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    • 1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO - CAMPUS XIV COLEGIADO DO CURSO DE LETRAS COM HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURAS - LICENCIATURA ADRIANA BARBOSA DOS SANTOSAS EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS: HISTÓRICO E USO NO COTIDIANO SOCIAL Conceição do Coité 2012
    • 2 ADRIANA BARBOSA DOS SANTOSAS EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS: HISTÓRICO E USO NO COTIDIANO SOCIAL Monografia, apresentada ao Colegiado do Curso de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas – Licenciatura, da Universidade do Estado da Bahia – UNEB – Campus XIV como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciatura em Letras Vernáculas. Orientadora: Profa. Dra. Celina Abbade. Conceição do Coité 2012
    • 3 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus pela permissão, sem Ele nada posso fazer. A Jean AlvesLima, esposo, companheiro, pelo incentivo, você faz parte dessa trajetória. Aos meuspais Hilda Barbosa e José Hermogenes por serem o que são para mim, sempredispostos a doar sem esperar receber em troca. Aos irmãos Joelma, Débora eHervanio e vó Guilhermina pelo carinho. Agradeço também ao pré-vestibular UNICOM por ter me dado a oportunidadede voltar a ser estudante, pelo apoio e pelas palavras de encorajamento quandopensava não ser capaz. A todos os professores do Colegiado de Letras Vernáculas da Universidade doEstado da Bahia/Campus XIV, pelas contribuições durante o curso, em especial, aprofª Antonilma e profª Celina Abbade, pelas orientações. A todos os colegas da graduação, sempre serão lembrados porque fizeramparte desta história, em especial a Maura Moreira companheira de trabalho.
    • 4 RESUMOEste trabalho tem como objetivo fazer o levantamento das expressões idiomáticas em textosescritos de revistas informativas, especificamente a revista Veja. Para tanto foi realizada aseleção desses periódicos bem como teorias que baseassem a discussão. A partir da seleçãodas expressões nos artigos de opinião publicados nas revistas foi realizada a análise dessasexpressões buscando entender o uso de recursos próprios da linguagem falada namodalidade escrita. A partir da análise dos dados com base nas teorias encontradasconstatou-se que quanto mais formal é o texto, menor é a chance de encontrar expressõesidiomáticas. No que se refere ao gênero artigo de opinião verificou-se que este viabiliza o usodessas expressões. Notou-se que alguns autores utilizam mais do que outros, expressõestípicas da linguagem falada. Concernente ao significado dessas expressões presentes nosdicionários do português brasileiro notou-se a carência de informações precisas nosdicionários sobre essas expressões e também de teorias que delimitem o que deva serconsiderado expressão idiomática e a diferencie de outras expressões com característicassemelhantes. Constatou-se que o usuário da língua deve conhecer as peculiaridades dacultura na qual está inserido para saber utilizar e entender as expressões idiomáticas. Notou-se que algumas expressões dependem do contexto para serem entendidas e outras não. Amudança ou troca dos elementos que compõe uma expressão pode comprometer seusignificado idiomático. O significado idiomático não depende da junção do significado doselementos formadores da expressão, mas da imagem metafórica que sugerem ao falante. Porfim, a originalidade dessas expressões seja na fala ou na escrita constitui um diferencial quedeve ser considerado nos estudos da linguagem, possibilitando o reconhecimento das marcasculturais presentes nelas e a valorização da linguagem falada como um contínuo da escrita enão como forma menos apreciada nas escolas, nas gramáticas e no ensino-aprendizagemcomo um todo..Palavras-chave: Expressões idiomáticas, linguagem falada, modalidade escrita.
    • 5 ABSTRACTThis work has as objective to survey the idiomatic expressions in written texts of magazinesinformative, specifically the Veja magazine. For both was the selection of these journals aswell as theories that reliance on the discussion. From the selection of the expressions inopinion articles published in the magazines was performed the analysis of these expressionsin an attempt to understand the use of own resources of the spoken language in the writtenmodality. From the analysis of the data on the basis of the theories found it was found that themore formal and the text, the lower the chance of finding idiomatic expressions. As regardsthe genre article of opinion it was found that this makes the use of these expressions. It wasnoted that some authors use more than others, typical expressions of the spoken language.Concerning the meaning of these words present in the dictionary of the brazilian portuguesealso noticed the lack of precise information in dictionaries on these expressions and also oftheories that clarifying what must be considered idiomatic expression and differentiates itselffrom other expressions with similar characteristics. It was noted that the user of the languagemust know the peculiarities of the culture in which it is inserted to know how to use andunderstand the idiomatic expressions. It was noted that some expressions depend on thecontext to be understood and others do not. A change or an exchange of the elements thatcompose a expression may compromise its meaning idiomatico. The meaning idiomatico doesnot depend on the junction of the significance of formative elements of expression, but themetaphorical image that suggest the speaker. Finally, the originality of these expressions is inspeech or in writing is a differential that should be considered in studies of language, allowingthe recognition of cultural marks present in them and the recovery of the spoken language asa continuum of writing and not as a less appreciated in schools, in grammars and in teaching-learning as a whole.Key-words: Idiomatic expressions, language spoken, written modality.
    • 6 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 7 1 LINGUAGEM E INTERAÇÃO HUMANA 8 1.1Expressões idiomáticas em Língua Portuguesa 12 2 AS EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS E O SEU USO NO COTIDIANO SOCIAL 21 2.1 Expressões idiomáticas em revistas informativas 24 3 LEVANTAMENTO DAS EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS NA REVISTA 27INFORMATIVA “VEJA” (2009/2010) 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS 35 REFERÊNCIAS 37 ANEXOS 40
    • 7INTRODUÇÃO Este trabalho discute sobre o uso das expressões idiomáticas em textosescritos que circulam do cotidiano social. A partir da leitura dos autores de trabalhosvoltados para essa questão e do interesse pessoal pela linguagem falada é que teveinicio essa investigação, com o objetivo de fazer o levantamento dessas expressõesem textos do gênero artigo de opinião, bem como o confrontamento das teoriasencontradas com o corpus da pesquisa , buscando reconhecer e identificar essasexpressões nos textos informativos escritos. Para dar início à pesquisa foram selecionados dez exemplares da revista Vejados anos 2009 e 2010 e após a leitura foram encontradas sete expressõesidiomáticas, selecionadas estas expressões foi realizado um confrontamento entre osestudos teóricos. O trabalho está dividido em três capítulos, o capítulo 1 apresenta osestudos teóricos encontrados sobre a linguagem e interação humana como tambémdefinições teóricas do que vem a ser expressões idiomáticas. O capitulo 2 abordasobre o uso das expressões idiomáticas no cotidiano social, bem como a presençadessas expressões em revistas informativas. No capítulo 3 faz-se o levantamento dasexpressões encontradas nas revistas Veja bem como a análise e o confrontamentocom os estudos teóricos. A escolha da revista Veja se justifica por ser publicada semanalmente e ter umnúmero elevado de leitores e tratar-se de uma revista informativa de fácil acessoatualmente, ou seja trata-se de uma publicação popular. O gênero textual artigo deopinião se justifica por ser um gênero textual que permite ao autor expor sua opiniãosobre determinado assunto com mais liberdade para usar determinadas expressões. A relevância social da pesquisa está ligada a contribuição da pesquisa para avalorização da linguagem falada como elemento cultural que deve ser reconhecidotanto quanto a modalidade escrita. Visando o incentivo dos estudos dessasexpressões e o seu reconhecimento como fonte de criatividade e representação dacultura popular brasileira.
