial imagético napoética das metamorfoses, que, transcendendo os sentidos da metáforae do símile, cria espaços em esquiva da Geometria e da objetividade. Aodesviarem-se do signo, do mesmo modo as metamorfoses conduzem apoesia de Prade ao desvio das antíteses espaciais e temporais, conferin-do-lhes sentidos plurívocos, que desconstroem paradigmas metafísicosnas instâncias do espaço e do tempo. Ao se desconstruírem o signo e a metafísica, desfaz-se o porto se-guro dos mortais. Perdido esse lugar das verdades, o eu poético se lan-ça à solidão enraizada no cotidiano, desconstruindo sua certeza-incer-teza maior: a relação entre a morte e a vida. Então se ressalta o carpediem como topos e instância temporal intuída na obra poética de Prade.Nesse tempo do agora, o eu poético pontua seu momento áureo de so-lidão, expondo as feridas do sujeito enraizado ante a morte do absolu-to. Ao fim do absoluto, a solidão se faz errância em busca da renovaçãoda linguagem. Nessa renovação, inauguram-se espaços e qualidadesdesses espaços. Inauguram-se caminhos de-ir. Entre errância e parado-xo, ao curso da poesia de Prade insurgem-se semânticas recorrentes aoencantatório, instâncias agora trazidas ao mundo circundante e ao cam-po de atuação do homem na urbe, em esquiva dos mitos antigos e de suasversões atuais.
  • 87. Mirian de Carvalho 89 Se o Unicórnio das figurações alquímicas simboliza Mercúrio, aocriar um animal poético Prade não narra o mito de Mercúrio. Nem seatém ao registro das práticas da Alquimia. Criando lugares e temposinusitados, nessa trama o eu poético acolhe o Unicórnio em esquiva dosconceitos de existência e não-existência. Nessa trama, o tempo inicia-se numa fábula desviante do ser e do não-ser. Encarnando as metamor-foses da chama, o Unicórnio pode ser dito de vários modos. Traduzin-do-se nas mutações do Unicórnio, a poética das metamorfoses suscitadesdobramentos do dizer. E, tornada imagem, a fábula se “conta” pelaprimeira vez no reino do poético. Prade faz do Unicórnio ator de umatravessia, posto que a imaginação poética pede à linguagem para deslo-car-se muito além de suas fronteiras. Nesse deslocamento, o fabulosoanimal insurge-se em transformação. Renasce da sua matéria originária- o fogo. E renasce em sua matéria complementar - a água. Captando o mundo insurgente à imaginação, na poética das meta-morfoses animizam-se as substâncias que dão origem às metamorfoses.Seguindo a plasticidade da chama, Prade concebe um Unicórnio atuan-do tal como Prometeu - descobrindo o fogo e dando aos homens pode-res sobre o fogo - e simbolismos relacionados à chama. Nessa descober-ta, as desconstruções eclodem na tessitura do logos liberto das amarrase convenções do significado e do significante, uma vez que o logos poé-tico é um dizer em processo. Um dizer livre para realizar seres fantásti-cos, assim como esse múltiplo animal coroado pelo corno em forma dechama. Então, o chifre transforma-se em chama. E a linguagem ilumi-na-se pela imagem. E pela substância de seu elemento originário: umachama-em-forma-de-chifre. Uma chama atuando como o chifre do Uni-córnio. Nesse interlúdio da tradição à poesia, ao Unicórnio integram-seoutros modos de ser e estar no mundo, dando sentido ao que não se re-velara antes do poético. Recorrendo aos elementos oníricos, o poeta criapossibilidades diante da vida e da morte, ao desfazer essa antítese atra-vés do simbolismo do fogo, aludindo ao elemento das transformações.Na errância do Unicórnio encontram-se as imagens do fogo e da águarealizando a harmonia dos opostos. Da água, o poeta revela a latênciadas mutações, por ser ela a matéria das tensões contidas - por ser a águaelemento que necessita de impulsos para mover-se. Ao ser contempla-da pelo fogo, ou seja, pelo Unicórnio de resplendente corno, a água re-cebe o corpo desse animal em superfície e profundidade. Nas Variaçõessobre o Unicórnio, as imagens subsumem o luminoso. O iluminadoimpulsiona a água às contemplações do Unicórnio, conduzindo o leitor
  • 88. 90 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeao ápice da chama, animizando o elemento fluido, que o acolhe dentrodo espelho a partir da matéria e das mutações do fantástico animal. Aos olhos atraídos pela mobilidade da chama, ressaltam-se trans-formações no corno luminoso. Ao olhar atento à chama, o Unicórnioconduz imagens primordiais do fogo recriando-se. No chifre do animalencantado vive o fogo primordial. Vive a chama5 criada pela imagina-ção, recriando a matéria do mundo. E induzindo o logos a criar-se pelaimaginação. No logos poético, em imaginário e ambíguo movimento, achama se alteia e desce, conduzindo o olhar ao universo da água. Nainstância da poesia, o bestiário onírico transcende às culturas e mitolo-gias. E, criado pela imaginação poética, atualiza-se um bestiário do fogo,que renova a Fênix nas imagens dos “poetas do fogo”6, ou seja, nos ver-sos dos poetas visitantes do fogo, produzindo imagens desse elemento.Tão amplo se mostra esse potencial imaginativo, que Prade torna o Uni-córnio um ser do fogo. Um animal da chama. Uma Fênix. E um animaldo espelho d’água. Chama fluida. Dentro desse espelho, se liquefaz achama. Elemento das profundezas e superfícies, a matéria dos sonhos deNarciso recebe o Unicórnio. Nesse espelho, o Unicórnio é um Narcisoiluminado. E a água - “elemento mais feminino e mais uniforme que ofogo”7 - a ele se reúne de corpo e alma. Elemento revelador do rosto edo corpo de Narciso, a água, lembremos, revela o “si-mesmo” do Uni-córnio. Mostra o “si-mesmo” que se constitui nas variações do corpo edo nome do Unicórnio, descobrindo-se variacional, ao dar à chama suatessitura real e irreal. Nesses cânticos de errância, o eu poético ressaltaa dinâmica da substância onírica, à imagem do Unicórnio simbolizadopelo chifre de fogo. Simbolizado pelo chifre variacional. Adaga ou taça,o corno do animal alteia-se em forma de chama. E deita-se no espelhod’água: Vejo-me n’água85 Quanto às temáticas do fogo e da chama, consultem-se as seguintes obras de Bache- lard: A Chama de uma Vela. Trad. de Glória de Carvalho Lins. Rio de Janeiro: Ber- trand, 1989; A Psicanálise do Fogo. Trad. de Maria Isabel Braga. Lisboa: Estúdios Cor, 1972; Fragmentos de uma Poética do Fogo. Trad. de Norma Telles. São Paulo: Brasiliense, 1990.6 BACHELARD, Gaston. Fragmentos de uma Poética do Fogo. Trad. de Norma Tel- les. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 36.7 BACHELARD, Gaston. A Água e os Sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 1989, p. 6.8 PRADE, Péricles. “De moy je m’épouvante”. Em Forma de Chama: Variações so- bre o Unicórnio. São Paulo: Quaisquer, 2005, p. 62.
  • 89. Mirian de Carvalho 91 Nessa plasticidade, as imagens sofrem variações. Do fogo ao en-contro da água, o chifre do Unicórnio “escorre” para o alto. Masculi-no e feminino. Órgão másculo. E vulva. Estas e muitas outras imagenssurgem aderentes a funções e simbolismos do chifre do Unicórnio. Maso corno não nos remete à metáfora da sexualidade. Ante a matéria dachama e do espelho, as transformações desviam-se das possibilidadesobjetivas, e até das simbólicas, aderindo às figurações do falo e seu re-verso. Em esquiva das figurações da tradição cultural, não cabem a essaoposição as conotações do positivo e do negativo, repetimos. Masculi-no e feminino tornam-se qualidades da chama. Tornam-se encontro docalor úmido e do transpassamento calórico, criando lugares imagináriosonde a vida e a morte ganham laivos de luminosidade. Onde a vida e amorte encarnam transformações. Onde essa antítese se supera nas cor-respondências poéticas. Nas metamorfoses do chifre exalta-se a função do erotismo em atode completude. No chifre não há reverso. Abrindo-se para doar e rece-ber qualidades múltiplas, o chifre torna-se outro. Torna-se metamorfo-se. Exterior e interior ganham sentidos correspondentes. E, de modoparadoxal, no chifre não há nem interior nem exterior. Receptáculo demilagroso elixir, ele é também elixir milagroso. Em variações, o chifreencarna a soteriologia. Encarna o cálice de fogo. E o líquido milagroso.E se consagra objeto de bom agouro. Aquilo que se insurge chama, nascedas potencialidades do fogo ao encontro da água. Feminina. Doce. Ero-tizada. Suave lume concentrado no chifre do Unicórnio, a chama des-loca-se dentro d’água. Escorre igualmente para baixo. Espraia-se. Ade-re ao tempo da água que, em espelho, se torna nascedouro do Unicór-nio. À errância do animal encantado, o tempo contempla a matéria ima-ginada. Contempla-se no instante poético.8.2. Contemplações do Instante Para louvar o Unicórnio, Prade reuniu em múltiplos instantes poé-ticos qualidades sensíveis e feitos desse animal fabuloso. O instantepoético, relembremos, revela-se momento de insurgência das imagensna poesia. Em sincronicidade, o instante poético reúne imagens e/ouqualidades das imagens. Reúne sensações da matéria imaginada. Reú-ne lugares diversos. Reúne acontecimentos diversos. Mostra-se tempodas contemplações. Nessa temporalidade, as imagens da água e do fogocontemplam-se, desfazendo oposições. Mas interagem extraindo senti-dos dessas oposições. Na perspectiva das imagens e do logos vincula-dos ao Endobarroco, à reunião de contrários e diferenças opõem-se e
  • 90. 92 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradefundem-se matéria e imaginação, atuando sobre os sentidos. Atuandodentro do tempo da poesia, ressaltando metamorfoses da matéria ima-ginada. Ao circunscrever a vida do Unicórnio nesse poema de amor eerrância, o poeta enlaça esse ser fantástico no instante das variações.Mas, em sendo instante, ele é tempo em fuga. Ele se revela em fuga,assim como o tempo da chama que ilumina o Unicórnio. Ao ser o Unicórnio iluminado pelo fogo, são-lhe concedidas pro-priedades do fogo. A ele se concedem qualidades da matéria primordial,que se deita no espelho d’água. Então, o Unicórnio vem à tona na verti-calidade do tempo. Vem à tona para ouvir o carpe diem. Seu tempo nãoé passado. Nem futuro. Nem devir. Seu tempo mostra-se disposição deânimo para atuar no instante das tensões entre os opostos. Nas oposi-ções conduzidas pelo tempo vertical, ao revelar estados anímicos dofabuloso animal, o poeta enlaça-o em instantes simultâneos. Instantes deerrância pelo mundo e pelo kósmos. Caminhante, o animal onírico mos-tra-se herói e anti-herói. Desejo e caça. Em sincronicidade, ele existe emtodos os lugares. E carrega consigo diversidade e solidão. Em desvio doprincípio de identidade, a cada instante a imagística do Unicórnio des-monta o Uno e o absoluto, lembremos. Ele não é Uno. Nem múltiplo.Revela-se variacional no instante da imagem. Ao mostrar-se poético, otempo encarna fuga e recomeço. Concentra-se no instante que se vai.Mas o que morre no tempo da poesia ressuscita. E se detém. E move-seem verticalidade. Ante a chama, o que morre ascende e descende aomundo da vida, resguardando-se nesse batismo de luz e água. Como foi mencionado, ao longo do trabalho poético de Prade, asimagens alusivas ao fogo encontram correspondências na imagística daágua. Mas o elemento ígneo exacerba-se na obra Em Forma de Chama:Variações sobre o Unicórnio. Coroado pela chama, o Unicórnio torna-se manifestação do fogo - um ser da verticalidade do tempo. Torna-sechama. Onírica. Variacional. Mas, em sendo a chama um fogo suave, oUnicórnio concentra-se num fogo ameno. Os seres do fogo brando têmfeição ascensional. Vertical, o corno em forma de chama evoca o vôo:“Quando esses traços do fogo, raio ou vôo, vêm nos surpreender emnossa contemplação, eles aparecem a nossos olhos como instantes am-pliados, eles são instantes.”9 Na errância do Unicórnio, eles são instan-tes poéticos. Porém, aquiescendo à ambivalência dos opostos, o viés9 BACHELARD, Gaston. Fragmentos de uma Poética do Fogo. Trad. de Norma Tel- les. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 54.
  • 91. Mirian de Carvalho 93endobarroco na poética de Prade traz o fogo à água, conjugando-os emdescese. E ao ser ele iluminado pelo fogo, lhe são concedidas proprie-dades do fogo. E propriedades da água - ao ver-se dentro do espelho lí-quido. Aderindo à imagística do Unicórnio, o leitor se reconhece no mo-mento do olhar contemplativo desse fogo suave, que expõe o coraçãoda chama. Não será o luminoso chifre o coração do Unicórnio? Não seriaesse fogo pulsante um coração em forma de chama? Através da indaga-ção, podemos caminhar com o Unicórnio ao universo da água que oacolhe. Esse coração conduz o Unicórnio às simultaneidades da ascesee da descese. Em ascese e em descese, o Unicórnio contempla as águas,seguindo a poética dos objetos animizados no tempo vertical, assimcomo a chama e a ampulheta. Aqui, mais uma vez, a poética das meta-morfoses desconstrói antíteses do tempo seqüencial, para reunir diferen-ças no tempo vertical: “Chama e ampulheta, na meditação pacífica, ex-primem a comunhão do tempo leve com o tempo pesado. (...) A chamaé uma ampulheta que escorre para o alto.”10 Então, ascese e descese ga-nham movimentos diferenciados, invertendo direções. Engendrando variações nessa chama a escorrer nos dois sentidosda verticalidade, Prade concentra na poética das metamorfoses fenôme-nos da atividade onírica, abrindo-se aos movimentos e potencialidadesdas substâncias imaginadas. Concentrando surpreendente dinamismotransformacional da matéria, o poeta traz à luz as substâncias ativas nasmetamorfoses do Unicórnio. As imagens surgem da matéria que lhes épropícia no devaneio11, ou imaginação poética: “Para que um devaneiotenha prosseguimento com bastante constância para resultar em umaobra escrita, para que não seja simplesmente a disponibilidade de umahora fugaz, é preciso que ele encontre sua matéria, é preciso que umelemento material lhe dê sua própria substância, sua própria regra, suapoética específica.”12 Assim, tão potente quanto a imagem do fogo, res-salte-se a plasticidade da água:10 BACHELARD, Gaston. A Chama de uma Vela. Trad. de Glória de Carvalho Lins. Rio de Janeiro: Bertrand, 1989, p. 30.11 Imaginação poética e devaneio poético são sinônimos nos escritos de Bachelard. Consulte-se principalmente A Poética do Devaneio. Trad. de Antonio de Pádua Da- nesi. São Paulo: Martins Fontes, 1988.12 BACHELARD, Gaston. A Água e os Sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 1989, p. 4.
