Juventude rural, uma categoria social em construção

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  • 1. SBS – XII Congresso Brasileiro de Sociologia GT 22 : Sociologia da Infância e Juventude Título do Trabalho:Juventude Rural: uma categoria social em construção Autor: Valmir Luiz Stropasolas 1
  • 2. Juventude rural: uma categoria social em construção1 Raramente consideradas até recentemente, as expectativas e reivindicações dosjovens rurais começam a constar nas agendas de instituições oficiais, universidades,entidades representativas, movimentos sociais e ONGs. A omissão dessas demandas, aliás,está se tornando desconfortável para os profissionais que trabalham diretamente com estapopulação, pela falta de oportunidades e perspectivas nos marcos dos modelos dedesenvolvimento e dos sistemas culturais e políticos vigentes nos diferentes espaços dasociedade contemporânea. Dessas constatações nascem questões instigantes e abrangentessobre o significado das mudanças vivenciadas e expressas pela juventude e suasimplicações na construção de novas identidades sociais no mundo rural. Tem-se afirmado, corretamente, que “o preço da utilização de modelos é aeterna vigilância” (SHANIN, 1980). Partindo do princípio de que sem tais construçõesteóricas não seria absolutamente possível qualquer progresso nas ciências humanas e que épelo trabalho cotidiano de pesquisa, programas e ações políticas reais que a utilização deum conceito deve ser julgada, para abordar a categoria „juventude rural‟ procuro me guiarpor alguns conceitos que, por sua relevância e pertinência na abordagem da economia e dacultura dos diferentes grupos sociais rurais, ainda não esgotaram a sua capacidade de ajudara compreender as questões fundamentais da realidade dessas populações. Por outro lado,também é preciso levar em conta as noções e representações construídas por esses gruposna vida cotidiana.1 Valmir Luiz Stropasolas, Doutor em Ciências Humanas/UFSC, funcionário da Cidasc/Secretaria de Estadoda Agricultura e Desenvolvimento Rural/SC, e-mail : valmirls@microbacias.sc.gov.br 2
  • 3. Estudiosos do mundo rural, ao tecer a narrativa modernista, têm negligenciadocertos grupos sociais, culturas e identidades (PHILO, 1992). Autores como Murdoch &Pratt (1993), Murdoch & Marsden (1994) sugerem que os sociólogos rurais deveriam iralém das preocupações agrárias tradicionais, restritas aos processos de produção, e abraçaras representações e processos que caracterizam a população rural e refletir sobre a noção deruralidade na sociedade contemporânea. Junto-me a eles ao argumentar pela necessidade dese investigar as mudanças em curso nos espaços rurais a começar das representaçõesdaqueles que, tradicionalmente, são esquecidos nas políticas ou invisíveis às academias. O rural é um conceito que se recusa a “deitar e morrer” (PRATT, 1996). Se umtermo se nega a desaparecer é porque mostra que ainda tem pertinência; se as pessoascontinuam a utilizá-lo é por sua relevância e ressonância na sociedade atual. Assim, paracompreender as redefinições em curso neste espaço da sociedade, particularmente aquelasque afetam a juventude, visualizo o rural como um conceito em construção e não um lugarcristalizado e com “virtudes” essencialistas, tendo em vista que as visões de rural que seimpõem são resultantes de forças sociais muitas vezes divergentes da concepção do que éou deva ser a ruralidade. Explicitando as representações desta perspectiva analítica, cabe indicar que, aome refirir ao mundo rural, o concebo como um universo que interage nas mais diversasdimensões com o conjunto da sociedade brasileira e mantém relações que se estabelecemno cenário global. Não o vejo, pois, como um espaço rural autônomo em relação aoconjunto da sociedade, caracterizado por uma lógica própria e independente de reproduçãosocial. Importa salientar que este mundo rural mantém particularidades históricas, sociais,culturais e ecológicas que o recortam como uma realidade própria, da qual fazem parte aspróprias formas de inserção na sociedade que o engloba (WANDERLEY, 1996; 2000). 3
  • 4. Também cabe indicar, pelo fato de acreditar na possibilidade de se construir um sentido deunidade na busca do reconhecimento e da afirmação social e cultural dos anseios dos jovensrurais, que são refutáveis as concepções teóricas que vêem o relativismo total nasrepresentações sociais. As influências de “modelos” singulares de ruralidade - com fortes traçoshistóricos e culturais de tradição camponesa – se estendem muito além das fronteiras doque estabeleceram os institutos oficiais por “meio rural”. De fato, é encontrado também nasrepresentações e no modo de vida de um segmento expressivo de cidadãos que vivem emespaços reconhecidos como urbanos de pequenas cidades. Este é o caso da grande maioriadas localidades da região oeste de Santa Catarina2. Há estudos e pesquisas que evidenciamuma problemática social de abrangência regional, expressa no recrudescimento domovimento migratório de jovens, e que demanda por explicações não exclusivamenterestritas ao campo econômico. Na busca da compreensão deste fenômeno, afloram questõesque perpassam o debate atual: Quem são os jovens rurais? O que eles têm de particular?Como eles vêem o rural? O que buscam ao se mobilizar nos diferentes espaços sociais? Emque medida questionam o sistema cultural que reproduz a agricultura familiar? Alguns trabalhos de pesquisa constatam a “destruição” do tecido social nascomunidades rurais, associando de maneira causal a desagregação do ambiente cultural aoesvaziamento demográfico, particularmente de jovens. O processo migratório é visto comoum movimento de mão única, determinado sobretudo por causas externas. Esta causalidadeé que estamos pondo em questão. A produção da exclusão social no espaço rural não serestringe apenas aos cenários macroeconômicos e políticos externos, uma vez que a2 Nesta mesma região, e através de um estudo de caso com jovens rurais da cidade de Ouro/SC, realizei aminha pesquisa de doutorado (STROPASOLAS, 2002). As reflexões presentes neste artigo sãofundamentadas nas entrevistas e resultam da referida pesquisa. 4
