O prefeito do coraçâo samara suélen l. da silva

  • 941 views
Uploaded on

 

  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Be the first to comment
No Downloads

Views

Total Views
941
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0

Actions

Shares
Downloads
12
Comments
0
Likes
1

Embeds 0

No embeds

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
    No notes for slide

Transcript

  • 1. 1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV COLEGIADO DE HISTÓRIA O prefeito do coração A ascensão de Diovando Carneiro no contexto político tradicional em Conceição do Coité entre 1992 e 1996. SAMARA SUÉLEN LIMA DA SILVA Conceição do Coité 2009Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 2. 2 SAMARA SUÉLEN LIMA DA SILVA O prefeito do coração A ascensão de Diovando Carneiro no contexto político tradicional em Conceição do Coité entre 1992 e 1996. Monografia apresentada a Universidade do Estado da Bahia – Campus XIV como requisito parcial para obtenção do título de Graduação em Licenciatura em História sob a orientação do professor Ms. Eduardo José Santos Borges. Conceição do Coité 2009Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 3. 3 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus por ter me dado força espiritual para superar todos os obstáculos desta caminhada com equilíbrio e disposição. A minha família, sustentáculo da minha existência, pelo apoio que me foi ofertado, aos meus pais pela dedicação e paciência que tiveram durante a minha formação e ao meu esposo por ter estado ao meu lado em todos os momentos. Aos professores pelo auxílio no meu crescimento acadêmico, em especial a Eduardo Borges, pelo incentivo e pelos subsídios durante a produção e conclusão deste trabalho, como também a Rogério Silva e Aldo José que contribuíram no processo de elaboração do projeto. Aos colegas que compartilharam dores e glórias em especial a Cristian, Gislaine, Edcarla, Reafaela, Taila e Márcio, com os quais construí laços de amizade que se eternizarão em minha memória para sempre. Por fim agradeço a Mário Silva, por ter disponibilizado os jornais, uma das principais fontes utilizadas neste trabalho, a Carlos Neves quem me cedeu um cordel, documento fundamental para o estabelecimento dos meus objetivos, a Evania pela abertura em ceder materiais pessoais, e a todos que compartilharam as suas memórias em especial Joilson Araújo, Misael Ferreira, Aloísia Pinto e Celidônio Pinto, depoimentos imprescindíveis para a efetivação da pesquisa.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 4. 4 Se para o senso comum as campanhas são pálidas rememorações do já conhecido, a passagem dessa orquestra de sons, cores e ritmos anuncia coisas para se pensar. A construção de lugares, símbolos e personagens traduz na realidade, uma chuva de signos e reconhecimentos. Irlys BarreiraCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 5. 5 RESUMO Este trabalho tem como objetivo principal analisar os elementos norteadores do voto nas disputas eleitorais de 1992 e as transformações ocorridas no município de Conceição do Coité com a ascensão de Diovando Carneiro Cunha ao poder representando a oposição local. O município que havia sido dominado durante vinte anos pela Família Rios detentora do poder fazendo sucessores dentro do mesmo círculo familiar experimentou pela primeira vez uma opção pelo voto diferente, numa candidatura popular e uma campanha reveladora de sentimentos e emoções na qual o capital pessoal se sobrepôs ao financeiro. Nesse sentido pretende-se estudar o caminho desenhado pelas ações de Diovando para se consolidar como o “prefeito do coração” e o processo que conduziu o fim de seu governo e o retorno das antigas estruturas. Discute-se o processo de construção do poder da família Rios e a consolidação do “mito vermelho” dentro da cultura política local, a entrada de Diovando Carneiro na vida política, o imaginário popular construído em torno de sua figura, o processo eleitoral que garantiu a vitória de Vando e Misael, as críticas que refletiam os problemas da administração “diferente” e o restabelecimento das forças tradicionais. PALAVRAS-CHAVE: Conceição do Coité – eleições – sentimentos – tradiçãoCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 6. 6 ABSTRACT This paper aims at analyzing the factors guiding the vote in the electoral contests of 1992 and the changes in the municipality of Conceição do Coité with the rise of Diovando Carneiro Cunha power representing local opposition. The city which had been dominated for twenty years by the Rios family with the right doing the same successors within the family first experienced an option to vote differently on an application and a popular campaign reveals feelings and emotions in which the personal capital overlapped to finance. To this end we intend to study the path drawn by the actions of Diovando to consolidate itself as the "mayor of the heart" and the process that led to his government and the return of the old structures. We discuss the process of building the power of the Rios family and consolidation of myth red "in the local political culture, the entry of Diovando Carneiro in politics, popular imagination built around the figure, the electoral process that ensured the victory Vando and Misael, the criticism reflected the problems of administration "different" and the restoration of traditional forces. KEYWORDS: Conceição do Coité - elections - feelings - traditionCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 7. 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO.......................................................................................................................8 CAPÍTULO I – O “MITO” VERMELHO..........................................................................12 1.1 Política de Cores................................................................................................................15 1.2 Concretização do “Mito”...................................................................................................18 CAPÍTULO II – “ESCRAVO DO POVO”, HERÓI DA CARIDADE ............................23 2.1 Vando de Deus, dos pobres, de todos ...............................................................................24 2.2 Uma campanha do coração ............................................................................................. 30 CAPÍTULO III – “SEM PRECONCEITO DE CORES” ................................................. 37 3.1 Porta voz das “doenças do coração” .................................................................................39 3.2 “Amizade e política não se misturam” ..............................................................................46 3.3 As marcas da emoção ........................................................................................................52 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 55 BIBLIOGRAFIA ...................................................................................................................56 FONTES...................................................................................................................................59Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 8. 8 INTRODUÇÃO Em uma manhã de outubro, Conceição do Coité amanhece parada, perplexa e chocada. Comoção, sentimentos e silêncio acompanham uma multidão de quase dez mil pessoas reunidas para prestar seu último adeus ao “prefeito dos pobres”. Os fiéis seguidores se questionam o porquê do triste fim, durante a missa que vela o corpo de Diovando Carneiro Cunha de onde se ouvem murmurinhos de quem nunca viu “um homem igual a esse”. Uma cidade que há poucos dias encontrava-se num clima de comemoração e festa característico das disputas eleitorais, estava agora parada e em lamentos. Ninguém sabe o que acontecera com o homem que foi “escravo do povo” em boa parte da sua vida e que agora se colocava diante da morte. As mesmas ondas de sentimento que acompanharam o candidato “Vando” e motivaram as suas relações pessoais com amigos e adversários, os mesmos princípios de solidariedade e de serviço ao povo que nortearam a sua atuação como prefeito, acompanharam a sua partida do meio público para ser eternizado no imaginário popular como o prefeito do coração. Uma imagem que foi construída durante a sua carreira política e que permanecera viva, mesmo diante dos problemas oriundos de embates de interesses, sentimentos e relações de poder, inseridos num contexto tradicional. A vida política de Conceição do Coité se desenvolveu sob a égide do tradicionalismo, onde a ligação familiar, o poder de posse, seja de terra ou bens que assegurem riqueza econômica, a sujeição pessoal e a fidelidade eleitoral calcada sob forte cultura política, interferem decisoriamente no processo de escolha e na atuação das elites locais. O município em toda sua história, foi dominado por famílias que se revezavam no poder, cada uma utilizando seus meios de persuasão em momentos diferenciados, fazendo sucessores, numa fase onde o baixo prestígio dos partidos políticos associado às práticas de clientelismo favorecia o círculo vicioso do sistema administrativo. As oligarquias características da Primeira República continuaram sua atuação mesmo após a Revolução de 30 e da extensão do direito de voto pelo Presidente Getúlio Vargas em 1934. Nesse mesmo ano, João Paulo Fragoso é eleito primeiro prefeito coiteense através de voto popular. Longe de se pensar em início de democracia, o Estado Novo retira o direito de escolha do povo e os prefeitos passam a ser indicados, sendo que as facções lideradas pelos chefes políticos influentes, Eustógio Pinto Resedá e Wercelêncio Calixto da Mota, conhecido “Seu Mota”, mantiveram o domínio se revezando no poder.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 9. 9 A pessoalidade nas relações e o domínio da família na política do Brasil são marcantes desde o período Colonial. Mesmo o Estado não tendo ligação com o espaço doméstico, num país, onde sempre prevaleceu o modelo de família patriarcal, para os detentores de cargos públicos com formação nesse ambiente, não era fácil distinguir o público do privado. A partir de 1946, quando as eleições voltam a ser diretas, os prefeitos são eleitos sucessivamente dentro do mesmo círculo familiar. Geralmente os empregos e benefícios dirigidos aos funcionários eram movidos por interesses pessoais e não objetivos, a escolha daqueles que irão exercer cargos públicos faz-se conforme a confiança pessoal e o merecimento da pessoa. Entre as décadas 1960 e 1990, o Brasil passou por um processo de grandes mudanças políticas alterando o cenário estadual e municipal com a emergência de um regime autoritário. A ascensão da Família Rios em 1972, apesar de inserida em um novo contexto político, marcado fortemente pela repressão da Ditadura e pela tentativa de centralização do poder, em C. do Coité, as relações de pessoalidade e de dependência se acentuaram. Durante os anos de 1973 a 1992, fase de hegemonia do grupo de direita conhecido na cultura política local como “vermelhos”, as práticas eleitoreiras características da Primeira República foram mantidas como estratégia para se assegurar no poder. O grupo perde o posto, apenas no pleito de 1992 retomando e se elegendo novamente até a última eleição municipal que acontecera em 2008. Somados são mais de 30 anos na liderança, com exceção da fase compreendida entre os anos de 1992 e 1996, no qual o líder Hamilton Rios de Araújo perde o comando após ser derrotado nas urnas por Diovando Carneiro Cunha. Dentro da História de Conceição do Coité, o período em que os hegemônicos perderam o posto de imbatível sempre chamou minha atenção por se tratar de uma fase reveladora de especificidades e pelo efeito público provocado no município com a ruptura do poder tradicional e o trágico fim carregado de muita simbologia e mistério. A candidatura de Diovando Carneiro possui um perfil rico em significados simbólicos que o aproximaram do espaço dos excluídos. A sua origem social, o baixo nível escolar, a ligação com valores religiosos e o envolvimento com a população mais carente, são regras de assimilação popular reveladoras de uma candidatura autentica caracterizada pela “supremacia de uma identificação que está além da dimensão partidária que pode englobar diferentes concepções ideológicas unificadas por um suposto interesse comum”. (BARREIRA, 1998, p. 177). Em épocas de campanhas eleitorais no município, o governo Vando sempre foi destacado por candidatos e eleitores do partido situacionista, como uma das razões para a perpetuação do mesmo grupo no poder, visto que esta fase é sempre encarada como “a era das trevas”, onde não houve nenhum progresso e desenvolvimento local. Um fato curioso, é queCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 10. 10 o discurso atinge o governo, mas isenta o governante, sempre encarado como um “homem bom” e mera vítima de sua ingenuidade. O “prefeito do coração” que permaneceu na memória dos coiteenses foi um dos fatores que motivaram algumas questões, principalmente acerca das razões emocionais que moveram a opção popular pela mudança nas eleições de 1992. Pretende-se aqui fazer um trabalho no qual não se privilegia o particular e o episódio em detrimento do conjunto de personagens que se encontram no meio social, mas uma história na qual se escutam as variadas vozes dos atores sociais envolvidos no processo. Com as transformações metodológicas que a história política passou, ampliou-se as possibilidades a partir do contato que esta, estabeleceu com outras disciplinas, proporcionando uma amplitude de possibilidades de análises. Através do conceito de Cultura política introduziram-se estudos no campo das representações, imaginário público e processos eleitorais, em trabalhos nos quais os atores sociais são representados em suas tradições e comportamentos. Assim de acordo com Berstein citado por Ferreira (1992, p. 3), a Cultura política “introduz a diversidade, o social, ritos, símbolos, lá onde se acredita que reina o partido, a instituição, o imutável. Ela permite sondar os rins e os corações dos atores políticos”, e apesar de sua importância, no Brasil ainda são poucos os estudos dessa natureza. A utilização de apelos simbólicos em campanhas eleitorais recentes é um fator nem sempre considerado em pesquisas políticas. Os rituais atuam como suporte de legitimação, pois mobilizam emoções e ações dentro do campo social. O período eleitoral assim por dizer constitui um espaço favorável para fazer emergir sentimentos, reações e conflitos no qual se constroem personagens-candidatos, valores relativos à representação e símbolos “que os olhos parecem não ver em tempos normais” (BARREIRA, 1998, p. 12). Neste sentido procurou-se nesta pesquisa visualizar alguns elementos mobilizadores da opção popular na escolha de um nome que representaria o povo e a força que esse ideal de identificação tem no direcionamento do voto que se dá por credibilidade. Para a realização da pesquisa utilizou-se como fontes principais, um cordel de autoria anônima escrito em homenagem a Diovando Carneiro, que reflete bem a visão popular acerca de sua atuação como homem público e o Jornal Tribuna Coiteense, veículo de comunicação que circulava na cidade e direcionava várias críticas a administração ascendente. Além disso, também foram analisadas algumas entrevistas, o vídeo da festa da vitória e da diplomação no fórum, um documentário preparado pelos familiares em homenagem aos dez anos de sua morte e as cartas deixadas por Diovando ao cometer suicídio. O texto está organizado em três capítulos, o primeiro intitulado de O “mito” vermelho, analisa o processo de construção de uma estrutura de poder mantido nas mãos daCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 11. 