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Um sertão(tão) filosoficamente jagunço   uma leitura de grande sertão veredas sob o olhar da iden
 

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    Um sertão(tão) filosoficamente jagunço   uma leitura de grande sertão veredas sob o olhar da iden Um sertão(tão) filosoficamente jagunço uma leitura de grande sertão veredas sob o olhar da iden Document Transcript

    • 1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV COLEGIADO DE LETRAS DAISE GUIMARÃES ABREUUM SER (TÃO) FILOSOFICAMENTE JAGUNÇO: UMA LEITURA DE GRANDE SERTÃO: VEREDAS SOB O OLHAR DA IDENTIDADE Conceição do Coité 2009
    • 2 DAISE GUIMARÃES ABREUUM SER (TÃO) FILOSOFICAMENTE JAGUNÇO: UMA LEITURA DE GRANDE SERTÃO: VEREDAS SOB O OLHAR DA IDENTIDADE Trabalho de conclusão de curso ao Departamento de Educação da UNEB, Campus XIV, Conceição do Coité, como requisito parcial para obtenção do grau de Graduação em Licenciatura em Letras Vernáculas. Orientadora: Prof. Ms. Eugênia Mateus de Souza Conceição do Coité 2009
    • 3POEMA COM ABSORVÊNCIAS NO TOTALMENTEPERPLEXAS DE GUIMARÃES ROSAAh, pois, no conforme miro e vejo, o por dentro de mim,segundo o consentir dos desarrazoados meus pensares, é obrabo cavalo em as ventas arfando se querendo ir.Permanecido apenas no ajuste das leis do bem vivercomum, por causa de uma total garantia se faltando emquem m‟as dê. Ad‟formas que em tréguas assisto e assinoe o todo exterior desta minha pessoa recomponho. Porémchega o só sinal mais leve de que aquilo ou isso éverdadeiro pra a reta eu alimpar com o meu brabo cavalo.Ara! que eu não nasci pra permanência desta duvidação,mas só pra o ser eu mesmo, o de todo mundo desigual,afirmador e conseqüente, Riobaldo, o Tatarana. Ixi! Adélia Prado
    • 4 AGRADECIMENTOS Para nós, seres humanos, viver implica produzir a existência. Isso significa queprecisamos realizar inúmeras ações para atender às nossas necessidades, aspirações econveniências. Nesse sentido, qualquer ação é um trabalho. Como não vivemos sozinhos, aprodução da existência é feita por um conjunto de ações coletivas e interligadas. Ao me dedicar neste trabalho científico, muitas pessoas contribuíram para que seconcretizasse esta monografia. Meus sinceros agradecimentos a todos aqueles que, de algumaforma, doaram um pouco de si para que a conclusão deste trabalho se tornasse possível: A Deus que me iluminou com o seu Espírito Santo e me deu força para continuar. A minha orientadora professora mestra Eugênia Mateus que me orientou, auxiliou naprodução do texto, na organização das idéias, com a disponibilidade de tempo, materiais ereferências que utilizei, com o apoio e simpatia com que me tratava, mesmo com afreqüências com que a solicitava. A meus pais, Domingos e Nailza que me incentivaram sempre a estudar, a sonhar, aacreditar em mim mesma, a nunca desistir; Agradeço a eles que me ensinou a ser o que souhoje e me educou para tornar-me uma pessoa de bem e esforçada, pela paciência comigo, peloseu carinho e apoio e, principalmente, pelo seu amor incondicional. A meus amigos, que compreenderam a minha ausência nos últimos momentos daprodução da monografia, pela atenção, ajuda e paciência. Agradeço também por elesexistirem em minha vida, por estarem presentes nos momentos felizes e nos momentosdifíceis, por eles me aceitarem como sou e permitirem que eu os mantenha em meu coraçãocom carinho e amor. Aos colegas da Universidade que, com minhas dúvidas na construção do trabalho, meauxiliavam também na construção deste trabalho científico. Não agradeço apenas a eles, porestarem nesse momento da minha vida, mas também por eles, aos poucos, ocuparem umgrande espaço em meu coração, por conquistarem meu respeito, meu carinho e porrepresentarem pessoas especiais que jamais esquecerei.
    • 5 TERMO DE APROVAÇÃO DAISE GUIMARÃES ABREU UM SER (TÃO) FILOSOFICAMENTE JAGUNÇO: UMA LEITURA DE GRANDE SERTÃO: VEREDAS SOB O OLHAR DA IDENTIDADEMonografia aprovada como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciatura em LetrasVernáculas, Departamento de Educação (DEDC), campus XIV, Conceição do Coité,Universidade do Estado da Bahia (UNEB), pela seguinte Banca Examinadora:Orientadora: Eugênia Mateus ________________________________Professora da UNEB – campus XIVDeijair Ferreira da Silva ____________________________________Professor da UNEB – campus XIVJussimara Lopes ___________________________________________Professora da UNEB – campus XIV Conceição do Coité, 03 de abril de 2009.
    • 6 RESUMOO presente trabalho propôs-se ao mapeamento da identidade cultural do jagunço, em GrandeSertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Um ser jagunço – nacional por subtração –, construído erepresentado nas fronteiras identitárias do sertão. Esta investigação visualiza a transcendênciada identidade individual à coletiva, da regional ao nacional e da nacional a universal, noespaço não apenas o geográfico, mas interior: o eu e o outro, uno e filosófico, questionador desua existência. As linhas teóricas referentes à identidade na pós-modernidade, o sertão e daidentidade sertaneja deram o suporte aos estudos, com o intuito de realizar uma comparaçãoe/ou compreensão destes conceitos, sob o ponto de vista de Guimarães Rosa. O resultadopossibilita afirmar a inauguração de uma imagem jagunça na literatura brasileira: um jagunçolírico, poeta do sertão, a partir de desconstruções, reconfigurando identidades pré-estabelecidas desta identidade cultural no mosaico que forma e constitui, à revelia, aidentidade cultural brasileira.PALAVRAS-CHAVES: Identidade cultural. Jagunço. Sertão
    • 7 ABSTRACTThe presente work, has proposed the map out of the cultural identity of “jagunço”, in GrandeSertão: Veredas by Guimarães Rosa. A “jagunço” being – nacional for subtraction -, built andrepresented in the frontier identities of “sertão”. This investigation visualizes exceeding fromindividual to collective, from regional to national and from national to universal identity, in aspace not by merely geographic, but deep: myself and the other, sole and philosophic,questioning their existence. The theoretical lines concerning on the identity in pos-modernity,the “sertão” and from the “sertaneja” identity they gave the support to studies, with the senseof achieving a comparison and/or understanding of these conceptions under the point of viewof Guimarães Rosa. The sequel allows to affirm the inauguration of “jagunça” image inBrazilian literature: a lyric “jagunço”, poet of “sertão”, from desconstructions, reconfiguringidentities pre-established in this cultural identity into the mosaic that form and constitutes aBrazilian cultural identity.KEY- WORDS: Cultural Identity. Jagunço. Sertão.
    • 8 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 091 CONSTRUÇÃO À REVELIA: A CRIAÇÃO DAS IDENTIDADES EM GRANDE SERTÃO: VEREDAS ........................................................................... 121.1 O ser(tão) no jagunço: nacional por subtração ........................................................ 121.2 Cultura e sertão: fronteiras identitárias .................................................................... 161.3 Nas veredas identitárias dos jagunços: ser cultural por construção ......................... 232 O EU E O OUTRO: RIOBALDO, UM JAGUNÇO FILOSÓFICO ................ 292.1 O viver perigoso: a travessia de Rio (Baldo) ou a travessia de si mesmo ............... 302.2 “Mire e Veja”: Riobaldo, a identidade dialética ..................................................... 332.3 Riobaldo: interrogando identidade ......................................................................... 363 LIRISMO VS ROSA: UMA DIALÉTICA REVISÃO DO SER(TÃO) ............ 393.1 Literatura e cultura: interstícios inaugurais da imagem jagunça ............................. 393.2 A lírica e o anti-herói rosiano: a desconstrução do popular .................................... 42 CONCLUSÃO ........................................................................................................ 50 REFERÊNCIAS .................................................................................................... 52
    • 9INTRODUÇÃO A literatura tem-se utilizado de diversas abordagens para pensar e afirmar a nacionalidade– tentativa de definir um retrato para o Brasil. Todas estas abordagens do Brasil, feitas pelaliteratura, podem ser consideradas como leituras de uma questão complexa a que se temchamado “identidade cultural/nacional”. Os escritores de momentos e escolas literáriastentaram estabelecer um conceito de identidade nacional/cultural 1, a partir de visões múltiplasem relação ao mundo. Guimarães Rosa foi um desses escritores que construiu,intencionalmente ou não, a identidade cultural brasileira. Um dos temas centrais das produções de Guimarães foi o sertão, o (ser)tão múltiplo,diverso e o grande sertão interior e suas veredas. Em Grande Sertão: Veredas, Rosa narraesses dois sertões: o físico e o abstrato: “[...] Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grandesertão! Não sei” (ROSA, 2001, p. 116). Neste sertão é criada uma identidade cultural: ojagunço brasileiro. A temática desta monografia é justamente compreender a formação daidentidade cultural do jagunço, criada no sertão rosiano. Entre outros motivos, a escolha dessa temática está vinculada, principalmente, ao fato dese acreditar que, ao construir a identidade cultural do jagunço, ele [Guimarães Rosa] cria umretrato de Brasil e sua grande multiplicidade cultural. Importa compreender a realpossibilidade de realizar este processo de formação de identidade cultural. A análise de comoGuimarães transcende do individual ao coletivo, do regional ao nacional, do nacional aouniversal pelo viés do jagunço no sertão (não só no espaço físico), contribuiu, de formasignificativa, na realização do projeto de identidade cultural do Brasil. Essa identidadecultural tem a possibilidade de analisar o universal? Não somente o particular específico? Este trabalho científico teve como objetivo principal, mapear a construção da identidadecultural brasileira, através do sertão narrado e descrito por Guimarães em Grande Sertão:Veredas, por meio, da análise da caracterização do sujeito sertanejo enquanto sernacional/cultural, marca da representação regional/nacional, individual/coletivo. A realização deste trabalho, iniciou-se com a leitura e a análise do romance GrandeSertão: Veredas, bem como o estudo aprofundado de textos teóricos sobre identidade e sujeitopós-moderno.1 O uso do termo identidade nacional/cultural tenta representar o mesmo caos estabelecido mediante aindefinição para uma afirmação de nacionalidade. Desde os românticos, houve uma busca pela cor local. Otermo identidade se define apenas no final do século XIX. Nesse momento, uma busca pela identidade nacional;com os estudos multiculturalistas, na segunda metade do século XX, amplia-se o olhar, e a identidade constróisob a perspectiva cultural.
    • 10 O desenvolvimento do trabalho foi destrinçado em três capítulos. O primeiro, Construçãoà revelia: a criação das identidades em Grande Sertão: Veredas, analisa o processo deconstrução das identidades dos jagunços no romance; como ela é visualizada na naçãobrasileira e: uma construção à revelia, marginalizada e estigmatizada. A identidade nacionaljagunça, parte que representa o todo do mosaico brasileiro, assume sua participação, nesteestudo, reconhecida como parte da nacionalidade brasileira. No primeiro tópico deste capítulo O ser(tão) no jagunço: nacional por subtração faz-seum questionamento sobre o motivo pelo qual a identidade cultural do jagunço é consideradauma identidade por subtração, já que parte, como as outras identidades, da multiplicidade daidentidade cultural brasileira. É possível eleger apenas um grupo cultural para representar onacional, já que somos múltiplos? E para dar suporte a esta análise foram utilizadas teorias deHall (2003), Pesavento (1998) e Vasconcellos (2007). Em Cultura e sertão: fronteiras identitárias discuti-se a formação identitária do jagunço,a partir de dois pontos centrais que se (inter)relacionam: a cultura e o sertão. Sãomencionados nesta análise os autores que tratam do conceito de cultura como Laraia (2002) eSantos (1983); como também o que é, e o que foi considerado o sertão sob o ponto de vista deBolle (2004) e Amado (1995). Compara-se ainda a identidade do jagunço construída porEuclides da Cunha em Os Sertões com a de Guimarães em Grande sertão: Veredas. Éconstruído nesta secção a conceito de sertão e de Guimarães através de contrapontosrealizados com outros conceitos de sertão, como o de Euclides da Cunha. Retoma-se a esta comparação em: Nas veredas identitárias dos jagunços: ser cultural porconstrução, para visualizar o perfil traçado de um mesmo grupo cultural, de formas e olharesdiferentes; neste momento do trabalho, delineiam-se perfis de algumas identidades culturaisde jagunços presentes no romance, além de mostrar que embora haja exclusão e a estigma doperfil jagunços, estes são seres culturais por construção à revelia das condições e/ouconvenções sociais. O Eu e o Outro: Riobaldo, um sujeito filosófico analisa o narrador-personagem Riobaldo.O jagunço letrado, questionador, introspectivo e filosófico e a sua travessia do/pelo sertão: agrande travessia do ser humano, a descoberta de si mesmo. Na secção O viver perigoso: atravessia de Rio(baldo) ou a travessia de si mesmo, revigora-se a identidade deste sujeito: suainsegurança, suas fragilidades e sua busca para afirmar-se e reconhecer-se como umaidentidade cultural segura e autônoma. Alguns teóricos como Roncari (2004), Castells (2006)e Figueiredo e Noronha (2005) fundamentaram as idéias discutida acerca dessa travessia dosujeito jagunça para a sua afirmação identitária presentes nestes tópicos.
    • 11 Na segunda, “Mire e Veja”: Riobaldo, a identidade dialética, a influência do “outro” naformação da identidade cultural de Riobaldo configura-se como elemento construtor de suaidentidade. Este “outro”, um novo olhar, participa, ativamente, da construção do “eu” donarrador-personagem de Grande Sertão: Veredas, um sujeito de discurso questionador, sagaz,senão ilusório. Os estudos teóricos fundamentaram-se em Jacoby e Carlos (2005) paradescrever como o “outro” participa da formação do “eu”; Hoisel (2006) para citar quais“outros” do romance atuaram sobre a identidade de Riobaldo; Giles (1979) paracomplementar a idéia de identidade dialética; e Figueiredo/Noronha (2005) para auxiliar noreconhecimento de qual à concepção de identidade cultural/nacional se aplicaria à identidadeestudada. Fecha-se o capítulo com Riobaldo: interrogando identidade, aqui destaca oRiobaldo enquanto sujeito filosófico e introspectivo em busca de si mesmo em meio ao caosem que se encontra a sua vida pós perda de sua amada. Lirismo x Rosa: uma dialética revisão do (ser)tão retrata-se como Guimarães Rosa“quebra” a concepção pré-estabelecida do que é o jagunço e reconfigura uma identidadecultural deste grupo brasileiro, estabelecendo assim, uma nova imagem, na literatura, paraeste sujeito. São duas secções que analisam os subsídios do autor para esta construção lírico-dialética do ser(tão): Literatura e cultura: interstícios inaugurais da imagem jagunço e Alírica e o anti-herói rosiano: a desconstrução do popular. Na primeira, apresenta comoGuimarães inaugura uma identidade cultural do jagunço, na literatura brasileira. Na segunda,analisa-se a prática rosiana de desconstrução do pensamento popular, a respeito destaidentidade cultural, com a criação da imagem de um jagunço lírico e que, poetiza o sertão e asquestões filosóficas sobre a vida. São teóricos como Rosenfeld (2002) – relevante quanto àquestão lírica –; Coutinho (2004) – na ênfase à idéia do herói rosiano –; bem como Backhtin(2003) – com seu conceito de herói –, que confirmam e credibilizam as idéias discutidas nestecapítulo. Cogita-se, através do que foi discutido neste trabalho científico, a possibilidade devisualizar a identidade cultural brasileira na identidade cultural do jagunço criado no sertãoideal (irreal) de Guimarães em Grande Sertão: Veredas. Uma identidade que, após serdesconstruída é reconfigurada, representa o mosaico que é o Brasil, a parte de um todomúltiplo e diverso.
