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Ditadura 1964
 

Ditadura 1964

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PESQUISA SOBRE DITADURA MILITAR NO BRASIL, por Lucília antunes.

PESQUISA SOBRE DITADURA MILITAR NO BRASIL, por Lucília antunes.

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    Ditadura 1964 Ditadura 1964 Document Transcript

    • O golpe militar de 1964O Golpe Militar de 1964 designa o conjunto de eventos ocorridos em 31 de março de1964 no Brasil, e que culminaram no dia 1 de abril de 1964 em um golpe de estado.A Ditadura Militar foi o período da política brasileira em que os militares governaramo Brasil 1964 a 1985.Falta de democracia;Supressão de direitos constitucionais;Censura;Perseguição política e repressão aos que eram contra o regime militar;Todavia, para a maioria dos militares, chamar o golpe de Revolução de 1964 estariaassociado à ideia de futuro, de esperança e de um tempo melhor, algo prometido paraa população, devido à corrupção que alegavam existir no Brasil.Este golpe encerrou o governo do presidente João Belchior Marques Goulart, tambémconhecido como Jango, que havia sido democraticamente eleito vice-presidente peloPartido Trabalhista Brasileiro (PTB) – na mesma eleição que conduziu Jânio da SilvaQuadros do Partido Trabalhista Nacional (PTN) à presidência, apoiado pela UniãoDemocrática Nacional (UDN).Jânio renunciou ao mandato no mesmo ano de sua posse 1
    • (1961) e quem deveria substituí-lo automaticamente e assumir a Presidência era JoãoGoulart, segundo a Constituição vigente à época, promulgada em 1946.A maior parte dos regimes militares são formadas após um golpe de Estado,derrubando o governo anterior.A crise política se arrastava desde a renúncia de Jânio Quadros em 1961. O vice deJânio era João Goulart, que assumiu a presidência num clima político adverso. Ogoverno de João Goulart (1961-1964) foi marcado pela abertura às organizaçõessociais. Estudantes, organização populares e trabalhadores ganharam espaço,causando a preocupação das classes conservadoras como, por exemplo, osempresários, banqueiros, Igreja Católica, militares e classe média. Todos temiam umaguinada do Brasil para o lado socialista. Vale lembrar, que neste período, o mundovivia o auge da Guerra Fria. 2
    • ComícioO primeiro deles, o comício das Reformas, foi realizado no dia 13 de março de 1964,no Rio de Janeiro. Nele, diante de 150 mil pessoas, o presidente assinou dois decretos:um iniciando a reforma agrária, com a desapropriação de terras ociosas às margensdas rodovias e açudes federais; outro encampando as refinarias particulares depetróleoCom o gesto, Jango iniciava a implementação das reformas de base sem a permissãodo Congresso Nacional.Esse seria o principal argumento que os militares usariam parajustificar o golpe.As reformas de Jango e a Marcha da Família com Deus pela Liberdade: tensões queantecederam o golpe de 64.O ano de 1964 começou com o rompimento das negociações entre o governo e asforças conservadoras no Congresso Nacional para implementar as reformas de base,reunindo reforma agrária, educacional, fiscal, bancária e eleitoral. Jango organizou,então, uma ofensiva política para pressionar os parlamentares com a força das ruas.Apoiado pelos movimentos populares, que haviam atingido um grau de organizaçãoinédito na história do País, anunciou seu comparecimento a uma série de grandescomícios nas principais cidades, a fim de mobilizar a população em favor dasreformas.Reforma "na lei ou na marra" 3
    • O presidente iniciou as reformas pela agrária porque o campo configurava um dosproblemas sociais mais sérios do País. A má distribuição de terras produzia efeitosnegativos para todo o País. A pobreza excluía do acesso ao mercado de bensindustrializados a maior parcela da população, uma vez que cerca de 70% dosbrasileiros habitavam a área rural até os anos 1950.PressõesPortanto, além de resolver o problema rural, restabelecendo a paz em áreas marcadaspor uma crescente mobilização social, a reforma agrária seria capaz de promover aindustrialização e o desenvolvimento econômico. Por isso, os movimentos sociaisdecidiram pressionar o Congresso Nacional de modo firme, exigindo uma reformaagrária "na lei o na marra". Foi nesse jogo de pressões que João Goulart realizou oComício das Reformas.Marcha da Família 4
    • A tensão política aumentava ao mesmo tempo em que a economia se deteriorava comaumento da inflação. Em 63, a inflação atingira 75% e as projeções nos primeirosmeses de 64 estimavam alta de 140%. Para defender seu poder de compra, ostrabalhadores realizaram 302 greves em 1963. Muitas delas, porém, visavamaumentar a participação da categoria nas decisões do governo e pressionar pelasreformas. A direita também aumentava a pressão. Em São Paulo, as forçasconservadoras responderam ao Comício das Reformas com a Marcha da Família comDeus pela Liberdade (foto), reunindo cerca de 200 mil pessoas. Nas faixas, pedidospara Jango ser destituído.Militares mobilizados para o golpe 5
    • A divisão da sociedadetambém chegara às Forças Armadas. Um setor era nacionalista, articulado aomovimento sindical e a setores da esquerda e apoiava abertamente importantesiniciativas progressistas como as reformas de base. O grupo contrário à política deGoulart, por outro lado, se envolvia cada vez em ações que visavam a desestabilizar ogoverno.Política na era da ditadura ( Os Presidentes) 6
    • Os militares tomam o poder. Em 9 de abril, é decretado o Ato Institucional Número 1(AI-1). Este, cassa mandatos políticos de opositores ao regime militar e tira aestabilidade de funcionários públicos.O GOVERNO CASTELLO BRANCO (1964-1967)Castello Branco, general militar, foi eleito pelo Congresso Nacional presidente daRepública em 15 de abril de 1964. Em seu pronunciamento, declarou defender ademocracia, porém ao começar seu governo, assume uma posição autoritária.Estabeleceu eleições indiretas para presidente, além de dissolver os partidos políticos.Vários parlamentares federais e estaduais tiveram seus mandatos cassados, cidadãostiveram seus direitos políticos e constitucionais cancelados e os sindicatos receberamintervenção do governo militar. Em seu governo, foi instituído o bipartidarismo. Sóestavam autorizados o funcionamento de dois partidos: Movimento DemocráticoBrasileiro (MDB) e a Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Enquanto o primeiro erade oposição, de certa forma controlada, o segundo representava os militares.O governo militar impõe, em janeiro de 1967, uma nova Constituição para o país.Aprovada neste mesmo ano, a Constituição de 1967 confirma e institucionaliza oregime militar e suas formas de atuação. 7