11 família Rios, cujo líder fizera uma série de sucessores no município de C. do Coité num período que se inicia durante a Ditadura Militar e se perpetuou após a redemocratização, bem como verifica a emergência das cores na política local como uma construção simbólica, ocultando os partidos e bipolarizando grupos em torno de personalidades políticas. No segundo capítulo, “Escravo do povo, herói da caridade” estudaremos a biografia de Diovando Carneiro Cunha, a sua entrada na vida política e a figura que foi construída no imaginário popular. Pretende-se discutir os apelos emocionais como estratégia utilizada no processo eleitoral e a identificação popular mobilizadora do voto no pleito de 1992. O terceiro e último capítulo “Sem preconceito de cores”, analisa a postura adotada por Vando ao assumir o cargo de prefeito, seus métodos de ação e as principais críticas dirigidas à sua administração pela imprensa local. Pretende-se também identificar as estratégias utilizadas pela oposição para recuperar o poder, e o ambiente conflituoso no qual ocorreu o fim do “governo do coração”. Deste modo partindo de tais inquietações, pretendo entender o caráter emocional que regeram a ascensão de um representante oposicionista na vida política de Conceição do Coité e as possíveis modificações ocorridas na estrutura tradicional solidificada ao longo da história política local.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 12. 12 CAPÍTULO 1 O “MITO” VERMELHO Já não distingo os que se foram dos que restaram. Percebo apenas a estranha idéia de família viajando através da carne. Carlos Drummond de Andrade (1973, p.7) O período compreendido entre 1972 e 1992, trata-se de uma fase peculiar na História de Conceição do Coité, tendo como característica, não a manipulação do poder público por duas ou mais famílias, mas a manutenção da máquina administrativa municipal por membros de uma única ascendência: a família Rios. Esta que assume o controle num contexto de Ditadura Militar e consegue exercer seu domínio mesmo após a redemocratização. Nesse período, não diferente dos anteriores, os grupos políticos no município, se organizam em torno de personalidades guiados a partir de critérios informais de afinidade política, onde a amizade e os laços familiares permeiam a estrutura de poder formal e são os principais mobilizadores da política local. Dentro da formulação teórica de Max Weber (1991, p.33), dominação é “a probabilidade de encontrar obediência para ordens específicas (ou todas) dentro de determinado grupo de pessoas”, submissão que pode ocorrer de modo inconsciente, guiados pela afetividade ou por interesses materiais e racionais. Os tipos de dominação tidos como racionais são baseados na crença de legitimidade de uma ordem que está instituída e do direito legal de mando que tem aqueles que foram nomeados, deste modo, se obedece ao dominador pelo poder legal que ele exerce. De maneira oposta, um líder carismático, tem seu domínio legitimado em virtude da confiança pessoal e da exemplaridade que lhe é atribuída. Os fundamentos para os tipos de dominação tradicional são construídos a partir da crença na santidade das tradições e daqueles que exercem o poder, “em virtude da dignidade pessoal que lhe atribui a tradição”(WEBER, 1991, p.148). O domínio patrimonial, com um quadro administrativo do dominante composto geralmente de pessoas ligadas ao líder porCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 13. 13 vínculos de piedade, familiares ou de clientela, necessita de elementos constitutivos para assegurar o seu poder e o processo de reprodução do mando tradicional. Deste modo, a ocupação de cargos importantes por membros da família ou amigos próximos, a indicação de pessoas sem qualificação profissional para compor o seu quadro de funcionários, criando uma relação de dependência, e a nomeação de funcionários por controle direto do “senhor” e não por “competência”, são princípios administrativos essenciais para garantir a fidelidade dos dominados. Nas concepções de Weber, o patrimonialismo só pode vigorar em sociedades pré- capitalistas, pois as relações econômicas não são guiadas pela racionalidade. Deste modo, os trabalhos relacionados à permanência do exercício pessoal do poder como o de Vitor Nunes Leal e Maria Isaura Queiroz, defendem a tese de que, tais relações de mando só se configuram em ordens econômicas de base agrária. Sendo assim, coronel e coronelismo teriam o momento certo para se extinguir, a partir do processo de industrialização, alfabetização e expansão urbana, pois tais fatores retirariam o sustentáculo dos poderes tradicionais. Segundo tais estudos, a base do sistema coronelista era o compromisso clientelista entre poder público e privado, numa relação de lealdade e troca de favores entre os chefes estaduais e os líderes locais. Um dos centros da observação de Leal é a figura do coronel, parte do sistema coronelista, elemento indispensável na manutenção do poder dos chefes estaduais, pois, mediante a posse de terra exercia enorme força eleitoral comandando um grande lote de “votos de cabresto”, resultado da organização econômica rural, na qual o roceiro, em momentos de necessidade recorria aos grandes proprietários, estabelecendo uma relação de reciprocidade, onde a troca de favores seria garantia de voto no candidato indicado por ele. O apoio ao governo estadual assegurava autonomia para continuar influindo na política municipal, controlando a nomeação de autoridades locais e garantindo a realização de obras públicas. No entanto, na medida em que o cidadão se emancipasse e os governos estaduais estabelecessem relação direta com o eleitorado o coronelismo iria decrescer. Apesar do crescimento urbano e industrial que ocorreu no Brasil após a década de 1950, alguns índices de desigualdade, pobreza e diferença no nível de educação permaneceram quase imutáveis principalmente se compararmos a situação do Nordeste com as demais regiões do país. A população ainda sofre com analfabetismo num espaço favorável para a manutenção da dependência de boa parte do eleitorado, no qual se verifica que o fenômeno do coronelismo foi modificado, mas não extinguindo. Deve-se levar em conta o surgimento de outras forças políticas,Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 14. 14 [...] mas a do “coronel” continua, apoiada aos mesmos fatores que a criaram ou produziram. Que importa que o coronel tenha passado a doutor? Ou que a fazenda tenha se transformado em fábrica? Ou que os seus auxiliares tenham passados a assessores ou técnicos? A realidade subjacente não se altera nas áreas a que ficou confinada. O fenômeno do “coronelismo” persiste até mesmo como reflexo de uma situação de distribuição de renda, em que a condição econômica dos proletários mal chega a distinguir-se da miséria. O desamparo em que vive o cidadão, privado de todos os direitos e de todas as garantias, concorre para a continuação do coronel, arvorado em protetor ou defensor natural de um homem sem direitos. (LEAL, 1997, p.18). A partir de 1964, grandes mudanças políticas alteraram o cenário nacional, com a emergência de um regime autoritário. Durante vinte e um anos, os militares introduziram uma série de reformas constitucionais, de modo que a legislação fosse adaptada aos seus interesses. Transformou as futuras eleições em indiretas onde o presidente passou a ser escolhido pelo congresso, os governadores pelas assembléias legislativas e os prefeitos das capitais passaram, em 1966, a ser indicados pelos governadores. Além de editar o código eleitoral, modificaram também a lei orgânica dos partidos políticos, impondo o bipartidarismo, onde todos os antigos partidos surgidos com o fim da ditadura Vargas foram extintos para dar lugar a apenas dois, um que representaria a oposição, o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) e a ARENA (Aliança Nacional Libertadora), partido governista. Algumas reformas no Estado aconteceram na tentativa de reprimir o poder privado e acabar com as suas formas de manipulação na esfera pública. A emergência de novos grupos sociais, e de novas lideranças em torno do comércio e da indústria, minimizou as áreas de atuação do velho coronel ligado exclusivamente à posse de terra. No entanto, mesmo no referido período de autoritarismo, as oligarquias locais tinham o importante papel de legitimação do poder central, Segundo Maria Auxiliadora Lemenhe (1995, p.29), essa necessidade, pode explicar em partes a sobrevivência das formas personalísticas de exercício de poder sendo que “as vitórias eleitorais sucessivas e ampliadas ao longo da ditadura dos candidatos da ARENA são uma das provas mais evidentes disso”. Lemenhe chama atenção para a problemática da reiteração do clientelismo na política do estado do Ceará, como algo que está muito além de mera legitimação do poder central, ou de interesses estritamente agrários devido ao atraso no desenvolvimento industrial do estado. No caso estudado por ela, a dominação da política Cearense pelos “coronéis” da família Bezerra de Menezes, os líderes personalistas representam um conjunto de interesses, principalmente dos setores que se modernizaram e da burguesia industrial, e encontramCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 15. 15 espaço e meios diversificados para exercer uma política de favores e atuar livremente de forma tradicional. Jean Blondel citado por Queiroz (1975, p.175), estudou o fenômeno do coronelismo no estado da Paraíba em sua forma ainda vigente entre 1950 e 1960, e verificou que a dominação familiar persistia, mas havia ocorrido uma evolução onde emergiram “novos coronéis” agora dependentes de sua profissão e não mais da posse de terras. No caso aqui estudado, a liderança em ascensão após 1972, Hamilton Rios de Araújo, encontra sua força maior para permanecer no poder nos fundamentos de ordem tradicionalista, dentro da formulação weberiana, no entanto, desenvolveu o segmento empresarial no município 1, demonstrando habilidades de administração que objetiva a acumulação de capital. Neste sentido, a dominação tradicional coexiste com práticas racionais voltadas para o desenvolvimento econômico. Em muitas oportunidades, o poder econômico é essencial para garantir a dependência do eleitorado, e as relações clientelistas encontram um terreno fértil em que vicejar (CARVALHO, 2001, p. 4). E foi neste mesmo terreno que a família Rios construiu seus alicerces, e os pilares da dominação. 1.1 Política de cores A eleição de 1972, fez emergir no cenário de Coité, dois nomes que posteriormente se tornariam os maiores rivais políticos, ambos com atividade econômica ligada à produção agrícola e exportação do sisal e candidatos da então facção governista ARENA que localmente era representada pelas sublegendas ARENA 1 e ARENA 2. Um deles, Misael Ferreira de Oliveira, chega ao município na década de 1960, e logo inicia sua carreira política como vereador em 1962 e 1966, exercendo na câmara a função de liderança. O empresário Hamilton Rios de Araújo, pertencia ao mesmo grupo apoiado por Misael, sendo que ambos eram antigos correligionários de Wercelêncio Calixto da Mota2, e a rivalidade só começou, quando se enfrentaram pela primeira vez nas eleições municipais de 1972. Vanilson Lopes (2002. p.79), memorialista local, relata as primeiras práticas de Hamilton Rios para conquistar espaço político: 1 Hamilton Rios é um grande empresário da Indústria Sisaleira. 2 Político que encabeçou a política de Conceição do Coité por cerca de 40 anos.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 16. 16 Assim que Dr. Pinheiro tomou posse, o Sr. Hamilton Rios declarou que “daquele dia em diante, seria o próximo candidato a prefeito apoiado pelo grupo de Evódio”. Para conseguir seus objetivos, montou um carro pipa e, interessado em votos, aproveitando o flagelo da seca de 1970, saiu distribuindo água nas roças e povoados, pregando que o prefeito, juntamente com seus aliados, não dava assistência ao povo. Durante dois anos, fez isso e muito mais: doou cestas básicas, materiais de construção: (cimento, tijolos, blocos, telhas...), passagem de ônibus e outros benefícios, a ponto das pessoas denominá-lo de “ pai da pobreza”. A vitória de “Mitinho” na eleição, lhe transformaria num líder político habilidoso e influente “reunindo muitos defensores fiéis e alguns fanáticos”(SANTOS, 2000, p. 34). O “pai da pobreza” conseguiu adquirir o poder de fazer as coisas com palavras, num jogo onde muitas vezes o capital simbólico prevalecia sobre o econômico. Deste modo elegeria por vinte anos candidatos de sua facção, preferencialmente de seu círculo familiar sendo responsável pela consagração do que viria a ser o “Mito Vermelho”. Mito, como era carinhosamente apelidado por sua esposa, e vermelho, apesar de nenhuma sombra de ligação com a esquerda, em decorrência da cultura política advinda da bipolarização dos grupos locais representados pelas cores vermelha e azul. Símbolos que constituem uma marca na política local, um verdadeiro folclore eleitoral, cujas origens permeiam por variadas versões entre os memorialistas da cidade. Francisco de Assis expõe em seu trabalho de especialização em estudos literários uma versão, pouco difundida e aceita entre os coiteenses, de que a escolha das cores aconteceu a partir de um caminhoneiro que visitou Parintins na Amazônia e se encantou com a rivalidade folclórica entre os bois Caprichoso e Garantido, simbolizada tradicionalmente pelas cores vermelha e azul, tendo indicado aos chefes políticos locais que adotassem as mesmas cores para evitar a confusão de sublegendas partidárias. Outra possível explicação apontada por Assis é a associação que muitos faziam entre maçonaria (“coisa do demônio”) e comunismo, tradicionalmente associado à cor vermelha. Segundo ele, na década de 1960, certo político, reconhecidamente maçom, concorreu a política de Coité sem sucesso, “os adversários do político em questão, não perderam em sentenciar: “além de maçom ele é comunista, um ‘vermelho’ ”(SANTOS, 2000, p.41). Mesmo o comunismo sendo associado a coisa ruim, a cor acabou ficando marcada como símbolo de um grupo político conservador. Em um trabalho de memória, onde Roberto Lopes descreve alguns acontecimentos que marcaram a sua vida, ele relata além da versão das cores ligada ao comunismo, desta vez sendo associada à Evódio Resedá3 que também era maçom, uma versão simplificada por ter 3 Político considerado o pai da “vermelhada”, pois sempre fizera oposição ao grupo liderado por “Seu Mota”.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 17. 