    • 8 1 LINGUAGEM E INTERAÇÃO HUMANA Este capítulo apresenta a linguagem como instrumento de comunicaçãoutilizado pelos indivíduos de diferentes formas e discute algumas definições deexpressões idiomáticas apresentadas por teóricos como Biderman (2005),Tagnin(1989), Xatara (1998) que apresentam ideias semelhantes sobre o assunto.Defendendo a opacidade de tais expressões bem como sua consagração pela culturaque as criou. Também aborda sobre a origem dessas expressões nem semprepossível definir, muitas vezes alvo de duplicidade de origem histórica e sua funçãoligada principalmente a oralidade, mas já presente na escrita, funcionando comoelemento dinâmico e original na linguagem. A partir de exemplos de expressões idiomáticas e dos estudos dos teóricosacima citados foi construída a base para as discussões que se fará nos próximoscapítulos. A linguagem é um instrumento de comunicação que torna possível a interaçãoentre os indivíduos nos diferentes tempos e espaços sociais. O intercâmbio ocorreentre sujeitos de um mesmo grupo social e também entre os de grupos distintos, seja,pela condição social, econômica, religiosa ou por questões de etnia. E, é o fenômenolinguístico que possibilita tal interação. Os escritores, ouvintes, leitores e falantes deuma comunidade social, geralmente partilham o mesmo registro de linguagem,principalmente no dia a dia, em situações mais informais. Segundo Rousseau (2008), em Ensaio sobre a origem das línguas, através dalinguagem podem-se distinguir os homens dos animais já que estes não possuem acapacidade de transformar sua comunicação enquanto o ser humano transforma-se acada momento, inclusive em seus atos comunicativos. Os humanos podemdiferenciar-se ainda de acordo com a sua nacionalidade, pois cada espaço socialpossui características linguísticas específicas, através das quais os usuários dedeterminada língua se distinguem entre si. Na reflexão do autor a interação pela linguagem pode ter surgido ou do desejoou da necessidade dos humanos de se expressar. Nessa perspectiva, inventaram-semaneiras diversas de realizá-la através do movimento e da voz. O movimento, porsua vez, realiza mais facilmente o seu papel uma vez que expressa com maiorrapidez. Desde a antiguidade os sinais já se mostravam mais eficientes que os
    • 9discursos em várias situações, exceto em situações que envolvem emoção e paixão.Assim, presumiu que as paixões teriam sido responsáveis pela criação da palavra,sendo a linguagem figurada a primeira a surgir e o sentido próprio o último a serdescoberto. No processo comunicativo, pode-se entender a linguagem não somente naforma escrita ou falada, mas nas diversas maneiras que o ser humano possui deinteragir entre si através de gestos, imagens, sinais, que são algumas daspossibilidades para se promoverem entendimento entre as pessoas. Na visão deBakhtin, a comunicação verbal está ligada aos outros tipos de comunicação edepende da situação de produção. A comunicação verbal entrelaça-se inextricavelmente aos outros tipos de comunicação e cresce com eles sobre o terreno comum da situação de produção. Não se pode, evidentemente, isolar a comunicação verbal dessa comunicação global em perpétua evolução. Graças a esse vínculo concreto com a situação, a comunicação verbal é sempre acompanhada por atos sociais de caráter não verbal (gestos do trabalho, atos simbólicos de um ritual, cerimônias, etc.), dos quais ela é muitas vezes apenas o complemento, desempenhando um papel meramente auxiliar. (2006, p.124.) Segundo o autor, mesmo na fase em que se adquire a linguagem, a formalinguística sempre está associada ao contexto. E, numa mesma comunidadelinguística, tanto o locutor quanto o receptor considera a forma linguística como umsigno variável e flexível. Defendendo a ideia de que a língua evolui constantemente e suas normas nãosão imutáveis, afirma que a evolução real da língua ocorre a partir da evolução dasrelações sociais que, de certa forma, faz com que a comunicação e a interação verbalevoluam. Em conseqüência disso, os atos de fala também mudam refletindo, por fim,nas formas da língua. No seu discurso, “a enunciação é de natureza social”, os atos de fala sãodeterminados pela situação social imediata, meio social mais amplo e pelosparticipantes mais imediatos. Alguns elementos externos como o ambiente social, as crenças oumanifestações culturais, exercem influência na linguagem e podem ser responsáveis
    • 10pelas diferenças encontradas entre as variantes de uma mesma língua. Vale ressaltaro que diz Marte Lotta (2008): “o homem adquire a linguagem e dela se utiliza dentro de uma comunidade de fala, tendo como objetivos a comunicação com os indivíduos e a atuação sobre os interlocutores. Portanto, muito se perde ao abstrair a língua de seu uso real”, Nota-se que muito se perde ao separar a língua dos fatores sociais, culturais epsíquicos que interagem na linguagem. Portanto, a língua sempre é influenciadapelos fatores externos. E se tratando de expressões idiomáticas, os fatores externostambém influenciam o seu uso. A depender do falante, da situação, da cultura e detodo contexto, as expressões idiomáticas podem ser mais ou menos utilizadas.Geralmente são encontradas nos textos menos formais, sejam eles orais ou escritos. A linguagem seja a padrão ou a coloquial tem como principal finalidade tornarpossível a comunicação/interação entre os indivíduos. Nessa linha de raciocínio,pode-se dizer que, embora sirvam para o mesmo fim, a interação entre membros deum mesmo grupo de falantes, a forma padrão se difere da não padrão em diversosaspectos. Em linhas gerais, essa linguagem comum ou popular difere da variante padrão ou culta, entre outros aspectos, pela ausência de elaboração consciente, que se reflete numa estruturação frásica simples, de frases geralmente curtas e ligadas ou encadeadas parataticamente; um vocabulário comum, repetitivo e pouco seletivo, frequentemente gírio; uma ausência de preocupação e fixidez gramatical; uma prosódia descuidada e simplificada, própria da articulação da fala, inclusive em pessoas cultas e formais, sem muita nitidez e regularidade na fonação de determinadas palavras ou de determinadas sequências silábicas, cuja articulação exige maior esforço e atenção, como tão por estão; pra por para; primero por primeiro; falá por falar; xícra por xícara; abobrinha por aboborazinha etc. É que atua aqui, entre outras razões, o impulso do mínimo esforço articulatório (URBANO, 2008, p.35). Na fala pode-se perceber uma menor preocupação do usuário da língua com apronúncia considerada padrão das palavras e com a rigidez das regras gramaticais.Ao contrário da fala, a modalidade escrita requer maior cuidado com as normas queregem o bom uso da língua, uma vez que o descuido nesse aspecto resulta no
    • 11desprestígio tanto do texto quanto do seu autor, exceto os textos em que os autoresintencionalmente utilizam recursos linguísticos considerados informais oupertencentes à oralidade. Oportuno ressaltar que nos estudos gramaticais o uso da fala cotidiana semprefoi menos prestigiado, pois a escrita recebia e atualmente ainda recebe maior atençãotanto nos estudos científicos quanto no uso social. Felizmente, os estudos sobre osrecursos da língua falada têm sido cada vez mais valorizados no contextocontemporâneo. Nessa perspectiva, deve-se entender que cada grupo social possuicaracterísticas linguísticas próprias dentro de uma comunidade linguística global. Issonão impede que o dialeto de uma determinada comunidade torne-se comum emoutros grupos de falantes ou até mesmo deixe de ser considerado como pertencentea uma pequena parte de usuários de uma língua, passando a ser aceito como parteda linguagem global. Essa interferência ocorre devido aos contatos existentes entreos diversos grupos, o que muitas vezes impede a identificação da origem de muitasexpressões. Nesse sentido, o entendimento entre grupos distintos requer uma adequaçãoao contexto situacional. Para que a interação aconteça de forma satisfatória énecessária uma adequação da linguagem à situação, levando-se em consideraçãonão só o público alvo, mas também o contexto sócio comunicativo. È possível notar que, a depender do contexto sócio comunicativo, frasessimples e curtas possam ser empregadas de forma distensa e flexível, inclusive porusuários que têm “certo domínio” da norma padrão. O que pode determinar o tipo deuso é o tipo de situação em que se empregam os fenômenos linguísticos. O uso das expressões idiomáticas, como todo e qualquer fenômeno linguístico,requer do falante uma adequação ao contexto situacional tanto na fala quanto naescrita. A utilização das expressões idiomáticas em textos escritos é o que norteia opresente estudo, mas antes de abordar sobre isso, torna-se necessário buscar suaorigem, conceito e sua função na linguagem.