    • GOVERNO COSTA E SILVA (1967-1969)Em 1967, assume a presidência o general Arthur da Costa e Silva, após ser eleitoindiretamente pelo Congresso Nacional. Seu governo é marcado por protestos emanifestações sociais. A oposição ao regime militar cresce no país. A UNE (UniãoNacional dos Estudantes) organiza, no Rio de Janeiro, a Passeata dos Cem Mil.Em Contagem (MG) e Osasco (SP), greves de operários paralisam fábricas em protestoao regime militar. A guerrilha urbana começa a se organizar. Formada por jovensidealistas de esquerda, assaltam bancos e seqüestram embaixadores para obteremfundos para o movimento de oposição armada. No dia 13 de dezembro de 1968, ogoverno decreta o Ato Institucional Número 5 (AI-5). Este foi o mais duro do governomilitar, pois aposentou juízes, cassou mandatos, acabou com as garantias do habeas-corpus e aumentou a repressão militar e policial. 8
    • GOVERNO DA JUNTA MILITAR (31/8/1969-30/10/1969)Foi o governo que menos durou, formada por um grupo de militares, substituiu Arthurda Costa e Silva, a junta era formada pelos ministros Aurélio de Lira Tavares(Exército), Augusto Rademaker (Marinha) e Márcio de Sousa e Melo (Aeronáutica).Governo conhecido pelo sequestro do embaixador dos EUA Charles Elbrick por doisgrupos de esquerda, O MR-8 e a ALN. Eles exigiram a libertação de 15 presos políticos,exigência conseguida com sucesso. Mas, em 18 de Setembro, o governo decreta a Leide Segurança Nacional. Esta lei decretava o exílio e a pena de morte em casos de"guerra psicológica adversa, ou revolucionária, ou subversiva". No final de 1969, olíder da ALN, Carlos Mariguella, foi morto pelas forças de repressão em São Paulo. 9
    • .GOVERNO MEDICI (1969-1974)Governo Médici: A euforia de um país "campeão" que vivia o auge da opressãoditatorial. Em 1969, a Junta Militar escolhe o novo presidente: o general EmílioGarrastazu Medici. Seu governo é considerado o mais duro e repressivo do período,conhecido como “anos de chumbo”. A repressão à luta armada cresce e uma severapolítica de censura é colocada em execução. Jornais, revistas, livros, peças de teatro,filmes, músicas e outras formas de expressão artística são censuradas. Muitosprofessores, políticos, músicos, artistas e escritores são investigados, presos,torturados ou exilados do país. O DOI-Codi (Destacamento de Operações eInformações e ao Centro de Operações de Defesa Interna) atua como centro deinvestigação e repressão do governo militar. Ganha força no campo a guerrilha rural,principalmente no Araguaia. A guerrilha do Araguaia é fortemente reprimida pelasforças militaresO Milagre EconômicoNa área econômica o país crescia rapidamente. Este período que vai de 1969 a 1973ficou conhecido com a época do Milagre Econômico. O PIB brasileiro crescia a umataxa de quase 12% ao ano, enquanto a inflação beirava os 18%. Com investimentosinternos e empréstimos do exterior, o país avançou e estruturou uma base de infra- 10
    • estrutura. Todos estes investimentos geraram milhões de empregos pelo país.Algumas obras, consideradas faraônicas, foram executadas, como a RodoviaTransamazônica e a Ponte Rio-Niteroi.Porém, todo esse crescimento teve um custo altíssimo e a conta deveria ser paga nofuturo. Os empréstimos estrangeiros geraram uma dívida externa elevada para ospadrões econômicos do Brasil.GOVERNO GEISEL (1974-1979)Em 1974 assume a presidência o general Ernesto Geisel que começa um lentoprocesso de transição rumo à democracia. Seu governo coincide com o fim do milagreeconômico e com a insatisfação popular em altas taxas. A crise do petróleo e arecessão mundial interferem na economia brasileira, no momento em que os créditose empréstimos internacionais diminuem.Geisel anuncia a abertura política lenta,gradual e segura. A oposição política começa a ganhar espaço. Nas eleições de 1974, o 11
    • MDB conquista 59% dos votos para o Senado, 48% da Câmara dos Deputados e ganhaa prefeitura da maioria das grandes cidades.Os militares de linha dura, não contentes com os caminhos do governo Geisel,começam a promover ataques clandestinos aos membros da esquerda. Em 1975, ojornalista Vladimir Herzog á assassinado nas dependências do DOI-Codi em São Paulo.Em janeiro de 1976, o operário Manuel Fiel Filho aparece morto em situaçãosemelhante.Em 1978, Geisel acaba com o AI-5, restaura o habeas-corpus e abre caminho para avolta da democracia no Brasil.GOVERNO JOAO BATISTA DE OLIVEIRA FIGUEIREDO (1979-1985A vitória do MDB nas eleições em 1978 começa a acelerar o processo deredemocratização. O general João Baptista Figueiredo decreta a Lei da Anistia,concedendo o direito de retorno ao Brasil para os políticos, artistas e demaisbrasileiros exilados e condenados por crimes políticos. Os militares de linha duracontinuam com a repressão clandestina. Cartas-bomba são colocadas em órgãos da 12
    • imprensa e da OAB (Ordem dos advogados do Brasil). No dia 30 de Abril de 1981, umabomba explode durante um show no centro de convenções do Rio Centro. O atentadofora provavelmente promovido por militares de linha dura, embora até hoje nadatenha sido provado.Em 1979, o governo aprova lei que restabelece o pluripartidarismo no país.Os partidos voltam a funcionar dentro da normalidade. A ARENA muda o nome epassa a ser PDS, enquanto o MDB passa a ser PMDB. Outros partidos são criados,como: Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Democrático Trabalhista (PDT).Comício pelas Diretas Já!Local: Capão da Canoa (RS)Data: 19/02/1984 13
    • Sarney, o primeiro presidente civil pós-ditadura militar15 de março de 1985Depois de 21 anos de regime militar e uma transição política negociada para a possedo governo civil, os brasileiros esperavam que os novos tempos de democraciativessem início em clima de festa. Não foi o que aconteceu. A votação do colégioeleitoral, realizada em 15 de janeiro de 1985, escolheu Tancredo Neves, 75 anos, parapresidente e as notícias que se seguiram não foram nada festivas. Saído de umacampanha cansativa, o político mineiro passou a sentir fortes dores abdominais e foiinternado na véspera da posse. Trinta e oito dias depois, seu falecimento foianunciado pelo porta-voz Antônio Britto, no Hospital das Clínicas de São Paulo.Apesar das esparsas discussões jurídicas que questionavam a possibilidade de opresidente da Câmara dos Deputados, Ulysses Guimarães, assumir a Presidência,prevaleceu a interpretação tradicional. José Sarney, eleito vice na chapa de Tancredo,tornou-se então o primeiro presidente civil depois de mais de duas décadas. No poder,o ex-integrante do PDS restabeleceu as eleições diretas para presidente e promulgou anova Constituição, três anos depois da posse. O governo Sarney também marcou aestréia do primeiro plano de choque na economia, o Cruzado, em fevereiro de 1986.Para controlar a inflação, congelou preços e salários e acabou com a correçãomonetária. Em edição de capa, ISTOÉ mostrou o intricado jogo de poder que sedesenhava a partir da posse de José Sarney. 14