    • 121 CONSTRUÇÃO À REVELIA: A CRIAÇÃO DAS IDENTIDADES EM GRANDESERTÃO: VEREDAS. A criação de identidades em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, é um alvo deanálise que merece atenção, pois delineia principalmente a identidade do sertanejo. Grupoeste, que carrega em si, elementos que representam o nacional. Possibilitam a visualização doretrato do Brasil. Estas identidades representam o sertão brasileiro, sua cultura, sua história,valores e costumes de um povo rico em contos e causos, e Guimarães Rosa consegue captar aessência dessas identidades e transmiti-la na escrita. Entretanto, um aspecto importante quemerece ser destacado é como se dá o processo de formação identitária, uma construção àrevelia, porque é uma identidade, muitas vezes marginalizada e estigmatizada por umasociedade dita “civilizada”. Um dos motivos pelo qual foi feita a escolha de se fazer o estudo da formação daidentidade do jagunço, de Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, foi justamente poracreditar que é possível vislumbrar uma parte da identidade nacional neste grupo sertanejo. Diante disso, faz-se necessário o estudo mais aprofundado, do como Guimarães Rosa, aonarrar de modo único, singular e inovador o sertão de Minas Gerais e seus jagunços, constróitambém uma representação de nação. Importa compreender se realmente é possível realizaresse processo de formação identitária e quais os recursos e estratégias de que Rosa utilizounesse projeto e a maneira como contempla o jagunço.1.1 O ser(tão) no jagunço: nacional por subtração Atualmente a questão da identidade é bastante discutida pelos vários teóricosmulticulturalistas1, bem como por pensadores de diversas áreas do conhecimento, inclusive aliteratura. Ela tem-se utilizado de diversas abordagens para pensar a identidade cultural do1 De acordo com Hall: “Multicultural é um termo qualificativo. Descreve as características sociais e osproblemas de governabilidade apresentados por qualquer sociedade na qual diferentes comunidades culturaisconvivem e tentam construir uma vida em comum, ao mesmo tempo em que retêm algo de sua identidade„original‟. Em contrapartida, o termo „multiculturalismo‟ é substantivo. Refere-se às estratégias e políticasadotadas para governar ou administrar problemas de diversidade e multiplicidade gerados pelas sociedadesmulticulturais (HALL, 2003, p.52)”. Para saber mais sobre o multiculturalismo ver “Da Diáspora identidades emediações culturais”.
    • 13Brasil. Nos momentos cruciais da trajetória do país, as abordagens feitas nas produçõesliterárias em busca dessa identidade resultaram obras paradigmáticas que souberam tocar noslugares–chaves da trajetória de uma tradição. A literatura ao longo de anos procurou construir a idéia de nação, através de suasproduções desde, principalmente, o Romantismo até a atualidade. Os escritores brasileiros emvários momentos da história e da literatura tentaram estabelecer um conceito de identidadenacional a partir de visões múltiplas em relação ao mundo e de acordo com as necessidades decada época e sociedade. Mas o que seria identidade? Este trabalho não tem a intenção de dar respostas mas refletirsobre as certezas e as dúvidas, de ser, por exemplo, um ser único e de acordo com Hall: “Osujeito previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornandofragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezescontraditórias e não resolvidas” (2003, p.12). Pode-se visualizar este tipo de identidade,mencionada por Hall, na identidade nacional brasileira. O todo “Brasil” é formado por umagrande diversidade de grupos sociais com identidades específicas e diferentes entre si. Entãosurge a questão, como visualizar uma unidade? É possível? Quais grupos identitáriosconstituem a identidade nacional brasileira? É viável eleger apenas um pequeno grupo pararepresentar e construir o retrato do Brasil, pertencendo a uma nação múltipla e diversa? O que muitas vezes foi absorvido tanto das produções literárias quanto de teoriaspreconceituosas ligadas à raça e ao meio, a partir do século XIX, é que havia grupos étnico-culturais superiores a outros e que estes grupos que se encontravam na elite brasileira eram osúnicos que mereciam representar a identidade nacional: Aceitar a multiplicidade e a diversidade de vozes e presenças no Brasil nunca foi fácil para as elites do país. Os sentimentos ambivalentes de fascínio e repulsa, preconceito e aceitação, envolvimento e distanciamento do “outro” em si mesmo compõem a história da construção da identidade nacional (VASCONCELOS, 2007, p. 38). Durante o fim do século XIX é que, ao pensar em identidade nacional brasileira tem-se ocuidado de identificar o Brasil-nação com uma identidade específica em detrimento de outra.Não se pensa em aceitação de uma diversidade cultural, o que acontece é a supremacia de umdiscurso dominador; neste momento surgem algumas questões: Quais as estratégias utilizadas pelas elites brasileiras no processo de construção de sua unidade nacional, visando concretizar um Brasil ideal, moderno e independente? Como conviver com os migrantes nortistas maltrapilhos que foram parar justamente na capital do Brasil, o Rio de Janeiro e num dos maiores centros
    • 14 urbanos do país, São Paulo, denunciando que a febre de modernização do país não passava de uma aspiração? Provavelmente, o caminho possível para alguns intelectuais e políticos da época resolverem esse conflito tenha sido o de inventar uma divisão regional que viabilizasse uma distinção entre um Brasil “ideal” – moderno, rico, industrial, formado por uma grande parcela de imigrantes europeus – e um Brasil “real” – atrasado, pobre, rural, escurecido por uma população mestiça de índios e negros. Neste momento, é a ênfase na diferença entre esses Brasis, ou melhor, é a escolha de uma região para representar o nacional que indicará a resolução para o grande drama da unidade nacional (VASCONCELOS, 2007, p. 41). Essa diferenciação entre o Brasil “ideal” e o Brasil “real” mencionada por Vasconcelos(2007) é equivalente respectivamente à região do Sul e à região do norte/nordeste. E nestemomento, ao optar por um representante da identidade nacional, a região do Sul,automaticamente exclui e marginaliza outra considerada “atrasada”, a região norte/nordeste. Este processo, embora tenha acontecido há muito tempo, ainda hoje, apesar das mudançasocorridas na sociedade e a maneira de se pensar a nação e sua identidade, é possível percebero distanciamento da região nordestina da identidade nacional, dita oficialmente, brasileira. E onde se encontra o sertanejo? Encontra-se muitas vezes, nesses grupos excluídos dochamado processo de formação da identidade nacional brasileira. O sertanejo do ser(tão)jagunço, às vezes esquecido na história e na origem do retrato do Brasil. O sertanejo é uma parte do todo que forma o Brasil este múltiplo e cultural e, de acordocom Hall: [...] se sentirmos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora „narrativa do eu‟. A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia (2003, p. 13). É necessário compreender que uma identidade nacional não se dá apenas pela formação deuma única identidade – a detentora do poder -, mas que os diversos grupos sociais e culturaisformam a nação. E a identidade sertaneja é uma dessas identidades que, apesar de serdiferente ao olhar de um “outro” elitizado e preconceituoso, possui uma essênciaculturalmente rica. Formular uma identidade nacional, desenhar o perfil de um povo, envolvepráticas de reconhecimento da diversidade cultural e é esta diversidade que compõe a nação-Brasil: Se a construção imaginária de uma identidade implica uma atribuição de sentido, este encadeamento de sentido, no caso brasileiro, seria dado não apenas na articulação espaço e tempo, que resgataria as dimensões da natureza/meio e da história, mas pela possibilidade de compatibilização da diversidade na unidade. Nação-continente, a identidade brasileira seria dada pela integração do múltiplo,
    • 15 pela capacidade ou não da absorção dos elementos díspares e aparentemente caóticos numa nova totalidade de referência (PESAVENTO, 1998, p. 23). Fala-se sempre que a literatura, em alguns momentos de sua história e formação deidentidade nacional, copiou e seguiu um modelo europeu, entretanto Schwarz (2001) enfatizaque o problema não se concentra só na cópia, mas também no fato de que há a exclusão de umgrupo que não se assemelha ou se parece com o modelo europeu de civilização e/ou nação,como é o que acontece com o jagunço sertanejo que, por não se “enquadrar” nos princípioseuropeizados, é marginalizado no processo de formação de identidade nacional, todavia sãocapazes, como os demais, de representar o Brasil enquanto país e um ser(tão) nação, apesar deser o jagunço um ser nacional por subtração. Entretanto, já que o jagunço também forma e caracteriza o Brasil, porque ele é excluídomuitas vezes do que se chama identidade nacional? É uma questão que traz inquietaçõesvárias, despertando o interesse de análise. A representação de jagunço que será analisadoneste trabalho será aquele traçado pelo narrador de Guimarães Rosa em Grande Sertão:Veredas. Guimarães em suas produções abre espaço à épica, combinando aspectos como o mítico, omisterioso, as dúvidas, os mitos que circundam principalmente o sertão e o sertanejo. O autorconstrói várias identidades daqueles sertanejos do romance, mas embora haja multiplicidade,cada um possui as suas particularidades: “porque jagunço não é muito de conversa continuadanem de amizades estreitas: a bem eles se misturam e desmisturam, de acaso, mas cada um éum jeito por si” (ROSA, 2001, p. 44). O autor vem construindo a imagem do jagunço, ao longo do romance, com váriasafirmações sobre o que seria o jagunço, desmistificando concepções, criando outras: E os outros, companheiros, que é que os outros pensavam? Sei? De certo nadas e noves – iam como o costume – sertanejos tão sofridos. Jagunço é homem já meio desistido de si... a calamidade de quente! E o esbraseado, o estufo, a dor do calor de todos os corpos a gente tem (ROSA, 2001, p. 67). Jagunços, homens sofredores, que possuem um destino imprevisto e até eles mesmosduvidam de si, talvez pela influência do olhar do “outro” sobre a formação de sua própriaidentidade; influência esta, excludente e preconceituosa. Entretanto as dúvidas dos seusdestinos não os abalavam; para o narrador de Grande Sertão: Veredas, o que importava era a“travessia”, a vida, boa ou ruim, sem certezas:
    • 16 Digo que fui, digo que gostei. À passeata forte, pronta comida, bons repousos, companheiragem. O teor da gente se distraía bem. Eu avistava as novas estradas, diversidade de terras. Se amanhecia num lugar, se ia à norte noutro, tudo o que podia ser ranço ou discórdia consigo restava para trás (ROSA, 2001, p. 148). E Rosa prossegue com as características dos jagunços sertanejos. Homens valentes ecorajosos que sobrevivem e superam as dificuldades que o grande sertão apresenta, semreclamar, sem se lamentar, como se percebe no trecho seguinte: Esbandalhados nós estávamos, escatimados naquela esfregada. Esmorecidos é que não. Nenhum se lastimava, filhos do dia, acho mesmo que ninguém se dizia de dar por assim. Jagunço é isso. Jagunço não se escabreia com perda nem derrota – quase que tudo para ele é o igual. Nunca vi. Pra ele a vida já está assentada: comer, beber, apreciar mulher, brigar, e o fim final (ROSA, 2001, p. 72). Como é possível perceber, Guimarães vem construindo, aos poucos a identidade dojagunço no romance e ao longo deste trabalho será feita uma tentativa de mapear como se dáessa formação e o que ela significa para a identidade nacional brasileira, porque a identidadedo jagunço, embora sendo e representando o Brasil, possa ser excluída da identidade culturale nacional brasileira. Por toda essa marginalização para com a identidade sertaneja pode-sepensar que esta seja uma identidade subtraída do projeto de nacionalidade, chamado nacional. Um fator que será também um suporte importante para se alcançar o objetivo destetrabalho será as fronteiras existentes na construção da identidade do jagunço, a cultura e osertão. Ambos os conceitos e concepções solidificam e participam desta construção identitáriae, conseqüentemente, de uma identidade maior, a nacional. Este ponto será um dos focosanalisados no próximo item detalhadamente.1.2 Cultura e sertão: fronteiras identitárias A identidade do jagunço é formada a partir de dois pontos centrais e significativos que(inter)relacionam e são intrínsecos: cultura e sertão. A representação cultural no sertão é evidente em Grande Sertão: Veredas e; cultura é umaspecto discutido por vários teóricos durante momentos diversos na história da humanidade.Por muito tempo o conceito de cultura foi motivo de inquietação, e o que se pensava arespeito de uma pessoa dita com cultura, “culta”, era aquela que possuía apenas um
    • 17conhecimento específico dito intelectual ou acadêmico. Entretanto o conceito de cultura nestasociedade moderna extrapola este campo da sapiência e se direciona ao que um determinadopovo produz em termos de histórias, tradições, costumes, crenças como também os seusvalores étnicos e morais. Acredita-se que cultura também sejam características humanas deum determinado grupo, o qual preserva ou aprimora-se por meio da comunicação entreindivíduos em uma dada sociedade e suas manifestações próprias. No entanto, existem aindaconcepções preconceituosas no que diz respeito a certos grupos culturais, como os sertanejosbrasileiros e como diz Laraia: São velhas e persistentes as teorias que atribuem capacidades específicas inatas a “raças” ou a outros grupos humanos. Muita gente ainda acredita que os nórdicos são mais inteligentes do que os negros; que os alemães têm mais habilidade para a mecânica; que os judeus são avarentos e negociantes; que os norte-americanos são empreendedores e interesseiros; que os portugueses são muito trabalhadores e pouco inteligentes; que os japoneses são trabalhadores, traiçoeiros e cruéis; que os ciganos são nômades por instinto, e, finalmente, que os brasileiros herdaram a preguiça dos negros, a imprevidência dos índios e a luxúria dos portugueses. Os antropólogos estão totalmente convencidos de que as diferenças genéticas não são determinantes das diferenças culturais (2002, p. 17). Todavia as teorias modernas vêm tentando mudar essas concepções (pré)formadas que aspessoas têm da cultura do “outro”. As discussões intensificam-se cada vez mais na medidaque aumentam também os contatos entre as nações e povos diversos. Conceituar cultura éuma tarefa difícil por sua complexidade: As várias maneiras de entender o que é cultura derivam de um conjunto comum de preocupações que podemos localizar em duas concepções básicas. A primeira dessas concepções preocupa-se com todos os aspectos de uma realidade social. Assim, cultura diz respeito a tudo aquilo que caracteriza a existência social de um povo ou nação, ou então de grupos no interior de uma sociedade. [...] vamos à segunda. Neste caso, quando falamos em cultura estamos nos referindo mais especificamente ao conhecimento, às idéias e crenças, assim às maneiras como eles existem na vida social. [...] O que ocorre é que há uma ênfase especial no conhecimento e dimensões associadas. Entendemos neste caso que a cultura diz respeito a uma esfera, a um domínio, da vida social (SANTOS, 1983, p. 22 e 24). Desta concepção de cultura precisa-se pensar a idéia de sertão, o seu significado culturalpara a identidade do jagunço e, conseqüentemente, para a identidade plural Brasil. A identidade do jagunço liga-se diretamente a sertão. Esta identidade é formada a partir doque a cultura sertaneja representa e o seu espaço cultural, obviamente, entrelaçado ao grandesertão. Entretanto, é importante notar que o olhar de Guimarães Rosa sobre o sertão, é umolhar diferencial do que já se tinha visto na história e na literatura, um olhar que traz a