    • 12 1.1. Expressões idiomáticas em Língua Portuguesa Segundo o dicionário Aurélio (1999, p.1.072), o termo “idiomático” deriva-se dogrego idiomatikós, ‘particular’, ‘especial’. Adj. Relativo a, ou próprio de um idioma. Para Tagnin (1989, p.13) o termo idiomático tem sido usado, em português,com o sentido de vernáculo, próprio da língua. O significado “não transparente” ou“opaco” a autora reserva somente para o que se refere às expressões idiomáticas. No dicionário etimológico, o termo Idio se refere a elemento composto derivadodo grego ídio-, de ídios ‘próprio, pessoal, privativo’, que já se documenta emvocábulos formados no próprio grego (como idioma) em alguns compostos formadosnas línguas modernas de cultura (CUNHA, 1992, p.422). Embora estudos sobre expressões idiomáticas não sejam facilmenteencontrados, alguns estudiosos já se dedicaram a esse objeto de pesquisa e, a partirde seus trabalhos, podem-se citar alguns conceitos. Segundo Biderman (2005, p.751), “as expressões idiomáticas são expressõessemanticamente opacas, cujo significado não depende do sentido de cada um deseus componentes”. Nesse sentido, entende-se que o seu significado não depende dovalor denotativo das palavras que a formam, mas do sentido conotativo de toda aexpressão. De acordo com Tagnin (1989, p. 13), “uma expressão é idiomática apenas quando seu significado não é transparente, isto é, quando o significado da expressão toda não corresponde à somatória do significado de cada um de seus elementos”. Na definição de Xatara (1998, p.149), “Expressão idiomática é uma lexiacomplexa indecomponível, conotativa e cristalizada em um idioma pela tradiçãocultural”. A autora ainda explica o porquê de cada uma dessas características. Para aautora, uma expressão idiomática pode ser uma lexia complexa indecomponívelporque “constitui uma combinatória fechada de distribuição única ou distribuiçãobastante restrita”(p.149), o que impede que seus elementos sejam trocados poroutros, ou seja, é uma frase que não permite nenhuma mudança de palavras, casoisso ocorra a expressão deixa automaticamente de ser uma expressão idiomática. Nasua argumentação, traz um exemplo com a expressão “dar com a cara na porta” que
    • 13na ordem em que seus elementos aparecem pode ser considerada uma expressãoidiomática o que já não ocorre com as frases “dar na porta com a cara”, “dar com orosto na porta” ou “dar com a cara na janela”. No caso da lexia complexa conotativa, a autora explica como a expressãoadquire um significado metafórico e cada palavra que a forma deixa seu valordenotativo ou literal para exercer, dentro da construção idiomática, outro significado.Nesse caso, o mesmo exemplo anterior “dar com a cara na porta” significametaforicamente não encontrar ninguém onde se foi procurar e não, bater com a cara,intencionalmente ou não, numa determinada porta. E para ser considerada lexia complexa cristalizada, essa lexia deve serutilizada com frequência pelos falantes, já que é o uso constante de uma lexia que aconsagra culturalmente, mantendo o seu significado e passando-a de geração parageração dentro de uma comunidade linguística. Esses são três aspectos importantes na caracterização de uma expressão eimprescindíveis para que a expressão seja considerada idiomática. O uso de expressões idiomáticas é mais comum na comunicação oral informal,mas pode e tem sido usada nos mais diferentes tipos de comunicação falado ouescrito, elas são encontradas na TV, em jornais, revistas, textos literários ou não. O motivo pelo qual as pessoas têm utilizado as expressões idiomáticas,segundo Xatara, é a necessidade de se expressar com originalidade e transmitir aoouvinte/ leitor peculiaridades que através da linguagem padrão não seria possível. Muitas vezes o léxico de uma língua não dispõe em seu acervo de unidades lexicais apropriadas para expressar certas nuanças de sentimentos, emoção, ou sutilezas de pensamento do falante. Por não encontrar no repertório disponível os elementos de que necessita para sua comunicação ou expressão verbal em determinada situação, o falante lança mão de combinatórias inusitadas, ou seja, originais, buscando um efeito de sentido (XATARA, 1995, p.195). Segundo Caramori (2006), “as expressões idiomáticas são combinatórias depalavras de sentido pouco ou muito opaco que dificultam, quando não a conhecemos,e iluminam, quando deslumbramos seu sentido, a comunicação” (p.22). Nesse sentido, uma expressão idiomática pode dificultar o entendimento damensagem quando o leitor /ouvinte não tem conhecimento do seu sentido, mas ela
    • 14também torna o texto expressivo e original na medida em que incrementa o conteúdotextual com o sentido conotativo que possui. Quanto ao surgimento das expressões idiomáticas, não há informações exatasde quando e como essas formações linguísticas começaram a aparecer nalinguagem. Os dicionários de expressões idiomáticas não trazem a origem exatadessas expressões porque elas não resultam da escrita e como produto da fala essasformações dificultam um registro escrito do momento exato em que foram criadas. Sabe-se que as expressões idiomáticas surgem em situações concretas dalinguagem falada, mas não se sabe em que situação específica cada expressão foiconstruída, a sua origem real geralmente tem várias versões e isso impede queencontremos na escrita uma resposta concreta para a criação de cada uma dessasconstruções. Embora dificulte a pesquisa sobre o tema, isso não impede que estudossejam realizados cada vez mais e melhor, uma vez que sabemos em qual modalidadeda língua elas aparecem. Segundo Biderman (2005), o Português brasileiro herdou do PortuguêsEuropeu algumas dessas expressões e, com o passar do tempo, com astransformações naturais pelas quais a língua passa, os falantes brasileiros foramcriando novas expressões. Expressões idiomáticas, também chamadas de expressões populares, sãoconstruções criadas e utilizadas pelo povo, encontradas geralmente na fala popular.Geralmente transmitem características culturais e ideológicas de um povo e surgemde acontecimentos do dia a dia das pessoas. Desse modo, são as situações reais davida que possibilitam a construção desses recursos linguísticos. Para mostrar osvalores dessas expressões no cotidiano vale ressaltar o que diz Jorge: As expressões idiomáticas (EIs) descrevem, pelas imagens que sugerem, o mundo real, os lugares, as experiências quotidianas, os sentires...Mantêm intacto o colorido de um povo, constituem uma voz rica em sabedoria que soube imprimir na linguagem a sua identidade. Este tipo de estrutura ilustra uma parte desse saber, desse colorido. Conhecê-las implica conhecer o povo, a cultura que lhes deu vida, estabelecer entre elas e os homens relações, conhecer mais profundamente a língua e as múltiplas formas de expressividade. As expressões integram o melhor sistema de símbolos para representar uma identidade cultural ( 2001, p.216).E ainda o que diz Urbano com relação ao surgimento dessas construções:
    • 15 Há que se imaginar que as expressões e provérbios, de modo geral, são criados ou acontecem no seio do povo em situações concretas, portanto, com significado denotativo, e, logo, ou com o transcorrer do tempo e das situações, esse significado vai se metaforizando... Mais objetivamente pode-se imaginar — mas só imaginar — a trajetória de uma expressão ou provérbio da fase embrionária do seio popular à vida plena da seguinte forma: são formulados em situação concreta quanto ao fato, mas imprecisos quanto às circunstâncias (como os enunciadores e co-enunciadores — gente do povo, porém não particularmente identificada — mais as circunstâncias de tempo, lugar etc.). De fato, aceita-se sua origem popular — que é a regra ( 2008, p.38). A partir desses conceitos do termo em particular nota-se que uma expressãoidiomática pode ser entendida como uma combinação de palavras de um idiomaqualquer com características próprias desse idioma e dificilmente traduzível, ou ainda,“que expressão idiomática é uma expressão, cujo significado não é transparente ecujas palavras componentes não se somam para compor seu sentido” (URBANO,[ca..2007]). Na fraseologia popular, além das expressões idiomáticas, existem osprovérbios, os clichês, os ditados populares, que são elementos representantes dacultura de um povo. Esses recursos linguísticos se expandem passando de geração ageração, sendo modificados ou não, mas sempre enriquecendo a fala e perpetuandoas ideologias e os costumes de cada grupo social. Cada grupo social possui as suas peculiaridades da linguagem que funcionamcomo uma identidade. O modo particular com que cada grupo usa a linguagem fazcom que algumas das expressões utilizadas no grupo sirvam como uma espécie decódigo, entendidos somente pelos seus integrantes. Com a mundialização das informações e a rapidez com que as pessoas secomunicam atualmente, as características linguísticas dos grupos sociais chegamcada vez mais rápido ao conhecimento de outros grupos e são incorporadas por elesno uso cotidiano da fala. Dentre as expressões utilizadas no cotidiano brasileiropodem-se citar como exemplo as seguintes expressões: 01- Ver passarinho verde1 - é uma expressão criada a partir do costume antigo dos casais apaixonados de enviar mensagens amorosas utilizando um1 “Ver passarinho verde” - COTRIM, Márcio. A origem popular das expressões brasileiras. Revista LínguaPortuguesa. N.48, ano 4 p.64, out.2009.
    • 16 pássaro verde chamado periquito. Ao avistar o animal as pessoas possivelmente ficavam felizes por receber notícias do ser amado. Assim surge a expressão “ver passarinho verde” que equivale inicialmente dizer que se estar feliz, mesmo sem motivo aparente ou demonstrar alegria exagerada. Exemplo: Seu Bebé acha D. Daga muito alegre. Ele pensa que a velha maluquinha hoje deve estar de boa paz. Seu Bebé pergunta: - Você viu passarinho verde, D. Daga2? 02- Está com a corda toda3 vem do universo dos brinquedos que se moviam através de um mecanismo em forma de mola ou de elástico. Assim, quanto mais se “dar corda” no brinquedo por mais tempo ele se movimenta. Assim, a expressão significa estar muito animado ou se refere a uma pessoa muito agitada para fazer algo. Exemplo: Ford focus está com a corda toda – e mais um pouco4. 03- Malhar em ferro frio5 trata-se de uma expressão antiga, tem como origem um ditado francês que diz que é preciso bater no ferro enquanto ele está quente. Caso deixe esfriar perderá a oportunidade de moldá-lo, pois isso só pode ser feito em temperatura elevada. Quando alguém diz que está malhando em ferro frio equivale dizer que estar a fazer algo sem obter resultado algum, significa perder tempo, deixar passar as oportunidades. Exemplo: Discutir com Joaquim é malhar em ferro frio.2 ALBERGARIA, Lino de. Dia da caça. São Paulo: Edições Loyola, 1995. Disponível em:http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=pcnodyS9EtUC&oi=fnd&pg=PA4&dq=viu+o+passarinho +verde&ots=iju5un08J2&sig=4Z7c29J8nDbexOUugKjCfZlclR4#v=onepage&q=viu%20o%20passarinho%20verde&f=false .Acesso em: 9 set.2011.3 “Está com a corda toda” - COTRIM, Márcio. A origem popular das expressões brasileiras. Revista LínguaPortuguesa N.40, ano 4, p.59, fev. 2009.4 SALES, Patrícia. Ford Focus está com a corda toda - e mais um pouco. jul. 2010. Disponível em:Ehttp://ford.jalopnik.com.br/conteudo/ford-focus-esta-com-corda-toda-e-mais-um-pouco Acesso em: 9 set 2011.5 “Malhar em ferro frio” - COTRIM, Márcio. A origem popular das expressões brasileiras. Revista LínguaPortuguesa. n. 45, ano 3, p. 64, jul .2009.