    • A comoção de uma naçãoA morte de Tancredo Neves, em 21 de abril de 1985, provocou uma enorme comoçãono País. Num dos maiores cortejos fúnebres já realizados no Brasil, cerca de doismilhões de pessoas viram o caixão de Tancredo passar por São Paulo, Brasília, BeloHorizonte e São João Del-Rey. Na capital da República, seguido por imensa multidãodurante quatro horas, o corpo de Tancredo foi velado e exposto à visitação pública noPalácio do Planalto, onde o arcebispo da cidade, dom José Freire Falcão, oficiou umamissa de corpo presente. No dia seguinte, o corpo de Tancredo Neves chegou ao 15
    • aeroporto de Pampulha, em Belo Horizonte, para receber as homenagens no Palácioda Liberdade. As cenas registradas na capital mineira foram impressionantes.Tumultos na praça da Liberdade, provocados pela ansiedade popular em romper oscordões de isolamento, resultaram em quatro mortos e 271 feridos.A economia e o Regime Militar 16
    • O início do Regime Militar a inflação chega a 80% ao ano, o crescimento do ProdutoNacional Bruto (PNB) é de apenas 1,6% ao ano e a taxa de investimentos é quase nula.Diante desse quadro, o governo adota uma política recessiva e monetarista,consolidada no Programa de Ação Econômica do Governo (Paeg), elaborado pelosministros da Fazenda, Roberto de Oliveira Campos e Octávio Gouvêa de Bulhões. Seusobjetivos são sanear a economia e baixar a inflação para 10% ao ano, criar condiçõespara que o PNB cresça 6% ao ano, equilibrar o balanço de pagamentos e diminuir asdesigualdades regionais. Parte desses objetivos é alcançada. No entanto, em 1983, ainflação ultrapassa os 200% e a dívida externa supera os US$ 90 bilhões.RecessãoPara sanear a economia, o governo impõe uma política recessiva: diminui o ritmo dasobras públicas, corta subsídios, principalmente ao petróleo e aos produtos da cestabásica, dificulta o crédito interno. Em pouco tempo aumenta o números de falências econcordatas. Paralelamente, para estimular o crescimento do PNB, oferece amplosincentivos fiscais, de crédito e cambiais aos setores exportadores. Garante ao capitalestrangeiro uma flexível lei de remessas de lucro, mão-de-obra barata e sindicatos sobcontrole. Extingue a estabilidade no emprego e, em seu lugar, estabelece o Fundo deGarantia por Tempo de Serviço (FGTS). No final do governo Castello Branco a inflaçãobaixa para 23% anuais. A capacidade ociosa da indústria é grande, o custo de vida estámais alto, há grande número de desempregados, acentuada concentração de renda eda propriedade.Financiamento internoPara financiar o déficit público, o governo lança no mercado as ObrigaçõesReajustáveis do Tesouro Nacional (ORTNs). Estimula a construção civil criando oBanco Nacional de Habitação (BNH) para operar com os recursos captados pelo FGTS.Estabelece também a correção monetária como estímulo à captação de poupança nummomento de inflação alta. Ao fazer isso, cria um mecanismo que, na prática, indexa aeconomia e perpetua a inflação. 17
    • Retomada do crescimentoA economia volta a crescer no governo Castello Branco. Os setores mais dinâmicossão as indústrias da construção civil e de bens de consumo duráveis voltados paraclasses de alta renda, como automóveis e eletrodomésticos. Expandem-se também apecuária e os produtos agrícolas de exportação. Os bens de consumo não-duráveis,como calçados, vestuário, têxteis e produtos alimentícios destinados à população debaixa renda têm crescimento reduzido ou até negativo.Milagre econômicoBaseado no binômio segurança-desenvolvimento, o modelo de crescimentoeconômico instaurado pela ditadura conta com recursos do capital externo, doempresariado brasileiro e com a participação do próprio Estado como agenteeconômico. O PNB cresce, em média, 10% ao ano entre 1968 e 1973. Antônio DelfimNetto, ministro da Fazenda nos governos Costa e Silva e Garrastazu Medici e oprincipal artífice do "milagre", aposta nas exportações para obter parte das divisasnecessárias às importações de máquinas, equipamentos e matérias-primas. Ocrescimento do mercado mundial, na época, favorece essa estratégia, mas é a políticade incentivos governamentais aos exportadores que garante seu sucesso. Paraestimular a indústria, Delfim Netto expande o sistema de crédito ao consumidor egarante à classe média o acesso aos bens de consumo duráveis.O papel das estataisDurante o Regime Militar, o Estado mantém seu papel de investidor na indústriapesada, como a siderúrgica e de bens de capital. As empresas estatais crescem com aajuda do governo, obtêm grandes lucros, lideram empreendimentos que envolvemempresas privadas e criam condições para a expansão do setor de produção de bensduráveis.Concentração de renda 18
    • Em 1979, apenas 4% da população economicamente ativa do Rio de Janeiro e SãoPaulo ganha acima de dez salários mínimos. A maioria, 40%, recebe até três saláriosmínimos. Além disso, o valor real do salário mínimo cai drasticamente. Em 1959, umtrabalhador que ganhasse salário mínimo precisava trabalhar 65 horas para compraros alimentos necessários à sua família. No final da década de 70 o número de horasnecessárias passa para 153. No campo, a maior parte dos trabalhadores não recebesequer o salário mínimo.Crescimento da misériaOs indicadores de qualidade de vida da população despencam. A mortalidade infantilno Estado de São Paulo, o mais rico do país, salta de 70 por mil nascidos vivos em1964 para 91,7 por mil em 1971. No mesmo ano, registra-se a existência de 600 milmenores abandonados na Grande São Paulo. Em 1972, de 3.950 municípios do país,apenas 2.638 têm abastecimento de água. Três anos depois um relatório do BancoMundial mostra que 70 milhões de brasileiros são desnutridos, o equivalente a 65,4%da população, na época de 107 milhões de pessoas. O Brasil tem o 9º PNB do mundo,mas em desnutrição perde apenas para Índia, Indonésia, Bangladesh, Paquistão eFilipinas.Fim do milagreA partir de 1973 o crescimento econômico começa a declinar. No final da década de70 a inflação chega a 94,7% ao ano. Em 1980 bate em 110% e, em 1983, em 200%.Nesse ano, a dívida externa ultrapassa os US$ 90 bilhões e 90% da receita dasexportações é utilizada para o pagamento dos juros da dívida. O Brasil mergulha emnova recessão e sua principal conseqüência é o desemprego. Em agosto de 1981 há900 mil desempregados nas regiões metropolitanas do país e a situação se agrava nosanos seguintes.A Mídia e a Ditadura 19