  • 92. 94 Metamorfoses na Poesia de Péricles Prade Vejo-me n’água Vejo-me n’água outra vez, assustado, o corpo refletido nos umbrais azuis do penúltimo mistério13 Diverso do Unicórnio da chama, nasce o Unicórnio da água. A esseprocesso de ontogênese ígnea, o instante acalenta o Unicórnio no espe-lho líquido. Assim como a Fênix, o Unicórnio esquiva-se da inexorávelmorte. Sua morte torna-se metamorfose. Núcleo de luz. Tempo. Carpediem. Ao encontro dos elementos as metamorfoses reencontram o ins-tante poético, tal a dizer: Carpe diem! Posto que o corpo sente e fala. Que existe além, perde-se na abstração: carpe diem! Se o corpo revela-se metamorfose: carpe diem! Diante da infinitude, o chão resume-se no universo dos pés: carpediem! O tempo não é mais que instante. Ao fogo da chama o Unicórniodesperta. Quixote das florestas escuras, sua aura chamejante o revelaamado. Fugidio. Sozinho. Tal a realidade do tempo. Carpe diem.13 PRADE, Péricles. “De moy je m’épouvante”. Em Forma de Chama: Variações so- bre o Unicórnio, op. cit., p. 62.
  • 93. 95 9 - Do Binarismo Alquímico às Metamorfoses Poéticas Minha intenção é contar histórias sobre corpos que Assumem diferentes formas; os deuses, Que promovem essas transformações Me ajudarão - pelo menos, assim espero - com um longo poema Que discorre sobre o início do mundo e se estende até os nossos dias1.9.1. O Unicórnio Poético Conduzida pelo encantatório, Em Forma de Chama: Variaçõessobre o Unicórnio atinge a consecução do desejo de Ovídio. Às trans-formações do Unicórnio, o referido escrito bem mereceria como epígrafeprincipal a abertura das Metamorfoses, explicitando-se através de ape-lo aos deuses, em versos com valor de Proposição e Invocação. Ao rea-lizar esse longo poema, auxiliado pela “divindade” configurada no fa-buloso animal, Prade percorreu estórias de corpos em transformação.Passando por legendárias terras, o poeta visitou estórias de corpos deoutros seres relacionados ao Unicórnio. Diversificados corpos que per-tencem e não pertencem a esse animal que não existe - mas passou aexistir nas metamorfoses poéticas. Seguindo o rastro universal do Uni-córnio, ao consultar textos de pesquisadores que visitaram o tema en-contramos referências a inúmeras lendas alusivas aos feitos do fabulo-so ser imagético, que se transforma nas terras por onde passa, receben-do diferentes configurações e nomes. Porém, nossa meta norteou-se pelapassagem da lenda à poesia, localizando momentos áureos da descons-trução do lendário para seguir caminhos do poema no rastro da errân-cia poética, em esquiva do binarismo da Alquimia. Em virtude da plasticidade metamórfica, na Alquimia o Unicórnioconsagrou-se a Mercúrio. Em alegorias convergentes, ambos os simbo-lismos - o do Unicórnio e o de Mercúrio - referendam a aptidão trans-formacional da matéria-prima, dinamizando potências atribuídas a siprópria ou à sua essência - nomeada Mercúrio - numa simbólica quemesclou concepções cristãs e gnóstico-pagãs2. Dentre as divindades da1 OVÍDIO. Metamorfoses. Trad. de Vera Lucia Leitão Magyar. São Paulo: Madras, 2003, p. 9.2 JUNG, Carl. Psicologia e Alquimia. Trad. de Maria Luiza Appy e Margaret Macray. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 452.
  • 94. 96 Metamorfoses na Poesia de Péricles Prademitologia pagã, esse simbolismo referenda a ambigüidade de Hermes,encarnando nas variações de Mercúrio a figuração e o princípio da du-pla natureza. E, ainda na perspectiva da mitologia pagã, tal simbologiarememora a doce tenacidade de Eros, unindo pares em conjunção amo-rosa. Hermes e Eros são divindades relacionadas à estrutura binária dopensamento alquímico, promovendo a reunião dos opostos3, em articu-lações das substâncias e do pensamento. Enxofre e mercúrio. Sol e lua.Masculino e feminino. Tais diferenciações envolvem “união de duasnaturezas, masculina e feminina, ativa e passiva, seca e úmida”4 - natu-rezas reunidas pela plasticidade transformacional da anima simboliza-da por Mercúrio5, relacionando-se aos pares eróticos, em união carnal,ideal e simbólica, que tangenciam as propriedades de Mercúrio e aspassagens da vida do Unicórnio. O mercúrio tornou-se símbolo alquímico universal: água primevaidentificada com o fogo na equivalência alquímica, referida como solu-ção ou regressão ao estado indiferenciado6. Essa regressão ao indiferen-ciado possibilitou relacionar-se a Mercúrio a temática do Unicórniocomo “paradigma transformacional”7. Observe-se, acrescentamos, quena Alquimia e nos mitos, quase sempre se atribuem ao indiferenciadopossibilidades de metamorfose. Por isso, na obra de Prade, a figuraçãodo Unicórnio lavra o cântico do legendário animal a renascer nas varia-ções, que subsumem a anima - mas também o animus - induzindo me-tamorfoses do sentir, ante corpo e alma diversificando-se. Coração dedragão. Coração de touro. Coração de serpente. Renascendo como ori-gem e destino do conhecer-se a si mesmo, nessa imagística, que ultra-passa as fronteiras das transubstanciações alquímicas, confluem o cor-po telúrico e o fôlego, em busca do tempo poético. Nesse tempo do sustodiante da imagem variacional, ao Unicórnio associa-se o carpe diem,para viver o instante. Viver o momento da imagem. Viver o momento dapoesia. Viver o momento possível. E, ante as variações, o Unicórniopoderá valer-se das diferenças, invocando possibilidades: valha-me,Coração do Touro. Valha-me, Coração da Serpente. Valha-me, Cabeça3 LENNEP, J. Van. Art & Alchimie. Bruxelles: Meddens, 1971, p. 22.4 Idem.5 JUNG, Carl. Op. cit., p. 452.6 CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Trad. de Vera da Costa e Silva, Raul de Sá Barbosa e outros. 18ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003, p. 606.7 JUNG, Carl. Op. cit., p. 452.
  • 95. Mirian de Carvalho 97de Osíris. Escute-me, Pele de Nuvem. Pulse em mim, Coração de Uni-córnio. E o Falo de Chama. E o Falo de Osso. E o Cálice das Origens. Ea Taça dos Sedentos. As possibilidades imagísticas se fazem acompanhar de semânticasinsurgentes. Ao relacionar-se às metamorfoses, o Unicórnio desvia-se dobinarismo e identifica-se com o fogo. Verticalizado. Errante. Transfor-mativo. Exaurindo-se. Renascendo. Sempre se transformando. NemUno. Nem múltiplo. Unidade e multiplicidade não lhe configuram o ser.Nem o não-ser. Na poética das metamorfoses, o Unicórnio vive estadosdiferenciados e indiferenciados, deflagrando jogos imagísticos, verbaise semânticos desviantes do universo da Alquimia, bem como desvian-tes de outras alusões mítico-lendárias. Se nessas instâncias o Unicórniopreserva a unidade simbolizada pelo chifre único, relacionado a sorti-légios benfazejos8, nesse longo poema, à desconstrução da unidade e damultiplicidade, o chifre transmuta-se em sua forma e qualidades. Inte-grando-se ao corpo do Unicórnio, o chifre único integra-se às variações.Não mais se define pela unidade em confronto com oposições e signifi-cações afetas à dualidade no pensamento alquímico e no lendário. Ultra-passando tais figurações, a imagem do chifre único esquiva-se dos sig-nificados do Uno e do múltiplo. No transcurso dessas Variações poéticas, não poderíamos deixarde entrever a força simbólica que preservou o Unicórnio como ser mis-terioso na retorta dos alquimistas. Essa preservação encontra eco na efi-cácia transformacional da poesia, conduzindo provas de que “o imagi-nário está na base da natureza humana”9, transparecendo de modo dife-renciado nas várias produções culturais. Assim, no campo da Alquimia,a força imaginativa desenvolve um verdadeiro corpus poético: “Doutri-na eclética, organizada por um sistema homogêneo, a alquimia conser-vou em toda a sua vivacidade uma profusão de símbolos e mitos reco-lhidos de fontes as mais diversas e que exprimem sonhos perpetuais dahumanidade (...). Seus símbolos mergulham as raízes no mais longín-quo passado da humanidade revelando aspectos fundamentais da men-talidade e do inconsciente humano.”10 Tais raízes constituem conteúdosoníricos e poéticos, fazendo transparecer a universalidade dos arquéti-8 CHERRY, John et al. Unicorns in Mythical Beasts. London: British Museum, 1995, p. 46.9 BACHELARD, Gaston. Fragmentos de uma Poética do Fogo. Trad. de Norma Tel- les. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 26.10 LENNEP, J. Van. Op. cit., pp. I-II.
  • 96. 98 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradepos11 - grandes símbolos que afloram nas Artes e na Poesia, numa cum-plicidade imagética entre homem e universo, traduzindo-se por meio dastransformações da matéria ativada pelo poético criando imagens. Mas,relembremos, é o poético que mobiliza o arcaísmo. Não o contrário12. Se se faz possível na errância do fabuloso animal poético estabe-lecer algum elo com o pensamento alquímico, tal vínculo localiza-se naanalogia com a regressão ao indiferenciado, o que possibilita na Alqui-mia relacionar-se Mercúrio ao Unicórnio como “paradigma transforma-cional”13. Porém, do ponto de vista alquímico, esse paradigma transcorreem desdobramentos binários, enquanto na poesia de Prade o transfor-macional ocorre em esquiva do binarismo, enfatizemos. Assim sendo,no campo da Alquimia, o indiferenciado remete-se a potencialidadestransformacionais da matéria direcionando-se à dualidade, enquanto napoética das metamorfoses a imaginação ultrapassa esse esquema. Acom-panhando a poética das metamorfoses, não só nas Variações sobre oUnicórnio, mas no todo da produção poética de Prade, nota-se que areunião dos opostos torna-se potencialidade afeta às imagens e ao logos.Seguindo a trilha das metamorfoses, encontramos incursões ideativaspertinentes à desconstrução do Uno, e do múltiplo enquanto reproduçãodo Unicórnio, bem como desconstruções dos esquemas binários abran-gentes do conceito, posto que as oposições conduzem jogos de palavrase de idéias com cargas semânticas paradoxais, em convergência no tem-po poético. Desviando-se do signo que percorre o tempo sucessivo, nesse es-crito de Prade o encantatório rege o eixo de um tempo vertical espirala-do. Se no pensamento mítico a imagística do Unicórnio revela-se arque-típica, por ser ele “um símbolo unificador, que exprime a bipolaridadedo arquétipo”14, na poesia de Prade essa bipolaridade se desconstrói.Descentralizando o sujeito e o objeto, o fabuloso animal torna-se heróiem fuga de um ponto fixo. Em fuga da bipolaridade. Em errância, oUnicórnio mostra-se inúmeros corpos quiméricos, com angulações pro-pícias à visão em escorço e às mesclas ideativas e imagéticas. Quanto aisso, observe-se que, a par da poesia lírica, do diálogo, da historiogra-11 DURAND, Gilbert. Les Structures Anthropologiques de l’Imaginaire. Paris: Bordas, 1969, p. 437.12 Questão abordada por Bachelard na Introdução à Poética do Espaço. Trad. de Anto- nio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 199813 JUNG, Carl. Op. cit., p. 452.14 JUNG, Carl. Op. cit., p. 492.
  • 97. Mirian de Carvalho 99fia e da meditação pedagógica, o épico foi gênero dos mais cultivadosno Barroco, e sempre eivado de misturas tais como a do mitológico edo descritivo, dentre outras15. Acrescente-se que essa incidência do épi-co foi propiciada pelos aspectos picturais conferidos à escrita seiscen-tista, em virtude da prodigalidade imagética: aspecto esse que se atuali-za no Endobarroco em face das tensões implícitas às imagens, condu-zindo paradoxos que, na poética das metamorfoses, se lançam às para-gens do absurdo e do fantástico no plano poético. Esse imbricamento de tensões imagéticas revitaliza hoje a poesiaépica, ou melhor, diversificam-se e ampliam-se os recursos épicos, abar-cando outros modos de desenvolvimento temático e narrativo, sem re-corrência a grandes temas relacionados à origem e/ou à expansão dospovos e nações. Desviando-se das grandes sagas e feitos heróicos “na-cionais”, o épico hoje se mostra em duas vertentes: ou universaliza-se -abarcando feitos e sagas referentes à espécie humana -, ou particulari-za-se - alcançando neste caso esferas regionais, caracterizadas por atua-ção de heróis e/ou anti-heróis. Assim sendo, hodiernamente o épico nãose pauta pelos modelos tradicionais conhecidos desde a Antiguidade. E,com relação à Epopéia antiga, o poema de Prade mantém apenas refe-rência quanto à voz, dizendo-se em terceira pessoa ou levando o leitora intuir a terceira pessoa, nas falas em que o Unicórnio se anuncia emprimeira pessoa. Nesses momentos, liricamente o eu se refere a ele.Funde o eu e o ele. Note-se ainda que, no referido poema, o viés épicosurge como referência implícita, tal como ocorre em muitos momentosna poética de Prade. Repetindo o exemplo, Pequeno Tratado Poético dasAsas configura-se uma Epopéia do vôo da espécie humana, através dasmetamorfoses do pássaro. Por outro lado, observe-se que, nos dias atuais,a Epopéia singulariza-se, uma vez que muitos poetas têm aderido a essegênero, valendo-se de modalidades diversas que entrelaçam o lírico e otrágico. Quanto a essa reunião, acrescente-se que, em diferentes gradações,as obras literárias participam do lírico, do trágico e do épico, gerando“a grande multiplicidade de tipos já realizados historicamente”16. Haven-do entrelace de gêneros, sobretudo nos poemas longos, esse fenômenose faz notar na poética do Unicórnio, tal como em outros momentos da15 COUTINHO, Afrânio. Introdução à Literatura no Brasil. 8ª ed. Rio de Janeiro: Ci- vilização Brasileira, 1976, p. 80.16 STAIGER, Emil. Conceitos Fundamentais da Poética. Trad. de Celeste Aída Galeão. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1972, p. 15.