  • 5. “construção social” da desigualdade de condições se opera também por agentes einstituições que, freqüentemente, se encontram bastante próximo da realidade das famíliasrurais e, em particular, das hierarquias vigentes no interior desses mesmos grupos sociais. O não-reconhecimento das particularidades que marcam as relações sociais nogrupo doméstico pode reforçar o domínio de alguns interesses sobre outros, dificultando aexpressão de valores e expectativas normalmente esquecidos ou não suficientementereconhecidos no espaço em que se definem as regras, seja público ou privado. Diversosestudos que examinaram a divisão social do trabalho na agricultura familiar indicam que asmulheres (e, de um modo geral, também as crianças e os jovens) ocupam uma posiçãosubordinada e seu trabalho aparece como “ajuda”, mesmo quando trabalham tanto quantoos homens ou executam as mesmas atividades que eles (BRUMER, 2000; PAULILO,2000). Ao analisar alguns resultados de pesquisas realizadas no Rio Grande do Sul,envolvendo jovens rurais, Brumer (2000) afirma que a seletividade da migração por idade esexo - verificada como tendência importante nas regiões coloniais dos estados de SantaCatarina e Rio Grande do Sul - pode ser explicada pela falta de oportunidades no meio ruralpara a inserção dos jovens, de forma independente da tutela dos pais, pela forma como sedá a divisão do trabalho nos estabelecimentos agropecuários e pela relativa invisibilidadedo trabalho executado por crianças, jovens e mulheres. Este movimento de saída dos filhos (as) de agricultores familiares dascomunidades pesquisadas, que não se restringe às famílias mais pobres, abrangendotambém jovens oriundos de propriedades integradas às agroindústrias e consideradaseconomicamente consolidadas, não deixa de ser pleno de conflitos, cujas nuanças ponho em 5
  • 6. relevo a partir das representações e estratégias formuladas pelos próprios jovens. Estasrepresentações evidenciam as tensões vividas por moças e rapazes ao transitarem pelosdiferentes espaços sociais destas localidades. É visível nestas construções como os jovenslidam de maneira diferente com valores, noções e práticas do cotidiano destes espaços. Emalguns casos, vivenciam rupturas com padrões culturais pré-estabelecidos, enquanto emoutros reproduzem estes mesmos modelos. Em sua pesquisa, Carneiro (1998, p. 14) constata que a migração dos jovens paraa cidade, temporária ou definitiva, expõe a juventude ao contato com um sistema variado devalores que podem ser absorvidos ou rejeitados, atuando tanto no sentido de reforçar oslaços identitários com a cultura original, quanto no sentido de negá-los. Sugere que dessarelação ambígua com os dois mundos resulta a elaboração de um novo sistema cultural e denovas identidades sociais que merecem ser investigadas. Para Velho (1994), esta situaçãode mobilidade material e simbólica seria responsável também por novas tensões e conflitosentre os diferentes níveis da realidade, o que é considerado característica da modernidade.Ou seja, uma situação ambígua de continuidade e descontinuidade aflora nos depoimentos eexpectativas destes jovens rurais, particularmente quando se referem ao modo de vida, àfamília, ao processo sucessório na propriedade, ao casamento, ao trabalho, à educação, etc.Plena de tensões e ambigüidades, expressam as dificuldades existentes para a sua inclusãonos diferentes espaços da sociedade contemporânea, pois se deparam com problemasestruturais não resolvidos e que limitam o acesso à cidadania e respectivos direitos,cerceando-lhes as oportunidades de realizar seus projetos de vida. A partir de questões emdebate sobre a juventude rural e da abordagem de representações e noções (re)construídaspor filhos(as) de agricultores familiares migrantes, o objetivo deste artigo é contribuir comalgumas reflexões sobre o processo de construção social de novas identidades sociais no 6
  • 7. espaço rural, a começar por algumas representações formuladas por estudiosos quediscutem o conceito de juventude. O conceito de juventude A maior parte dos autores não hesita em colocar em relevo as dificuldadesconceituais em definir a categoria juventude; outros se interrogam explicitamente sobre alegitimidade de fazê-lo e expõem os limites do empreendimento: crítica da posição dosociólogo, daquela do interveniente, daquela de toda uma geração que julga a juventude apartir de si própria, submetendo-a aos critérios de sua própria precariedade. Abordarteoricamente a juventude representa um grande desafio, na medida em que esta categoria,utilizada de maneira genérica e sem rigor analítico, pode vir a ser sociologicamenteproblemática. A sociologia da juventude, desprovida de uma tradição acadêmica, aindacontinua assunto controverso ou uma temática abordada de viés, enquanto uma questão defamília, de educação, de exclusão social, etc. Segundo Carneiro (1998, p. 1), normalmente engrossando as estatísticas dosinativos ou desempregados nos países em que a formalização do mercado de trabalho émais precisa, os jovens figuram em categorias intermediárias, sem receber uma qualificaçãoespecífica por parte dos classificadores: são os “estudantes”, no caso dos de origem urbana,ou os “filhos de agricultores” (ou aide familial, para os franceses), no caso dos de origemrural. Preenchendo apenas o vazio estatístico formado pelos que ainda não ingressaram navida ativa, afirma a autora, esse contingente da população fica como que à espera de atingira maioridade para se tornar visível e qualificada como objeto de estudo. 7