    • A grande imprensa sofria censura da ditadura, ou se afinava com o governo, enquantoque os pequenos jornais alternativos denunciavam os abusos de tortura e violação dosdireitos humanos no Brasil. A imprensa alternativa era redigida por jornalistas demovimento popular ou de orientação política de esquerda, em boa parte, despedidosdos grandes veículos.Os jornais alternativos foram instrumentos de resistência e espaço público durante operíodo de abertura. Porém os grandes veículos impressos tinham jornalistascombativos, em dezembro de 1969, a revista Veja tinha em sua equipe RaimundoPereira, Élio Gaspari, Dirceu Brizola, Bernardo Kucinski, cuja redação foradesmontada após a publicação de duas reportagens de 1969 a 1988, sofrendo fortecensura militar até meados da década de 70.referentes a tortura de presos políticos.Em 25 de outubro de 1975, sob tortura, foi assassinado o jornalista chefe da TVCultura, Vladimir Herzog. A maioria dos jornais alternativos tiveram vida curta comoVersus, Coojornal, Repórter, Opinião, Movimento, Em Tempo, entre outros; o Pasquimdurou mais,Jornalista Vladimir Herzog, vítima do golpe saudado pelos tubarões da mídiaCom supressão das liberdades, cassação de mandatos, exilamentos de artistas eprofissionais liberais, além de prisões em massa, torturas e assassinatos, o períodocompreendido entre os anos de 1964 e 1985 viria a ser conhecido pela historiografia epelos historiadores como os "tempos de chumbo" da ditadura militar 20
    • Os militares golpistas contaram com o apoio declarado das elites conservadoras, dasassociações de grupos urbanos católicos e de setores da própria Igreja, além dagrande imprensa curvada aos interesses políticos e econômicos em questão.Em 196 os principais jornais brasileiros, a maioria auto-proclamadosdefensores da liberdade de expressão, da democracia e do Estado de Direito: “Escorraçado”.“Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítimavontade popular o Sr. João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comuno-carreiristas-negocistas-sindicalistas. Um dos maiores gatunos que a história brasileirajá registrou, o Sr João Goulart passa outra vez à história, agora também como um dosgrandes covardes que ela já conheceu”. (Tribuna da Imprensa – Rio de Janeiro – 2 deAbril de 1964) 21
    • 31/03/64 – FOLHA DA TARDE – (Do editorial A GRANDE AMEAÇA): “… cujasubversão além de bloquear os dispositivos de segurança de todo o hemisfério,lançaria nas garras do totalitarismo vermelho, a maior população latina do mundo…”31/03/64 – CORREIO DA MANHÃ – (Do editorial, BASTA!): “O Brasil já sofreudemasiado com o governo atual. Agora, basta!”1o/04/64 – CORREIO DA MANHÃ – (Do editorial, FORA!): “Só há uma coisa a dizer aoSr. João Goulart: Saia!”“Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devemagradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos”. “Este não foi ummovimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida políticabrasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais”. (OGlobo – Rio de Janeiro – 2 de Abril de 1964)De Norte a Sul vivas à Contra-Revolução“Desde ontem se instalou no País a verdadeira legalidade… Legalidade que o caudilhonão quis preservar, violando-a no que de mais fundamental ela tem: a disciplina e ahierarquia militares. A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado doscomunistas”. (Editorial do Jornal do Brasil – Rio de Janeiro –1º de Abril de 1964)A paz alcançada“A vitória da causa democrática abre o País a perspectiva de trabalhar em paz e devencer as graves dificuldades atuais. Não se pode, evidentemente, aceitar que essaperspectiva seja toldada, que os ânimos sejam postos a fogo. Assim o querem asForças Armadas, assim o quer o povo brasileiro e assim deverá ser, pelo bem doBrasil”. (Editorial de O Povo – Fortaleza – 3 de Abril de 1964)02/04/64 – O GLOBO – “Fugiu Goulart e a democracia está sendo restaurada”…“atendendo aos anseios nacionais de paz, tranqüilidade e progresso… as Forças 22
    • Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos,livrando-a do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviamenvolvido o Executivo Federal”.05/04/64 – O ESTADO DE MINAS: “Feliz a nação que pode contar com corporaçõesmilitares de tão altos índices cívicos”. “Os militares não deverão ensarilhar suas armasantes que emudeçam as vozes da corrupção e da traição à pátria.”Enquanto o AI-5 esteve em vigor, 1968 e 1978, qualquer veículo de comunicaçãopassava por inspeção da pauta por agentes autorizados. A CONTEL era a responsávelpela censura dos meios de comunicação, sendo comandada pelo SNI e pelo DOPSvetava qualquer notícia de manifestação comandada por estudantes. Música,programas televisivos, programas de rádio, cinema, livros e jornais eram todosavaliados antes da publicação. Em muitas ocasiões eram vetadas matérias em jornais,que publicavam em seu lugar matérias em branco ou receitas culinárias que nuncaresultavam no que se propunha inicialmente, tudo como tentativa de despertar apopulação para o que estava acontecendo. A maioria da população desconhecia astorturas e não se davam conta dos desaparecimentos de conhecidos causados peloregime, a violência do Estado era notada através dos confrontos policiais, mas não erapossível para muitos ter a noção precisa das verdadeiras proporções das atrocidadesexistentes. 23
    • A ditadura e as novelasA Censura do Governo Militar e as Novelas da GloboA censura à imprensa gerou diferentes reações. Jornais e revistas quando tinham suasmatérias censuradas, deixavam longos espaços em branco, publicavam receitasculinárias indecifráveis, ou recorriam à poesia de Camões no lugar das matériasvetadas.A MPB teve várias canções censuradas, com “Cálice” (Chico Buarque – Gilberto Gil),“Apesar de Você” (Chico Buarque) ou “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores”(Geraldo Vandré). Capas de discos foram censuradas, como a do álbum “Índia”, de Gal 24