  • 98. 100 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradepoesia de Prade, reunindo gêneros diversos. Com referência aos teóri-cos que indicam o passado como tempo épico, cabe uma observaçãoabrangente desse gênero em qualquer período: no que tange à tempora-lidade poética, não há passado. Se aceitarmos a noção bachelardiana deinstante poético, que envolve a idéia de tempo vertical, ou seja, a idéiade um tempo que não corre e se detém na poesia, podemos aceitar que,mesmo nas Epopéias antigas, o tempo se verticaliza. Não se trata de tem-po de recorrência ao passado histórico ou mítico, mas de um tempo in-trínseco às imagens. Intrínseco à poesia. E nessa Epopéia de Prade in-cidem muitos momentos de lirismo e alguns laivos de tragédia, refletin-do-se através de “espelhos” que constituem Cantos do poema. Essesespelhos reúnem instantes poéticos.9.2. Os Nove Espelhos do Anel de Mercúrio Concentrando-se em variações que reúnem elementos díspares, otempo poético não conduz sucessões. Búfalo. Pomba. Escaravelho. OUnicórnio, paradoxal e concomitantemente, existe em todos os seres quese transformam nessa Epopéia. Desviante das lendas e da instância al-química, o poeta escreve o Unicórnio lendário no mundo da urbe, emdesconstruções que abrangem o simbólico. Afeito aos sentidos intrínse-cos às imagens, o poema de Prade requer leitura desviante da tradição,que concebe a Epopéia como alegoria e tradução de acontecimentoshistóricos e/ou religiosos. Ao desconstruir os caminhos do simbolismo,através da obra Em Forma de Chama, o poeta permite-nos leitura diversada análise tradicional, que circunscreve o gênero épico a instâncias re-lativas ao passado. Dentre tais concepções, destaque-se a de Hegel, que,encarnando o pensamento à sua época, relacionou ao épico conteúdosde acontecimentos reais e conteúdos pertencentes ao poético, e, sob esseprisma, localizou nessa convergência aspectos abrangentes de uma cons-ciência religiosa afeita a verdades do espírito humano interagindo coma existência. À visão do filósofo, essas verdades do espírito humano es-tendem-se às áreas política e doméstica, através de uma reunião do to-tal e do individual. Nesse encontro da totalidade e da individualidade,haveria uma concepção do mundo e da vida de uma nação, explicitan-do-se formal e conteudisticamente17 no poema, o que reflete uma pers-pectiva mimética da Epopéia, como era comum àquela época.17 HEGEL. “Estética”. Poesia. Trad. de Álvaro Ribeiro. Lisboa: Guimarães, 1964, pp. 169-170.
  • 99. Mirian de Carvalho 101 Na Epopéia de hoje, em especial nessas Variações sobre o Unicór-nio, enfatizamos a relação entre o eu poético e a urbe. Entre o instantepoético e seu pouso no chão, sem tangenciar o encontro do total e doindividual. E negando alusões miméticas. Ao rastro do Unicórnio, esco-lhemos rumo em desvio da verossimilhança, bem como dos conteúdospermanentes, até porque não separamos conteúdo e forma. Nesta leitu-ra, percebemos que Prade se lança ao épico de modo intrínseco, sem-pre através do fantástico. No que tange a essa concepção encantatóriado mundo e do Universo, ele tangencia a Cosmogonia e a Teogonia. Maso sentido poético prevalece. Reunindo imagens no tempo poético, Pra-de entrelaça o registro onírico aos espaços poéticos na errância do Uni-córnio. Essa errância implica epicidade, como reunião das aventurasdesse fabuloso animal existente nos quatro cantos da Terra. Ressurgin-do variacional. Criando possibilidades. Quixote encantado, o Unicór-nio descentraliza verdades. Duvida o Rei. E visita o mundo através dautopia. Na Epopéia do Unicórnio, ressalta-se o eu ao encontro do ele. Eao encontro do outro, que é também eu e tu. Ressalta-se o ele direcio-nando-se às metamorfoses. Dialogam o eu e o ele em esquiva da morte.Visita-se o mundo diante das metamorfoses. E diante da chama. Queconduz a imaginação ao encontro do fogo e da água. Que se queimou,não era chama. Que inundou as várzeas, não era água. Olhando a cha-ma, o tempo revela-se perspectiva. Diante do Unicórnio, intuímos ocarpe diem, enquanto tema relacionado ao tempo do agora ante o sta-tus quo da cidade paralisada. Ao rastro do Unicórnio, intuímos o carpediem chamando-o ao “agora” e desfazendo dualidades. Quanto à unida-de e à multiplicidade, ainda que antitéticas na terminologia, não o sãonas imagens, tal como ocorre nos tropos endobarrocos. O Unicórnio nãose reduz ao Uno nem ao múltiplo, lembremos. Nele vivem vários seres.Nós e outro. Eu e outro. Nas diferenças ocorrem desdobramentos. Nes-ses desdobramentos, Prade esquiva-se dos limites do sujeito e do obje-to, que se desconstroem, com passagens pelo caminho do outro. E compassagens pontuadas pelas matérias oníricas à escuta das metamorfoses. Dos elementos às imagens da transformação do Unicórnio, confi-gura-se uma Epopéia composta por nove Cantos formados por cincopoemas, que, de modo implícito, constituem episódios da vida do Uni-córnio. Ao ensejo das variações, os versos de Prade inauguram espaços“anisotrópicos”, ou seja, espaços multidirecionais, densos e diferencia-dos por outras qualidades. Os acontecimentos e propriedades pertencen-tes a esses espaços são regidos pelo tempo poético, isto é, pelo tempo
  • 100. 102 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeintrínseco à poesia. Esquivando-se do tempo horizontal - que é o tempodos acontecimentos sucessivos, lembremos - na poética das metamor-foses o tempo é vertical. E, de modo específico na Epopéia do Unicór-nio, a verticalidade em movimento helicoidal, acompanhando imagensreveladoras da linguagem primeira, na vigência do instante poético. Àerrância do Unicórnio, as imagens e a linguagem assumem mobilidadee mudança, não só quanto aos sentidos do Uno e do múltiplo, mas igual-mente quanto à desconstrução de outras antíteses, tal como nas instân-cias do fogo e da água, da vida e da morte, do sujeito e do objeto, dobem e do mal, e ainda através de outras desconstruções. Com referência à desconstrução do discurso, por ser adequada aanalogia, trata-se de processo vislumbrado por Heráclito ao pedir aosinterlocutores que o escutem18, não às suas palavras, mas ao logos. Àque-la época em que filosofia e poesia se tangenciavam, Heráclito se aper-cebeu da dinâmica do mundo, conjugando-se através de oposições eatravés de transformações, tal como as do rio e das águas: “Descemos enão descemos às águas do mesmo rio.”19 Nesse sentido, indo à licençaimaginativa nos refúgios do Pensamento Antigo, o rio de Heráclito podeser concebido como florescimento, produzindo o dinamismo da conjun-ção imagem/linguagem, ao trazer à experiência instâncias poéticas. Esse logos heraclítico, referendado pelo fogo, assemelha-se aologos dizente nas variações do Unicórnio. Trata-se de um logos afeto aotempo poético. Em transformação. Eis a desconstrução do discurso in-tuída na filosofia heraclítica, numa aproximação com a imagística doUnicórnio. Na poética do fabuloso animal, o que se transforma não é oUno. Nem o múltiplo. Não é o Uno reproduzindo-se no múltiplo. Não éo Uno aprisionado pelo absoluto: que se transforma é o corpo do Uni-córnio. Que se transforma revela-se Unicórnio. Imagem do Unicórnio.Imagem tornada verbo. Existência. Em angulação e escorço, do fabulo-so animal emanam sentidos do mundo dito pela primeira vez, tal o rioheraclítico, que se transforma. Nas variações, o Unicórnio não é nemUno nem múltiplo - uma vez que o múltiplo reproduz o Uno à sua se-melhança. Em transformação, ressurge o Unicórnio. Ressurge outro.Ângulo de ver. Ângulo de dizer. Peixe. Dragão. Pomba. Variações con-cebidas pelo fogo, concebendo-o em escorço. Variações igualmente rea-lizadas pela água.18 Trata-se do Fragmento nº 50.19 Heráclito apud Pinharanda Gomes (org.), Filosofia Grega Pré-Socrática. Seleção, trad. e aparato crítico de Pinharanda Gomes. Lisboa: Guimarães, 1973, p. 144.
  • 101. Mirian de Carvalho 103 Tal o rio, o Unicórnio existe transformando-se. Seja pela água. Sejapelo fogo originário. Ou pela poesia, que os reúne através do diverso. Edo fantástico. Mas em desvio da lenda. Se, através da alegoria, a lenda“sugere” a existência do Unicórnio, a poesia de Prade lhe dá vida poé-tica. Porém, não mais se trata de metáfora. Nem de alegoria. Ser ima-gético, o Unicórnio realiza cena viva ao encontro das diferenças. Ani-mal fabuloso, o Unicórnio poético enriquece a lenda, recriando-a. Aorecriar a lenda, o Unicórnio insere-se na imagística do amor e da soli-dão, conduzindo-lhe o destino rumo ao espelho. Nesse ápice das meta-morfoses, o eu poético põe em dúvida a humanidade do humano e aanimalidade do Unicórnio. Através da busca da consciência de si, am-bos se encontram no espelho d’água. Corpo e lume. Amor e solidão.Chama e espelho. Acompanhando os deslocamentos da espiral do tempo, encontra-mos imagens da água e do fogo perfazendo correspondências em doismomentos áureos: respectivamente no Canto I e no Canto IX, quandose articulam o fogo da chama e o espelho d’água. Elementos da imagi-nação, o fogo e a água conjugam-se no instante da consciência de si,quando o Unicórnio se assusta ante a própria visão. Ante o outro. En-carnando desconstruções da linguagem que os nomeia e diferencia, umvê o outro. Um aproxima-se do outro. E, em simultaneidade, a água e ofogo interligam-se ao estado de ânimo do Unicórnio, ao assustar-se antea própria imagem transformando-se em esquiva do absoluto. Interligam-se os elementos ao susto vivido como espanto. Haverá solidão maior queo distanciar-se do absoluto? Ao herói que se transforma, resta a solidão.Circunscrevendo imagem e linguagem, o Unicórnio configura-se divin-dade e herói épico de um longo poema, que pode ser percorrido atravésdas imagens entreolhando-se no aro de um anel de nove espelhos - osnove Cantos desta Epopéia - à convergência do encontro do primeiro edo nono espelhos: espelhos que, face a face, desconstroem o mundo, aomostrá-lo em luminosidade. Em variações. Aqui nada é, numa definição afeta ao universo do significante edo significado. E todas as possibilidades abrem-se ao rastro do Unicór-nio. Nesses espelhos, a luz e o reflexo mostram-se caminho e clareira,marcando ritmos que se traduzem em regularidades implícitas aos ver-sos livres, que algumas vezes surgem em deslocamentos espaciais, paraacompanhar os movimentos das imagens comemorando as variações doUnicórnio. Por isso, essa Epopéia tem valor de Ode, posto que o ritmodos versos se presta ao canto. E na ordem da criação poética, o canto seantecipa à escrita. E dela se diferencia como anterioridade do poético.
  • 102. 104 Metamorfoses na Poesia de Péricles PradeReunidos esses nove espelhos - os nove Cantos desta Epopéia - movem-se eles no aro do anel de Mercúrio, sincronizando a verticalidade do tem-po. Nos nove Cantos do poema, o Unicórnio se entrelaça a uma espiralpoética em descese e/ou ascese. Descendo às águas e elevando-se aomovimento do fogo. Subindo às águas. E descendo às chamas. Lume ecálice, o fogo se alteia. E por fim, deita-se às águas. Chama lanceolada.Taça das variações. Entre os simbolismos da água e do fogo, as metamorfoses do chi-fre ganham possibilidades que percorrem o sagrado e o profano. Mas napoesia, o chifre torna-se lugar poético: ponto luminoso sincronizando osnove espelhos do anel de Mercúrio. Nesse anel, as imagens deslizampelo vazio existente e inexistente no círculo rodeado pelo aro virtual.Elas percorrem esse vazio, tal como se não fosse vazio. E, por não servazio, em sendo lugar poético, nele se realizam acontecimentos simul-tâneos e reversíveis no tempo da poesia.
  • 103. 105 10 - A Superação do Uno e do Múltiplo Nome de flores Boca sagrada Urna de carne na memória do Unicórnio110.1. A Desconstrução do Uno na Poética do Unicórnio Em destaque nas Variações sobre o Unicórnio, mas implícita àsobras anteriores, a desconstrução da antítese Uno/múltiplo conduz oleitor ao simbolismo alquímico, bem como à trajetória do pensamentoocidental direcionando-se ao conceito. Em sentidos vários, essa trajetó-ria ancora-se em momentos do realismo, do idealismo ou do racionalis-mo, bem como reflete idéias relativas à linguagem enquanto discurso.Observe-se que essas idéias conduziram o pensamento à busca de umprincípio identificado com o Uno, gerando questões diversas, implíci-tas ao múltiplo. Na Antiguidade, numa aproximação com o poético, atentativa de interligar o Uno e o múltiplo inseriu-se nas teogonias, bemcomo nas cosmogonias, implicando a procura da “origem”, e, desdo-brando-se e diversificando-se, essa meta trilhou um longo caminho, queculminou com a demarcação da subjetividade. Voltando-se para a ver-dade do pensamento, em momento áureo do campo filosófico, a buscado Uno consagra-se à clareza das idéias, quando - ao desconfiar dos po-deres de algum gênio maligno - o homem “designou-se” unidade darazão. E à razão atribuiu estatuto de princípio unitário de si mesma, nasustentação do método do conhecimento ordenando a multiplicidade. Nesse enfoque da razão, a exemplo de outros enfoques similares,o Uno e o múltiplo vêem-se cindidos e/ou definidos em oposição aopoético, posto que este articula infinitas possibilidades desviantes doconceito. Porém, ainda no rastro desse brevíssimo olhar sobre o tema,notemos que no pensamento oriental essa questão subsume outras dire-trizes, que permitem “pensar” a existência fora dos limites da unidade,numa acepção que pode abranger algo que não se reduz ao Uno nem aomúltiplo, ou algo que não se reduz ao ser nem ao não-ser, conforme omencionado. Do Tao ao reino da ilusão de Maya, e às rotações da Roda1 PRADE, Péricles. “De Passagem”. Jaula Amorosa. Florianópolis: Letras Contempo- râneas, 1995, p. 89.
