1               UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB               DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV                ...
2                CRISTIAN BARRETO DE MIRANDA                      “Padroado no Sertão”Negociação e conflito entre Igreja e...
3             Componentes da Banca examinadora:Profº Mrs.Eduardo José Santos Borges (Orientador).                  ProfªMr...
4                                 AGRADECIMENTOS       Agradeço a Deus pela força e persistência que Ele me concedeu em to...
5                                         RESUMOEste trabalho tem como objetivo central verificar a atuação dos representa...
6                                                           SUMÁRIOINTRODUÇÃO ...............................................
7                                         INTRODUÇÃO        Durante a segunda metade do século XX, a Igreja Católica se ap...
8       Segundo Lowy, o engajamento de setores da Igreja nessa participação popular, mesmodaqueles que não são pobres, se ...
9       Nesta perspectiva o presente trabalho pretende seguindo as mudanças vivenciadas pelaIgreja Católica do Brasil prop...
10Portuguesa, por exemplo os jesuítas, autorizados pelos português. Contudo, Portugal não viacom bons olhos a vinda de mis...
11        Dentro desse contexto a utilização do termo Padroado nesta pesquisa se debruça nasrelações que foram mantidas en...
12testemunhas desses conflitos. Considerando que “um fato não é um ser, mas um cruzamentode itinerários possíveis” 5 anali...
13                  CAPÍTULO I               “Bons tempos”“Lembro-me distante, e quase em remotos tempos de infância quand...
14        A Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Coité, no ano de 2005, completou 150anos de elevação da antiga capela p...
15tem a finalidade de descrever tal festa. Porém, a importância está em perceber as relaçõessociais que se constituíram ao...
16       É interessante notar que esse movimento religioso adquire uma grande importânciapara a população coiteense, envol...
17                        deputados enfim o futuro governador Antonio Carlos Magalhães. O Sr. Governador                  ...
18assumisse o cargo de deputado. E assim aconteceu, após sua ida para a capital a pedido dogovernador eleito, Antônio Balb...
19                        Os alunos do ginásio fizeram greve e passeatas pelas ruas da cidade, com faixas,                ...
20       Em Conceição do Coité, como afirma Oliveira esse clientelismo era feitodisfarçadamente pela política dos coronéis...
21através desse Concílio convocado pelo papa João XXIII11, iniciado em 08/11/1962, queintroduziu dentro do seio da institu...
22período. Frei Betto, aponta que diversos sacerdotes e intelectuais marxistas se aliavam na lutaa favor dos menos favorec...
23viviam na cidade na época em estudo, muitos deles espanhóis, e possuía um discurso maispopular, uma postura de ajudar as...
24assumiu a paróquia no dia 13 de dezembro do ano de 1973, a prefeitura mantinha uma ligaçãocom a paróquia no que diz resp...
25                            ficava de fora. Por exemplo teve uma época que teve uma procissão do senhor morto           ...
26resolver esse problema e assim conquistaram a criação de inúmeras escolas nessas zonas como apoio do município e do gove...
27                      se co-promotora da organização popular e passa a denunciar a usurpação do poder                   ...
28parte da população queria mudança, chegando a entrar em atritos com alguns membros daIgreja.” 17        Esse assunto foi...
29os “Bons Tempos” em que padres e políticos dividiam os mesmos altares, no qual, oscostumes entre as duas instituições er...
30                                            CAPÍTULO II                 “Um mundo, uma revolução na minha cabeça” 18    ...
31        Em 30 de julho de 1989 foi proferida a nomeação do Pe. Luiz Rodrigues Oliveira paraos fiéis presentes na missa d...
32doméstica. Cresceu no seio dessa família humilde e desde cedo se tornou trabalhador ruralpara ajudar sua mãe devido à mo...
33                        estávamos vivendo a época da ditadura militar. (OLIVEIRA. Entrevista concedida em               ...
34setores: os hierarcas e progressistas. Sendo que os primeiros em sua maioria havia apoiado ogolpe de Estado e “como natu...
35       Pe. Luiz realizando o seu trabalho na região de Cachoeira e São Felix, no período doregime militar, como menciona...
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996

1,635

Published on

0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total Views
1,635
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0
Actions
Shares
0
Downloads
17
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Transcript of "Padroado no sertão negociação e conflito entre igreja e poder político em conceição do coité entre 1989 e 1996"

  1. 1. 1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV LICENCIATURA EM HISTÓRIA CRISTIAN BARRETO DE MIRANDA “Padroado no Sertão”Negociação e conflito entre Igreja e poder político em Conceição do Coité entre 1989 e 1996. Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Coité - BA Conceição do Coité Dezembro/2009
  2. 2. 2 CRISTIAN BARRETO DE MIRANDA “Padroado no Sertão”Negociação e conflito entre Igreja e poder político em Conceição do Coité entre 1989 e 1996. Monografia apresentada a Universidade do Estado da Bahia – Campus XIV como requisito parcial para obtenção do título de graduado em Licenciatura em História sob a orientação do professor Mrs. Eduardo José Santos Borges. Conceição do Coité Dezembro/2009
  3. 3. 3 Componentes da Banca examinadora:Profº Mrs.Eduardo José Santos Borges (Orientador). ProfªMrs.Zuleide Paiva da Silva. Profª Drª Sharyse Piroupo do Amaral.
  4. 4. 4 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus pela força e persistência que Ele me concedeu em todos esses anos eem especial na trajetoria desse trabalho que prosegue por outros caminhos a partir do próximoano. Agradeço a minha família, sem vocês, concerteza não teria chegado até aqui, valeupelo zelo e dedicação, serei eternamente grato pela presença de vocês na minha vida. Dedicoesse trabalho a vocês. Em especial agradeço ao meu irmão Cristiano Barreto pelo companheirismo eincentivo para a realização dessa pesquisa. Agradeço também outras pessoas que contribuiram para que este trabalho pudesseacontecer, apesar de muitas faço questão de citá-las. Aos meus colegas e amigos da Turma de História 2006.1 do Campus XIV da UNEBque me acompanharam nesses anos de batalha, em especial, a Samara Suelen, que construiucomigo a primeira versão do projeto desta pesquisa, dedico também a ela esse trabalho; aAntonia Gislaine, Antonio Thiago, Maurício, Renata, Tayla e Sinara pela força e motivação; aRafaela, Edcarla, Ana Lúcia e Kécia Dayana pelas inúmeras leituras e correções. Valeumesmo! Aos funcionários da secretária paroquial, Lucivan, Izabel e Manoel peladisponibilidade em me atender cotidianamente em minhas visitas a documentação do Arquivoda Paróquia Nossa Senhora da Conceição. Ao Sr. Mário pela confiança em disponibilizar osinúmeros jornais para a realização dessa pesquisa. Aos professores que acompanharam a construção desse trabalho desde a concepção doprojeto até a orientação do mesmo, agradeço em especial, aos professores Aldo Morais eRogério Souza. A Eduardo Borges pelas orientações e pelo incentivo para a concretizaçãodesse trabalho, como também, a Sharyse Amaral e Zuleide Paiva que se disponibilizaram paraa apresentação do mesmo. E todos que participaram da minha formação acadêmica. Por fim, agradeço as pessoas que prestaram o seu depoimento, Pe.Luiz Rodrigues,Ivonete Baldoino, Francisco de Assis, Adauto Mota e o Sr. Nilson Oliveira, que partilharamsuas memórias, suas experiências, seus sentimentos, seus ideais, suas lutas enfim suashistórias de vida para a realização desta pesquisa, que sem a contribuição dos mesmos otrabalho não seria possível.
  5. 5. 5 RESUMOEste trabalho tem como objetivo central verificar a atuação dos representantes da IgrejaCatólica de Conceição do Coité, como espaço de poder contestatório e de força demobilização social em oposição à política clientelista presente em Conceição do Coité, cujaatuação acentua no período entre 1989 e 1996. Período da chegada do padre Luiz RodriguesOliveira, que por adotar uma postura de contestação, de denúncia das irregularidades daadministração municipal foi alvo de alguns processos e hostilidades pelos chefes políticoslocais. A atuação desses membros católicos foram peças centrais para a alteração das relaçõespolíticas, proporcionaram mudanças a nível político e social, formando uma nova concepçãoda política no meio dessa comunidade. Para entender essa atuação consultei o arquivo daParóquia Nossa Senhora da Conceição do Coité, as Atas da Câmara Municipal, os jornaisTribuna Coiteense, Coiteense, O Mensageiro e entrevistei os principais envolvidos nessesconflitos. Dialogo com diversos autores que se dedicaram pesquisar essa atuação política daIgreja Católica, tendo como referência Michael Lowy. Inicialmente, discuto o cenário políticoe religioso de Conceição do Coité antes da chegada de padre Luiz Rodrigues, época dos“Bons Tempos”. Em seguida, trato das mudanças implementadas pelo padre Luiz nainstituição religiosa e a sua atuação política na sociedade coiteense. E, finalmente, abordo osconflitos entre e padre e o poder político dominante, além de perceber as reações que apopulação e o grupo hegemônico local tiveram frente à ação de oposição assumida pelainstituição religiosa local.PALAVRAS – CHAVES: Igreja Católica; Vaticano II; Política; Conflito; Pe.Luiz RodriguesOliveira; Conceição do Coité.
  6. 6. 6 SUMÁRIOINTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 7CAPÍTULO I – “Bons Tempos” ............................................................................................ 13CAPÍTULO II- “Um mundo uma revolução na minha cabeça” ............................................ 30CAPÍTULO III – “O preço da independência” ..................................................................... 47CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................ 69REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 73FONTES..................................................................................................................................76
  7. 7. 7 INTRODUÇÃO Durante a segunda metade do século XX, a Igreja Católica se aproximou da causa dajustiça social na defesa dos pobres e oprimidos. E sobre o desenvolvimento dessa perspectiva,Thomas C. Bruneau e W. E. Hewitt, em Catholicism and Political Action in Brazil:Limitations and Prospects, discutem que essa atitude perpassa por dois pensamentos distintos,no qual, alguns pesquisadores dessa temática comentam que essa preocupação com a justiçasocial nasceu diante da necessidade de preservar a sua posição hegemônica nessas regiões,certo oportunismo institucional; já outros defendem essa postura, devido à participação dasclasses mais baixas na reorientação da Igreja, empurrando-a na defesa dos interesses políticosdas mesmas. Porém, os autores afirmam que ambos os pensamentos são falhos, apesar delasrefletirem sobre algumas influências bastante salientes da sociedade sobre a mudança daIgreja. No entanto, negligenciam muitas dimensões centrais da mesma. Concluem que essa perspectiva foi influenciada por um contexto mais amplo, no qualtal postura foi incentivada pelas “tendências teológicas na Igreja universal”, que culminaramcom o Concílio Vaticano II1 (1962-1965) e na igreja regional na reunião do ConselhoEpiscopal Latino-Americano (CELAM) - em Medellín (1968). Esses autores destacam comoprincipal veículo dessa mudança da posição da Igreja no Brasil as ações da CNBB, quecomandada por um clero progressistas promoveu no cenário brasileiro programas sociais deimplicações políticas, como o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), e a ComissãoPastoral da Terra (CPT); a promoção das CEB’s e sua opção preferencial pelos pobres. Caminhando na mesma linha de interpretações, Michael Lowy, em Marxismo eTeologia da Libertação apresenta o engajamento de cristãos da Igreja Latino-Americana aosideais marxistas, no que se refere na luta de classes, na opção pelos pobres e na luta por umasociedade mais justa e igualitária. Isso graças ao surgimento de um novo movimento dentroda Igreja a Teologia da Libertação. Lowy, afirma que sem a prática desse cristianismo para alibertação não se pode compreender fenômenos sociais e históricos tão importantes quanto àescalada da revolução na América Central ou a emergência de um novo movimento operáriono Brasil.1 O Vaticano II foi um concílio realizado na Igreja Católica, com os bispos de todo mundo e de algunsrepresentantes de outras denominadas religiões cristãs, desde 1962 a 1965 em diversas sessões na cidade doVaticano, sendo convocado pelo papa João XIII e encerrado pelo papa Paulo VI.