    • Costa, de 1973, em que a cantora trazia um close frontal em uma vestida de uma tangaminúscula. A censura ao corpo do cantor Ney Matogrosso, que na época fazia parte dabanda “Secos & Molhados” (1973), apresentando-se sem camisa. Como conseqüência,a televisão só podia focalizar o seu rosto, ou o corpo ao longe, sem closes.O cinema foi um dos veículos de comunicação mais prejudicado pela censura daditadura militar. Filmes como “Emmanuelle” (1974), com Sylvia Kristel, “O ÚltimoTango Em Paris” (1972), com Marlon Brando, só foram exibidos em 1980, quando aditadura militar proporcionou uma abertura e liberou certas obras censuradas. Mas ofilme “Pra Frente Brasil”, de 1982, que falava da tortura no regime militar, nãoescapou à tesoura da censura.A censura não poupou a telenovela, que se tornou o principal produto de consumo dotelespectador brasileiro. Autores como Dias Gomes, Janete Clair, Lauro César Muniz eMário Prata, tiveram seus textos destruídos pelos censores, que se encarregavam deverificar se o que se ia ao ar estava de acordo com as regras do regime militar e comos seus valores morais.Capítulos e Novelas CensuradasA telenovela diária, como forma de entretenimento da televisão brasileira no formatoque se tem hoje, surgiu em 1963, com 2-5499 Ocupado, tendo como protagonistasTarcísio Meira e Glória Menezes. Na primeira fase da ditadura militar (1964-1968), astelenovelas não tinham grande poder de formação de opinião junto ao público, o quefez com que os censores só olhassem para elas a partir de 1970. Naquele ano, osucesso de “Irmãos Coragem”, de Janete Clair, pôs o hábito no brasileiro de vertelenovela no horário nobre, tradição que perdura até os dias atuais. A paixão tão bemcorrespondida entre o brasileiro e as telenovelas, fez com que as mais estranhasformas de censura caíssem sobre os textos dos autores até o fim da ditadura militar.A primeira telenovela de Dias Gomes foi “A Ponte dos Suspiros” (1969), feita pelaRede Globo. Era um dramalhão que se passava em Veneza. O dramaturgo, temendo 25
    • represálias devido à sua militância política declaradamente de esquerda, assinou estanovela com o pseudônimo de Stela Calderón. Dias Gomes tinha a supervisão do seutexto feita pela poderosa Glória Magadan. Com a demissão de Glória Magadan pelaGlobo, o autor mudou radicalmente o texto, passando a debater temas políticos. Com amudança no conteúdo, a censura paulista obrigou a novela a ser transmitida às 22horas, inaugurando assim, um novo horário na emissora que perduraria até 1979. Nanovela “Bandeira 2” (1971/72), o protagonista era o bicheiro Tucão (Paulo Gracindo),que teve grande aceitação popular. A censura exigiu que ele fosse morto no fim datrama, para moralizar a história. A censura atingiria a próxima novela de Dias Gomes,a mítica “O Bem-Amado” (1973). A música tema da abertura da novela, “Paiolde Pólvora” (Vinícius de Moraes – Toquinho), foi censurada por causa do verso“Estamos sentados em um paiol de pólvora”, sendo substituída por “O Bem-Amado”(Vinícius de Moraes – Toquinho), tocada pelo Coral Som Livre. Ainda nesta novela, foiproibido que Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo) fosse chamado de “coronel” e ZecaDiabo de “capitão”, o que obrigou a emissora carioca a apagar o áudio em mais de 15capítulos já gravados em que apareciam as palavras. “Ódio” e “vingança” foram outraspalavras proibidas pela censura de serem pronunciadas na novela. O maior golpe quesofreu Dias Gomes foi a censura completa da novela “Roque Santeiro”, em 1975. Jácom 36 capítulos gravados e editados, prontos a estrear, a Delegacia de Ordem Públicae Social (DOPS), descobriu que o dramaturgo estava a adaptar o texto teatral “O Berçodo Herói”, de sua autoria, que fora escrito e proibido em 1963. A história deSinhozinho Malta (Lima Duarte), viúva Porcina (Betty Faria) e Roque (FranciscoCuoco) nunca foi ao ar, sendo substituída por uma reprise compacta de “Selva dePedra”. A novela só seria liberada dez anos depois, em 1985, trazendo o mesmo LimaDuarte no papel de Sinhozinho Malta, mas com Regina Duarte (Porcina) e José Wilker(Roque) como protagonistas. A novela tornar-se-ia um dos maiores sucessos datelevisão brasileira. Durante a ditadura militar e a sua rígida censura, Janete Clair foi aautora de telenovelas que mais produziu grandes sucessos, sendo a que teve maistextos vetados pela censura. “O Homem Que Deve Morrer” (1971), sugeria de formaalegórica, uma adaptação da vida de Cristo. Ciro Valdez (Tarcísio Meira), nascia deuma mulher virgem do interior do Brasil. Dois dias antes da estréia, o tema foi 26
    • considerado impróprio, os dez primeiros capítulos foram totalmente vetados pelacensura. Diante do impasse, Janete Clair baseou a sua novela em “Eram os DeusesAstronautas”, de Erich von Daniken, e o protagonista passou a ser filho não do espíritosanto, mas de um ET. Janete Clair voltaria a sofrer com a censura na sua novelaseguinte, “Selva de Pedra” (1972). Na novela, o casamento entre Cristiano (FranciscoCuoco) e Fernanda (Dina Sfat) não se realizou porque a censura considerava a uniãoum estímulo à bigamia. Cristiano acreditava que a sua mulher Simone (ReginaDuarte), tinha morrido em um acidente, mas a censura não permitiu a cerimônia,alegando que o público sabia que o casamento era bigamia. Janete Clair fez com queFernanda fosse abandonada no altar e, inutilizou 22 capítulos já escritos, que seriamexibidos logo após o casamento das personagens. Em 1973, a autora teve a novela“Cidade Vazia” vetada pela censura, sendo obrigada a improvisar com “O Semideus”.Após o término de “O Semideus”, “Cidade Vazia” foi liberada com o nome de “FogoSobre Terra” (1974). A novela narrava a história da cidade fictícia de Divinéia, queseria inundada por uma hidrelétrica. A novela sofreu grandes problemas com acensura por causa do protagonista Pedro Azulão (Juca de Oliveira), que liderava opovo contra a construção da hidrelétrica. Pedro Azulão foi obrigado a mudar a suaconvicção ideológica. Na trama, a autora pensava em matar a personagem no final,mas a censura não deixou, para que não se transformasse em mártir, e de quebra fezcom que a personagem se retratasse. Esta novela teve vários capítulos mutilados pelacensura, fazendo a coerência do texto desaparecer por completo. De uma só vez, aautora rasgou 12 capítulos censurados. Mais tarde, Janete Clair declararia que “FogoSobre Terra”, tinha sido a sua novela mais prejudicada pela censura. A autora voltariaa sofrer retaliações com “Duas Vidas” (1977), cuja temática mostrava adesapropriação de residências pelas obras da construção do metrô do Rio de Janeiro.Como o metrô era uma obra do governo federal, não podia ser criticado pela televisão.Nenhuma personagem podia reclamar sequer da poeira feita pelas obras. Uma cenaentre as personagens Valdo (Luís Gustavo) e Naná (Arlete Salles), que sugeria umadiscussão violenta, foi inteiramente cortada, o telespectador ficava sem perceber seValdo tinha matado ou espancado Naná. A ditadura dos generais era moralista, poisera sustentada por uma burguesia conservadora e rígida, composta por senhoras de 27