    • 17 04- Enfiar a carapuça6 trata-se de um costume do período da Inquisição, na Idade Média em que os réus eram obrigados a se vestirem com trajes ridículos dentre eles um chapéu longo e pontiagudo, chamado carapuça. Isso era um sinal de que o indiciado era culpado. Compreende-se então que essa expressão significa “assumir a culpa“, “reconhecer o erro”. Exemplo: Lula enfia a carapuça na cabeça de Serra7. 05- Frouxos de riso8 tem origem antiga. Frouxo vem do latim fluxu, significa fluir. Ao contrário do que pensamos frouxo não tem a ver com folgado, fraco, mas significa, nessa expressão, um riso forte, prolongado, explosivo. Exemplo: Eu tenho frouxos de riso com o PT de Além Paraíba9. 06- Ter dente de coelho10 lembra o que acontece com esses roedores, seus dentes grandes não cabem dentro da boca que mesmo fechada continua mostrando-os. Refere-se a uma situação difícil de ser resolvida em que se tenha algum segredo. Exemplo: Nesses dois textos, há dentes de coelho11. 07- Está com a macaca12 refere-se a alguém que está em estado de irritação e nervoso, possuído pelo demônio. Para diminuir a carga negativa de alguns vocábulos como, por exemplo, demônio, utiliza-se as palavras cão no6 “Enfiar a carapuça” - COTRIM, Márcio. A origem popular das expressões brasileiras. Revista LínguaPortuguesa n.47, ano 4, set.2009.7 WINDOWS 2007: Yahoo Brasil respostas. Disponível em:http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20100323073511AAAHjL0. Acesso em: 9 set. 2011.8 “Frouxos de riso” - COTRIM, Márcio. A origem popular das expressões brasileiras. Revista Língua Portuguesa. N.39, ano 4, p.59, jan 2009.9 MACHADO, Dauro. Eu tenho frouxos de riso com o PT de Além Paraíba. Minas Gerais, jun. 2011. Disponívelem: http://dauromachado.blogspot.com/2011/06/eu-tenho-frouxos-de-riso-com-o-pt-de.html. Acesso em: 9. set.2011.10 “Dente de coelho” - COTRIM, Márcio. A origem popular das expressões brasileiras. Revista LínguaPortuguesa n.43, ano 3, p.62, mai 2009.11 WINDOWS 2007. Dente de coelho. Blog da cidadania. agos. 2011. Disponível em:http://www.blogcidadania.com.br/2011/08/dente-de-coelho/. Acesso em: 9. set. 2011.12 “Com a macaca” – COTRIM, Márcio. A origem popular das expressões brasileiras. Revista LínguaPortuguesa. n. 44, ano3, p.64, jun 2009.
    • 18 nordeste e macaca no centro-oeste. ““ Daí as expressões “fulano tá com o cão” ou “fulano está com a macaca”. Exemplo: Para amainar a ira do ex-ministro e de sua bancada, que está com a macaca, ele foi recebido em palácio pelo secretário geral Gilberto Carvalho, que seria algo acima de Ideli13. 08- Segurar vela14 vem dos tempos em que os servos seguravam vela para que os seus senhores enxergassem o que estavam fazendo, já que não existiam lâmpadas. Existe registro que explica que nos tempos medievais um criado segurava um candeeiro para iluminar as relações sexuais dos patrões. Surge então o sentido de ser a terceira pessoa que acompanha o casal, aquele que “segura vela” enquanto o casal namora, um acompanhante indesejável, que atrapalha. Exemplo: Não tem nada pior do que você, além de ajeitar um menino para sua amiga, ainda ter que ficar segurando vela15. Embora essas expressões da Língua Portuguesa sejam criadas em situaçõesconcretas do dia a dia e utilizadas mais frequentemente pela população menosescolarizada, em geral, no contexto situacional informal e descontraído, elas já sãoencontradas em textos escritos aparecendo algumas vezes como marca de oralidadeem diversos gêneros textuais e nos mais diferentes meios de comunicação. As expressões idiomáticas existem há bastante tempo. Algumas surgiram emséculos passados e tiveram os sentidos determinados de forma específica até os diasatuais, outras na contemporaneidade, permitem que sentidos diferentes sejamatribuídos. Pode-se perceber que a linguagem humana sofre alterações através dostempos e essas mudanças ocorrem com a substituição de termos e expressões antes13 FLORES, JC. Está com a macaca. Taiadablog. set. 2011. Disponível em: http://taiada-blog.blogspot.com/2011/09/esta-com-macaca.html. Acesso em: 9 set. 2011.14 “Segurar vela” - COTRIM, Márcio. A origem popular das expressões brasileiras. Revista Língua Portuguesa.N. 41, ano 4, p.63, mar 2009.15 WINDOWS 2007. Segurar vela? Jamais. Tudo sobre namoro. mar. 2011. Disponível em:http://namorosempre.blogspot.com/2011/03/segurar-vela-jamais.html. Acesso em: 9 set. 2011.
    • 19muito usadas pelos falantes, mas que com o passar do tempo caem em desuso e sãotrocados por termos mais recentes. O texto poético de Andrade (1970) traz essareflexão com a análise feita pelo poeta sobre as palavras e expressões substituídaspor outras. ANTIGAMENTE, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito. Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhes pé- de- alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio. E se levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva i ir pregar em outra 16 freguesia [...] (ANDRADE, 1970, p.7) Nota-se que algumas palavras e expressões utilizadas por Drummond em seutexto já não são usadas na atualidade. O termo “completar primavera” também estáentre os esquecidos termos da linguagem brasileira e equivale a “fazer aniversário”.As expressões fazer pé-de-alferes; arrastar asas; ficar debaixo do balaio; levar tábua;tirar o cavalo da chuva; ir pregar em outra freguesia, segundo Drummond, eramutilizadas com frequência, mas com o passar do tempo deixaram de ser usadas ouforam substituídas por outras expressões. Essas e todas as outras expressões evocábulos citados por Drummond, que foram substituídos com o passar do tempo,constituem marcas do movimento contínuo da língua que não para de mudar. Nesse sentido, entende-se que a interação diária entre os usuários de umalíngua permite o uso de expressões idiomáticas, construções estas, cheias decriatividade, permeadas de referências advindas do contexto sócio-histórico-cultural e,principalmente da construção ideológica dos seus usuários. Essa possibilidade de usodas expressões coloquiais no decorrer de diferentes épocas comprova o caráter vivoda língua e mostra toda a flexibilidade de uso. Como já se sabe as expressões idiomáticas são inerentes à linguagem. Elasaparecem em qualquer língua humana e particularmente na linguagem falada. Pode-se dizer que se trata de uma marca identitária da fala. De fato, as expressõesidiomáticas são bastante utilizadas pelos usuários de uma língua e para os falantesde uma língua materna elas não representam nenhuma dificuldade quanto ao seuentendimento, a não ser de um grupo para outro, onde os diferentes usos podem, porvezes, dificultar a significação. Para quem se aventura no aprendizado de uma língua16 Poema retirado da obra Quadrante, publicada em 1962, obra coletiva, reproduzida em Caminhos de JoãoBrandão, editora José Olímpio 1970, p. 7.
    • 20estrangeira elas podem se tornar verdadeiros entraves no início, mas isso pode seramenizado através do convívio com os usuários da língua estrangeira, atitude quedeve ser tomada por aqueles que querem dominar outro idioma. Outro aspecto muito comum e que dificulta a trajetória de quem quer aprenderuma língua estrangeira é a falta de dicionários que abordem de maneira eficienteessas expressões. Segundo Xatara (1998), a elaboração de dicionários especiais deexpressões idiomáticas também carece de sistematização, pois geralmente essasexpressões são tratadas de um modo excessivamente amplo. No Brasil, podem serencontrados muitos dicionários de expressões populares, mas esses materiais sãoincompletos porque foram produzidos sem bases teóricas consistentes.