  • 8. Algumas vertentes contemporâneas de pensamento se perguntam se ajuventude, de maneira geral, existe enquanto realidade social. Autores como Galland (1991)e Mauger (1994) já discutiram este impasse metodológico. Hobsbawn (1997) considera quea abordagem do conceito de juventude é relativamente recente, sendo encontrado a partir doséculo XIX. Para Bourdieu (1984, p. 144-45), a fronteira entre juventude e maturidade é, emtodas as sociedades, um jogo de lutas, na medida em que as divisões, seja em classes deidade, seja em gerações, são variáveis e um jogo de manipulações; quer dizer, não sãodadas, são construídas socialmente. Segundo esta perspectiva teórica, a idade é um dadobiológico socialmente manipulado e manipulável, e o fato de falar de jovens como de umaunidade social, de um grupo constituído, dotado de interesses comuns, e transferir estesinteresses a uma idade definida biologicamente constitui uma manipulação evidente. Para oautor, seria necessário, ao menos, analisar as diferenças entre as juventudes, pois elas seformam segundo as diferentes espécies de capital – escolar, cultural, econômico, relacional,etc. – de que eles usufruem. Este capital, colocado em jogo, vem regular, senão determinar,a condição de jovem. Mais precisamente: “é um abuso de linguagem formidável subsumir,sob o mesmo conceito, universos sociais que não têm praticamente nada de comum”(BOURDIEU, 1984, p. 144 e 145). Esta idéia de Bourdieu sobre a noção de juventude repercute ainda hoje no meiointelectual, gerando uma série de interpretações. Vejamos como outros autores concebem anoção de juventude. Galland (1991) a considera como uma categoria social historicamenteconstruída, sendo possível analisar a formação e as transformações de suas representaçõesao longo do tempo, até o paradigma sociológico do século XX. Para Carneiro (1998, p. 1),a dificuldade em delimitar com rigor uma categoria demográfica – que se define 8
  • 9. essencialmente pela transitoriedade inerente às fases do processo de desenvolvimento dociclo vital – não justifica que recorramos a critérios exclusivamente biológicos, ou mesmojurídicos, para definir a juventude. Para a autora, no que diz respeito ao mundo rural, ajuventude permanece na situação de invisibilidade em razão dessa visão estereotipada quetem dificultado a compreensão da sua complexa inserção num mundo culturalmenteglobalizado. Segundo Durston (1994, p. 14-15), a fase juvenil se caracteriza por umagradual transição até a assunção plena dos papéis adultos em todas as sociedades, tantorurais quanto urbanas. Em seu entender, a juventude vai desde o término da puberdade atéa constituição do casal e de um lar autônomo. Numa longa lista de representações, que refletem bem a extensão, acomplexidade e as transformações que têm afetado a noção de juventude, no tempo e noespaço, este conceito emerge tanto como a representação de uma personalidade ou de umindivíduo, quanto como um conjunto de pessoas que apresentam a qualidade específica deser jovem, uma construção histórica ou mesmo um período de indeterminação profissionale matrimonial (TELES, 1999), ou seja, a cada fase histórica seu tipo de juventude e seupersonagem-modelo ou emblemático. Ligado às demandas dos poderes políticos ou aosinteresses dos diferentes produtores de “conhecimento”, como os pesquisadores, ostrabalhadores sociais ou as pessoas engajadas nos movimentos de jovens, este processodeve igualmente muito às mudanças econômicas, sociais e culturais das sociedades. Emrealidade, verifica-se uma multiplicidade de designações que contêm as representaçõesmais importantes do ponto de vista dos que as constroem: as definições devem, pois, variarde uma classe social a outra, no seio de uma mesma classe social, entre gêneros, cidades,entre a cidade e o campo, etc. 9
  • 10. Há outras polêmicas em torno deste assunto. A juventude é concebida porGalland (1985, 1993, 1996), um dos principais sociólogos da juventude na França, comouma “entrada na vida adulta”. Deste ângulo, ele a vê como uma passagem que se efetuasobre dois principais eixos: o eixo escolar-profissional e o eixo familiar-matrimonial. Estesmarcos são quatro: o fim dos estudos, o início da vida profissional, a partida do domicíliofamiliar e a formação de um casal. De acordo com esta perspectiva, o calendário de entradana vida adulta e, por outro lado, o fim da juventude se estabelecem em virtude daultrapassagem destes quatro marcos, os quais teriam por mérito, assim como o calendáriode entrada na vida adulta, de dar ao tratamento da questão da idade e, por conseqüência, dajuventude, um suporte objetivo ligado às práticas sociais identificáveis. Nesta via, a idadeadulta se concebe como a autonomia econômica, residencial e afetiva. Alguns aspectos educacionais revelam um alongamento da juventude ou, emoutras palavras, uma