UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB     DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV           LICENCIATURA EM HISTÓRIA       ...
GRAZIELA SILVA DAS MERCÊSREPRESENTAÇÃO DA MULHER NO LIVRO DIDÁTICO DA    3ª SÉRIE DE HISTÓRIA DA DÉCADA DE 1980.          ...
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Introdução                 Este artigo tem como tema geral a representação da mulher no livro didáticode história da 3ª sé...
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As várias reformas curriculares que passaram a ser realizadas no final doséculo XIX passaram a defender um currículo mais ...
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E é nessa construção que Alain Choppin observa que: “após ter sidonegligenciado por historiadores, os livros didáticos vêm...
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O livro tem 114 imagens, com três mapas. Contabilizadas as imagens,somente 19 delas referem-se à mulher, seis delas refere...
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Figura 3: Mulher em seus trabalhos domésticos (http://www.ahw.com.br/anew/pia.jpg).                   O penúltimo livro di...
O ultimo livro didático a ser analisado, é da coleção Integrando o Aprender,e ele foi produzido pela Editora Scipione, 2ª ...
As situações dos povos negros e dos indígenas nos livros didáticos dadécada analisada são muito mal abordadas, além deles ...
com todas as hierarquias que o sistema escolar impõe que vai desde a simples divisão depapéis entre os profissionais da ed...
SECAD – Secretaria de Educação continuada, Alfabetização e Diversidade Ministério daEducação.Silva, Zélia Lopes da. (Org.)...
SOUZA, Marina Nascimento e. Quero Aprender, Ática, 2ª Edição em 1988 (3ª série).
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Representação da mulher no livro didático da 3ª série de histíoria da década de 1980

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Representação da mulher no livro didático da 3ª série de histíoria da década de 1980

  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV LICENCIATURA EM HISTÓRIA GRAZIELA SILVA DAS MERCÊSREPRESENTAÇÃO DA MULHER NO LIVRO DIDÁTICO DA 3ª SÉRIE DE HISTÓRIA DA DÉCADA DE 1980. Conceição do Coité 2010
  2. 2. GRAZIELA SILVA DAS MERCÊSREPRESENTAÇÃO DA MULHER NO LIVRO DIDÁTICO DA 3ª SÉRIE DE HISTÓRIA DA DÉCADA DE 1980. Trabalho de conclusão de curso apresentado como requisito para obtenção do titulo de Licenciado em História, pelo Departamento de Educação, Campus XIV, da Universidade do Estado da Bahia. Orientadora: Zuleide Paiva Conceição do Coité 2010
  3. 3. RESUMOEsse artigo tem como finalidade analisar a representação da mulher a partir do livro didáticode História da década de 1980, trazendo a discussão de gênero, de Scott. Outro ponto tambémdiscutido é a discriminação sofrida pelas mulheres negras em meio ao principal recursodidático que deveria ser construído com base nas democracias, tanto raciais quanto sexuais,contribuindo para que as diferenças possam ser vistas como algo que constrói e não quediscrimina.Palavras-chave: História – Historiografia – Gênero – PNLD – Livro didático de HistóriaABSTRACTThis article has as purpose to analyze the representation of the woman from the didactic bookof History of the decade of 1980, bringing the quarrel of sort, of Scott. Another point alsoargued is the discrimination suffered for the black women in way to the main didacticresource that would have on the basis of to be constructed the democracies, racial how muchin such a way sexual, contributing so that the differences can be seen as something thatconstructs and not that it discriminates.
  4. 4. Introdução Este artigo tem como tema geral a representação da mulher no livro didáticode história da 3ª série da década de 1980. Antes de qualquer coisa o meu interesse pelo temapartiu devida minha aproximação com professores da área em que minha pesquisa estáincluída (gênero e educação). De uma maneira geral o objetivo desse trabalho é realmente mostrar como amulher foi ocultada dentro do principal recurso didático que foi livro didático da década 1980.Mas para que todo esse processo fosse completado, foi necessária uma busca na história dasmulheres desde os meados do século XIX até o século XX. Isso foi necessário para poderperceber que, mesmos a mulher com a sociedade contra as suas reivindicações, ela conseguiuconstruir seu lugar dentro das academias, e tudo isso tendo como base nas suas lutas emanifestações sociais. A partir daí pude analisar como as mulheres estavam representadasdento do livro didático, e quais eram os valores e os códigos sociais veiculados as imagensdas mesmas, levando em conta principalmente como sua história estava escrita no livrodidático. Todos esses pontos foram cruciais para o entendimento do panorama histórico que amulher se encontrava no final do século XIX e início do XX. A escrita da história das mulheres no Brasil, assim como, em outros paísesteve relação direta com o movimento de mulheres e feministas. A partir daí, torna-se cada vezmais necessário, uma “politização” em relação à colocação da mulher na sociedade, e é emdecorrência dos seus movimentos sociais, que essa tão sonhada oficialização é construída. Maria Izilda analisa como a política influenciou no dia-a-dia da mulher: “e como a descoberta do ser político levou a questionamentos sobre as transformações na sociedade e no funcionamento da família, o papel da disciplina das mulheres o significado dos fatos lutas e gestos do cotidiano...” (MATOS, 2005, p. 89). Todavia, o contexto da ditadura militar deu para esses movimentos no Brasil,uma configuração diferente daquela que se encontrava em outros países, a exemplo dosEstados Unidos da América e da França, grandes pólos de movimentos sociais. No entanto, sefaz necessário lembrar, que foi exatamente no contexto da ditadura, que várias militantes domovimento de resistência, tiveram contato com o feminismo nas décadas de 1960 e 1970.Uma vez, que muitas delas foram exiladas por serem membros integrantes desses movimentossociais, mas também, existiram aquelas que saíram do Brasil para completarem seusmestrados e doutorados, e assim tiveram contato com essas idéias. É dentro desse contexto,
