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A dúbia exclusão de jovens do interior
 

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    A dúbia exclusão de jovens do interior A dúbia exclusão de jovens do interior Presentation Transcript

    • A dúbia exclusão de jovens do interior uma parte da população economicamente ativa de uma região migra para uma outra, se seus salários e/ou suas Grazielle Betina Brandt chances e condições de trabalho forem melhores do que na Sílvio Marcus de Souza Correa região de origem (Han 2000, p.173). Mas o aumento da oferta de mão-de-obra interfere nos salários e nas condições Para quem trabalha com o desenvolvimento local e empregatícias existentes e pode tornar uma região menosregional no Brasil, o êxodo rural é um tema freqüente nos atraente. Assim, uma região pode ter a evasão de mão-de-debates e acusa, geralmente, o esvaziamento em certas obra estancada se os atrativos (pull factors) diminuíremcomunidades rurais de seus jovens. Embora a intensidade alhures ou se ela ter seus próprios atrativos incrementados.dos fluxos migratórios tenha uma relação com a economia Trata-se da função de equilíbrio da migração da força dedas localidades rurais, a migração de jovens do interior não trabalho em termos de mercado inter-regional.se reduz às desigualdades de chances entre o meio rural e o Diferente desta dinâmica cíclica do labor-forceurbano. A exclusão dos jovens do interior não é apenas um adjustement model, o modelo centro-periferia da migraçãoproblema de ordem estrutural. Trata-se também de uma acusa a desigual realidade política e econômica inter-regionalquestão cultural atrelada à lógica da ocupação e transmissão como responsável pela manutenção ou aumento dasfundiária e à sua organização sócio-econômica (Brumer et al. disparidades regionais. Para Ghosh (1996, p.83), a evasão2002). de força de trabalho de regiões estagnadas influencia A atual exclusão de jovens do interior tem a acumulação negativamente o seu desenvolvimento econômico e suasflexível (Harvey, 1992) como contexto. Trata-se igualmente perspectivas. A concentração do capital humano em certasde um desdobramento de difícil diagnóstico da “privatização” áreas de uma região pode não apenas provocar umde certos territórios (Reboratti, 2002) com implicações no desequilíbrio intra-regional, mas também inter-regional. Se opresente e no futuro dos jovens do meio rural. Os desenvolvimento de certas localidades ocorre em detrimentodesdobramentos do processo de desenvolvimento regional de outras vizinhas, a tendência para uma migração,“globalizado” em certos territórios têm sido alvo de geralmente caracterizada pelo flight from land, aumenta.pesquisas em diversas áreas como a economia (Graziano da Isso porque os indivíduos potencialmente migrantesSilva, 1994), a geografia (Etges, 2001) e a sociologia procuram localidades que possam corresponder às suas(Brumer et al., 2002). expectativas pessoais e/ou profissionais. Trata-se da A literatura especializada revela que a exclusão social do convergência entre suas ambições pessoais e representaçõesjovem na hinterlândia brasileira também difere conforme a construídas e/ou adquiridas sobre o lugar de destino. Asmatriz histórica de cada região e está ligada às representações, no entanto, são construções individuais etransformações territoriais contemporâneas que “globalizam” coletivas oriundas de diversas informações sobre chances dealgumas regiões em detrimento de outras. Neste contexto de ocupação no mercado de trabalho e custos com mudança, dedesigualdade regional pode-se analisar o fenômeno da moradia e de vida.exclusão dos jovens do interior através do modelo de Mas mesmo em regiões “globalizadas”, com economiasajustamento da oferta e da procura de trabalho (labor-force agro-exportadoras e de modernos pacotes tecnológicos, aadjustement model) entre regiões. Conforme este modelo, exclusão dos jovens se apresenta igualmente. Resta saber se
    • 2o atual êxodo rural, principalmente de jovens, acusa uma social dos fumicultores através do impacto do programa “onova forma de organização sócio-econômica do meio rural na futuro é agora”. 1qual o monopólio tecnológico das empresas agro-exportadoras contribui significativamente para a exclusão Tradição e modernidade na fumiculturadestes jovens. Estes “excluídos do interior” tentam cumprirna cidade com o seu destino prometeico de se apoderar A região do Vale do Rio Pardo apresenta a maior área dedaqueles conhecimentos e de um modo de vida que não lhes cultivo de fumo no Estado do Rio Grande do Sul com cercaforam acessíveis no meio rural. Assim, a emigração da de 60% da sua produção destinada à exportação. 2 Além dohinterlândia não estaria ligada apenas à procura de uma grande envolvimento da sua área e população agrícola com amelhor ocupação, mas também de um outro modo de vida fumicultura, em três cidades (Santa Cruz do Sul, Vera Cruz e(Roy, 1992). Venâncio Aires) estão concentradas algumas das principais A migração de jovens do interior tem sido estudada em empresas multinacionais onde ocorrem o beneficiamento,países setentrionais de grande extensão geográfica como o armazenamento e comercialização do fumo. Assim, a cadeiaCanadá (Roy, 1992; Camiré et al., 1994; Cote, 1997; produtiva da agroindústria fumageira na região envolveGauthier, 1997). Também em países sul-americanos com trabalhadores rurais e urbanos interligando igualmente estediferentes extensões territoriais e diversos modos de mercado (regional) com os mercados nacional eocupação como Paraguai (Spindola, 2002), Chile (Donoso, internacional.2002), Uruguai (Romero, 2002), Argentina (Nuñez, 2002) e Embora sem drástica alteração na estrutura minifundiáriaBrasil (Brumer et al., 2002), estudos recentes têm e no regime de trabalho familiar, a interferência empresarialcontribuído para compreender os impasses enfrentados pela na fumicultura desarticulou algumas tradicionais formasjuventude rural. cooperativas de trabalho ao tratar isoladamente com os A partir do contexto latino-americano, elegemos como produtores. Os fumicultores contam hoje apenas com doisestudo de caso a região da fumicultura no Brasil meridional tipos tradicionais de mão-de-obra: os familiarespara, através de uma análise secundária dos dados do (recrutamento interno) e os Knechter (recrutamentoInstituto Souza Cruz, buscar compreender a percepção de externo), geralmente, provenientes da vizinhança. Emexclusão/inclusão dos jovens rurais. Acreditamos que a ambos os casos, a população juvenil é a mais recrutada. Nodecisão de migrar seja um processo racional que não ocorre caso do recrutamento interno, porém, os jovens ocupamsubitamente, mas sim de forma gradual em que váriosfatores interferem desde aqueles intrafamiliares como 1 O programa “o futuro é agora” é um investimento na área social que seaqueles externos à família. Desse modo, nossa análise visa caracteriza pela ação em conjunto de entidades representativas dasapontar para latentes descontentamentos dos jovens de indústrias e dos produtores de fumo (Sindifumo e Afubra). 