entrada tardia na vida adulta. Com efeito, os dados mostram umalongamento da escolarização na maior parte das sociedades ocidentais. Algumas pesquisasfeitas na França, como no Canadá, confirmam tal tendência. Na França, particularmente, aidade média do fim dos estudos cresceu dois anos entre a geração nascida em 1963 e anascida em 1971, enquanto a porcentagem dos jovens que freqüentam a escola aos 20 anostem mais que dobrado entre 1983 e 1992. O alongamento da juventude é visto, também,como decorrência de problemas estruturais da sociedade, que limitam a inserção dos jovensno mercado de trabalho e restringem o acesso aos direitos de cidadania. Verificamos que freqüentemente, na França, se faz alusão à formaçãoprofissional dos jovens. Este fato já foi apontado por Gauthier et alii (1999) ao afirmar quea entrada no mercado de trabalho domina, atualmente, a produção dos trabalhos em línguafrancesa sobre os jovens. Para esta autora, os estudos de língua inglesa estão mais 10
  • 11. preocupados com a juventude no que diz respeito ao risco: toxicomania, delinqüência,suicídio, etc. Em que pesem as raras exceções, constata Zoa (1999), o que se diz sobre osjovens na África, hoje, concentra-se em delinqüência, prostituição, droga, violência einsegurança. Guillaume (1999) vai além e ressalta que a juventude sempre foi objeto depreocupações ligadas a um projeto moral de enquadramento, além de, na esfera política, seprojetar uma imagem dos jovens que está longe de ser aquela proposta pelos numerosostrabalhos empíricos dos sociólogos da juventude. Ao invés de se perguntar como os jovens se tornam adultos, Roulleau-Berger(1999) propõe que se examinem as “competências da experiência” que os jovensdesenvolvem através de múltiplas determinações que marcam sua trajetória de vida. Para seapreender a complexa realidade dos jovens, segundo este ponto de vista, é importante fazeruso de um quadro teórico que tenha em conta, concomitantemente, os efeitos da estrutura,dos atores e da interação entre ambos, sem privilegiar um em relação a outro. Assim, aquestão da permeabilidade entre estes mundos sociais, dos modos de passagens de um aoutro, fortalece, para o autor, o campo teórico. Analisando as representações sociais doestatuto dos jovens no contexto belga, Guillaume (1999) mostra os limites da sociologiaatual, ao verificar no âmbito desta ciência o predomínio de abordagens caracterizadas porum enfoque excessivamente normativo da idéia de passagem ou de transição para a vidaadulta, que acaba excluindo numerosos jovens contemporâneos. Os estudos sobre juventude manifestaram a tendência, em particular depois dosmovimentos dos anos 60, de fazer dela a vanguarda da mudança. Recusando ver os jovensatuais como “atores”, Rose (1999) entende que eles são mais “sujeitos” das mudanças emcurso, sobretudo daquelas do mundo do trabalho. Outros, pelo contrário, vêem aoportunidade de se inventar novos espaços nos quais os jovens possam viver sua 11
  • 12. juvenilidade: os espaços aleatórios, nos quais eles afirmam simbolicamente sua identidade,e os lugares em que eles podem desenvolver um sentimento de pertença além daprecariedade que os circunda (ROULLEAU-BERGER, 1999; PARAZELLI, 1999;MOLGAT, 1999). O aparecimento da representação da juventude, tal como nós aconhecemos hoje, se deve à separação entre a esfera do privado (intimidade), simbolizadapela família, e a esfera do público, que pertence à coletividade e à sociedade. O jovem é opersonagem sobre o qual a sociedade deposita suas crenças, suas esperanças futuras, oelemento de renovação, mas ao mesmo tempo representa uma ameaça. O processo de socialização dos jovens, fase de aprendizagem e de integração àsociedade, comporta, para alguns autores, a obtenção de um estatuto social e a formação dapersonalidade pela interiorização de normas e valores e pela projeção simbólica dos papéissociais (LAPEYRONNIE, 1994). Esta socialização se produz em momentos diferentes,segundo os grupos sociais (TELES, 1999). A formação de indivíduos “autônomos esociais”, aos quais se busca transmitir racionalidades culturais orientadas para asexpectativas de uma determinada sociedade (e aqui a escolarização, ao lado da família, jogaum papel muito importante), constitui-se num processo pautado em relações contratuais eantagônicas, resultantes de uma dinâmica conflituosa, não-harmoniosa, que marca asrelações humanas. Neste processo, verifica-se a polarização de visões entre os grupossociais; por um lado, alguns segmentos que procuram impor suas representações, marcadaspela hegemonia cultural, pelo individualismo e o instrumentalismo das ações e relações;por outro, determinadas categorias sociais que enfatizam a ação coletiva e a existência dediferenças, de oposições, de hierarquias bem delimitadas, definidas pelas estruturas deinteresses e de poderes. 12