  5. 5. que assistimos no Brasil o chamado Feminismo de Segunda Onda, que teve comocaracterística a criação de “grupos de reflexão”, formados apenas por mulheres, que nopassado mantiveram contato com as mais diversas premissas partidárias, sendo que, muitasdelas eram esquerdistas. De acordo com Joana Maria Pedro, “O movimento de mulheres e feministas da “Segunda Onda” constituiu uma identificação: de “mulher”, separada de “homem”, como ser universal. Elas estavam afirmando que eram diferentes dos homens, ao mesmo tempo que buscava a igualdade com eles”(PEDRO,2006,p.167). Dessa maneira, o que as feministas questionavam, era justamente que ouniversal em nossa sociedade, é masculino, e que elas não se sentiam incluídas quando eramnomeadas pelo ele. Assim, o que o movimento reivindicava, o fazia em nome da “mulher” enão do “homem”, mostrando que esse sujeito universal masculino não incluía as questõesespecíficas da “mulher”.Mulher, Mulheres e Gênero Nesse contexto de reivindicações de um reconhecimento de outro sujeito, ofeminino, a categoria Mulher se estabelece em oposição ao sujeito universal homem,categoria que era vista pelo movimento feminista como invisibilizadora das mulheresenquanto sujeitos da realidade. A partir dessas discussões e do uso da categoria Mulher, criam-se duasvertentes, as “separatistas”, que seguiam o grupo ligado a Luce Irigaray e Heléne Cixous,ambas ligadas às ideologias feministas, e as “igualitaristas”, seguidoras de Simone deBeauvoir pioneira com seu manifesto feminista, Segundo Sexo, no qual propõe novas basespara o relacionamento entre mulheres e homens. Na perspectiva “separatista”, era comumsomente reunir mulheres em suas recorrentes reuniões para reafirmar sua identidade enquantomulher, entendendo também que as pessoas possuidoras de um mesmo sexo, no caso ofeminino, eram identificadas como “mulher”, e passavam a ser pensadas como submetidas aosexo masculino, sendo, portanto, alvo da mesma forma de opressão. Outra maneira depromover essa luta contra a violenta submissão sofrida pela mulher de acordo com asseparatistas é o de reafirmar que seria o sexo, no caso o genital que promoveria a diferençaem relação aos homens, dando-lhe uma identidade para lutar contra as subordinações sofridas. Segundo Joana Maria Pedro, as “igualitaristas”, as “separatistas”, queriam apreconização da “feminização do mundo”, essa feminização proporcionaria a mulher, uma
  6. 6. independência em relação ao que era proibido dentro do contexto da época, em relação aopolítico, econômico, mas principalmente do social. Enquanto as “separatistas” lutavam para afirmar suas premissas, que eram ade liberdade e acima de tudo, construção de uma identidade, as “igualitaristas” reivindicavamque as mulheres participassem em igualdade de condições com os homens na esfera pública.Com essa idéia, o movimento “igualitaristas”, ganhou diversas críticas, mas não tão severas,quanto à do movimento “separatistas”, onde acusou que estavam sendo feitas exigências, paraque mulheres se transformassem em homens para entrarem nos espaços públicos destinadosaos mesmos. Contra todo movimento “igualitaristas”, as separatistas afirmavam, que para amulher ter poder, as mesmas tinham que colocar suas diferenças com igual valor aos doshomens, mas sem perder sua feminilidade. Desse modo, o uso da categoria “mulher”, sofria interpretações das maisdiversas, dependendo da perspectiva utilizada. Mas foi nos Estados Unidos, que essa categoriafoi mais criticada. Algumas estudiosas da área entendiam que essa categoria não atendia àsespecificidades dos diversos problemas das mulheres, sejam das negras, indígenas e as pobrestrabalhadoras domésticas. As feministas reivindicavam a “diferença”, dentro da grandediferença existente entre as mulheres. “Assim, a categoria “mulher”, como a categoria “homem”, não era suficiente para explicar a diversidade de femininos. Diante dessas questões, emergiu a categoria mulheres em substituição àcategoria mulher no final da década de 70, com o objetivo de revelar que ao se falar dasmulheres não se poderia fazê-lo no singular. Éramos plurais, éramos mulheres, com as maisdiversas experiências e vivências. Todavia, vale ressaltar, que independentemente de usar a categoria “mulher”ou “mulheres”, a grande questão a que todas queriam responder, e que buscavam nos maisvariados meios, seja ele acadêmico ou não, era o porquê das mulheres, em diferentessociedades, serem submetidas à autoridade masculina, nas mais diversas formas e nos maisdiferentes graus . Acrescentamos ainda, que apesar da contestação do uso da categoriamulher, não se pode negar a contribuição que essa categoria possibilitou para a elaboração deum elevado número de produções realizadas, sejam por historiadores, sociólogos, filósofos,antropólogos e tantas outras, sendo que, as pioneiras do século XX, Margareth Mead com suaanálise em relação à diferença sexual na constituição dos papéis dentro das sociedades, eSimone de Beauvoir, usando a categoria “mulher” para discutir nos referenciais do