2 Com base no Anuário Brasileiro do Fumo (2001:10), o Estado do Riofamílias fumicultoras do Brasil meridional que podem Grande do Sul aparece como o maior produtor de fumo no Brasil. Dados docontribuir para a decisão de migrar e, por conseguinte, de Sindicato da Indústria do Fumo (SINDIFUMO) apontam a fumicultura(auto-) exclusão do interior. No que concerne à exclusão presente em 680 municípios dos Estados meridionais do Rio Grande do Sul,dos jovens de famílias fumicultoras, pretendemos igualmente Santa Catarina e Paraná. Ela é uma atividade econômica que envolve cerca de 150 mil famílias de pequenos agricultores, garantindo a ocupação deavaliar a interferência das multinacionais na reprodução mais de 750 mil pessoas no meio rural. 2
    • 3certas funções que variam conforme o gênero. Em geral, as a falta desse conhecimento empírico pode redundar numameninas ocupam funções domésticas que permitem liberar (in)voluntária urbanidade.as mulheres adultas (mãe, tia, avó) para o plantio, colheita, Mas se o flight from land era freqüentemente analisadotriagem ou secagem do fumo. Já os meninos ocupam sob uma ótica mecanicista, na qual o meio rural apresentavafunções diretas na fumicultura. Preferencialmente são uma série de push factors enquanto o meio urbano pulltambém meninos os que se recrutam externamente quando factors à migração, sabe-se hoje que as cidades apresentamnecessário. suas hordas de favelados, muitos deles “excluídos do Apesar dessas relações de trabalho tradicionais e da interior”. A exclusão não é um apanágio da hinterlândia.existência de uma associação nacional dos fumicultores Então, como compreender a intermitente emigração de(Afubra), as modernas formas contratuais vigentes entre jovens rurais frente às agruras urbanas?produtores e empresas contribuem para uma desarticulação No século XX, o êxodo rural teve sua lógica vinculada àdos produtores enquanto grupo sócio-profissional e, por modernização do Brasil que – através do binômio daconseguinte, para uma perda de autonomia.3 urbanização/industrialização – havia promovido uma grande Exemplo da perda de autonomia é a intervenção recente migração interna. Atualmente ela é impelida não somentedas empresas fumageiras na erradicação do trabalho infantil pela força da tradição, mas também pela modernizaçãoatravés do programa “o futuro é agora” que pode servir de presente no meio rural. Se a modernização urbana haviacatalisador da exclusão de jovens do interior. Ao contrário do atraído parcelas da população rural, hoje é a modernizaçãoque preconizam os organizadores do programa, a da agricultura, especialmente exportadora, que expulsaerradicação do trabalho infanto-juvenil na fumicultura acaba aqueles alienados das novas tecnologias ou lhes impõepor impedir o aprendizado dos jovens agricultores pela via relações de trabalho subalternas (Gnaccarini, 1993). Atradicional, comprometendo mesmo a reprodução social dos modernização conservadora do campo não favoreceu afumicultores. democratização da agricultura seja no que se refere ao Não se trata aqui, obviamente, de defender o trabalho acesso à propriedade ou às novas tecnologias e maquinários.infanto-juvenil, mas de conjeturar sobre a exclusão imediata Agricultores sem condições de competir no mercado dodos jovens do processo produtivo e a exclusão longo prazo agrobusiness tendem a buscar novas ocupações profissionaisque pode representar a obstrução de sua formação não-agrícolas que implicam em pluriatividade (Graziano datradicional enquanto agricultor. Para aqueles que, durante Silva, 1999) e, em muitos casos, na migração para a cidadesua juventude, não foram a campo aprender a faina agrícola, ou a continuar sua agricultura tradicional e defasada tecnologicamente que lhe condiciona não mais que a subsistência.3 Além do gap tecnológico e da falta de condições para um Nas últimas décadas do século XX, as análises de viés marxista (Etges1991, Vogt 1997, Silveira 1997) acentuaram a perda de autonomia dos desenvolvimento rural sustentável, outras limitaçõesfumicultores e os desdobramentos sócio-espaciais para a região do Vale do objetivas do meio rural (sucessão fundiária ou parcelamentoRio Pardo. A partir do approach de Wallerstein para análise econômica do da propriedade familiar etc) comprometem o devirsistema mundial, Zündorf (1998) demonstrou com acuidade as relações profissional dos jovens agricultores que deixam, muitasinterorganizacionais entre países periféricos e centrais envolvidos com aeconomia internacional do fumo. vezes, a pobreza rural pela urbana. 3
    • 4 Deve-se destacar, no entanto, uma dicotomia equivocada pode ser observada na tabela abaixo estruturada a partir daque se tem para a representação do urbano e do rural e que caracterização antagônica para sociedades tradicionais eestá presente não apenas no imaginário juvenil (LeBlanc, modernas de Lepsius (1977).2000), mas também nas próprias origens do pensamentosociológico (Martins, 2001). Desde Marx houve uma Dimensão Sociedade Sociedade modernapreferência pelas transformações sociais no meio urbano. tradicionalMarx não poupou críticas à peasant culture tal como na Estrutura social Homogênea Heterogênearuidosa expressão Idiotismus des Landlebens. Atualmente, Controle social Direto Indiretohá duas visões antagônicas sobre o rural em que uma Sistema Consistente Inconsistente(Veiga, 2000; Martins, 2001) acusa essa antevisão marxiana normativoequivocada sobre a urbanização do campo, enquanto outra a Recrutamento Atribuído Adquiridodefende (Graziano da Silva, 1999; Soto, 2002). Como Inovações Poucas Muitasressaltou Schrader (2001, p.31), cientistas sociais a serviço técnicasde uma política de desenvolvimento associaram a peasant Setor econômico Agrário Industrialculture a atitudes apáticas, recalcitrantes às inovações e Ocupação Rural Urbanaconservadoras. Martins (2001, p.07) sentencia, por seu espacialturno, a sociologia rural por ter se deixado seduzir pelo Forma social Comunitária Societáriaengodo da promissora modernização econômica enquanto Participação Baixa Altaantecâmara da modernização social e do bem estar das políticapopulações rurais ou ruralizadas. Comunicação Pessoal Impessoal Tendo a modernidade como paradigma e explicitada no Direta c/ intermediaçãobinômio da urbanização/industrialização, a representação domeio rural foi, em geral, antagônica do meio urbano. Como Como já ressaltou Oliven (1988, p.30-31), a teoria daacusa Martins (2001, p.06), “o mundo rural