  • 13. Na perspectiva de Carneiro (1998, p. 18), quando se considera a atual possibilidadede uma redefinição de identidades, deve-se atentar para uma dinâmica que inclui umadiversidade de sistemas simbólicos coexistentes e nem sempre concorrentes, do que resultauma reelaboração do sistema de valores locais. Para a autora, os jovens são atores dessareconstrução cultural a partir de uma releitura dos valores urbanos, em que papéis sociaissão redefinidos e projetos são formulados sob novos paradigmas, partindo-se de umaruptura (parcial) com os velhos moldes, tradicionalmente adotados pela sociedade local.Sugere que se investigue como se organiza e se estrutura esta nova síntese que aproximavalores “urbanos” de “rurais”, com o cuidado de levar em conta a heterogeneidade dachamada “juventude rural”. Autores como Teles (1999) propõem uma pedagogia da confiança e daparticipação, que pode se apresentar como alternativa, pelo papel que joga no processo dedescoberta de si no reencontro do outro. A adoção de uma forma alternativa decomportamento, fundada sobre a construção de uma cultura particular (traduzida comoinstrumento de resistência), tem função importante em certas ações que podem ser dirigidasaos indivíduos ou às regras e símbolos sociais e culturais, questionando costumes e normasda sociedade. Estas representações permitem ver como se elaboram os questionamentos àconcepção que vê a juventude simplesmente como uma transição para a vida adulta, alémdas ressalvas ao processo de socialização ao qual esta juventude é submetida. Tal processo,não sendo mais visto no sentido clássico do termo, incorpora a noção de aprendizagem dojogo social, que relativiza a mera interiorização de valores ou de esquemas dominantes,fazendo aflorar interesses e expectativas diversas. 13
  • 14. Partindo de uma concepção pautada na “construção social da realidade”, emque representação e fenômeno se constroem conflitivamente, é possível incorporar umprocesso dialético à abordagem das representações dos jovens, cujas visões de mundo e daspráticas cotidianas que eles próprios constroem repercutem sobre as definições elaboradaspara explicar estes fenômenos, enquanto a construção de qualquer categoria social não serealiza sem interações com o fenômeno observado. Assim como Geertz (1999), que procura identificar como as pessoas que vivemnas sociedades locais se definem como pessoas e de como é a idéia que elas têm do que éum “eu” nestes espaços sociais, ao analisar as representações dos jovens rurais nalocalidade pesquisada tento chegar a esta noção íntima, procurando, e depois analisando asformas simbólicas – palavras, imagens, instituições, comportamentos – com que estesjovens realmente se representam a si mesmos e aos outros, nos diferentes espaços sociaisem que circulam. Este mesmo autor considera que o estudo interpretativo da culturarepresenta um esforço para aceitar a diversidade entre as várias maneiras que os sereshumanos têm de construir suas vidas no processo de vivê-las. Também é importanteinterrogar-se sobre as estratégias de transmissão dos haveres e saberes pela via da herança eda aprendizagem, tendo em vista as complexas e dinâmicas trocas entre gerações. Recorrer à analise do conhecimento conceitual dos jovens, e dos modos deafirmação da identidade, exige não se perder de vista a dimensão social deste processo.Primeiramente, porque a identidade supõe alteridade, isto é, os jovens evoluem ao olhar dooutro, um olhar que unifica o que é apresentado a ele em forma de fragmentos (TELES,1999). Nesta perspectiva, todo interlocutor permite também ao jovem tomar posição,desenvolver um saber – discursivo ou prático – e afirmar uma identidade social, 14
  • 15. descobrindo que nesta afirmação identitária há uma dimensão coletiva, uma condiçãocomum a outros indivíduos. Esta dupla perspectiva é, portanto, complementar. Vejamos alguns elementos que configuram o processo de construção da noçãode juventude rural, a partir das representações de rural, família, casamento, educação, entreoutras construídas por filhos(as) de agricultores familiares pesquisados no estudo de casoreferido. Juventude rural: uma categoria social em construção Ao buscar visualizar a presença de representações e ações conflituosas queconformam desigualdades e hierarquias no espaço rural e, particularmente, no próprio seioda agricultura familiar, cabe reafirmar que de modo algum se pode negligenciar aimportância das variáveis históricas, políticas e macroeconômicas que interagem, muitasvezes de forma contraditória, nestes espaços, com implicações excludentes para grandeparte dos grupos sociais. É justamente no campo das relações de gênero e geração que se situa um dosprincipais fatores de tensão e, ao mesmo tempo, de redefinição de valores e identidades naagricultura familiar. Este fenômeno, freqüente nos depoimentos, não esconde os conflitosque residem nas questões aí tratadas. A forma como é gerenciado o processo decisório napropriedade, a posse e a alocação do dinheiro são fatores que explicam alguns dosdescontentamentos que emergem desta relação. Em decorrência, o usufruto de objetos econfortos da vida “moderna”, como também a definição de prioridades que podem oscilarentre o investimento nas atividades produtivas ou a aquisição de utensílios domésticos,máquinas e equipamentos que poderiam aliviar o esforço dedicado no trabalho, estão na 15