    • família que saíram às ruas em 1964, com rosários nas mãos, a apoiar o golpe militar.Nas novelas da época, um homem casado não se poderia apaixonar por outra mulher,ter amantes, muito menos trocar um beijo e carinhos com ela. Na novela “Sem Lenço,Sem Documento” (1977), de Mário Prata, Marco (Ney Latorraca) era casado com Iara(Cidinha Milan), nutria uma paixão velada por Carla (Bruna Lombardi), por estemotivo, a censura obrigou o autor a matar Iara, fazendo de Marco um viúvo disponívelpara viver o seu amor por Carla. “Escalada” (1975), o maior sucesso de Lauro CésarMuniz, contava a história da construção de Brasília, mas o protagonista Antônio Dias(Tarcísio Meira), e as outras personagens da trama, eram proibidas de falar no nomede Juscelino Kubtschek, o presidente que havia construído a capital federal, e, que foraexilado pelo regime militar. Lauro César Muniz voltaria a sofrer com a censura em1977, na novela “Espelho Mágico”, as personagens Nora (Yoná Magalhães) e Jordão(Juca de Oliveira) viviam um casamento desgastado, marcado por cenas de fortesdiscussões, que foram cortadas e excluídas, não indo ao ar pela censura achar queserviam de incentivo à separação dos casais. O mais curioso é que esta novela foi ao arno momento histórico da aprovação da lei do Divórcio no Brasil, promulgada naqueleano, lei que criou um mal-estar entre a burguesia e a igreja conservadoras, os maioresaliados dos militares. Às vezes a censura comportava-se de forma que não se percebia,como no caso da novela “Escrava Isaura” (1976), de Gilberto Braga, que tinha comotema a escravidão, mas que não se podia usar a palavra “escravo”. Esta palavra tinhaque ser substituída por “peça”. Na novela “O Bofe” (1972), de Bráulio Pedroso,Inocêncio (Paulo Gonçalves) era um vigarista que se passava por padre para dar umgolpe, quando os censores perceberam o ardil, obrigaram o autor a manter apersonagem como padre e ser punido no fim da trama. Um ano após a proibição de“Roque Santeiro”, a Rede Globo sofreria mais um golpe, “Despedida de Casado”, deWalter George Durst, programada para substituir “Saramandaia”, foi proibida pelacensura. O projeto de lei que instituiria o divórcio no Brasil estava no auge do seudebate, e a lei seria promulgada seis meses depois da estréia dessa novela, mesmoassim, a censura continuava conservadora, não permitindo que o tema, as crisesconjugais do casal Stela (Regina Duarte) e Rafael (Antônio Fagundes) após dez anos decasados, fosse abordado pela televisão. Os 30 primeiros capítulos tinham sido 28
    • aprovados pela censura, depois de gravados e editados, não agradaram aos censores ea novela foi definitivamente vetada. A solução foi Walter George Durst escrever outrahistória e aproveitar o elenco de “Despedida de Casado”. “Nina” foi a novela escritapara substituir a malograda história. Ao contrário de “Roque Santeiro”, que foiretomada dez anos depois, “Despedida de Casado” foi definitivamente esquecida, poisteve a sua temática datada após a lei do divórcio.Já feita a anistia política e retomada a abertura, no finzinho do regime militar, a mini-série “Bandidos da Falange” (1982), de Aguinaldo Silva, foi censurada, só liberadacinco meses depois, após sofrer grandes cortes, vindo a ser exibida em 1983.Não só de cunho político, como também de vertente moralista e defensora doscostumes da época, a censura que perdurou enquanto do regime militar, provocou odecepamento de centenas de capítulos das novelas, culminando com o veto total de sdelas, “Roque Santeiro” (1975) e “Despedida de Casado” (1976), ambas da RedeGlobo.O povo e a ditadura 29
    • A censura no regime militar foi um dos elementos mais marcantes da severidade doregime autoritário que governava o país. O povo brasileiro era controlado pelosórgãos do governo que tentavam transparecer a paz e a estabilidade social no paístendo como sustento o desenvolvimento econômico.Os famosos Atos Institucionais foram as medidas constitucionais tomadas pelogoverno militar que deram as condições necessárias para tornar o Brasil uma ditaduracomandada pelos militares por tantos anos. Conforme os Atos Institucionais seavançavam também avançava a severidade do regime, marcado por sua característicadespótica, capaz de vetar os direitos que eram garantidos pela constituição brasileira,estabelecendo a opressão militar e policial e também o silêncio dos opositores.O Ato Institucional Número 5 (AI-5) inauguraria a fase de pior repressão dentro daditadura militar. Como ordem do então presidente Costa e Silva, o AI-5 foi decretadono dia 13 de dezembro de 1968, o qual cancelava todos os dispositivos da constituiçãode 1967 que pudessem ser utilizados pela oposição. Antes do AI-5 a repressão já erapraticada com base na Lei de Segurança Nacional, enquadrava-se os líderes deassociações civis contrárias ao regime ou líderes sindicais tidos como subversivos. Foicriado um Conselho Superior de Censura com base no modelo norte-americano de1939, seguido por tribunais de censura para julgar os órgãos de comunicação queburlassem as regras, fechando-os imediatamente.A cultura e a ditaduraContra A Censura, Pela Cultura: A Grande Trilha Sonora Da Ditadura Militar“Este é tempo de divisas, tempo de gente cortada... É tempo de meio silêncio, de bocagelada e murmúrio, palavra indireta, aviso na esquina.” CARLOS DRUMMOND DEANDRADE 30
    • Entre 1968 e 1978 mais de 600 filmes, 500 peças teatrais, vários livros e assuntosescolares foram proibidos pela censura. Mas no campo da produção cultural quemmais sofreu com a repressão foi a Música Popular Brasileira, tratada pelo Estado comocausadora de mal à população, ofensiva às leis, à moral e aos costumes. A música temuma capacidade própria de tomar o subconsciente das pessoas e propagar idéias, foijustamente o que causou maior atenção dos censores com os compositores, muitasvezes as músicas eram barradas apenas pelo título escolhido por seu criador. Muitosautores foram presos ou expatriados, discos foram vetados ou recolhidos e algumascanções permaneceram desconhecidas do público.Um dos mais perseguidos e que encabeça uma grande lista de nomes durante aditadura militar foi Chico Buarque. Os compositores utilizavam de recursos de duplosentido para propagar suas idéias e conseguir driblar os censores que só se davamconta do verdadeiro significado depois do sucesso da música, como é o caso de Cálice,composta por Chico Buarque. O próprio título da música já faz um jogo sonoro com aexpressão “cale-se” e seus versos são todos mascarados trazendo para os mais atentosa realidade opressiva que governava o Brasil. 31