  8. 8. 8 Segundo Lowy, o engajamento de setores da Igreja nessa participação popular, mesmodaqueles que não são pobres, se deve muito a dimensão moral e espiritual que está ligada asua fé cristã e a tradição católica. Visto também, que ela é a principal motivadora de milharesde militantes cristãos dos sindicatos, das associações de bairro, das comunidades de base e dasfrentes revolucionárias. A partir dos anos 1960 na América Latina, se evidencia um processode radicalização por parte de alguns cristãos que descobrem no marxismo “uma chave para acompreensão da realidade e um guia para a ação libertadora” 2. Na visão de Dermi Azevedo em A Igreja Católica e seu papel político no Brasil, aAmérica Latina foi o primeiro continente a se mobilizar para a implementação das reformaseclesiais aprovadas pelo Concilio Vaticano II, percebendo um, extraordinário foco decontestação que se desdobrou em ações por diversos países. Evidenciando o envolvimento declérigos e leigos em vários movimentos sociais e participando da esfera política, todosinfluenciados pela Doutrina Social da Igreja e pela Teologia da Libertação que pregava ainstauração de uma igreja a favor dos pobres. No Brasil esse processo de mudança tem como marco a criação da ConferênciaNacional dos Bispos do Brasil (CNBB) por Dom Hélder Câmara em 1952, pois ela nasce numcontexto de intensa transformação social, isto é, crescimento industrial, urbanização, êxodorural e secularização. “É em seu interior que a ‘igreja do povo’ é mais tarde institucionalizada.“3 Sendo percebida através dos movimentos populares, pastorais sociais, conselhos depastorais e das Comunidades Eclesiais de Base (CEB´s) caracterizando essa atuação comosendo um espaço de luta pela reconstrução das elações democráticas e na transformação dasrelações sociais em busca de uma sociedade mais justa. Roniere Ribeiro Amaral em O Milagre político: Catolicismo da Libertação realizauma investigação sobre o nascimento e estabelecimento desse novo modelo de catolicismopresente no Brasil durante a segunda metade do século XX, percebendo a atuação de váriosmovimentos católicos leigos de esquerda e da CNBB. Afirmando que essa mudança políticada Igreja, voltada para essa corrente libertária, não foi tão simples assim, apesar da mesmaestar sempre envolvida com a política, esse processo perpassa pela idéia messiânica,burocratização da Igreja e relação entre laicato intelectual (estudantes e universitários) esacerdotes.2 LOWY, Michael. Marxismo e Teologia da Libertação. São Paulo: Cortez: Autores Associados,1991.(Coleção polêmicas do nosso tempo; v.39)Ibidem. p. 39.3 AMARAL, Roniere Ribeiro. Milagre Político: Catolicismo da Libertação. UnB, Tese de Doutorado, 2006.Disponível em www.bdtd.bce.unb.br. (acesso em 10/09/2009)
  9. 9. 9 Nesta perspectiva o presente trabalho pretende seguindo as mudanças vivenciadas pelaIgreja Católica do Brasil propostas pelas as inovações do Concilio Vaticano II verificar asrelações estabelecidas entre os representantes da Igreja Católica de Conceição do Coité com aadministração pública municipal, no período entre 1989 a 1996. Como também, o processo deconflito vivenciado pelas duas instituições durante a administração paroquial do padre LuizRodrigues Oliveira que contribuiu para uma nova concepção nas relações políticas locais. Com o título “Padroado no Sertão”: Negociação e conflito entre Igreja e poderpolítico em Conceição do Coité entre 1989 e 1996 faz-se necessário comentar um pouco arespeito da utilização do termo Padroado nessa pesquisa, visto que esse regime instituído nodecorrer da história para representar a relação entre Igreja-Estado é suprimido com o ConcílioVaticano II e que no Brasil foi extinto pelo Decreto 119A, de 7 de janeiro de 1890, o governorepublicano extinguiu o Padroado e separou a Igreja do Estado . As origens desta instituição (Padroado) remontam à Ordem dos Templários e à Ordemde Cristo. Fundada para proteger os peregrinos da Terra Santa, no período das Cruzadas, aOrdem dos Templários tornou-se muito influente e poderosa, mas, por pressão do rei Filipe, oBelo, da França, foi extinta pelo papa Clemente V, em 02 de maio de 1312 (bula Adprovidam). Sendo retomado num tratado entre a Igreja Católica e os Reinos Ibéricos atravésde uma bula papal em 1551 que uniu perpetuamente a Coroa Portuguesa à Ordem de Cristo,dessa forma, recebendo por meio desta, a Coroa o direito de interferir nos assuntoseclesiásticos, trazendo benefícios para as duas instituições. Concedendo o direito deautoridade da Coroa Portuguesa a Igreja Católica, nos territórios de domínio Lusitano. Essedireito do Padroado consistiu na delegação de poderes ao Rei de Portugal, concedida pelospapas, em forma de diversas bulas papais. A partir de então, no Reino Português, o Rei passoua ser também o patrono e protetor da Igreja. O rei mandava construir igrejas, nomeava os padres e os bispos, sendo estes depoisaprovados pelo Papa, também, tinham direito à cobrança e administração dos dízimoseclesiásticos, isto é, a contribuição dos fiéis para a Igreja se transformava num impostoreligioso administrado pela Coroa. Em troca, a administração civil tinha a obrigação de zelarpela construção, manutenção e restauração dos edifícios de culto, remunerar o clero e fazer oque estava ao seu alcance para promover a expansão e consolidação da fé católica. Em O Padroado e a Igreja no Rio Grande do Sul Português, Pe.Eduardo PrettoMoesch discute de forma profunda o significado do termo Padroado e sua influência nodecorrer da história afirmando que Portugal diferente do padroado espanhol não foi fiel assuas obrigações de assistência a Igreja o que resultou na vinda de religiosos para a América
  10. 10. 10Portuguesa, por exemplo os jesuítas, autorizados pelos português. Contudo, Portugal não viacom bons olhos a vinda de missões estrangeiras restringindo assim a tarefa missionária. Epara tentar manter sua influencia sob a instituição religiosa utilizou de diversos mecanismospara impedir a propagação de missões evangelizadoras. A fim de gerenciar todos estes “direitos e deveres” relativos ao Padroado régio, foi estabelecida, já em 1532, a Mesa de Consciência e Ordens, uma espécie de departamento religioso do Estado português, subordinada diretamente ao rei, informando-lhe sobre a situação das igrejas e capelas, hospitais, ordens religiosas,escolas, dioceses e paróquias, etc. Qualquer assunto religioso de alguma importância no Brasil devia passar pelo parecer jurídico da Mesa, como a provisão de cargos eclesiásticos e a atividade missionária. Desse modo, a influência de Roma na evangelização do Brasil se tornou praticamente nula, pois toda atividade eclesiástica era atentamente controlada pela Coroa, a ponto de jamais terem sido aceitos legados pontifícios em território brasileiro, chegando-se ao extremo, em 1629, de obrigar os bispos a fazer um juramento de fidelidade ao Padroado, o que incluía, entre outras coisas, a promessa de não manter relações diretas com Roma! Assim sendo, a própria Congregação para a Propagação da Fé (Propaganda Fide), fundada em 1622 para ser um centro missionário, com sede em Roma, encarregado de transformar as missões de um fenômeno de cunho marcadamente colonial para um movimento de prevalência espiritual e eclesiástica, em defender os missionários da interferência do poder político e formar um clero indígena, não teve maiores influências no Brasil durante a vigência do Padroado, impedindo um trabalho com maior autonomia e a presença de um número quiçá suficiente de operários. (MOESCH, 2007, p. 4). Moesch em seu artigo discute também as conseqüências do Padroado para a Igreja doBrasil no qual esse regime, acabou tornando-se, com o passar dos anos, um instrumento desujeição da Igreja. Servindo, em alguns momentos, de meio “da Coroa em arrancar riquezas efirmar o domínio no além-mar, tornou-se uma ferramenta a mais nas mãos do rei para talintento”. Além, da limitação que o clero e os leigos estavam sendo submetidos ás restriçõesadivinhas do poder civil. Esses primeiros enfrentaram a dificuldade de administrar paróquias,pelo fato do Brasil durante cem anos permanece com uma única arquidiocese (Bahia)contando com apenas seis dioceses. “Quanto os leigos a limitação do regime do Padroado àação dos bispos, padres e religiosos impediu, de uma parte, uma evangelização maisaprofundada da população”. Todavia, conquistaram seus espaços em irmandades religiosas,ordens terceiras,organização de rezas e procissões. Isso fez com que o catolicismo na Terra de Santa Cruz se desenvolvesse com características próprias, bem distintas das igrejas européias, fortemente influenciadas pelo Concílio de Trento (1545-1563), onde eram enfatizadas a prática sacramental e a supervalorização do clero, em boa parte como decorrência da necessidade de se responder, no Velho Continente, ao desafio provocado pela Reforma Protestante, que, de modo geral, refutou a hierarquia eclesiástica e criou novas concepções sobre os sacramentos. (MOESCH, 2007, p. 6).