  • 16. dependência das definições de orientação deste complexo empreendimento que é aagricultura familiar. Tanto podem representar uma maior ou menor concentração nas mãosdo chefe do estabelecimento, geralmente o pai, as decisões que envolvem os interessesrelativos ao conjunto da propriedade, quanto a satisfação das demandas individuais dosfilhos(as) que nela vivem e trabalham. O descontentamento dos filhos(as) de agricultores familiares aparece nasrepresentações elaboradas a respeito do processo sucessório na família (EPAGRI, 2001). Oquestionamento da condição social de agricultor(a) se expressa no movimento dos jovensem direção à sede dos municípios da região, em busca de oportunidades de trabalho oumesmo de acesso a níveis superiores de educação. A não-resolução dessas questões, o débilreconhecimento delas pelas entidades representativas e organizações sociais locais e ainexistência de políticas públicas específicas desestimulam os jovens e acirram omovimento migratório. A influência da luta e da conquista de direitos por parte dos movimentos demulheres na sociedade contemporânea, que se expande e adquire especificidade no espaçorural nos movimentos de mulheres agricultoras, aliada a fatores restritivos na dimensãoeconômica, entre outros, repercutem nos projetos de vida dos membros da agriculturafamiliar, redefinindo padrões e noções do que deva vir a ser uma família. Se, antigamente, anorma a ser seguida era a da constituição de famílias numerosas - simbolizadasparticularmente nos retratos encontrados nas paredes ou no imaginário das gerações dedescendentes de imigrantes europeus, recentemente, a partir de estratégias e iniciativas“rebeldes” das próprias mulheres, elaboram-se novos conceitos. A prole deve limitar-se àsustentabilidade da família, cujos indicadores são construídos com a participação decisivada mãe. Pesquisadoras como Renk (1997) e Paulilo (2000) têm explicitado este 16
  • 17. sociais no espaço rural, percebe-se, a partir das representações e iniciativas dos jovens, quesua situação é de contradição, debatendo-se com valores conflitivos no horizonte dasescolhas, pressionados por uma condição social caracterizada pela complexidade dosproblemas enfrentados. Neste contexto, as escolhas dos modelos de família e casamentonem sempre são compartilhadas pelos parceiros, particularmente aqueles que passam aexigir “algo mais” nos relacionamentos afetivos ou em suas vidas. Este fato torna-se umagravante para os filhos de agricultores familiares. Suas implicações, embora alcancemprincipalmente aqueles que não visualizam um futuro promissor, mas um horizonte“descapitalizado ou em vias de se tornar” no âmbito de uma propriedade agrícola, nãodeixam de abalar também o mercado matrimonial dos jovens capitalizados no espaço rural. Num contexto social em que o casamento, tradicionalmente, assumia um papelfundamental na reprodução social do patrimônio familiar e na organização do processo detrabalho, buscar reproduzir pura e simplesmente aquele modelo típico de família, de pai,passa a ser questionado por parcela significativa de moças descontentes com o papel e olugar a elas atribuído. Enfim, na agricultura familiar atual, o sonho de receber um “sim”numa cerimônia matrimonial é precedido de muitas dúvidas, levantadas sobretudo pelasmoças “acostumadas” a receber um “não” na sua realidade cotidiana como contrapartida dopapel e do lugar que ocupam (ou que desejam conquistar) na família, na comunidade, nasociedade. De maneira geral, os jovens constatam e projetam um retardamento doscasamentos à medida em se sucedem as gerações na agricultura familiar. As mudançassociais e econômicas em curso no espaço rural, o questionamento dos padrões matrimoniaisna agricultura familiar e a troca de informações e experiências com os jovens que passam aresidir na cidade introduzem novas representações, conceitos e expectativas em seu 18
  • 18. horizonte, colocando para muitos deles, em primeiro plano, a vontade (e, para muitos, anecessidade) de realizar projetos de vida na cidade e o desejo de experimentar diferentespossibilidades nos relacionamentos afetivos, ficando para depois a concretização de outrasdimensões que integram a sua vida pessoal, particularmente o casamento e a família. O acesso à educação constitui um verdadeiro “divisor de águas” matrimoniais,pelas oportunidades (profissionais e afetivas) que se ampliam na vida de quem decide porou usufrui o privilégio de ser escolhido para dar continuidade aos estudos. Um diferencialque passa a balizar também o perfil do(s) pretendente(s) a contrair núpcias. No caso dasmoças “estudadas” ou que se orientam para tal finalidade, elas começam a desenhar umconceito restritivo aos quadros masculinos que integram a agricultura familiar, excetoalguns que possuem um colorido especial, particularmente os candidatos a assumir ogerenciamento de propriedades bem “estruturadas”. Dados fornecidos pela ONU, para1995, mostram que, no mundo todo, a correlação entre maior escolaridade e casamentomais tardio por parte das mulheres é uma constante. As que estudam, casam-se com maisidade do que as que não estudam, ou freqüentam menos anos de escola; têm menos filhos eusam mais os métodos anticoncepcionais. Diversos depoimentos indicam que as moças que saem para estudar nãoregressam mais às comunidades rurais e, ao buscar os estudos, recusam o casamento comos filhos de agricultores porque isto representa a continuidade da condição social da mulherna agricultura, condição vivida por suas mães, e que elas não pretendem reproduzir. Osrapazes, em sua maioria, projetam o futuro na agricultura, enquanto as moças, pelodescontentamento com a sua situação, sonham com outras perspectivas profissionais,particularmente vinculadas à cidade. Este fato começa a ser percebido entre os jovens, masainda é muito pouco citado na literatura. Cabe salientar que este problema, que começa a 19