tornou-se objeto modernização visou justificar o desenvolvimento de certasde estudo e de interesses dos sociólogos rurais pelo „lado sociedades (=modernas) e o subdesenvolvimento de outrasnegativo‟, por aquilo que parecia incongruente com as (=tradicionais) tendo as diferenças culturais comofantasias da modernidade. Não por aquilo que as populações responsáveis pelas suas diferenças econômicas e sociais.rurais eram e, sim, por aquilo que os sociólogos gostariam Esse dualismo (tradição/modernidade) corresponderia àque elas fossem”. mesma lógica do binômio Gemeinschaft/Gesellschaft de A partir dessa visão dicotômica entre o rural e o urbano, Tönnies ou do continuum rural-urbano de Redfield queo primeiro foi visto como tradicional e o segundo como redundou numa compreensão do mundo rural e agrícolamoderno. A cultura urbana seria dinâmica, criativa e como antípoda do urbano. Tal dicotomia enquanto forma deinovadora enquanto a peasant culture se apresentaria como etnocentrismo ocidental foi primorosamente analisada porestática, repetitiva e conservadora. A cultura urbana estaria Hauser (1975). Assim, algumas instituições, como a escola,associada à escrita enquanto aquela campônia à tradição foram vistas como apanágios urbanos. Dessa forma, ooral. A representação dicotômica entre o rural e o urbano 4
    • 5incremento das redes de comunicação, ensino e transporte como principal push factor de sua (auto-) exclusão dono meio rural foi visto equivocadamente como “urbanização” interior o mal-estar provido pela modernização do rural edo rural. Isso não significa dizer que não há uma influência, pela tradição da peasant culture. Com base nos dados doàs vezes avassaladora, da globalização sobre a chamada Instituto Souza Cruz relativos ao censo realizado em 2000peasant culture. pela Vox Populi, 52% dos jovens entrevistados (filhos de Sob o manto da globalização, a escolarização e o fumicultores) responderam que – se pudessem escolher –aprendizado de novas técnicas pelos jovens do interior sairiam do campo. Em relação ao gosto pela atividade rural,tendem a ser conditio sine qua non para sua inserção no a tabela abaixo demonstra uma percepção diferenciada entremercado de trabalho. No caso da fumicultura, significa que produtores rurais e seus filhos.as técnicas tradicionais transmitidas pelo pai se tornamdesfavoráveis frente à competitividade do setor agro- O quanto gosta Filhos de Produtores ruraisexportador, o qual tem-se uma avançada tecnologia. da atividade produtoresA desautorização dos conhecimentos empíricos dos pais pelo rural?know-how de técnicos agrícolas tem contribuído para acirrar Muito/demais 29,2% 61,5%o conflito intergeracional no meio rural e, por conseguinte, a Mais ou menos 45,9% 28,6%crise da peasant culture. Tal conflito e crise colocam em Nada/pouco 24,7% 9,7%xeque o próprio poder anteriormente atribuído ao Não respondeu 0,2% 0,2%proprietário rural, pois como observou Dahrendorf (1959, Total 100% 100%17), o poder do proprietário rural não se baseava no fato deter ele dinheiro, terra ou prestígio, mas no fato de ser ele um Um dos motivos para a distinta percepção daproprietário rural como seus ancestrais o haviam sido desde atividade rural entre gerações e da forte tendência a migrartempos imemoriais. por parte dos jovens da hinterlândia é a sua escolarização No que tange aos fumicultores do Brasil meridional, superior aquela dos pais. Embora a juventude ruralsuas estratégias de reprodução social e sua imobilidade apresente uma curta trajetória escolar, esta já lhe incitasocial se defrontam com a atual interferência das maiores aspirações em relação à geração anterior,multinacionais na erradicação do trabalho infantil e juvenil. principalmente no que concerne à mobilidade social. APara os jovens, além do conflito entre o tradicional e o mobilidade social implica, muitas vezes, numa mobilidademoderno que a erradicação do trabalho infantil e juvenil espacial, ou seja, migrar para a cidade. Para os jovensrepresenta, tem-se ainda uma singularidade, ou seja, o entrevistados, no entanto, a questão do trabalho, seja noacirramento do complexo de castração simbólica que meio rural ou urbano, se mostrou como indubitável via derepresenta a atuação dos técnicos. Submetidos não apenas à inclusão. Em relação ao trabalho de menores de 16 anos, atradicional autoridade paterna, mas também a uma moderna tabela abaixo mostra que – mesmo tendo uma posturatecnocracia alienígena, os jovens têm poucas chances de diferenciada daquela dos pais – os jovens manifestam umaautonomia no meio rural. tímida tendência em prol da erradicação do trabalho infanto-Mais do que melhores chances de emprego ou aspiração de juvenil.ascensão social, os jovens impelidos para as cidades têm 5
    • 6Favorabilidade ao Filhos de Produtores rurais A inclusão social através do trabalhotrabalho de produtoresmenores de 16 Se para um jovem urbano a evasão escolar, em geral,anos redunda na exclusão social, para um jovem do meio rural é aDesfavorável 23,2% 17,4% negação de certas atividades domésticas que podeIndiferente 49,4% 40,7% comprometer sua inclusão social. A partir dos dados jáFavorável 27,4% 41,9% referidos, percebe-se que o trabalho de menores é, noTotal 100% 100% contexto da peasant culture, uma forma de prevenção contra a exclusão social porque o jovem “apreende uma profissão”, “ajuda no orçamento familiar”, “não fica ocioso” e “cria Ainda em relação ao trabalho infantil, a tabela abaixo responsabilidade”.demonstra que os jovens a percebem de forma distinta Mas uma campanha em prol da erradicação doconforme a faixa etária. trabalho infanto-juvenil tem destaque na mídia da sociedade hodierna. Este movimento tem como principais porta-vozes aFavorabilidade Filhos de produtores Total OIT (Organização Internacional do Trabalho) e a UNICEFao trabalho (Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento dainfantil Criança). A intenção primordial é proteger e promover os Desfavorável Indiferente Favorável direitos de todas as crianças, especialmente o direito à< 12 anos 38,1% 51,6% 10,3% 100% educação gratuita e de qualidade, deixando as crianças livres13 a 16 anos 10,9% 58,7% 30,4% 100% da exploração econômica e de qualquer trabalho que> 16 anos 3,7% 33,8% 62,5% 100% prejudique seu desenvolvimento físico, espiritual, mental, moral ou social. No discurso destas entidades, as crianças são Ainda com base nos dados do Instituto Souza Cruz, a percebidas como sujeitos de direitos, que precisam serimpressão sobre o trabalho infantil dos entrevistados respeitados em sua condição peculiar de pessoas em(produtores rurais e filhos) acusa uma maior indiferença desenvolvimento e que devem, para isto obter prioridadeentre os jovens (66,7%) do que entre os adultos (58,7%). absoluta, sendo a eliminação do trabalho infantil condiçãoTal indiferença pode demonstrar talvez uma outra noção de fundamental para a garantia destes direitos. Contudo,trabalho na propriedade rural, ao menos entre famílias conforme mostra o estudo de Siqueira (1999), a própria OITfumicultoras, que teria uma dimensão social importante para reconhece o trabalho infantil como sendo um tema de difícila inclusão de menores de 16 anos não apenas na família, compreensão, pois nem todas as sociedades utilizam osmas na comunidade a qual pertence. mesmos critérios para interagir sobre o problema. Da mesma forma, percebe-se que não existe uma distinção conceitual clara entre o que venha a ser “trabalho infantil” em relação à “exploração infantil”. Sob este prisma, percebemos que o trabalho de crianças constitui-se numa escala que vai desde 6