17 acompanhado de perto toda a movimentação do pleito de 1972. Segundo ele, numa reunião de mulheres do grupo de Hamilton Rios, foi aprovada a cor vermelha para representar a campanha, sendo confeccionadas várias bandeiras vermelhas com um desenho de uma estrela verde e branca estilizado de por D. Maurícia Pinto, mãe de Everton Rios4. O outro grupo que já costumava se associar à “cor azul, cor do céu” em oposição ao “vermelho, cor do diabo”, assumiu definitivamente a utilização da cor. A versão mais conhecida para a introdução e difusão das cores na política está relatada no livro de Vanilson Oliveira (1993, p. 129): A denominação de vermelhos e azuis começou a surgir no comício de Hamilton Rios organizado para o povoado de Juazeirinho. Naquele mesmo dia, Gervásio Lopes (Vazinho), estava ao lado de Miguel da farmácia juntamente com outros colegas no povoado de onça, a 03 Km de Juazeirinho, onde seria organizado um comício em prol de Misael Ferreira (candidato a prefeito pela ARENA 1). Sem que esperassem surge uma caravana toda trajada de vermelha, conduzindo algumas mamães sacodes da mesma cor. Surpreso, Gervásio chamou a atenção dos colegas para assistirem a passagem dos “Vermelhos”. O mais interessante é que naquele dia, sem perceberem estavam os mesmos trajados de azuis, assombrando os “vermelhos” com gritarias e algazarras, chamando-os de vermelhos!!! vermelhos!!! vermelhos!!! Imediatamente eles revidaram, chamando-os de azuis!!!azuis!!!azuis!!! As versões acerca da “coloração” dos grupos políticos são diversificadas quanto à origem e sentido, mas a partir de sua difusão viera a se tornar uma característica fundamental da cultura política local, conceito empregado aqui no sentido de “um conjunto de atitudes, crenças e sentimentos que dão origem e significado a um processo político, pondo em evidência as regras e pressupostos nos quais se baseia o comportamento de seus atores” (KUSCHNIR, et al, 1999 p.1). Deste modo, a simbologia construída em torno de um determinado candidato ou grupo apresenta-se como um fator de grande representação visto que os símbolos não são meros adornos dentro do campo político, o real e o simbólico fazem parte da mesma totalidade e o que se acredita também é parte da vida social. A política aparece então como espaço fecundo para a construção do poder simbólico que se efetiva através de discursos e ritos em diferenciadas campos. Neste sentido “o simbólico provoca a presença do poder na vida cotidiana das instituições, funcionando como forma de rememoração.” ( BARREIRA, 1998. p. 42 ). 4 Everton Rios é sobrinho de Hamilton Rios, e posteriormente elegeria -se prefeito por três mandatos.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 18. 18 Em época de campanha eleitoral, principalmente se os candidatos são desprovidos de um programa com políticas públicas, as imagens apresentadas, somadas a algumas práticas de clientela são determinantes no processo de escolha dos governantes. Os símbolos foram explorados estrategicamente nas eleições de 1972, tanto por Hamilton Rios, como por Misael através dos jingles que eram tocados nos carros de som pela cidade: “Tengo, tengo , Santo Antônio Chalé ! Esse ano os “azuis” dão no pé! (bis) É em Hamilton, que eu vou votar. Hamilton é o candidato Que a pobreza vai votar!” “Quem é o candidato, Que vem de Salgadália, Montado em um cavalo Com seu chapéu de palha? É Misael Ferreira, quem vamos votar (Bis). É Misael Ferreira que vai ganhar!”(OLIVEIRA, 2002, p.79-80) A representação da rivalidade política por meio das cores fica evidente na primeira música, onde se faz referência aos azuis afirmando que estes perderão o poder, visto que o grupo liderado por “Seu Mota”, controlou a política de Coité por cerca de 40 anos. Ambas as canções evidenciam a tentativa de aproximação dos candidatos com as camadas mais populares, através da utilização de termos como “chapéu de palha” e “pobreza”. Tais imagens durante o período bipartidário estão fortemente ligadas a avaliação que os eleitores fazem das características pessoais dos candidatos. É o personalismo na estruturação do voto do eleitor brasileiro resultante dentre outros fatores, da difusão de algumas ideologias antidemocráticas e da estrutura econômica, onde uma boa parte da população não tem mínimas condições de subsistência. 1.2 Concretização do “Mito” A vitória da “vermelhada”, no pleito de 1972, seria apenas o início de uma série de sucessões. Ligeiramente, “Mitinho” aprendeu as malícias do jogo político, “soube impor-se ao eleitorado, realizando favores pessoais e participando de festas, bingos, rezas e leilões ondeCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 19. 19 arrematava todas as ofertas”(LOPES, p.109). Em 1976 lança o sogro de Ewerton Rios, Walter Ramos Guimarães, como candidato a sua sucessão. Um comerciante que atuava como vereador e tinha muita influência política no povoado de Aroeira, e juntamente com Evódio Resedá, compôs a chapa contra os azuis Sinval Mota Mascarenhas, vereador e presidente da câmara e Clélio Ferreira, comerciante do ramo farmacêutico. A campanha dos vermelhos tinha o apoio político e financeiro do líder dos Rios que trabalhava na eleição “como se o candidato fosse ele próprio”, e gastando “rios de dinheiro” conseguiu eleger Walter Ramos. O mandato que duraria quatro anos foi prorrogado via Emenda Constitucional, pois as eleições de 1980 para prefeito e vereador haviam sido canceladas estrategicamente pelo presidente João Batista Figueiredo como um meio de manter a ARENA no poder. Em 1982, restituiu-se o pluripartidarismo com o objetivo de fragmentar a oposição ao regime Militar. A maior parte dos membros da ARENA agrupou-se no Partido Democrático Social (PDS), o MDB transformou – se em PMDB, período em que surge também o Partido Democrático Trabalhista (PDT) e o Partido dos trabalhadores (PT). Em 1982 as eleições para prefeito e vereador ocorreram concomitante a de outros cargos. Os brasileiros puderam eleger os candidatos a governador, o que não acontecia há cerca de 20 anos, contudo uma lei emitida em 1981 proibia as coligações e estabelecia o voto por legenda partidária, visando arrastar a votação dada aos governos municipais onde a ditadura era mais forte, para os cargos majoritários. Contrariando esse princípio, o prefeito que atuava no município Walter Ramos Guimarães do PDS, apoiou juntamente com Misael Ferreira, a candidatura de Roberto Santos (PMDB) para governador da Bahia, fazendo oposição à João Durval (PDS), candidato apoiado por ACM e “Mitinho”, “como uma forma de reação das lideranças municipais aos métodos autoritários e personalistas do governador”5. Na maioria das eleições estaduais e nacionais, os líderes locais dividiram o mesmo palanque, com exceção para os anos de 1982, 1986, 1994, em que Misael apoiou candidatos contra Antônio Carlos Magalhães. O novo embate entre azuis e vermelhos, foi um dos mais polêmicos da história do município. Nessa época Walter Ramos havia rompido com o grupo de Mitinho e apoiava a candidatura de Misael e Clélio Ferreira para sua sucessão nas eleições municipais contra Hamilton Rios e Evódio Resedá. Os métodos de conquista eleitoral não divergiam muito de um candidato a outro, ambos, montaram uma estrutura muito semelhante à dos coronéis da 5 Tribuna da Bahia, Salvador, Nº 4665, 11 de Outubro de 1982. A matéria do jornal refere-se à insatisfação dos líderes no que diz respeito ao processo de escolha de João Durval para substituir Clériston Andrade, candidato a governador que morreu vítima de uma queda de helicóptero.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 20. 20 Primeira República, essencialmente calcada por práticas de clientelismo e barganha eleitoral, visto que o poder político era medido através da quantidade de votos. [...] Era normal no período das eleições, saírem os chefes políticos e seus cabos eleitorais em tournées pelo interior, carregados de presentes para os eleitores - botinas ringideiras para os homens, corte de vistosa chita para as mulheres da família do eleitor, roupas e brinquedos para as crianças, sendo que, num envelope, juntamente com a cédula do voto, havia outras de mil-réis... Saboroso folclore eleitoral até agora pouco conhecido e pouco levado em consideração, mas que tem um significado patente, pois revela uma verdadeira “compra” de voto. (QUEIROZ, 1975, p 178) Tais métodos eram essenciais para garantir a fidelidade do eleitorado. A “bondade” do coronel construía um laço entre ele e seu eleitor, que lhe dava o voto por lealdade, respeito e veneração. Também é comum, os candidatos custearem os gastos para a população rural no dia da eleição, bem como fornecer o transporte para levar o eleitorado até a sua zona de votação numa relação de troca de favor que gera uma aparente consciência, pois o eleitor não percebe que sua vontade está sujeita a do superior. Apesar de utilizar os mesmos métodos de ação, os candidatos se distinguiam no campo das relações de poder visto que o grupo de Hamilton Rios havia fortalecido as suas bases de dominação validando-se da posse da prefeitura em dez anos de governo. Além disso, o prefeiturável da vermelhada, já carregava sobre si um grande aparato simbólico. Roberto Lopes narra um episódio em que um “curador” fazia um despacho no cemitério contra os azuis causando a maior confusão com os eleitores de Misael. Com a aparição de Mitinho no local “foi como se chagasse um Rei!”. A situação foi controlada antes da chegada da polícia, pois ele era temido por todos e sabia se impor diante dos adversários. Deste modo, Hamilton Rios, baseado em métodos antigos e “eficazes” de persuasão do eleitor, ao final da campanha, venceu o pleito com duzentos e trinta votos de frente. O resultado das eleições sempre fora contestado pela oposição, pois além da tradicional “troca” do voto por algumas benesses, o próprio mecanismo eleitoral era falho com o voto por cédula, havendo possibilidade das autoridades responsáveis pelo processo também se corromperem. Em 1982, após sentir um mal estar, a juíza suspendeu as apurações quando Misael ganhava com poucos votos de vantagem. [...] Eu me julgo vencedor daquela eleição... Pois ali o veredicto na realidade, era a vontade do povo. O povo queria Misael na prefeitura [...]. Eu perdi uma eleição fraudada! Dormi prefeito e acordei derrotado. (Misael Ferreira, 26 jun. 2009).Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 21. 21 Os “azuis” contestaram os resultados, mas, segundo Misael, não recorreram por vias legais pois não tinha poder suficiente a ponto de “entrar numa ação segura para anular as eleições”. Deste modo, durante os próximos seis anos, Conceição do Coité foi governada por Hamilton Rios, que conseguiu sobreviver ao processo de transição para a democracia e consolidou seu poder em seu último mandato. O jornal Tribuna Coiteense apresenta em uma de suas edições de 1989, um balanço dessa fase, através de uma pesquisa feita com alguns coiteenses onde analisaram a atuação político-administrativa de Hamilton Rios durante dez anos como prefeito em dois mandatos, na qual concluíram que “o líder paternalista/ clientelista e assistencialista Hamilton Rios é um bom samaritano, amigo, prestativo e popular, mas como representante dos interesses do povo, nunca soube o que é ser prioridade e justiça social”. 6 A transição para a democracia no Brasil ocorreu de forma lenta e no cenário baiano, o processo chegou a abalar as forças políticas ligadas à ditadura. ACM, que ascendeu e consolidou-se sobre as bases do regime ditatorial, foi derrotado por Waldir Pires nas eleições de 1986 para governador da Bahia, mas ligeiramente, soube adequar os seus interesses à Nova república, em cujo governo de Tancredo Neves e posteriormente de Sarney, conviviam personalidades que serviram à ditadura e aqueles que lutaram fielmente contra ela. Apesar de apresentar tais contradições, o novo governo estava comprometido com o retorno da normalidade institucional, deste modo o pleito de 1988 ocorrera num contexto bem diferenciado do de 1982, com poucos dias após a promulgação da nova constituição brasileira. Pela primeira vez as legendas criadas imediatamente após a reforma partidária de 1979 (PMDB, PDS, PTB, PDT e PT) disputaram uma eleição exclusivamente municipal. Em Conceição do Coité, ocorrera a primeira disputa eleitoral com três candidatos a prefeito. A novidade foi a candidatura de Arivaldo Mota e Meyre Sandra do Partido dos Trabalhadores (PT), que visava construir uma identidade política em meio a um período histórico marcado pelas disputas tradicionais. Na época, Misael atuava como Deputado estadual e os azuis indicariam o nome de Doutor Iêdo (PMDB), um médico que havia conquistado espaço político em decorrência da popularidade, mas após a sua morte quem assume a candidatura é a viúva Tânia Cirino, juntamente com Gilberto Gonçalves. Mitinho lança então o seu sobrinho Ewerton Rios de Araújo Filho, jovem recém-formado em 6 O Jornal expõe a nota que foi atribuída pelos entrevistados à saúde (7); educação (4); habitação (1); limpeza urbana (3); segurança (1); transporte (1); industrialização (1); lazer (4); salários (2); agricultura (2); saneamento (6) e urbanização (10). Tribuna Coiteense, 2ª quinzena de Janeiro de 1989, nº 40.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 22. 22 Economia que compusera uma chapa com Diovando Carneiro, e esses juntos conseguiram mais uma vitória para os “vermelhos” com três mil setecentos e sessenta votos de frente, e por meio dela conduziram os destinos de Conceição do Coité até 1992. Desde o início de sua trajetória, Hamilton Rios conseguiu projetar sua imagem entre muitos de seus seguidores e até adversários e construir em torno de si uma capa de imbatível. Obteve em suas mãos o sinal e o conteúdo da Radio Sisal que atingia os ouvidos de um vasto número de coiteenses. Mantivera uma política paternalista e assistencialista, onde os benefícios públicos que eram aplicados por direito da população, acabavam sendo visto por grande parte de seus eleitores como atos de bondade, dignos de retribuição. Além disso, obtinha forte ligação com o governo carlista, atuando desta forma como distribuidor de cargos estaduais no município, dava empregos aos seus, controlando funcionários públicos e todo o sistema educacional, visto que em Coité não realizou nenhum concurso público para professores até 1992. Concretizou o seu poder e fez sucessores políticos mantendo a sua linhagem no comando por vinte anos. Todas as articulações foram mecanismos de controle fundamentais na montagem de uma mega estrutura para sustentar o “Mito” e garantir que nenhum vento pudesse o abater.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 23. 23 CAPÍTULO 2 Escravo do povo, herói da caridade “Por isso é que da pobreza Para nós surgiu algo novo Da gema da nossa gente Vem surgindo um renovo Luz que veio clarear Os dias do nosso povo [...] [...] Com o seu grande prestígio Com caridade e fé, Servindo para o povo Pois caridoso ele é, Ele sim é o homem certo Prá Conceição do Coité”7 Os valores cordiais e a exaltação das formas sensíveis da religião constituem aspectos do comportamento social brasileiro que foram por muito tempo referencial de personalidade e significam em certos meios fatores determinantes na escolha de um representante político. Segundo Sérgio Buarque (1988, p. 112), os valores tradicionais característicos da formação do Brasil desde o período colonial, transmitidos no seio familiar, conseguiram se manter, mesmo diante da difusão das indústrias, e dos mecanismos capitalistas que restringem as relações pessoais e distanciam os seres humanos. O núcleo familiar, lugar dos primeiros contatos emocionais é responsável pelo modelo de relações sociais de onde resulta o caráter do “homem cordial”, aquele que reage segundo o ritmo da afetividade. Tais aspectos da formação social do brasileiro, que preserva o discurso voltado para a moral e a ética, podem ser observados a partir de um olhar sobre o ambiente pré-eleitoral, através das atitudes e dos jingles tocados pela cidade, onde os sussurros nas ruas confirmam o que o eleitor observa no seu preferido: ele é “gente direita”, é de família honesta, portanto “merece” ser votado. Neste sentido, os atributos pessoais, as emoções a subjetividade são fatores de forte influência na escolha de um representante, despertado através da atmosfera simbólica que rege as disputas eleitorais. 