    • 18representação da nação no sertão, um ponto de vista renovador, uma nação múltipla eculturalmente diversificada, e Bolle (2004) afirma que no romance Grande Sertão: Veredas,quando o narrador Riobaldo mantém uma conversa com um doutor, ele traz à tona estadiscussão, do nacional no sertão, a união das diferenças: Ao estruturar o seu retrato do Brasil como uma conversa, diferentemente de todos os demais livros do gênero, Guimarães Rosa coloca no centro do seu romance o problema da heterogeneidade da chamada “cultura Brasileira”. Na conversa entre o narrador sertanejo, o velho fazendeiro e ex-jagunço Riobaldo, e seu visitante, um jovem doutor da cidade, são tematizados as diferenças, os conflitos e os choques culturais, mas também as interações, os diálogos e o trabalho de mediação. O narrador rosiano se mantém disponível num estado de transição entre as diferentes mentalidades e linguagens: a sertaneja e a urbana, a coloquial e a erudita, a oral e a escrita (BOLLE, 2004, p. 39-40). Embora atualmente se possa pensar o sertão também como representação de nação, osertão não foi visto sempre assim na história e na literatura. É importante partir da etimologiada palavra e as implicações do seu significado: A palavra já era usada na África e até mesmo em Portugal [...] nada tinha a ver com a noção de deserto (aridez, secura, esterilidade) mas sim com a de “interior”, de distante da costa: por isso, o sertão pode até ser formado por florestas, contando que sejam afastados do mar [...] O vocábulo se escrevia mais freqüentemente com c (certam e certão) [...] do que com s [G. Barroso] vai encontrar a etimologia correta no Dicionário da língua Bunda de Angola, de frei Bernardo Maria de Carnecatim (1804), onde o verbete muceltão, bem como sua corruptela certão, é dado como lócus mediterraneus, isto é, um lugar que fica no centro ou no meio das terras. Ainda mais, na língua original era sinônimo de “mato”, sentido corretamente usado na África Portuguesa, só depois ampliando-se para “mato longe da costa”. Os portugueses levaram-na para sua pátria e logo trouxeram-na para o Brasil, onde teve longa vida, aplicação e destino literário (W. Galvão, 2001, p. 16 apud BOLLE, Wille, 2004, p. 48). Este significado da palavra foi carregando em si e criando uma imagem preconceituosa epejorativa do que seria o sertão e as pessoas que vivem nesse espaço. Como o sertão seencontrava distante, principalmente do litoral, foi havendo comparações entre o litoral e osertão. O segundo por estar longe do primeiro; eram regiões afastadas também da“civilização”, pois o litoral por estar em maior contato com a influência da cultura européia,sua religião, seus costumes acabava por ser considerada uma região de pessoas “civilizadas”em detrimento às pessoas do sertão, vistas como selvagens. Esta visão se intensificou noBrasil colonial: Nesse sentido, “sertão” foi uma categoria construída primeiramente pelos colonizadores portugueses, ao longo do processo de colonização. Uma categoria
    • 19 carregada de sentidos negativos, que absorveu o significado original, conhecido dos lusitanos desde antes de sua chegada ao Brasil – espaços vastos, desconhecidos, longínquos e pouco habitados -, acrescentando-lhe outros, semelhantes aos primeiros e derivados destes, porém específicos, adequados a uma situação histórica particular e única: a da conquista e consolidação da colônia brasileira [...] (...) desde os primeiros anos da colônia, acentuando-se com o passar do tempo, “litoral” e “sertão” representaram categorias ao mesmo tempo opostas e complementares. Opostas, porque uma expressava o reverso da outra: litoral (ou “costa”, palavra usada no século XVI) referia-se não somente á existência física da faixa de terra junto ao mar, mas também a um espaço conhecido, delimitado, colonizado ou em processo de colonização, habitado por outros povos (índios, negros) mas dominado pelos brancos, um espaço da cristandade, da cultura e da civilização (Freire, 1977; 1984). “Sertão” já se viu, designava não apenas os espaços interiores da colônia, mas também aqueles espaços desconhecidos, inacessíveis, isolados, perigosos, dominados pela natureza bruta, e habitados por bárbaros, hereges, infiéis, onde não haviam chegado as benesses da religião, da civilização e da cultura (AMADO, 1995, p. 6-7). Como é possível perceber, a diferenciação de locais e culturas era preconceituosamentevisível e injusta. O sertão em sua totalidade não significava nada que pudesse representar anação brasileira. Sua cultura não era “digna” de ser representada como parte de brasilidade. Epor muito tempo este conceito de sertão foi petrificado como verdadeiro. Nas produções literárias brasileiras o sertão foi apresentado de maneiras diversas, às vezesapenas como paisagem ou cenário de enredos, às vezes como causador de sofrimentos e dor,mas que no período em que foram escritas tiveram sua importância e foco específico. Todaviavale ressaltar, que além de Grande Sertão: Veredas há outro que será utilizado de maneirabreve, como ponto específico para estabelecer algumas comparações sucintas, Os Sertões, deEuclides da Cunha. Nesses dois romances são visualizados sertões distintos; um sertão criadopor um escritor influenciado por teorias científicas de raça e meio e outro sertão criado atravésde um olhar mais moderno e menos preconceituoso. Os Sertões foi uma obra de grandedestaque na literatura nacional. Embora Euclides da Cunha tivesse narrado a guerra deCanudos ele não deixa de apresentar uma visão panorâmica do sertão e da sertanidade. Masimporta ressaltar que por conta das idéias científicas européias da época em que foi escrito oromance, 1902, o autor não tinha como fugir de escrever sob tais influências, dificultando aEuclides aceitar as peculiaridades do mundo caboclo. Os Sertões apresentam o Sertão e o sertanejo para as cenas urbanas. Embora o romanceaparente certa contradição a respeito da identidade do povo do sertão, pois apresenta opositivo do povo, “o sertanejo é antes de tudo um forte” (CUNHA, 1998, p. 112), aquele serque suporta a dureza do sertão; ele deixa prevalecer em sua produção, com mais nitidez o seuolhar de desprezo e vergonha para com aquele povo, enaltecendo a suposta inferioridade dosertão/sertanejo que a sociedade e a ciência daquela época afirmavam como verdadeira.
    • 20 Com um olhar diferente do de Euclides da Cunha que traça o perfil do sertanejo a partir devisões de “fora” e um fora que concebe o indivíduo do sertão como pessoas deslocadas da“civilização”, bárbaros que não poderiam formar o mosaico - Brasil, Guimarães traz àliteratura, um sertão diferenciador, um sertão que proporciona identidades múltiplas em que osuposto “arcaico” e “atrasado” invade o espaço urbano e letrado representado pelo ouvinte deRiobaldo em Grande Sertão: Veredas, o doutor que ouve as sagas desse ex-jagunço queprocura se conhecer nas memórias de uma vida e jagunçagem e produz uma interação entreesses dois mundos diversos, mas que fazem parte de um só: Por isso o escritor mineiro deveu escolher essa forma híbrida do falso diálogo para contar a sua história: porque nela havia que se refletir, num tempo único, tempos diferentes – para ser mais claro, o tempo acelerado da cidade e o tempo parado do sertão, o avanço da civilização e o atraso de uma dimensão primitiva, a projeção da cultura e a regressão da ignorância. Somente nessa solução que não (se) resolve, de fato, a estrutura do livro podia refletir a estrutura da terra nele representada; só assim a história partida, desarmônica e ao mesmo tempo “bem temperada”, do Brasil podia encontrar a sua grande metáfora geográfica: num Grande Sertão em que com efeito, convivem e se misturam o moderno e o arcaico, a exatidão da ciência e a superstição da magia, o amor pela precisão e a paixão pelo indistinto. Dimensão aérea e telúrica, habitada pela leveza e pela gravidade, pela rapidez e pela lentidão [...] afinal, a narrativa urbana se junta à epópeia rural, o lógos da cidade ao mythos do interior, gerando um epos romanesco em que a dicotomia, tanto espacial quanto ideológica e social, finalmente se dá a ler, e se dá a ler nos modos e nos ritmos do drama poético (mais uma definição que não se define!) (FINAZZI-ÀGRO, 2001, p. 79). O romance vem apontando que o sertão é grande e nele caberia o mundo, o nacional evice-versa. O nacional é essa mistura da cultura suposta “civilizada”, a cidade e uma cultura“atrasada”, primitiva do campo, do sertão. Este sertão que é conceituado em vários trechos doromance, e já no início de Grande sertão: Veredas, Guimarães diz para o “doutor”: O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja [grifo meu]: que situado sertão é por os campos – gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os e Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; que um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; [...] culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte (ROSA, 2001, p. 23-4). O narrador do romance já no início vem fazendo um contraponto com as “opiniães”(ROSA, 2001, p. 24) alheias do que é o sertão: “uns querem que não seja” (ROSA, 2001, p.23), que o sertão seja apenas uma pequena porção insignificante distante de tudo, mas
    • 21Riobaldo afirma: “esses gerais são sem tamanho” (ROSA, 2001, p. 24), não dá para delimitaro sertão, sua cultura, crenças, valores e histórias, pois “o sertão esta em toda parte” (ROSA,2001, p. 24) o sertão é universal e as identidades – produtos deste sertão podem e devem ser onacional e esse nacional pode ser o sertão, não há limites. Guimarães tenta desconstruir a concepção dada ao sertão até então, mostrando que emboraseja tradicional é também moderno e isto é percebido, principalmente quando Guimarãescoloca um jagunço – Riobaldo – que representa toda a tradição sertaneja, crenças, valoresétnicos e idéias com características de um ser dito “civilizado”, o qual sabe ler, escrever econversar com maestria com um doutor. Guimarães mostra que sertão também é civilização;mesmo possuindo uma cultura diferente, é nacional. O autor de Grande Sertão: Veredas trazpara o romance, a metáfora do Brasil - nação, esta multiplicidade e integração de diferenças. Mas antes de construir essa idéia de ser(tão) nação por meio dos jagunços, Guimarãesprepara o leitor do seu romance para a construção desta concepção, definindo o sertão e o queele pode representar: “aqui não se tem convívio que instruir. Sertão. Sabe o senhor: sertão éonde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muitoperigoso...” (ROSA, p. 2001, p. 41). Nesta concepção, o sertão está voltado para o poder do pensar, do questionar; tudo seconstrói a partir do pensamento inclusive as identidades sertanejas e “sertão [são] estesvazios” (ROSA, 2001, p. 47); vazios que existem nos seres humanos, o sertão ora provocaestes vazios, quando o pensamento faz o homem se questionar, ora preenche estes vazios, pois“no sertão tudo é festa” (ROSA, 2001, p. 74), embora o sofrimento e a perda que aquelaregião pode trazer representem um “atraso”; é um povo lutando para sobreviver e viver felizcom suas comemorações religiosas, suas canções, nas suas reuniões em volta das fogueirascontando seus contos e causos e, segundo Guimarães, sertão é um mundo que parece distantemas está muito próximo a todos os “outros mundos” isto porque “o sertão é do tamanho domundo” (ROSA, 2001, p. 89), possui diferenças, as misturas, é o Grande Sertão – queconsegue transcender ao universal. Só que não é apenas o positivo mostrado por Guimarães em Grande sertão: Veredas, eleafirma que há também a violência: “Bolas, ora. Senhor vê, o senhor sabe. Sertão é o penal,criminal” (ROSA, 2001, p. 126). Esta imagem criada e as pessoas que vivem essacriminalidade, ora praticada ora sofrida, é o reflexo de uma sociedade com desigualdadessociais, mal organizada. As pessoas que detém o poder são as que estimulam essacriminalidade. É visível a hierarquia social, os fracos obedecem aos mais fortes e, por sua vez,esses mais fortes obedecem outros mais ainda mais fortes, isto é o retrato do sertão, este não
    • 22difere do Brasil e “sertão é onde homem tem de ter a dura nuca e mão quebrada” (ROSA,2001, p. 126). É preciso aceitar que existe a violência, é preciso adaptar-se a ela; é o queGuimarães diz em tenha “a dura nuca”, resista, seja forte e se defenda; esta é arealidade/ficcional. O narrador Riobaldo prossegue reconstruindo o que é o sertão. Guimarães não dá certezas,lança idéias que fazem o leitor refletir e questionar as supostas certezas sobre o ser, sobre osertão, sobre a existência do demônio ou de Deus, entre outros aspectos isto porque “sertão éisto, o senhor sabe, tudo incerto, tudo certo” (ROSA, 2001, p. 172). E é logo após ser apresentada a idéia de que não há certezas, o narrador afirma que, o queé julgado como “errado” pelas convenções sociais, no sertão pode ser o “certo”, as leis quetentam estabelecer o equilíbrio são questionadas para dar lugar a outras, a dos jagunços: “ah,mas no centro do sertão, o que é doideira às vezes pode ser razão mais certa e de mais juízo”(ROSA, 2001, p. 301). Outro aspecto destacado pelo autor de Grande Sertão: Veredas é que, embora hajapessoas que duvidem, o sertão está aí, perto de todos, dentro de todos. O sertão é o Brasil todoe quando se pensa que não há semelhanças com o sertão: “... e muitas idas marchas; sertãosempre. Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhordos lados. Sertão é quando menos se espera; digo” (ROSA, 2001, p. 302). É possível perceber uma cronologia das definições dadas ao sertão por Riobaldo a partirdas suas experiências narradas. Todas as etapas e/ou concepções do sertão são para projetaruma idéia maior que todos são “sertão” – “sertão-Brasil”. Sertão faz parte do “eu” e do “nós”,é o pensamento e o vazio, é a alegria e a tristeza, é a violência, é o bem e o mal, é Deus e oDiabo, é o errado e o certo e também o incerto, esta dentro de cada ser brasileiro: “Estivenessas vilas, velhas, altas cidades... sertão é o sozinho. Compadre meu Quelemém diz: que eusou muito do sertão? Sertão: é dentro da gente” (ROSA, 2001, p. 325). E é este sertão que forma a identidade do jagunço, do sertanejo e o Brasil. O ser(tão)jagunço é construído aos poucos, não é de uma hora para outra, são com as histórias vividasneste grande sertão, as vitórias, as perdas, as descobertas, as ilusões amorosas, as guerras, osabandonos, a falta de família e a existência da família – jagunçagem, é o sertão que produzestas identidades: Rebulir com o sertão como dono? Mas o sertão era para, aos poucos e poucos, se ir obedecendo a ele; não era à força se compor. Todos que malmontam no sertão só alcançam de reger em rédea por uns trechos; que sorrateiro o sertão vai virando tigre debaixo da sela. Eu saia, eu via (ROSA, 2001, p. 391).