    • .Caetano Veloso é um exemplo digno de grande admiração, por suas letras, que alémde muito harmoniosas, eram um exemplo clássico de luta contra a ditadura. Desde oinício da carreira, Caetano sempre demonstrou uma posição política ativa eesquerdista, ganhando por isso a inimizade do regime militar. Por esse motivo, ascanções foram frequentemente censuradas neste período, e algumas até banidas.Em27 de dezembro de 1968, Caetano e o parceiro Gilberto Gil foram presos, acusados deterem desrespeitado o hino nacional e a bandeira brasileira. Foram levados para oquartel do exército de Marechal Deodoro, no Rio, e tiveram suas cabeças raspadas.Ambos foram soltos em 19 de fevereiro de 1969, quarta feira de cinzas, e seguirampara salvador, onde tiveram de se manter em regime de confinamento, sem aparecernem dar declarações em público. Em julho de 1969, após dois shows de despedida noteatro Castro Alves, no dia 20 e 21, Caetano e Gil partiram com suas mulheres, para oexílio na Inglaterra. O espetáculo, precariamente gravado, se transformou no discoBarra 69, de três anos mais tardes. 32
    • Geraldo Vandré tornou-se o inimigo número um do regime militar. A sua canção“Caminhando (Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores)”, que ficou com o polêmicosegundo lugar no Festival Internacional da Canção, em 1968, tornou-se um hinocontra a ditadura militar, cantado por toda a juventude engajada do Brasil de 1968.Esta canção, afirmam alguns analistas de história, foi uma das responsáveis pelapublicação do AI-5. Ficou proibida de ser cantada e executada em todo país. Sóvoltaria a ser ressuscitada em 1979, após a abertura política e a anistia, quando acantora Simone a cantou em um show, no Canecão. Perseguido pelo regime, GeraldoVandré esteve exilado de 1969 a 1973. Após o exílio, jamais conseguiu recuperar acarreira interrompida pela censura da ditadura militar. Calava-se uma expressivacarreira emprestada ao combate à ditadura. A canção "pra não dizer que não falei dasflores" foi gravada tambem pelo grupo Charlie Bronw Jr, e infelizmente, não deixou deser uma música atual.Taiguara, uma das mais belas vozes masculinas da MPB, interpretou com maestriadiversos gêneros musicais. Foi um dos cantores que mais se opôs contra a repressãoda ditadura militar. Sua obra pagou o preço da perseguição e da censura. Deparou-secom a atenção da censura em 1971, que esteve atenta às canções do álbum “Carne eOsso”. Em 1973 teve 11 músicas proibidas. Perseguido pela censura, Taiguara teve 33
    • muitas das suas músicas assinadas por Ge Chalar da Silva, sua esposa na época.Exilado em Londres, Taiguara gravou o álbum “Let the Children Hear the Music“, eminglês. O disco foi proibido de ser lançado, pela EMI, por decisão da polícia federalbrasileira. O compositor recorreu ao Conselho Superior de Censura, em 1982, tendo odisco finalmente liberado.Pra Não Dizer Que Não Falei Das FloresGeraldo VandréCaminhando e cantandoE seguindo a cançãoSomos todos iguaisBraços dados ou nãoNas escolas, nas ruasCampos, construçõesCaminhando e cantandoE seguindo a cançãoVem, vamos emboraQue esperar não é saberQuem sabe faz a horaNão espera acontecerPelos campos há fomeEm grandes plantaçõesPelas ruas marchandoIndecisos cordõesAinda fazem da florSeu mais forte refrãoE acreditam nas floresVencendo o canhãoVem, vamos emboraQue esperar não é saber 34
    • Quem sabe faz a horaNão espera acontecerHá soldados armadosAmados ou nãoQuase todos perdidosDe armas na mãoNos quartéis lhes ensinamUma antiga lição:De morrer pela pátriaE viver sem razãoVem, vamos emboraQue esperar não é saberQuem sabe faz a horaNão espera acontecerNas escolas, nas ruasCampos, construçõesSomos todos soldadosArmados ou nãoCaminhando e cantandoE seguindo a cançãoSomos todos iguaisBraços dados ou nãoOs amores na menteAs flores no chãoA certeza na frenteA história na mãoCaminhando e cantandoE seguindo a cançãoAprendendo e ensinandoUma nova lição 35
    • Vem, vamos emboraQue esperar não é saberQuem sabe faz a horaNão espera acontecerMário de Andrade.Na ignorância cega da censura, sem uma lógica que a sustentasse, até o poeta Mário deAndrade foi vetado. O fato inusitado aconteceu em 1970, quando a gravadora Festadecidiu homenagear os 25 anos da morte do poeta, preparando um disco com algunsdos seus mais conhecidos poemas. Após ser submetido à censura, o projeto teve seispoemas proibidos, entre eles “Ode ao Burguês” e “Lira Paulistana”. Os vetos foramjustificados pelos censores como estéticos, “falta de gosto”. O que se concluía era que,os censores jamais tinham ouvido falar em Mário de Andrade, confundindo-o com umautor vulgar do Brasil da época."Minha obra toda badala assim: Brasileiros, chegou a hora de realizar o Brasil.""Passado é lição para refletir, não para repetir."Frases de Mário de Andrade.Em nome do "bom gosto", até Mário de Andradeteve poemas censurados pela ditadura militar Adoniran Barbosa e a letra de Tiro ao Álvaro, vetada: a "falta de gosto" impediu a liberação da músicaEm 1970, a gravadora Festa preparou um disco em homenagem a Mário de Andrade,morto 25 anos antes, com alguns de seus mais conhecidos poemas. Cumprindo aexigência legal de então, o projeto foi submetido ao Serviço de Censura de DiversõesPúblicas. Resposta: seis poemas proibidos. Entre eles, Ode ao Burguês ("Eu insulto o 36
    • burguês! O burguês-níquel, o burguês-burguês!") e Lira Paulistana. As razões dosvetos eram alegadamente estéticas. "Falta de gosto" era expressão recorrente.Histórias como essa aconteceram com freqüência durante o regime militar instaladoem 1964. Mas acabaram ficando em segundo plano na memória do período, por causada truculência da censura musical exercida com motivação política. VEJA recolheualguns desses casos nos acervos do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro e de Brasília,onde as pastas relativas à ação da censura ocupam mais de 800 metros lineares deprateleiras.Esse quase 1 quilômetro de manifestações de arrogância e ignorância abrigapareceres que vetaram, provisória ou definitivamente, 1 023 letras de músicas – sónos anos 70. O veto a Lira Paulistana foi justificado nos seguintes termos: "QuantaNa obra de Lupicínio Rodrigues, o alvo foi sua música Bicho de Pé, mais tarde batizadade Sozinha ("Vivia sozinha num ranchinho velho feito de sopapo"). Em 1973, foiproibida com um parecer lapidar: "A falta de inspiração leva o autor a poetiza rumbicho-de-pé, colocando elemento subdesenvolvido como exemplo do caráterfeminino". Vetos com esse teor ajudam a compreender o clima de pessimismo entre osartistas naquele período. "A ação da censura era imprevisível, não havia critério. Issocriou em todos nós uma película de autocensura e um sentimento de desânimo diantede tanta coisa que não passava", diz o compositor e produtor Hermínio Bello deCarvalho. 37