  7. 7. existencialismo, a constituição da “mulher” como ser social, deixando de lado o fatorbiológico para se dedicar ao fator cultural, com sua célebre frase: “Não se nasce mulher,torna-se” (PEDRO, 2006, p. 171). E pensando especificamente na produção historiográfica, essas categorias,aliadas ao revisionismo pelo qual vinha passando a História desde a Escola dos Annales, nadécada de 20, e que se consolidou na década de 60 em diante, nas abordagens da NovaHistória e História social, onde as novas perspectivas de Marc Bloch como rever o passado apartir das indagações do presente, ampliação da noção de sujeito e a inclusão do cotidiano, seconsolidaram como importantes perspectivas historiográficas, aliadas as pressões dos novosmovimentos sociais, com os movimentos de mulheres e o movimento feminista, abriu-se umaimportante brecha para pensar na História das mulheres, ou melhor, para narração da Históriadas mulheres. A partir desse contexto, a mulher passa a ser percebida dentro dasuniversidades, como um ser também responsável pela construção das sociedades, fugindo decerto modo da posição de invisibilidade ideológica que lhes deram há muito tempo. No entanto, mesmo com toda transformação ocorrida no intuito de atender eresponder questões relacionadas aos anseios feministas, as categoria “mulheres”, não deramgrandes passos em relação às reais mudanças que as mulheres buscavam. Paralelamente aisso, abri-se uma porta para um novo pensar, mais forte, mais incisivo, mais direto, que jáestava se usando nos Estados Unidos e que abarcava desde os movimentos feministas, indoaté as diferenças percebidas entre os sexos além das discussões sobre relações de poder. Essa nova categoria surge no Brasil trazendo tudo o que é novo, mas o quemais chama a atenção das feministas, é que ela analisa a mulher juntamente com o homem,traçando assim uma análise mais relacional. Segundo Maria Izilda, “o gênero chegouprocurando dialogar com outras categorias históricas já existentes e que muitas vezes foiempregado de maneira incorreta nos muitos estudos” (MATOS, 2005, p.97). No Brasil isso foi mais visível quando a maioria dos estudiosos a partir de1990, passa a ter como base a obra de Joan Wallach Scott, que tem como tema: “Gênero: umacategoria útil para análise histórica”, publicada no Brasil no final da década de 80. Assim, gênero ganhou dentro dos movimentos sociais de mulheresfeministas, gays e lésbicas, uma grande relevância. Podemos então com isso perceber que a categoria “gênero”, não vaisomente ser vinculada aos movimentos relacionados às mulheres, mas também para todos os
  8. 8. movimentos que se baseavam na diferença entre os sexos nas relações de poder, e porque nãodizer nas relações sociais, transformando-se com isso em uma categoria que abarcaria osmovimentos que buscava uma identidade frente a uma sociedade masculinizada econseqüentemente machista. Dessa forma Scott define gênero como, “tem duas partes e várias subpartes. Elas são ligadas entre si, mas deveriam ser analiticamente distintas. O núcleo essencial da definição baseia-se na conexão integral entre duas proposições: o gênero é um elemento construtivo de relações sociais, baseado nas diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é uma forma primeira de significar as relações de poder. As mudanças na organização das relações sociais correspondem sempre a mudanças nas representações de poder...” (SCOTT, 1989, p.14). A partir dessas novas teorias, a palavra gênero emerge em um grandemovimento de efervescência epistemológica entre os pesquisadores sobre os mais variadostemas. E é com essas novas práticas que a história das mulheres irá dar início a sua grandecaminhada acadêmica, mostrando sua luta que há muito tempo foi abafada, e de certo modoincriminada pelas produções que construíram uma história eminentemente androcêntrica aqual Sarda entende como: “O homem como medida de todas as coisas. Enfoque de um estudoanálise ou investigação a partir da perspectiva unicamente masculina, utilização posterior dosresultados válidos para a generalização dos indivíduos, homens e mulheres (...)” (SARDA,1987, p.23).Livro Didático um Meio de Comunicação E se hoje, existe uma produção da História das Mulheres, ela ainda éproduzida as margens de uma história universalizante, que reflete uma concepção de ciênciaque legitima o homem como sujeito universal e o espaço público como palco dosacontecimentos importantes da história. O cotidiano e o espaço privado são colocados comoespaços de pouca importância, lugares dos homens e mulheres comuns. Nesse contexto, olivro didático reflete a história das grandes narrativas e dos feitos dos homens, assim como, ahistória do político e do econômico. Vale ressaltar, que essa produção historiográfica, que cunhou um sujeitouniversal e elegeu determinados fatos históricos para serem narrados, reflete a concepçãopositivista de ciência que se estabeleceu no século XIX e boa parte do século XX. No Brasil, esse pensamento positivista, marcou fortemente o processo deimplantação da República.
  9. 9. As várias reformas curriculares que passaram a ser realizadas no final doséculo XIX passaram a defender um currículo mais científico, mais técnico e prático,adequado aos anseios de modernização que se propunha um novo país republicano. Tudo isso,para que se concretizassem os projetos de estruturação e desenvolvimento do Novo Estadonos moldes de uma concepção positivista que pregava a idéia de Ordem e progresso. Ou seja,organizar para progredir. Dessa forma, o ensino de história nessa época, obedeceu ao discursorepublicano que reforçou as idéias positivistas, cabendo somente à escola e o ensino,denunciarem os atrasos impostos pela monarquia e principalmente criar uma mentalidade nosindivíduos de progresso e ordem. Respondendo aos objetivos de novo governo, de evidenciaros “grandes heróis da república brasileira”, que lutaram para transformar o Brasil em um lugarde novas perspectivas, criando um modelo de cidadão com sentimento nacionalista,trabalhador e acima de tudo patriótico. Esse pensamento acabou por posicionar o nosso ensino de história, maisespecificamente, em um grande currículo que somente iria priorizar o homem e suasimportantes colaborações para a construção da nossa nação. Assim, Selva GuimarãesFonseca, analisa a educação de História como: “afirmação das identidades nacionais e a legitimação dos poderes políticos fizessem com que a História ocupasse posição central no conjunto de disciplinas escolares, pois cabía-lhe apresentar a criança e os jovens o passado glorioso da nação e os feitos dos grandes vultos da pátria” (FONSECA, 2004, p.24). E esses objetivos criados pelo estado se refletiam no livro didático, que erauma produção que alcançava