    • 21 2 As expressões idiomáticas e seu uso no cotidiano social Este capítulo aborda sobre o uso das expressões idiomáticas, de como elassão incorporadas no dia a dia dos falantes e como são construídas a partir demetáforas e apresenta exemplos analisados por Lodovici (2007) em que essasexpressões são vistas como manifestações lingüísticas que podem se modificar comooutro processo lingüístico qualquer e que dependem da situação contextual para serentendido. E justifica a escolha das revistas informativas como fonte da pesquisa ,destacando a Revista Veja e nela o gênero artigo de opinião. Para Tagnin (1989, p.8), em “Expressões idiomáticas e convencionais”, asexpressões idiomáticas têm de ser aprendidas individualmente. Segundo a autora, para que um falante se comunique bem em outra língua, ouseja, uma segunda língua, é necessário conhecer o jeito próprio que a comunidadeutiliza para se comunicar, denominado por ela de “o jeito que a gente diz”. Isso porqueexistem inúmeras expressões que só um falante experiente sabe utilizar. Essaexperiência não se consegue apenas estudando uma língua com suas regrasgramaticais. É preciso ter a habilidade que só um falante materno tem ao lidar com alinguagem. Para a autora, um falante que não tem intimidade com a língua que se propõea aprender é chamado de ‘falante ingênuo’ porque não conhece as frases idiomáticasda língua; não conhece combinações léxicas que não estejam necessariamentebaseadas em relações de significado; não tem a capacidade de julgar a adequaçãode expressões fixas a certos tipos de situações; não conhece as imagens metafóricasde uma língua; não entenderá atos de comunicação indireta, nem será capaz de lerentre linhas e desconhece as convenções das estruturas de diversos textos. As expressões idiomáticas têm sua origem na linguagem falada e passam a serusadas no cotidiano social, sendo repetidas pelos falantes até se consagrarem pelouso. Ao serem aceitas pela comunidade de fala elas se tornam convencionais, ouseja, torna-se um costume social. Após o uso contínuo na fala, aparecem também naescrita e atualmente são encontradas em diversos textos. Podem ser metafóricasquando o falante/ouvinte ou leitor conhece a imagem aludida. Por expressão metafórica entende-se aquelas que a imagem que lhe deuorigem ainda é do conhecimento dos usuários, as que tiveram essa imagemesquecida tem o significado convencionalizado pela comunidade lingüística e são
    • 22chamadas de expressões totalmente idiomáticas, porque o seu sentido não pode serretirado do significado de cada um de seus elementos, mas da expressão como umtodo. Vemos então que, quando a expressão deixa transparecer a relação entre o seu significado e a imagem aludida, temos as expressões metafóricas. Quando, entretanto, não se pode mais recuperar essa relação, teremos as expressões idiomáticas propriamente ditas, de sentido totalmente arbitrário. (TAGNIN, 1989, p.49). As expressões idiomáticas podem ter sua origem metafórica e com o passar dotempo se tornar expressão de sentido arbitrário. De acordo com Lessa e Guimarães(1988, p.9): Metáfora é a figura de palavra em que um termo substitui outro em vista de uma relação de semelhança entre os elementos que esses termos designam. Essa semelhança é resultado da imaginação, da subjetividade de quem cria a metáfora. A metáfora também pode ser entendida como uma comparação abreviada, em que o conectivo comparativo não está expresso, mas subtendido. Para Lodovic (2007, p.168), “o idiomatismo é mesmo um fato de língua: resultade um jogo combinatório no qual se configura seu efeito de unidade, e delimita-se nofluxo da fala ‘em ato’”. Segundo a autora o sentido da expressão depende do texto e do contexto noqual está inserida, sendo imprevisível antes do uso. Pode ser estável, mas não fixo.Uma expressão pode ter duplo sentido e sofrer processo decomposição/recomposição. Nessa análise a autora compara os idiomatismos àsoutras manifestações lingüísticas e conclui que elas se comportam da mesmamaneira, ou seja, tanto uma expressão idiomática quanto uma não idiomática semodifica constantemente, o que torna o conceito de idiomatismo correspondente àforma fixa e sentido único, defendido em alguns trabalhos, algo a ser discutido. Na tentativa de explicar melhor o seu ponto de vista alguns exemplos sãoexplorados em seu texto. Em um deles, a expressão bater as botas teria duplosentido, a depender do texto poderia significar morrer. Na frase: ‘o coitado (do colono)bateu as botas, tão novo!’ bater as botas significa morrer. Nesse caso, assumindo umsentido idiomático ou bater as botas no sentido de dar pancadas nos calçados pararetirar o barro, por exemplo, em: O coitado (do colono) bateu as botas carregadas debarro. Nesse caso assume o sentido não-idiomático. O sentido idiomático depende doprocesso de metaforização que possibilita que outro sentido seja atribuído a umamesma expressão.
    • 23 Sendo assim, segurar vela a depender do texto em que for utilizado pode ter osentido de agarrar ou apanhar uma vela ou ainda atrapalhar um casal de namorados,como nessa frase. Ex: “Não tem nada pior do que você, além de ajeitar um meninopara sua amiga, ainda ter que ficar segurando vela17”. Nota-se que a expressão é amesma, o que muda é o sentido. Segurar vela com significado transparente não podeser idiomática, já a mesma construção com significado não-transparente é umidiomatismo. Ou seja, a expressão diz uma coisa para dizer outra coisa. De acordo com Xatara (1995) as expressões idiomáticas sempre ficaram àmargem dos estudos lingüísticos, atualmente vem sendo estudadas, mas ainda nãopossui estudos e teorias que abarquem toda sua complexidade. Isso tem dificultado ainclusão dessas expressões em dicionários de língua, especificamente nosdicionários de língua portuguesa essas expressões não são facilmente encontradas equando encontradas estão dentre outras expressões que possui um verbo ou umnome em comum, ou seja, não possuem entrada principal como os outros verbetesdificultando assim a consulta. Segundo a autora, nas gramáticas tradicionais estão entre as anomalias dalíngua e não têm espaço porque se referem à linguagem informal. São usadas poralguns autores da literatura com algumas ressalvas, entre aspas ou com explicaçãoposterior. No ensino-aprendizagem, as expressões idiomáticas, embora sejam importanterecurso de comunicação, que reflete a cultura de um povo e o modo próprio comoutilizam a língua, ainda não são usadas como deveriam no processo deaprendizagem de língua materna e muito pouco na aquisição de uma segunda língua.É necessário aprender essas expressões para saber usá-las dentro de umdeterminado contexto, pois tanto a aquisição quanto o uso dependem do todo. Enfim, o uso das expressões idiomáticas depende da experiência do falante,da intimidade que este tem com a língua, está ligado à fala, mas tem sido encontradona escrita. Essas expressões ainda precisam ser estudadas de forma maisabrangente de modo que garanta sua abordagem em dicionários da língua e umespaço maior no ensino- aprendizagem e nas gramáticas.17 WINDOWS 2007. Segurar vela? Jamais. Tudo sobre namoro. mar. 2011. Disponível em:http://namorosempre.blogspot.com/2011/03/segurar-vela-jamais.html. Acesso em: 9 set. 2011.
    • 24 2.1 Expressões idiomáticas em revistas informativas A princípio o presente trabalho teria as revistas Veja, Isto é e Época como fontepara a busca das expressões idiomáticas, mas devido ao número elevado dessesperiódicos optou-se por apenas um deles: a revista Veja. A escolha de revistasinformativas se deu a partir do momento em que se percebeu que nelas seria possívelencontrar autores que se arriscavam no uso de certas expressões não formais paraenriquecer sua escrita. Isso se comprovou nas leituras feitas principalmente nostextos do gênero artigo de opinião. Nas poucas revistas Isto é e Época encontradas,notou-se que os idiomatismos eram muito escassos talvez pelo fato de essas revistasainda se aterem à escrita formal. Notou-se também que quanto mais formal é aescrita e quanto mais restrito è o público alvo da publicação menos idiomatismos sãoencontrados. Quanto mais científica for a revista menor a chance de encontrar marcasda oralidade em seus textos. A escolha de um gênero textual específico também se torna necessário umavez que pesquisar em diversos gêneros tornaria o trabalho um tanto exaustivo. Osgêneros do discurso, segundo Bakhtin (2010, p. 286), equivalem a “formasrelativamente estáveis e normativas de enunciados”, criados a partir da necessidadede cada campo de utilização da língua. São muitos os gêneros porque são muitas ediferentes as necessidades de comunicação, já que a atividade humana é vasta ecomplexa. Assim como as atividades humanas evoluem e se modificamconstantemente, assim também os gêneros mudam para atender as necessidadesimediatas daqueles que os utiliza. Os gêneros do discurso, ainda segundo Bakhtin (2010) podem se dividir emgêneros primários e gêneros secundários, os primeiros, para o autor, são simples eformados em situação comunicativa imediata; os segundos, complexos, formados emsituação discursiva complexa a partir de um convívio cultural e aparecepredominantemente no texto escrito. Os secundários incorporam os primários eassumem uma característica mais complexa, ou seja, abandonam o caráter simples.Os diversos gêneros servem para organizar nossos enunciados e tornar possível acomunicação eficaz entre os usuários da língua. Segundo o autor, como usuários deuma determinada língua, somos dependentes dos gêneros do discurso:
    • 25 Falamos apenas através de determinados gêneros do discurso, isto é, todos os nossos enunciados possuem formas relativamente estáveis e típicas de construção do todo. Dispomos de um rico repertório de gêneros de discurso orais (e escritos). Em termos práticos, nós os empregamos de forma segura e habilidosa, mas em termos teóricos podemos desconhecer inteiramente a sua existência. (BAKHTIN, 2010, p.282). Nota-se que a comunicação seja ela oral ou escrita se dá mediantedeterminada ordem e essa ordem, na prática, todos os usuários da língua sãocapazes de utilizar. Desde a organização de uma simples frase até a produção de umtexto é feita obedecendo a regras, regras essas que torna possível o entendimentoentra falantes/ouvintes, escritores/leitores, evitando assim a desordem que seria secada um tivesse que inventar o próprio jeito de falar ou escrever. Para Marcuschi (2007) “os gêneros textuais são fenômenos históricos,profundamente vinculados à vida cultural e social. [...] contribuem para ordenar eestabilizar as atividades comunicativas do dia a dia”. No entanto, não são formatosfixos, ao contrário, possuem elasticidade, podem e devem ser modificados de acordocom a necessidade do falante/escritor. Segundo o autor os gêneros são criados apartir de outros preexistentes e são adaptados ao contexto de uso. No momento emque vivemos, com as revoluções tecnológicas, principalmente no que se referem àcomunicação, os gêneros são a todo o momento modificados. Mediante o contextoatual de rapidez e mundialização de informações, uma carta, por exemplo, dá origema um e-mail, que se adéqua melhor ao meio de comunicação internet. O autor revela que há uma diferença entre texto e discurso, o texto equivale àparte material e o discurso aquilo que é produzido através do texto em determinadassituações institucionais, históricas, sociais e ideológicas. Em gêneros como propaganda, entrevista, entre outros seria provávelencontrar os recursos idiomáticos já que nesses textos a liberdade de expressão doautor é maior do que em outros. Sendo as expressões idiomáticas recursos utilizadossobretudo na linguagem oral, constituindo uma marca da oralidade, é de se esperarque nos textos escritos elas apareçam em construções textuais menos formais esejam usadas por autores que ousam inovar na sua escrita dando um caráter originalao seu texto. Embora as expressões idiomáticas estejam ao alcance da maioria dosfalantes/ escritores, somente alguns as utilizam. Mesmo em gêneros textuais quepermitam o uso dessas expressões, observa-se que alguns autores que escrevem
    • 26textos de gêneros semelhantes, uns utilizam os idiomatismos com mais freqüênciaque outros assinalando assim para uma tendência de estilo de cada um. Mas, a proposta aqui é colocar em evidência apenas o artigo de opinião,definido por Costa (2009), como: Num jornal, numa revista ou num periódico, ou na TV e no webjornalismo, trata-se de um texto de opinião, chamado artigo de opinião, dissertativo ou expositivo que forma um corpo distinto na publicação trazendo a interpretação do autor sobre um fato noticiado ou tema variado (político, cultural, científico, etc.). Ao contrário do editorial, que nunca vem assinado e traz sempre a opinião do jornal, da revista, etc. em que circula, o artigo geralmente vem assinado pelo articulista e não reflete necessariamente a opinião do órgão que publica. A estrutura composicional desse tipo de texto varia bastante (não necessariamente terá uma estrutura canônica tradicionalmente ensinada na escola: Tese inicial na introdução; argumentação/refutação no desenvolvimento e conclusão), mas sempre desenvolve, explicita ou implicitamente uma opinião sobre o assunto com um fecho conclusivo, a partir da exposição das ideias ou da argumentação/refutação construídas. Em suma, a partir de uma questão polêmica e num tom estilo de convencimento, o articulista (jornalista ou pessoa entendida no tema) tem como objetivo apresentar seu ponto de vista sobre o assunto, usando o poder da argumentação, defendendo, exemplificando, justificando ou desqualificando posições (p.36). Nesse sentido, entende-se que um artigo de opinião dá margem para que oautor utilize um estilo próprio de escrita porque se trata de um texto dissertativo ouexpositivo em que há uma interpretação pessoal sobre determinado tema. Em textosdesse tipo as expressões idiomáticas podem ser facilmente incorporadas na escrita,demonstrando domínio da língua utilizada. Enfim, esse capítulo aborda a relação que há entre as expressões idiomáticase o dia a dia dos falantes e através de alguns exemplos tenta justificar a dependênciado contexto para a construção do sentido de cada expressão, além de expor o modocomo os idiomatismos tem sido tratados atualmente. A partir dessas consideraçõespode-se passar para o capítulo 3 em que se faz o levantamento e análise do Corpusda pesquisa.
    • 27 3. LEVANTAMENTO DAS EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS NA REVISTAINFORMATIVA “VEJA” (2009/2010). Para dar início à pesquisa, a seleção do corpus foi feita a partir da busca derevistas Veja na biblioteca da Escola Normal de Serrinha, através de empréstimo deassinantes. Das revistas encontradas separaram-se cinco publicações do ano 2009 ecinco do ano 2010. Nessas revistas, buscaram-se, nos artigos de opinião, aspossíveis expressões idiomáticas. Na busca, foram encontradas sete expressões queserão analisadas mais adiante. A escolha da revista Veja justifica-se por ser uma revista informativa semanal,acessível à maior parcela da população e por ser mais facilmente encontrada embibliotecas públicas. A escolha do artigo de opinião se deu pelo fato de ser um textono qual o autor tem maior liberdade de escolha quanto à formalidade do texto,podendo optar em ser mais ou menos formal. Outro aspecto que favoreceu essaescolha foi o uso de expressões idiomáticas que nesse gênero tende a ser maiscomum do que em textos científicos, por exemplo. Nas leituras feitas com o propósito de selecionar o corpus da pesquisa, notou-se que quanto mais formal é o veículo informativo e mais científico é o texto menorsão as chances de encontrar expressões idiomáticas. Quanto mais conservador é oautor menor é a possibilidade de ele utilizar expressões originárias da linguagemfalada em seus textos. Enfim, as expressões idiomáticas são usadas, seja numa conversadescontraída, onde provavelmente boa parte delas surgem ou se tornam costumeiras,seja num texto escrito demonstrando que a linguagem é viva e admite formascriativas, a depender do contexto de uso. Na edição 2137 de 4 de novembro de 2009 foram encontradas trêsexpressões: Engolir sapo, dar de ombros e dar bola. 1. Engolir sapo18 - aturar situações desagradáveis ou comportamentos alheios incômodos ou mesmo ofensivos, por conveniência ou impossibilidade de reagir à altura19.18 Revista Veja. n. 44,ano 42, p.24, 4 nov. 2009Edição 2137. Revista Veja. n. 28, ano 42, p. 22, 15 jul 2009 Edição2121.19 , XIMENES Sérgio. Minidicionário da língua portuguesa. 2. ed. reform. São Paulo: Ediouro, 2000.
    • 28 Ex 1: “Pois, na vida pública, não malbaratar o dinheiro, não fazer jogos de poder ilícitos, não participar das tramas, ficar fora da dança dos rabos presos em que todos se protegem, virou quase uma excentricidade. Quem sabe o jeito é engolir sapos inaceitáveis: fim para o idealismo treinem-se um olho clínico e cínico, enchendo bolsos e esvaziando pudores na permissividade geral que questiona o velho conceito de certo-errado.” No trecho citado a autora utiliza a expressão engolir sapos se referindo aocomportamento dos homens públicos eleitos pelo povo e que no Brasil têm se tornadocada vez mais alvo de denúncias pela prática de corrupção. Nesse caso, a expressãopode ser entendida com o sentido de aturar um comportamento alheio incômodo, umavez que segundo a autora os brasileiros “estão se tornando mais abertamentecorruptos ou condescendentes” com a corrupção. E que embora as pessoasreclamem da condição moral dos políticos e cidadãos, ainda não se tem uma soluçãopara isso. Ex 2: “Cansei de receber textos apócrifos, que seriam de Drummond, Pessoa, Veríssimo, Clarice e, agora, meu. Basta um rápido olhar e, se estamos familiarizados com os autores, sabemos: isso não é dele, dela. Porém, muitas vezes não há como saber. Engolimos sapos desse tipo, como recebemos mensagens com vírus, mensagens que são spam, mensagens que são bobajadas. Um bom antivírus ou anti-spam sempre ajuda” No texto, a autora fala sobre a publicação de textos que não são seus, masestão assinados como se fossem, na internet. Sem poder se defender nessa situação,ela utiliza a expressão “engolir sapo” com o sentido de aturar a situação por nãopoder reagir. Para Xatara (1995) algumas expressões possuem sentido autônomo, ou seja,não dependem do contexto para que seu sentido seja compreendido como: ser donodo próprio nariz, ser Maria-vai-com-as-outras, não ter letreiro na testa, outrasnecessitam, como: ter costas largas, colocar tudo em pratos limpos, embarcar emcanoa furada. A depender do contexto, a expressão engolir sapo pode ser idiomáticaou não, seu sentido pode vir da somatória dos elementos que a compõe engolir =deglutir + sapo = anfíbio: A serpente engoliu sapo, rã e outros anfíbios ou ser umidiomatismo, significando aturar situação desagradável por não poder reagir.Nota-se que engolir sapo não possui sentido autônomo, pois precisa do contexto paradefinir seu sentido. No sentido idiomático trata-se de uma expressão muito utilizada
    • 29no português brasileiro o que prova a sua cristalização pela cultura brasileira. Éconvencional entender engolir sapo como aturar situações desagradáveis. Outro aspecto é a combinação dos elementos que formam a expressão.Verifica-se que ao trocar qualquer elemento a expressão perde sua idiomaticidade;Engolir rã ou deglutir sapo.Para Lodovici (2007), ao contrário do que diz alguns autores, as expressõesidiomáticas podem se estabilizar no uso, mas essa estabilização não significa fixidez.A autora defende que a linguagem se modifica sempre, o que torna impossível fixaralgum significado por longo tempo, uma vez que as transformações são marcas emqualquer língua. Para a autora forma fixa e sentido único em linguagem é algo quaseimpossível já que cada contexto possui características próprias que influencia emcomo se diz algo. Ao utilizar o idiomatismo botar a boca no trombone, a autora explica que parteda expressão permanece fixa, enquanto os outros elementos podem se modificar. Ex:Botar/ pôr/ Meter/ Enfiar/ Estar com a boca no mundo/ no trombone e que embora taisexpressões sejam consideradas cristalizadas “cada forma idiomática ganha seusentido específico no momento de sua emergência, tal qual qualquer unidadelingüística” (p.183). A referida autora discorda da idéia de que os idiomatismos possuem umsentido fixo e uma fixidez sintática.Segundo Xatara (1995, p. 200) é necessário considerar o contexto ao ensinarexpressões idiomáticas “pois a contextualização é o melhor meio de ensinar a utilizá-las no discurso”. A autora afirma ainda que as expressões idiomáticas ”apresentam grandefixidez por definição, própria às unidades lexicalizadas”, (p.197).Essa posição é a mesma defendida por Biderman (2005, p.756) quando diz que “essetipo de sequência apresenta grande fixidez”. Nota-se que Xatara (1995) e Biderman(2005) utilizam a expressão “grande fixidez” que a meu ver não é sinônimo de totalfixidez, ou seja, há o reconhecimento de que as expressões idiomáticas possuemuma fixidez parcial de sentido e construção, que por vezes pode ser afetada pordiversas modificações.