  11. 11. 11 Dentro desse contexto a utilização do termo Padroado nesta pesquisa se debruça nasrelações que foram mantidas entre Igreja-Estado no que diz respeito nos momentos em que ainstituição religiosa esteve sujeita as ações do poder político, é claro que tal termo suscita nodecorrer da história diversas contradições e conflitos, principalmente na Igreja do Brasil.Porém evidencia que por muito tempo a Coroa gozou do direito de interferir quando quisesseno governo da Igreja, em que o rei tornou-se uma espécie de chefe religioso em tais domínios.E essa interferência, guardando as devidas proporções, relembra a situação que a Igrejaparticular de Conceição do Coité vivenciava antes de 1989, uma situação de subserviênciacom o poder público local, dependia economicamente desse poder para se manter, porexemplo, pagamentos de funcionários, custeio a reformas e despesas em geral. Para realizar essa pesquisa as fontes que foram utilizadas são de várias procedências.Todavia a que mais tive contato durante o decorre da investigação foi o Livro de Tombo daParóquia Nossa Senhora da Conceição do Coité, este contém registros sobre o histórico daparóquia, a sua criação, as suas prioridades pastorais, os padres que a administraram, a açãopastoral dos mesmos na comunidade, apresenta também, datas e acontecimentos referentes aopróprio desenvolvimento da cidade, aspectos sociais, econômicos, culturais e políticos, semfalar das relações de poder que envolviam a instituição religiosa. Como também, os diversosdocumentos presentes no arquivo paroquial, desde ofícios, correspondências até anotaçõessobre os conflitos escritos pelo próprio padre Luiz Rodrigues, que permitem vários tipos deanálise e constituem, sob a ótica religiosa, ricos registros sobre a vida cotidiana.4 Além dessas fontes analisei, não menos importantes, mas que “clarearam” a trajetóriada pesquisa quando esta parecia um pouco “embasada” foram os Jornais Tribuna Coiteense,Coiteense, O Mensageiro, A Tarde e Feira Hoje que possibilitaram a compreensão do cenáriopolítico coiteense e a repercussão que tais acontecimentos tiveram dentro da região. Foram consultadas, também as atas da câmara municipal, percebendo os discursosproferidos por seus integrantes, com a finalidade de fundamentar a compreensão das reaçõesdo poder público frente às ações da instituição religiosa. Analisados registros jurídicosreferentes aos processos que o padre Luiz teve que responder do fórum Durval da Silva daComarca de Conceição do Coité da década de 1990. E a História Oral considerada um método riquíssimo para a História Recente, atravésdos depoimentos orais de alguns leigos que compunham o conselho pastoral e administrativoda referente paróquia durante o período estabelecido pela pesquisa e que foram importantes4 SAMARA, Eni de Mesquita e TUPY, Ismênia S. Silveira T. História & documento e metodologia depesquisa. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.
  12. 12. 12testemunhas desses conflitos. Considerando que “um fato não é um ser, mas um cruzamentode itinerários possíveis” 5 analisei tais discursos observando as ligações existentes entre eles epor meio da memória coletiva construir uma possível verdade histórica acerca das relaçõesentre as forças política e religiosa. Todas as fontes orais especificadas nessa pesquisa, através das inúmeras entrevistas,forneceram elementos que puderam ter sido excluídos das fontes escritas e que serviram parafazer emergir novos aspectos do objeto pesquisado. O trabalho com a História Oral seguiu asinstruções de Verena Albertini6, onde esta apresenta os relatos da memória como importanteespaço para análise, que precisa ser realizado com uma metodologia especifica, sendodesenvolvido em etapas. O trabalho está estruturado da seguinte maneira: 1. No CAPÍTULO I - “Bons Tempos” será reconstituído o cenário político e religioso do município de Conceição do Coité antes da chegada de Pe. Luiz Rodrigues, e a caracterização das relações que se mantinham entre a Paróquia Nossa Senhora da Conceição e o grupo político dominante antes de serem rompidas em 1989. 2. No CAPÍTULO II - “Um mundo uma revolução na minha cabeça” serão discutidos, uma pequena biografia do padre Luiz Rodrigues, no que diz respeito sobre sua formação acadêmica e sacerdotal, pretendendo perceber a sua visão de mundo e seus ideais sociais defendidos pelo mesmo; e as mudanças que o novo pároco, realizou na instituição religiosa local, que levou-o a romper as relações com o grupo político dominante, como também, perceber se as idéias da corrente libertária da Teologia da Libertação influenciaram nesse processo de mudanças. 3. No CAPÍTULO III- “O preço da independência” serão relatados às reações que a população coiteense teve frente a posição política adotado pelo padre Luiz Rodrigues e de alguns leigos da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Coité, ainda mais, a cerca de como o poder político dominante agiu devido a essa ação de oposição assumida pela instituição religiosa frente a sua administração municipal.5 VEYNE, Paul. Apenas uma narrativa verídica. In:___Como se escreve a historia: Folcault revoluciona ahistória. 4 ed. Brasília: Editora da UNB, 1998.6 ALBERTI, Verena. Histórias dentro da História. In: PINSSKY, Carla Bassanezi (org). Fontes Históricas. 2ed.São Paulo: Editora Contexto, 2006.
  13. 13. 13 CAPÍTULO I “Bons tempos”“Lembro-me distante, e quase em remotos tempos de infância quandoéramos levados pelos nossos pais à igreja para assistirmos à missa.Antes do começo da celebração, tudo no interior do templo era respeito,fé, orações e silêncio absoluto entre os fiéis que às vezes eramquebrados pelos vôos gorjeios das andorinhas que em nossas mentesseriam os anjos dos céus, em forma de pássaros e estavam ali asimagens de Cristo crucificado e Nossa Senhora da Conceição (...). Naépoca podia-se observar as ruas completamente desertas estavam poistodos ali, na igreja ao coreto, a praça em si completamente lotada decristãos, com um único objetivo: com os pensamentos contritos à Deuse em Nossa Senhora da Conceição. (...). Como era belo, como erabonito toda a população unida à igreja num só pensamento. Na crença,na fé e na paz.” (Jornal Coiteense nº 14, Conceição do Coité, 24 de janeiro de1997.p. 4).
  14. 14. 14 A Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Coité, no ano de 2005, completou 150anos de elevação da antiga capela para a categoria de Freguesia no dia 09 de maio de 1855.Desmembrando-se da Freguesia Nossa Senhora da Conceição de Riachão do Jacuípe epertencendo a Vila de Feira de Santana, esta que no início do século XX tornou-se capitalregional do Estado da Bahia.7 A capela construída na Fazenda Coité tornou-se símbolo e marco de desenvolvimentodo arraial nessas terras sertanejas. A notícia que se tem em relação à construção da capela é de que a mesma teria sido iniciada provavelmente, por volta de 1756, em terras ofertadas pelo benemérito João Benevides, sendo doado ‘cem metros ao redor da igreja’, conforme diz a tradição. (OLIVEIRA, 2002, p. 7) O aparecimento da Fazenda Coité, como de tantas outras situadas na região do “Sertãodos Tócos” se deve pela presença de inúmeros tropeiros que com suas boiadas desenvolveramdiversas estradas e propiciaram o aparecimento dessas fazendas que serviam de local para odescanso desses “aventureiros” do sertão. O antigo território de Conceição do Coité situava nos trajetos que interligavamSalvador ao alto Sertão do São Francisco e o Estado do Piauí. Mas além de servir depassagem para inúmeras boiadas, saciava a sede dessas excussões pelo sertão devido ànascente de água cristalina denominada de “Tanque de Coité”, popularmente conhecida como“Olhos d’água”. Essa nascente propiciou a fixação de diversos tropeiros aqui nessas terras,pois além de saciá-los com suas boiadas, despertavam o interesse de fixarem moradia nas suasproximidades, visto que a seca do sertão acabava matando seus animais. O “Tanque de Coité”aparece no roteiro que Joaquin Quaresma Delgado fez sobre as estradas da Bahia em 1731.8 Enas viagens dos ingleses Von Spix e Von Martius. O município de Conceição de Coité desde sua origem tem grande devoção pelaImaculada Conceição, esta que é a padroeira da cidade. A religiosidade popular considera queo nome da cidade se deve pelo fato desta ter aparecido nas proximidades da fazenda em cimade um pé de coité, dessa forma “Conceição” referindo-se a santa e “Coité” ao fruto dacuitezeira. Sendo que a festa tradicional em devoção a Santa foi oficializada no dia 08 dedezembro de 1882, através do padre Madureira, e que se tornou uma das mais populares festasda cidade. Mas porque a necessidade de relatar esse feito, visto que o trabalho proposto não7 RESENDE, Lívia Paola. As novas concepções do clero feirense diante das novas inovações do Vaticano II(1964-1980). Feira de Santana, 2008 . Monografia de Graduação em História. Universidade Estadual de Feira deSantana. p.15.8 BARRETO, Orlando Matos.
  15. 15. 15tem a finalidade de descrever tal festa. Porém, a importância está em perceber as relaçõessociais que se constituíram ao redor desses espaços promovidos pela Igreja e que tiveram etem grande papel dentro da sociedade coiteense, não que esse seja um feito somente de Coité,mas é importante perceber essas relações entre as principais instituições do município e queestabelecem uma relação de poder. Aline Coutrot, em Religião e política analisa que durante muito tempo as ligaçõesíntimas entre religião e política foram desprezadas pela história do político. A autora afirmaque forças religiosas são levadas em consideração como um fator de explicação política emnumerosos domínios e que as mesmas fazem parte do tecido político, no qual, o religiosoinforma em grande medida o político, e também o político estrutura o religioso. A festa dedicada à padroeira nos relatos dos documentos analisados no Livro deTombo da paróquia demonstra que os festejos à Imaculada Conceição iniciavam com anovena no dia 29 de novembro e sempre era realizada de forma brilhante pela sociedadecoiteense, essa que no dia 08 de dezembro expressava toda a sua devoção pela santa. Pelamanhã realizava-se a alvorada de fogos acompanhada pelos badalos do sino da matriz, eaconteciam diversas missas durante a parte da manhã encerrando a festa a tarde com aprocissão pelas ruas da cidade no qual percorria a imagem da padroeira erguida pelos fiéis. Afesta contava com a participação de autoridades políticas e do clero da região, toda a cidadeenfeitava-se para celebrar esta data considerada “Magna” pelos coiteenses. Levamos a efeito com extraordinária pompa a nossa festa. Fôram os seguintes os atos: Recepção da Filarmônica de Serrinha, com grande caravana de pessôas distintas daquela visinha cidade, notando-se Illmo. Sr. Prefeito e o Dr. André Negreiros. Discurso de recepção pelo Sr. Genesio Bôaventura; Recepção do Exmo. Arcebispo Primás com o discurso do Provisionado Durval Pinto. Anoite com a presença Exma Revdmo e com um sermão do Revdmo Sr. Cjo secretário do Arcebispado Eliseu Mendes celebrou-se a última novena preparatória. Pela manhã do dia 08 a missa do Exmo. Sr. Arcebispo e foi a de primeira comunhão de crianças, duzentas e tantas que executaram os cânticos da Missa. As 10h entrou a missa com a Assistência Pontificial e Acolita pelos sacerdotes (...). À tarde o Exma e Revdmo Sr. Arcebispo Primás distribuiu o sacramento da Confissão a setecentas pessoas. Seguiu-se a procissão de encerramento com prática pelo Vigário e benção do SS. Sacramento. (...). Para o brilhantismo desta festa, atendendo à missão, em tudo cooperaram IImo Sr. Prefeito e outras autoridades locais. O magnífico resultado de tudo deve-se ao esforço da Comissão, tendo à frente o Cel. Wercelêncio da Mota, D. Presidente, que distintamente hospedou o Exmo Sr. Arcebispo e outros membros visitantes. O tesoureiro das Festividades pode apresentar à comissão o seu trabalho bem controlado ao ponto de nada ter faltado ocorrer às despesas que atingiram ao total de oito contos de reis. A todos esses, o povo em geral e áqueles que aqui não foram citados mas merecem uma menção especial, fica neste livro do Tombo o agradecimento do Vigário. Tudo para maior Glória da Virgem SS. (Livro de Tombo da Paróquia Nossa Senhora da Conceição p. 31.)