  • 104. 106 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeda Lei no Budismo, delinearam-se outros caminhos cognoscitivos2, pos-sibilitando, por exemplo, abordar questões como a desmaterialização domundo, a reversibilidade do tempo e do espaço, através de outras cate-gorias e lógicas não afetas ao binarismo. E próximas do poético, aindaque não redutíveis ao plano da poesia. Do ponto de vista de um pensamento desviante dos esquemas cog-noscitivos cercados pelo absoluto, na doutrina alquímica surgiram abor-dagens do Uno e do múltiplo através da reunião do diverso. Porém, essaaproximação tomou rumos paralelos aos da tradição, uma vez que, ad-mitindo correspondências do Uno e do múltiplo, e numa busca de equi-valências, no pensamento alquímico essa busca circunscreve-se ao bi-narismo na simbologia que reúne Mercúrio e o Unicórnio. Nessa cir-cunscrição, a Alquimia faz ao Unicórnio inumeráveis referências queforam relembradas na poética das metamorfoses, visto que Prade recorreàs figurações da arte e do pensamento alquímicos, mormente na obra EmForma de Chama. Porém, ao fazê-lo, ao recorrer às figurações alquími-cas, o poeta cria um Unicórnio liberto das referências binárias. Marcan-do-se como diferencial poético, as transformações do Unicórnio iniciam-se na desconstrução da antítese Uno/múltiplo, para criar possibilidadesimagísticas e semânticas. Prade celebra um Unicórnio poético, nascen-do em figurações de cunho fantástico. Nessa Epopéia, o Unicórnio encarna imagem de potencial e cons-tantes variações, apresentando mudanças de estado da matéria transfor-mada em imagem e dita pelo logos. Mas nesse processo o pensamentodepara com vários “termos” possíveis. As variações admitem desdobra-mentos e invenções semânticas e sintáticas. Entre imagens do fogo e daágua, Prade lida com a transubstanciação dos elementos que, iniciando-se nos laranjais das serpentes e nas figurações das lâminas, desembo-cam no Unicórnio. Ante o mundo, o fabuloso animal transmuta-se ao serrecriado em imagens diferenciadas, advindas da imaginação dos elemen-tos. Pomba branca. Espírito Santo. Infinita luz. Nesse processo, o poe-ta chega à dessubstancialização da matéria, através da imaginação doindiferenciado, que se inicia no plano da antelinguagem. Ao transmu-2 Sobre a questão cognoscitiva, consulte-se a dissertação de Mestrado de Clodomir Barros de Andrade, enfocando a Escola Pratyabhijña. O referido trabalho encontra- se na Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Consultem- se, quanto ao pensamento budista, os textos publicados na Revista Bodisatva. As obras aqui mencionadas incluem-se nas Referências Bibliográficas.
  • 105. Mirian de Carvalho 107tar-se, o Unicórnio desconstrói os princípios e significados alquímicos,bem como desvia-se das amarras do absoluto: Sou o sal o sal dos metais da Grande Obra, Véu ascendente e eterno rumo o paraíso3 Ainda que mencionados pelo poeta, assim como outros símbolosalquímicos, o sal e a Grande Obra inauguram no poema sentidos auto-referentes. Avessa à repetição, a imagística poética lança-se à liberdadedo logos. E, frente a essa liberdade, desmontando abstrações simbóli-cas, a linguagem renova-se para nomear figurações encantatórias, rela-cionadas ao tempo poético e aos espaços poéticos. Deflagrando pensa-mento divergente, surge um pensar originário a deslocar-se ao encontrode uma razão flexível e aberta, que, em complementaridade, abarca poe-sia e existência, poesia e pensamento. Ao descentralizar o sujeito dodiscurso, e transcendendo ao objeto como seu oposto, o poeta descons-trói a oposição homem/divindade. Nessa alusão ao Unicórnio Marinho,o peixe é o homem. O Unicórnio é o homem e a divindade, voltando-separa as dimensões do eu diante do mundo, tal como ocorre no episódioalusivo a Manu, nessa errância do Unicórnio: Encarnação de Vishnu. O peixe é o homem, o homem-deus, Prajapali, mestre entre os entes criados4 Uma vez mais Prade leva à sua poética esquemas desviantes doprincípio de identidade, nessa fusão do homem e do peixe. Observe-seque, sempre afeito ao mundo e ao universo interagindo com o pensamen-to, o eu poético tangencia reversibilidade, correspondências e simulta-neidades do Uno, do múltiplo e do diverso, bem como desconstruçõesdessas instâncias. Não se atendo à cisão entre o poético e o pensamen-to, Prade aproxima-se das filosofias orientais, que ampliam as instânciascognoscitivas através de aproximações com o poético. Mas, referendan-3 PRADE, Péricles. “Pomba Alquímica”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio. São Paulo: Quaisquer, 2005, p. 12.4 PRADE, Péricles. “Peixe de Manu”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Uni- córnio, op. cit., p. 36.
  • 106. 108 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradedo a razão absoluta, eis que na tradição ocidental insurge-se grandeimpasse relacionado ao pensamento guiando-se pelo princípio de iden-tidade. Ao fluxo de enunciados e de esquemas, o pensamento desvia-seda diferença e cria um hiato entre verdade lógica e verdade ontológica.E, no campo do signo, cria-se uma convenção entre significado e signi-ficante, bem como uma cisão entre o discurso e o sensível. Em sendo odiscurso abstrato e totalizador, nele transparecem contradições relativasao plano estético. E de modo paradoxal - numa espécie de feitiço viran-do-se contra o feiticeiro - nos critérios de clareza e agrupamento poridentidade, encontramos vislumbre de entreluz, áreas de sombra, per-meando o inteligível e o sensível. Porém, sem oposições categóricas, na poética das metamorfosesreúnem-se memória e imemorial, criando espaços e tempos intrínsecosà poesia. Reúnem-se concretude e onirismo. Desconstruindo modelos,Prade induz o pensamento à flexibilidade. Não ao irracionalismo. Nes-se sentido, em sua poesia inserem-se estratos filosóficos. À constataçãodo espanto implícito ao filosofar e ao poético, o poeta acrescenta o as-sustar-se, ou seja, ressalta o estado de ânimo do Unicórnio ao encon-trar o espelho d’água. Assim como ao homem, ao Unicórnio é dado as-sustar-se ante a própria imagem - assustar-se ante a visão da metamor-fose doadora da consciência de si. Posta à prova a responsabilidade dover-se, o Unicórnio assusta-se ante a imagem que o revela metamórfi-co, tal como se intui no fecho desta Epopéia. Dádiva do espelho. Desti-no do corpo. O Unicórnio assusta-se ante o poder das metamorfoses. Eiso indício das pegadas de Mercúrio nesta Epopéia, enlaçando e desfazen-do o Uno e a rede do múltiplo nessa trama sutil que liberta o Unicórnio,e lhe permite a transformação do corpo e do simbolismo: Teu nome é princípio (...)5 Concentrando forças de princípio, ao Unicórnio se atribui poderde origem. A esse poder de origem exalta-se uma ontogênese da maté-ria, imbricando-se nas variações do corpo e do nome do Unicórnio. Nosversos de Prade, a água não representa o líquido lendário. A água exis-te no plano imagético. Inaugura uma ontologia. Atua em ontogênese.Atua como purificação. Chama. Lugar semovente. Desvio. Curso. Na5 PRADE, Péricles. “Santuário”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, op. cit., p. 22.
  • 107. Mirian de Carvalho 109errância do Unicórnio, a água faz-se princípio. Adquire propriedadesativas e transformacionais dirigindo-se à existência concentrada na cha-ma, despertando o simbolismo do amor. Mas que é o amor? Entre tan-tos sentidos, às mutações do corpo do animal, amaremos as transforma-ções nesse caminho da poesia dirigindo-se ao mundo. Desse fabulosoanimal, amaremos o corpo, que se transubstancia em si mesmo, conhe-cendo-se em contradição interna, em sendo ele fabuloso e monstro6. Masnessa contradição, o fabuloso mostrar-se-á sempre transparente aos sen-tidos, entre metamorfoses apreendendo-o como um monstro amoroso.Nessas imagens, a desconstrução das antíteses ilumina-se pela poesia: Branco branco todo o corpo quase uma nuvem de cruel transparência7. Ante as variações, as imagens conferem ao Unicórnio ambivalên-cias e qualidades de matéria poética. Recobrindo o corpo do Unicórnio,branca nuvem. Cruel transparência. Úmida serpe. À cabeça, o sagradoosso. Via flamejante. Água e cálice. Aqua divina. Aqua mercurialis der-ramando-se ao Jordão. Luz fluindo nos rios da Terra. No chifre renascea fonte das águas transcendendo às geografias. Purificando. Nas andan-ças de Mercúrio, em alguns momentos o Unicórnio incorpora os quatroelementos oníricos, enquanto potências transformadoras fiando no pêlodo tempo os entrelaces e vãos da matéria e do imaginar. Mas suas ma-térias originárias são o fogo e a água. Na trança do corpo e do fôlegodo Unicórnio, pulsa a substância do penúltimo mistério, em esquiva docentro da matéria e da subjetividade. Mas essa esquiva não se reduz aoacaso jogando dados e abstrações. Pródiga de caminhos, a errância doUnicórnio constitui-se lugar do corpo. E espaço cósmico. Na lumines-cente metamorfose do corno transformado em taça, renasce a animamundi no pêlo de outro animal: E o novilho primogênito se fez touro encarnado86 JUNG, Carl. Psicologia e Alquimia. Trad. de Maria Luiza Appy e Margaret Macray. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 464.7 PRADE, Péricles. “Reverência”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicór- nio, op. cit., p. 11.8 PRADE, Péricles. “Salmos”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, op. cit., p. 16.
  • 108. 110 Metamorfoses na Poesia de Péricles Prade Do novilho ao touro sugere-se o contraste entre as figurações dobem e do mal. Mas nesse cântico de amor o poeta mobiliza o maior detodos os símbolos da metamorfose no rol do bestiário mítico - o Uni-córnio. Ante as variações, o poeta captou o fabuloso da fábula muitoalém da narrativa, ao criar outro Unicórnio que não o da lenda, conver-gindo nessa conjunção poética das matérias originárias dando qualida-des ao fabuloso animal. Caça. E salvação. Dia. Noite. Tempos interme-diários. Tempos reversíveis. Tempos indiferenciados. Corpos e nomesdiversos. Escaravelho. Touro. Cordeiro de Deus. Ou seu oposto. Rio.Osso. Do que se nomeia, aos lábios torna-se propício dizer-se em tompoético as qualidades que o animizam. Andrógino. Hermafrodita. Pai emãe de si mesmo. Em que pese atribuições relativas ao mal, ele se reve-la símbolo do amor. Eis outra desconstrução realizada pelo poeta. Aoesquivar-se do maniqueísmo, ele vocaliza um canto de amor ao Unicór-nio.10.2. Do Amor ao Unicórnio Além de situar-se na Alquimia, nas mitologias, nas lendas e reli-giões, o Unicórnio tornou-se igualmente alvo da imaginação artística.Ser de um bestiário mágico, ele “não conhece barreiras culturais”9. Ocu-pando lugar em diferentes terras, crenças e filosofias, foi celebrado porvários povos que o incluíram nos textos sagrados, dentre eles: os Sal-mos, o Talmud10 e o Livro de Job, que o concebe animal real11. Sempreamado por suas virtudes. Solitário e poético, aparece através dos tem-pos em figurações de desenhos, iluminuras, gravuras, pinturas, baixos-relevos, caixas de jóias, brasões, medalhas, tapeçarias, bem como naimagística de outras artes. Animal de todas as terras, sua imagem deter-mina-se entre transformações que o concebem mulher dos mil rostos eanimal fabuloso, simbolizando a virtude, a divindade e o ser universal12.Com poderes do Cristo, no qual vive com qualidades soteriológicas, elepurifica as águas, relacionando-se ao simbolismo da crucificação. Amo-roso da humanidade, ele revive o amado Filho. Em outras metamorfoses lendárias, o Unicórnio assume corpo decervo, pomba, rinoceronte, leão e outros seres. Sua imagem e suas atri-buições desdobram-se nas lendas e alusões iconográficas. Entre varia-9 LYALL, Sutherland. La Dame et la Lycorne. London: Parkstone, 2000, p. 118.10 JUNG, Carl. Op. cit., pp. 456-480.11 LYALL, Sutherland. Op. cit., p. 119.12 LYALL, Sutherland. Op. cit., p. 7.
  • 109. Mirian de Carvalho 111ções, há Unicórnios cavalos, asnos, peixes, dragões, escaravelhos etc.13,articulados na figuração do único chifre, que apresenta simbologias vá-rias, quase sempre relacionadas a poderes benfazejos. Dentre tantosoutros enfoques, em textos islâmicos é concebido com corpo alado decavalo ou de touro14. No Brasil, mencionado por vários pesquisadoresem regiões diversas, o Unicórnio relaciona-se à existência real de umaave - Palamedea cornuta -, conhecida como anhuma, inhuma ou inhaú-ma, à qual se associam lendas, crenças e simpatias, referendando ospoderes do benfazejo chifre e da purificação das águas, tal como nasnarrativas e práticas verificadas em outros continentes. Assim como emoutras terras, aqui o Unicórnio revela-se amado por suas virtudes15. Prade enfatizou a concepção benfazeja e amorosa do Unicórnio.Alvor de silêncio. Penugem de cisne. Cabeça deitada ao colo das don-zelas. Do imaginário das lendas, sonhos e desejos, emerge o Unicórniopara viver existência imagética. Pele branca, branca, branca. Pomba es-piritual. Coroando-lhe a cabeça, o fogo primordial. Osso metamórfico.Taça. Cálice. Alexipharmacon: elixir e contraveneno. Na poesia de Pra-de, a imagística do chifre único consubstancia-se em várias matérias eatribuições, que, conforme o mencionado, desfazem a unidade do Uno,tal a chama das variações verticais. Com várias atribuições, o poderosochifre do Unicórnio salva da morte e das desditas os animais, os homense os deuses. No rastro de Mercúrio, do amor à chama que impulsionatal sentimento, vislumbram-se na poesia aventuras do amado ser, anteinúmeras qualidades do amor. Com tantos sentidos, o amor se descons-trói enquanto noção unívoca, para criar possibilidades. Assim como Rilke, Prade nutriu o fabuloso animal com a possibi-lidade de existência. Com a ternura dos que rasteiam quimeras, Rilkeconcebeu o fabuloso animal em amorosidade. No poema de Rilke16,exibindo simbologia de ereto phalo, o Unicórnio penetrou espelhos e ocorpo feminino, em variações do amor de proteção ao amor carnal.Igualmente amado, o Unicórnio desloca-se neste poema de Prade. Talcomo ocorre nas lendas de terras diversas, Prade relaciona ao Unicór-nio várias concepções do amor, através dos tempos e das esferas socio-13 JUNG, Carl. Op. cit., p. 453.14 LYALL, Sutherland. Op. cit., p. 119.15 CASCUDO, Luis da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 7ª ed. Belo Hori- zonte/Rio de Janeiro: Itatiaia, 1993. Cf. verbetes: Anhuma e Unicorne, pp. 56 e 776.16 Os Sonetos a Orfeu/Elegias de Duíno. Trad. de Karlos Rischbieter e Paulo Garfunkel. São Paulo: Record, 2002, p. 73.