    • 30 2. Dar de ombros20 - Demonstrar não estar preocupado com um acontecimento e/ou não dar credibilidade a alguém ou alguma coisa21 Ex 3: “Mas como encontrar o criminoso? Que leis lhe aplicar? O jeito é dar de ombros. Nem sempre dá pra dar de ombros. Às vezes machuca. Ofende. Prejudica quem é inocente, alegra quem é perverso. No espaço cibernético podemos caluniar e destruir ou elogiar e endeusar quem quer que seja, sem revelar nossa identidade.” Nesse trecho, a expressão dar de ombros é usada para demonstrardespreocupação com as publicações de textos falsificados na internet já que não setem o que fazer diante da situação pois é necessário atualizar as leis e as puniçõespara esse tipo de fraude. Ao contrário de engolir sapo, dar de ombros possui sentido autônomo, pois éuma expressão cuja distribuição denota seu sentido idiomático, ou seja, não énecessário recorrer ao contexto para entendê-la. A repetição da expressão pelosfalantes fez dela cristalizada. 3- Dar bola22 - dar confiança, em geral para iniciar namoro23 Dar confiança, dar atenção24 Ex 4: “Possivelmente outros textos falsamente meus já apareceram e nem me deiconta. O melhor nesses casos é não ligar, não dar bola, achar graça.” Nesse caso, a expressão dar bola com o sentido de dar atenção está sendoutilizada com o sentido negativo expresso pelo não e a partir do contexto pode-seperceber que não se trata de uma situação amorosa em que a expressão poderia serutilizada numa paquera. No texto citado a expressão refere-se a não dar confiança,atenção, a situação constrangedora de ter um texto falsificado circulando na internetcomo se fosse verdadeiro. Segundo Biderman (2005), em “Unidades complexas do léxico”, “geralmente nointerior do campo semântico de cada palavra gravita seu oposto no léxico mental dos2020 Revista Veja. n. 44, ano 42, p. 24, 4 nov. 2009 Edição 2137.21 http://www.dicionarioinformal.com.br/dar%20de%20ombros/ acesso em 16 jun 2012.22 Revista Veja. n. 44, ano 42, p. 24, 4 nov. 2009 Edição 2137.23 XIMENES Sérgio. Minidicionário da língua portuguesa. 2. ed. reform. São Paulo: Ediouro,2000.24 http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=bola adessoem 16 jun 2012.
    • 31indivíduos”, mas isso não se aplica, com algumas exceções, nas expressõesidiomáticas, ou seja, a expressão dar bola já está na memória dos usuários doportuguês, pode-se dizer que é uma expressão idiomática pertencente ao conjunto deexpressões cristalizadas do português, mas o seu oposto, não dar bola, é utilizado, aspessoas entendem o que significa, mas não está na memória dos usuários. Nessecaso, a partícula de negação foi utilizada na expressão dar bola para expressar ocontrário de dar atenção (não dar atenção). Essa é uma das poucas modificações queuma expressão idiomática pode admitir. Segundo Xatara (1995), as expressões idiomáticas possuem distribuição únicaou bastante restrita. Nas expressões idiomáticas, ao fazer qualquer modificação nadistribuição dos elementos, perde-se o efeito idiomático. Assim, fazer castelo na areianão pode ser substituído por fazer mansões na areia ou fazer castelos na praia.Assim também a expressão dar bola não admite a troca do verbo dar por doar (doarbola) uma vez que a expressão que está na memória dos falantes é dar bola e nãodoar bola. Segundo Biderman (2005), ao analisar sintagmas cristalizados verificou que “aausência do artigo pode indicar que se trata de uma abstração e que a palavraassume, nesse caso, um valor metafórico ou geral”. Isso também pode ocorrer comexpressões idiomáticas. A presença do artigo em dar a bola desfaz o valor metafóricoou geral, na ausência do artigo a expressão volta ao seu sentido metafórico ou geral.Assim como em engolir [o] sapo a presença do artigo desfaz o sentido metafórico ougeral da expressão. Outro aspecto que deve ser observado é o contexto em que a expressão seencontra. Observa-se que a depender do contexto dar bola pode significar doar, porexemplo, um artefato esférico de couro, borracha ou plástico, etc. usado comobrinquedo ou na prática de vários esportes. Então, pode-se dizer que dar bola nãopossui sentido autônomo, pois seu sentido depende do contexto. Assim como engolir sapo, a expressão dar bola é muito conhecida noportuguês brasileiro e seu sentido já consagrado pelo uso permite a sua permanênciaentre os falantes. Na edição 2130 de 15 de julho de 2009 foi encontrada uma expressão: Sair depau.
    • 32 4- Sair de pau25 Ex 5: “Mesmo quando está comemorando alguma coisa boa, real ou imaginária, Lulasempre dá um jeito de sair de pau para cima de alguém; dá a impressão de que só ficasatisfeito, mesmo, quando agride, critica, ou faz pouco de quem coloca na sua lista deadversários”. No texto o autor fala do comportamento do ex-presidente Lula que discordasempre das opiniões de outros políticos e segundo o autor se acha superior aosoutros atribuindo a si e ao seu governo todas as coisas boas que acontecem no país.A expressão sair de pau é utilizado com o sentido de agredir, criticar, como o própriotrecho em destaque deixa claro. Nota-se que a dificuldade em encontrar o significado da expressão sair de paunão é mera coincidência, pelo contrário, dificilmente são encontradas nos dicionáriosda língua portuguesa, mesmo nos mais completos. Isso se deve à falta de teorias quedelimitem essas expressões e ao não reconhecimento dessas unidades comopertencentes ao léxico da língua. Trata-se de uma expressão pouco conhecida, mas ao analisá-la pode-seperceber que seu significado idiomático não depende da junção do significado doselementos que a compõe. Sair de pau segundo o contexto é agredir, criticar e não sairpara fora /partir de cacete ou pedaço de madeira. Independente do contexto, sair de pau possui sentido autônomo, ou seja, nãohá outro significado para essa expressão na língua portuguesa a não ser o significadoidiomático. É uma expressão que se parece com outras como: ser dono do próprionariz, ser Maria-vai-com-as-outras, Na publicação de 2 de setembro de 2009 foram encontradas duas expressões:pé-rapado e papo cabeça. 5- Pé-rapado26 - pobretão27, indivíduo de baixa condição28 Ex 6: “Segundo ele, na sua origem, ‘o malandro é o nobre pé-rapado, o sujeito que viuos aristocratas lendo e escrevendo, não teve educação para entender o eventual valor daescola e vive de expediente’.2526 Revista Veja. n 35, ano 42, p. 26, 2 set 2009.27 XIMENES Sérgio. Minidicionário da língua portuguesa. 2. ed. reform. São Paulo: Ediouro,2000.28 http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=pé acessoem 16 jun 2012.
    • 33 No texto a expressão pé-rapado está sendo utilizada para indicar que omalandro não é apenas um nobre pobre é mais do que isso, é um nobre pobretão. Segundo Xatara (1995), “de um modo geral, as expressões idiomáticas sãomuito frequentes (besta quadrada; ter costas largas; com o pé nas costas, etc.) vistoque fazemos constante uso delas em nosso dia a dia”. É o caso de pé-rapado, semperceber os falantes utilizam em textos orais ou escritos. Nota-se que se trata de umacombinação de apenas dois elementos que se cristalizou na cultura brasileira com osentido de pobretão. Percebe-se que a junção do significado das partes (pé = membroinferior do corpo humano + rapado = raspado; ralado, não é suficiente para definir seusentido idiomático, mas a cultura brasileira convencionou o significado idiomáticopobretão. 6- Papo cabeça29 = conversa intelectualizada30 Ex 7: “Os bons são muito poucos? Acho que não. Estão por todos os lados. Mas nãochamam atenção, por serem menos pitorescos e divertidos. Aliás, dom Pedro II gostavamesmo era de um papo cabeça.” Nota-se que o significado literal de cada elemento formador da expressão aoser somado traduz algo diferente do sentido idiomático. Para um falante do portuguêsbrasileiro é fácil entender papo cabeça como conversa intelectualizada, mas difícilpara um aprendiz da língua, que não conhece os usos culturalmente consagrados.Trata-se de uma expressão de sentido autônomo, pois não precisa do contexto paraser entendida. Diferente do que ocorre com a expressão engolir sapo, que necessitado contexto para ser entendida como um idiomatismo, papo cabeça independe docontexto. Para serem entendidas algumas expressões não dependem do contexto, maspara serem usadas, todas precisam ser inseridas numa determinada situação.Segundo Xatara (1995, p. 200) é necessário considerar o contexto ao ensinarexpressões idiomáticas “pois a contextualização é o melhor meio de ensinar a utilizá-las no discurso”.2929 Revista Veja, n 35, ano 42, p.26, 2 set 2009.30 http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=papoacesso em 16 jun 2012.