uma significativa parcela da população, devido aos muitosprogramas criados pelo próprio governo, um desses programas era uma Comissão Nacional deLivros Didáticos na década de 60, cuja atribuição era o estabelecimento de regras para aprodução, compra e utilização do livro didático. E é dessa maneira, que o livro torna-se mais que um recurso pedagógicodentro da escola, torna-se um meio de comunicação do estado com futuros homens e mulheresdo Brasil. Todavia, essa função que o livro didático ganhou, não só afetou o nosso país, mastambém, a maioria dos países americanos e europeus, após os processos de independência. Alain Choppin descreve bem o que o livro didático representa para um país: “os livros não são somente ferramentas pedagógicas, mas também suportes de seleções culturais variáveis, verdades a serem transmitidas às gerações mais jovens, além de meios de comunicações cuja eficácia repousa na importância de suas formas de visão. Nessa perspectiva, os livros, para além de se constituírem de vetores
  10. 10. ideológicos, são fortes abundantes, diversificadas e, ao mesmo tempo, completas, visto que cada obra constitui uma unidade própria e coerente, com princípios, meio e fim...” (ANPUH, 2004, p.99). Considerando todos esses pontos que o livro didático traz consigo, ele torna-se o principal recurso didático dentro de uma escola, e um dos objetos mais importantes para aconstrução do saber do aluno dentro do espaço escolar. Devido ao reconhecimento dessa importância do livro didático como umaferramenta ideológica, na época da Ditadura Militar, o governo investe fortemente naprodução e distribuição desse recurso pedagógico. Isso porque, era necessário levar os ideais de ordem e progresso para todos,e o livro didático cumpria essa função. Todavia, não era qualquer livro que poderia serdistribuído nesse período, apenas aqueles que passassem pelo controle da censura. A ausênciada democracia deixaria marcas indeléveis no sistema público de ensino no Brasil. Cabe destacar também as muitas frustrações entre o setor editorial-cultural eo Estado autoritário, os quais envolveram relações de caráter político-ideológico, cujarepercussão sobre o conteúdo do livro didático foi marcante, sobretudo na perspectiva decivismo presente na grande maioria das obras do período. É percebendo essa importância do livro didático, que a partir da década de1980, são feitas algumas tímidas ações no âmbito da discussão acerca dos problemaspresentes nos livros didáticos distribuídos em todo território brasileiro. Esse movimento derenovação do livro didático coincidiu com as transformações feitas no programa de Históriaem estados do sudeste, sendo eles, os primeiros a serem beneficiados com as modificações naárea da educação com as propostas do marxismo em substituição do positivismo. Todas essastransformações estavam intrinsecamente ligadas ao processo de redemocratização que oBrasil estava passando, já que vivemos durante um longo tempo sob ordens de governosditatoriais. Em 1985 é que criado o Programa Nacional do Livro Didático o PNLD, oqual fica responsável por analisar todo conteúdo designado ao livro, além da distribuiçãogratuita de todos os livros didáticos para os alunos das escolas publicas do ensinofundamental de todo país. Outra modificação com esse programa, é que a partir dele a criaçãodo livro didático vai ser mais criteriosa e democrática em relação ao âmbito político e decriação, devido à participação do próprio professor no momento da construção e também nahora da escolha da obra.
  11. 11. Esse programa aprimorou critérios que foram imprescindíveis para aconstrução das obras didáticas, a exemplo dos vários olhares que o livro didático deve ter. Asleituras críticas que possibilitaram aos alunos a terem mais que uma leitura padrão dentro doassunto discutido, e tudo com a própria evolução do PNLD, vinculada com as transformaçõesdentro das várias áreas da educação. Mas ainda com todas essas transformações ocorridas dentro do mundoeducacional brasileiro ligado ao livro didático, não houve muitas mudanças em relação àprópria concepção de história que o livro didático projetava antes da década de 1980. Os fatosque anteriormente eram privilegiados ainda continuam a serem os mesmos, os grandes heróis,homens fortes que lutaram por tudo que temos, e que sem eles não seríamos hoje um paísliberto dos portugueses, e principalmente não conquistaríamos a tão sonhada República. O fato é que as mudanças que se observam na historiografia brasileira, aindasão sentidas de forma muito tímida nos livros didáticos, se concentrando mais nos meiosacadêmicos, do que no nível dos manuais de história. Assim se continua a privilegiar temas “importantes” ligados a determinadosperíodos da história brasileira como as épocas do Império, Regime Monárquico, República, aPolítica de Vargas (1930-1945), seguindo o Regime Militar, e por fim, a Democratização,enfatizando sempre o repetitivo, o cíclico, proporcionando uma história sem muitaspreocupações com o indivído, com o ser humano e com sua contribuição dentro das variasrevoluções e lutas que o Brasil tem orgulho de dizer que fez. Desse modo uma das disciplinas mais especiais fica na maioria das vezesmuito pragmática e cheia de conceitos formados pelos “grandes vencedores” da história doBrasil. Não esquecendo também da grande historia global que é reduzida a algumas guerras erevoluções promovidas por alguns paises com seus heróis. É preciso ressaltar também, a possibilidade em pensar na renovação dosgrupos de autores, que são responsáveis pela criação dos livros didáticos, isso porque, ametodologia empregada pelo autor para expor os conteúdos no livro didático de história,interfere diretamente na interpretação do aluno sobre os fatos, e são justamente esses “fatos”,e a falta de outros que são os maiores problemas. Analisando esse impasse percebemos que o papel dos autores no livrodidático, não é apenas de espectadores do tempo, são agentes que contribuem para aconstrução das futuras sociedades.