    • 23 Destaca-se ainda o momento em que Riobaldo deseja que as diferenças sejam separadas,uma visão maniqueísta da sociedade brasileira, mas o que se percebe é uma crítica deGuimarães a esta atitude dos brasileiros, e do ser humano em geral, pois ao fim do trecho oautor reconhece a impossibilidade de segregação, as diferenças existem, inclusive asdiferenças culturais, mas devem estar integradas, “misturadas”, isto é o sertão, isto é o Brasil: Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja o bom e o rúim ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos os pastos demarcados... como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fez do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado [grifo meu] (ROSA, 2001, p. 237). E estas misturas promovem identidades também misturadas, múltiplas em uma unidade. Apartir dessas concepções de sertão de Guimarães Rosa, percebe-se que os jagunços podem serseres nacionais por construção. Esta idéia será discutida no próximo item.1.3 Nas veredas identitárias dos jagunços: ser cultural por construção O sertão é um lugar sem fim, “do tamanho do mundo” (ROSA, 2001, p. 89) na concepçãode Guimarães. Um local sem fronteiras, onde extrapolam os limites geográficos e representa-se o retrato do Brasil. Neste “locus” os jagunços são seres culturais por construção.Guimarães repensa a idéia de nação no sertão e são os jagunços, narrados no romance GrandeSertão: Veredas, que possibilitam também, entre os demais grupos culturais do país, aformação do nacional no Brasil: [...] se a construção imaginária de uma identidade implica uma atribuição de sentido, este encadeamento e sentido, no caso brasileiro, seria dado não apenas na articulação espaço e tempo, que regataria as dimensões da natureza/meio e da história, mas pela possibilidade e compatibilização a diversidade na unidade. Nação-continente, a identidade brasileira seria dada pela integração do múltiplo, pela capacidade ou não de absorção dos elementos díspares e aparentemente caóticos numa nova totalidade de referência (PESAVENTO, 1998, p. 23). Esta “possibilidade de compatibilização da diversidade na unidade” (PESAVENTO, 1998,p. 23), promoverá a exemplificação do nacional do Brasil no sertão. Guimarães Rosa constróiidentidades de jagunços com características diferentes e marcantes, trazendo o Brasil para o
    • 24sertão, nos personagens do romance de Grande Sertão: Veredas. O bem e o mal, os fortes, oscorajosos, os traiçoeiros, os religiosos, os incrédulos entre outros, personalidadescontraditórias, mas, todavia dividem o mesmo espaço e a mesma representação de sertanejo. E para fixar melhor a representação do sertanejo, interessa retomar a comparação da visãode Euclides da Cunha em Os Sertões sobre os povos do nordeste (antigo norte), com a visãode Guimarães e através desta comparação, visualizar o perfil traçado do mesmo grupo deformas e olhares diferentes. Em Os Sertões explicita-se a inferioridade dos sertanejos. Aidentidade destes povos é formada por aspectos negativos provindos de uma raça vista como“indigna” e “incivilizada”: Qualquer, porém, que tenha sido o ramo africano para aqui transplantado trouxe certo os atributos preponderantes do homo afer, filho das paragens adustas e bárbaras, onde a seleção natural, mais que em qualquer outros, se faz pelo exercício intensivo da ferocidade e da força (CUNHA, 1998, p 73). Para Euclides (1998), as “raças” que vivem no sertão são “subformações” (CUNHA,1998, p. 74) e estas “subcategorias” dificultam a formação nacional brasileira, representa oatraso. E como conviver e viver em uma sociedade civilizada com esta multiplicidade de raçasdita inferiores? O autor de Os Sertões mostra que mesmo que “desça sobre eles a sobrecargaintelectual e moral e uma civilização o desequilíbrio é inevitável (CUNHA, 1998, p. 110)”.Ou seja, o fato de o Brasil possuir em sua nação a mistura de raças e mesmo que essas raçaspossuíssem um conhecimento e uma possível civilização, a situação não mudaria, pois estas“raças” possuíam uma completa inferioridade imutável, para as teorias racistas do período emque foi escrito o romance: Aqui, distinguiam-se aqueles que acreditavam que a mistura de raças operada no Brasil levaria à degeneração crescente e à impossibilidade de constituição de um povo brasileiro habilitado à civilização e outros que eram mais „otimistas‟. Para estes últimos, a „hibridação‟ no Brasil correspondia a um tipo de paragênese que levaria ao desaparecimento progressivo dos negros e mestiços de pele escura, considerados como inferiores, e ao embraquecimento paulatino do conjunto da população (COSTA, 2006, p. 166). Neste prisma, o sertanejo é definido como incivilizado, selvagem, rude, incapaz de tornar-se um representante da identidade nacional e cultural do Brasil: É que neste caso a raça forte não destrói a fraca pelas armas, esmaga-a pela civilização. Ora os nossos rudes patrícios dos sertões do Norte forraram-se a esta última. O abandono em que jazeram teve fundação benéfica. Libertou-os da adaptação
    • 25 penosíssima a um estádio social superior, e, simultaneamente, evitou que descambassem para as aberrações e vícios dos meios adiantados. [...] Este fato destaca fundamentalmente a mestiçagem dos sertões da do litoral. São formações distintas, senão pelos elementos, pelas condições do meio. O contraste entre ambas ressalta ao paralelo mais simples. O sertanejo tomando em larga escala, do selvagem, a intimidade com o meio físico, que ao invés de deprimir enrija o seu organismo potente, reflete, na índole e nos costumes, das outras raças formadoras apenas aqueles atributos mais ajustáveis à sua fase social incipiente. É um retrógrado; não é um degenerado. Por isto mesmo que as vicissitudes históricas o libertam, na fase delicadíssima da sua formação, das exigências desproporcionadas de uma cultura de empréstimo, prepararam-no para a conquistar um dia (CUNHA, 1998, p. 110). Percebe-se que este sertanejo é um ser que não é, nem faz parte da nação brasileira,porque como são grupos atrasados e “retrógrados”, levariam um tempo para alcançar acivilização. Diferentemente do olhar de Euclides, Guimarães Rosa apresenta o sertanejo, com suascaracterísticas, boas ou más, justas ou injustas, certas ou erradas, constituintes da identidadenacional brasileira. Ao longo do romance, constroem-se diferentes perfis de jagunços, revelando a existênciada diversidade identitária cultural, tanto no sertão como no Brasil-nação e que mesmopossuidor de tal diversidade, convive ora em harmonia ora em conflitos. Um dos perfis expostos no romance: Medeiro Vaz - chefes da jagunçagem –, transmiteconfiança e representa justiça “com mão leal, não variava nunca, não fraquejava” (ROSA,2001, p. 52). Ele possuía propriedades de terras, gados e heranças de fazendas, entretantodeixou tudo isso para trás para se tornar jagunço, ter a sua própria lei e “impor justiça”(ROSA, 2001, p. 60), porque presenciava no sertão atos que o incomodavam e o afligiam: “foiimpossível qualquer sossego, dede em quando aquele imundo de loucura subiu as serras e seespraiou nos gerais” (ROSA, 2001, p. 60). Estas “loucuras” são mais um dos retratos doBrasil: as desigualdades, os conflitos; e Guimarães Rosa mostra um dos motivos de umhomem que possui riquezas deixar tudo e transformar-se em jagunço – fazer a justiça que faltaao Brasil, mesmo que para isso se utilize de violência: A palavra “jagunço” e a instituição da jagunçagem revestem-se, assim, de importância estratégica para se compreender o fenômeno da violência e do crime no Brasil. Ao retratar o país sob o ângulo da jagunçagem, Guimarães Rosa traz à tona o componente da violência que está na origem de todo poder constituído. No enfoque de considerar Grande Sertão: Veredas uma reescrita crítica d‟Os Sertões, pode-se dizer, com uma formulação extrema, que esse romance, narrado por um jagunço letrado, coloca em debate a maneira tendenciosa e arbitrária com que o letrado Euclides da Cunha apresenta o jagunço (BOLLE, 2004, p. 91-2).
    • 26 Outro líder dos jagunços louvado no romance é Joca Ramiro, outra representação dejustiça e bondade: Quando conheceu Joca Ramiro, então achou outra esperança maior: para ele [Medeiro Vaz] Joca Ramiro era único homem, par-de-frança, capaz e tomar conta deste sertão nosso, mandando por lei, de sobregovêrno. Também igualmente saía por justiça e alta política, mas só em favor e amigos perseguidos; e sempre conservava seus bons haveres (ROSA, 2001, p. 60). Joca Ramiro é a possibilidade de melhorias no sertão, um homem que é tão justo que criaum julgamento no sertão, onde todos têm voz e vez, onde independente de sua classe, o seulugar na hierarquia social dos jagunços, todos têm a possibilidade de expressar seu pensar. É oque acontece no julgamento de Zé Bebelo (ROSA, 2001, p. 270). Os líderes falam o quepensam e os subalternos também, todos possuem direitos iguais: “Que por aí, no meio demeus cabras valentes, se terá algum que queira falar por acusação ou para defesa de ZéBebelo, dar alguma palavra favor dele? Que pode abrir a boca sem vexame nenhum...”(ROSA, 2001, p. 287). Infelizmente a esperança que Joca Ramiro representa para o sertão é tirada porHermógenes, um dos líderes do grupo dos jagunços, pois este o assassina e é esta traiçãoestimula o ódio e a vingança nos membros do grupo. Outra faceta de identidade mostrada no romance é o Zé Bebelo, homem sonhador queembora jagunço, deseja acabar com a jagunçagem no sertão, ser deputado. Ele representa apolítica: Ah, cujo vou, siô Baldo, vou. Só eu que sou capaz de fazer e acontecer. Sendo porque fui eu só que nasci para tanto! Dizendo que, depois, estável que abolisse o jaguncismo, e deputado fosse, então reluzia perfeito o Norte, botando pontes, baseando fábricas, remediando a saúde de todos, preenchendo a pobreza, estreando mil escolas (ROSA, 2001, p. 147). É possível perceber como Guimarães apresenta através deste personagem, as tentativasdos povos que vivem uma cultura diferente dos jagunços, (por exemplo, os políticos)reconfigurar e modelar a vida dos sertanejos, possibilitando uma “civilização” àquele povo.Entretanto como ele queria acabar com os jagunços, com a mesma prática de jagunçagem?Acabar com o sistema jagunço com o sistema jagunço? Essa situação assemelha-se com aguerra de Canudos. Os republicanos diziam que os moradores de Canudos eram seresbárbaros, violentos e cruéis e que deveriam ser “exterminados” para que não atrapalhassem oprogresso na nação, entretanto para isso eles utilizaram as mesmas atitudes, ou ainda mais
    • 27violentas, ou seja, tentaram “consertar” aquele povo “bárbaro” com barbaridades. É umagrande contradição visível no Brasil. Líderes e governantes falam mas agem de formadiferente, são os paradoxos dos brasileiros, presentes também no projeto de construção daidentidade nacional brasileira. Procura-se uma representação própria para o Brasil, entretantonegam as identidades marcadamente nacionais como os sertanejos, por exemplo, e seinspiram em culturas fortemente influenciadas por uma civilização européia. Zé Bebelo transforma-se também em um dos lideres dos jagunços. E esta identidadeapresenta o desejo de obter conhecimento, jagunço também pensa, também quer aprender,também é capaz de transformar: Zé Bebelo – ah. Se o senhor não conheceu esse homem, deixou e certificar que qualidade e cabeça e gente a natureza dá, raro de vez em quando. Aquele queria saber tudo, dispor de tudo poder tudo, tudo alterar. [...] Senhor ouve e sabe? Zé Bebelo era inteligente e valente (ROSA, 2001, p. 92). Há também em Grande Sertão: Veredas, a representação do mal, no jagunço Hermógenes,já citado anteriormente. Homem que inspira desconfiança, maldade, “era positivo pactário”(ROSA, 2001, p. 424), “era fel dormido” (ROSA, 2001, p. 186). Esta identidade representa omal pelo mal, sem uma “causa justa” para viver, “tem gente neste aborrecido mundo quematam só pra ver alguém fazer careta” (ROSA, 2001, p. 28). É a injustiça, a maldade, avingança, a traição e é o causador das guerras e mortes no sertão: “Só o Hermógenesarrenegado, senhoraço, destemido. Rúim, mas inteirado, legítimo, para toda certeza, amaldade pura. Ele, de tudo tinha sido capaz, até de acabar com Joca Ramiro, em tantasalturas” (ROSA, 2001, p. 425). Todas estas identidades marcadas e destacadas são exemplos de uma cultura sertaneja. Eesta representa uma história de tradição, poder, crenças, valores, honra, justiça, manifestaçõesfolclóricas e míticas, envolve o imaginário, o sagrado, o mistério, o real e o ireal, identidadeque revela o oculto e o “indizível”, mas de uma maneira de ser mágica e envolvente quecativa desde a criança ao adulto que já se acha cheio de certezas, desde o ignorante ao homemda ciência que se pergunta: “Será”? Como esta identidade não se extingue e ainda sobreviveno mundo moderno como o que é hoje? Não se extingue por que caracterizam a cultura de umgrupo forte, os jagunços, que “apesar de...” (sobre)vivem. E todas estas características fazemparte também da identidade cultural do Brasil, pois não se deve chamar identidade cultural deuma nação apenas um grupo ou comunidade cultural única, mas sim identidade multicultural,aceitando as diversidades e promovendo o envolvimento dos vários grupos culturais que
    • 28retratam o Brasil. Como foi possível visualizar, a identidade dos jagunços, embora a exclusãoe a o perfil estigmatizado, conseguem ser seres culturais por construção mesmo que para issoseja de maneira rebelde, “jagunçada” e à revelia.