  16. 16. 16 É interessante notar que esse movimento religioso adquire uma grande importânciapara a população coiteense, envolvendo todos, desde simples participantes das celebrações atéilustres autoridades políticas. Compreendendo assim outra dimensão da festa, a política, poisseus benfeitores ganham prestígio e conseguem que as posições que assumem sejamreforçadas ou até mesmo elevadas perante a sociedade. Aproveitando-se dessa realidademuitos políticos da cidade tornavam-se presidentes da festa, participavam da comissãoorganizadora, ajudavam financeiramente e assim conseguiam conquistar prestígio perante osoutros. Como é evidenciado no relato acima em que o presidente da festa o Sr. Wercelêncioda Mota era um dos grandes líderes políticos do município. Estabelecendo-se, dessa formauma negociação entre as duas instituições. Como exemplo dessa relação pode-se citar o relato do vigário paroquial padre LuizBellepede em 08 de dezembro de 1970, na qual o novenário da festa foi realizado de formasimples, sem a presença do bispo e com pouca participação dos fiéis devido à trágica morte doprefeito, Dr. Pinheiro, que ganhou as eleições segundo o padre devido os serviços prestados acomunidade. E encerra o relato apresentando o presidente da festa o Sr. Misael Ferreira quena mesma década era vereador e pleiteava o cargo para ser sucessor de Dr. Pinheiro. Mas é claro que essa relação não acontecia somente nas festas da padroeira, masreflete bem como eram estabelecidos os laços entre igreja e política em Conceição do Coitéantes de 1989, acontecia também outras práticas que evidenciam essa relação. Ao analisar osdocumentos do Livro de Tombo pertencente à paróquia, precisamente nos relatos da décadade 70 percebe-se que aconteciam inúmeras relações entre os administradores municipais coma instituição religiosa desde as missas em ação de graças à posse dos prefeitos e outrasautoridades políticas do município, como também do treinamento dos professores municipaisrealizados pela paróquia. Além disso, apresentam vários relatos a respeito de visitas dogovernador do Estado e de sua comitiva à cidade, que era acolhida pelo prefeito e geralmentealmoçavam com representantes religiosos que estavam presentes na casa do prefeito. Percebe-se no relato abaixo que o pároco ao descrever a visita do governador, anuncia o futurogovernador da Bahia que era apoiado pelo então governador Luis Viana. A visita do Sr. Governador Luis Viana Filho a Coité para a inauguração de obras da prefeitura. Fazia parte também de sua comitiva o futuro governador Antonio Carlos Magalhães e outros ilustres deputados. Às 13 horas a filarmônica seguida do povo se movimentava para encontrar os visitantes que vieram de Riachão. Junto ao cemitério o Sr. Prefeito, a câmara de vereadores e outras personalidades, com o Vigário e o seminarista, o povo atendia a chegada do ilustre chefe executivo da Bahia. Depois foram as salvas de palmas e foguetes acolhiam os ilustres hóspedes. O almoço foi na casa do prefeito que durou até ás 15:30horas. Todos se dirigiram para a inauguração (...). Depois da benção dada pelo vigário se foi para a tribuna onde falaram vários
  17. 17. 17 deputados enfim o futuro governador Antonio Carlos Magalhães. O Sr. Governador com sua comitiva se foram para Salvador. (Livro de Tombo da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Coité, p. 75). Parece insignificante essa mediação entre religião e política, mas ela ganha grandeconotação, pois como afirma Coutrot essa relação reside no fato de que as Igrejas são corpossociais e como tais, difundem um ensinamento que não se limita às ciências do sagrado, mastudo aquilo que cerca a vida do homem, sendo que a crença cristã se exprime no seio de umregime leigo e de uma sociedade secularizada e descristianizada No contexto da sociedade coiteense essa mediação apresentada por Coutrot ganhagrande destaque no cenário religioso dessa época, no que diz respeito aos seus dirigentes.Evidenciando a presença de inúmeros padres que participaram efetivamente nos assuntospolíticos, que para muitos não tem nada haver com o religioso, desde a simples“reprodutores” do poder dominante local ou pleiteando algum cargo político. Essa participação política dos membros católicos do município de Conceição do Coité,Vanilson Oliveira constata que essa participação fica evidente ao longo da história política domunicípio, apresentando essa atuação em seu livro Conceição do Coité e os Sertões dosTocos. O padre Francisco de Souza Madureira é um deles. Assim que chegou em 1869, vindo da Vila de Jerquiriçal (BA), fez bastante amizade com os paroquianos tornando-se: conselheiro municipal (vereador), intendente (prefeito). Outro padre que despontou na política estadual foi Urbano Galrão Dhon, soteropolitano, descendente de italiano. Chegou em 1937 e tratou logo de fazer boas amizades, principalmente com o Wercelêncio Mota, ‘velha rapousa’ da política coiteense, rendendo-lhe bons frutos. (OLIVEIRA, 2002, p. 90). Sobre essa candidatura do padre Urbano Galdão Dhon, Vanilson Oliveira, comentaque o mesmo se lança candidato a deputado estadual pelo PSD (Partido Social Democrático)nas eleições gerais da Bahia em 1954, mas teve que enfrentar a postura negativa da Diocese edo Vaticano para autorizá-lo a pleitear esse cargo público no legislativo, mas apesar disso elecontinuou no pleito e conseguiu ser eleito pela população coiteense, essa que, segundo elerealizou várias manifestações a favor da sua candidatura. A prova da simpatia do povo à causa foi atestada na votação no partido majoritário, apesar do vigário nunca ter feito um comício pela sua candidatura, nem nunca ter feito, em qualquer Templo ou ato religioso a menor referencia ao assunto. (Livro de Tombo da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Coité p.51). Porém mesmo tendo ganhado a eleição ele continuou seus trabalhos pastorais nacomunidade, vivenciava a ameaça de suspensão da sua ordem e afastamento da Igreja se
  18. 18. 18assumisse o cargo de deputado. E assim aconteceu, após sua ida para a capital a pedido dogovernador eleito, Antônio Balbino, para tomar posse do cargo, pois o mesmo haviaconseguido a autorização com o Arcebispo da Bahia, D. Augusto Álvaro Cardeal daSilva,para que ele pudesse assumir o cargo na Assembleia Legislativa da Bahia, Todaviadurante a Semana Santa do ano de 1955 recebeu sua suspensão e soube da nomeação dovigário que iria lhe substituir, o padre João Gomes. Ao saber da notícia o padre Urbano logoprovidenciou os mecanismos para transferência da paróquia, questão das dívidas, livros deregistros, passando para as mãos de paroquianos de sua confiança e sobre protesto aceita taldecisão da Igreja. Urbano, imediatamente, envia vários telegramas ao Cardeal da Silva e não obtém respostas. Desiludido, entrega a paróquia sob forte protesto e passa a morar em Salvador, vindo nos fins de semana a Coité, rever os paroquianos e auxiliar os padres nas missas. Cumpre o seu mandato até o fim. Na eleição seguinte, candidata-se a deputado federal, não obtendo êxito. Desiludido, abandona a política partidária; casa- se com uma baiana e vai morar no Rio de Janeiro e falece por lá. (OLIVEIRA, 2002, p. 90). Outro padre que teve envolvimento com a política partidária foi o padre AntonioTarashi, mas diferente do Pe. Urbano que se lançou a candidato, Tarashi se desentende comEvódio Resedá, membro do PR (Partido Republicano) e que disputou a prefeitura em 1963,no ano em que Tarashi chegou à cidade e fez o seguinte comentário em 1965. Desde a minha chegada nessa freguesia, notei que o povo esta dividido em dois partidos: o PR , a maioria desse partido constitui o povo mau da cidade, inclusive os marçons pertencem a esse partido, e o PSD que representa o povo bêm dessa cidade. O PR, povo sagais , se apodera dos pontos chaves da cidade como: ginásio, correio, clube, cooperativa, delegacia de policia, da companhia telefônica e etc. para torna-los instrumentos políticos, mas nunca conseguiu ganhar a Prefeitura, apesar que luta com todos os meios, inclusive a violência durante a política, a mais de trinta anos. (Livro de Tombo da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Coité p. 68) O padre Antonio Tarashi ensinava no colégio Wercelêncio Calixto Mota, e se tornoudiretor provisório, substituindo o diretor que estava em lua de mel. E ao saber que aprofessora Maria Mota havia fugido com um fotografo já casado na Igreja e ao seu retornopara o município estava casado com o mesmo no civil, o padre e alguns professoressolicitaram ao senhor Evódio Resedá que era presidente local da Companhia Nacional deEducação Comunitária (CENEC) demitisse a mesma, o que não aconteceu. Diante disso, opadre e outros clérigos que ensinavam na mesma escola, juntamente com diretor o advogadoAntonio Paraguassu e quatro professoras pedem demissão de seus cargos. E o padre cria outrocolégio denominado Santa Teresinha.