  • 110. 112 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeculturais. Nesse cântico ao amor, esse sentimento se ressalta em varia-ções, tais como: amor paternal e filial; amor à espécie; amizade; frater-nidade; caridade; bênção; edificação; perfeição; bondade; estima; con-sagração; doação; erotismo, dentre outras possibilidades. Concebido nasrevelações várias desse sentimento, o Unicórnio surge coroado pela cha-ma: Enfim, múltiplo animal de solitário osso em forma de chama17 Permeando as metamorfoses, pode ser detectado nessa obra umjogo de sentidos que transcende às figurações do corpo e do nome doUnicórnio, nas simultaneidades da temporalidade poética. Não sendosucessivo, o tempo poético torna-se momento do encontro dos diferen-tes corpos e nomes do Unicórnio em busca de existência variacional.Como mencionamos, essa obra de Prade constitui poema épico realiza-do em nove Cantos, assumindo - ainda que de modo não linear - a dife-renciação das partes desse gênero poético, que pode ser caracterizadopela seguinte ordenação18: a - Proposição: momento em que o poeta apresenta o tema. b - Invocação: versos ou canto em que o autor pede inspiração às musas, às divindades, ou a quem quer que seja. c - Ofertório (componente facultativo): trata-se da dedicatória. d - Narrativa: parte ou partes do poema em que, propriamente, se desenvolve a temática proposta. e - Epílogo: momento das reflexões sobre o desenrolar do tema, podendo determinar-se por tom efabulativo. Entrelaçando esses cinco componentes às metamorfoses do Uni-córnio, mas negando-se ao efabulativo como determinação do Epílogo,essa Epopéia constitui caso singular em que o mesmo “personagem”emerge em todas as partes do poema, inclusive na Invocação e no Ofer-tório. De acordo com esse arcabouço épico, Prade concede ao Unicór-nio em alguns momentos do poema - em momentos cruciais, diríamos -a fala em primeira pessoa. As falas líricas sobredeterminam-se no pri-meiro poema do Canto I e no quinto poema do Canto IX, articulando17 PRADE, Péricles. “Múltiplo Animal”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Uni- córnio, op. cit., p. 10.18 Divisão metodizada por Ivan Cavalcanti Proença, de acordo com técnicas afetas ao fazer literário hoje.
  • 111. Mirian de Carvalho 113espelho, imagens, matérias e metamorfoses do Unicórnio. Diante doespelho, ao assustar-se ante a própria imagem, fixa-se o instante áureodo Epílogo, figurando-se o Unicórnio igualmente fulcro e fonte dasmetamorfoses. Tal como nos outros Cantos desta Epopéia. E tal comoaqui se desenha na Proposição.10.3. Proposição Através da referência às transformações do corpo e do nome doUnicórnio, e fixando a imagística do ser solitário, a Proposição anun-cia-se no Canto I - Nos Rastros de Mercúrio - marcadamente no primeiropoema, quando o poeta define temática e destino do Unicórnio, anun-ciando-se nas simultaneidades do corpo e do nome. Anunciando-secomo ser das várias matérias, ele surge figurando os quatro elementos,ainda que ao longo do poema ganhem primazia o fogo e a água, em des-dobramentos de uma plasticidade metamórfica. Ao rastro de Mercúrio,o poeta inicia sua esquiva do absoluto implícito à forma, ao criar um des-vio relativo à antítese Uno/múltiplo, a partir desse ser que, de modoparadoxal, se nomeia um e muitos e, que, através de desconstruções viveexistência variacional: Nos rastros de Mercúrio sou um e muitos: dragão, peixe peixserpente asno asnescaravelho cavalo cavaltouro búfalo búfalrinoceronte ou outro ser de único chifre esplendente (...)19 Definida a Proposição, fluindo entre fábula e sortilégio nasce oUnicórnio poético, em consonância com o onirismo em emergência nologos. E em consonância com a linguagem transcendendo às metáforase aos símiles, para captar a fábula da vida. A fábula do amor. E da soli-19 PRADE, Péricles. “Múltiplo Animal”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Uni- córnio, op. cit., p. 10.
  • 112. 114 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradedão. Mas também a fábula da utopia, realizando-se através do pensamen-to desconstruindo-se para ressurgir outro. Numa pertinência ao Endo-barroco, o encantatório assume o paradoxo de concentrar no Unicórnioo ser em destaque na Proposição, na Invocação, no Ofertório, na Narra-tiva e no Epílogo, neste Cântico da Solidão. Haverá solidão maior quea da consciência de si? Maior que aquela do encontro consigo e/ou doencontro com o outro dentro do espelho d’água? Conduzindo indaga-ções, o eu poético se lança à Invocação que, de modo implícito, se ins-creve em alguns versos desta Epopéia.
  • 113. 115 11 - Invocação, Ofertório e Narrativa Água. Água transformada em vinho. Um só elemento como o chifre do desconhecido111.1. Invocação As transformações do Unicórnio não ocorrem na passagem dopassado ao presente. Ao longo do poema Prade entrelaça, de modo nãoseqüencial, os componentes épicos, que formam espécie de mosaico,repetimos. Nessa ordem, a Invocação destaca-se por meio de núcleosimagéticos: trata-se de conjuntos de versos com carga semântica defi-nidora do ápice de uma estrofe, ou articuladora de acontecimentos den-tro de um episódio. Observe-se que, intrínsecos aos Cantos, e apresen-tando unidade sonora, morfossintática, imagística e semântica, os poe-mas que formam os Cantos constituem episódios. Valendo-se de orde-nação não afeta ao andamento tradicional do poema épico, a Invocaçãorealiza-se de modo implícito, quando o poeta “pede” inspiração ao Uni-córnio, através de apóstrofes com valor de apelo, em diferentes episó-dios desta Epopéia. Entre variações, o Unicórnio torna-se divindadedoadora de entusiasmo, concedendo ao poeta obséquios imagísticos. NoCanto II - O Touro Primogênito: Reminiscências -, versos com valor deInvocação ressaltam no Unicórnio mansa rebeldia e mistério origináriode uma errância do homem e do animal: A selva não se reduz à coroa de espinhos Oh monge austero de mansa rebeldia, meu juiz, guardião, filho dileto, criatura prenha pelo mistério2 Perpassando simbolismos vários, diversos lugares poéticos reú-nem-se para compor esse mosaico das terras do Unicórnio, que habita1 PRADE, Péricles. “Em Canaã”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio. São Paulo: Quaisquer, 2005, p. 60.2 PRADE, Péricles. “Alusões”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, op. cit., p. 17.
  • 114. 116 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradetodos os continentes da Terra. Mas trata-se também de um mosaico tem-poral, de um prisma multifacetado de instantes que reúnem as peripé-cias do Unicórnio, posto que, no espaço poético, os acontecimentos sãoregidos pelo tempo poético. Entre variações espaciais aglutinadas eminstantes poéticos, as metamorfoses entrelaçam jogos de imagens e deidéias. Cada terra com seu uso. Cada roca com seu fuso. Assim sendo,as variações do Unicórnio refletem o lugar onde ele habita. Centralizan-do o Unicórnio dentro de temática e simbologia recorrentes à bênção, opoeta lhe faz apelo, ao imaginá-lo agora um ser de proteção, rememo-rando passagens da soteriologia cristã. A figuração da soteriologia cris-tã repete-se na imagística de outro episódio, ou seja, nas imagens deoutro poema, ainda no Canto II, quando o poeta alude implicitamenteao Filho e ao Pai, com referência ao amor de salvação: Eva criada em tua presença não me salva, valei-me veloz Unicórnio contra teu duplo astuto, indeciso demônio perfurado pelas pontas da cruz3 Rememorando cosmogonias e poéticas antigas, e envolvendo ofabuloso animal na plasticidade da água fecundante e no movimento dofogo originário, a seguir Prade localiza no Unicórnio o princípio unifi-cador do Universo e da humanidade, e a ele assim alude em vários mo-mentos no Canto III - Árvore Pagã. Nesse conjunto de poemas, o ani-mal surge diversificado na imagística da origem; do movimento; da na-tureza; do fogo e da água, desdobrando-se em muitas outras imagens,que acompanham sua existência variacional. Nesse momento, o Unicór-nio é reverenciado como divindade a quem o eu poético implicitamentepede inspiração, dirigindo apelo ao belo semovente e transformacional.Em tom de oratório, declara-se a venturosa Invocação: Oremos, uno- córnios, sustentados pelas quatro chaves do retorno43 PRADE, Péricles. “Representações”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Uni- córnio, op. cit., p. 20.4 PRADE, Péricles. “Elementos”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, op. cit., p. 25.
  • 115. Mirian de Carvalho 117 Aquiescendo às quatro chaves de caminhos não conhecidos, ora-mos. Igualmente no Canto III, o Unicórnio surge rememorado na ima-gística de Osíris. Na simbologia alquímica revivida pelo poético, o apeloa Osíris realiza-se por meio da denominação chifre celeste da lua. Doponto de vista simbólico, trata-se de referência ao mesmo princípio ori-ginário, aludido na tradição alquímica, em que o Unicórnio é mencio-nado também na condição de “ser primordial, designado como Sophiae Adam”5. No referido episódio, a voz poética invoca Sofia - simboliza-da como princípio protetor do Unicórnio. E, nessa mesma passagem,através de apelo a Osíris, o animal do corno-em-forma-de-chama adqui-re o corpo e o ânimo dessa divindade mutante. No corpo de Osíris, eleé misteriosa fábula noturna, de misteriosa musicalidade e poderes cós-micos que, em esquiva da concepção alquímica, assume outra metamor-fose: Oh “chifre celeste da lua” teu hino de mistérios lembra manchas, analogias6 Sugerindo sortilégios benfazejos e poderes de mistério sinalizadordas metamorfoses do corpo, e dos lugares de peregrinação do Unicór-nio, no Canto IX - Unicórnio Lunar - o poeta dirige-lhe chamamento nafiguração do cálice, simbolizando conteúdo e continente sacros, atravésdas várias funções do chifre. Metamorfoseado em figurações diversas,nesse momento o corno torna-se cálice, remontando à tradição cristã dacomunhão: Cálice da salvação, cálice da comunhão, cálice do oráculo, cálice imemorial que cura7 Concebido com propriedades de cura e bom agouro, e convergin-do em transformações, o chifre do Unicórnio faz-se órgão vital e sim-5 JUNG, Carl. Psicologia e Alquimia. Trad. de Maria Luiza Appy e Margaret Macray. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 469.6 PRADE, Péricles. “Osíris”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, op. cit., p. 26.7 PRADE, Péricles. “Cálices”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, op. cit., p. 58.
  • 116. 118 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradebolismo metamórfico na imagística do cálice salvador, e “objeto” deapelo. Tal leitura poderia ser transposta à correspondência chifre-cáli-ce-coração, nas variações do fabuloso animal ao longo do poema. Àerrância do Unicórnio registram-se ainda outros núcleos imagísticosreferendando apelo, quando, igualmente em outros episódios, o poetalhe dirige a voz solicitando algum tipo de cuidado, através de apóstro-fes com valor de Invocação. E, por vezes relacionando-se à Invocação,em outras partes do poema evidenciam-se núcleos poéticos, que adqui-rem tonalidade e ressonância de Oferenda.11.2. Ofertório Na poética do Unicórnio, há vários núcleos imagísticos com valorde Oferenda, louvando o amor ao misterioso ser encantado. Encantan-do-se o poeta ante a magia do Unicórnio, o Ofertório lhe é igualmenteencaminhado em vários momentos do poema. De modo simbólico, adádiva anuncia-se na epígrafe do livro de Prade, aludindo ao Unicórniode Rilke, e anuncia-se implícita a passagens e episódios diversos, ob-servando-se, tal como na Invocação, o elogio desse animal através dasqualidades variacionais, convergindo e desconstruindo a antítese do beme do mal. Trata-se de imagística alusiva ao Canto II, quando, ao caris-mático e mutante ser, o poeta oferece o poder da mensagem sagrada,arando textos e águas: Com licença: agora é o Unicórnio que puxa o arado de Zürchen Bibel entre os campos de outras água santas8 Realizando espaços de acolhimento entre águas e chamas, o Uni-córnio habita lugares poéticos. Aquiescendo à ascese e à descese naverticalidade do tempo poético, a origem do Unicórnio revela-se na es-fera do fantástico: que se transforma configura-se Unicórnio. Que seconfigura Unicórnio revela-se origem de si mesmo. Assim sendo, noCanto IV, implicitamente ofertando-lhe poderes de autogeração, e reme-morando o simbolismo alquímico, Prade faz ressurgir o Unicórnio comoelemento primeiro das mutações, e substância da própria substância ori-8 PRADE, Péricles. “Christi Baptismum”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, op. cit., p. 18.
  • 117. Mirian de Carvalho 119ginária. Mas para legar-lhe poderes de autofecundação, o poeta inicia aestrofe em tom de apelo, reunindo Invocação e Ofertório, ao doar-lhe aconfissão de estima: Ah increado, matéria-prima bissexual, serpente-dragão-escaravelho, filho único, filius philosophorum, pedra translúcida que tanto estimo9 Existência das variações, esquivando-se do absoluto, em figuraçõesmetamórficas, o tema do amor escreve a poética do Unicórnio, obser-vando-se que, entre variações, o amor faz-se sentimento relevante navida e nas andanças do fabuloso animal, habitando lendas terrenas ecósmicas. Sempre amado. Que se torna amado revela-se Unicórnio. Maso que é o amor? Eis que a pergunta conduz uma desconstrução funda-mental, dando sentidos múltiplos a esse inefável sentimento. E, varia-ções, ao ser amado. E, em exclamativo momento de doação, no CantoV reafirma-se, simbolicamente, a oferenda do amor, quando da visita-ção do Unicórnio às terras orientais nas paragens da Assíria e da Babi-lônia: No Oriente estamos. Príncipe nosso, assírio-babilônico (...) Um só corno muito amado10 Fulcro da Proposição. Divindade dos apelos poéticos. Centro dasoferendas amorosas. E da solidão. Muito amado, o Unicórnio aceita adádiva do poeta. E, na qualidade de herói, habita os episódios que lhedão vida transformacional, através da Narrativa. Quanto a essa instân-cia épica, ela se determina como trama poética articulando atos, reali-zações e metamorfoses do fabuloso animal, vivendo na confluência deacontecimentos não cronológicos, e desconstruindo o tempo sucessivo.Ressurgindo de si mesmo, o Unicórnio percorre o anel de Mercúrio,9 PRADE, Péricles. “Unígena”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, op. cit., p. 29.10 PRADE, Péricles. “No Oriente”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicór- nio, op. cit., p. 34.