7 Diovando Carneiro, o herói da caridade. Conceição do Coité. Estrofe VI e XXVI.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 24. 24 Segundo Borba (2005, p.155), dentre as principais teorias que visam explicar o comportamento dos eleitores no Brasil destacam-se as que estudam pela perspectiva racional, onde as escolhas são movidas por fatores materiais; a de viés sociológico, que tem o foco nos fatores macroestruturais e nas variáveis socioeconômicas, demográficas e ocupacionais; e a que tem o foco maior no campo psicológico e psicossociológico, onde a estruturação do comportamento eleitoral dos brasileiros é identificada como resultado das motivações e percepções do indivíduo em relação à política. Nesta última, não é negado o impacto dos fatores sociais, mas acredita-se que estes somente não explicam tudo. Sendo assim, busca-se analisar também a orientação afetiva que mobiliza o direcionamento do voto através das “imagens políticas” que são transmitidas ao eleitor e que podem estar relacionadas às prioridades que os candidatos estabelecem em relação aos interesses do povo ou da elite, ou ao posicionamento numa escala de direita e esquerda. Contudo, as mudanças ocorridas nas ultimas décadas provocou um crescente descrédito na esfera da representação pública, visto que houve uma diminuição das atividades partidárias e um declínio dos partidos políticos, distanciando cada vez mais a população da participação na política. Assim, faz-se necessário a difusão de novas ideologias e de personagens políticos carismáticos, que desperte o interesse do eleitor que lhe dará um voto por confiança, como afirma Irlys Barreira, citada por Bezerra (2008, p. 3): [...] Uma figura pública, no contexto de um espaço público esvaziado, deveria apresentar aos outros “aquilo que sente”, sendo essa representação sobre o seu sentimento o móvel que suscitaria credibilidade. O enfraquecimento dos papéis públicos, finalmente, converteria o discurso político em discurso psicológico. Nesse contexto os atributos decisivos para o julgamento dos candidatos passam a ser a competência e a honestidade, sendo que o grande fator de relevância na escolha dos representantes é a avaliação que se faz de suas características pessoais. A análise do caráter, voltada para o culto à personalidade influenciam mais do que as ações ou programas de políticas públicas defendidas pelos aspirantes a algum cargo público. 2.1 Vando de Deus, dos pobres, de todos O surgimento de um novo nome na política coiteense a partir de 1982 modificaria o cenário municipal até então sob a égide de um domínio tradicionalista mantido pelo grupo liderado por Hamilton Rios de Araújo. Diovando Carneiro Cunha, ou simplesmente “Vando”Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 25. 25 para o povo, nasceu em Conceição do Coité no dia 2 de julho de 1938, e passou grande parte de sua infância no povoado de Juazeirinho, onde vivia com seus pais. Aos dezesseis anos de idade foi para Vitória da Conquista – Espírito Santo, a fim de trabalhar, mas voltou para a sua cidade natal onde conheceu Maria Eridan Mascarenhas Cunha, com quem se casou e teve dois filhos. Até então nunca tivera pretensões de exercer cargos públicos. Vando residia na Fazenda Lagoa do Veado, e sendo um dos poucos a possuir carro na região, sempre era cogitado para prestar algum serviço dando início a uma prática de auxílio as pessoas que buscavam por sua ajuda. Era comum encontrar a sala da sua casa ocupada por conhecidos e desconhecidos, que passavam a noite em colchonetes, para durante a madrugada ser transportado para algum hospital fora do município. Como a prefeitura não ofertava esse serviço para a comunidade visto que não possuía ambulância, ele se dispusera a transportar aqueles que precisassem de acompanhamento médico em Salvador ou Feira de Santana, assim como também socorrer os moradores daquela localidade em casos de emergência. Apesar de não freqüentar a igreja todo domingo, era um homem religioso e participava frequentemente das festas anuais da paróquia. Carregado de valores familiares tradicionais, em seu discurso, demonstrava simplicidade e preocupação com os carentes, a ponto de ser apelidado de “Irmã Dulce de Coité”. A expressão “povo de minha terra” frequentemente utilizada por ele, para se dirigir aos coiteenses (principalmente os menos favorecidos) evidencia não só a preocupação que tinha com a população humilde, mas dá idéia de proximidade entre os membros do mesmo lugar de origem, do mesmo lar e, portanto uma grande família, onde uns ajudam aos outros. Incentivado por seus amigos Walter Ramos Guimarães e João Emílio se candidata a vereador na eleição de 1982 pelo PDS apoiando a chapa de Misael. Foi a sua primeira experiência política, na qual ganhou a eleição como o vereador mais votado, e foi eleito também para presidente da câmara em 1985 exercendo o cargo até 1986. Durante todo o mandato continuou o trabalho voluntário que fazia fortalecendo ainda mais os laços de amizade com a população do município, que se encontrava inserida numa realidade nacional, onde as políticas públicas não suprem as necessidades básicas do indivíduo, fazendo-se necessário a “ajuda” de particulares, ambiente favorável para a emergência de lideranças carismáticas que se apresentam com solucionadores dos problemas sociais e políticos. A realidade vivenciada pela população era facilmente aproveitada pelos candidatos a algum cargo público, que em época de eleição providenciavam cestas básicas ou outros “presentes” para angariar votos. No caso de Diovando, tais práticas já faziam parte de sua rotina e mesmo que não tivesse a intenção de se promover politicamente, provocava umCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 26. 26 sentimento de gratidão devido à sua forma de assistência, despertando o interesse do grupo situacionista que via a possibilidade de ganhar mais uma eleição tendo Vando ao seu lado. Forneceram-lhe um carro para transportar os doentes e propuseram-lhe que rompesse com o grupo político dos “azuis”, e se candidatasse a vice-prefeito de Everton Rios de Araújo Filho, até então apenas conhecido como “o sobrinho de Hamilton Rios”, pois não tinha atuado em nenhum cargo político. Diovando, que nunca fora “apegado” ideologicamente com partido algum, disputa agora ao lado do grupo situacionista numa nova campanha vitoriosa, como relata seu sobrinho Joilson: Utilizou-se desta ingenuidade de Vando desse ser desprendido e sem preguiça porque todos os dias ele saia daqui três horas da manhã e praticamente chegava dez onze horas da noite. Então, esse movimento rendia muito voto sem eles ter que botar a mão no bolso. (Joilson Araújo, 2. jul. 2009) A popularidade de Vando, somada à força política do grupo dos vermelhos exerceu influência determinante na vitória de Ewerton Rios na eleição municipal de 1988, contra Tânia Cirino, esposa de Dr. Iêdo. A visibilidade que foi dada ao seu nome é evidente nos panfletos de divulgação onde o candidato a prefeito e a vice, aparecem em destaque, diferente do que comumente acontecia que muitas vezes a ênfase recaia sobre aquele que encabeçava a chapa, deste modo, esta união garantiria por mais quatro anos o poder nas mãos da vermelhada. Durante o período em que atuava como vice-prefeito, Vando teve um filho fora do casamento, Diovando Almeida Quirino Cunha, e apesar de exercer um cargo de visibilidade, a união extraconjugal não afetou a sua popularidade. O título de vice-prefeito não impediu que continuasse realizando o trabalho voluntário, mesmo sendo criticado pelos adversáros, suas ações despertava a sensibilidade em quem conhecia a sua história, e reforçava ainda mais a figura de pessoa caridosa e sem interesses financeiros, como aconteceu com um caminhoneiro, fato narrado por Joilson, em entrevista mencionada anteriormente: [...] “rapaz ontem eu encontrei aqui uma pessoa cansada dormindo no carro, com mais de dezoito pessoas dizendo que tava levando pra Coité e que ele era o vice- prefeito, eu num acreditei. Eu nunca vi vice-prefeito com o salário que ganha ficar transportando pessoas”. Aí meu pai, cunhado de Vando, disse: “não, é meu cunhado ele faz isso há muito tempo!”. Aí o sujeito ficou tão impressionado que falou: “quando eu tiver oportunidade ainda vou transferir o meu título e morar em coité só pra votar nessa pessoa”.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 27. 27 Esse espírito solidário despertava curiosidade naqueles que encaravam certas atitudes possivelmente comuns para um candidato, mas absurdas para um vice-prefeito, e fazia com que se destacasse entre os demais que em épocas de eleição voltavam-se para o assistencialismo, sendo que Vando agia em prol do outro em qualquer momento ou lugar. Roberto Lopes (2009, p.64) coordenador da campanha de Vando para prefeito, narra um episódio em que compara a atitude de Diovando com a de Hamilton Rios quando este se candidatou pela primeira vez em 1972: Durante a Campanha, fui com Vando a Salvador e lá pelas tantas da noite, ele inventa que ia fazer uma visita no bairro Cosme de Farias. Passou um tempo precioso. Quando olho pra cima, “praquelas” ruazinhas tortuosas e estreitas, entre construções desinformes, lá vem Vando descendo uma escada de Madeira em balanço, com uma velhinha nos braços em tempo de tropeçar e rolar ladeira abaixo. Lembrei-me de Mitinho quando em campanha idêntica, no Tabuleiro de 1972, beijou uma vela esquálida, tuberculosa, cuspindo sangue [...]. Foi nesse ambiente de assistencialismo que a imagem pública de Diovando começa a ser desenhada e difundida entre o “povo” de sua terra, imagem bem caracterizada nos “singelos versos” cheios de empolgação e emoção das páginas de um livreto de cordel escrito em sua homenagem. Literatura que constitui uma manifestação popular, e ajuda a compreender vários aspectos do cotidiano e da opinião de quem o produziu. É possível reconhecer no cordel, a visão popular acerca dos atributos que mais enobrece o ser humano que Diovando Carneiro é. O fato de não ser um membro da elite, mas um morador da zona rural tinha um peso importante no campo das relações sociais, pois ele conhecia bem o homem do campo e suas limitações. A relação que tinha com Irmã Dulce para dar assistência aos carentes, o apego à religiosidade, transmitia a idéia de que suas obras não tinham interesse político, mas era um compromisso cristão com o outro, tido como irmão, reconhecendo nele um ser desinteressado e portanto diferente dos demais. O autor, que não se identifica, intitula: “Diovando Carneiro, o herói da caridade”, e tenta ao longo de suas palavras comprovar o porquê de tal afirmação. Inicia deixando bem claro que “o homem só vale pelo que é”, colocando o prestígio pessoal obtido por alguém que conserva os seus valores e sua moral, como mais valorizados do que a posse de riquezas, idéia esta comumente difundida na Bahia durante século XIX, aspecto que pode ser observado nos frequentes casamentos entre membros de famílias tradicionais empobrecidas com ricos brasileiros e estrangeiros, a fim de estes se apropriarem do prestígio que o “nome” de taisCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 28. 28 famílias poderia lhe trazer. Do mesmo modo que criados e escravos, trabalhavam com dedicação ao seu senhor a fim de lhes serem reconhecidos qualidades de “gente direita” sendo que sua dedicação garantiria além de casa e comida a esperança da ascensão social e “tudo isso valia mais do que dinheiro” ( MATOSO, 1992, p. 13). Dentro dessas concepções, o “valor” de Diovando Carneiro não estava no que ele tinha, seu reconhecimento fora adquirido principalmente por ser um homem caridoso e desapegado a títulos ou promoções, de modo que efetuava seu trabalho voluntário sempre com muita disposição e alegria, e apesar de ser reconhecido e aplaudido pelo povo não se vangloriava agindo com humildade. A figura do “herói”, também chamado de “Diovando do povo, ou mesmo Vando de Deus”, representava um sinal de esperança para uma população “carente de paz e não somente de cobre” e cujas autoridades dedicavam seu tempo e atenção apenas com promessas e “palavras bonitas”, enquanto Vando estava presente e era próximo à realidade daquelas pessoas. Quem bem conhece Diovando é o povo sofredor o trabalhador rural o popular lavrador Diovando os conhece e eles lhe dão valor. Conhecer, nas palavras do autor, significa muito mais do que perceber a existência, chamar pelo nome, ou saber onde mora, está ligado à questão do relacionamento direto e, portanto a troca de experiências de vida, pois somente conhecendo poderia perceber as necessidades do outro e fazer algo em seu favor. No campo das representações, ou seja, o campo simbólico da construção de articulações entre candidatos e eleitores, o ideal de proximidade é responsável pela criação de laços entre representantes e representados, pois revela a harmonia de interesses e valores (BARREIRA, 1998, p.43). Graças a tais características apontadas no texto, e ao comportamento tido como digno, o autor pede a benção de Deus para “o ventre que o gerou”, exaltando a educação familiar que fez de Diovando Carneiro um “homem correto”, que veio ao mundo para dar felicidade ao seu povo. O texto é redigido no momento em que Vando atuava como vice-prefeito juntamente com Everton Rios, cargo que, segundo o autor, lhe foi dado como um sinal de gratidão por parte da população reconhecendo o seu esforço e confiando em seu trabalho.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 29. 29 Filho de Joazeirinho terra que lhe concebeu um cargo de confiança o povão lhe concedeu e para vice - prefeito o povo lhe elegeu E assim congratularam o querido Diovando e pelos cantos da cidade tem grupinhos comentando vamos fazer nossa parte as eleições vem chegando O poeta enfatiza o vermelho que Vando representava no momento, mas apesar de se tratar do grupo situacionista com forte poder econômico, essa não seria uma característica dele. Com a proximidade das eleições municipais ambos os grupos políticos discutiam acerca dos candidatos para concorrerem a uma vaga na prefeitura e a figura de Diovando estava muito comentada na cidade como um possível nome que os “vermelhos” lançariam. E como não seria diferente, já começava os preparativos para o próximo pleito, onde o povo demonstraria a força do “sangue vermelho” que corre na veia de seus seguidores fiéis. Sendo assim logo veremos o santo guerreiro cobrir tudo e derrotar com conteúdo o dragão do dinheiro pois o vermelho que corre nas veias, vale por tudo Nas artérias dos miúdos que são seus eleitores Que eles chamam analfabetos ou rudes Mas são fiéis seguidores; Corre o sangue vermelho No corpo dos sofredores O “herói popular” parecia representar uma ameaça para as lideranças tradicionais locais, que não queriam deixar o poder nas mãos de um “carregador de defunto”, “tabaréu”8. Além disso, era preciso manter a tradição familiar e Vando não fazia parte da estirpe. Na oposição, o líder dos azuis, Misael Ferreira, já havia disputado três eleições mal sucedidas, 8 Diovando era apenas alfabetizado, e os discursos o apontavam como despreparado e incapaz, principalmente pela baixa escolaridade.