    • 7trabalhos leves e casuais até a completa exploração destas e tempos do trabalho. A ponderação de Hillesheim podecrianças. também ser endossada pelos dados da tabela abaixo:No polêmico debate sobre o trabalho infantil e juvenil, tem-se uma florescência da produção acadêmica brasileira apartir da década de 90 (Ferreira 2001). Segundo Rizzini(1996, p.35), desde a última década há no Brasil um Aspecto lúdico do trabalho na Filhos de produtoresconfronto de posturas entre aqueles que acreditam na propriedade ruralprecocidade da formação profissional educando a criança Nada divertido 10,6%pelo e para o trabalho e dos que defendem radicalmente o Pouco divertido 17,2%fim do trabalho infantil. Mais ou menos divertido 40,3% Na região do Vale do Rio Pardo, uma parca produção Divertido 24,8%acadêmica local sobre o tema (Silva 2000; Hoelzel 2000) Muito divertido 6,4%provou que a erradicação do trabalho infantil é ainda uma Não respondeu/não sabe 0,6%utopia. Os poucos artigos (Cadoná 2001, Hillesheim, 2001) Total 100%apresentam, por seu turno, divergências. Fruto de pesquisa Base: 83,9% do total de filhos de produtores responderam a estade caráter regional e realizada com crianças trabalhadoras questão.nas lavouras de fumo, Cadoná (2001) enfoca o trabalhoinfantil enquanto necessidade inerente ao processo produtivo Conforme Hillesheim (2001, p.116), o trabalho édesenvolvido pelas famílias. Afirma ainda que as crianças considerado a partir de uma instância formativa e decompartilham com os pais as preocupações relativas à solidariedade. Assim, o trabalho infantil e juvenil naprodução e, por isso, sua condição infantil é tolhida pela sua fumicultura deve ser analisado por um viés sócio-cultural dacondição precocemente „adulta‟, uma vez que seu tempo de estrutura social camponesa destas famílias. Como salientaser criança é envolvido pelo tempo de ser adulto através da Martins (1997, p.62), “o primado do trabalho é, na verdade,atividade produtiva e do compromisso com o trabalho. Sua o primado da família. O trabalho reproduz a família navisão dicotômica e impregnada de valores burgueses, no medida em que assegura a ampliação da propriedade nasentido etimológico do termo, elimina uma componente extensão de sobrevivência de todos os seus membros. Éimportante da peasant culture que é a própria função assegurando a existência da propriedade que o pai de famíliasociológica do trabalho, através da qual todos os indivíduos, cumpre o seu dever de garantir aos filhos a terra suficientede acordo com sua faixa etária e gênero, participam e para que possam, por sua vez, constituir família”.interagem com o grupo a qual pertencem. Já Hillesheim Uma limitação da literatura local é, no entanto, o(2001) mostra que, apesar das intensas campanhas de emprego de um approach teórico prêt-à-porter semerradicação do trabalho infantil, o trabalho parece ser algo comprovação empírica e cuja inconsistência se verifica ao“incorporado” pelas crianças. Desta forma, as crianças cotejá-la com a literatura internacional (Cadima, 1995;encaram o trabalho como uma prática educativa, pois o Zeiher, 1996; LeBlanc, 2000 Hengst, 2002), principalmentebrincar acontece, em muitas situações, nos mesmos espaços das últimas décadas, pois diversas publicações internacionais acusam um novo paradigma no estudo da infância. Entre 7
    • 8elas, destacam-se as publicações de Allison James e Alan como gênero e faixa etária e que coloca as crianças e osProut (1990) e Jens Qvortrup (1994). jovens em relações de interdependência com o grupo, a Frente à exploração e às nefastas conseqüências de escolarização é um processo de acumulação de capitalcertos trabalhos infantil e juvenil, a literatura internacional cultural sem necessário atrelamento com o grupo familiar.confunde, no entanto, diversos labores desempenhados por Em muitos casos, a escolarização pode representar umajovens e crianças. No Brasil, muitos trabalhos, especialmente futura emancipação do jovem frente ao grupo familiar,domésticos, foram envolvidos no turbilhão de acusações, principalmente através de uma nova inserção ocupacional nogeralmente, baseadas no estatuto dos direitos da criança e mercado de trabalho. Cabe lembrar que, no meio rural, ado adolescente em vigor há poucos anos no país. Sem muita capacidade laboral de um jovem é considerada umdistinção entre labores que seguem uma lógica de importante vetor de reconhecimento que lhe permitereprodução social familiar e outros que danificam física e acumular um capital social para além das relações familiares,psicologicamente a criança, o discurso pela erradicação do isto é, a vizinhança e toda a sua comunidade rural. Por isso,trabalho infantil tem enfatizado a necessidade de garantir à o fato de ser um bom aluno não basta para uma criança ouformação escolar básica para as crianças. Porém, a um jovem no meio rural adquirir reconhecimento. Há deerradicação do trabalho infantil na fumicultura, imposta cumprir satisfatoriamente com as demais expectativas frenteatravés de um contrato pelas empresas aos seus aos papéis que lhes são atribuídos pelas relações sociais quefumicultores, não trás consigo alternativas para crianças e caracterizam a agricultura familiar. Através da pesquisajovens, uma vez que já foi constatada uma falta de realizada pela Vox Populi (2000) se percebe o predomínio decondições objetivas (estabelecimentos de ensino, meios de uma orientação coletiva do labor infanto-juvenil.transporte etc.) para a continuidade da formação escolar,especialmente de ensino médio, no meio rural Por que uma criança vai trabalhar de Filhos de(Brandt/Correa, 2002). vontade própria produtores Cabe destacar que a questão do trabalho infantil na Para ocupar o tempo livre 16,3%cadeia produtiva da fumicultura pode estar associada com a Seguir o exemplo dos pais 17,1%preparação para um futuro profissional. Atrelando a lógica da Interesse de aprender a trabalhar 17,5%sucessão fundiária com a da reprodução biológica e social do Por gostar de trabalhar na roça 5,7%grupo familiar, o agricultor tem sobre a sua prole a Para ajudar os pais 26,4%expectativa de continuidade para a qual se faz necessário o Para ter seu próprio dinheiro 0,8%conhecimento da faina agrícola. Assim, a criança se prepara Para não ficar em casa sozinho 0%e se qualifica para o trabalho já no interior do núcleo Outros 0%familiar, cuja residência é ao mesmo tempo local de trabalho Não sabe 16,3%tal como na tradicional Bauerhof. Ao ser incluída numa Base: 41,3% do total de entrevistados que foram trabalhar pordinâmica doméstica de atividades laborais, se atribui à vontade própria.criança e/ou ao jovem um lugar junto ao grupo familiar quetem a ver com a orientação coletiva no meio rural. Ao A tabela acima permite inferir uma dimensão social aocontrário da divisão familiar do trabalho, regida por critérios labor infanto-juvenil na qual tem lugar uma relação 8