  • 19. aflorar apenas recentemente na região, é apontado já há algumas décadas na Europa eespecialmente na França. O estudo de Bourdieu (1962) sobre o celibato masculino tornou-se uma obra clássica em torno desta questão. Para este autor, a maior mudança está no fato de que a dominação masculinanão se impõe mais como algo indiscutível. Isto decorre, sobretudo, do enorme trabalhocrítico do movimento feminista que, pelo menos em determinadas áreas do espaço social,conseguiu romper este círculo. De todos os fatores de mudança, os mais importantes são osque se relacionam com a decisiva transformação da função da instituição escolar nareprodução da diferença entre os gêneros, tais como o aumento do acesso das mulheres àinstrução e, correlativamente, à independência econômica e à transformação das estruturasfamiliares. Este mesmo processo não deixa de afetar os modelos tradicionais masculinos efemininos. Contudo, para Bourdieu (1999), uma das mudanças mais importantes nacondição das mulheres e um dos fatores mais decisivos da transformação desta condição é,sem dúvida, o aumento de jovens que ingressam no ensino secundário e superior. Este fato,pela relação com as transformações das estruturas produtivas, levou a uma modificaçãorealmente importante da posição das mulheres na divisão do trabalho. Alguns trabalhos de pesquisa vêm indicando a presença de mais moças querapazes nas salas de aula e nos bancos das escolas (EPAGRI, 2001). A conquista desseassento pode ser atribuída à persistência e à procura, pelos jovens, de mudança na suacondição social; porém, não se pode desconsiderar a tendência, verificada em algunsdepoimentos de pessoas responsáveis pelo processo produtivo agrícola, de se atribuir maiorvalor ao estudo. Estes fatos e tendências redefinem conceitos e complexificam os conflitosentre os membros do grupo doméstico, que já se dão conta das exigências de qualidade eprodutividade nos processos de produção agrícolas e do acirramento da seletividade no 20
  • 20. mercado de trabalho. Se a escola era vista, noutros tempos, como motivo de preocupaçãopara quem gerenciava a propriedade, mais recentemente passa a haver maior flexibilidadedos próprios pais, que apóiam alguns filhos(as) em seus estudos, particularmente aquelesque não podem ou não querem ficar na lavoura. Esta clivagem de gênero relativamente ao investimento educacional por partedos jovens evidencia, também, uma visão diferenciada do que representa a educação navida de rapazes e moças. Para as filhas de agricultores, além da independência familiarpropiciada pela formação educacional seguida de emprego na cidade e, com isso, apossibilidade de usufruir de objetos e serviços de uso pessoal, os relatos sugerem que elasapresentam uma maior valorização do que possa representar a formação educacional nosseus planos futuros, orientados, para muitas delas, apara a “mudança” da sua condição,alcançando até outras dimensões do campo profissional e da vida, vendo no acesso aosestudos a possibilidade de questionar padrões, conceitos e comportamentos, sobretudoaqueles que restringem a sua liberdade no espaço rural. No caso dos filhos de agricultores familiares, alguns depoimentos sugerem queo acesso à educação permite maior qualificação profissional para o exercício eficiente dogerenciamento das atividades produtivas, bem como independência financeira. Alguns quebuscam ampliar seus planos para além da “profissão” de agricultor, incluem entre seusobjetivos o ensino superior. Para isso, o emprego e o salário regular constitueminstrumentos de alavancagem e de conquista desses níveis educacionais. Já para parteexpressiva dos que mudam da propriedade dos seus pais, escolhendo viver na cidade parareceber um salário regular num emprego “urbano”, investindo aí os seus esforços erelegando (ou, pelas circunstâncias enfrentadas, sendo obrigado a relegar) a segundo plano 21
  • 21. a continuidade dos estudos, as representações construídas em torno do significado doconhecimento possuem dimensões bem mais modestas. Convém salientar que as diferenças de gênero, que afloram nas representaçõesde rapazes e moças quanto ao papel da educação em suas vidas, são construídassocialmente e não se restringem ao imaginário, à vontade e aos atributos pessoais;manifestam, além do lugar e do papel subjugado ocupado pela agricultura familiar nasociedade, as contradições e os conflitos vivenciados pelos diversos membros do grupodoméstico, que redefinem seus projetos a partir das implicações internas e externas aoespaço social em que vivem e trabalham. A partir do momento em que se fazem avaliações sobre a saída e a interaçãocom os jovens que vão e vêm, os jovens desmistificam “a cidade”, indicando que jáconhecem o que ela significa em termos de dificuldades para ocupar um lugar digno nesseespaço social. Os depoimentos indicam que seria mais difícil as moças voltarem, excetoquando valorizadas com uma profissão alcançada na cidade, de professora ou outra. Jámuitos rapazes, por não estarem se “acostumando com a cidade”, vêem a possibilidade deretornar; mas desde que isso se dê em outras condições, isto é, voltariam para trabalhar comindependência gerencial e financeira em relação aos pais, com autonomia para decidir seusempreendimentos, um “negócio independente”, amparados com recursos de terra,maquinários, formação profissional e, particularmente, com menos esforço físico nosprocessos produtivos. Com a experiência dos jovens migrantes e com a interação de informaçõessobre o que representa hoje a cidade, complexifica-se muito o sentido da migração. Nopassado, migrar representava exclusão e trazia ressentimentos; posteriormente, passou asignificar melhores condições de vida que na colônia, esperança de colocação para os 22