  19. 19. 19 Os alunos do ginásio fizeram greve e passeatas pelas ruas da cidade, com faixas, pedido a volta, dos padres no ginásio, o povo em geral queria o afastamento da funcionária Maria Mota e a volta dos padres ao ginásio mas os chefes do PR reunidos queriam a saída do vigário da freguesia, achando que eu pudesse, na política ir contra eles, o PR. (Livro de Tombo da Paroquia Nossa Senhora da Conceição, p. 68) Mas além desse episódio, o padre Tarashi relata no Livro de Tombo que foraprocessado pelos membros do PR, em 1966, por rapto de crianças, segundo o vigário, pormotivo de vingança, queriam “desmoralizar o padre e expulsá-lo da cidade”, o povo ao saberdo processo se revoltou contra os envolvidos que ao perceberem a atitude da populaçãoabandonaram o processo. Oliveira, retrata que essa participação política desses padres estava marcada pelocenário da política do município que era comandada pelas “oligarquias locais, lideradas porWercelêncio Mota e Eustórgio Resedá”9, na qual revezavam no poder na indicação dequalquer candidato “independente do partido, ou do índice de rejeição, para que a pessoafosse eleita”10. Assim como afirma Leal, em Coronelismo, enxada e voto, a política local noBrasil, foi sempre primordialmente poder privado e não-democrático, poder dos potentadoslocais, na qual quem o assegurava eram as classes dominantes, que tornava afirmador dosprivilégios e interesses coletivos das elites. Segundo René Dreifuss logo após o Brasil se tornar República, a política local aindacontinuava sendo uma “coisa privada” em que as elites dirigentes tanto nos centros urbanosou vilarejos absorveram os elementos políticos e econômicos da estrutura anterior. A administração regional e nacional tornou-se patrimônio de setores econômicos, profissionais, político-partidários e militares, todos eles pertencentes a este particular e excludente clube civil dominante que se coloca como ordenadora do estado de coisas e como dirigente das coisas públicas. (DREIFUSS, 1989, p.15). Dessa forma, a relação que essas classes dominantes estabelecem com as camadassubordinadas se manifestou dentro dessa política local sob a visão de clientela, as classessubalternas não se viram “representadas sob o arcabouço institucional político e normativoplural da sociedade ampla, mas foram reunidas retoricamente na base da manipulação” queindica uma relação que envolvem consentimento de benefícios públicos, como empregos,benefícios sociais em troca de apoio político, especialmente o voto.9 . OLIVEIRA. Vanilson Lopes. Conceição do Coité: Os sertões dos Tocos. Conceição do Coité: Clip ServiçosGráficos, 2002.p. 7610 Ibidem. p. 76
  20. 20. 20 Em Conceição do Coité, como afirma Oliveira esse clientelismo era feitodisfarçadamente pela política dos coronéis: João Amâncio, Wercelêncio, Eustórgio Resedá emuitos outros, e, também pelo comerciante Teócrito Calixto “que doava uma gravata, umsapato, ou uma meia, para quem voltasse nele”. Sendo que esse clientelismo eassistencialismo se deliberaram a partir dos anos 70, em que, muitos políticos para conseguirseus objetivos saiam prestando assistência social à população. Francisco de Assis Alves dos Santos em Na mira dos coronéis, analisa o cenáriopolítico de Conceição do Coité nas últimas décadas do século XX, retratando os discursos eos atos de chefes políticos locais, grandes empresários do sisal, Hamilton Rios de Araújo(Mitinho) e Misael Ferreira que iniciaram ambos suas carreiras políticas pela ARENA em1972, com características do velho coronelismo. Destacando a ação de Hamilton Rios grandelíder do grupo político dominante e por fazer inúmeros herdeiros políticos. Como também, oseu sobrinho Ewerton Rios de Araújo Filho (Vertinho) - PFL/PPB. Hamilton Rios governou Conceição do Coité durante dez anos, seu sobrinho, Ewerton Rios, ficou no poder a oito anos (atualmente cumpre seu terceiro mandato – grifo meu), e agora seu filho Welington (Tom), ao completar a maioridade foi designado candidato a prefeito para as eleições de 2000. Isso ilustra perfeitamente uma monarquia absoluta. (SANTOS, 2002, p. 34). E este domínio de Hamilton Rios não se resumia apenas às questões administrativasdo executivo e legislativo, mas se estendia a outros campos da vida da população como asinstâncias religiosas e a própria influência no imaginário das pessoas que ainda mantinhamuma relação de interdependência com os políticos. A igreja local muitas vezes acentuava essa condição dos dominados, na medida emque a mesma se relacionava nesse círculo de clientela com esses poderes políticos, e quandorecebia donativos sejam financeiros ou materiais dos mesmos, o que a colocava numa posiçãode subserviência e não de contestação, visto que a mesma reproduzia e ampliava tais práticas.É preciso destacar que essa intervenção religiosa na política aqui pesquisada tem como peçascentrais as autoridades religiosas que como afirma Coutrot têm uma grande influênciapolítica, sendo que a influência especifica dos fieis não é tão fácil de perceber. Vale ressaltar que na década de 60 a Igreja Católica vivenciou um novo paradigma sobinfluência do Concílio Vaticano II que provocou grandes transformações no seio da Igreja,tanto no campo conceitual e teológico, mas acima de tudo, na maneira de evangelizar. Foi
  21. 21. 21através desse Concílio convocado pelo papa João XXIII11, iniciado em 08/11/1962, queintroduziu dentro do seio da instituição uma abertura para as questões sociais vigentes nasociedade que ela está inserida. A convocação desse Concílio promovida por João XXIII segue dentro de profundosacontecimentos mundiais. O mundo vivia sob a realidade do pós-II Guerra Mundial e estavamarcado pela Guerra Fria, neste contexto a América Latina estava situada, numa série deinstalação de regimes militares que cometiam diversas atrocidades a grupos sociais - inclusivea própria Igreja latino-americana - que fizessem resistência à ideologia estabelecida pelosistema. João XXIII averiguando essa realidade de conflitos declara na “Humanae Salutis”12 A Igreja assiste, hoje, à grave crise da sociedade. Enquanto para a humanidade surge uma era nova, obrigações de uma gravidade e amplitude imensas pesam sobre a Igreja como nas épocas mais trágicas da sua história [...] E daí a elaboração da sua doutrina social referente a família, a escola, ao trabalho, a sociedade civil e a todos os problemas conexos, que elevam a um altíssimo prestígio o seu magistério como a voz mais autorizada, interprete e propugnadora da ordem moral, reinvindicadora dos direitos e dos deveres de todos os seres humanos e de todas as comunidades políticas (JOÃO XXIII, 1961) Os documentos elaborados durante o Concílio Ecumênico Vaticano II analisam asprofundas transformações ocorridas nessas décadas e revela que há um aumento naconsciência em favor das minorias, como também, condenam os regimes governamentais queutilizam do exercício da autoridade em benefício de seus próprios interesses ameaçando obem comum13. Frei Betto argumenta que o Concílio Ecumênico Vaticano II e a ConferênciaEpiscopal de Medellín14 foram os prenúncios de uma Igreja convertida às suas origens,enfatizando que na América Latina, a religião cristã não seria mais o “ópio do povo e o ócioda burguesia. Seria, sim, sinal de contradição, pedra de escândalo, fogo que queima e alumiaespada que divide” 15. No Brasil a ação política da Igreja Católica se acentua durante a década de 60, poisapesar da repressão militar contra forças opositoras ao regime a instituição teve voz ativa no11 Seu nome de batismo foi Angelo Giuseppe, natural da Itália, assumiu o pontificado em 1958 tendo fim em1963 devido a sua morte.12 CF. JOÃO XXIII. Humane Salutis, carta apostólica de convocação ao Concílio Ecumênico Vaticano II, 25 dedezembro/1961.13 Ver o Catecismo da Igreja Católica. Capitulo IV.14 Foi uma reunião que congregou todos os bispos dos países latino-americanos e do Caribe, que aconteceu naColômbia com o propósito de acolher as orientações do Concilio Vaticano II inserindo-as de maneira prática nadinâmica própria do continente.15 CF. BETTO, Frei. Batismo de sangue: os dominicanos e a morte de Carlos Marighella. 10 ed. Rio deJaneiro: Bertrand Brasil, 1991. p. 61.
  22. 22. 22período. Frei Betto, aponta que diversos sacerdotes e intelectuais marxistas se aliavam na lutaa favor dos menos favorecidos e contra a repressão que o regime realizava nos movimentospopulares denominados por eles de comunistas. Nesse período verifica-se segundo Lowy, aatuação de vários cristãos em movimentos sociais, tais como associações, sindicatos, partidospolíticos, movimentos estudantis e organizações revolucionárias, como também nascomunidades eclesiais de base (CEB’s) ações que vieram a se desenvolver com legitimidade apartir da Teologia da Libertação em 1971. Gustavo Gutierrez, no livro Teologia da Libertação chama a atenção para a novapostura que a Igreja Católica da América Latina adotou principalmente após o ConcilioEcumênico Vaticano II e a Conferência de Medellín onde a Igreja “percebe com realismo omundo e vê-se a si mesma com maior lucidez”. Onde esta se apresenta como observadora dasdesigualdades e disposta a acabar ou suavizar os conflitos mundiais. O autor faz referência àcitação de Thomas G. Sanders onde aponta a Igreja como sendo a instituição que mais estámudando na América Latina, contudo Gutierrez salienta que a Igreja apresenta-se dividida emrelação ao que ele chama de “processo de libertação”. Em Conceição do Coité essas novas concepções adotadas pela Igreja Católica, nãoteve grande repercussão de imediato, visto que não se tem registros dessa ação políticapromovida pela Igreja. Os párocos que administravam a paróquia nesse período não fizeramnenhuma referência, especificamente no Livro de Tombo, acerca do Vaticano II nem da açãopolítica dos clérigos frente à ação dos militares. Quem registra timidamente essa novaconcepção política da Igreja Católica no município foi o jornal Tribuna Coiteense retratando aTeologia da Libertação e a opção preferencial da Igreja pelos pobres proclamada naConferencia de Medelín. Os bispos latino-americanos reunidos no México disseram que esta pobreza não é uma etapa casual, mas o produto de determinadas ‘situações e estruturas’. Segundo os valores evangélicos, a divisão entre ricos e pobres não é querida por Deus. Ele quer irmãos e irmãs que vivam relações justas e igualitárias. Por isso, precisamos mudar a sociedade. (Jornal Tribuna Coiteense, Ano IX, nº 46, 28 de abril de 1989, p. 2). Porém, na sede da Diocese a qual a Paróquia de Conceição do Coité estava inserida,em Feira de Santana, as propostas do Vaticano II foram bem mais percebidas devido à ação dealguns clérigos e leigos, apesar de ter enfrentado alguns setores da mesma instituição, comorelata Lívia Resende em seu trabalho As novas concepções do clero feirense diante dasinovações do Vaticano II (1964-1980), a autora destaca que essas novas concepções dentro daIgreja de Feira de Santana, foram trazidas principalmente pelos padres estrangeiros que