    • 9econômica com os pais permeada por valores e elevados de alfabetização. Para Santa Cruz do Sul, Kippercomportamentos de socialização como, por exemplo, ocupar (1979) demonstrou como a própria população colonialo tempo livre, seguir o exemplo dos pais, interesse de buscou atender a demanda escolar através da auto-gestãoaprender a trabalhar e por gostar da roça. Estes fatores de instituições criadas pela própria comunidade local.reunidos mostram um percentual de 56,6% e revelam a Estudar e trabalhar são atividades compatíveis no meiodimensão social que envolve o trabalho infanto-juvenil na colonial; aliás, trata-se de uma tendência nacional. Segundofumicultura. Pastore e Silva (2000:12), “os brasileiros começam a Mas a simultaneidade entre estudo e trabalho não é trabalhar muito cedo. Entretanto, o trabalho não é obstáculoum apanágio dos jovens do interior do Brasil meridional, para uma boa parcela de jovens continuarem seus estudos.embora Rizzini (1996, p. 51) tenha observado que as taxas Os dados de 1996 mostraram que a maioria dos estudantesde atividade ocupacional mais elevadas de crianças e do ensino médio conciliou trabalho com estudo durante oadolescentes encontram-se no Sul do país, uma das regiões curso (60%). No período noturno, essa proporção chegou aque apresenta as melhores condições de vida no país. 72%”. Levison (1993, 88) também afirma que no BrasilConforme análise dos dados do PNAD de 1990 o fato de boa meridional, as taxas de emprego e freqüência escolar sãoparte das crianças e adolescentes entre 10-17 anos elevadas, além de ser menor a defasagem série/escola. Otrabalharem no Sul não interfere na sua escolarização, se trabalho, contudo, não é o motivo mais alegado paracomparando às demais regiões do país. No Sul, cuja justificar a interrupção dos estudos. Para ele, o sistema depopulação, no geral, tem melhores condições de vida do que ensino é um dos motivos que levam os menores aa média nacional, o trabalho infantil e juvenil parece estar interromper seus estudos, seja por problemas ligados a redemais condicionado a fatores culturais do que pela pobreza. escolar, “a escola era longe”, “não tinha escola”, “não tinhaNão significa, contudo, minimizar a relação entre o ingresso vaga”, e, principalmente, por situações ligadas à própriaprecoce no mercado de trabalho e a situação de pobreza de estrutura de ensino, no que se refere a organização,muitas crianças e adolescentes como mostrou Alvin (1996). conteúdo e a didática”. Ainda sobre o universo valórico dos agricultores, No caso específico da região da fumicultura, a maiorMartins (1993) apontou para as singularidades da infância no demanda pelo trabalho infanto-juvenil ocorre nos meses demeio rural. Ao estudar um grupo de agricultores gaúchos, na férias escolares; assim, a evasão escolar no meio rural temsua maioria de origem alemã e italiana, o sociólogo percebeu muito pouco a ver com a fumicultura. Os dados do censoque a migração para o Mato Grosso não foi suficiente para elaborado pelo Instituto Vox Populi (2000), tambémcorroer o seu capital cultural que basicamente está permitem inferir que a baixa escolaridade e a evasão escolarfundamentado no trabalho e na família. Sabe-se, no entanto, estão ligadas a uma deficitária infra-estrutura escolar noque no meio rural, especialmente onde houve colonização meio rural. Percebe-se que a falta de escola próxima, dealemã, o trabalho infantil se caracteriza pela sua condição maior oferta de séries pela escola mais próxima, deextra-classe, sendo a escolarização uma prioridade histórica transporte escolar e de vagas na escola são responsáveis porda comunidade teuto-brasileira. 37,5% dos motivos apontados para não freqüentar ou Desde a sua fase pioneira, a área de colonização continuar a freqüentar a escola. A falta de interesse dos paisalemã no Rio Grande do Sul sempre apresentou índices foi responsável apenas por 3,7% e a necessidade de 9
    • 10trabalhar (não necessariamente na fumicultura) por 16% dos Portanto, se na cidade a escolarização serve decasos. indicador da capacidade de trabalho do jovem e lhe permite Considerando o percentual da freqüência do uma melhor inserção no mercado de trabalho, no meio ruralcumprimento de todas as séries oferecidas pela instituição de a inclusão social do jovem se dá principalmente peloensino mais próxima enquanto motivo para não freqüentar reconhecimento de sua capacidade de trabalho cujo(mais) a escola e tendo como variável de controle a faixa indicador é também o conhecimento acumulado, porém deetária das crianças e jovens em idade escolar, percebe-se forma informal e não escolar. Jovens ociosos são,que a interrupção dos estudos é maior entre os geralmente, excluídos de suas respectivas famílias eadolescentes. Dos jovens entre 14 e 15 anos, 8,5% comunidades rurais ou então estigmatizados o que pode terdeclararam já ter cursado todas as séries oferecidas pela diversos desdobramentos de exclusão através de recusasescola mais próxima. Esse percentual sobe para 10,7% entre (empregatícia, matrimonial, de herança etc.) pelo próprioos adolescentes de 16 a 17 anos e para 23,1% para jovens ingroup. Cabe lembrar que o excluído não é necessariamentede 18 anos. Estes índices permitem inferir que as causas da aquele que se encontra em situação de carência material,curta trajetória escolar da população rural são várias. Entre mas pode ser aquele que não é reconhecido como sujeitoelas, destaca-se a falta de escolas de ensino fundamental [trabalhador], sendo assim estigmatizado por umacompleto e médio in loco. Em termos de mobilidade social, determinada comunidade (Nascimento, 1994).Pastore e Silva (2000:09) comprovaram que a educação foi aestratégia mais empregada pelos jovens urbanos para O futuro é agora, a exclusão se faz hojeingressar nos postos de trabalho do mercado