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 30. 30 para prefeito em 1972 e 1982 e uma para Deputado em 1990, e não se achava em condições de encabeçar outra campanha tão próxima. Alguns amigos de Diovando o incentivavam a se lançar para prefeito, mas o grupo de Hamilton Rios descartara esta possibilidade. Deste modo os representantes dos “azuis” percebem no então vice-prefeito uma chance de conquistar o poder, em decorrência da popularidade que o mesmo havia adquirido. Não existe adversário por mais que seja atrevido que ouse falar mal dele, pois nunca foi merecido mesmo sendo dos vermelhos pelos azuis é querido Até a oposição já aprova seu talento; o seu trabalho real prova o reconhecimento e as pesquisas já falam de seus oitenta por cento O ambiente relatado no cordel deixa bem claro, que a população cogitava o nome de Vando para as futuras eleições, e acima de tudo que o poeta reconhece nele uma bondade desprendida e desapegada, livre de opção política ou partidária, pois atende a “toda a classe” a qualquer hora, chegando ao ponto de a oposição reconhecer o seu talento. Deste modo não existindo defeitos, seria um atrevimento alguém lhe direcionar uma crítica, mesmo sendo um adversário político, pois era mais vantajoso estar com ele do que contra ele. E foi isso que as lideranças representantes do PMDB e PL fizeram, motivados por interesses de ambos os lados, montaram uma aliança entre Diovando Carneiro e Misael Ferreira para disputar o cargo de prefeito em Coité. 2. 2 Uma campanha do coração A partir do cordel e da análise do discurso político de Diovando Carneiro, pode-se identificar na sua figura, um extravasamento de emoções que se desenvolve em um ambiente relacional e que contagia um grupo ao seu redor, elementos que Max Weber (1991, p.159)Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 31. 31 denomina de carisma, ou seja, “uma qualidade pessoal considerada extracotidiana”, e em virtude da qual se atribuem a uma pessoa características sobrenaturais, e portanto digna de liderança. Assim como os outros tipos de dominação definidos pelo autor, um líder carismático só exerce poder mediante o reconhecimento por parte de seus seguidores, nesse sentido o poder do carisma não é atribuído legalmente ou dado por tradição, mas é baseado na exemplaridade do caráter, numa crença da santidade das ações heróicas realizadas pelo líder. Dentro da perspectiva Weberiana, o tipo carismático realiza suas atividades com o sentido de missão e vocação, desapegado a recompensas ou a uma atividade econômica contínua. Seu reconhecimento é obtido em virtude do êxito de suas ações, e mediante tais “provas” consegue manter o prestígio perante aqueles aos quais dirige a sua missão. Neste sentido o poder de Diovando Carneiro só existiria enquanto os seus “fiéis seguidores” o reconhecessem como um líder, através de uma avaliação subjetiva de seu discurso, e da imagem que conseguira projetar. Após obtido o reconhecimento, esse força “sobrenatural” seria capaz de mover uma massa em prol de um ideal, visto que O carisma é a grande força revolucionária nas épocas com forte vinculação à tradição (...) significa uma modificação da direção da consciência e das ações, com orientação totalmente nova de todas as atitudes diante de todas as formas de vida e diante do mundo em geral. (WEBER, 1991, p. 161). Weber destaca o papel das lideranças carismáticas como força de transformação em contextos de poderes tradicionalistas visto que o possuidor de tais características tem o poder destituído de base racional, composto por instabilidades, incorporando facilmente aspectos revolucionários, de mudanças. Durante as campanhas políticas de 1992, a estratégia das lideranças azuis foi montar uma chapa que reunisse o carisma de Diovando Carneiro e o respaldo político de Misael Ferreira, visto que este já possuía uma caminhada no grupo e também atuou como Deputado Estadual entre 1987 e 1991, logo, percebiam nessa aliança uma chance de retirar o poder das mãos da família Rios. Como adversários, teriam que enfrentar a força tradicional, financeira e simbólica de Hamilton Rios de Araújo, que junto com Jorge Tirço usaria todas as armas para garantir a manutenção da máquina administrativa em suas mãos. Mesmo assim Vando se lançou sem nenhuma pretensão, pois não tinha recursos econômicos, e teria deste modo que se valer de outras estratégias para conquista do voto.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 32. 32 Após o estabelecimento da aliança entre Vando e Misael, ambos afiliaram-se ao Partido Liberal (PL), tentaram uma aliança com Partido dos Trabalhadores local, mas o mesmo se recusou. Na falta de um financiador, a campanha contou com o apoio de alguns comerciantes e empresários simpatizantes dos azuis, mas os recursos eram poucos comparados ao montante investido pelo grupo rival. Nos comícios da chapa de Hamilton Rios, os proprietários de automóveis ganhavam gasolina para participar das carreatas, que sempre chamavam a atenção pelo grande número de veículos e pessoas. Era comum também a distribuição de camisas e bandeiras vermelhas para os eleitores, assim como a realização de “showmícios” sempre com bandas locais e fogos de artifício para dar um ar de “festa da vitória”, mesmo antes do pleito. Os grandes comícios ganhavam destaque mediante a utilização de recursos simbólicos, onde “ o palanque na condição de lugar convergente de olhares e escutas, oferece a metáfora do trono provisório. Durante o evento, o candidato “reina” e sua principal estratégia é transformar o provisório em Definitivo” (BARREIRA, 1998 . p.95) e sendo assim mobilizar a massa em prol de um ideal. Os comícios e caminhadas representam uma dimensão entre “povo e políticos” ajudando fortalecer o ideal de proximidade. Neste sentido as campanhas aliam estratégias de propagação de idéias nos meios de comunicação e formas simbólicas de exposição de candidatos no espaço público através do contato físico com o eleitorado proporcionando uma relação de proximidade. Numa campanha, principalmente em cidades pequenas, nem tudo o que acontece é estruturado por especialistas em marketing, visto que “as novas formas de comunicação política não substituem mecanicamente práticas dotadas de vitalidade como inauguração, comemorações, manifestações e comícios “( BARREIRA, 1998. p. 23). Neste sentido, a campanha de Vando e Misael, foi no silêncio, principalmente devido a falta de recurso para investimento, aconteciam comícios, mas as carreatas eram muito inferiores equiparadas a do adversário. O contato direto com o povo, em caminhada pelos bairros e também na zona rural, sempre enfatizando a prioridade em relação a saúde foram as estratégias principais dos azuis. Ao romper com o grupo situacionista, imediatamente retiraram o carro ao qual Diovando utilizava em seu trabalho voluntário, pois a utilização do mesmo só seria viável para Hamilton Rios tendo Vando ao seu lado, no caso de ruptura, assistência ao povo não era mais útil, portanto foi cortada com o intuito de diminuir a chance de influência no direcionamento do voto. Deste modo, graças a ajuda de alguns amigos como João Emílio, com a doação de uma caminhonete, Vando pode continuar o trabalho de assistência, mesmo contrariando aqueles que o considerava uma ameaça às estruturas tradicionais.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 33. 33 O momento da campanha eleitoral, faz emergir ou “aflorar” atitudes pouco comuns em outras épocas possibilitando analisar não só o jogo de estratégias em busca do voto, mas é um campo produtivo para se entender variadas dimensões do cotidiano cultural de determinada sociedade. Em Conceição do Coité a partir da década de setenta, o nome dos candidatos sempre foi vinculado às cores que representavam o seu grupo político e não ao partido que eram afiliados, visto que os mesmos mudavam frequentemente de legenda, e na maioria dos pleitos a rivalidade era apenas municipal. Grande parte do eleitorado não era guiada por ideologia ou propostas políticas, mas pelo jogo de interesses entre os que fazem parte dos beneficiados e os que não obtêm benefício algum dentro da prefeitura. A cultura política local movida pelas cores obrigava alguns fanáticos, a renovar o guarda-roupa para não vestir a camisa do “time” adversário. Nessa eleição a coloração não seria diferente, o “vermelho” estaria presente nas bandeiras, no slogan e nos jingles dos representantes da situação. A chapa adversária deslocou o foco da cor azul e direcionou para a emoção, na tentativa de demonstrar que representava os interesses de todos fizeram uma campanha onde “azuis e vermelhos são irmãos”. Nos cartazes, camisas e santinhos, o nome de Vando aparece com a letra “o” em forma de coração, pintado de azul e vermelho. Numa simbólica união, o destaque que foi dado à sensibilidade, indica que Diovando pertencia a todos e o seu coração não fazia distinção política, pois tratava as pessoas como irmãos. Partindo dessas características, o slogan de campanha elaborado pelo marqueteiro Roberto Lopes enfatizou a sensibilidade do candidato, aquele que reage segundo o ritmo da afetividade, “o prefeito do coração”, pois o mesmo não possuía riqueza material, e um voto de confiança lhe seria dado livre de interesses materiais movidos pelo afeto, por emoções. Nesse sentido Joilson afirma que: [...] no Vando não tinha razão, você não encontrava a racionalidade! Então não encontrando a racionalidade pra perceber que ele representava a liderança que era, ele usava só a sensibilidade, e aí não tinha como não fazer uma campanha em cima daquele ser[...]. Faltou no Vando unir razão e coração então o destaque foi mais em cima do que ele era, e isso ajudou muito a população perceber que de fato Vando era só coração, era só amigo [...]. Segundo Ada Bezerra (2007, p.4) em seu estudo sobre sentimentos e emoções na política, o campo das disputas simbólicas onde o indivíduo depende de fatores externos e da aceitação carismática por parte do eleitorado, o uso das emoções no discurso dos apelantes éCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 34. 34 fundamental. O momento das eleições é percebido como uma “situação na qual a troca simbólica se realiza entre voto e adesão por credibilidade”, onde a relação de confiança é promovida por meio de apelos sentimentais, crenças e subjetividades do imaginário despertado a partir das emoções. Nesse contexto, há uma interação entre valores culturais e políticos onde um conjunto de crenças no terreno da subjetividade será o ponto de partida para as percepções políticas de cada eleitor, que se dá nos discursos, nas imagens e nas músicas que compõem a trilha sonora do município em períodos eleitorais. Em um dos jingles políticos da campanha de 1992, paródia da música Desejo de amar é possível identificar a exaltação da figura de Diovando como o “salvador” da cidade, 9 a única solução para os problemas de Conceição do Coité. Numa conexão entre política, parte do mundo secular, e sinais de “encantamento”, um apelo mágico de um povo que sofre a espera de “salvação”, o candidato é apresentado como aquele que está sempre disposto a ajudar nas horas difíceis, tanto a azuis quanto a vermelhos: Vando foi chegando com amor dando a mão A você, e tocou o seu coração não vou lhe esquecer Me machuquei, me feri , me perdi Com prazer, Vando não deixa na mão, não, não, não. Hoje estou decidido vou votar E vencer, Vando nasce pra ganhar, pra salvar Coité Hoje o azul e vermelho é irmão Em Coité e não tem separação não, não, não. O povo está sozinho precisando de você Mas Vando sempre está por perto pra poder lhe ajudar A estrada dessa vida está difícil sem você Mas Vando sempre está por perto pra poder lhe ajudar. Em outra canção, não diferente, se enfatizam as práticas de assistência aos pobres nos momentos de tristeza e atribulação, e como se o candidato fosse um super-herói o povo pedia “Vando salve esta terra linda, salve o nosso lugar [...], este povo vai gostar”. As letras de um modo geral faziam referência às dificuldades vivenciadas pelos coiteenses, as quais seriam muito mais complicado de enfrentar sem a ajuda de Vando, deste modo a eleição torna-se uma grande oportunidade para que ele estivesse sempre perto dos necessitados, e ajudar ainda mais. Segundo Silvia di Poli (2008, p. 14), os jingles, são repletos de apelos sentimentais, por isso: DANIEL; PAULO, João. Desejo de amar. João Paulo e Daniel. 2002. 1 disco compacto ( 62 min): Dolby 9 Digital 2.0.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 35. 35 [...] atua em uma eleição com o princípio de construir as relações interpessoais, além de ser capaz de mobilizar um grande grupo de pessoas a favor de uma idéia. Sua influência está fortemente ligada com aspectos sociais, cognitivos e emocionais do indivíduo, o que o torna imprescindível para o marketing político de um candidato. Assim, tanto a melodia quanto as palavras utilizadas nas canções “inesquecíveis” de uma campanha política, influenciam na reação dos eleitores, que pode aderir ou não a uma ideologia a depender do modo como esta foi difundida. A “chapa do coração” utilizou um palhaço como cabo eleitoral, que circulava as ruas da cidade e dos distritos municipais no carro de som, distribuindo “santinhos” e muita alegria, para vermelhos, azuis e petistas, uma estratégia que movia o espírito de criança existente em cada eleitor, demonstrando a afetividade existente na candidatura que estava sendo propagada. Além do destaque que foi dado à emoção, o apoio do Padre Luiz Rodrigues, e consequentemente o de alguns grupos da Igreja Católica, foi um fator relevante para fortificar a campanha da oposição. Atuando como pároco no período, ele se colocou publicamente contra as ações do grupo hegemônico, principalmente no intuito de romper relações de dependência que a paróquia mantinha com a prefeitura antes da sua chegada à Coité, visto que esta sustentava financeiramente o núcleo paroquial em troca de alguns privilégios que lhe eram concedidos. Nos discursos homiléticos, transmitidos ao vivo pela TV Cultura do Sertão10, o padre criticava a forma de fazer política da família Rios, principalmente as práticas de clientelismo característica da política local. Tal posicionamento acarretou na saída de vários membros da igreja em decorrência das divergências partidárias, bem como a reação direta de políticos que se sentiram ameaçados pela autoridade religiosa. Nessa época o cenário político nacional vivenciava uma fase de reformulação política agravada por intensas conturbações. Após o fim do Regime Militar e o início da redemocratização a população ansiava por transformações de cunho econômico, social e o fim da corrupção na esfera pública. Contudo a primeira eleição direta para presidente colocara Fernando Collor de Mello no poder, cujo projeto de modernização havia fracassado, agravado por problemas de corrupção que terminou com o impeachment do presidente sendo este posteriormente deposto. Essa situação aumentou os burburinhos pelo interior do país em monções contra fraude e práticas corruptas, motivando cada vez mais o discurso voltado para 10 Rede de televisão local, que na época transmitia as missas dominicais ao vivo.