  12. 12. E é nessa construção que Alain Choppin observa que: “após ter sidonegligenciado por historiadores, os livros didáticos vêm despertando um grande interesse dealguns anos para cá” (SANTOS, 2007, p.4). E é nesse interesse, que várias autoras e autores vêm buscar nas váriaslacunas deixadas por muitos anos, as respostas, para que de fato nós tenhamos uma visão maisabrangente da grande criação que é o livro didático de história. E dentro dessas várias lacunasque foram deixadas no livro didático, no período analisado, um dos problemas existentes, aausência da mulher como alguém que participa ativamente do espaço público. Segundo Ana Lucia Goulart de Faria, autora de várias pesquisas sobre aausência da mulher no livro didático: “A mulher em geral é discriminada no livro didático”. Sua função é ser mãe e cuidar da casa. A mulher não aparece como um ser humano normal que trabalha para o progresso. [...] Poucas vezes a mulher não aparece como mãe e daí ela tem alguma profissão. Mas ela é citada em listas de profissões, no feminino. “Trata-se sempre daquelas profissões tipicamente femininas: enfermeiras, bordadeiras, bibliotecárias, professoras, datilógrafa, costureira, conzinheira, diretora de escola, babá” (FARIA 1991, p.41-42). Toda essa visão que os livros didáticos trazem para as crianças é fruto daprópria sociedade, que trata a mulher como uma simples peça dentro da grande engrenagemde construção que é o mundo. Trata-se de uma sociedade que se auto-pensou e que se auto-conduziu em termos do trabalho e do conhecimento racional, ou seja, um contexto em que arazão e a ciência dominante estariam na base do processo do desenvolvimento modernizante,articulando os elementos favoráveis e discriminando os seus “entraves” históricos que ficam acargo das crianças, velhos, negros, índios e principalmente das mulheres. Segundo Faria, a mulher é sempre valorizada no livro didático na sua funçãode mãe na medida em que é apresentada como reprodutora da força de trabalho, enquantoprocriadora, e como mantenedora do lar. O trabalho doméstico, por sua vez, não é sequerquestionado enquanto salário indireto numa relação de exploração, sendo valorizada apenasmoralmente como função natural da mulher, assim como o amor. É comum também nos textos didáticos, a mulher quando trabalha fora decasa, aparecer na figura da empregada doméstica, e nas raras vezes em que ela é citada comoalguém que trabalha fora, é exercendo a profissão de professora que tem certo preço e umprestígio dentro do contexto social. Segundo professora Maria de Lourdes Chagas Deiró Nossela, umapesquisadora também da área educacional, a mulher é vista no livro didático como:
  13. 13. “uma pessoa boa, dedicada, considera seus alunos como seus filhos, sendo também amada por eles como uma outra mãe [...] a imagem da professora [...] é a de uma pessoa bondosa, mas também autoritária e repressiva [...] já descrição da figura do professor é diferente da que se faz da professora, pois não se diz que ele é bom, carinhoso. Aqui também ele é o ‘chefe’, que exerce a desinteressada missão de educar” (NOSELLA, 1979, p.64-65). Todos esses estereótipos criados pela sociedade e assimilados pelos livrosdidáticos são altamente prejudiciais para o crescimento da mulher enquanto pessoa, quenecessita de autoconfiança dentro desse contexto androcêntrico e preconceituoso, onde amesma é vista como um mero agente passivo dentro desse espaço de construção. E como é de conhecimento de todos, na medida em que o estereótipo é umageneralização abusiva e acima de tudo sofre uma simplificação extremada, ele pode serconsiderado como um fenômeno negativo, implicando numa distorção da realidade. E é exatamente esse processo que atinge as mulheres, a simplificação deseus esforços, a redução dos melhores trabalhos dentro da sociedade, e principalmente a nãovalorização de seus movimentos sociais que ajudaram no crescimento da mentalidade do povobrasileiro em plena Ditadura Militar. E para perceber melhor esta distinção dentro do livro didático juntamentecom todos seus estereótipos, foram selecionados oito livros que vão desde o início da décadaanalisada, que ainda estava com o governo ditatorial até ao final da década de 80, que já tinhareestruturado a democracia. Já a escolha da terceira série, foi devido a ser uma série inicial, eque vem formar e moldar as mentes das crianças que serão as futuras mulheres e os futuroshomens do Brasil.Discussão Sobre os Livros Didáticos Para iniciar a análise dos livros didáticos, utilizarei somente as ilustraçõesreferentes às mulheres, os homens, meninos e meninas que possam evidenciar implícita ouexplicitamente o sexismo. No entanto, também salientamos que, apesar de não ser o vértice dotrabalho iremos perceber como a presença racial/étnica está apresentada nos livros didáticos. A primeira obra a ser analisada é da coleção Crescendo com os EstudosSociais, e ela foi produzida pela Editora F.T.D.1ª Edição, em 1985. Editora responsável:Albani Galo Diez, Licenciada em Pedagogia, pela Universidade Católica do Salvador (BA),com especialização em Supervisão Educacional. É técnica em Estudos Sociais e SupervisãoEducacional, pela Divisão de Aperfeiçoamento do Professor, pelo antigo PABAEE, de BeloHorizonte (MG).
  14. 14. É funcionária aposentada da Secretaria da Educação e Cultura do Estado daBahia, atuando inicialmente, como professora primária, e, posteriormente, como técnica emEstudos Sociais, participando, inclusive, do projeto Pólo Nordeste. Freqüentou, ainda, umcurso intensivo em Currículo e Avaliação, patrocinado pelo Ministério de Educação e Cultura,no Rio de Janeiro (RJ). Dedica-se atualmente à pesquisa e elaboração de livros didáticos eoutros trabalhos educacionais. O livro está dividido em três partes, ligado a região da Bahia,onde mostra a cidade Salvador de 1985, 1500, e finalizando, como o homem avançou para ointerior da Bahia, em especial. Em relação às figuras, todas elas foram cedidas pelaBAHIATURSA, EMATERBA, Micucci Fotografias, Assessoria do Palácio Estado da Bahia,CEPLAC, Prefeitura Municipal de Salvador e pelo senhor Jerry Andriane P. de Andrade. Essa obra está composta por 49 imagens, com exatamente cinco mapas.Dessas figuras, apenas dezenove refere-se às imagens femininas, sendo que, somente oito dasimagens são figuras étnicas. As imagens que aparecem apresentam a mulher sempre ligada aoquotidiano turístico de Salvador (Baiana do acarajé), dando sempre a idéia de como é exóticao sociedade da Bahia. Essa situação colocada no livro didático é bem esclarecida na obra deAlberto Heráclito Ferreira Filho, Quem Pariu e Bateu, Que Balance! Mundos Femininos,Maternidade e Pobreza, Salvador, 1890-1940, aonde ele vem problematizar a vivência dasbaianas juntamente com seus meios de trabalhos. Para Heráclito, a participação das mulheresnegras e pobres da cidade de Salvador é definida da seguinte forma: “[...] a participação dasmulheres se fez vigorosa na luta pela sobrevivência em face de uma economia que nãooferecia alternativas formais de emprego” (FERREIRA, 2003, p.34). Outras imagens que o livro didático traz do período colonial é aescravização dura e forte das mulheres nuas, sendo castigadas em grandes troncos nospelourinhos espalhado pela velha capital baiana. Uma imagem bem comum era o local de trabalho das escravas, as grandescasas de engenho com toda sua arquitetara européia, acima de tudo com toda hierarquiaexistente na qual todo trabalho recaia todo sobre as escravas. Esse trabalho ia desde limpar acasa, fazer comida, jogar fora seus dejetos fisiológicos e outros tantos. Mas além dessasmesmas escravas trabalharem o dia todo na grande casa, elas tinham o seu “trabalho” noturno,que era a de servir ao dono da casa, além de seus visitantes e muitas vezes seus filhos eparentes, sexualmente, o que acabava por mais ainda, desvalorizar as negras como um tododentro da sociedade brasileira. É por essa perversão praticada pelos donos de engenho no