formal. Já nomeio rural, uma vez cursadas as séries oferecidas pela A campanha contra o trabalho infanto-juvenil naescola local, os jovens tendem a seguir o seu “destino fumicultura surgiu sob as tempestivas campanhassocial”. Trata-se aqui do peso da herança social para a (i) antitabagistas e na vaga dos protestos contra as formas demobilidade intergeracional. trabalho compulsório no mundo contemporâneo, dos quais Pastore e Silva (2000:55) observaram que, entre os as principais vítimas são crianças, mulheres e minoriastrabalhadores rurais no Brasil, 90% têm sua origem no étnicas. A Junta de Curadores do Fundo Voluntário dasmesmo estrato sócio-ocupacional. No caso do Vale do Rio Nações Unidas Contra as Formas Contemporâneas dePardo, a limitada oferta escolar no meio rural e a iminência Escravidão (Board of Trustees of the UN Voluntary Fund onde laborar, acabam por ratificar o “destino social” de muitos the Contemporany Forms of Slavery) e o movimentojovens. Outros migram para a cidade na busca de uma Antislavery International estimam a população atual dealternativa à sina campesina. A emigração de jovens acaba “escravos” em 200 milhões. Segundo Martins (2001:08),desativando a vida social, econômica e cultural no meio rural essa população é vitimada pela decomposição do mundoe excluindo do interior, geralmente, aqueles mais capazes, rural que resultou de intervenções de “engenharia social”cuja escolaridade – embora superior à média local – costuma modernizadora.ser mínima ou mesmo insuficiente frente ao mercado de Nesse contexto, as empresas fumageiras buscamtrabalho urbano. Por isso, a exclusão do interior não garante minimizar o desgaste de sua imagem com investimentos naao jovem uma inclusão urbana. área social. A recente campanha pela erradicação do 10
    • 11trabalho infanto-juvenil na fumicultura surgiu dessa O trabalho infanto-juvenil na fumicultura é, portanto,preocupação em preservar a imagem dessas empresas como para muitas famílias uma forma de aprendizagemtambém em evitar possíveis boicotes internacionais ao fumo profissional. A unidade produtiva da agricultura familiar nãobrasileiro. Paradoxalmente, a organização econômica deixa de ser uma unidade produtiva de saberes tradicionais ebaseada no regime familiar e no minifúndio, caracterizada distintos daqueles ensinados na escola. Atividades escolarespela policultura, e que permitiu durante mais de um século o e domésticas são complementares na Bildung de crianças embaixo custo da produção do fumo e a sobrevivência das comunidades rurais teuto-brasileiras. Erradicar o trabalhofamílias de agricultores, agora é vista como ameaça à cadeia infantil da forma como se propõe, isto é, antecipando oprodutiva fumageira e à imagem desse complexo. futuro é, em outras palavras, fazer hodierna a exclusão dos Apesar desse programa se mostrar em prol da jovens.escolarização da população rural, cabe destacar o grandeequívoco da orientação etnocêntrica e dicotômica do mesmo. A percepção da exclusão/inclusãoTal orientação se revela no entendimento conceitual decertas palavras como trabalho e escolarização que não têm A dubiedade da exclusão do interior se evidencia aonecessariamente a mesma correlação no meio rural e se estudar o perfil do jovem emigrante. Percebe-se que, emurbano. A educação formal (=escolar) no meio urbano é feita geral, são aqueles mais aptos, isto é, com uma escolarizaçãomuitas vezes sem uma práxis. Já no meio rural, o leque de superior a média no meio rural, que abandonam o campoopções profissionais é mais reduzido e sua aprendizagem é (Abramovay 19??). Significa que quanto mais completa aquase imprescindível de uma práxis. Assim, o jovem escolarização, mais o jovem tem sua expectativa frente aoagricultor aprende sua profissão basicamente de forma futuro aumentada. Futuro esse que não se vislumbra nahereditária, isto é, através do exercício da faina agrícola reprodução social e sim na mobilidade espacial e social, istojunto ao seu pai que aprendera a atividade agrícola da é, migração para onde as chances parecem promissoras.mesma forma. A análise secundária dos dados do Instituto Souza Com a introdução do programa “o futuro é agora”, ao Cruz permite inferir que a dicotomia entre o rural e o urbanofumicultor lhe é atribuído a responsabilidade de erradicar o ainda está presente no jovem brasileiro tal como no jovemtrabalho infantil na sua propriedade. Tal programa visa, canadense (LeBlanc 2000) apesar das eventuais diferençasatravés das chamadas “ações de conscientização”, que os entre as realidades regionais (rural e urbana).fumicultores incorporem os valores da campanha contra as Com base nos dados já referidos, o elevadoformas de trabalho infantil. O dispositivo cultural do percentual (52%) de jovens potencialmente migrantesfumicultor passa a ser determinado por circunstâncias permite inferir uma percepção do seu milieu social erelativas às interações globais entre instituições como a OIT geográfico como uma zona precária ou de exclusão (Castelse a UNICEF. O legado cultural e social da população rural fica 1996). A tabela abaixo demonstra a percepção dos jovens esuscetível às manobras empresariais, elaboradas e dos adultos frente ao futuro.determinadas por causas múltiplas, resultando em conflitossimbólicos movidos por descontentamentos culturais, sociaise econômicos. 11
    • 12 subempregos de alta rotatividade. A precariedade desta zonaComo será o Filhos de Produtores imprime nos jovens um sentimento de incerteza que podefuturo do lugar produtores ser traduzido num sentimento de exclusão independente daonde vive? sua geografia (rural ou urbana).Vai piorar 11,9% 21,7%Vai ficar como 37,0% 29,1% Considerações finaisestáVai melhorar 39,2% 34,8% A questão da exclusão vem suscitando controvérsias,Não sabe 11,9% 14,5% principalmente, devido à sua intransparência teórica. Sob o 100% 100% termo “excluído” se entende, geralmente, quem está fora do mercado de trabalho e sem condições de competir e Mas não basta apenas perceber a zona de exclusão ou consumir. No meio urbano, percebe-se que muitos delesa zona de precariedade onde se encontra, mas ter condições formam um grupo que poderíamos chamar dos “excluídos”subjetivas e objetivas para migrar. Sabe-se, contudo, que do interior. Trata-se daqueles com origem na hinterlândia,aqueles otimistas frente ao futuro no meio rural tendem à mas que não encontraram uma ocupação e, por conseguinte,permanência enquanto que os pessimistas apresentam maior um reconhecimento social nem no meio rural nem nopredisposição para migrar, especialmente quando seu capital urbano. A modernização da agricultura no país temcultural escolar é superior à média. Mas não seria a imprimido mudanças no meio rural. Sua alteração serviuescolarização uma variável explicativa ao pessimismo de para estudos que retomam certos conceitos como ocertos jovens do interior?4 “rururbano” ou que sugerem um novo paradigma para o Para os jovens do meio rural, o reconhecimento de chamado “novo rural”. Nesse sentido, a escolarização sesuas condições para o trabalho lhes garante uma inserção tornou um imperativo às populações rurais e a erradicaçãopreliminar que redunda numa inclusão quase automática à do trabalho infantil um cavalo-de-batalha de certas empresascomunidade local, porém não lhes garante uma estabilidade envolvidas com a agricultura. Entre elas, destaca-se o poollongo prazo devido às mudanças imprimidas ao meio rural de empresas ligadas à agro-indústria do fumo no Brasilnas últimas décadas, especialmente naquelas regiões meridional.