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 36. 36 a mudança. Tal realidade, segundo Misael relatou em entrevista, também foi explorada em sua campanha: O problema de Collor nos ajudou muito. Quer dizer, ali era o Collor da corrupção, e eu mostrava a corrupção em Coité, então nosso slogan era esse, combater a corrupção, mudar a estrutura [...]. E o povo estava ansioso para mudar porque só mandava eles, os parentes, parentes e aderentes [...]. (Misael Ferreira, 26 jun. 2009) O hino da mudança foi tocado pelas ruas da cidade e afirmava que no futuro governo a população teria voz e vez, e não seria lembrada apenas em períodos eleitorais. Deste modo, esse pleito representava um sinal de esperança que Vando e Misael transmitiam através das canções dos discursos e da relação direta que o “novo líder” emergente “da gema da nossa gente” conseguira construir. O carisma de Diovando motivava as suas relações com o povo e fizera com que a eleição de 1992 surpreendesse a todos pelo resultado favorável à oposição, balançando a estrutura econômica e simbólica do líder da “vermelhada” dando a vitória a favor dos “azuis”, o que não acontecia desde 1972. A conquista da oposição através de Diovando Carneiro, representou um triunfo contra a máquina da prefeitura, montada a favor do líder tradicional que tinha ao seu lado além do dinheiro e do apoio das lideranças estaduais, uma emissora de rádio difusora de ideais de permanência, em detrimento das rupturas. Deste modo percebe-se que nas campanhas eleitorais, o capital sentimento, a personalidade e a cordialidade de Diovando Carneiro foram decisivos num pleito em que o discurso amigável de “mudança”, prevaleceu sobre o tradicionalismo e colocou a prova o poder do “Mito”.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 37. 37 CAPÍTULO 3 Sem preconceito de cores Valeu, valeu a pena pela minha coragem, que eu tive de enfrentar sem recurso, sem nada nas mãos, sem poder dar nada a ninguém. Mas graças Deus vocês me deram esta alegria e vocês não irão ficar decepcionados, porque Vando vai governar com justiça, sem ódio, sem vingança, protegendo a todos vocês. E aqui fica mais uma vez o meu agradecimento, que Deus proteja a família de Conceição do Coité.11 A imagem que representa uma pessoa sempre foi objeto de preocupação dos homens públicos e com as transformações sociais e políticas ocorridas nos últimos séculos, no campo das representações, um candidato ou governante passa a ter legitimidade perante os eleitores através de elementos que garantam a sua aproximação com o povo. No espaço da política a imagem de um representante tem influência determinante em sua carreira, atuando como seu capital pessoal para as relações que estabelecerá. Esta, desenvolvida num ambiente eleitoral num contexto de troca de interesses, é permeado por embates de discursos, imagens e poder, nos quais se entrelaçam apelos emocionais e racionais num jogo onde o que se diz vale mais do que o que se faz. Diovando Carneiro alimentou durante a campanha a imagem de solidário e amigável que conseguira construir ao longo de sua trajetória como motorista de ambulância, e assim conquistou o voto e a confiança de eleitores das diversas facções, por isso objetivava governar diferente dos prefeitos anteriores, de modo a conservar as relações que estabelecera e preservar sua imagem em meio a sociedade que o apoiou. Neste sentido a nova administração emergente em Coité a partir de Janeiro de 1993, trazia consigo a promessa de novos tempos, onde azuis e vermelhos seriam irmãos e conviveriam numa prefeitura sem perseguições ou seletividade de pessoas por opções partidárias. Havia uma grande expectativa da sociedade coiteense relacionada ao “governo do coração”, fase de administração de Vando e Misael. Uma experiência nova que trazia a 11 Diovando Carneiro Cunha. Discurso durante a festa da sua vitória nas eleições de 1992.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 38. 38 esperança de melhorias para o povo mais pobre que Vando tanto acolheu durante o seu crescimento enquanto homem público. Em dois discursos proferidos após a eleição, um em cima do trio elétrico na festa de comemoração da vitória e outro durante a sua diplomação no fórum, Vando expôs os seus planos de atuação para depois que assumisse o governo. Ambas as falas, demonstram a expressão do sentimento de gratidão aos empresários, a juventude e toda a massa mais carente que apoiou “a candidatura do homem pobre contra uma montanha de dinheiro”. Diovando reconhece em si mesmo atributos de uma pessoa humilde, mas corajosa por ter conseguido enfrentar um grupo poderoso e alcançar a vitória nas eleições. Compromete-se a manter as mesmas relações e a dar continuidade ao trabalho voltado para a saúde, que segundo ele foi o que lhe deu sustentação para ganhar o pleito eleitoral. Apesar de ter desagradado o grupo de Hamilton Rios, ao romper laços políticos e ganhar a eleição a favor dos “azuis”, tentava manter uma relação de amizade com seus opositores, pois acreditava que “amizade e política não se misturam”. Em suas poucas palavras proferidas durante a diplomação, ele diz que não pode deixar de reconhecer o mérito de seu adversário, se referindo a Hamilton Rios, e também ao “querido prefeito Ewerton Rios”, por ter lhe ajudado no trabalho de atendimento aos carentes. Sendo assim, sua concepção de distanciamento entre amizade e política determinou em grande parte a forma de atuação e o trato com rivais políticos, que se aproximaram do prefeito com interesses pessoais. A então neutralidade política e partidária de Vando, que possibilitou a agregação pessoas de várias facções ao seu lado, representou um de seus problemas para início da administração. As divergências entre ele e Misael Ferreira, então vice-prefeito começaram durante o processo de formação da equipe de trabalho, visto que Vando não queria demitir os funcionários da prefeitura que trabalharam nas gestões anteriores, inclusive manter em secretarias, pessoas que fizeram campanha para o grupo dominante. Tradicionalmente, tais empregados eram mantidos no cargo e não votavam em candidatos que não fossem apoiados por Hamilton Rios a fim de garantir o emprego, contudo o novo governo não usaria a perseguição política, ou seja, Vando não pretendia manter as mesmas relações de poder que havia anteriormente como afirmou durante a diplomação: Quero governar a minha terra com dignidade, não serei um político vingativo. Procurarei governar a minha terra de braços dados com meus amigos e principalmente com o povo pobre da minha querida Conceição do Coité [...]. Quero fazer uma administração sem perseguição, porque perseguição não soma nada. Quero ficar bem com o povo de minha terra [...]. Assumirei a prefeitura se DeusCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 39. 39 quiser no dia primeiro de janeiro, estarei de braços abertos para acolher vermelhos e azuis. Quero governar sem preconceito de cores. O estabelecimento de um governo “colorido”, apesar de ser uma proposta inovadora no contexto das antigas formas de mover a máquina da prefeitura, mantida pelo velho clientelismo características da política local, poderia representar um risco para Diovando Carneiro que acabara de conquistar espaço político e precisava se estruturar no poder para realizar as mudanças necessárias na prefeitura municipal e no modo de administrar o dinheiro público. Certamente não contaria com o apoio de antigos aliados de Hamilton Rios para a sua nova gestão, mas a opção política de seus funcionários não era vista como um problema, ainda que estes estivessem ao lado do adversário nas próximas eleições. Em declarações que deu durante entrevista para a Rádio Regional, quando fora questionado acerca da manutenção de um adversário político como administrador de um de suas secretarias, ele afirma que não queria “pisar no pescoço de ninguém porque cada um tem o direito de escolher aquilo que quer” e com ele todos teriam liberdade para seguir o caminho que desejassem e apoiar qualquer candidato a prefeito. A escolha da “liberdade” em oposição ao “cabresto” não foi a melhor estratégia utilizada dentro da realidade em que o município estava inserido, seria necessário uma transformação da qual Diovando queria que acontecesse sem “intrigas” ou disputas. Conservar a imagem de “amigo de todos” não seria fácil, principalmente quando o espaço público é permeado por conflitos de interesses pessoais que se convergem em variadas circunstâncias. 3.1 Porta voz das “doenças do coração” Na sociedade contemporânea, os meios de comunicação constituem um espaço que tornam o meio político mais visível aos cidadãos, é através da mídia que a população recebe os elementos formadores de sua opinião, uma composição de imagens por meio das quais o candidato obtém o reconhecimento de seus atos. Em uma relação de comunicação, a mídia não atua meramente como manipuladora da opinião dos indivíduos que são apenas receptores passivos, segundo Luísa Luna (2002, p.1) os meios são “fornecedores privilegiados de insumos com os quais os sujeitos processam a compreensão dos eventos sociais da atualidade”, assim as informações são julgadas eCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 40. 40 atravessadas pelo cotidiano numa troca de comunicação entre sujeitos e informações onde a imagem é formada. Nesse contexto o potencial dos jornais, por exemplo, situa-se no controle das informações e no modo como estas serão transmitidas. O jornalista movido por interesses escolhe o que será publicado, ocultando pontos de vistas e explorando outros, deste modo o que é noticiado, não está isento da interferência do julgamento do mesmo. O poder que a imprensa exerce no meio social, decorre principalmente do grau de confiabilidade que lhe é depositado. Embora seja um poder de ordem privada, muitas vezes se apresenta como comprometida com a causa pública e questionadora do poder, ainda que inserida nele. O corpo de profissionais que compõem a redação dos jornais, também é um dos fatores que explica a confiança popular, visto que, na história do país, muitos atuaram favoravelmente às lutas democráticas se posicionando contrário aos donos dos veículos de comunicação. Dentre os meios da imprensa escrita que noticiavam Conceição do Coité na época do Governo de Diovando Carneiro, o Jornal Tribuna Coiteense se destacou por levar ao público as principais deficiências da nova administração. Fundado na década de 1980 por Mário Silva e Vanilson Lopes, o jornal funcionava como veículo de circulação quinzenal, era datilografado e mimeografado com uma pequena tiragem de duzentos exemplares. “Mostrar a verdade para o povo”12 e “ fazer história em memória” à população coiteense era o objetivo central do periódico, segundo um de seus redatores, pois começou a caminhar sem fins lucrativos, mas com “coragem e inspiração divina”. Com linguagem popular, tom crítico e discurso de imparcialidade, o Tribuna Coiteense através de seus textos abordava os fatos locais e nacionais. Noticiava o policial e esportivo, mas sua ênfase recaía sobre cultura e política, em grande parte contestando as autoridades, e direcionando críticas para o prefeito e representantes públicos, assumindo uma postura de apontar os erros e mostrar os caminhos para que os mesmos fossem solucionados. Apesar de o jornal incomodar alguns setores públicos atingidos por suas críticas, não exercia grande alcance no meio social coiteense, devido a pequena tiragem, contudo, assim como qualquer outro jornal, não estava isento da interferência das ideologias no ato de noticiar, e traz consigo os conflitos existentes no ambiente em que fora produzido, sendo uma fonte para se analisar as versões que circulavam no meio público caracterizando socialmente e ideologicamente os indivíduos inseridos no processo de produção e recepção das informações. 12 Tribuna Coiteense. 2ª quinzena de Abril, 1993.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 41. 41 As ideologias em confronto são encontradas nos jornais analisados, principalmente por haver a colaboração de pessoas com posicionamentos políticos variados na elaboração de alguns artigos, a começar pelos próprios fundadores Vanilson Lopes que era membro do Partido dos Trabalhadores e Mário Silva, redator e chargista, simpatizante do grupo liderado pela Família Rios, que apesar disso, também chamava atenção para algumas falhas da administração dominante. O Padre Luiz Rodrigues também era um dos colaboradores e por diversas vezes expressou seu ponto de visa principalmente relacionado à política. Durante o governo de Diovando, percebe-se um endurecimento nas críticas direcionadas ao grupo ascendente e às ações do novo prefeito. A ironia presente no discurso é uma estratégia que atua de modo a estabelecer uma cumplicidade entre o leitor e produtor e pode desencadear a idéia de que o que está sendo difundido é um desejo coletivo. (SOUZA, 2008. p.41). Assim a ambiguidade presente na ironia, coloca uma questão interpretativa numa condição de impossibilidade de ser resolvida o que muitas vezes provoca uma efeito humorístico, neste sentido as charges, representam um tipo de linguagem na qual os aspectos sociais e históricos são denunciados e satirizados, portanto elementos carregados de ideais. Peter Gay , analisa os impulsos da agressão moderna no mundo capitalista do século XIX, no qual o humor, enquanto material de uma cultura, atuaria como um exercício e um controle da agressão, neste sentido, associa o riso à crueldade, onde verifica que as “piadas” atuam no meio social como um elemento de saída para os desejos reprimidos, ou seja para expressar algo que não aceito socialmente. (GAY apud FLORES, 1997). Nesse sentido, de forma ambivalente o humor se apresenta nos jornais aqui analisados como um elemento de agressividade, presente na coluna “Boca de Trombone” 13 e nas caricaturas e charges, espaços no qual os “problemas do coração” foram mais abordados. Logo após o primeiro mês de administração fortes críticas são dirigidas à equipe do prefeito demonstrando a insatisfação dos redatores com os novos dirigentes do município. Em charge intitulada “a história dos cinco prefeitos”, Vando aparece confuso diante das opiniões dos cinco administradores ao seu redor, numa cena onde todos tem voz e opinião exceto o chefe do executivo, que não sabe o que fazer, a imagem está estampada na capa do jornal e a notícia explorada nas páginas seguintes. O povo elegeu apenas um prefeito pelo mesmo “clientelismo” no atendimento de pessoas carentes e doentes e pelo seu caráter e honestidade, comoSrs, Diovando Carneiro e Misael Ferreira. Mas levou consigo alguns “elementos indesejáveis” que 13 Espaço que funcionava como uma espécie de “voz do povo” no qual se dirigiam apelos, alertas, elogios e críticas aos variados setores sociais principalmente o político.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 42. 42 não têm nenhum respaldo político, vivendo à sombra destas pessoas honestas. (Tribuna coiteense. 2ª quinzena de fevereiro, 1993. p.3) No texto, o redator, defende os novos líderes da prefeitura considerados por ele como honestos, mas critica aqueles que estariam se aproveitando do reconhecimento público de Vando e Misael. Em outra charge, um homem se dirige à prefeitura na tentativa de falar com o prefeito, quando alguém lhe pergunta: “com qual deles?”