  • 118. 120 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeseguindo a verticalidade espiralada do tempo, que se consagra instantepoético. A cada variação do Unicórnio insurge-se o carpe diem. Inau-gurando travessias, ele renasce em outro lugar, marcando o momentodecisivo das possibilidades. Em cada instante da narrativa, o Unicórniovive o tempo do “agora”. O Unicórnio aproveita o instante para renas-cer.11.3. Narrativa Nessa trama sincrônica definem-se as andanças do Unicórnio,apresentando variações nas diversas culturas. Trata-se de figurações quese inserem nessa Epopéia em imagens sincrônicas. Conforme o mencio-nado, o tempo poético reúne momentos da vida do Unicórnio, e revelacorrespondências dos elementos da imaginação poética, com predomi-nância do fogo e da água. Movendo-se no tempo vertical, ou seja, notempo poético, o Unicórnio converge para o instante do ver-se nas águas,quando se reconhece solitário, à imagem da chama que o coroa no CantoI. A esse tempo, o Unicórnio assume o carpe diem, visto que o fabulo-so animal vive com intensidade o “agora”, para renascer outro. Do Canto II ao Canto VIII, desenvolvem-se “estórias” do Unicór-nio. Mas elas anunciaram-se na Proposição, inscrevendo-se igualmentenos fragmentos referentes à Invocação e à Dedicatória, lembremos: aperfazer simultaneidades imagísticas. Tais “estórias” afloram na tramado Canto IX, quando, no quinto poema desse Canto, se definirá o fechoda Epopéia. Um fecho de sentidos latentes, que, semi-abrindo-se desdeos primeiros versos, desvela uma visitação a esse animal nas instânciasda chama e do espelho. Em solo poético-narrativo, o Unicórnio trans-forma-se. E, junto às variações do corpo e do nome, o amor diversifica-se, surgindo em imagens diferenciadas a cada episódio. Nesse tempofugidio desvela-se o amor ao Unicórnio. Seja ele carnal. Ou fraterno. Oucompaixão. Ou caridade. Que é o amor? Esta pergunta desconstrói con-ceitos, ao abranger o que não pode ser nomeado. Touro Primogênito. Pomba. Escaravelho. Chave cifrada. Ser e nãoser. Eis o Unicórnio. Mas em sendo Pai, Filho, Espírito Santo, e em sen-do o próprio lápis - matéria-prima - todas as formas ser-lhe-iam permi-tidas, posto que ele conduz o princípio articulador da transitividade en-tre origem e transformação. E conduz o indiferenciado. Louvando oamor-bondade e o amor de salvação, no Canto II - O Touro Primogêni-to: Reminiscências - o poeta, esquivando-se do maniqueísmo, retira doUnicórnio o simbolismo do mal, que algumas versões lendárias lhe atri-buem:
  • 119. Mirian de Carvalho 121 Supõe o mal que sua aparente nobreza é meu espelho? Não perturbo o humilde receoso que no entanto não sei se da boca do Leão se salva11 Então, rodeado por algozes, o solitário ser identifica-se com o Cris-to, a redimir o mundo, purificando-o dos males e pecados. Mas que é omal? Que é o pecado? Eis que, através do poético, transcendendo àsdualidades, a poesia liberta a boca e a fala para articular caminho e des-caminho das perguntas. Ante o logos tudo é pergunta. Tudo é resposta.Nada é indagação. Nada é resposta. À transformação dos elementos ini-cia-se o olhar da linguagem nascente. Nesse poema, em sendo substân-cias da contemplação e/ou da turbulência, o fogo e a água encontramcorrespondências na calma que lhes aplaca a ira. Da água, no transcur-so dos episódios épicos, Prade ressalta-lhe a natureza líquida e prime-va, figurando origem e equilíbrio. Nessa imagética, o Unicórnio reviveno Canto III - Árvore Pagã - a pedra filosofal e úmida serpe, ao encar-nar o amor cantado como origem, perfeição e substância primeva. Ge-rando perfeição e maturidade do Universo, o corpo do Unicórnio trans-forma-se na arché fundamental, que Tales de Mileto imaginou substân-cia primeira. Nesse momento da Narrativa, o fabuloso animal surgemencionado através de apóstrofe implicando Invocação, repetimos12. Àágua o animal retorna, úmido e branco. No indiferenciado da substân-cia, ele renasce: Úmida serpe, a ti retorno dependente, água pura, substância sorvida por Tales de Mileto. Generosa umidade, metáfora radical em aquário antigo, espiral divina cifrada pela permanência, nervo imortal que se arrasta, escama sagrada, oratório, beleza semovente entre vegetais ciganos1311 PRADE, Péricles. “Salmos”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, op. cit., p. 16.12 Veja-se o item Invocação (11.1).13 PRADE, Péricles. “No Oriente”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicór- nio, op. cit., p. 24.
  • 120. 122 Metamorfoses na Poesia de Péricles Prade Ao andamento dessa Epopéia, no Canto IV - Cabeça de Ouro - oUnicórnio uma vez mais emana da metamorfose de Osíris. O amor tan-ge consagração e estima à divindade, em sendo aludido também comopurificação. Das metamorfoses nascem metamorfoses. Tal como no riode Heráclito, o Unicórnio não é o mesmo. Carpe diem. Ante a água aco-lhendo-lhe a imagem, o Unicórnio se faz animal das cheias e vazantesdesembocando em outras águas, para lançar-se ao espelho - lugar poé-tico onde ele se vê. Onde ele se encontra. E onde se diversifica. Então,à imagem de Osíris, o Unicórnio transforma-se em escaravelho e dra-gão desmembrados e decapitados, anunciando-se em resplendente cor-po. Ante essa visão da luminosidade, Zózimo14 visita o Unicórnio e oconduz a terras do Oriente. Nessa errância, o carpe diem é o “agora”intuído em todos os lugares. O tempo que concebe a vida. Na intuiçãodo “agora” conduz-se a ressurreição daquele que, em esquiva da morte,renasce no instante: Quem me disse foi Zózimo: havia um morto, todo branco como o sal, a cabeça de ouro separada do corpo15 Desmembrado ou acéfalo, o Unicórnio renasce. E, dando continui-dade às metamorfoses, no Canto V - Unicórnio Marinho -, Prade faz oelogio do amor-reverência e purificação. Do amor que salva um país. Doamor com poderes de cura. Do amor que combate demônios. Habitan-do terras da Assíria e da Babilônia, o Unicórnio mostra-se sob forma detouro alado. E ainda em terras distantes, transformando-se em antílopesagrado, o fabuloso animal revela em si a kshetryia - doença hereditárialocalizada no coração. Ainda que se referindo à doença, o poeta confe-re ao Unicórnio poderes benfazejos referentes ao chifre, curando malese reluzindo, tal um telhado de quatro lados16, sugerindo as quatro dire-ções do corpo humano, ou os cantos do Universo, ou relacionando-se àunidade da mandala:14 PRADE, Péricles. “Visão de Rosinus”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, op. cit., p. 31.15 Idem.16 PRADE, Péricles. “Genuflexão”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicór- nio, op. cit., p. 35.
  • 121. Mirian de Carvalho 123 Antílope sagrado de veloz doença: deposita-se a kshetryia no coração gelado, matéria hereditária espalhada por um único vento17 Ante à alusão à doença, surge o ensejo de “interpretação” aderen-te à poesia: que doença seria essa? A solidão? Entre indagações, torna-se importante o fato de ter o poeta recorrido a esse símbolo, conduzin-do o leitor a conjeturas e desconstruções do discurso. Sobre esse tema,caberia a pergunta pela doença hereditária, aludida nas lendas védicasdo Unicórnio. Mas dentre os autores consultados, não encontramos re-ferência textual sobre o significado desse mal localizado no “coração”18.Quanto ao caminho do signo, mostra-se viável conceber as variações dosignificado, que, desdobrando-se a partir da própria etimologia do sig-nificante, pode trazer significações contrárias. Se tal questão pode reme-ter-nos à ambigüidade e à contradição no plano do discurso, por outrolado ela ressalta no poético a riqueza da ambivalência e/ou do parado-xo, desconstruindo a própria lenda. No que tange à poética das metamor-foses, a especulação sobre a doença hereditária19 pode ser interpretadanessa perspectiva. Ao desconstruir a lenda, Prade sempre reencontra o Unicórniopoético. Cavalgando então águas e mares, ressurge ele sob forma depeixe no Canto V - Unicórnio Marinho. Mais uma vez o poeta relacio-na o Unicórnio à imagística da água primordial, que na Alquimia é atri-buto de Mercúrio e, igualmente, símbolo desse animal metamórfico con-sagrado a Mercúrio. Encarnação de Vishnu em terras da Índia, o Uni-córnio das águas transforma-se em Manu: pai da humanidade. E, con-duzindo as metamorfoses ao plano das desconstruções, o encantatório17 Idem.18 JUNG, Carl. Op. cit., pp. 472-473.19 Quanto à lenda, além das possibilidades metafóricas alusivas à doença, outra via consiste na possibilidade da interpretação das narrativas e/ou dos textos originais, lendo-se ao pé da letra enunciados simbólicos. Esta observação se remete ao fato de encontrar-se, especificamente no Canto VI, uma referência ao Unicórnio como ale- xipharmacon, termo de significações ambíguas, assim como a menção à doença. Tal questão pode ser abordada a partir da filosofia de Platão, com base no pensamento de Derrida (trad. de Rogério da Costa. São Paulo: Iluminuras, 2004), especialmente na obra A Farmácia de Platão, em que Derrida alude ao termo pharmacon, nas acep- ções de veneno e medicamento.
  • 122. 124 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeanimal emana das águas e escamas do peixe sagrado, que encarna a di-vindade e o homem. A essas variações viabiliza-se desconstrução dobinarismo homem/divindade, conforme o mencionado, legando-se aoUnicórnio a dinâmica da água nos azuis do dilúvio: Criaste, Manu, o peixe que cresce rebocado sobre os azuis do dilúvio O barco, amarrado ao Unicórnio marinho, conduz o mito entre os silêncios20 Assim como a erótica e úmida serpe, o Unicórnio torna-se um seraquático. E no Canto VI - O Asno Persa - assume o amor na condiçãode cuidado e cura, mas também o revela erótico, sugerindo outra vez apergunta: que é o amor? Este que se nega ao Uno para estender-se aosseres diversos? Sem resposta, o Unicórnio revela-se também em estadoindiferenciado, tal a água primordial. No rastro do amor, o animal depêlo, de escamas, de plumas, e de tantas outras possibilidades, ressurgena aparência de asno gigantesco, e símbolo da árvore ancestral, sendoainda referido na simbologia do Cristo e do lápis encantado. Nesse Can-to reafirmam-se seus poderes curativos, com passagem pelo templo deJerusalém. Transformado em asno, o Unicórnio inscreve-se na versão daAlquimia latina, através de imagens alusivas ao erotismo: Tricéfalo monstro, latina trindade, belo corno triangular, asno adorado no Templo de Jerusalém (...) Antevejo Jahvé e Jaldabaoth estimulando Saturno antes do gozo21 Sempre desviante do binarismo alquímico, na poética do Unicór-nio Prade elabora episódios com valor de simultaneidade, lembremos.Não há sucessão narrativa. Há uma trama imagética. Ao fixar no tempo20 PRADE, Péricles. “Peixe de Manu”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Uni- córnio, op. cit., p. 36.21 PRADE, Péricles. “Daemon Trinus”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Uni- córnio, op. cit., p. 43.
  • 123. Mirian de Carvalho 125poético as passagens da vida do Unicórnio, Prade visita outras terras,onde o animal ganha aparências diversas que, sincronicamente, o loca-lizam no fecho da Epopéia. Ao encontro da imaginação e do símbolo, ofabuloso animal chega ao Canto VII - Fora da Arca -, encarnando ou-tras diversificações relativas a divindades e elementos da natureza. Nessaparte da Epopéia, o Unicórnio tangencia o amor à espécie e à edifica-ção: o que é o amor? Como transcende ele ao Uno e ao múltiplo? Comose esquiva ele das definições? E agora, passageiro da Arca de Noé, oUnicórnio atua como herói evadido da fúria das águas. Enorme corno.Corpo gigantesco. Animal nascido em eras passadas, ele viajou fora danave para salvar-se do Dilúvio: Do dilúvio escapo como Og, rei de Basan. Ao meu lado viajo no degrau da Escada ou no telhado ora quente, ora frio22 A cada episódio o Unicórnio subsume uma ontogênese. Na emer-gência de imagens que o levam às florestas da China, ele chega aos epi-sódios do Canto VIII - No Jardim do Imperador Amarelo -, onde o amorfaz-se anunciação e perfeição: o que é amor? Nessa parte da Epopéia, oanimal encontra-se circunscrito às oposições complementares no Taoís-mo, relacionando-se à figuração de K’i-Lin - macho e fêmea - síntesedo andrógino místico, que cuspiu um documento de jade, anunciando onascimento de Confúcio: Corpo de cervo, rabo de boi, patas de cavalo - Tu conheces, tríplice animal, a senha do soberano perfeito23 À errância do Unicórnio por terras, céus e mares, o poeta dimen-sionou-o em acontecimentos adequados às transformações do corpo edo chifre-em-forma-de-chama. E, chegado o Epílogo, predominam des-22 PRADE, Péricles. “Unicórnio Gigante”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, op. cit., p. 46.23 PRADE, Péricles. “Retrato do Andrógino”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, op. cit., p. 52.
  • 124. 126 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeconstruções afetas a antítese dos elementos. Aderindo às qualidades dassuas matérias originárias, o Unicórnio nasce de si mesmo, no bojo deimagística que o acolhe como entidade bissexual, ou hermafrodita, ouandrógina. Muito amado. Sempre solitário. Ao fecho do poema, o autorreafirma a transgressão da lenda, clarificando sentidos através dos não-ditos. Mas, observemos, o Epílogo desta Epopéia poderia constituir-sepor outro qualquer episódio, uma vez que se trata de uma trama episó-dica. Não de uma seqüência.