  • 22. filhos(as). Hoje, alguns jovens que “experimentaram” as aventuras e as amarguras domovimento migratório redefinem e (re)constroem conceitos e representações que povoam,conflituosamente, sua matriz cultural, passando a valorizar a sociabilidade das comunidadesrurais. Alguns até retornariam se as condições fossem diferentes. Assim, cabe enfatizar aconstatação de que o processo migratório de jovens não decorre somente de motivaçõeseconômicas, mas envolve outras dimensões da vida social e cultural desta população edemanda novos enfoques, procedimentos e conceitos para pensar as mudanças em curso noespaço rural, particularmente para compreender o processo de configuração de novasidentidades culturais construídas pelos jovens rurais. Considerações Finais Partindo do pressuposto de que o conceito de rural ainda tem pertinência comofio condutor para pensar as mudanças em curso nas pequenas localidades e na agriculturafamiliar, para compreender as visões de mundo e as expectativas dos grupos sociais queenfrentam problemas estruturais e desigualdades no espaço rural (como as mulheres e osjovens), constata-se ser necessário redefini-lo segundo novos parâmetros, colocando emrelevo as representações mais recentes da juventude. No que se refere aos jovens,especificamente, ao se mobilizarem nos espaços sociais das pequenas localidades,redefinem o mundo rural – ancorando-se em determinados valores culturais característicosdeste espaço social –, incorporando aspectos reconhecidos como urbanos das pequenascidades, para permitir a realização de estratégias que visam “mudar a vida”, em busca dedireitos de cidadania e bens culturais próprios da modernidade. 23
  • 23. A interação e o acesso a alguns benefícios propiciados pelo emprego urbano,bem como a vivência de novos valores, reforçam o direito à liberdade e à igualdade dedireito entre os gêneros, abrem a possibilidade de uma melhor distribuição de poderes eresponsabilidades entre os membros da família e desenvolvem nos filhos(as) de agricultoresfamiliares a troca de experiências, a avaliação e o questionamento do papel e da situação dajuventude no espaço rural. Os resultados do estudo de caso indicam a necessidade de seampliar os direitos de cidadania no espaço rural, priorizando principalmente os grupossociais mais prejudicados - jovens e mulheres - por estruturas, padrões e hierarquiasculturais na agricultura familiar. Ainda que os avanços constitucionais tenham garantidoconquistas sociais importantes, os jovens e as moças, em particular, reivindicam a extensãodos benefícios trabalhistas “urbanos” à população rural, particularmente o usufruto deférias, o descanso semanal e um salário que remunere o trabalho de jovens e mulheres naprodução, bem como a valorização da profissão agrícola e dos produtos gerados nosprocessos de trabalho, o acesso ao emprego, à educação, aos bens culturais, à saúde, entreoutros. Assim, a mobilização social dos jovens significa também uma das estratégias,senão a principal, para viabilizar a solução de questões que afetam os diversos integrantesda família, sendo vista, também, como solução e não meramente como um problema. Omovimento migratório é a resultante das inúmeras, contínuas e pequenas iniciativas quebuscam a construção de uma identidade social - redefinida, conflituosa e ampliada - queintegra valores “urbanos” sem deixar de ser rural; representa a possibilidade de um filho(a)de agricultor familiar viver com mais plenitude a qualidade de “ser” jovem. O fato de osjovens migrantes buscarem mudanças que questionam valores nucleares da agricultura 24
  • 24. familiar, redefine, mas não anula o papel do ambiente cultural rural no processo desocialização e no comportamento futuro desta juventude. Os depoimentos mostram a valorização, pelos filhos(as) de agricultoresfamiliares, das instituições e manifestações culturais das comunidades rurais. Elas serevestem de grande importância no processo de socialização desses jovens, e devem serenvolvidas nas iniciativas e projetos implementados pelas entidades governamentais oupelas organizações não-governamentais. Para isso, os diversos programas deveriam apoiar ainstalação de equipamentos e serviços sociais e comunitários para dinamizar a vida socialrural. Referências BibliográficasBOURDIEU, P. Célibat et condition paysanne. In: Etudes Rurales. (5-6): 32-135, avr/set,1962.BOURDIEU, P. Questions de sociologie. Paris: Éditions de Minuit, 1984.BOURDIEU, P. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 1999.BRUMER, A. Gênero e agricultura: a situação da mulher na agricultura do Rio Grandedo Sul. XXII Congresso Internacional da Latin American Studies Association (LASA),Hyatt Regency Miami, março/2000.CARNEIRO, M. J. O ideal rurbano: campo-cidade no imaginário de jovens rurais. InTeixeira da Silva, F.C; Santos, R; Costa, L.F.C. (orgs.). Mundo Rural e Política. Rio deJaneiro, Ed. Campus/Pronex, 1998.DURSTON, John. Juventude Rural, Modernidade e Democracia: Desafio para os Noventa.In: Juventude e Desenvolvimento Rural no Cone Sul Latinoamericano. SérieDocumentos Temáticos. RS. Brasil. Junho 1994.EPAGRI/CPPP. Os Impasses Sociais da Sucessão Hereditária na AgriculturaFamiliar. Chapecó: Epagri/CPPP, 2001.GALLAND, O. Les jeunes. Paris: Éditions de la Découverte, 1985. (Coll. Repéres; 27).GALLAND, O. Sociologie de la Jeunesse. Paris: Armand Colin Éditeur, 1991.GALLAND, O. La jeunesse en France. Un nouvel âge de la vie. In: CAVALLI, A. eGALLAND, O. (dir.) L’allongement de lá jeunesse. Paris: Actes Sud, 1993. P. 19-39(Coll. Changement social en Europe occidentale). 25
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