. A imagem demonstra a confusão do coiteense em não saber quem era o representante do povo, visto que havia pessoas com mais respaldo do que aquele que foi eleito. Apesar de se passado apenas um mês de governo, esse fator é muito destacado logo nas primeiras edições dos jornais, a fim de demonstrar a falta de autonomia de Diovando Carneiro em relação aos projetos que traçaria para o município. O período de estiagem que a região passou no início da década de 1990, intensificou as necessidades da população local em apoio dos gestores públicos. Nesse contexto, os maiores investimentos da prefeitura municipal eram direcionados para solucionar os problemas oriundos da seca, no entanto, tal realidade associada a fase de inflação do governo Itamar Franco, foi a combinação ideal para agravar a fome e a miséria do trabalhador rural, tornando as medidas paliativas e insuficientes para a solução dos problemas. Em uma charge da Tribuna, um homem faminto pedindo esmola afirma que trocou “um milhão pelo voto do coração” e ficou sem nenhum tostão. No discurso subtende-se que a pobreza é oriunda da escolha que o personagem fizera pelo voto afetivo, trocando o conforto pela miséria, estabelecendo uma relação de causa e efeito entre o governo Vando e a fase difícil que a região estava passando. A situação caótica que o município se encontrava, teve como reflexo a invasão da Cesta do Povo de Conceição do Coité no dia 17 de abril, onde todos os produtos foram saqueados por uma multidão de pessoas, havendo também a tentativa de remoção dos caixas eletrônicos. O episódio não escapou da apreciação por parte dos adversários de Diovando e do Tribuna Coiteense, que traz em reportagem de capa uma charge, na qual as pessoas carregadas de alimento afirmavam: “Ora, a cesta é do povo, então vamos pegar tudo!”14. Apesar da fase depreciativa, o assunto é tratado com humor de modo a retirar da população a culpa pelo furto em decorrência das necessidades que tinham em “tirar a barriga da miséria”, deste modo, o autor direciona o problema para as autoridades públicas, num cenário no qual até a polícia é criticada, pois só chegou no local quando não restava mais nada. 14 Tribuna Coiteense, 2ª quinzena de abril, 1993.p.1.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 43. 43 Em entrevista para a mesma edição do jornal, o ex-prefeito Ewerton Rios de Araújo fala sobre algumas questões políticas, como a derrota de Hamilton Rios nas eleições para Diovando Carneiro e tece comentários acerca da atuação social do novo líder. Atribui a vitória do opositor, à experiência que este adquiriu quando fazia parte de seu partido, afirmando que “não tivemos sucesso porque o atual prefeito fora preparado por Hamilton Rios e lapidado por mim”. Na visão de “Vertinho”, a experiência adquirida por Vando era fruto de um preparo que tivera anteriormente com ele ao ser “lapidado” para atuar no mundo político, o que lhe proporcionou o triunfo no pleito eleitoral. Contudo, o ex-prefeito, provavelmente esquecera de que havia sido “escola” para Diovando, quando afirma logo em seguida: Dizem que política é a arte de enganar o povo e se tomarmos isto como parâmetro, Vando é mestre: enganou Mitinho enganou a mim, Misael, enganou ao padre, Joelson de Santa Luz e o que é pior, está enganando o povo. Como vice o povo tinha tudo com ele, como prefeito, a reclamação é geral. (Everton Rios, Tribuna Coiteense, abril, 1993) Além disso, Ewerton Rios lança críticas às ações das quais ele chama de “politiqueiras e clientelistas”, adotadas por Diovando para amenizar a miséria e o problema da seca, mas tais práticas eram comumente utilizadas pelo seu grupo político em épocas de eleições para angariar votos e durante a administração, visto que o povo muitas vezes conseguia receitas médicas e ordens para atendimento e remédio na mão dos vereadores e do próprio prefeito, ao invés de em locais apropriados de credenciamento para tais atividades. Nessas conjunturas, as divergências de Diovando com o vice prefeito Misael Ferreira, foram se agravando com o decorrer do tempo, e este, seis meses depois de ter assumido, abandona os cargos de vice-prefeito e secretário de agricultura. Segundo Misael, a falta de poder de liderança havia desestruturado os planos que foram traçados antes da eleição, ele havia sido traído, pois Diovando não cumpriu com o combinado anteriormente: Vando não tinha autoridade nem autonomia, para dizer “eu quero isso, ou eu quero aquilo”, não, aí começou a haver infiltração no governo de Vando(...). Os grandes empresários que ajudaram a Vando começaram a impor, quer dizer, “você tem que botar fulano você tem que botar cicrano” e isso foi uma debacle na nossa administração. (Misael, 26 junh. 2009)Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 44. 44 A briga com o vice-prefeito teve uma repercussão muito negativa para Diovando, que passou a ser encarado como aquele que queria monopolizar o poder, restringindo a atuação de seu vice. A matéria intitulada “Ingratidão! Por quê?”, narra de forma poética e dramática a chegada dos “azuis” ao poder defendendo calorosamente o vice-prefeito e lhe colocando numa posição heróica por ter aceitado a aliança com Vando “numa demonstração de resistência e coragem”15. Assim teria ocorrido uma certa ingratidão com Misael, que após passadas as eleições, não foi lhe dado voz nem vez, desconsiderando a sua importância para a vitória. Ao assumir o cargo, o prefeito do coração, encontrou uma prefeitura “inchada” com um número excessivo de funcionários. O próprio Vertinho reconheceu o vasto número de trabalhadores irregulares durante o seu mandato, citando o exemplo da Creche Titi, onde a proporção era de um funcionário para cada três alunos16, mas apesar de identificar o problema, não realizou concurso público para a regularização dos mesmos. A questão das demissões que Diovando começou a fazer virou polêmica nos jornais considerada como “enxugamentos exagerados”, visto que um grande número de pessoas ficariam desempregadas de uma só vez. Em um dos textos, o redator em tom agressivo afirma que o “o governo do coração não tem coração”17, pois desempregaria pais de família num momento de muita dificuldade em decorrência da seca. Os problemas se agravaram ainda mais, a prefeitura não obtinha controle das verbas que arrecadava, os funcionários trabalhavam e passavam meses sem receber. O Tribuna registra uma greve de garis por aumento salarial e uma possível manifestação de professores em defesa de seus direitos trabalhistas, visto que estes estavam há meses sem receber o salário. Pessoas vaiando o prefeito são retratadas em várias charges utilizando palavras de ordem pedindo a saída de Diovando do cargo em que está. O discurso dos redatores sempre enfatiza que a escolha pela emoção está fazendo o povo sofrer, e faz um apelo: “Alô políticos parem de usar o coração do pobre que não aguenta mais”. Dentro desse contexto, no início de 1994 João Marinho, secretário de infra-estrutura e Roberto Lopes secretário administrativo, também abandonam seus cargos em decorrência do descontrole que havia se instalado. Queixando-se da falta de apoio do chefe do executivo, Roberto Lopes diz que as medidas necessárias para mudar a política de Conceição do Coité, não foram concretizadas, muito pelo contrário, o período no qual estivera dentro do governo, 15 Tribuna Coiteense. Outubro, 1993. p.2. 16 Em entrevista para a Tribuna Coiteense, o prefeito utiliza o argumento do excesso de funcionários para justificar o não pagamento do 13º salário. Tribuna Coiteense, 15 a 30 de Novembro de 2009, p.5 . 17 Tribuna Coiteense. 2ª quinzena de Novembro, 1993.p.3.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 45. 45 percebera que haviam feito pior, não seguiram os planos traçados antes da eleição, e nessas conjunturas observa que: A postura política administrativa do prefeito Diovando Carneiro é extremamente favorável ao grupo de oposição, liderado pelo ex-prefeito Hamilton Rios. Se eles souberem trabalhar e aproveitarem o que ocorre na prefeitura podem se considerar novamente os donos da política de Coité. ( Jornal A Tarde, 22 de abril, 1994) Com o abandono de três secretários, a Tribuna informa: “dos cinco prefeitos agora só restam dois... Adivinhe quem são”, e estampa uma caricatura do prefeito se despedindo dos antigos funcionários e o genro de Vando, Hélio Carneiro, por trás contente com a situação. Neste período a tribuna endurece ainda mais as reclamações, principalmente direcionadas ao governo de “genro e sogro”, associando a situação a um tipo de nepotismo. A partir de 1992, o Brasil havia passado por um processo de transformação com a emergência de um novo governo no cenário nacional. Itamar Franco assume a presidência e no ano seguinte os brasileiros tem a oportunidade de escolher por meio de um plebiscito, qual seria a forma de governo no país. Na Bahia, ocorrera o retorno de Antonio Carlos Magalhães ao poder, este que sempre fora aliado da família Rios através de trocas de favores e apoio político. Assim, Diovando encontrava em seu trajeto algumas barreiras criadas pelos oposicionistas para alcançar apoio estadual. Muitas das obras foram conquistadas com recursos unicamente da prefeitura, mas isso não era mencionado nos jornais, que pouco se referia à marcos simbólicos ou funcionais adquiridos na época. Um grande exemplo disso, é a “pouca importância” que foi dada à construção do Centro de Atenção Integral à Criança (CAIC), maior obra já adquirida pelo município. Nenhuma informação é passada para a população local acerca do funcionamento da instituição e de sua importância para a cidade. Do mesmo modo, pouco repercutiu nas páginas da Tribuna Coiteense, a fixação de um busto no centro da cidade em homenagem à Wercelêncio Calixto da Mota, coronel influente, representante político dos “azuis”. Atitude carregada de simbolismo, e representatividade, fazendo jus à expressão “Coité de Seu Mota” popularizada entre os coiteenses. Em alguns casos, como a construção do Ginásio de Esportes o jornal aborda as disputas dos políticos pelo mérito em ter conquistado a obra, e fala da participação de deputados estaduais mas pouco se referia ao Governo Vando, como articulador do projeto em apoio ao esporte.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 46. 46 Ao contrário, os problemas administrativos, rechearam as páginas sempre com muita agressividade e humor. A coluna Boca de trombone criticou o prefeito pelos outdoors colocados na cidade, a micareta que não aconteceu, a falta de peças teatrais no Centro Cultural, a tampa do esgoto do Mercado municipal que estava quebrada e em tom irônico elogia a prefeitura, porque “tapou uns buracos”, se referindo a pavimentação de algumas ruas. Em se tratando do Governo do coração, nenhum detalhe escapou aos olhos dos críticos, que exigiam do novo representante as melhorias e as transformações na estrutura da política administrativa municipal. 3. 2 “Amizade e política não se misturam” As discussões acerca da “mudança” que Vando representaria começa logo nos primeiros anos de mandato. O discurso jornalístico se volta para o novo governo exigindo as melhorias que haviam sido prometidas durante a eleição, visto que nesta fase se anunciava uma realidade nova que estaria mais próxima das aspirações do povo, e o resultado não condizia com o que fora prometido. É interessante perceber, o modo como se associa a miséria da população, à administração de Vando, como se anteriormente não existisse dificuldade, sendo estas resultado do mau funcionamento do governo. Em matéria intitulada: “mudou o que?”, Wellington Carneiro, relembra os possíveis motivos que influenciaram os eleitores a votar na chapa que iria “Salvar Coité” nas eleições de 1992, apontando para alguns aspectos que permaneceram imutáveis apesar de existir um “grupo” diferente no poder. Os coiteenses teriam votado em um novo nome para que os erros fossem corrigidos, contudo: Continuou o empreguismo, nepotismo, clientelismo e sobretudo a permanência nos cargos daqueles que faziam parte das administrações anteriores e que foram alvo de denúncias de superfaturamento e desvio de materiais (Tribuna Coiteense, 1ª quinzena de Fevereiro de 1994) O artigo, demonstra a insatisfação e o baixo prestígio que o Governo Vando adquiriu no meio social. A falta de um planejamento financeiro e um quadro de funcionários que colaborasse com a realização dos projetos pensados pelo grupo emergente possibilitara uma perda de direcionamento do sistema administrativo por parte do responsável que era o chefeCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 47. 47 do executivo. Isso acontece, pois o terreno construído estava propício para a constituição dos planos do partido hegemônico, e era resultado de uma dominação anterior solidificada durante vinte anos de monopólio do poder. Deste modo, para haver uma transformação na estrutura administrativa que viesse atender aos anseios do novo grupo ascendente, seria necessário o estabelecimento de novas relações pessoais que garantissem o apoio aos novos projetos, como afirma Weber: [...] toda pessoa que queira romper uma dominação deve criar um quadro administrativo próprio para possibilitar a própria dominação, a não ser que possa contar com a conivência e a cooperação do quadro existente contra o senhor precedente. (1991, p. 174) Mesmo depois de estabelecidos alguns reajustes no sistema administrativo, nos últimos dois anos de mandato, Vando encontrou outros problemas que atuaram de modo a desgastar a sua imagem enquanto gestor dos bens públicos. Apesar de sua “cordialidade” no trato aos opositores e atravessadores, os mesmos não o tratavam com igualdade, aproveitando-se estrategicamente das brechas deixadas por ele, que tinha uma câmara municipal recheada de vereadores fazendo oposição ao seu governo. A primazia em manter o respaldo perante a sociedade, em meio às pressões opositoras encurtaria o trajeto político de Diovando Carneiro, antes mesmo de completar o tempo legal de sua gestão. Em decorrência da série de complicações que o novo Governo passara, no último ano de seu mandato, Diovando foi convidado a participar de uma entrevista na Rádio Regional AM de Serrinha, para esclarecer questões referentes a sua administração e a algumas atitudes adotadas por ele. Uma discussão entre Vando e o vereador Murilo Duarte ganhou destaque, esta que fora resultado da atitude do vereador em exigir dos responsáveis pela TV Cultura do Sertão a devolução dos transmissores de televisão comprados pela prefeitura que por ocasião se encontrava sobre posse deles. O prefeito que havia tomado conhecimento de uma denúncia do vereador Adauto Mota em decorrência de tais aparelhos, tentou negociação com os responsáveis pela TV, os senhores José Carneiro e Hélio Carneiro, mas não obteve sucesso, então pretendia recuperá- los por via judicial, e a atitude do vereador Murilo não agradou o líder do executivo. O atrito entre eles foi divulgado pela oposição como se houvessem ocorrido atos de agressividade por parte do prefeito contra o vereador, na tentativa de desmitificar a imagem do DiovandoCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 48. 48 “amigo de todos”. O prefeito então pede desculpas por ter tratado Murilo com indelicadeza, e se justifica: [..] não dei soco no Murilo é mentira [...]