  15. 15. período colonial, que hoje muitas domésticas na maioria delas negras são assediadas pelosseus patrões, e muitas vezes espancadas quando negam aos seus desejos sexuais. O livro seguinte é da Coleção Ainda Brincando, ele foi produzido pelaEditora de BRASIL S.A./ MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO PROGRAMA NACIONAL DOLIVRO DIDATICO, 1ª Edição em 1987. Editora responsável, Joanita Nascimento Souza Netacomo é mais conhecido na imprensa, tem 76 anos, nasceu na Ilha de Marajó e trabalhou comeducadora. O livro está dividido em três partes, e está ligado diretamente ao nascimentodas comunidades, construção dos municípios e as celebrações das datas comemorativasnacionais. Em relação às figuras, todas elas foram catalogadas e escolhidas pelo ProgramaNacional do Livro Didático. No livro tem exatamente noventa oito imagens com três mapas. Entre essasfiguras, somente quatorze representam à mulher, sendo seis delas, imagens étnicas. Nesta obrapode-se perceber bem como a mulher é desvalorizada dentro da área do saber. No todo aindapredomina a superioridade masculina promovendo assim o tão conhecido sexismo didático,que é a tentativa de mostrar sempre a mulher em situações de fragilidade em relação aotrabalho, e a qualquer coisa que ela possa disputar com o homem. As mulheres referidas no livro didático analisado aparecem como tendosomente duas profissões, a de ser mãe e de professora, isso porque todas as imagensrepresentadas estão na figura da mãe e da professora. Assim, a imagem da mulher está sempreligada a conteúdos educacionais e domésticos reforçando ainda mais as muitas idéiasconservadoras em relação à mulher. Já em relação à diferenciação das mulheres enquantonegras e brancas era muito visível, as brancas sempre na zona urbana, pouquíssimas negrasnas cidades, elas eram sempre representadas nas grandes lavouras das zonas rurais, ao lado deseus maridos e filhos independentemente de sua etnia. Dando seguimento, a Coleção agora analisada é Quero Aprender, e ela foiproduzida pela Editora Ática, 2ª Edição, em 1988. Editora responsável, Marina Nascimento eSouza, licenciada em História Social pela Universidade de São Paulo, professora comexperiência na rede publica e particular, no ensino de 1º, 2º e 3º graus. O livro tem uma divisão de quatro partes, e assim ele faz uma análise dahistória dos municípios e da população, as atividades naturais e econômicas existentes, osmeios de transportes utilizados dentro dos municípios, e finaliza fazendo uma análise de comoo município faz parte do Brasil. Diferentemente do livro anterior, as imagens desse foram
  16. 16. catalogadas pela própria Editora, que buscou em seu banco de dados todas as imagensnecessárias. No livro existem 164 imagens, com 12 mapas. De todas essas imagenssomente 24 representam a mulher, sendo que só foram encontradas, oito imagens étnicas.Aqui, a percepção que se tem da mulher como um ser ativo dentro da sociedade, é muito rarae a busca de uma figura que ilustre o papel da mesma como construtora é mais difícil ainda,isso porque, a percepção da mulher dentro do livro didático é de base familiar, a exemplo dafigura que espera o marido na volta do trabalho e a obrigação dos cuidados para com osfilhos. Mas é aqui, que percebo o quanto o negro é desvalorizado nos livros didáticos, nãopelas poucas imagens dele em relação às demais, é devido a ele está retratado sendohumilhado rotineiramente, surrado além das várias outras situações nas quais o mesmo estácondicionado. Figura1: Escravos nos pelourinhos apanhando. . (http://1 .bp.blogspot.com/escravidao.jpg). O livro seguinte é da Coleção Alegria de Saber, e ele foi produzido pelaEditora Scipione, 3ª Edição, em 1988. Editores responsáveis, Lucina Passos, Albani Fonseca eMarta Chaves ambos educadores. O livro didático é seqüenciado em três partes, dando início a sua análisecom os seguintes temas, comunidades urbanas, comunidades rural, pecuária e outrasatividades e por fim, meios de comunicação. Em relação às imagens, todas elas são deexclusividade da Editora e retirada de arquivos privados.
  17. 17. O livro tem 114 imagens, com três mapas. Contabilizadas as imagens,somente 19 delas referem-se à mulher, seis delas refere-se às imagens étnicas. Aqui como nosdemais livros, a presença da mulher continua exclusivamente no seio familiar. E quando ela éhomenageada, é por ser o que ela mais sabe fazer, “ser mãe”, ser professora e poucas vezesenfermeira, não que essas profissões sejam indignas de serem praticadas pelas mulheres econsequentemente serem mostradas, mas é que a mulher fez mais do que mostraram, lutoumais do que escreveram, produziu mais do que foi publicado, e é por isso, que existem hoje osdiversos trabalhos voltados para mostrar o quanto mulher transformou as mais variadassociedades. O quarto livro a ser analisado é da Coleção O Brasil em Estudos Sociais, eele foi produzido pela Editora do Brasil S/A, 1ª Edição, em 1982. Editores responsáveis,Hamilton Gonçalves Matos e Paulo César de Alcântara, ambos educadores. O livro está dividido em três blocos de estudo que se inicia pelas Regiõesbrasileiras e sua ocupação, Conhecendo a Região Nordeste, e por último, as regiõesdesenvolvidas do Sul e Sudeste. Todas as imagens foram retiradas da própria editora. No livro tem 49 imagens, com 55 mapas. Em relação às imagens que sereferem à mulher, somente uma figura foi encontrada. Esse livro se distingue dos demais,devido às pouquíssimas imagens que venham retratar a mulher. A única mulher a ser representada é a baiana Maria Quitéria, que lutou naGuerra de Independência da Bahia bravamente contra os saldados portugueses em 1823. Masas várias outras guerras que foram analisadas, juntamente com as muitas revoluções, será quea mulher ficou inerte em todas as outras e até mesmo na própria Guerra de Independência daBahia, será que a única mulher a lutar foi Maria Quitéria não querendo tirar seu grandetrabalho, mas questionando a ausência da mulher como um braço forte que foi durante asmuitas guerras, batalhas e revoluções.