  • 125. 127 Conclusão O Código dos Não-ditosEpílogo Dentre inúmeras aventuras do resplendente herói salvador e caçacapturada, o Unicórnio transmuta-se na intertextualidade dos episódiose no diálogo das imagens. Às metamorfoses do corpo encantado con-fluem várias passagens da vida desse animal das variações, iluminandoo primeiro espelho do anel de Mercúrio, a contemplar-se em reflexo nonono espelho desse anel. Ou seja, tangenciando episódios que se com-plementam em sincronicidade desde o Canto I, chegamos ao Canto IX- Unicórnio Lunar -, momento em que a imagística do fabuloso animalrealiza o caminho da consciência de si, ante a água primordial. Ao es-pelho, o Uno se desconstrói, e nessa desconstrução se dissipa o absolu-to. Ao encontrar-se consigo que é também o outro, não sendo nem o eunem o ele, no fecho dessa Epopéia o Unicórnio anuncia-se em primeirapessoa, deixando entrever a fala sobre a terceira pessoa. A fala sobre ooutro: Vejo-me n’água1 Aludido várias vezes nessa Epopéia o elemento “água”, chega-seao poema que exalta as qualidades do espelho. Ao escolher o verso etítulo do poema “De moy je m’épouvante”2, Prade optou pelo termo“assustado” - para caracterizar o estado de ânimo do Unicórnio. Corporefletido n’água, o Unicórnio se vê sob o impacto de um olhar revela-dor da sua existência heteróclita, conduzindo o logos entre sentidos pa-radoxais. Esses sentidos paradoxais demarcam o Endobarroco na poe-sia de Prade, caracterizando singularidades imagético-semânticas emdesvio do princípio de identidade. Se tais características são de modogeral comuns ao Endobarroco, na poesia de Prade a elas se soma o en-cantatório marcando-se como diferencial. Aquiescendo a tais singulari-dades, no Epílogo o Unicórnio realiza as aventuras de Percival, acolhen-do metamorfoses em seu corpo de cavaleiro: acolhendo metamorfoses1 PRADE, Péricles. “De moy je m’épouvante”. Em Forma de Chama: Variações so- bre o Unicórnio. São Paulo: Quaisquer, 2005, p. 62.2 PRADE, Péricles. “De moy je m’épouvante”. Em Forma de Chama: Variações so- bre o Unicórnio, op. cit., p. 62.
  • 126. 128 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeem seu coração, que, no espaço e no tempo do Medievo, e no tempoatual, carrega dádivas do alquimista avarento. E direciona-se ao espe-lho: Sobre a chapa do Rei meu coração colocado. Que o diga Percival oculto, o corno alvo sob a axila direita, guardado como a pedra farta do alquimista avarento Vejo-me n’água Vejo-me n’água outra vez, assustado, o corpo refletido nos umbrais azuis do penúltimo mistério3 Vendo-se, e reafirmando a visão ante seu elemento primordial, aoestado de ânimo do Unicórnio associa-se o elemento água. Substânciae imagem primeva. O indiferenciado. O sêmen. A umidade. Serpe úmi-da e fértil: matéria ativa nos umbrais azuis do penúltimo mistério. Ven-do-se n’água, o animal assusta-se ao olhar a própria imagem. Ele se vêno outro que - desviante do Uno e do múltiplo - a vida inteira o acom-panhou em variações, reunindo possibilidades. Define-se o momento emque o poeta sugere a metamorfose fundamental do Unicórnio, surpreen-dendo-o “assustado”. Dissipada a ilusão especular, o animal descobre-se atravessando os limites do espelho, em assustador e amoroso encon-tro. E espanto. Alcançara a cor dos umbrais refletindo-se no azul: nos umbrais azuis do penúltimo mistério4 Nesses umbrais, podemos intuir o código da decifração do últimomistério. Podemos intuir o mistério intrínseco ao Unicórnio: a cumpli-cidade do olhar, figurando sentimento realizado pelo contemplar-se. Queé o ver-se, senão a fala do olhar do outro? Que é o contemplar-se, se-não o consentimento do olhar do outro? Desconstrução do mito de Nar-3 Idem.4 Idem.
  • 127. Mirian de Carvalho 129ciso? Configura-se aqui um caminho possível a estas indagações, vistoque o Unicórnio desconstrói o mito, bem como as metáforas míticas:“Efetivamente, o narcisismo nem sempre é neurotizante. Desempenhatambém um papel positivo na obra de arte e, por transposições rápidas,na obra literária.”5 No espelho do Unicórnio, nasce um Narciso amoro-so, que vem à existência “tal como ama a si próprio”6. Não lhe pertenceo belo rosto de um jovem no espelho d’água. Não lhe pertence a ima-gem desfeita. Não lhe pertence o corpo de cavalo de um só chifre. Per-tence-lhe o resplendente corno em forma de chama. A plasticidade dachama. Pertencem-lhe as variações. Ave. Peixe. Inseto. Divindade. Etantos outros. Mas não lhe pertence o último mistério. Desconstruindo-se o corpo do Unicórnio, resta-lhe a chama. Res-ta-lhe a chama transformacional. E ante a plasticidade do penúltimomistério, ele encontra olhar e variações. Monstro. Divindade. Fábula.Chama. Solidão. Destina-se ao Unicórnio a conjetura do último misté-rio, ao contemplar-se nas águas à procura do outro. Haverá encontro?Solitude: que resta da busca. Solitude: que resta da desconstrução doabsoluto. Esta se configura interpretação do poema de Prade, recriandoo Unicórnio na instância poética. Interpretação em aberto, induzida pelofecho em abertura. Retornando a metáfora do anel de Mercúrio, no Can-to I - alusão ao Uno e ao múltiplo. No último Canto - reflexo do Unodissipando-se. Na água, o Unicórnio contempla a ilusão que se dissol-ve no Uno desfeito. Que se dissolve no múltiplo enquanto reproduçãodo Uno. Quixote. Andarilho. Unicórnio. Solitário descobridor do espe-lho que o perseguirá além dos limites das águas, ele assume o fôlegohumano. Que se torna fôlego, renasce vida. Rememoremos então noCanto II a passagem que, em simultaneidade imagística, bem se entre-laçaria ao Epílogo: Ao homem dou a força vital apesar dos membros caídos e do olho cansado à margem do símbolo7 Dentro e fora do símbolo, ele é Adão - princípio masculino ema-nado das entranhas da fêmea. Dentro e fora do símbolo, ele é Eva - saí-5 BACHELARD, Gaston. A Água e os Sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 1989, p. 25.6 BACHELARD, Gaston. A Água e os Sonhos, op. cit., p. 25.7 PRADE, Péricles. “Salmos”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, op. cit., p. 16.
  • 128. 130 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradeda do flanco do macho. No mesmo corpo, animus e anima. Nem mas-culino. Nem feminino. À sua existência amorosa e errante, amaremosesse ser que não sabia dentro de si o andrógino. E amaremos a solidãodaqueles que do absoluto se desviam. Evadindo-se da narrativa lendá-ria, a poesia escolhe a errância do Unicórnio e da linguagem, direcio-nando-se ao espelho. Direcionando-se à metamorfose primeira e última.Que o faz humano? Não será esse o último mistério? À decifração doindecifrável, ator fora do mito, ao Unicórnio realiza-se a desconstruçãodo sonho do absoluto. Ante a cumplicidade do olhar.A Superação das Dualidades Superando dualidades, às metamorfoses do Unicórnio poético dis-tanciam-se as paragens do lendário. Na poética de Prade, o fabulosoanimal compartilha corpo e fôlego dos diversos seres que o acolhem,ultrapassando oposições excludentes. O Unicórnio participa dos elemen-tos oníricos. Dentro da terra, ele habita cavernas e gargantas subterrâ-neas. Em romaria pelo ar, transforma-se em pomba de resplendente bran-cor. Na urna d’água, transmuta-se em cavalo e peixe dos mares sagra-dos. Relembrando suas inúmeras metamorfoses, voltemos à proposiçãodesta Epopéia, quando ele se apresentara em diversificada imagem, de-sestruturando o absoluto. Corpo. Chifre. Lume. Dragão. Og. Peixe. Etantos outros sentidos desmontando o significado do Uno. E do múlti-plo enquanto réplica. Do fogo à água, o Unicórnio realiza-se em tran-substanciação e reversibilidade. À fronte do Unicórnio, impulsos de luminosa verticalidade. Mo-vimentos da chama. À contemplação desse fogo dissolvendo-se dentrod’água, desfaz-se a unidade. E o duplo. Dissolve-se o ilusório. Solitudeé o que existe, em busca do outro que é o “si mesmo” em transforma-ção. E em busca do diverso a vida se faz sentimento amoroso. Mas nes-sa errância, que é o amor? Metamorfose? Encontro do outro sempre di-verso do Uno? Aonde quer que esteja, o Unicórnio é o outro. À cabeça, flecha de sol. E taça. Aos movimentos da espiraladahaste ascendente, lhe vai ao encontro o encantatório, doando-lhe o cáli-ce das águas originárias. Andrógino, o Unicórnio encarna a donzela quelhe acaricia o manso pêlo. Andrógino, ele encarna o touro. E ganha po-deres de macho e sêmen. Nessa articulação amorosa, o chifre oscila entrefalo e taça. Haste e concavidade, transitando em ascese e descese anteàs variações do corpo e da vida. Na trama dessa Epopéia, o poeta res-salta e intensifica sugestão transformacional e anímica do homem e doanimal ante à chama e o olhar ao espelho. Ante a vida refletindo-se no
  • 129. Mirian de Carvalho 131contemplador. Nela, o contemplador encontra sua metamorfose, porqueo fogo vive em errância vertical. Alimenta-se em atividade. O fogo poé-tico não se esgota. Transforma-se. Em intimismo e expansão cósmica,a chama atrai o olhar. Arde. Brilha. Projeta sombras. Ilumina. Brincan-do com o ilusório, a chama o desmascara. Comparável ao dinamismodo sêmen, o fogo mostra-se elemento semovente. Assim como a água,o fogo atua, ainda que em repouso. À luz fálica do espiralado chifre, aágua conjuga qualidades de animus e anima: impulsos fortes e impul-sos tênues de forças atuantes. Ao participar da luz, a água participa da chama. Integra-se à cha-ma que confere ao Unicórnio potencialidades de arquétipo mobilizadopela imaginação poética, transformando o Unicórnio a partir do lume eda umidade. Não houvesse a lenda, ao poeta seria permitido conceber oUnicórnio, posto que as lendas nascem do espírito criador de seres fa-bulosos, intrínsecos às imagens apreendidas antes da narrativa, descons-truindo o discurso. Unicórnio. La Lycorne. Sua denominação em dife-rentes línguas pode variar de gênero, mas isso não o define em essênciamasculino ou feminino. Do ponto de vista alquímico, ao Unicórnio con-sagra-se a diversidade do masculino e do feminino na plasticidade queo concebe “monstrum hermaphroditum”8. Água mercurial - sua origemfeminina. Princípio úmido. E princípio movente das transformações.Uma chama de sol conduz-lhe o chifre ascensional e fálico. À verticali-dade do tempo, ele conjuga qualidades do masculino e do feminino, masambos se desconstroem, reunindo-se na poética das metamorfoses. Nemmasculino. Nem feminino. Na reunião das diferenças nem sempre háforças opostas. Há variações. Há complementaridade. Andrógino, o Unicórnio inscreve-se no poema exibindo contradi-ção interna, afeita à dualidade de ser “fabuloso e monstro”9. Mas igual-mente a poesia de Prade desconstrói essa antítese, dando-lhe sentidotransformacional. Humano. Animal. Fabuloso. Telúrico. Lembremosque, de modo similar, o fogo conjuga a ambivalência dos grandes con-trários10, revelando condição implícita ao estado anímico da água. Do-çura e violência. Afago e ameaça. Contemplação e domínio. Nessa ten-são extrema das diferenças, o Unicórnio desata o absoluto subjacente às8 JUNG, Carl. Psicologia e Alquimia. Trad. de Maria Luiza Appy e Margaret Macray. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 464.9 Idem.10 BACHELARD, Gaston. A Psicanálise do Fogo. Trad. de Maria Isabel Braga. Lisboa: Estúdios Cor, 1972, p. 21.
  • 130. 132 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradequalidades das substâncias. E dessubstancializa a matéria e seu estofoantitético. Então, o Unicórnio assusta-se ante o espelho. Assusta-se nesselugar onde se reúnem elementos diversos. Assusta-se nesse lugar ondeas coisas tangenciam o diverso. Onde os elementos se transformam unsnos outros. O Unicórnio assusta-se, quando se encontram o primeiro eo nono espelhos do anel de Mercúrio, ou seja, as imagens do Primeiroe do Nono Cantos dessa Epopéia, fechando e abrindo o aro da consciên-cia de si, tal como nas figurações anunciadas no Canto I: Deitado sob as folhas revejo o cervo que foge após me olhar como duplo antes da ressurreição O que somos seremos11 À imagem do que somos, seremos errância. E diversidade. À ima-gem da errância, seremos solitude. Mas ante a imagem da solidão, opoeta legou ao Unicórnio oferenda que lhe permite dons primordiais: oamor. O último mistério? Depreende-se do Epílogo que aquele que, as-sim como o Unicórnio, encarna o amor, estará sozinho. Mas que será oamor? E a solidão? Aquele que se encontra em fuga da solidão, do amorreconhecerá dentro de si a própria voz: dentro de mim um dia sou êxta-se. Comemorando o amor, o eu poético declara-o ao longo do poema, ereferenda-o nos versos de Rilke iniciando-nos à obra Em Forma de Cha-ma: Variações sobre o Unicórnio, através da epígrafe exaltando-lhe aexistência: Sim, não existia. Mas, ao ser amado, fez-se um animal puro (...).12 Do amor de criação chegamos à soteriologia amorosa. Do amorfilial chegamos ao sentimento erótico. Rastreando o amor, o Unicórniofunda uma ontologia. Evadido do sonho e dos mitos, o Unicórnio exis-11 PRADE, Péricles. “Cervo em Fuga”. Em Forma de Chama: Variações sobre o Uni- córnio, op. cit., p. 13.12 RILKE, Reiner Maria. “II.4”. Os Sonetos a Orfeu/Elegias de Duíno. Trad. de Karlos Rischbieter e Paulo Garfunkel. São Paulo: Record, 2002, p. 73.