  23. 23. 23viviam na cidade na época em estudo, muitos deles espanhóis, e possuía um discurso maispopular, uma postura de ajudar as comunidades a defender e reivindicar os seus direitos.Influenciados pela corrente teológica libertária difundiam essas concepções junto ao povo, eao mesmo tempo criavam espaços para o protagonismo dos leigos, idéias defendidas peloConcílio Vaticano II. Mas apesar dessa atuação, Resende, deixa claro que muitos padres sofreramretaliações por parte de setores da sociedade que os consideravam comunistas ou até mesmode setores mais conservadores da hierarquia religiosa de Feira, que não aceitavam ou não seadaptaram as tais concepções. Como exemplo, cita a atuação do padre Albertino Carneiro, umimportante organizador e militante dessas novas tendências da Igreja Católica, e registra umcomentário seu a respeito dessa ação conservadora do clero da diocese de Feira de Santana. Para o padre Albertino Carneiro, o Concílio o influenciou muito e também, a outros padres, um deles foi expulso, do Brasil, o padre José (ele não se lembrou do sobrenome), que era italiano e depois transferido para o Ceará por que achavam que o bispo daqui não dava muita cobertura para a renovação, chegou lá depois de cinco anos, ele foi para a comunidade, e quando voltou para Feira de Santana não o deixaram ficar. (RESENDE, 2008, p.31). Resende destaca também que além da participação de padres nesse processo, muitosleigos estavam presentes e divulgavam dentro da igreja essas novas concepções.Principalmente influenciados pela Teologia da Libertação e pela ação de inúmeros católicosque estavam atuando contra o regime militar instaurado no Brasil na década de 60,percebendo que em Feira de Santana, esses membros possuíam um histórico de envolvimentocom os movimentos sociais, muitos deles professores e que tinham uma profunda participaçãona vida da comunidade religiosa. Esses leigos, segundo Resende, estavam sempre apoiando deuma forma ou de outra a luta contra o sistema capitalista de exclusão social, e a todo instanteestavam participando dos movimentos sociais católicos que surgiram no país nesse período, eespecificamente em Feira de Santana colaboraram juntamente com alguns padres para acriação do Movimento de Organização Comunitária (MOC), sendo que seu fundador foi opadre Albertino Carneiro, e das Comunidades Eclesiais de Base (CEB´s), sempre tendo comobase teórica desses movimentos a Teologia da Libertação e os documentos do Vaticano II. Entretanto em Conceição do Coité essas novas concepções que estavam sendovivenciadas pelo clero de Feira de Santana, não foram plenamente vivenciadas no município,visto que a administração paroquial antes de 1989 ainda assumia uma postura desubserviência com o poder local. Durante a administração paroquial de padre José Reis, que
  24. 24. 24assumiu a paróquia no dia 13 de dezembro do ano de 1973, a prefeitura mantinha uma ligaçãocom a paróquia no que diz respeito às questões financeiras, como por exemplo, através depagamentos dos funcionários paroquiais. Em troca, numa relação de reciprocidade, o prefeitoe seus familiares possuíam algumas regalias na instituição religiosa. Até junho de 1989, a Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Coité passava por momentos conturbados, que iam da fantasia, da necessidade de “aparecer”, do muito realizar sem objetivos concretos, até o comprometimento com grupos políticos que impuseram uma dependência estrutural, funcional e financeira, passando a Prefeitura Municipal a custear quase todos os encargos que acreditamos ser da responsabilidade da administração paroquial. Funcionárias da Secretária Paroquial, doméstica, luz, água e outras despesas passaram a fazer parte do passivo do poder público Municipal. Até aquela data, nunca tomamos conhecimento de balancetes que justificassem receitas e despesas de nossa paróquia. Até mesmo um automóvel que a paróquia possuía, não se sabe que fim levou ... existia a paróquia subserviente a um grupo político, que por não encontrarem o mesmo espaço com Pe. Luiz Rodrigues de Oliveira, desencadearam uma campanha de difamação: calúnias e falsos testemunhos diante da hierarquia diocesana. (Carta do Conselho Paroquial em 23 de março de 1996). Segundo o depoimento oral de um dos leigos atuante na época em estudo, o Sr. NilsonSilva Carneiro, popularmente conhecido como o Sr. Nilson, foi um dos responsáveis pelacriação das comunidades eclesiais na zona rural e atualmente com 60 anos de idade éfuncionário da paróquia. Mas nesse período do estudo era apenas um autônomo, sendoconvidado pelo padre José Reis a dinamizar a paróquia auxiliando as comunidades da zonarural. Afirma que na época que o padre Reis chegou a Coité a paróquia era muito precária, ascondições da casa paroquial eram horríveis e que o mesmo enfrentou muita resistência dealguns paroquianos pela saída do antigo padre, Nicola, chegando ao ponto de algumas pessoasretirarem toda a comida da casa paroquial. Sr. Nilson comenta que nesse período quem sustentava a paróquia era a prefeitura,pois ela mesma não reunia condições de uma auto-sustentação, o padre até tentou criar odizimo, mas poucas pessoas tornaram-se dizimistas. A secretária paroquial era umafuncionária da prefeitura, as reformas da casa paroquial, conta de luz, água em geral todas asdespesas era a administração local que sustentava. Quando o prefeito era eleito, o prefeito porque ajudava muito a paróquia, contribuía com alguma coisa, mandava e ele ficava sem vez, em me lembro que uma certa vez tinha um curso de pais e padrinhos (...) e diversas pessoas que participavam do grupo político era isentas não precisava tomar o curso de pais e padrinhos onde umas pessoas criticavam o padre Reis e falava que não gostava dessas atitudes. E ai continuou quando, por exemplo, quando tomavam posse a igreja era enfeitada de flores, de faixas, de ‘vermelhou’ de grupo tal e ele fazia com toda a felicidade como que nem tava se lixando pras pessoas que não gostavam de tais atitudes, né, mas tinha um grupo que se afastava que não gostava disso que era católico que acompanhava todos os movimentos da igreja, mas que nesses momentos não participava,a gente
  25. 25. 25 ficava de fora. Por exemplo teve uma época que teve uma procissão do senhor morto que o povo desfilava e que depois ele veio mudar, que criou uma antipatia na comunidade, os próprios grupos dele, o próprio grupo do prefeito achou ruim começou a falar, mas foi tirado também essa procissão do senhor morto (...) e o prefeito na época quando chegava pra participar, ele parava o evento e mandava o povo ter a atenção parabenizando a chegada do tal prefeito que tava chegando. Essas coisas assim, deixava a gente meio triste, mas a gente continuava com o trabalho, por exemplo eu, Arivaldo e outras pessoas que sempre a gente aderia a essa linha da libertação a gente queria o bem pra todos e a gente percebia que a carência na zona rural e nas periferias era demais, era fome, era desemprego, e aí, as pessoas que eram paparicadas por eles tinham benefícios, mas quem não era ligado passava dificuldades não tinha escola, não tinha nada. (CARNEIRO. Entrevista concedida em 18 de set. 2009). Apesar, dessa dependência “estrutural, funcional e financeira” que a paróquiavivenciava com a administração municipal, evidencia-se nos documentos pertencentes aoarquivo paroquial que durante a administração do Pe. José Reis foram realizadas algumasmudanças que dinamizaram a comunidade religiosa. Tais como a formação dos leigos,despertando a descoberta de novas lideranças para a ação pastoral, estruturação de pastoraisimportantes para a paróquia, como também, iniciou a formação das Comunidades Eclesiais deBase (CEB`s) na sede e nas zonas rurais do município, essas comunidades que foramincentivadas pelo Vaticano II e que tiveram importante papel para a redemocratização do país. Sr. Nilson comenta que as comunidades da zona rural começaram a serem atendidascom a chegada do padre Reis, que era muito organizado e dinâmico, antes essas comunidadesnão tinham uma profunda participação de se reunirem, celebrarem a Palavra. Com amotivação do padre Reis e a ajuda de alguns leigos, inclusive ele, começaram a seremfundadas as Comunidades Eclesiais de Base, que freqüentemente motivava a participação dosfiéis nas Celebrações da Palavra, que animavam a vida das comunidades. Ele afirma quedevido a essa animação que agregou a muitos e dinamizou a paróquia, os políticos começarama procurar o padre Reis, que era muito animado. Com o incentivo dessas comunidades criadas na paróquia, o Sr. Nilson comenta queem uma dessas suas visitas à zona rural deu assistência a uma jovem do açude de aroeira16 quefora vítima de uma violência sexual, quando saia da escola a caminho da sua casa que situavaem um povoado distante, visto que existiam poucas escolas na zona rural naquela época emuitos estudantes iam para a escola em “paus de arara”, o que provocou grande insatisfaçãona comunidade, que mobilizou junto com as demais um protesto pela falta de atenção dospoderes públicos para esses habitantes da zona rural. Com esse movimento, as comunidadesconvidaram para uma reunião o prefeito, Hamilton Rios e o secretário de educação para16 Povoado do município ligado ao Distrito de Aroeira
  26. 26. 26resolver esse problema e assim conquistaram a criação de inúmeras escolas nessas zonas como apoio do município e do governo do Estado, como a Duque de Caxias e a Pe. José Antoniodos Reis. Reivindicamos juntos em comunidade nessa linha da libertação, eu acredito que a nossa fé não foi só ligada no que o padre fala, no que o padre diz, cada um tem sua meta, nos obedecemos a Igreja, mas também nos temos a nossa linha de caminharmos juntos pelo bem pela vida de uma comunidade, e aí nos conseguimos com esse movimento. Pe. Reis, ele era uma pessoa simpática, todos gostavam dele (...) inclusive teve um período que ele me disse que eu tinha muita razão, porque ele disse que pelas atitudes de tais pessoas que já governavam a prefeitura e o Estado na época, ele disse que (...) devíamos andar com máscara de tanta podridão que essas pessoas tinham. Então ele já começou a perceber que às vezes ele ‘puxava saco’, ele beneficiava, atendia a esses pedidos de políticos, como pagando a secretaria, pagando a luz da igreja e a casa paroquial, esse assistencialismo (...) com reforma da casa paroquial e alguma coisa mais era pra beneficiar o grupo político, mais aí a gente percebia que também ele tinha suas angustias. (CARNEIRO. Entrevista concedida em 18 de set. 2009). Ivo Lesbaupin, em seu artigo Comunidades de Base e ação social, analisa a atuação decristãos reunidos nessas comunidades de base da Igreja Católica situados no Rio de Janeiro eem Minas Gerais. Defende que elas foram, no período mais repressivo, um espaço de debatee reflexão dos problemas sociais, visto que ao mesmo tempo em que exprimiam a sua fétomavam consciência da situação social. Elas permitiram assim o desenvolvimento de uma consciência crítica nos meios populares que elas atingiram, o que as levou, pouco a pouco, a se mobilizarem para atingirem seus objetivos e defenderem seus direitos.(LESBAUPIN, 2005, p.180). Em Movimento Nacional de Fé e Política, Luci Faria Pinheiro, faz uma análise daparticipação dos católicos nas lutas sociais engrenadas desde mobilização social contra aditadura da década de 60, como também da formação e aprofundamento da esquerda noBrasil, a partir dos anos 80, no qual contestaram as desigualdades sociais no continente latino-americano provocado pela lógica capitalista. A autora argumenta que na medida em que oscristãos passavam a reivindicar um lugar do religioso na política é que se revelava a ação dosmilitantes e o descontentamento ético em relação aos governos, afirmando o seguinte: No começo dos anos 60, com a radicalização da JUC e a conseqüente fundação da Ação Popular, tem início uma prática que será sistematizada em forma de uma teologia da libertação. Essa será disseminada a partir do apoio da Comissão Nacional dos Bispos do Brasil, na década de 70; a partir da Conferencia dos bispos-latinos, em Medellín em resposta às recomendações do Concílio Vaticano II, realizado por João XXIII na década anterior. A base de toda a inversão operada pela militância cristã de esquerda será a indignação diante do aumento das desigualdades sociais no continente latino-americano, provocado pelo aprofundamento da lógica capitalista. Se antes a Igreja reconhecia, mas não combatia as desigualdades sociais, a partir de então, torna-