  18. 18. Figura 2: Maria Quitéria ( http://www.atarde.com.br/arquivos/2008.) Dando continuidade aos trabalhos, o sexto livro a ser analisado é da ColeçãoAquarela, e ele foi produzido pela Editora Ática, 2ª Edição, em 1989. O Editor responsável éD’Olim Marote, licenciado em Letras pela USP, professor de 1ª grau do Magistério, Oficialdo Estado de São Paulo, professor de Prática de Ensino de Línguas da Faculdade deEducação, da USP, e professor de Lingüística da Faculdade de Filosofia, Letras e CiênciasHumanas da USP. O livro divide-se em três blocos, iniciando com a localização e construçãodos municípios, como o município é governado e seus tipos básicos de trabalho. Todas asimagens foram retiradas da própria Editora Ática. O livro tem 52 imagens, com oito mapas. De todas as imagens somentenove das figuras representam a mulher, sendo apenas encontrada em quatro delas, traçosétnicos. A partir do que foi contabilizado com esse livro, é notável a diferençanumérica. Mas, mais do que isso, é a diferença nos papéis entre homens e mulheres,colocados no livro didático que chama a atenção. As maiorias das imagens mostram as mulheres ligadas ao serviço da casa, eprincipalmente, da família, nunca projetando a mulher como uma pessoa que é capaz de lutare de produzir a diferença no meio de trabalho no qual o homem se destaca como os setorescomerciais ou industriais. Percebendo essa situação fica claro como as relações poder estãoinstituídas, concretizando mais ainda os estereótipos sexistas e androcentrico.
  19. 19. Figura 3: Mulher em seus trabalhos domésticos (http://www.ahw.com.br/anew/pia.jpg). O penúltimo livro didático analisado é da Coleção Como é Fácil. Ele foiproduzido pela Editora Scipione, 1ª Edição, em 1989, tendo como Editores, Maria EmíliaCorreia e Mauro Galhardi, ambos educadores. O livro está dividido em três partes, começando pela construção da família edo município, zona rural e zona urbana, e finalizando com datas importantes para o Brasil.Todas as imagens dos livros foram retiradas da própria Editora. No livro foram encontradas151 imagens, com dois mapas contabilizando 66 imagens femininas, sendo encontradas 28imagens étnicas. As mulheres, como nos demais livros, são sempre representadas nos meiosfamiliares e educacionais, sendo o homem a personagem principal, e muitas vezes, única, dastransformações ocorridas no mundo, mas principalmente no Brasil. Todo esse jeito de construir o principal recurso didático faz com que amulher tenha sempre seu lugar na sociedade cativo e privado, o trabalho doméstico,juntamente todo com esse círculo fechado, no qual determinaram que fosse seu lugar. Equalquer mudança que venha a ocorrer, irá ser tratada como uma transgressão para com asociedade que já está acostumada a conviver com esse tipo de relação. Então foi a procura do seu verdadeiro lugar que o segundo sexo fez seusmovimentos sociais, acarretando para um dos maiores pensadores do nosso tempo NobertoBobbio, como a “mais importante revolução do século XX”. E Bobbio chama atenção aindamais: “Quero lembrar que não se trata aqui da chamada revolução feminista, com tantaspolêmicas e conotações ideológicas..., mas do seu planejamento estrutural, seria ela umarevolução mais paciente e mais prudente, obscura talvez” (BOBBIO, 2008, p.669).
  20. 20. O ultimo livro didático a ser analisado, é da coleção Integrando o Aprender,e ele foi produzido pela Editora Scipione, 2ª Edição 1989, tendo como Editores MariaEugênia e Luiz Cavalcante, ambos educadores. O livro está dividido em três partes, iniciando pela construção dascomunidades, localização geográfica dos municípios, origem dos municípios e suas condiçõesclimáticas. Em relação às imagens, todas elas foram retiradas da própria Editora. No livroforam encontradas 55 imagens, com um mapa, sendo dessas imagens, somente 16 femininas ecinco imagens étnicas. Ele segue o padrão dos demais livros antes analisados, busca sempremostrar a mulher em situações cotidianas do lar, abordando sempre como a mulher é à base deuma família, juntamente com todo aquele discurso androcentrico e sexista que existe noslivros didáticos. Então analisando de uma maneira geral, todas as coleções foram criadaspara tratar de assuntos que privilegiassem o homem, a exemplo da economia e da política,possibilitando assim, que o mesmo fosse visto como o grande, e muitas vezes únicotransformador do espaço em que vivemos. A última transformação que o mundo viveu foicom a globalização, há um tempo, e o homem é muitas vezes o responsável por iniciar essagrande mudança, que alcançou todas as áreas percorrendo desde a economia até o social. E isso fica muito nítido quando os mesmos oito livros analisados mantêmsua mesma linha de pensamento e apresentação. A problematização em torno das criações dohomem na sociedade é quase nula, as mulheres não aparecem em um só momento quando sefala em construção social, política e econômica. Todos os espaços públicos estão reservados para o primeiro sexo, já que osegundo é supostamente “frágil”, e sua função já é clara para a sociedade. Na maioria dasvezes os livros, sejam eles, do período militar ou não, estão sempre com uma idéia pronta eóbvia, no entanto, erradamente em relação á mulher. Sem falar de uma situação tão grave quanto à ocultação dos seus feitos, é afalta de representação das mulheres negras nos livros didáticos da década de 80. É de umafalta de respeito tão grande com os assuntos analisados, sem falar de como eles são abordadosem sala de aula com suas imagens preconceituosas e muitas vezes deslocadas do tempo e doespaço, só estando lá para ilustrar um determinado texto.