  • 131. Mirian de Carvalho 133te. Realiza-se no logos. Realiza-se ante o penúltimo mistério. Conscientedo espelho. Sozinho. Que será a solidão? Último mistério? Se nas varia-ções do Unicórnio os significados se desconstroem, sobre o amor mui-tos deixaram registros, indagando-lhe origem e revelação. Qualidadese possibilidades. E assim nos “diz” Agaton no Banquete: “E certamen-te a criação dos seres vivos em sua totalidade, quem negará ser ela par-te da sabedoria do Amor?”13 Quanto ao amor erótico e sobre os seres queamam, o Unicórnio conduz o leitor à intuição dos Antigos: Eu, aos que são amantes (Pobres seres sem calma) Conheço, de repente: Mostram, sutil, presente, A marca que têm na alma...14 Nesse encômio amoroso, Prade tangencia inúmeras possibilidadesdo amor, lembremos. Mas além do amor o Unicórnio recebeu a dádivadas metamorfoses, que o fazem atuar em esquiva do signo e da tradiçãocultural. Sobre a dádiva das metamorfoses, resta-nos traduzi-la na ins-tância dos não-ditos. Ante o logos poético, desdobram-se em dizeres. Aoleitor dirigem-se os sentidos dos não-ditos. E o olhar do Unicórnio, ven-do-se nos umbrais azuis do penúltimo mistério, que o conduz às ruas dacidade.Alcance Social da Poética do Unicórnio Diferentes nomes. Diferentes corpos. O Unicórnio cavalga entrecorrespondências. Distanciando-se do signo, o Unicórnio encontra va-riações da matéria transformada pela imaginação. Encontra na solidãoa responsabilidade da errância. Aonde quer que vá, poderá dizer o Uni-córnio: ilusório, o Uno. Pura abstração, o conceito. O absoluto - amorte. Que resta é possibilidade. Último mistério? Das metamorfoses,dessa dádiva recebida pelo fabuloso animal, nasce a pergunta: que secria a partir das metamorfoses? Cria-se a desconstrução das antítesesafetas ao signo e ao discurso. Deflagra-se errância em esquiva da antí-tese morte/vida. Posto que o Unicórnio não habita a instância da morte.13 PLATÃO. Obras Completas. Introd. e trad. de Jose Antonio Miguez. 2ª ed. Madrid: Aguilar, 1981, p. 579.14 ANACREONTE. “Os que trazem o Amor”. Odes. Trad. de Almeida Cousin. 4ª ed. Rio de Janeiro: Achiamé, 1883, p. 149.
  • 132. 134 Metamorfoses na Poesia de Péricles PradeEle ressuscita. Nasce. Renasce. Nasce de si mesmo. Nesse renascer, eleinduz o leitor ao êxtase da existência: quem sou? Quem fui? Quem se-rei? Quem me acompanha nessas várzeas da solidão? E nas variaçõesdo corpo e do nome desconstrói-se a ideologia do absoluto. Mas aquinão há relativismo. Há possibilidade ante a consciência de si: que sedesconstrói ante a consciência de si e ante a desconstrução do absolu-to? Búfalo. Escaravelho. Pomba. Peixe. Osso. Divindade desmembra-da. Ser decapitado. Que animal é esse que nasce das variações do cor-po e do nome? Que ser é esse desvelando-se livre para renovar-se? OUnicórnio carrega consigo a condição de algo que não se fixa no ser nemno não-ser, lembremos. Nos múltiplos corpos e nomes, ele encarna adiferença. Na instância da diferença, a poética de Prade tangencia omundo sem reduzi-lo à representação, posto que seu trabalho esquiva-se do alegórico. Ao desmascarar a ideologia do absoluto, a poética dasmetamorfoses não se dirige apenas ao plano metafísico, mas se inscre-ve no cotidiano. Adquire dimensão social. Exaltando ambivalências eparadoxos, as metamorfoses não implicam relativismo, nem niilismo.Nessa Epopéia, insurge-se uma Ode ao Amor. Um cântico à vida comometa. Uma invocação à vida enquanto valor. E aqui o traço endobarro-co da poética de Prade delineia-se como paradoxo: ressaltar o valormaior do feixe de luz incontido na chama. Incontido no olhar. Impossí-vel imaginar-se uma chama apagada. Tal o Unicórnio, a chama revela-se transformação. Tal a chama, o Unicórnio não morre. Transforma-se.Renasce. Renasce da consciência de si. Se o Barroco incorporou diferenças e paradoxos, torna-se possí-vel detectar, conforme as idéias expostas neste ensaio, traços tensionaisinsurgindo-se “antes” e após o Seiscentismo, caracterizando um Endo-barroco próprio de outros momentos literários, revelando sempre des-vio do princípio de identidade, como força movente e intrínseca às ima-gens. Implícita e dialogicamente semânticos, na poética de Prade os tra-ços endobarrocos exaltam o encantatório, visto que o Unicórnio se lan-ça ao ideário do caminho aberto às transformações. E ao Epílogo destaEpopéia recordar-se-á o cavaleiro andante: - Dai-me alvíssaras, bons senhores, que já não sou D. Quixote de la Mancha15.15 CERVANTES, Miguel de. O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha. Trad. de Viscondes de Castilho e Azevedo. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983, p. 986.
  • 133. Mirian de Carvalho 135 E, corpo das variações, Unicórnio ou outro, poderá dizer em cor-respondência: - Dai-me de beber, caminhantes desta errância, que Unicórnio já não sou. Ao rumo do Unicórnio utópico, o logos desce ao chão, reunindohomem e animalidade. Quixote errante. Cavalo do chifre solitário. Nolugar do cavaleiro, a solidão esboçando movimento de solidariedade.Último mistério? Deflagrando indagações, note-se na poética de Prade insurgênciade jogos verbais e semânticos, apontando para um pensamento vincu-lado à práxis artística como perspectiva de liberdade. E para a liberda-de como ponto de partida e de chegada à desconstrução de modelos. Eisque na poética das metamorfoses, os não-ditos se dirigem ao “agora”,quando o eu poético nega o tempo sucessivo, por ser ele o vetor do dis-curso e da repetição. Ao recriar o Unicórnio no tempo do “agora”, anteesse desígnio, poderíamos perguntar: não terá sido o poético o grandecriador da Alquimia e da arte alquímica, e não o contrário? Na poesia,o Unicórnio realiza prodígios que a Alquimia não alcançou. O fabulosoanimal realiza o prodígio da transubstanciação. Transformado em cha-ma o solitário osso, chegara o dia em que o Unicórnio se reconheceradiverso do reflexo. Hora do fogo sutil, vendo a consciência de si. Tem-po do animus da chama alimentando-se de ímpetos verticais para atra-vessar o tempo cronológico. Momento do carpe diem insuflando o tem-po das metamorfoses. À aura do tempo poético, nesse lume transparece uma sátira vol-tada para o tempo da urbe. Ironicamente, o instante poético desmonta otempo extenso e o tempo consecutivo. Atuando através do burlesco, oinstante poético adere ao carpe diem, retirando do centro do pensar oabsoluto. E retirando do centro da fala o sujeito. Do ponto de vista dotempo, o carpe diem mostra-se coadjuvante das metamorfoses, posto quena poesia de Prade substancializam-se metáforas e símiles, desconstruin-do a antítese ser e parecer. Ao parecer chama, em tendo forma de cha-ma, o chifre converte-se em chama. Em ascese ou descese, o tempo eclo-de. Não se trata de tempo presente. Nem de um tempo passado. Nemfuturo. Mas de um tempo intrínseco ao poema. Intrínseco ao carpe diem,que ganha acento dramático, abrindo-se ao diálogo. Evadido da lenda,o Unicórnio atua nesse diálogo. Desce ao mundo hodierno. Através dasvariações, o Unicórnio caminha junto ao homem. Nesse jogo lúdico do
  • 134. 136 Metamorfoses na Poesia de Péricles Pradecarpe diem, o Unicórnio habita o coração de Percival. Habita rios. Ma-res. Ossos. Montanhas. Navega. Planta. Colhe. Ama. Sofre. A condiçãometamórfica o desvia da Lei de Talião. E da sentença do discurso. Na poesia de Prade, o vínculo endobarroco dimensiona o eu poé-tico fora do centro de si e da rede da repetição. Comemorando a vida, oUnicórnio ultrapassa ambivalência e maniqueísmo para inscrever-se noparadoxo elevado ad absurdum na instância imagético-ideativa. Dese-jo. E saciedade. Nem desejo. Nem saciedade. Lacuna e preenchimento.Nem vazio. Nem completude. Substância e quimera. Nem matéria. Nemsonho. No rastro de uma poética desviante do Modernismo, a poesia dePéricles Prade se exime das sínteses explicitadoras da totalidade. O poetase exime da totalidade que acalentou o sujeito moderno. Entre seres fan-tásticos, o eu poético se torna cidadão do mundo. Caminhante das ruas.Jamais profeta. Jamais contemplador distante. Tomando as rédeas deuma razão impura, a poética das metamorfoses se enraíza no sentidotrágico da existência. Ancora-se em tensões. Inexoráveis tensões emesquiva da antítese vida e morte. E em esquiva da morte. Nesse jogo dasmetamorfoses, o erotismo atua como força movente da poesia. Nesse poema tudo se inicia à desconstrução do Uno. Tudo se ini-cia nas possibilidades da matéria imaginada em transformação. Se aoUnicórnio cabe habitar as metamorfoses, ao leitor entreabre-se o códi-go dos não-ditos. E a decifração do último mistério, “nos umbrais azuisdo penúltimo mistério”.
  • 135. 137 Referências Bibliográficas e Obras ConsultadasALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. Trad. de Ítalo Eugenio Mauro. Edição Bilíngüe. São Paulo: Editora 34, 1998.ALONSO, Damaso. Estudios y Ensayos Gongorinos. Madrid: Gredos, 1965.ANACREONTE. Odes. Trad. de Almeida Cousin. 4ª ed. Rio de Janei- ro: Achiamé, 1883.ANCONA, Franzina. Frontiere dell’Immaginario: Mito e Rito nella Scrittura di Péricles Prade. Palermo/São Paulo: Italo-Latino-Ame- ricana, 1987.ANDRADE, Clodomir Barros de. Fundamentos da Doutrina da Re- cognição. Dissertação de Mestrado. IFCS/URFJ, Programa de Pós- graduação em Filosofia, 1995.ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão. Trad. de Maurício Santa- na Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.AVELINE, Alfredo. “A Visão Budista da Questão Cognitiva”. Bodisatva: Revista de Pensamento Budista nº 2, Porto Alegre: Centro de Estu- dos Budistas, outono de 1991, pp. 46-57. –. “Racionalidade, Cognição, Convicção e Verdade”. Bodisatva: Re- vista de Pensamento Budista nº 3, Porto Alegre: Centro de Estudos Budistas, inverno de 1991, pp. 39-44.AVILA, Affonso (org.). Barroco: Teoria e Análise. Coleção Stylus. São Paulo/Belo Horizonte: Perspectiva/Companhia Brasileira de Metalur- gia e Mineração, 1997. –. O Lúdico e as Projeções do Barroco. Vols. I-II. São Paulo: Pers- pectiva, 1994.BACHELARD, Gaston. A Água e os Sonhos. São Paulo: Martins Fon- tes, 1989. –. A Chama de uma Vela. Trad. de Glória de Carvalho Lins. Rio de Janeiro: Bertrand, 1989.
  • 136. 138 Metamorfoses na Poesia de Péricles Prade –. A Dialética da Duração. Trad. de Marcelo Coelho. São Paulo: Ática, 1988. –. A Poética do Devaneio. Trad. de Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1988. –. A Poética do Espaço. Trad. de Antonio de Pádua Danesi. São Pau- lo: Martins Fontes, 1998. –. A Psicanálise do Fogo. Trad. de Maria Isabel Braga. Lisboa: Es- túdios Cor, 1972. –. A Terra e os Devaneios da Vontade. Trad. de Paulo Neves da Sil- va. São Paulo: Martins Fontes, 1991. –. A Terra e os Devaneios do Repouso. Trad. de Paulo Neves da Sil- va. São Paulo: Martins Fontes, 1990. –. Fragmentos de uma Poética do Fogo. Trad. de Norma Telles. São Paulo: Brasiliense, 1990. –. L’Intuition de l’Instant. Paris: Stock, 1992. –. O Ar e os Sonhos. Trad. de Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1990. –. O Direito de sonhar. Trad. de José Américo Pessanha e outros. São Paulo: Difel, 1986. –. O Novo Espírito Científico. Trad. de Juvenal Hahne Júnior. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1968.BANDEIRA, Manoel. Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986.BAZIN, Germain. Barroco e Rococó. Trad. de Álvaro Cabral. São Pau- lo: Martins Fontes, 1993.CAEIRO, Alberto. “O Guardador de Rebanhos”. In PESSOA, Fernan- do. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1969.CAMPOS, Haroldo de. Pedra e Luz na Poesia de Dante. Rio de Janei- ro: Imago, 1998.CARVALHO, Mirian de. “Além dos Símbolos: a Tessitura Poética do Caos na Poesia de Péricles Prade” (Posfácio). In PRADE, Péricles. Além dos Símbolos. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2003, pp. 95-108. –. “Entre Sombras e Sombras: as Chamas do Desvelamento em Gior- dano Bruno de Montaldo”. Dialoghi: Rivista di Studi Italici vol. IV, nos 1-2, Rio de Janeiro: Proita/UERJ, 2001.
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  • 140. 142 Metamorfoses na Poesia de Péricles PradePERRONE, Charles A. “De Gregório de Matos a Caetano Veloso e ‘Ou- tras Palavras: Barroquismo na Música Popular Brasileira Contempo- rânea’”. In ÁVILA, Affonso (org.). Barroco - Teoria e Análise. Co- leção Stylus. São Paulo/Belo Horizonte: Perspectiva/Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, 1997, pp. 333-347.PESSANHA, José Américo Motta. “Bachelard: ‘as Asas da Imagina- ção’”. In BACHELARD, Gaston. O Direito de sonhar. São Paulo: Difel, 1986.PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1969.PLATÃO. Obras Completas. Introd. e trad. de Jose Antonio Miguez. 2ª ed. Madrid: Aguilar, 1981.PORTELLA, Eduardo et al. (org.). Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1999.PRADE, Péricles. Ah a Lâmina. Florianópolis: Literatura Contemporâ- nea, 1963. –. Alçapão para Gigantes. 2ª ed. Florianópolis: Letras Contemporâ- neas, 1999. –. Além dos Símbolos. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2003. –. Ciranda Andaluz. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2003. –. Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio. São Paulo: Quaisquer, 2005. –. Este Interior de Serpentes Alegres. Florianópolis: Roteiro, 1963. –. Guardião dos Sete Sons. Florianópolis: Sanfona, 1987. –. Jaula Amorosa. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1995. –. Nos Limites do Fogo. São Paulo: Massao Ohno, 1979. –. Os Faróis Invisíveis. São Paulo: Massao Ohno, 1980. –. Os Milagres do Cão Jerônimo. 5ª ed. Florianópolis: Letras Con- temporâneas, 1999. –. Pequeno Tratado Poético das Asas. Florianópolis: Letras Contem- porâneas, 1999. –. Sereia e Castiçal. Florianópolis: Roteiro, 1964.RAYMOND, Manuel. Barroque et Renaissance Poétique. Paris. José Corti, 1964.RILKE, Reiner Maria. Os Sonetos a Orfeu/Elegias de Duíno. Trad. de Karlos Rischbieter e Paulo Garfunkel. São Paulo: Record, 2002.
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