    • 38
    • AS torturasEm 1969, a tortura teve seu período mais difícil no país. Asguerrilhas estavam com grande atuação e ocorriam muitos assaltos a bancoe, com isso, a repressão se tornou mais forte. Nessa época, foram criadosprocessos para esconder as atitudes dos militares. As mais diversas formasde tortura eram praticadas e isso provocou uma onda de suicídios. Elas eramtão violentas e marcantes, que o preso não desejava mais viver. O suicídiotambém foi utilizado pelos militares para justificar mortes de prisioneirosnos quartéis e presídios. Além disso, crianças sofreram torturas e o regimetambém foi responsável por centenas de abortos que ocorreram emmulheres.Pau-de-AraraO Pau-de-Arara consistia numa barra de ferro que era atravessada entre ospunhos amarrados e a dobra do joelho, sendo o conjunto colocado entreduas mesas, ficando o corpo do torturado pendurado a cerca de 20 ou 30centímetros do solo. Este método quase nunca era utilizado isoladamente,seus complementos normais eram eletrochoques, a palmatória e oafogamento 39
    • Choque ElétricoO Choque Elétrico foi um dos métodos de tortura mais cruéis e largamente utilizadosdurante o regime militar. Geralmente, o choque dado através telefone de campanha doexército que possuía dois fios longos que eram ligados ao corpo nu, normalmente naspartes sexuais, além dos ouvidos, dentes, língua e dedos. O acusado recebia descargassucessivas, a ponto de cair no chão.PimentinhaA Pimentinha era uma máquina que era constituída de uma caixa de madeira que, noseu interior, tinha um ímã permanente, no campo do qual girava um rotor combinado, 40
    • de cujos terminais uma escova recolhia corrente elétrica que era conduzida através defios. Essa máquina dava choques em torno de 100 volts no acusado.AfogamentoNo Afogamento, os torturadores fechavam as narinas do preso e colocavam umamangueira, toalha molhada ou tubo de borracha dentro da boca do acusado paraobrigá-lo a engolir água. Outro método era mergulhar a cabeça do torturado numbalde, tanque ou tambor cheio de água (ou até fezes), forçando sua nuca para baixoaté o limite do afogamento.Cadeira do Dragão 41
    • A Cadeira do Dragão era uma espécie de cadeira elétrica, onde os presos sentavampelados numa cadeira revestida de zinco ligada a terminais elétricos. Quando oaparelho era ligado na eletricidade, o zinco transmitia choques a todo o corpo. Muitasvezes, os torturadores enfiavam na cabeça da vítima um balde de metal, onde tambémeram aplicados choques.GeladeiraNa Geladeira, os presos ficavam pelados numa cela baixa e pequena, que os impediade ficar de pé. Depois, os torturadores alternavam um sistema de refrigeração superfrio e um sistema de aquecimento que produzia calor insuportável, enquanto alto- 42
    • falantes emitiam sons irritantes. Os presos ficavam na “geladeira” por vários dias, semágua ou comida.PalmatóriaA Palmatória era como uma raquete de madeira, bem pesada. Geralmente, estainstrumento era utilizado em conjunto com outras formas de tortura, com o objetivode aumentar o sofrimento do acusado. Com a palmatória, as vítimas eram agredidasem várias partes do corpo, principalmente em seus órgãos genitais.Produtos QuímicosHaviam vários Produtos Químicos que eram comprovadamente utilizados comométodo de tortura. Para fazer o acusado confessar, era aplicado soro de pentatotal,substância que fazia a pessoa falar, em estado de sonolência. Em alguns casos, ácidoera jogado no rosto da vítima, o que podia causar inchaço ou mesmo deformaçãopermanente. 43
    • Agressões FísicasVários tipos de Agressões Físicas eram combinados às outras formas de tortura. Umdos mais cruéis era o popular “telefone”. Com as duas mãos em forma de concha, otorturador dava tapas ao mesmo tempo contra os dois ouvidos do preso. A técnica eratão brutal que podia romper os tímpanos do acusado e provocar surdez permanente.Tortura PsicológicaFalar de Tortura Psicológica é redundância, considerando que toda o tipo de torturadeixa marcas emocionais que podem durar a vida inteira. Porém, haviam formas detortura que tinha o objetivo específico de provocar o medo, como ameaças eperseguições que geravam duplo efeito: fazer a vítima calar ou delatar conhecidos. 44
    • BibliografiaFonte: www.conhecimentosgerais.com.br 45
    • Fonte: brasilcultura.com.bHome » História do Brasil » Brasil República » Ditadura Militar » 10 Torturas daDitadura Militarhttp://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia/golpe-militar-primeiro-abril-433594.shtmlhttp://hugo-freitas.blogspot.com.br/2011/04/midia-favor-da-ditadura-militar-em-1964.htmlhttp://jeocaz.wordpress.com/2008/07/10/a-censura-do-governo-militar-e-as-novelas-da-globo/http://lounge.obviousmag.org/pra_nao_dizer_que_nao_falei_das_flores/2012/04/contra-a-censura-pela-cultura-a-grande-trilha-sonora-da-ditadura-militar.htmlhttp://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/historia/article/viewFile/7941/5586http://pt.wikipedia.org/wiki/Regime_militar_no_Brasil_(1964-1985)http://veja.abril.com.br/020408/p_112.shtmlvhttp://www.historiabrasileira.com/brasil-republica/censura-no-regime-militar/http://www.historiadobrasil.net/ditadura/http://www.infoescola.com/historia/censura-no-periodo-da-ditadura/http://www.infoescola.com/historia-do-brasil/jornalismo-na-ditadura-militar/http://www.istoe.com.br/reportagens/162326_SARNEYhttp://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/ditadura-militar/economia-na-ditadura-militar.phphttp://www.smabc.org.br/smabc/materia.asp?id_CON=13446&id_SUN=175www.suapesquisa.com/ditadura/Tapajós, Vicente. História do Brasil. 14.ed. São PauloMello, Waldyr Jansen de. História do Brasil. São Paulo, 1980Vianna, Helio. História do Brasil. 8.ed. São Paulo: Ed. Melhoramentos, 1970.Linhares, Maria Yedda Leite. História geral do Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 1990.Pombo, Rocha. História do Brasil. Rio de Janeiro: W. M. Jackson, 1947.Ribeiro, João. História do Brasil. 19.ed. Rio de Janeiro: Paulo de Azevedo, 1966. 46