  27. 27. 27 se co-promotora da organização popular e passa a denunciar a usurpação do poder econômico e político. (PINHEIRO, 2005, p. 93) Nesse contexto, Vanildo Luiz Zugno, descreve a partir de sua percepção a atuação daIgreja Católica com a realidade política brasileira do século XX através dos movimentospopulares, pastorais sociais, conselhos de pastorais e das CEB’s, presente em seu artigoIgreja, política e ação evangelizadora. Caracteriza essa atuação como sendo um espaço deluta pela reconstrução das relações democráticas e na transformação das relações sociais nabusca de uma sociedade mais justa. Um fato importante nesse período marcado pela negociação entre os dois poderes foium momento de conflito entre ambos no ano de 1987 em que envolveu diretamente orepresentante religioso e a comunidade eclesial, pois defendia os interesses religiosos daesfera local e que teve grande repercussão na sociedade coiteense. O padre Reis convocoutoda a população católica para irem às ruas e à Câmara Municipal pressionar os vereadorespara aprovarem um Projeto de Lei apresentado pelo vereador Diovando Carneiro Cunha(Vando) que autorizava o prefeito municipal modificar e fixar a data da Festa Momesca –Micareme - desta cidade para sábado após o Domingo de Páscoa. Isto porque tal festa erarealizada durante a Semana Santa, precisamente no Sábado de Aleluia, o que prejudicava ascelebrações litúrgicas da entidade durante a semana e no dia, visto que muitos se preparavampara tal festejo e não participavam da celebração religiosa. Tal ação dividiu muito a opiniãoda população visto que o calendário da festa já fazia parte da tradição popular da cidade. A festa de micareme teve inicio no ano de 1923, segundo relata Marielza Carneiro. No sábado de Aleluia, tudo mudava. A alegria começava às dez horas da manha, porque era nesse horário que rompia a Aleluia com repicar do sino, foguetes, cânticos festivos e Missa solene. As crianças colocavam uma vasilha, (geralmente uma bacia) com água, para verem ‘o sol brigar com a lua’. Os mascarados, que tinham o nome de caretas, tomavam conta das ruas, enquanto cavaleiros com seus cavalos esquipadores desfilavam engalanados. (OLIVEIRA, 2002, p. 53) O Sr. Nilson comenta que muitas pessoas não gostaram da atitude da Igreja local emmudar a data da festa, e menciona que numa caminhada que o padre Reis havia organizadocom as CEB´s para pressionarem a Câmara Municipal e a Prefeitura, foi alvo de muitarepressão por parte da população, em que o mesmo recebeu uma pedrada que atingiu suaboca, ele comenta que não tem a certeza se foi para o padre ou para ele, mas como ele estavaao lado do padre acabou sendo atingido. Oliveira destaca que em meio às pressões da Igreja os vereadores acabaram aprovandoa lei, sendo que as sessões para a aprovação de tal projeto foram todas tumultuadas, “pois
  28. 28. 28parte da população queria mudança, chegando a entrar em atritos com alguns membros daIgreja.” 17 Esse assunto foi bastante polêmico dentro da sociedade coiteense, pois dividiu aopinião da população. Como se percebe nos relatos acima, o projeto conseguiu ser aprovado,mas não conseguiu minimizar as posições contrárias que sempre anunciavam elaborar um ate-projeto para conseguir restabelecer a festividade para a semana santa, visto que era umagrande manifestação da cultura popular do município, uma grande tradição. No ano de 1989, a então vereadora Elia Cirino, tentava lançar um anteprojeto para quea micareme voltasse a acontecer na semana santa, na data tradicional, devido a mesma serprocurada pela população que exigiam tal projeto, numa entrevista ao Jornal TribunaCoiteense, ela relata sobre o assunto: Lembro-me muito bem que o padre Antonio Tarashi sempre nos dizia que o Micareme de Coité era numa época certa, pois caia na data da ressurreição de Cristo e isto era um motivo de alegria. Por que contrariar o povo com uma festa que não chega a descaracterizar a Semana Santa? Não adianta com sermões mim atacar, pois não é do meu feitio ceder pressões religiosas. Tenho toda a admiração pela religião Católica, a qual pertenço, entretanto, acho que a Igreja deve assumir outras posições que é a de sair dos altares e pregar consciências de distribuir socialmente o pão. (Jornal Tribuna Coiteense, Ano IX, nº 46, 28 de abril de 1989, p. 2). Apesar do Pe. Reis ter conseguido animar e estruturar as comunidades eclesiais de baseda zona rural dinamizando a paróquia, ele não conseguiu romper com os laços que mantinhama mesma com os chefes políticos, sendo que o próprio contribuiu para que tais envolvimentosfossem fortalecidos na medida em que ele se relacionava nesse círculo de clientela, na trocade favores. Como exemplo, Sr. Nilson comenta que existia uma grande devoção popular nomunicípio a São Roque sendo coordenado pelo Dr. Pinheiro, que era do partido da oposição,que não recebia nenhuma ajuda do pároco e que o mesmo se recusava a celebrar tais festejos,pelo fato de Dr. Pinheiro não ser ligado ao grupo político hegemônico na cidade. Porém essa relação de clientela entre Igreja e o governo municipal será rompida com aposse do novo pároco em 30 de julho de 1989, o padre Luis Rodrigues Oliveira que adotaoutro modelo de ação pastoral, lutando pelo fim da dependência que a paróquia estabeleciacom a administração pública e na defesa de seus ideais denuncia as irregularidades daadministração municipal. Por adotar essa postura diferente do antigo padre, essa intervenção na esfera políticapartidária, foi alvo de alguns processos e hostilidades pelos chefes locais. Finalizando assim17 OLIVEIRA, Vanilson Lopes. Conceição do Coité : Os Sertões dos Tocós. Conceição do Coité: Clip ServiçosGráficos, 2002. p. 53.
  29. 29. 29os “Bons Tempos” em que padres e políticos dividiam os mesmos altares, no qual, oscostumes entre as duas instituições eram fortalecidos. Mas este assunto será discutido nospróximos capítulos.
  30. 30. 30 CAPÍTULO II “Um mundo, uma revolução na minha cabeça” 18 “Duas coisas marcaram minha personalidade; o homem do campo, padre, do interior, analfabeto essa é minha origem, esses são meus pais; depois o respeito, a civilidade, a educação, eu cresci no meio universitário, trabalhei dez anos na UFBA, no setor mais elevado, de pós-graduação como funcionário e sempre lidei com pessoas altas, de alto nível intelectual, embora eu não seja, mas sempre lidei, estudei em escolas européias, convivi com gente de todos os níveis, isso para mim foi muito marcante, embora minha origem seja lá de baixo, sempre vivi me relacionando com gente de alta, então, (... ) tratamento, senso de respeito e civilidade, não de melhor e nem de subserviência, é de civilidade, daí essa civilidade precisa ser respeitada e preservada.” (OLIVEIRA. Entrevista concedida em 19 de set,2009).18 Entrevista realizada com Pe. Luiz Rodrigues Oliveira em 19 de setembro de 2009
  31. 31. 31 Em 30 de julho de 1989 foi proferida a nomeação do Pe. Luiz Rodrigues Oliveira paraos fiéis presentes na missa de posse do novo pároco na igreja matriz da Paróquia NossaSenhora da Conceição do Coité, presidida pelo bispo diocesano D. Silvério Albuquerque etendo a presença de alguns padres da região e população local, além da participação dos seusantigos paroquianos da Paróquia de São Pedro da cidade de Salvador. Sendo que toda acelebração foi transmitida pela Rádio Sisal.19 Encerrada a celebração o novo pároco dirigiu a sua primeira saudação oficial aos seus paroquianos dizendo-se irmão e companheiro, aberto a todos, na meia idade de quem não é moço e ainda não se sente velho, afeito aos contatos e convivência com as pessoas, desde a Universidade de Santo Tomás de Aquino no Colégio Angélico de Roma. Teve palavras de carinho ao seu antecessor, no paroquiano prometendo dirigir- se a todos com o Evangelho nas mãos e no coração reincontrando as suas origens sertanejas. (Livro de Tombo da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Coité p.82). Pe. Luiz Rodrigues foi o primeiro pároco da Diocese de Feira de Santana da paróquiade Coité, estava sendo enviado pelo próprio bispo da Diocese, até então seus antecessorespertenciam a uma congregação religiosa, os Vocacionistas20, que há muito tempoadministravam a paróquia, mas não estavam totalmente ligados com as orientaçõesdiocesanas, certo que havia uma obediência ao bispo diocesano. Visto que a igreja localestava sob a jurisdição da mesma e anualmente o mesmo realiza visitas pastorais para saber osrumos da paróquia. Mas antes de analisar o período que o padre Luiz vivenciou nesta cidade, em quetrouxe inúmeras mudanças e “viabilizou um projeto de evangelização sob as orientações daDiocese de Feira de Santana e da CNBB” 21, é interessante conhecer um pouco da sua origem,seu processo formativo e suas experiências pastorais, para podermos compreender melhortodo esse processo de mudança vivenciado pela instituição religiosa local. Na qual, rompeucom o modelo pastoral anterior e se tornou peça central para a alteração nas relações políticas,proporcionando transformações a nível político e social e que contribuiu na formação de umanova concepção política no meio dessa comunidade. As informações aqui relatadas sobre avida do Pe. Luiz Rodrigues Oliveira foram fornecidas pelo próprio numa entrevista aberta quefora realizada no dia 19 de setembro de 2009. Luiz Rodrigues nasceu na zona rural do município de São Gonçalo dos Campos,distante 108 km da capital da Bahia, no dia 20 de julho de 1948, filho de pai vaqueiro e mãe19 Livro de Tombo da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Coité p. 8220 Congregação Religiosa Masculina fundada por Padre Justino Russolillo em 1920, comunidade da Sociedadedas Divinas Vocações , que depois se tornou conhecida como "Padres Vocacionistas".21 Livro de Tombo da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Coité p. 86