    • 292 O EU E O OUTRO: RIOBALDO, UM JAGUNÇO FILOSÓFICO. Guimarães Rosa ao construir a identidade cultural do jagunço em Grande Sertão:Veredas, quebra a concepção pré-formada do jagunço brasileiro. É possível visualizar essaquebra no jagunço Riobaldo. Um jagunço inteligente, letrado, apaixonado e, principalmente,questionador e filosófico. Ao longo do romance, o anti-herói2 rosiano tece um monólogo com um suposto doutor3,sobre a vida no sertão, suas leis, sua cultura; entretanto, esses questionamentos e “conselhos”sobre a vida não se restringem apenas ao ambiente sertanejo, são questionamentos universaisque transcendem ao espaço geográfico e não-geográfico do sertão. Riobaldo, ao narrar suas épicas da jagunçagem, retorna a um passado que vem delineandosua origem, sua personalidade, sua identidade: é a grande travessia do ser humano, adescoberta de si mesmo. E ao fazer esse movimento constante de transitar entre o passado, opresente e o futuro, Riobaldo vai destrinchando as veredas do seu “eu” - formadas a partir,principalmente, do olhar de um “outro” –, apresentando-se com uma identidade não fixa e, atodo instante, questionando-se e em contínuo estado de metamorfose. Esta identidadetransforma-se, porque ela se questiona, interpela-se, é uma identidade introspectiva efilosófica. Este capítulo analisa o itinerário escolhido pelo narrador do romance para se definirenquanto identidade cultural, que viaja nas veredas do sertão exterior e interior do ser humanoe tal como o local influencia-se, na maioria das vezes, pelo olhar do outro na busca constantedo homem em descobrir-se enquanto ser individual e coletivo, ao mesmo tempo.2 Anti-herói é o termo que se emprega para alguém que protagoniza atitudes referentes às do herói clássico, masque não possuem vocação heróica ou que realizam as façanhas por motivos egoístas, de vaidade ou de quaisquergêneros que não sejam altruístas. São personagens não inerentemente maus e que, às vezes, até praticam atosmoralmente aprováveis. Contudo, algumas vezes é difícil traçar a linha que separa o anti-herói do vilão; noentanto, note-se que o anti-herói, diferente do vilão, sempre obtém aprovação, seja através de seu carisma, sejapor meio de seus objetivos muitas vezes justos ou ao menos compreensíveis, o que jamais os torna lícitos.Além dos que buscam satisfazer seus próprios interesses, há também os que sofrem desapontamentos em suasvidas, mas persistem até alcançar o ato heróico. Ainda há o tipo de anti-herói que é bem próximo do herói, massegue a filosofia de que “o fim justifica os meios”.3 É relevante dizer que, embora haja duas pessoas envolvidas em um possível diálogo entre Riobaldo e o seuinterlocutor, o que de verdade realiza-se é um monólogo, no qual apenas o jagunço fala e julga-se inferior a seuouvinte, que é doutor da cidade: “Sou só um sertanejo, nessas altas idéias navego mal. Sou muito pobre coitado.Inveja minha pura é de uns conforme o senhor, com toda leitura e suma doutoração” (ROSA, 2001, p. 30). O quese percebe é que Guimarães inverte os papéis definidos na sociedade, e como afirma Bolle (2004) é o sertanejoque é o dono absoluto da fala, e o doutor da cidade é reduzido a um simples ouvinte “a inversão dos papéiscostumeiros é uma estratagema de Guimarães Rosa para chamar atenção sobre o desequilíbrio de falas entre asforças sociais” (BOLLE, 2004, p. 40).
    • 302.1 O viver perigoso: a travessia de Rio (Baldo) ou a travessia de si mesmo. Riobaldo, personagem central de Grande Sertão: Veredas, um ser que procura encontrar-se com uma identidade estável e formada; entretanto, em todo o enredo, percebe-se um sujeitofragmentado, desorientado, em busca do reconhecimento de sua identidade. De acordo com Hall, “[...] as velhas identidades que, por tanto tempo estabilizaram omundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando oindivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado” (2006, p. 7). Uma identidadenão estável diante do caos do mundo pós-moderno: Riobaldo é um personagem que, aoquestionar e procurar respostas sobre a vida, envereda-se em um processo de formaçãoidentitária, tanto para si mesmo como para o “outro” que participa, direta ou indiretamente,deste processo. O romance de Rosa, Grande Sertão: Veredas, tem a travessia do rio São Francisco feitapor Riobaldo, ainda criança, com o “menino mocinho”, Diadorim como uma das primeirascenas marcantes: Aí pois, de repente, vi um menino, encostado numa árvore, pitando cigarro. [...] Mas eu olhava esse menino, com um prazer de companhia, como nunca por ninguém eu tinha sentido. Achava que ele era muito diferente, gostei daquelas finas feições, a voz mesma, muito leve, muito aprazível. [...] Ele se sentou. Mas, sério naquela sua formosa simpatia, deu ordem ao canoeiro, com uma palavra só, firme mas sem vexame: - Atravessa! [...] Eu tinha o medo imediato. [...] Quieto, composto, confronte, o menino me via – “carece do ter coragem...” -ele me disse. [...] O menino está molhando as mãos na água vermelha, esteve tempo pensando. Dando fim, sem em encarar, declarou assim: “Sou diferente de todo o mundo. Meu pai disse que careço de ser diferente, muito diferente...”. E eu não tenho medo mais. Eu? O sério pontual é isto, o senhor escute, me escute mais do que estou dizendo; e escuta desarmado. O sério é isto, da estória toda – por isto foi que a estória eu lhe contei -; Eu não senti nada. Só uma transformação, pesável [grifo meu]. Muita coisa importante falta nome (ROSA, 2001, p. 118-125). Essa travessia realizada por Diadorim e Riobaldo foi uma de suas primeiras. Principiacom a mudança que representará o início de uma travessia maior que a física para o narradorde Grande Sertão: Veredas: a travessia que transcende o espaço do sertão, adentrando as
    • 31veredas interiores de Rio(Baldo), o rio que é baldo4, que falta, que carece, um ser que sente anecessidade de algo que o complete e que o preencha para a grande travessia do homem, adescoberta de si mesmo, atravessar os mares da dúvida, da insegurança, do medo de ser um“eu” real e, como afirma Márcia Morais, “através das „más devassas no contar‟ de Riobaldo,se pôde perscrutar (ainda que por breve amostragem friso) um sujeito, buscando encontrar-secomo um eu perdido e marcando-se como individualidade, ao atravessar seus fantasmasmíticos e primitivos” (2001, p. 170). Neste primeiro encontro de Riobaldo e Diadorim, o narrador do romance de Rosa percebea sua necessidade de fazer a travessia, evoluir de uma identidade ainda vazia e estéril a umaidentidade que se estabeleça enquanto um ser autônomo e mais “eu”, seguro e corajoso. Essaevolução representa uma transição do estágio de uma identidade insegura, medrosa, instável eque não reconhece seus desejos e objetivos de vida, como é o caso de Riobaldo; eledesconhece a razão e o sentido para viver e se encontra no meio da jagunçageminvoluntariamente despercebido quanto ao significado da travessia do sertão interior eexterior; esta travessia talvez o conduza ao estágio de uma identidade forte, determinada,segura, apta ao delineamento de metas, firme quanto aos desejos próprios, resistente aosmoldes contínuos de outros; uma identidade cultural múltipla, mas que precisa ter suasindividualidades definidas, já que Riobaldo possui uma identidade fortemente influenciadapor esses “outros”. Em Diadorim, o menino moço, Riobaldo visualiza um ser, um molde a seguir de umaidentidade completa e formada: Em todo o episódio Diadorim já era Diadorim, estava pronto, e a atração que Riobaldo sentiu por ele não era tanto devida a sua ambigüidade, uma menina vestida de menino, do que ele nem desconfiava, mas devido ao seu acabamento, por ele ser tudo aquilo que ele não era e, talvez invejasse e gostasse de ser. Foi aí que Riobaldo o elegeu como modelo a ser alcançado e Diadorim o adotou como alguém carente, que precisava de cuidados e proteção (RONCARI, 2004, p. 68). Riobaldo ao narrar a sua saga de jagunço desde a sua primeira travessia até a vitóriacontra os “hermógenes5”, vai tecendo o encontro e a descoberta de si mesmo. A sua travessiapor todo o sertão com a finalidade de vingar a morte de Joca Ramiro, pai de Diadorim;representa também, um viagem de auto-conhecimento, esse “viver perigoso” mencionado4 Segundo Aurélio, baldo apresenta duas acepções: “barragem ou parede para represar as águas de um açude”;“falso, falho, carecido, carente. Que, no carteado, não tem determinado naipe” (FERREIRA, Aurélio Buarque deHolanda. Novo dicionário da Língua Portuguesa. 2. ed. rev. e amp. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.224.5 Palavra, aqui, escrita em minúsculas para seguir a estrutura do livro em análise.
    • 32pelo personagem de Grande Sertão: Veredas, diversas vezes no romance. O perigo de sedescobrir enquanto ser individual e, ao mesmo tempo, coletivo, ainda não formado, queprecisa de uma grande travessia do sertão interior, que há dentro de cada coração, cadaessência e identidade para se auto-firmar. Atravessar o sertão que há dentro de si e todas asveredas da alma humana: seus medos, seus fantasmas, suas fragilidades. Riobaldo fala datravessia do sertão, do rio, de Rio(baldo); ele é o próprio rio que atravessa as veredas dosertão interior, o rio que transmite medo e ao mesmo tempo é guia, rio com águas baldias oraescuras ora vermelhas, e só no fim, claras como os olhos de Diadorim, no momento de suamorte, quando ele descobre a mulher em seu jagunço-amor. Este Rio(baldo) tenta desbravartanto um sertão indomável como o seu interior, investigado, analisado, questionado eatravessado; um sertão em que poucos conhecem, a que poucos têm acesso e ao analisarquestões filosóficas sobre a vida, o medo, o amor, o crer/não crer, o homem, a vingança, deforma introspectiva tentando descobrir o sertão que povoa sua alma, esse ser ainda emformação. E o próprio Riobaldo reconhece diante do seu interlocutor, o doutor, que não estáapenas narrando um sertão visível a todos, ele reconhece em seu monólogo, que narra umsertão visualizado por poucos que se arriscam a entrar ou enveredar-se pelos seus diversoscaminhos sem se perder ou perder de vista o ponto de chegada; é um sertão que transcende oespaço físico e geográfico e concentra-se no interior de cada ser humano, este é o grandedesafio: Eu queria decifrar as coisas que são importantes. Estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria vertente. Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe! [...] Assim é como conto. Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei [grifo meu]. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas – e só essas poucas veredas, veredazinhas (ROSA, 2001, p. 116). Nestes dois sertões, interior e exterior, constrói-se a identidade de Riobaldo, em seusquestionamentos, em suas teorias, em sua filosofia de vida. Identidade que se forma emrelação a um “outro” e a um meio que estimula um ser social que é produzido: Não é fácil concordar com o fato de que, do ponto de vista sociológico, toda e qualquer identidade é construída. A principal questão, na verdade, diz respeito a como, a partir de quê, por quem, e para quê isso acontece. A construção de identidades vale-se da matéria-prima fornecida pela história, geografia, biologia, instituições produtivas, pela memória coletiva e por fantasias pessoais, pelos aparatos de poder e revelações de cunho religioso (CASTELLS, 2006, p. 23).
    • 33 A identidade cultural deste jagunço é reflexo de tudo que ele narra, o seu passado,presente e futuro no sertão, formando e modelando este ser cultural e o aspecto importantedestacado no romance por Guimarães Rosa, através de seu personagem, é a possibilidadedesta construção e/ou transformação identitária, tanto de “formar” ou “desformar” o “eu”: “Osenhor ... Mire e veja: o mais importante e bonito do mundo, é isto: que as pessoas não estãosempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam oudesafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou” (ROSA, 2001, p. 39), como ele, queainda não está completo. Isto porque, entre outros motivos, a identidade cultural do sujeitopós-moderno está em mutação constante, influenciado principalmente por elementos diversosque constituem a multiplicidade do sujeito: Como há em nós identidades contraditórias, nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas, em função de elementos nacionais, culturais, de gênero, de classe social, de posição política e religiosa, enfim, das várias identificações que formam o sujeito mosaico de nossa era (FIGUEIREDO; NORONHA, 2005, p. 191). E nesta travessia Riobaldo se (re)descobre e tenta formar uma identidade que o faça sereconhecer. Entretanto, esta não é uma tarefa única do “eu” de Riobaldo. Para que consigarealizar a travessia, ele sofre a influência de um fator decisivo nesta construção identitária: oolhar do “outro”, e a essência desse “outro” participa diretamente da formação do “eu” dojagunço rosiano.2.2 “Mire e Veja”: Riobaldo, a identidade dialética. O jagunço Riobaldo narra toda a sua história a um interlocutor que não participadiretamente do memorial de vida deste contador de sagas. É um “outro” que apenas ouve estecontar. Todavia, há “outros” narrados neste “prosear” que dialogam com a identidade deRiobaldo, significando mais que ouvintes passivos ou meros indivíduos que passaram natravessia de Riobaldo, são “outros” que marcaram e fizeram parte da formação identitáriadeste jagunço. O olhar do “outro” em toda a história da humanidade representou e representa um fatorimportantíssimo na formação do “eu” do ser humano. É um olhar que penetra intimidando-o anão ser livre e autônomo em relação à própria identidade. É a presença do “outro” que muitas
    • 34vezes, determina e/ou atrapalha a ação do “eu” como um juiz e um revelador da formação do“eu”: No humanismo existencialista sartreano, a transcendência é a superação do Homem dada por este movimento de projetar-se no Outro e de retorno a si mesmo. É superação enquanto que constante construção do Eu, um constante vir a ser. Com isto, o conceito de transcendência transcendida corresponde à própria existência do Outro que confere à minha transcendência um atributo de estar fora de, externa ao Eu. O Outro transcende a minha transcendência (JACOBY; CARLOS, 2005, p. 50). Riobaldo é um “eu” em formação que estabelece uma relação constante com o “outro”para constituir-se enquanto identidade cultural no sertão brasileiro. “Riobaldo não é umsujeito pronto” (RONCARI, 2004, p. 60), é uma identidade em construção que “[...] seguiaum modelo materno, feminino, guiados pelos afetos e vivia o vazio da falta do pai, o que oobrigava a buscá-lo fora, entre os outros homens que cruzavam o seu caminho e que eleadmirava, respeitava ou odiava” [grifo meu] (RONCARI, 2004, p. 61). E a partir destes“outros”, que apareciam em sua travessia pelos dois sertões, o interno e o externo, estaidentidade se projetava e se estabelecia, ora assimilando a sua identidade características queele percebia neste “outro”, ora as rejeitava, tentando assim, definir sua personalidade, o seupróprio “eu”. Riobaldo demonstra no romance insegurança diante do que ele era e o que não era: “Anteso que me atanazava, a mor – disso crio razoável lembrança – era o significado que eu nãoachava lá, no meio onde eu estava obrigado, naquele grau de gente” (ROSA, 2001, p. 196).Era um ser que por não saber quem era, frustrava-se por não se reconhecer em lugar nenhum,não se encontrava, não sentia prazer em suas ações como os outros tinham: [...] conheci que estava chocho, dado no mundo, vazio de cada banda que eu fosse, e eram pessoas matando e morrendo, vivendo numa fúria firme, numa certeza, eu não pertencia a razão nenhuma, não guardava fé e nem fazia parte (ROSA, 2001, p. 158). A sua insatisfação com a vida era devido, entre outros motivos, a sua identidade nãoformada, em construção. E neste processo, a identidade do “outro” que o circundava,dialogava com sua identidade, a qual influenciava sua formação. Identidades boas ou más,frágeis ou fortes, corajosas ou sensíveis, todas elas faziam parte da formação desse “eu” emsua travessia. Entre esses “outros” que participaram da formação identitária do jagunço Riobaldo, JocaRamiro e Medeiro Vaz foram dois chefes justos e corajosos que cruzaram o caminho donarrador de Grande Sertão: Veredas:
    • 35 Contracenando com a figura de Hermógenes, estão Joca Ramiro e Medeiro Vaz, através dos quais se exibem os signos da justiça, da ordem, da autoridade, da obediência, da glória, da amizade, da prudência, da bondade, da honra, do poder benéfico (HOISEL, 2006, p. 150). Esses chefes influenciaram a formação identitária de Riobaldo, com seus códigos de honrae justiça, jagunços que estimularam a admiração deste, respeito e obediência: [...] Joca Ramiro era único homem, par-de-frança, capaz de tomar conta deste sertão nosso [...]. Fato que Joca Ramiro também igualmente saia por justiça e alta política, mas só em favor de amigos perseguidos; e sempre conservava seus bons haveres. Mas Medeiro Vaz era duma raça de homem que o senhor mais não vê; eu ainda vi (ROSA, 2001, p. 60-1). Havia também um “outro” que dialogava e fazia parte da constituição da identidade deRiobaldo, um terceiro chefe: Zé Bebelo. Um jagunço sonhador que se interessava em questõespolíticas. Entretanto Riobaldo tinha um “outro” que apesar de representar o mal, a crueldade ea injustiça, também fazia parte da constituição da identidade do narrador, de Grande Sertão:Veredas: “Em diversas passagens da fala de Riobaldo, ele pontua sua identidade comHermógenes, portanto, com as forças maléficas, com o mundo desgovernado dos jagunços”(HOISEL, 2006, p. 152). Com esse mal, essa traição, esse crime e esse poder maléfico, representados porHermógenes, a identidade de Riobaldo também dialoga. Esta identidade cultural de Riobaldo,destacado por Rosa em Grande Sertão: Veredas é uma identidade fragmentada e constituídapor diversos “outros” e “eus” que fizeram a travessia com Riobaldo, não só esses personagenscitados, mas todos aqueles que estabeleceram um diálogo e uma relação de troca com esse“eu” que faz uma viagem ao narrar a sua própria história de vida de jagunço no sertãoinventado por Guimarães Rosa, como defende Evelina Hoisel: No meio do turbilhão, das ondas, Riobaldo foi um Hermógenes, um Joca Ramiro, o que atesta ainda essa ambivalência constitutiva do jagunço Riobaldo. [...] Como chefe jagunço, Zé Bebelo não tem a dimensão que caracteriza os dois grandes chefes Joca Ramiro e Medeiro Vaz. Entretanto, é através dele que Riobaldo compreende o significado da guerra sem fim e perversa do sertão, pois Zé Bebelo não tem interesses definidos, a não ser a própria guerra (2006, p. 153-4). Estes tipos de identidade, identidades dialéticas, que o personagem Riobaldo tentaconcluir a sua travessia. Dialéticas porque são contraditórias, mas que constitui o “eu” deRiobaldo, são identidades diferentes e opostas que formam a unidade imaginada do narrador-
    • 36Riobaldo, oposições que se unem, se entrelaçam, se enveredam por um Rio(baldo) queassimila as identidades outras que o circundam e o rodeiam, embora a diferença e oposições:bem/mal, forte/fraco, Deus/Diabo, mulher/homem; “Pode-se afirmar que as identidades,complexas e múltiplas, nascem de uma oposição a outras identidades, baseando-se emformações discursivas imaginárias e não na razão” (FIGUEIREDO; NORONHA, 2005, p.202). Riobaldo é o resultado das suas vivências com essas identidades dialéticas, oposiçõesque se resolvem em unidades provisórias: A dialética é o princípio de todo o movimento e de toda a atividade que encontramos na realidade. Tudo o que nos rodeia pode ser considerado como uma instância da dialética. Sabemos que tudo o que existe como finito, em vez de ser estável e último, é antes mutável e transitório. Essa dialética é manifesta no movimento dos corpos celestes, nas revoluções políticas, desde a anarquia até o despotismo, como também nas oscilações emocionais. Tudo o que existe envolve aspectos opostos e contraditórios, pois a contradição é a força propulsora do mundo. [...] Os termos comuns no método da dialética são: identidade, distinção, oposição, contradição [grifo do autor]. O princípio de identidade é dinâmico, é uma força ativa de identificação no Espírito. A atividade identificadora se realiza progressivamente, superando a desigualdade que se manifesta no decorrer do processo dialético; ela é a autoconsciência que se realiza e reconhece através das suas próprias determinações. A identidade contém dentro de si a diversidade e a distinção: só o diverso e o distinto se verificam e identificam (GILES, 1979, p. 20- 1). São estas identidades dialéticas que o narrador-Riobaldo procura estabelecer em sienquanto ser cultural autônomo. Todavia, para alcançar seu objetivo de descobrir a si mesmo,pelas veredas do sertão, ao mesmo tempo em seu sentido restrito e amplo, Riobaldo questionae interroga a si mesmo a respeito desta identidade que se forma, questionadora, mas que oimpulsiona ao mundo tão dialético quanto ele mesmo.2.3 Riobaldo: interrogando identidade Mas afinal quem é esse que questiona a identidade? Quem é esse ser filosófico quediscorre opiniões e conselhos sobre a vida do homem? Uma identidade que interroga sobre simesmo, sobre seus medos, suas angústias, o seu “eu”, seu amor, sua força e sua fé: “o jagunçoRiobaldo. Fui eu? Fui e não fui. Não fui! – por quê? Não sou eu, não quero ser” (ROSA,2001, p. 232). Riobaldo é aquele que se encontra no “outro” e foge dessas descobertas. Eleconvive em todos os tempos do romance, passado, presente e futuro, em uma constante
    • 37interrogação: o que é bom e o que é mal? Deus existe? O diabo existe? É uma personagemque persiste em questionar e não encontrar respostas concretas, só aprendeu que é precisocompletar a travessia, viver não. Riobaldo pergunta: “Quem sabe direito o que uma pessoaé?” (ROSA, 2001, p. 285), esta é a interrogação que ele lança e o que ele sabia era que a suaidentidade não era formada ainda: “Então, eu não era jagunço completo” (ROSA, 2001, p.374). Riobaldo reconhecia sua falta e o que o preocupava bastante, era a ausência dasrespostas para as suas inquietações, seus questionamentos diante desta sociedade a qual, traçauma linha tênue separando os lados opostos, como o bem e o mal, o certo e o errado, Deus e odiabo, o belo e o feio e, nessa sociedade, o ser humano encontra-se em uma grandeencruzilhada para decidir por qual vereda seguir, qual postura assumir em sua totalidade, istoporque, no mundo maniqueísta que se vive atualmente, uma alternativa exclui a outratotalmente: Que isso foi o que sempre me invocou, senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero todos os pastos demarcados... como é que posso com este mundo?[grifo meu]. A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado... [grifo meu] (ROSA, 2001, p. 237). Ele relata a realidade da sociedade maniqueísta, mas no final do trecho, pergunta: “Comoé que posso com este mundo?” (ROSA, 2001, p. 237). O que fazer diante dessa exigência deseparações sendo que “este mundo é muito misturado...”? (ROSA, 2001, p. 237). Rosa, aoexpor essa situação através das dúvidas e interrogações do jagunço Riobaldo, expõesimultaneamente as dificuldades a que o sujeito pós-moderno está exposto na busca edefinição de sua própria identidade, uma travessia difícil e repleta de incertezas. Riobaldo persiste com a idéia de que existe a separação das coisas, que há apredominância da visão maniqueísta da sociedade: O que mais digo: convém nunca a gente entrar no meio de pessoas muito diferentes da gente [...] O que assenta justo é cada um fugir do que bem não se pertence. Parar o bom longe do ruim, o são longe do doente, o vivo longe do morto, o frio longe do quente, o rico longe do pobre (ROSA, 2001, p. 405). É uma crítica feita com veemência à divisão do pensamento, pois “[...] ao que, este mundoé muito misturado” (ROSA, 2001, p. 237). É a diversidade na unidade. Riobaldo aponta asegregação, entretanto, ele reconhece que é impossível manter uma linha divisória. O próprioRiobaldo vive se questionando entre pontos opostos, todavia não se decide apenas por uma
    • 38alternativa, ele transita entre as oposições, ora sendo uma ora sendo outra, retratandojustamente o sujeito pós-moderno, fragmentado e não estável, citado por Hall (2006). Sujeito pós-moderno, este, que mesmo fragmentado, faz parte de um todo que constitui aidentidade cultural de uma nação; neste caso, o jagunço do sertão, é uma parte que forma omosaico-Brasil, com sua grande diversidade cultural. Embora o povo do sertão tenha sidomarginalizado naquilo que foi considerado na história como nacional, ele é um grupo quepossui uma riqueza cultural digna para fazer parte deste Brasil múltiplo, é a parte do todo,expondo a diversidade na unidade. Mais uma identidade cultural que busca o seureconhecimento: Fala-se em identidade cultural quando se quer referir a grupos que não se apóiam em um Estado-Nação, mas que reivindicam a pertença a uma cultura comum. Nesse caso, não se mobiliza a referência geográfica, e a tendência desses movimentos é ser transnacional, baseando-se em categorias tão diversas como raça, etnia, gênero, religião. Todavia, também nesse caso, trata-se de determinar um patrimônio comum e difundi-lo. Isso implica na revisão da história e no questionamento da cultura hegemônica, que não os incluiu na busca de antepassados, na criação de uma linhagem, na escolha de símbolos e até mesmo, por vezes, no estabelecimento, senão de uma língua, ao menos de uma linguagem. Os processos de construção de identidade coletiva, nacional ou cultural, são, todavia, similares no que tange ao estabelecimento de um modelo com o mesmo fim, ou seja, o reconhecimento. O que os distingue, como explica Taylor, é o fato de que, quando se trata de grupos minoritários, ser reconhecido não é uma “necessidade”, mas uma “exigência” junto aos interlocutores com os quais esses grupos, cada vez mais específicos e numerosos nas sociedades democráticas, dialogam (FIGUEIREDO; NORONHA, 2005, p. 200). Percebe-se, portanto, que este sujeito confuso, dividido e que procura o seu auto-reconhecimento, prossegue a sua travessia, em descobrir o sertão interior e o exterior,questionando-se e interrogando as razões de ser do mundo, do sertão e do “eu” em sua épicafilosófica, marcando a sua diferença perante o estereotipo criado a cerca do jagunço brasileiro.Guimarães Rosa, ao criar o personagem Riobaldo, um novo jagunço, estabelece umaidentidade cultural que tenta desconstruir a concepção popular de jagunço, o qual,compreende em sua trajetória pelas veredas identitárias, o lirismo rosiano em sua revisão doser(tão), que será analisado no próximo capítulo.
    • 393 LIRISMO X ROSA: UMA DIALÉTICA REVISÃO DO SER(TÃO). Guimarães Rosa traça a travessia do sertão através de Riobaldo, em Grande Sertão:Veredas, vinculada à travessia existencial. A descoberta dos sertões e suas veredas. Sãoconstruções e maneiras diferentes de visualizar o sertão, o Grande Sertão e o jagunço o Brasil. A história brasileira e também a literatura construíram definições sobre o sertão e os seusjagunços de maneira, muitas vezes, excludentes ou pejorativas. A imagem do jagunço foivinculada, até mesmo pela imaginação do popular, ao insensível, à violência, ao vazio desentimentos e emoções dentre outras construções e conceitos a respeito dos jagunços e seumodo de vida. Rosa, entretanto, ao criar o sertão em Grande Sertão: Veredas, desconstrói conceitos,reinventa e/ou recria um sertão diferente, e um jagunço que quebra com os preconceitosestabelecidos pela sociedade; é uma revisão dialética do ser(tão), no qual, o escritor mineiro,deixa transparecer a lírica em um jagunço, uma identidade cultural, que, para muitos, seriaincapaz de carregar, em sua essência, esta característica enquanto sujeito individual/coletivo. Neste capitulo, investiga-se a maneira como Rosa cria um jagunço que transborda lirismoe emoções em um sertão que transcende ao espaço físico e geográfico; um sertão que époetizado através da lírica de um jagunço filosófico e tem o dom da dialética.3.1 Literatura e cultura: interstícios inaugurais da imagem jagunça. Guimarães Rosa foi um escritor que soube representar o sertão brasileiro, na literatura,com grande maestria e inteligência. Rosa transformou a tradição literária não apenas por suarevolução e “reativação6” da palavra e sua linguagem, mas também pela sua leitura de mundoatravés de seus personagens e suas histórias. Rosa apresenta o primitivo universo do sertão6 Guimarães pode ser considerado um reativador da palavra, justamente por ir à essência da palavra, exaltando oseu significado, indo à sua origem e seus reflexos, para reativar o poder das palavras que, muitas vezes, já foidesgastado pelo dia-a-dia, perdendo assim, sua beleza e encanto; a maneira como Guimarães utiliza e reelabora apalavra, reescrevendo-a em um elaborado jogo da linguagem em suas produções, promove um impacto intensono leitor a partir da reflexão provocada pelo seu texto, através do modo particular de uso e significado da palavrana sua comunicação e linguagem.
    • 40em um contexto de uma sociedade moderna que desconhece e nega a formação de valores dosertão arcaico brasileiro: A revolução rosiana que, de início, deixara em perplexidade grandes parcelas da inteligência brasileira, precisamente aquela em que predomina o ranço conservador, lentamente começou a criar uma crítica e um auditório predispostos não só à sua avaliação estilística como ainda em erigir em padrões (os inefáveis epígonos) os valores que nele se inscrevem [...] A grande revolução guimarosiana consistiu em romper, dialeticamente (conservá-la, ultrapassando, no conceito hegeliano), essa forte tradição da inteligência brasileira (COUTINHO, 2004, p. 479-480). A partir desta revolução na tradição literária, Rosa traz à tona a questão da culturasertaneja no espaço da literatura nacional. Até onde a literatura chegou, até o momento emque Guimarães não tinha produzido sobre o sertão e suas veredas, para definir e captar aessência desse espaço físico e existencial? Como foi representada a imagem jagunça comoidentidade cultural na nação brasileira? Vários escritores ao longo da literatura brasileira empenharam-se, intencionalmente ounão, na tentativa de construir uma identidade cultural sertaneja. Em “A Bagaceira” de José deAmérico publicado em 1928, há, como foco, a identidade do sertanejo retirante. Ao longo doromance ele aponta e caracteriza aspectos de uma identidade múltipla e rica culturalmente – osertanejo. Uma identidade diversa e também fragmentada por uma realidade cruel, a seca,causadora de tanto sofrimento a um povo tão alegre e forte como o autor expõe nesteromance. A narração do romance inicia-se com a chegada de um grupo de retirantes, pessoasque vêm fugindo da miséria que alastrava a sua terra, eles vinham “expulsos do seu paraísopor espadas de fogo, fugiam do sol e o sol guiava-os” (ALMEIDA, 2004, p. 08). A construçãoda identidade começa a se estabelecer principalmente neste momento: indivíduos quepareciam “mais mortos que vivos” (ALMEIDA, 2004, p. 08). A identidade formava-se apartir do vazio da alma, da essência de vida desses retirantes que migravam sem rumo e comoo narrador afirma: “Não tinham sexo, nem idade, nem condição nenhuma. Eram retirantes,nada mais”. (ALMEIDA, 2004, p. 08). Suas identidades pareciam ter sido extraídas nomomento em que foram forçados a saírem de sua terra. No final do romance, o narrador de “Abagaceira” mostra uma outra face da identidade do sertanejo: a esperança renascida com a“ressurreição” da terra pela chuva. Neste momento, renascem também os sonhos, a fé, asalmas que encontravam-se vazias, “mortas”, no início do romance. Mas infelizmente o ciclorecomeça; as últimas páginas terminam com a mesma cena dos primeiros capítulos: a secanovamente. O ciclo da chuva define a identidade sertaneja neste romance.