    • 34 Na edição 2164 de 12 de maio de 2010 foi encontrada uma expressão: Nervosà flor da pele. 7- Nervos à flor da pele - estado de grande nervosismo31 Ex 8: “Que, quando se lembrarem de sua infância, não recordem os dias difíceis(vocês nem sabiam), o trabalho cansativo, a saúde não tão boa, o casamento numa pequenaou grande crise, os nervos à flor da pele – aqueles dias em que, até hoje arrependida, dei umtapa que ainda agora dói em mim, ou disse uma palavra injusta.” Nota-se que a junção dos significados das partes da expressão não é suficientepara o entendimento. Para Xatara (1995) algumas expressões possuem sentido autônomo, ou seja,não dependem do contexto para que seu sentido seja compreendido. Nervo à flor dapele não necessita do contexto para ser entendida, mas como toda expressão deveser inserida numa situação determinada para ser ensinada ou utilizada. Segundo Xatara (1995) as expressões idiomáticas possuem distribuição únicaou bastante restrita. Em Nervos à flor da pele, ao fazer qualquer modificação nadistribuição dos elementos, perde-se o efeito idiomático. Assim, segundo a autora, aosubstituir pele por epiderme ou qualquer elemento formador da expressão porsinônimos perde-se o sentido idiomático.3131 http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=nervo acesso em 16 jun 2012.
    • 354 CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta pesquisa teve início a partir do interesse pessoal pela linguagem falada ena busca por entender como as expressões típicas da oralidade estão sendo cadavez mais incorporadas na modalidade escrita e em diversos textos que circulam nocotidiano brasileiro. Para isso foram selecionadas edições da revistas Veja de 2009 e 2010 e feita aleitura dos artigos de opinião nelas publicados. A partir da leitura foram destacadastodas as expressões típicas da fala utilizadas pelos autores nesses textos. Feita aseleção, foi feita a busca por autores que trabalham com a temática e considerou-seos estudos desses teóricos na análise dos dados. A partir da análise dos dados com base nas teorias encontradas constatou-seque quanto mais formal é o texto, menor é a chance de encontrar expressõesidiomáticas. No que se refere ao gênero artigo de opinião verificou-se que este viabiliza ouso dessas expressões, uma vez que se trata de um gênero que traz a opinião doautor sobre algum fato e não necessariamente precisa ser assinado nem necessita deaval do órgão que a publica. Notou-se que alguns autores utilizam mais do que outros, expressões típicasda linguagem falada, a exemplo da autora Lya Luft, articulista da Veja. Concernente ao significado dessas expressões presentes nos dicionários doportuguês brasileiro notou-se também a carência de informações precisas nosdicionários sobre essas expressões e também de teorias que delimitem o que devaser considerado expressão idiomática e a diferencie de outras expressões comcaracterísticas semelhantes. Constatou-se que o usuário da língua deve conhecer as peculiaridades dacultura na qual está inserido para saber utilizar e entender as expressões idiomáticas.Estas têm origem na fala e o seu significado é convencionalizado passando a serrepedido por vários falantes até se consagrar como idiomatismo. Notou-se que algumas expressões dependem do contexto para serementendidas, uma vez que possuem um sentido literal e um sentido idiomático aexemplo de engolir sapo. E que outras não precisam estar ligadas ao contexto paraserem decifradas como é o caso de dar de ombros.
    • 36 A mudança ou troca dos elementos que compõe uma expressão podecomprometer seu significado idiomático. Isso não quer dizer que elas não admitamnenhuma mudança, apenas sinaliza para uma possibilidade menor de trocascomparado ao processo de transformação por que passa as manifestaçõeslingüísticas não idiomáticas. O significado idiomático não depende da junção do significado dos elementosformadores da expressão, mas da imagem metafórica que sugerem ao falante. Por fim, a originalidade dessas expressões, seja na fala ou na escrita, constituium diferencial que deve ser considerado nos estudos da linguagem, possibilitando oreconhecimento das marcas culturais presentes nelas e a valorização da linguagemfalada como um contínuo da escrita e não como forma menos apreciada nas escolas,nas gramáticas e no ensino-aprendizagem como um todo..
    • 37REFERÊNCIASANDRADE, Carlos Drummond. Quadrante: Antigamente 1962. Google. Disponívelem: <http://www.algumapoesia.com.br/drummond/drummond07.htm>. Acesso em: 25nov. 2009.BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1981.------------, ----------. Estética da criação verbal. 5. ed. tradução de Paulo Bezerra. SãoPaulo: Martins Fontes, 2010.BIDERMAN, M.T.C. Unidades complexas do léxico. 2005. Google. Disponível em:<http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4603.pdf>. Acesso em: 14 fev. 2011.CARAMORI, Alessandra Paola. Expressões idiomáticas em Rodari: subsídios para aelaboração de um dicionário bilíngüe (italiano – português). (Tese de doutorado). SãoSão Paulo: 2006. Google. Disponível em:<http://www.fflch.usp.br/dl/pos/TESES_DEFENDIDAS/2006/Alessandra_Caramori.pdf>Acesso em: 14 fev. 2011.COSTA, Sérgio Roberto. Dicionários de gêneros textuais. 2. ed. rev. ampl. BeloHorizonte: Autêntica, 2009.COTRIM, Márcio. A origem popular das expressões brasileiras. Revista LínguaPortuguesa.n. 39, ano 4, p.59, jan 2009.______.______.n. 40, ano 4, p.59, fev 2009.______.______.n. 41, ano 4, p.63, mar 2009.______.______.n. 43, ano 3, p.62, mai 2009.______.______.n. 44, ano 3, p.64, jun 2009.______.______.n. 45, ano 3, p. 64, jul 2009.______.______.n. 47, ano 4, set 2009.______.______.n.48, ano 4, p.64, out 2009.CUNHA, Antonio Geraldo da. Dicionário etimológico Nova Fronteira da LínguaPortuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1982.FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio Século XXI: o dicionário dalíngua portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.ILARI, Rodolfo e GERALDI, João Wanderlei. Semântica. São Paulo: Ática, 1985
    • 38JORGE, Guilhermina. Algumas reflexões em torno das expressões idiomáticasenquanto elementos que participam na construção de uma identidade cultural. 2001.Google. Disponível em: <http://www.fl.ul.pt/unil/pol4/mesa_txt5.pdf>. Acesso em: 27nov. 2009.LODOVICI, Flamínia Manzano Moreira. O idiomatismo como lugar de reflexão sobre ofuncionamento da língua. 2007. Google. Disponível em:<http://www.iel.unicamp.br/revista/index.php/sinteses/article/viewFile/830/591>.Acesso em: Julh 2011.MARCONI, Marina. Técnicas de pesquisa. 5.ed. São Paulo: Atlas, 2002.MARCUSCHI, Luis Antonio. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. InGêneros textuais e ensino. DIONÍSIO, Angela Paiva; MACHADO, Ana Rachel;BEZERRA, Maria Auxiliadora (orgs) 5.ed.Rio de Janeiro: Lucerna, 2007.MARQUES, Maria Helena Duarte. Iniciação à semântica. 5. ed. Rio de Janeiro:Jorge Zahar, 2001.MARTE LOTTA, Mario Eduardo (Org.). Manual de Linguistica. São Paulo: Contexto,2008.NASCIMENTO, Ceolin Patrícia. Jornalismo em revistas no Brasil: um estudo dasconstruções discursivas em Veja e Manchete. São Paulo: Annablume, 2002.NOBREGA, Marlene Assunção de. Quando os provérbios dão a manchete: aoralidade no texto escrito jornalístico – o caso Jornal da Tarde. 2008. (tese dedoutorado). Google. Disponível em:<http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8142/tde-28082009-144134/. php>.Acesso em: 30 nov. 2009.ROUSSEAU, Jean-Jacques. Ensaio sobre a origem das línguas. 3. ed. TraduçãoFulvia M.L.Moretto São Paulo: Unicamp, 2008.TAGNIN, Stella Ortweiler. Expressões idiomáticas e convencionais. São Paulo:Ática, 1989.URBANO, Hudinilson. Da fala para a escrita: o caso de provérbios e expressõespopulares 2008. Google. Disponível em:<http://www.ufpe.br/pgletras/Investigacoes/Volumes/Vol.21.2/Hudinilson_Urbano.pdf>. Acesso em: 26 nov. 2009._____________. Um aspecto do português popular do Brasil: sua fraseologia.[ca..2007]. Google. Disponível em:<http://www.fflch.usp.br/dlcv/lport/pdf/slp18/04.pdf>. Acesso em: 10 dez. 2009.XATARA, Claudia Maria. O campo minado das expressões idiomáticas. In Alfa, SãoPaulo, v.42, 1998. Google. Disponível em:<http://seer.fclar.unesp.br/alfa/article/view/3712>. Acesso em: 14 fev.2011.
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