  32. 32. 32doméstica. Cresceu no seio dessa família humilde e desde cedo se tornou trabalhador ruralpara ajudar sua mãe devido à morte de seu pai quando, o mesmo tinha oito anos de idade. Aos12 anos mudou-se para Feira de Santana para trabalhar, e conseguiu um emprego num bar, “às5 horas da manhã, já estava abrindo a porta do bar”, uma experiência que marcou muito a suavida. Aos 18 anos, conseguiu o primeiro emprego de carteira assinada e na mesma época sepreparou para o exame de admissão para o ginásio. Mesmo passando, não conseguiu estudardevido às poucas vagas que existiam em Feira de Santana, que naquela época havia apenasum ginásio público e outro particular, o Santanópolis, pertencente ao Deputado Lauro Filho,que para ele estudar deveria receber uma bolsa de estudos, pois não possuía condições de seuspais pagarem as mensalidades. Ficou muito tempo sem estudar retomando em 1963 quando o prefeito Francisco Pintoconstruiu o ginásio municipal. Assim participou da primeira turma desse ginásio do turnonoturno e finalizou os estudos em Salvador, no Instituto Central de Educação Isaias Alves,pois acompanhou seu irmão que havia casado e foi morar na capital da Bahia há procura deemprego. Formou-se em magistério no ano 1968 e começou a trabalhar como professormunicipal do primário num bairro periférico de Salvador, Pernambués, onde a miséria e aviolência estavam cotidianamente presentes. Nesse bairro entrou em contato com uma casareligiosa feminina pertencente aos frades franciscanos, em que as freiras realizavam ummovimento social de assistência nesse bairro, se envolveu nessa ação e vivenciando essaexperiência decidiu seguir para o seminário, mesmo passando no curso de História da UFBA. A fase no seminário foi muito conturbada, pois na mesma época sua mãe teve umderrame ficando paraplégica e necessitava de sua ajuda, pois sua família era muito pobre, foientão que o cardeal Dom Eugênio Sales, que no período era arcebispo de Salvador, concedeuque ele trabalhasse em um turno e em outro continuasse seus estudos no seminário. Sendoordenado em oito de dezembro de 1979. Eu fiz quase meus estudos sempre trabalhando, meu seminário foi muito intreporcados com a doença da minha mãe aquela história toda, e finalmente, e aí já era muito tempo passado, finalmente em 79 eu fui ordenado, eu passei muito tempo demorou, demorei de ordenar, ordenei com 31 anos devido a esse problema de trabalho, eu só deixei de trabalhar na semana da ordenação, foi um fato inédito em Salvador, que Dom Avelar concedeu isso a um seminarista, mas mesmo assim, logo, sendo padre eu continuei dando aula no Colégio Vieira à noite no curso noturno do Colégio Vieira, e daí nunca mais deixei o magistério, ensinei pela Prefeitura de Salvador, ensinei no Colégio Vieira, no Colégio Social da Bahia, no Central, e depois fui trabalhar em São Felix na paróquia menor da diocese, mais pobre da época, lá me envolvi muito com essa pobreza, aquele movimento dos trabalhadores rurais, não os sem terra ainda, era o Sindicado dos Trabalhadores Rurais de Cachoeira, de São Felix, região do Paraguaçu e me envolvi com isso, e tinha um colégio muito bom em Cachoeira, esse colégio formava as lideranças muito boas e desde já eles eram chamados de comunistas, nós
  33. 33. 33 estávamos vivendo a época da ditadura militar. (OLIVEIRA. Entrevista concedida em 19 de set.2009) Na região de Cachoeira, padre Luiz Rodrigues se envolveu com a política local,ajudava os jovens considerados comunistas que seguiam para a zona rural conscientizando edenunciando o regime militar, quando se deslocava para celebrar as missas nas comunidadesda zona rural. Realizava essa ação clandestinamente para que seu superior não soubesse, vistoque o mesmo não via com bons olhos essas lideranças que estavam contra o regime, assimlevava esses “comunistas” em seu carro e os deixava num ponto estratégico para não serdenunciado e no retorno os pegava na estrada. Dessa forma, com esse envolvimento sócio-político, logo após o regime ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT) na regiãojuntamente com alguns desses jovens que lutavam pelo fim do regime militar no Brasil. Nomesmo período trabalhou como professor de português em São Felix, ao mesmo tempo emque dava assistência pastoral nessas localidades. Essa sua atitude em Cachoeira se assemelha muito com a de outros religiosos, como aatuação dos dominicanos22 em São Paulo no combate ao regime militar instaurado após ogolpe de 1964, acolhiam pessoas que se colocavam em oposição ao regime e que eramperseguidas, desde a proteção em lugares seguros até o transporte clandestino para outrasregiões. Dentro de nossas possibilidades e de nossa condição de religiosos, ajudávamos pessoas sob o risco de prisão, de tortura e de morte. Fazíamos exatamente o mesmo que a Igreja fizera nos países europeus dominados pelo fascismo e faz hoje, por exemplo, na Polônia. (BETTO, 1991, p.49). Michael Lowy, em seu livro Marxismo e Teologia da Libertação também evidencia aparticipação de alguns padres e bispos em oposição ao regime militar, destacando a açãonumerosa de leigos e da ordem dominicana que entre 1967 e 1968 passaram a apoiar aresistência armada dirigida por Carlos Marighela, a Ação de Libertação Nacional (ALN), esteque pela ditadura era chamado de líder terrorista. Os dominicanos forneciam esconderijo eajudavam muitos dos membros dessa guerrilha a saírem do país, devido a isso, muitos foramexilados, mortos e torturados pelo regime. Outro elemento importante de análise desse período é perceber o quanto a Igrejaestava dividida na questão política, no qual Luiz Gonzaga Lima destaca a presença de dois22 Congregação Religiosa Masculina fundada por São Domingos de Gusmão em 1216, com o objetivo específicode se dedicarem à pregação do Evangelho no mundo inteiro. Por causa deste "carisma" da pregação foramchamados de "Ordem dos Pregadores"
  34. 34. 34setores: os hierarcas e progressistas. Sendo que os primeiros em sua maioria havia apoiado ogolpe de Estado e “como natural conseqüência se integraram a uma nova aliança que nasciaentre os setores dominantes da sociedade brasileira”, segundo este autor, isso aconteceu pelofato da Igreja tradicionalmente ter em suas principais bases sociais as classes dominantes. Eno momento em que essas classes dominantes se dividiam politicamente com odesenvolvimento do processo político brasileiro, a Igreja sofreu as conseqüências desseprocesso entrou dividida na fase final da democracia no Brasil. A ação do grupo progressista orientava a Igreja a apoiar as forças sociais que lutavampela realização de transformações sociais e incentivava a participação ativa dessas forças,sendo que as inovações da Doutrina Social caracterizaram a ação desses setores. As modificações da estrutura social defendidas pelo grupo progressista eram legitimadas pela Doutrina Social da Igreja, não contestavam nenhum principio eclesiástico. Por outro lado, a realização das modificações propostas não estabelecia nenhum antagonismo com as classes dominantes, e além do mais permitia o estabelecimento de relações de colaboração com as classes governantes. As modificações estruturais proposta pelo grupo progressista do episcopado deveriam ocorrer dentro dos limites do populismo e de seu projeto de desenvolvimento. (LIMA, 1979, p. 34). No momento em que padre Luiz relata essa sua ação junto a jovens “comunistas”, omesmo faz a afirmação de que esse seu apoio acontecia às escondidas do pároco deCachoeira, que não gostava desses “comunistas”, evidenciando assim as contradições queexistiam entre o clero brasileiro. Nas zonas diocesanas dirigidas por bispos consideradosconservadores proibiam e desamparavam os movimentos ligados as ações progressistas, tantode iniciativa leiga (em muito dos casos) ou por parte dos clérigos. Como também, emdioceses mais progressistas, as mobilizações conservadoras eram desestimuladas e proibidas.Porém, as suas correntes partilhavam a repugnância comum, serem contrários ao “comunismoateu” como afirma Lowy. Conforme a análise de Lowy, a Igreja brasileira vivenciou uma reviravolta nomomento da ditadura militar. No início desse regime em junho de 1964, a CNBB publicouuma declaração dando seu apoio ao golpe, mesmo assim uma minoria de padres, religiosos eleigos se opôs contra a ditadura militar, e entre os períodos de 1967 e 1968 alguns seradicalizaram, como já foi mencionado, porém na medida em que se acentua a repressãomilitar aos membros da Igreja, a CNBB na década de 70 tem sua direção substituída por umnovo bispo, Dom Ivo Lorscheider, “desde então, a Igreja torna-se um baluarte de oposição aoregime e um refúgio para toda a sorte de protestos populares contra ele”.
  35. 35. 35 Pe. Luiz realizando o seu trabalho na região de Cachoeira e São Felix, no período doregime militar, como mencionado, foi transferido para Roma, onde iria fazer mestrado emTeologia durante quatro anos. Logo que concluiu o curso retornou para Salvador onde passoua morar no seminário da arquidiocese sendo vice-reitor permanecendo por muitos anos.Simultaneamente lecionava Teologia na Universidade Católica do Salvador (UCSAL),atualmente faz vinte sete anos que ensina nessa instituição. Em seguida, passou cinco anos naparóquia de São Pedro, reformou a igreja e realizou um enorme trabalho no período queesteve por lá. Devido à necessidade de sacerdotes na Diocese de Feira de Santana, o CardealD. Lucas Moreira Neves, arcebispo de Salvador concedeu uma licença de dois anos para omesmo fazer uma experiência nessa diocese a pedido do bispo D. Silvério Albuquerque. Vistoque sua origem era nessa região. Ao chegar foi convocado a ser pároco da Paróquia NossaSenhora da Conceição do Coité, que estava vaga e necessitava de um sacerdote. Aconteceu uma certa, não diria ambigüidade, mas uma realidade bastante conflitante na minha vida, eu nasci na roça, minha primeira infância foi na roça, depois eu fui pra Feira de Santana, Salvador, sempre numa direção contrárias as minhas origens, de Salvador para São Felix, uma cidade pequenina, volta o sabor da zona rural, quando estou lá saboreano isso me mandam pra Roma, meu Deus do céu, um mundo, uma revolução na minha cabeça, eu fiquei quatro anos em Roma, Europa, quando voltei não sabia mais nada de interior, mas ficou aquela vontade de ir para o interior, me mandam pra Salvador, São Pedro, centro da cidade, uma paróquia de elite, eu naquela ação me envolvi com a intelectualidade, desenvolvi meu trabalho, daí crise da volta as origens, quando em Feira me jogam em Coité, eu não conhecia, só conhecia até Serrinha, eu disse agora to no paraíso, retorno as origens, redescubro, bem diferente da minha origem , sou lá do recôncavo, bem diferente de Coité. Vim pra cá com entusiasmo tremendo, uma alegria enorme, foi muito emocionante, eu lembro de um cântico que o grupo mirin cantou na missa de posse, ‘eu vim de longe, mas vou ficar’, eu vou ficar, eu mesmo sabendo que não seria dez anos, havia esse propósito, mas eu vou ficar, eu vou ficar, aí essa nostalgia do interior, da roça, da pobreza e tudo, e a cabeça cheia de intelectualidade porque tinha estudado nas melhores universidades (...) eu tinha uma cabeça muito diferente daquilo que era minha realidade. (OLIVEIRA. Entrevista concedida em 19 de set. 2009). Logo que D. Silvério havia o comunicado que estaria indo para Coité, sentiu anecessidade de saber algumas informações a respeito da paróquia antes de iniciar seutrabalho, pelo fato do mesmo desconhecer o município. Aproveitando a presença do ex-pároco de Conceição do Coité, Pe. José Reis, que havia assumido a Paróquia de São Cosme eSão Damião em Salvador, no bairro da Liberdade, foi ao seu encontro buscar algumasorientações para desempenhar da melhor maneira o seu serviço pastoral. O padre José Reis oorientou para que ele procurasse o casal Agnaldo e Maurita, os mesmos passariam todas asinformações sobre a paróquia, pois o padre Geraldino que estava por lá esperando a nomeaçãode um novo pároco não conhecia de fato a comunidade local. O ex-pároco pediu que eleprocurasse também o Deputado Emério Resedá, “uma esperança para Conceição do Coité”,este forneceria todas as informações sobre as instituições políticas da cidade. Diante dessas

×