    • 41 Graciliano Ramos, em seu romance Vidas Secas, publicado em 1938, descreve também osertanejo com uma formação identitária constituída a partir do ciclo da chuva. A escassez deágua, a seca, forma o sujeito com identidades vazias, por conta, principalmente, da misériaque os personagens vivenciavam, o homem igualando-se a condição de animal, provocadapelo meio retratado. Na produção literária de João Cabral de Melo Neto: Morte e Vida Severina, a identidadesertaneja construída é a de um sujeito que sofre também a seca do nordeste e tem anecessidade de exilar-se de sua própria terra em busca de melhores condições de vida. Nestepercurso, Severino, vai traçando “morte e vida severina”, onde nordestinos são iguais:“Somos muitos severinos iguais em tudo na vida” (MELO NETO, 1994, p. 46), nosofrimento, na dor e na angústia; todavia procura definir as peculiaridades e asindividualidades do sujeito, ainda que neste espaço de sofrimento e morte: “Como então dizerquem fala ora a vossa Senhorias?” (MELO NETO, 1994, p. 45). São homens do sertão,buscando construir a identidade apesar das influências do meio sertanejo. Em Os Sertões, de Euclides da Cunha, é possível fazer uma comparação entre a identidadesertaneja criada neste romance com a de Grande Sertão: Veredas. Na obra do jornalistaEuclides da Cunha, apresentam-se dois tipos de sertanejos, um fortemente influenciado porteorias científicas e preconceituosas; outro presente em “uma narrativa épica, em que os„jagunços‟ são estilizados em heróis tragicamente extintos” (BOLLE, 2004, p. 38). Euclides vê o sertanejo totalmente adaptado à vida na caatinga. Ela “reflete” sua natureza selvagem, é “talhado à sua imagem”, “incostante” como ela, em seus momentos de exuberância (no “verde”) e penúria extrema (na “seca”). Para Euclides, a terra condiciona o homem e o homem condiciona a luta, num esquema determinista, que vinha dos pensadores naturalistas e positivistas do século XIX. Em “pé-duro” se há uma relação entre ambos, ela é horizontal: homem e natureza “compertecem”. Em Grande Sertão: Veredas, se a terra, o homem e a luta também estão presentes, no entanto, não há nenhuma relação causal: “Os três estão mais ou menos no mesmo plano, todos embaralhados, e não se pode dizer que o homem é fruto daquele meio. De certa maneira, o homem faz o meio, mas a luta também faz o homem”7 (FANTINI, 2008, p. 321). Guimarães cria um jagunço diferente do visto até então. O jagunço Riobaldo é umdiferencial. Apesar de apresentar um jagunço forjado no calor da cultura sertaneja em seuestado primitivo, arcaico e enraizado em tradições sertanejas, com valores éticos e modos de7 Ana Luiza citou um trecho da entrevista de Antônio Cândido realizada por ela e Raul Soares gravada para odocumentário: os nomes do Rosa: CANDIDO, Antonio. SP, dez. 1996. Entrevista gravada para o documentário.Os nomes do Rosa, exibido na GET/NET, em dez de 1997. Roteiro e pesquisa de Ana Luiza Martins Costa eRaul Soares.
    • 42vidas peculiares ao sertanejo, suas crenças, suas manifestações culturais, é um jagunçoletrado, apaixonado, medroso, com inquietações existenciais e questionamentos. Rosaconsegue reunir, na identidade cultural deste jagunço, oposições que estão em estado decomunhão, que se cruzam, misturam e se confortam, formando um todo fragmentado e emconstante mutação e reflexão. Neste jogo identitário, Rosa inaugura, na literatura, uma imagem de um novo jagunço, umnovo constituído também de um antigo, uma identidade cultural que, embora inventado nosertão geográfico, transcende a esse espaço cultural, universalizando-se, comprovando a suagrande literariedade. “Detrás da pele áspera do jagunço, há um coração para sempre ferido,um surpreendente filósofo do amor no sertão do Brasil, sem Henri Byle e sem Denis deRougemont: solitário, meditabando, imenso” (FANTINI, 2008, p. 241). Guimarães estimula a ruptura com o estereotipo criado da imagem jagunça e inaugurauma nova imagem, uma identidade cultural diferente da pré-formada na imaginação dopopular, é a desconstrução da identidade jagunça no personagem Riobaldo. Um jagunço quetransborda sentimentalismo, emoção, poesia, enfim, que possui a lírica à flor da pele em suatravessia da vida e do sertão. É a maneira como Rosa expõe a lírica no anti-herói de GrandeSertão: veredas e a desconstrução do popular que ressignifica uma tessitura de texto singularem essência e imaginação.3.2 A lírica e o anti-herói rosiano: a desconstrução do popular. Rosa abre caminho na literatura brasileira na inauguração da imagem jagunça em GrandeSertão: Veredas. Ele cria um jagunço que transpira emoção, poesia, sensibilidade esentimentos jamais imaginados nesta identidade cultural sertaneja. Um sujeito lírico em suasnarrativas épicas e em sua travessia pelo sertão e suas veredas; nesta viagem introspectiva, oleitor desta obra reconfigura o que até então visualizava-se neste personagem do sertão, tãofocalizado e discutido: o jagunço brasileiro. O jagunço estereotipado no pensamento popular foi vinculado sempre à violência, aocrime, à desordem, à injustiça, à crueldade, à falta de sentimentos e à coragem. Um sujeitovisto como mal encarado, áspero, barroco, “mal polido” e sem habilidade com a linguageme/ou expressão oral. Todavia, ao confrontar esta imagem jagunça fixada até então ao jagunçoRiobaldo de Guimarães Rosa é possível visualizar uma ruptura e/ou quebra da construção do
    • 43popular. Isto porque, embora a jagunçagem descrita no romance Grande Sertão: Veredasapresente aspectos em comum com os já estabelecidos como a violência, o crime, a crueldade,dentre os fatores citados, é um novo olhar sobre esses mesmos aspectos, e sobre a identidadecultural deste jagunço: Os Sertões e Grande Sertão: Veredas, cuja matéria histórica comum a guerra no sertão, são retratos do Brasil sob o signo da violência e do crime. Os protagonistas são em ambos os casos os “jagunços”, mas o sentido deste termo nos dois livros é muito diferente. O nome “jagunços” é atribuído por Euclides da Cunha de forma bastante arbitrária aos rebeldes religiosos de Canudos, que foram aniquilados pelo Exercito brasileiro na campanha de 1897, conforme relata o próprio ensaísta. Já em Guimarães Rosa – que apresenta uma história ficcional (aproximadamente da mesma época) de lutas de potentados locais, como aliados ou opositores do Governo, mas sobretudo entre si - , os “jagunços”, de acordo com a acepção mais comum da palavra, são os capangas ou pistoleiros que constituem aqueles exércitos participantes. A palavra “jagunço” e a instituição da jagunçagem revestem-se, assim, de importância estratégica para se compreender o fenômeno da violência e do crime no Brasil. Ao retratar o país sob o ângulo da jagunçagem, Guimarães Rosa traz à tona o componente de violência que está na origem de todo poder constituído. No enfoque de considerar Grande Sertão: Veredas uma reescrita crítica d‟Os Sertões, pode dizer, com uma formulação extrema, que esse romance, narrado por um jagunço letrado, coloca em debate a maneira tendenciosa e arbitrária com que o letrado Euclides da Cunha apresenta o jagunço. O romancista move, por assim dizer, um processo contra o ensaísta-historiógrafo, em nome da autenticidade da língua e da verdade dos fatos. A história é narrada de forma que o leitor compartilhe com o protagonista a iniciação ao mundo jagunço, que é como a aprendizagem de uma língua, em que se trata de aprender e reaprender o significado da palavra “jagunço” no contexto político, social e econômico do Brasil (BOLLE, 2004, p. 91-2). Analisando o primeiro ponto citado, a jagunçagem e sua violência no Brasil, Rosa, atravésde seu personagem Riobaldo, mostra estas violências como formas de defesa de um sistemaexcludente que marginaliza o povo do sertão, são atos violentos, mas reflexos de outrasviolências, mas talvez até justificáveis pelas leis do sertão: Medeiro Vaz não era carrancista. Somente de mais sisudez, a praxe, homem baseado [...] O que tinha sido antanha a história mesma dele, o senhor sabe? Quando moço, de antepassados de posses, ele recebera grande fazenda. Podia gerir e ficar estadonho. Mas vieram as guerras e os desmandos de jagunços – tudo era morte e roubo, e desrespeito carnal das mulheres casadas e donzelas, foi impossível qualquer sossego, desde em que quando aquele imundo de loucura subia as serras e se espraiou nos gerais. Então Medeiro Vaz, ao fim e forte pensar, reconheceu o dever dele: largou tudo, se desfez do que abarcava, em terras e gados, se livrou leve como se quisesse voltar a seu só nascimento. [...] Daí, relimpo de tudo, escorrido dono de si, ele montou ginete, com cachos d‟armas, reuniu chusma de gente corajada, rapaziagem dos campos, e saiu por esse rumo em roda, para impor a justiça. [...] Quando conheceu Joca Ramiro, único homem, par-de-frança, capaz de tomar conta deste sertão nosso, mandando por lei, de sobregovêrno. Fato que Joca Ramiro também igualmente saía por justiça e alta política, mas só em favor de amigos perseguidos; e sempre conservava seus bons haveres (ROSA, 2001, p. 59-60).
    • 44 No sertão existe a jagunçagem violenta que aterroriza este espaço, “Sertão é o penal, ocriminal” (ROSA, 2001, p. 126), no entanto, a própria jagunçagem cria meios de defesa,como é perceptível no trecho acima; Medeiro Vaz e Joca Ramiro, dois chefes jagunços quesaem pelo sertão justiçando e protegendo o sertão, a jagunçagem justa protegendo contra aprópria jagunçagem sem sentido, é o sistema-jagunço narrado em Grande Sertão: Veredas.São as leis criadas no/pelo sertão, já que, muitas vezes, este espaço é excluído emarginalizado da chamada sociedade brasileira, o espaço nacional/cultural. Nesse sentido, osertão é forçado e tem a necessidade de criar suas próprias leis, seu próprio sistema de(sobre)vivência e (com)vivência: O julgamento? Digo: aquilo para mim foi coisa séria de importante. Por isso mesmo é que fiz questão de relatar tudo ao senhor, com tanta despesa de tempo e miúcias de palavras – “O que nem foi julgamento legítimo nenhum: só uma extração estúrdia e destrambelhada, doideira acontecida sem senso, neste meio do sertão...” – o senhor dirá. Pois: por isso mesmo. Zé Bebelo não será réu no real! Ah, mas, no centro do sertão, o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juízo! (ROSA, 2001, p. 301). O considerado “errado” ou “doideira” para a sociedade e suas regras é decisão e lei maiscorreta no sertão. Neste espaço a imagem jagunça rosiana desenvolve-se: é um jagunçodiferencial. Riobaldo está no meio da jagunçagem sem compreender qual a razão para isso:“Tudo, naquele tempo, e de cada banda que eu fosse, eram pessoas matando e morrendo,vivendo numa fúria firme, numa certeza, e eu não pertencia a razão nenhuma, não guardava fée nem fazia parte” (ROSA, 2001, p. 157-8). Todavia, a razão pela qual ele estava no meio dajagunçagem é o seu amor por Diadorim, está nesta luta, por causa da luta da sua amada, avingança da morte de Joca Ramiro e mesmo antes dessa morte, Riobaldo estava realizando agrande travessia por Diadorim: “[...] Coração – isto é, estes pormenores todos. Foi um esclaro.O amor, já de si, é algum arrependimento. Abracei Diadorim, como as asas de todos ospássaros. Pelo nome de seu pai, Joca Ramiro, eu agora matava e morria, se bem” (ROSA,2001, p. 57). Riobaldo envereda-se pelos sertões (interior e exterior) tentando responder a suasinquietações filosóficas e existenciais, todavia, para isso, é possível visualizar neste jagunço,de narrativas épicas, um sujeito lírico e introspectivo. Com esta nova imagem jagunça,Guimarães realiza o processo de (des)construção e (re)configuração desta identidade cultural. Em Grande Sertão: Veredas podem ser visualizados três gêneros literários levando emconsideração a classificação base de Platão em A República. É possível perceber acoexistência do épico, do dramático e do lírico. A épica é representada principalmente nas
    • 45batalhas, nas histórias narradas ao longo do romance; o dramático é caracterizadoprincipalmente na última batalha entre os jagunços de Riobaldo e os “Hermógenes”, quandoDiadorim guerreia contra Hermógenes e acaba morrendo. Percebe-se também o gênerodramático com o próprio drama de Riobaldo de não conhecer a si mesmo, o drama deconstruir sua identidade e até mesmo o drama das suas dúvidas e inquietações sobre a vida,sobre a existência do diabo e/ou de Deus. Todos esses fatores, dentre outros, confirmam ogênero dramático presente. O próprio Riobaldo compara a vida a um teatro: “Vida devia deser como na sala de teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho”(ROSA, 2001, p. 261). Revela com isso, o drama de existir e a formação identitária.Entretanto esses gêneros estão misturados, envolvidos e entrelaçados no romance. Em Grande Sertão: Veredas pode ser visualizado um poema extenso onde um sujeito,neste caso, Riobaldo, expressa as suas impressões, emoção e sensibilidade diante do sertão e avida do ser humano. O lírico é presenciado a todo momento no discurso do narrador-personagem, principalmente com o fato de ter um “eu” que transmite a subjetividade de umhomem apaixonado e confuso em relação a sua identidade: “Pertencerá à Lírica todo poemade extensão menor, na medida em que nele não se cristalizarem personagens nítidos e em que,ao contrário, uma voz central – quase sempre um „eu‟ – nele exprimir seu próprio estado dealma” (ROSENFELD, 2002, p. 17). Guimarães utiliza-se da lírica para quebrar a concepção pré-estabelecida do jagunçobrasileiro. Riobaldo é um jagunço diferente do que é concebido pelo pensamento popular. Elenarra um sertão poetizado e subjetivo: O elemento lírico no Grande Sertão: Veredas está em grande parte associado ao uso de um narrador em primeira pessoa, e pode ser facilmente detectado nas sublinhas narrativas predominantemente marcadas por alta dose de subjetivismo – aquelas que podemos designar de modalidade subjetiva da linha do passado, composta dos conflitos internos de Riobaldo como jagunço, e modalidade especulativa da linha do presente, em que o protagonista realiza sua travessia existencial pelo sertão (COUTINHO, 1993, p. 76-7). Riobaldo descreve de maneira poética o sertão e sempre introduzindo esta forma de narraras suas histórias, como também suas narrações amorosas. Como no momento em que eleencontra-se, pela primeira vez, com Otacília, a sua futura esposa. É marcante o tom lírico queele descreve esse encontro. São inseridos os detalhes da paisagem sertaneja como umambiente propício para paixões, sua beleza, seu clima inspirador, para aflorar sentimentos;como se este espaço fosse um local que estimulassem amores:
    • 46 Conforme contei ao senhor, quando Otacília comecei a conhecer, nas serras dos gerais, Buritís Altos, nascente de vereda, fazenda Santa Catarina. [...] O que lembro, tenho. Venho vindo, de velhas alegrias. A Fazenda Santa Catarina era perto do céu – um céu azul no repintado, com as nuvens que não se removem. A gente estava em maio. Quero bem a esses maios, o sol bom, o frio de saúde, as flores no campo, os finos ventos maiozinhos. A frente da fazenda, num tombado, respeitava para o espigão, para o céu. Entre os currais e o céu, tinha só um gramado limpo e uma restinga do cerrado, de donde descem borboletas brancas, que passam entre as réguas da cerca. Ali, a gente não vê o virar das horas. E a fogo-apagou tem um cheiro de folhas de assa-peixe. Depois de tantas guerras, eu achava um valor viável em tudo que era cordato e correntio, na tiração de leite, num papudo que ia carregando lata de lavagem para o chiqueiro, nas galinhas-d‟angola ciscando as carreiras no fedegoso-bravo, com florzinhas amarelas, e no vassoural comido baixo, pelo gado e pelos porcos. [...] Otacília eu revi já foi na sobremanhã. Ela apareceu. Ela era risonha e descritiva de bonita; [...] Fui eu que primeiro encaminhei a ela os olhos. Molhei mão em mel, regrei minha língua. Aí falei dos pássaros, que tratavam de seu voar antes de mormaço. Aquela visão dos pássaros, aquele assunto de deus, Diadorim quem tinha me ensinado (ROSA, 2001, p. 204-5). A descrição do sertão e a sua natureza estão envolvidos no encontro de Riobaldo eOtacília, um teor fortemente lírico: o sertão é sinônimo de emoção. O lirismo deste jagunço é percebido também, nos momentos em que Riobaldo teceopiniões e conselhos sobre a vida, um sujeito introspectivo e reflexivo, como nos trechosseguintes: “Como é que se pode gostar do verdadeiro no falso? Amizade com ilusão dedesilusão. Vida muito esponjosa. [...] O amor? Pássaro que põe ovos de ferro” (ROSA, 2001,p. 77); como também em: “Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiama sala. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio datravessia” (ROSA, 2001, p. 80). Evidencia-se o fato de que Guimarães apresenta um novo sertanejo, um sujeito comcaracterísticas contrárias a esperada por um jagunço, é o anti-herói rosiano. Isto porqueGuimarães, através de Riobaldo, desconstrói a imagem formada no pensamento da sociedadebrasileira e reconfigura e/ou reconstrói uma nova identidade cultural do jagunço, um jagunçoromântico, sensível, poético, filosófico, enfim, um sujeito liricamente narrador e narrado. O herói esperado pelo pensamento popular, em um jagunço, é aquele que exaltacaracterísticas como a coragem, valentia, o anti-sentimentalismo. Todavia, o herói doromance é um sujeito fragmentado, medroso, inseguro, introspectivo, filosófico e representa alírica em sua essência. Rosa, então decide inserir na literatura, uma produção voltada para ointerior do homem, como afirma Afrânio Coutinho “Nada repugnava mais a João GuimarãesRosa do que a literatura que despoja o homem do atributo de sua transcendência” (2004, p.481). Riobaldo representa o anti-herói, o jagunço letrado e apaixonado que descreve, narra eargumenta as veredas do ser humano, do grande sertão interior e físico, rompendo com os
    • 47estereótipos pré-estabelecidos a respeito do sujeito jagunço. É um herói que não é o heróiesperado, um herói diferente dos vistos até então na literatura brasileira: Antes de Guimarães Rosa o romance brasileiro era uma sinistra galeria de heróis frustrados – „galeria pestilenta‟, chamou-a Mário de Andrade. Com Joazinho Bem- Bem, Riobaldo, Diadorim, Medeiro Vaz, Joca Ramiro surgiram os primeiros heróis resolutos da literatura brasileira. E não só heroísmo individual (COUTINHO, 2004, p. 482). Afrânio Coutinho (2004) usa o termo “resoluto” para descrever os heróis de Guimarães,entretanto Riobaldo é ainda um sujeito incompleto, o próprio crítico completa a sua idéia:“Poderia Guimarães Rosa fazer de Riobaldo, que de jagunço acaba proprietário rural, umpersonagem integralmente resoluto? Não. Basta pensar que o seu mundo é o latifúndio”(COUTINHO, 2004, p. 511). É válido pensar que a idéia de herói poderia acabar recaindo sobre Diadorim, a identidade-modelo de Riobaldo, o narrador. A mulher guerreira que se caracteriza de homem para ficarao lado de seu pai e tornar-se um jagunço, para poder enveredar-se pelo sertão: A categoria da identidade, à qual se agarra o personagem [Riobaldo], vedaria a Rosa o caminho à conquista da complexidade. Eis por que o grande herói resoluto do romance na realidade não é Riobaldo, ex-jagunço frustrado, mas Diadorim – a mulher que se faz guerreiro, numa inversão dialética da imagem varonil da figura dos lutadores titânicos, que são sempre homens (COUTINHO, 2001, p. 511). Mesmo que Diadorim seja considerada a grande heroína do romance, é relevante mostrar,que mesmo possuindo essa categoria, ela é também uma anti-heroína. Isto porque auncia-seuma quebra de concepções e valores de uma sociedade patriarcal, justamente pelo fato dehaver uma mulher no meio da jagunçagem, uma donzela que vai guerrear travestida dehomem para ocultar sua identidade feminina. Um sujeito feminino possuindo a coragem eforça, características vinculadas apenas à imagem masculina na sociedade caboclo-sertaneja,causando um estranhamento e promovendo uma ruptura com as identidades estabelecidas nasociedade e na literatura até então. Vale lembrar que o conceito de personagem-herói na literatura estava sempre vinculadoao sujeito com características definidas desde o início do romance até o fim deste, sem muitastransformações de caráter. Personalidades definidas, honradas, perfeitas. São identidades quetinham atitudes previstas por sua coragem, bondade, segurança: [...] O romance do segundo tipo é construído com uma série de provações das personagens centrais, de provações de sua fidelidade, de bravura, de coragem, de
    • 48 virtude, de nobreza, de santidade, etc. Trata-se da modalidade mais difundida de romance na literatura européia, que engloba uma maioria considerável de toda a produção romanesca. O mundo desse romance – arena de luta e provação da personagem, acontecimentos, aventuras – é a pedra de toque da personagem. Este é dado sempre como acabado e inalterável. Todas as suas qualidades são dadas desde o início e ao longo de todo romance apenas são verificadas e experimentadas. [...] A primeira modalidade – o romance grego – se constrói como provação da fidelidade amorosa e da pureza dos heróis e heroínas ideais. Quase todas as peripécias são organizadas como atentando à virgindade, à pureza e à fidelidade mútua das personagens. A natureza estática, a imutabilidade dos caracteres das personagens e a sua idealidade abstrata excluem qualquer processo de formação, o desenvolvimento, qualquer emprego do que está ocorrendo, do visível, do vivenciável como experiência vital que muda e forma os heróis (BAKHTIN, 2003, p. 207-8). Nas produções literárias, esse tipo de personagem-herói, descrito por Bakhtin (2003),prevaleceu por muito tempo, principalmente no Romantismo, quando os personagens eramsujeitos idealizados como seres perfeitos. O narrador personagem de Grande Sertão: Veredasé considerado um anti-herói, justamente por ele não representar esse herói clássico, é umherói diferente, por ser um jagunço letrado, covarde, incompleto, filosófico e lírico. O anti-herói Riobaldo é um sujeito que vive um amor proibido por seu amigo Diadorim.Ao longo do romance o personagem-narrador narra e expõe todo seu sentimento por umjagunço. Estas passagens do romance mostram, mais uma vez, o teor lírico na produçãoliterária de Rosa. Riobaldo em vários trechos deixa explícito seu amor por Diadorim: [...] Pois minha vida em amizade com Diadorim correu por muito tempo desse jeito. Foi melhorando, foi. Ele gostava, destinado de mim. E eu – como é que posso explicar ao senhor o poder de amor que eu criei? Minha vida o diga. Se amor? Era aquele latifúndio. Eu ia com ele até o rio Jordão... Diadorim tomou conta de mim (ROSA, 2001, p. 209). Riobaldo tenta fugir desse sentimento proibido: “E veja: eu vinha tanto tempo merelutando, contra o querer gostar de Diadorim mais do que, a claro, de um amigo se pertencegostar;” (ROSA, 2001, p. 52). Entretanto ele reconhece que não conseguia fugir desse amorimpossível: Aquele lugar, o ar. Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora. Melhor alembro” (ROSA, 2001, p. 305). Os trechos em que Riobaldo “fala” a seu interlocutor sobre seu sentimento por seu amigoDiadorim são momentos em que ficam evidentes o lirismo deste jagunço, iniciando uma
    • 49ruptura com a imagem de jagunço criada pelo pensamento popular. Esse sentimento torna o“viver muito perigoso” mencionado inúmeras vezes no romance. Essa frase presente emGrande Sertão: Veredas pode possuir várias possibilidades de interpretação, entretanto,direcionando a discussão para o lirismo de Riobaldo, pode-se visualizar a colocação donarrador em pensar a vida como perigosa: quando o amor está presente, todos correm o riscode sofrer por um amor proibido, implicando o sujeito, a abdicar de até mesmo de algumasconquistas na vida por um amor. Como o próprio Riobaldo que se fixou na jagunçagem,principalmente por amar Diadorim e sentir a necessidade de estar ao lado de sua amada. Esseamor torna a vida perigosa, nesse sentido, muitas vezes fragmentando e fazendo o sujeito seinterpelar sobre suas próprias certezas de quem é, e se questionando a respeito de suaidentidade. Riobaldo representa o personagem anti-herói que busca construir sua identidade cultural eao fazer a travessia pelos sertões, desconstrói a imagem estabelecida pelo pensamento popularatravés da presença marcante do lirismo e inaugura uma imagem diferencial do jagunço naliteratura brasileira. E através deste personagem, Guimarães Rosa faz uma revisão dialética doser(tão) brasileiro.
    • 50CONCLUSÃO Definir a identidade nacional/cultural de um país é uma tarefa difícil e complexa de serealizar, principalmente pelo fato de haver uma grande diversidade cultural existente nomundo atualmente. A literatura foi uma das áreas da sapiência que se dedicou pensaridentidades em formação e/ou questionar identidades consideradas já formadas. Este trabalho científico teve a preocupação de investigar como se dá a formação daidentidade cultural do jagunço criada em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, comoparte da identidade nacional/cultural do Brasil. Entre as questões que nortearam esta pesquisa, estava a de haver a possibilidade de, aorealizar este processo de construção da identidade do jagunço, Rosa criaria o retrato do Brasil.Essa identidade cultural abriria espaço para analisar o universal. Ao final do mapeamento da identidade cultural do jagunço em Grande Sertão: Veredas,abstraiu-se a identidade nacional/cultural que forma o mosaico brasileiro, isto porque,principalmente, ao perceber a formação do “eu” de Riobaldo, composto por vários “outros”,várias identidades culturais que influenciaram a formação desta identidade cultural, assimtambém é a identidade nacional/cultural brasileira: múltipla e diversificada por identidadesculturais diferentes. Através da definição da identidade cultural do jagunço no sertão deGrande Sertão: Veredas compreende-se a diversidade e como esta identidade transcende aoespaço físico, além do que é considerado sertão, universalizando conceitos tratados noromance. Através das várias identidades que compõem o jagunço Riobaldo (os “outros”) é possívelreconhecê-lo enquanto uma metáfora do retrato do Brasil, onde as várias identidades culturaispresentes, os diversos grupos, fazem parte do que é chamado nação-brasileira. Riobaldo são todos os brasileiros: o letrado, o lírico, o filosófico, o bom e o mal, o certo eo incerto, a divindade e sua ausência, o vazio e o todo preenchido, identidades dialéticas, sãotodos um só, a diversidade na unidade representada pelo ser Brasil, nação ainda em formação,incompleta, não acabada como o narrador-personagem: Riobaldo. Vale ainda ressaltar a constante interrogação que Guimarães faz a sociedade maniqueístaatravés do seu personagem. Essa ressalva comprova, mais uma vez, que não se deve pensar aidentidade nacional/cultural do Brasil como identidades agregadas uma nas outras, elas devemser visualizadas todas misturadas, envolvidas, entrelaçadas, pois: “[...] este mundo é muitomisturado...” (ROSA, 2001, p. 237).
    • 51 E para finalizar esta análise o próprio símbolo matemático, que significa o infinito ao fimdo romance, pode representar que a história da descoberta do homem filosófico não acaba,que a formação identitária não termina, “O senhor ... Mire e veja: o mais importante e bonitodo mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – masque elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida meensinou” (ROSA, 2001, p. 39); essa construção tanto da identidade individual, como dacoletiva e universal é infinita, sempre haverá novas descobertas a fazer, mudanças a seremrealizadas, desafios a serem superados, questionamentos a serem feitos sobre a formaçãoidentitária, a travessia é constante e infinita, como a identidade de Riobaldo, a identidade danação brasileira e a identidade do mundo. As leituras sobre e com Riobaldo ensinaram uma lição: Este trabalho científico não esgotaas possibilidades de interpretação que esta obra literária apresenta, e nem é esta intenção destaanálise, entretanto é possível compreender que a identidade cultural do jagunço mapeada porGuimarães nessas veredas de um grande sertão, representa uma parte do todo que a identidadenacional/cultural significa.
    • 52REFERÊNCIASAMADO, Janaína. Região, sertão, nação. Disponível em: < http//www.cpdoc.fgv.br> Acessoem 12 de set. de 2008.AMÉRICO, José de. A Bagaceira. 37. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2004.BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.BOLLE, willi. Grandesertão.br: O romance de formação do Brasil. São Paulo: Duas cidades;34.ed., 2004.CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. Tradução Klauss Brandini Gerhardt. São Paulo:Paz e Terra, 2006.COSTA, Sergio. Dois atlânticos: teoria social, anti-racismo, cosmopolitismo. Belo Horizonte;editora UFMG, 2006.COUTINHO, Afrânio. Co-direção: Eduardo de Faria Coutinho. A literatura no Brasil: EraModernista. 7. ed. rev. e atual. São Paulo: Global, 2004.COUTINHO, Eduardo. Em busca da terceira margem: ensaios sobre o Grande sertão:veredas. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1993.CUNHA, Euclides. Os Sertões: Campanha de Canudos. 20.ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998.FANTINI, Marli de Oliveira. A poética migrante de Guimarães Rosa. Belo Horizonte:UFMG, 2008.FIGUEIREDO, Eurídice; NORONHA, Jovita Maria Gerheim. Identidade Nacional eIdentidade Cultural. In: FIGUEIREDO, Eurídice (org.). Conceitos de Literatura e Cultura.Juiz de Fora: UFJF, 2005.FINAZZI-AGRÒ, Ettore. Um lugar do tamanho do mundo: Tempos e espaços da ficção emJoão Guimarães Rosa. Belo Horizonte; UGMG: 2001.GILES, Thomas Ransom. Introdução à filosofia. São Paulo: EPU; EdUSP, 1979.ROSA, Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas. 19 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,2001.
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    • 54VASCONCELOS, Claúdia Pereira. Ser (tão) Baiano: o lugar da Sertanidade na configuraçãoda identidade baiana. Salvador: C. P. Vasconcelos, 2007) 116 f. Orientador: Professor Dr.Milton Araújo Moura. Dissertação (mestrado). Universidade Federal da Bahia. Faculdade decomunicação, 2007.