  21. 21. As situações dos povos negros e dos indígenas nos livros didáticos dadécada analisada são muito mal abordadas, além deles servirem como meios de comunicaçãopara reafirmar os muitos estereótipos construídos desde o período colonial. Figura 4: Imagem dos índios ainda no período colonial. (http:// 1.bp.blogspot.com/escravidao/indios).Conclusão Terminada a análise dos oitos livros didáticos foram contabilizadas umtotal de 732 imagens, 168 femininas e 65 representando os traços étnicos. Assim é atravésdesse tipo de supervalorização que nós percebemos quanto o nosso principal material escolaré sexista, preconceituoso e acima de tudo machista. E esse processo desastroso que tínhamosna década de oitenta, onde influenciava fortemente nossas crianças no momento deaprendizagem. As conseqüências desse sexismo impregnado no livro didático são das maisvariadas, que vão desde a construção de mentalidade altamente machista, à crença do própriohomem como ser supremo no mundo no qual vivemos. E isso fica claro quando o Núcleo deEstudos Interdisciplinares de Estudos sobre a Mulher o (NEIM), analisa como essasconseqüências interferem na vida dos futuros homens e mulheres. “Conseqüências que são das desigualdades entre os sexos, como já vimos, os estereótipos, por sua vez, tornam-se agentes de discriminação entre sexos. Quanto mais nova a criança, menos armada estará para resistir à influência dos estereótipos, que a induzem a ver o outro sexo como atributos, qualidades ou defeitos convencionais. Assim, crianças pequenas são levadas a atribuir qualidades míticas aos meninos e a desvalorizar as meninas” (NEIM, 2007, pág. 25). No entanto, o NEIM levanta uma questão bastante relevante, onde analisaque as crianças não aprendem a serem sexistas somente com o livro didático, mas também
  22. 22. com todas as hierarquias que o sistema escolar impõe que vai desde a simples divisão depapéis entre os profissionais da educação. Isso tudo faz com que se construa dentro desse espaço, que deveria ser deresolução e construção de problemas, em um espaço desigual, onde há um grandedesenvolvimento de ideologias, que busca a todo o momento uma suposta afirmação dasuperioridade do homem. E é pensando nessa distorção, na qual o livro didático esteve inserido nadécada de 1980, que foi levantada essa discussão em cima das relações de gênero e uma breveabordagem sobre raça. É necessário lembrar também, que todo trabalho foi feito com o intuitode trazer à tona, toda desvalorização que alguns indivíduos sofreram durante muito tempo, enão a tentativa de valorizar um em detrimento do outro, porque senão, estaria sendo feito omesmo processo no qual o livro didático esteve colocado. Tudo isso faz com que se construaum no espaço escolar mais democrático, menos desigual e principalmente, sem afirmação dasuperioridade de um sexo em relação ao outro.REFERÊNCIA :DEL PRIORE, Mary (org.). História das Mulheres no Brasil. SP: Contexto, 2008.FERREIRA, Filho Alberto Heráclito. Quem pariu e bateu, que balance!: mundos femininos,maternidade e pobreza: Salvador, 1890-1940/ Salvador: CEB, 2003.FONSECA, Thaís Nívia de Lima e. História & ensino de História. Belo Horizonte: Autêntica,2004.Revista Brasileira de História - Órgão Oficial da Associação Nacional de História. São Paulo,ANPUH, vol.24, nº. 48, jul. - dez 2004.SARDA, Amparo Moreno. Em torno al androcentrismo em la historia. Cuadernosinacabados. El arquétipo viril protagonista de la historia. Exercicios de lecturas noandocentricas.Barcelona: La Sal. 1987. P17-52SCOTT, Joan Wallach, Gênero: uma categoria útil para analise histórica. New York.Columbia Universiy Press. 1989.
  23. 23. SECAD – Secretaria de Educação continuada, Alfabetização e Diversidade Ministério daEducação.Silva, Zélia Lopes da. (Org.) Cultura histórica em debate. São Paulo: ed. UNESP, 1995(Seminários e debates).ARTIGOS:Eni de Mesquita Sâmara, Rachel Solht, Maria Izilda S. de Matos: Gênero em Debate.Fabiana Bruce, Lúcia Falcão, Maria Thereza Didier: História e Ensino de História.JOANA MARIA PEDRO, Historicizando o Gênero.Núcleo de Estudos Interdisciplinares de Estudo Sobre a Mulher: curso de especializaçãometodologia e de pratica de ensino em gênero e outros temas transversais 2007.RAFAELA DE ALMEIDA SANTOS, As perspectivas sobre o livro didático de História:temas e perspectivas.LIVROS DIDÁTICOS:CORREIA, Maria Emília, GALHARDI Mauro. Como é Fácil, Scipione, 1ª Edição em 1989(3ª série).DIEZ, Albani Galo. Crescendo com os Estudos Sociais. F.T.D.1ª Edição em 1985 (3ª série).EUGÊNIA, Maria, CAVALCANTE Luiz. Integrando o Aprender, Scipione, 2ª Edição 1989(3ª série).LUCINA, Passos, ALBANI Fonseca, MARTA Chaves. Alegria de Saber, Scipione, 3ª Ediçãoem 1988 (3ª série).MAROTE, D’ Olim. Aquarela, Ática, 2ª Edição, em 1989 (3ª série).MATOS, Hamilton Gonçalves, ALCÂNTARA, Paulo César de. O Brasil em Estudos Sociais,Brasil S/A, 1ª Edição, em 1982 (3ª série).SOUZA, Joanita de. Ainda Brincando. BRASIL S.A./ MINISTERIO DA EDUCAÇÃOPROGRAMA NACIONAL DO LIVRO DIDATICO, 1ª Edição em 1987 (3ª série).
  24. 24. SOUZA, Marina Nascimento e. Quero Aprender, Ática, 2ª Edição em 1988 (3ª série).

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