“globalizáveis”. No meio urbano, os jovens têm diante de si A modernização imposta por essas empresas nãoum mercado de trabalho maior e diversificado, porém sua significa a abolição total das práticas tradicionais. O trabalhoinserção não é facilitada pela condição urbana. A infanto-juvenil é uma práxis a qual se busca erradicar.concorrência também é mais acirrada e a flexibilização do Presente nas pequenas famílias de agricultores inseridas namercado faz com que os jovens, em geral, obtenham cadeia produtiva da fumicultura no Brasil meridional, ele faz parte de uma lógica de reprodução social. Neste sentido, erradicar o trabalho infantil e juvenil na fumicultura é alterar4 A forma como os dados do Instituto Souza Cruz foram disponibilizados não não apenas as relações de trabalho na fumicultura, mas,nos permite correlacionar o pessimismo com o grau de escolaridade dos sobretudo, a própria orientação de valores dos fumicultores.jovens entrevistados. Assim que uma série de possibilidades de análise (deregressão, de fator etc) não teve lugar nesse estudo. 12
    • 13 Mas o programa “o futuro é agora”, ao buscar Referências bibliográficaserradicar o trabalho infanto-juvenil da fumicultura sematentar para os seus significados social no mundo rural,econômico na agricultura familiar e cultural na área de ALUIN, Rosilene. Le travail des enfants vu par la sociétécolonização alemã, pode comprometer o seu próprio sucesso. civile. Les débats sur lenfance pauvre au Brésil - entre laA dúbia exclusão do trabalho infantil se torna explícita no marginalisation et le travail précoce. In: SCHLEMMER,momento que se depara com o problema de condenação Bernard (Dir). Lenfant exploité : oppression, mise au travail,simplista atribuído a todo trabalho infantil (real ou potencial), prolétarisation. Paris: Editions Karthala-ORSTOM, 1996. p.ao generalizar a priori qualquer atividade laboral de crianças 163-199.e jovens como situação de risco para o seu desenvolvimento. ANTUNIASSI, Maria Helena Rocha. Trabalhador infantil eA interdição laboral promove um hiato na socialização dos escolarização no meio rural. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.jovens rurais e contribui para uma perda de orientação e de ANUÁRIO BRASILEIRO DO FUMO. Santa Cruz do Sul, Gazetaautoridade dos pais no que concerne ao encaminhamento Grupo de Comunicações, 2001.dos filhos às formas adaptativas da vida adulta. ARREGUI, Carola Carbajal (org.). Erradicação do trabalho A exclusão do jovem do interior é hoje não apenas infantil. Dimensionando as experiências de Pernambuco,fruto da tradição do meio rural, mas também de sua Mato Grosso do Sul e Bahia. São Paulo: Finep/Instituto demodernização. Modernização imposta de forma tecnocrática Estudos Especiais, 2000.que pouco contribuir para a ramificação das artérias BONNET, Michel. Le travail des enfants à la lumière de Iademocráticas no campo tão importante para a oxigenação servitude pour dettes. In: SCHLEMMER, Bernard (Dir.).das comunidades rurais. A erradicação do trabalho de Lenfant exploité : oppression, mise au travail,menores de 16 anos, tal como propõe o programa “o futuro é prolétarisation. Paris: Editions Karthala-ORSTOM, 1996. p.agora”, não trás consigo alternativas inclusivas aos jovens do 251-265.interior que carecem de condições objetivas BOURDIEU, Pierre. A exclusão do interior In: NOGUEIRA,(estabelecimento de ensino, meios de transporte, Maria Alice/ CATANI, Afrânio (orgs.) Escritos de Educação.professores etc) in loco para continuar seus estudos. Petrópolis: Vozes, 1998.Conforme os próprios dados do Instituto Souza Cruz, uma BRANDT, Grazielle B. A atividade de relações públicas na“maior valorização do produto” e “maior incentivo à produção formação e orientação de estratégias de responsabilidadeagrícola” poderiam igualmente evitar a exclusão do interior social para a construção da imagem das organizaçõesdaqueles seus elementos mais dinâmicos, ou seja, os jovens. privadas. Santa Cruz do Sul, 2001 (monografia de conclusãoDesse modo, o aumento do ganho real com a fumicultura de curso em Comunicação Social da Universidade de Santapoderia ser a melhor forma de liberar os braços de menores Cruz do Sul)de 16 anos, fazendo essa prática diminuir até se tornar, onde BRUMER, Anita et alii. O futuro da juventude rural. In:ainda prevalecer, apenas um anacronismo cultural. Caso Sustentabilidade e democratização das sociedades rurais dacontrário, ela continuará não apenas tendo validade na América Latina. VI Congresso da Associação Latino-peasant culture como, principalmente, sentido econômico. americana de Sociologia Rural (ALASRU), Porto Alegre, Brasil, 2002, 13
    • 14CABANES, Robert. Logique domestique et logique du marché. Rio Pardo: (Re)conhecendo a região. Santa Cruz do Sul,In: SCHLEMMER, Bernard (Dir.). Lenfant exploité EDUNISC, 2001. p,351-365.oppression, mise au travail, prolétarisation. Paris: Editions FERREIRA, Marcos A F. Trabalho infantil e produçãoKarthala-ORSTOM, 1996. p. 385-391. acadêmica nos anos 90: tópicos para reflexão. Estudos deCADIMA, J. O trabalho infantil na perspectiva da gestão : Psicologia 2001, 6 (2), p.213-225.contributos para uma reflexão. Apresentado no II Seminário FUKUI, Lia Freitas Garcia. Pourquoi le travail de lenfant est-ilsobre trabalho infantil - Crianças de hoje-homens de toléré? Le cas du Brésil. In: SCHLEMMER, Bernard (Dir.).amanhã : que futuro. Universidade de Minho : Portugal, Lenfant exploité : oppression, mise au travail,1995. prolétarisation. Paris: Editions Karthala-ORSTOM, 1996. p.CADONÁ, Marco. A Infância Precarizada: o trabalho de 181-200.crianças e adolescentes na produção de fumo na região GNACCARINI, José César. O trabalho infantil agrícola na erafumicultora de Santa Cruz do Sul. Reflexão e Ação – Revista da alta tecnologia. In: MARTINS, José de Souza (Org.). Odo Departamento de Educação – UNISC. Formação massacre dos inocentes: a criança sem infância no Brasil.Continuada de Professores: Edunisc, v. 9, p. 45-61, julho de São Paulo : Hucitec, 1993. p. 81-116.2001. GODINHO, E. et al. Estudos de População 6 - Santa Cruz doCAMIRÉ, L., J. ROY e OUELLET, H. Le phénomène d‟exode Sul. CEBRAP. São Paulo. 1980.dans le Bas-St.-Laurent, étude de cas : territoire des MRC HAN, Petrus. Soziologie der Migration. Stuttgart: Lucius &Matane et Témiscouata. Sainte-Foy, Université Laval, Centre Lucius Verlag, 2000.de Recherche sur les services communautaires, 1994. HARVEY, David. A Condição Pós-Moderna. São Paulo: EdiçõesCARRIER, M. e JEAN, B. La reconstruction de la légitimité des Loyola, 1992.collectivités rurales. In: CARRIER, Mario e COTÉ, Serge HAUSER, Philip. Observações sobre a Dicotomia „Folk‟-(org.) Gouvernance et territoires ruraux. Éléments d´un Urbana e Urbano-Rural como Forma de Etnocentrismodébat sur la responsabilité du dévellopment. Québec, Presse Ocidental. In: HAUSER, P. e SCHNORE, Leo (org.) Estudos dede l´Université du Québec, 2000. p.41-63. Urbanização. São Paulo, Pioneira, 1975.COTÉ, Serge. Migrer: um choix ou une nécessité. Une HENGST, Heinz. Ein internationales Phänomen : Die neueenquête à l‟échelle d‟une région, in GAUTHIER, Madeleine soziologische Kindheitsforschung. In: Forum der Deutschen(org.), Pourquoi partir ? La migration des jeunes d‟hier et Gesellschaft für Soziologie. Opladen, Verlag Leske + Budrichd‟aujourd‟hui. Sainte-Foy, IQRC/Presses de l‟Université Laval, 2/2002, p.57-77.1997, p.63-85. HILLESHEIM, Betina. O trabalho e o ser-criança na vida deCORREA, Sílvio M. de S. Zur ethnischen Identität der meninos e meninas trabalhadores(as) em lavouras de fumo.Deutschstämmigen in Santa Cruz do Sul. Santa Cruz do Sul, Redes – Revista do Mestrado em Desenvolvimento RegionalEDUNISC, 2001. – UNISC. A economia política do desenvolvimento regional.ETGES, Virgínia. Camponeses gaúchos e a indústria do fumo. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, v. 6, p. 109-117, setembro deSanta Cruz do Sul.Santa Cruz do Sul, Editora da FISC, 1991. 2001.ETGES, Virgínia. A região no contexto da globalização: o caso HOELZEL, Flávia. O trabalho precoce e projetos de vida: umdo Vale do Rio Pardo. In: SILVEIRA, R. e VOGT, O Vale do estudo em crianças e adolescentes do meio rural de Santa 14
    • 15Cruz do Sul. Santa Cruz do Sul: UNISC, 2000. (dissertação MONTALI, Lilia T. Do núcleo colonial ao capitalismode mestrado em desenvolvimento regional) monopolista. São Paulo: USP, 1979. (dissertação deJAMES, Allison e PROUT, Alan (org.) Constructing and mestrado em sociologia)reconstructing childhood: contemporary issues in the NASCIMENTO, Elimar Pinheiro do. A exclusão social nosociological study of childhood. London, 1990. Brasil: algumas hipóteses de trabalho e quatro sugestõesLEBLANC, Patrice. Les jeunes de milieu rural et leur rapport à práticas. In: Cadernos do CEAS, n 152, Centro de Estudos dela région, In: CARRIER, Mario e COTÉ, Serge (org.) Ação Social, Salvador (BA), 1994.Gouvernance et territoires ruraux. Éléments d´un débat sur NEVES, Delma Pessanha. A perversão do trabalho infantil.la responsabilité du dévellopment. Québec, Presse de Lógicas sociais e alternativas de prevenção. Niterói:l´Université du Québec, 2000, p.65-84. Intertexto, 1999.LEPSIUS, Rainer. Soziologische Theoreme über die Moderne OLIVEN, Ruben G. Urbanização e mudança social no Brasil.und die Modernisierung. In: KOSELLECK, Reinhart (org.) Petrópolis, Vozes, 4ª edição, 1988.Studien zum Beginn der modernen Welt. Stuttgart, 1977, QVORTRUP, Jens et alli. Childhood matters. Social theory,p.10-29. practice and politics. 1994.GAUTHIER, Madeleine (org.), Pourquoi partir ? La migration PASTORE, José e SILVA, Nelson do Valle. Mobilidade Socialdes jeunes d‟hier et d‟aujourd‟hui. Sainte-Foy, IQRC/Presses no Brasil. São Paulo, MAKRON Books, 2000.de l‟Université Laval, 1997. QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Prefácio. In:LEVISON, Deborah. O trabalho e a escolarização de crianças ANTUNIASSI, Maria Helena Rocha. Trabalhador infantil ee adolescentes nas cidades brasileiras: lições do escolarização no meio rural. Rio de Janeiro: Zahar, 1983. p.levantamento PNAD 1985. Minneapolis: Center for population 9-12.Analysis and Policy., 1993. 82p. 78-82p. RIZZINI, Irene. A criança e o adolescente no mundo doMARQUES, Walter Ernesto Ude. Infâncias (pre)ocupadas: trabalho. Rio de Janeiro: USU editora, 1996.trabalho infantil, família e identidade. Brasília: Plano Editora, Rizzini, Irene. O século perdido: raízes históricas das políticas2001. públicas para a infância no Brasil. Rio de Janeiro: USU, 1997. 300p.MARTINS, José de Souza. Capitalismo e tradicionalismo. São ROY, J. L‟exode des jeunes du milieu rural : en quête d‟unPaulo: Pioneira, 1975. p. 83-98. emploi ou d‟un genre de vie. Recherches sociographiques,MARTINS, José de Souza. O futuro da sociologia rural e suas vol.33, nº3, 1992, p.429-444.contribuições para a qualidade de vida rural. Estudos SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo,Sociedade e Agricultura. Rio de Janeiro, UFRRJ, número 15, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.2000. p. 5-12. SILVA, R. B. F. Trabalho infantil e construção da identidadeMARTINS, José de Souza. Exclusão social e a nova de gênero. Santa Cruz do Sul: UNISC, 2000 (dissertação dedesigualdade. São Paulo: Paulus, 1997 (Coleção temas da mestrado em desenvolvimento regional).atualidade).140p SILVEIRA, Rogério L. A produção da periferia urbana emMARTINS, José de Souza. Massacre dos inocentes: a criança Santa Cruz do Sul/RS: o lugar dos safristas na terra dosem infância no Brasil. São Paulo: Hucitec, 1993. 2edição. fumo. (dissertação de mestrado/UFSC). Florianópolis, 1997.216p. 15
    • 16SCHRADER, Achim. Agrargesellschaft In: KNEER, G. et alii.Klassische Gesellschaftsbegriffe der Soziologie. Munique,2001, p.13-54.SCHRADER, Achim. "Educação e cultura rurais no Rio Grandedo Sul", in Revista do IFCH, Porto Alegre v.14, 1990, p.49-58.SIQUEIRA, Jane Terezinha Fraga. O trabalho infantil nomundo atual. Reflexão e Ação – Revista do Departamento deEducação – UNISC. EDUNISC, v. 9, p.45-619. p.9-27.SPINDEL, Cheywa R. Criança e adolescente no mercado detrabalho. São Paulo: Brasiliense, 1989.THÉLOT, C. Tel père, tel fils ? Position sociale et originefamiliale. Paris, Dunod,1982.TOURAINE, A. e RAGAZZI, O. Les ouvriers d´origine agricole.Ed. d´Aujourd´hui, Paris, 1975.VEIGA, José E. A face rural do desenvolvimento – natureza,território e agricultura. Porto Alegre: EDUFRGS, 2000.VOGT, Paulo Olgário. A produção do fumo em Santa Cruz doSul: 1849-1993. Santa Cruz do Sul, EDUNISC, 1997.ZEIHER, Helga. Die Entdeckung der Kindheit in derSoziologie. In: CLAUSEN, Lars (org.) Gesellschaften inUmbruch. Verhandlungen des 27. Kongresses der DeutschenGesellschaft ffür Soziologie. Frankfurt/New York, 1996,p.795-805. 16