. Mas apenas para não conversar mais eu dei uma puxada pelo braço essa é a grande verdade, foi somente isso que aconteceu. E até para alguns mentirosos, aproveita dessas coisas por motivos políticos acrescentaram para dizer que o prefeito andou trocando tapa com secretário e com vereador no meio da rua. (Diovando Carneiro, 04 Mar 1996) A presença de Murilo ao lado de Diovando no momento da entrevista, chamou a atenção do entrevistador, e o fez crer que as informações que foram passadas a ele por meio de um companheiro de rádio de Conceição do Coité não condiziam com a realidade. Os opositores aproveitavam os deslizes do prefeito como estratégia, visto que Diovando sempre valorizou a imagem que seu povo teria dele, em contrapartida, o prefeito tentava a todo o momento se justificar e acreditava que entregar a questão à justiça o isentaria da responsabilidade “mostrando ao povo coiteense” que ele não havia feito as doações para a TV Cultura. A partir de 1995, André Almeida Gonçalves, toma posse da secretaria de administração do município e inicia uma tentativa de reajuste nas pendências envolvendo o salário dos funcionários públicos. Neste período, o Tribuna Coiteense desloca o foco do prefeito para o administrador e passa a explorar a imagem de outros políticos em decorrência da proximidade das eleições. Em tom propagandístico, aponta as ações do novo administrador como benéficas e prova de “capacidade”, encarando positivamente as suas práticas “diferenciadas”, que estariam provocando contentamento na população que “já vê o governo Vando com melhores olhos”18. Na ocasião, André estava cotado para se lançar como candidato a prefeito pelo PL em oposição a Misael e Ewerton Rios, contudo acabou por não se candidatar. Nesse contexto, outro ponto muito enfatizado na entrevista era a relação de amizade entre alguns funcionários e o prefeito, que estaria desagradando os vereadores. No período André foi muito elogiado tanto pelos jornais quanto pelo próprio Diovando que sempre afirmava que sua atuação como administrador minimizou as irregularidades e “arrumou a casa”. No entanto os vereadores não aprovavam o seu trabalho, segundo Diovando, em razão de André ter denunciado os débitos que os antigos gestores haviam deixado com o INSS, e que várias vezes bloquearam o FPM (Fundo de Participação dos Municípios). Sendo os 18 Tribuna Coiteense, Nº 98, Conceição do Coité, 11 de maio de 1996.p. 4.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 49. 49 vereadores em maior parte ligados ao antigo prefeito, a atitude teria provocado tal rejeição. No entanto a opinião alheia não afetava a amizade de André com o prefeito pois, na visão de Vando seria uma ingratidão “não enxergar todo o trabalho que ele teve com a prefeitura, com a contabilidade”. Diovando não dava importância ao status que o cargo de prefeito lhe dava, e após assumir o posto, mesmo instituindo um funcionário para ser motorista de uma ambulância que conseguira adquirir para o município, continuou fazendo o trabalho filantrópico, não com a mesma assiduidade de antes, mas carregava consigo a idéia de que aquela seria uma das formas de ajudar o povo. “Não tinha idéia da pessoa jurídica que representava” e contradizendo seus preceitos de que amizade e política não se misturam, confiava excessivamente em algumas pessoas julgadas por ele como amigos fiéis. Com o tempo, a relação de confiança que era estabelecida entre o novo prefeito e sua equipe proporcionou um consequente descontrole na tomada de decisões. Ao ser questionado durante entrevista para a Rádio Regional, acerca das reclamações que o povo fazia da má distribuição de água no carro-pipa, o prefeito isenta o responsável da culpa, a fim de evitar conflitos e demonstra total confiança em sua palavra: Porque eu sempre acreditei, sempre acreditei no Aldomir e muitas e muitas vezes cheguei a dizer e eu continuo com essa tese de que se Aldomir diz “eu botei 60, 70 , 80 viagens de água”, eu tenho certeza que ele botou! E por isso eu volto a lhe dizer que não tenho nada contra o vereador Aldomir, ele tem demonstrado ser meu amigo apesar de em alguns momentos ter dado algumas escorregadinhas, falado alguma coisa contra, talvez contra mim contra a prefeitura, mas de qualquer maneira eu volto a lhe dizer que eu acredito no seu Aldomir, tenho ele como um bom cidadão, mas o povo diz: “há ele enriqueceu tirando dinheiro do povo”. “Ele ganhou dinheiro trabalhando”, a minha resposta sempre foi essa, não quero atrito com vereador. ( Diovando Carneiro, 04 Mar. 1996) As “escorregadinhas” do vereador, não seriam motivos para o prefeito “desconfiar” de sua palavra, pois o mesmo tinha demonstrado ser seu amigo, ainda que critique a sua atuação enquanto prefeito. Neste sentido ele tenta manter o equilíbrio nas relações, e por isso defende o responsável para evitar conflitos . Nas eleições de 1996, os jornais expressam a posição de Diovando Carneiro “em cima do muro”, com relação ao candidato que daria apoio. Havia especulações de que estaria ao lado de Ewerton Rios por indicação de Antônio Carlos Magalhães, visto que Misael faziaCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 50. 50 parte de um partido de oposição no período e o próprio prefeito afirmou em entrevista que não seria favorável à quem se opusesse ao governo carlista: Com referência a Misael, eu não tenho nada contra [...], eu acho que é um bom nome, não apóio essa é a grande verdade, não marcho com ele porque ele está num partido de esquerda. Acho que ele não foi inteligente quando saiu do PL para ingressar no PSDB e saiu candidato a deputado, eu tenho muita amizade com o grupo do senador Antonio Carlos Magalhães, todos meus amigos políticos inclusive o doutor Otto Alencar são todos ligados ao governo do Estado. Tenho uma ligação muito grande com Paulo Souto, tenho ainda que trazer algumas obras para Conceição do Coité [...]. ( Diovando Carneiro, 04 , Mar. 1996) Apesar de declaração favorável à direita e a negação à candidatura de Misael, Vando permanece neutro quanto à Ewerton Rios. Com formação política inserida numa realidade de práticas clientelistas, reconhece a necessidade que tem de caminhar ao lado das forças estaduais para conseguir as obras em benefício à população, seguindo a lógica da troca de favores, antigas relações na qual o apoio aos governantes estaduais é garantia de benefício. Nesse sentido também manifesta as suas dificuldades diante das atitudes dos adversários atravessadores que “complicam” suas relações com as lideranças estaduais impedindo a realização de seus projetos. Além dos adversários embargarem o contato com as lideranças estaduais, o prefeito foi denunciado pelo vereador Adauto Mota no tribunal de contas para o esclarecimento de “irregularidades administrativas”, como a contratação de funcionários sem realização de concurso público, e a não exigência de notas fiscais de venda ao consumidor ou de prestação de serviços o que provocaria a evasão das receitas, visto que se efetuava o pagamento de fretes sem a exigência do ICMS, lesando o Estado da Bahia e também o município que recebe uma quota parte desse tributo19. O mesmo vereador estaria articulando uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para verificar as irregularidades cometidas pela equipe de Vando. O fato chamou a atenção nos jornais por se tratar do primeiro caso na história do município, o qual nunca ocorrera uma CPI mesmo havendo irregularidades nas gestões de prefeitos anteriores. A reação dos adversários de Diovando é expressa no Tribuna Coiteense, em matéria onde afirma que “As contas de Vertinho foram recusadas pelo Tribunal de Contas com mais de 250 irregularidades. A Câmara aprovou. As Contas de Vando foram aprovadas pelo Tribunal de Contas e a 19 Denúncia protocolada sob nº TCM 7.937/94, contra o Sr. Diovando Carneiro Cunha, prefeito do município de Conceição do Coité. Disponível em: www.tcm.ba.gov.br/sistemas/textos/1994/delib/07937-94.DOC.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 51. 51 Câmara de vereadores de Coité desaprovou.”20 O redator ao mesmo tempo que se questiona o porque de tal atitude percebe as ameaças à Vando como sinônimo de perseguição política. O contexto pré-eleitoral motivou ainda mais os adversários em ações na tentativa de recuperar o poder. Familiares afirmam que na semana das eleições de 1996, Diovando recebeu ligações anônimas em sua casa com ameaças de ação contra improbidade administrativa e prisão o que provocariam terror psicológico no prefeito, que durante toda a caminhada como homem público carregava consigo a imagem de honesto e “amigo do povo”. Além da reação de opositores contra o seu governo a confiança exacerbada em alguns “amigos” provocou complicações de ordens ainda mais sérias. Documentos e folhas de cheque em branco assinados pelo prefeito teriam sumido dificultando ainda mais a situação perante o tribunal de Contas. No pleito de 1996 Misael e Gilberto (coligação PSDB, PL e PDT) disputaram uma vaga na prefeitura contra Vertinho e Resedá (coligação PFL, PPB e PAN), e em seus discursos assim como os “vermelhos”, também criticava as ações de Vando sempre se isentando da responsabilidade pelas falhas administrativas. Misael Ferreira que abandonou os cargos no início do governo, não considerava que a gestão vigente representasse os “azuis”, pois ele não tivera o poder em suas mãos e a gestão de Diovando não havia deixado sinais de mudanças: Vando não tinha a capacidade para dirigir um município como Coité não, um município muito complexo, com raízes profundas dos vermelhos e nós tínhamos que fazer uma transformação muito grande, e era esse o nosso projeto, mas Vando foi a verdadeira negação [...]. Era dois anos Vando, dois anos Misael na administração, criamos essa estrutura mas essa estrutura faliu. (Misael, 26 Jun. 2009). O discurso contra o Governo Vando não ajudou a campanha de Misael, pois pesar de ter abandonado o cargo não deixou de receber o salário de vice-prefeito e os candidatos adversários exploraram esse ponto durante a campanha para vencer as eleições. O triunfo da oposição com uma frente de 4.404 votos, suscitou burburinhos em toda a cidade, e o Jornal Coiteense21, anuncia que “o povo escolheu democraticamente o melhor - um administrador formado e com grande experiência”, numa colocação tendenciosa e reveladora da visão de que o “nível” de estudo determinaria uma boa administração. 20 Tribuna Coiteense, 26 de abril de 1996.p. 4. 21 A partir de 20 de junho de 1996, divergência entre os fundadores provoca a dissociação de Mário Silva e o Tribuna coiteense é transformado em jornal Coiteense.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 52. 52 3.3 As marcas da emoção O resultado da retomada do poder pelo antigo grupo hegemônico foi narrado nos jornais ao lado de uma notícia que chocou a população coiteense. Apesar de não apresentar sinais de desespero, Vando “andava bastante deprimido”22 preocupado com a situação da prefeitura e com uns papéis em branco que haviam sido assinados por ele e entregues a uma pessoa de sua confiança mas que não solucionou os problemas do município e não devolveu os ditos papéis. Segundo sua esposa, estava abatido também por ser acusado de roubar a prefeitura e na semana das eleições aparentava estado depressivo. Numa tarde do dia sete de outubro de 1996, quatro dias após as eleições municipais, o prefeito do coração foi encontrado morto em um casebre de sua propriedade na Fazenda Cavalo Morto. O Jornal A Tarde ao noticiou o suicídio de Diovando Carneiro como resultado da perda das eleições por Misael Ferreira e de uma possível ameaça de CPI afirmou que o prefeito havia construído um vasto patrimônio durante a sua gestão, como a aquisição de fazendas e segundo seus adversários políticos era um homem de “pouca cultura”. Em reação a tal colocação os familiares da vítima enviaram à redação do jornal documentos que comprovavam que o patrimônio de Diovando acumulado em mais de cinquenta anos não ultrapassavam noventa hectares de terra, sendo posteriormente a informação passada pelo mesmo jornal. 23 Inúmeras especulações foram feitas em relação às “verdadeiras” razões que motivaram o suicídio do prefeito. O Tribuna Coiteense apontou a atitude como resultante da vergonha que o mesmo sentira pelos problemas da prefeitura. Vando é retratado como um homem bondoso, mas que deu margem para que “pessoas inescrupulosas se infiltrassem no poder e tirasse proveito do dinheiro público”.24 Pessoas que teriam destruído a sua imagem e o fizeram deixar grandes dívidas na prefeitura. Contudo, junto ao corpo, estavam dois envelopes com dez manuscritos os quais foram entregues a justiça por Joilson Araújo que esclareciam as razões para o suicídio. Os textos são direcionados aos representantes da justiça local à população coiteense e aos amigos de Diovando, mas a maior parte são fragmentos começados 22 Maria Eridan Mascarenhas Cunha, depoimento prestado à polícia, 19 de novembro de 1996. 23 A Tarde. 8 de outubro de 1996 e 11 de outubro de 1996. 24 Jornal Coiteense, 12 de Outubro de 1996. p.2.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 53. 53 e não acabados direcionados ao secretário de administração André Almeida Gonçalves, a quem o prefeito atribui a culpa por ele “ter deixado este mundo antes do tempo”. A sua intimidade comigo era uma coisa de pai com filho mas por traz de tudo estava a sua maldade [...]. Confiava tanto em você que assinei cinco folhas de papel em branco, lhe entreguei a seu pedido dizendo você que era pra fazer defesas minhas no Tribunal de Contas do Estado quando na verdade você estava mal intencionado.(...) Qual a razão que você impediu de fazer concurso para botar essa firma para pagar aos funcionários da prefeitura [...] .Porque você escondeu a folha de pagamento da firma que presta serviço a prefeitura [...].Você não entregou esta folha a fiscalização quando você foi procurado pelo fiscal da polícia federal [...]. Me jogou contra meus amigos, como você foi perveço comigo. (Diovando Carneiro) Diovando faz uma série de questionamentos que evidenciam a falta de clareza nas ações administrativas aplicadas pelo secretário. Atitudes desconhecidas e que o prefeito provavelmente não tivera a coragem de questionar e fiscalizar pelo excesso de confiança e por isso expressa o sentimento de decepção e de culpa por ter colocado em risco o andamento do município. Um pequeno recorte de papel, possivelmente de jornal, encontrado junto aos manuscritos traz a informação de que o gestor, no momento da prestação de contas “fica obrigado a responder pelos atos praticados por si e pelos servidores do município”, e mesmo que o tempo de gestão se acabe as complicações continuariam a surgir. Deste modo, mesmo não se responsabilizando pelas corrupções, Diovando carregava consigo a culpa por ter dado liberdade a quem considerava como “amigo”. Contrariando especulações de que o prefeito estava desesperado porque Misael perdeu as eleições, Diovando revela as razões psicológicas que o fizeram tomar esta “triste decisão”: Meus amigos, esse meu desespero não tem nada haver com resultado das eleições. Votei no candidato que perdeu, mas já não tenho mais condições psicológicas para trabalhar e isto não fez com que eu tomasse esta triste decisão, os motivos são outros. O motivo da minha agonia e desespero é estar com o nome sujo em minha terra e não fui beneficiado com nada de maneira dezonesta e vejo meu nome estraçalhado. Este mundo não presta mas para mim, pois estou passando vergonha já não aguento mais foi muitas as maldades contra minha pessoa procurei cer forte até quando não aguentei mas. A preocupação do prefeito com a possibilidade de “manchar” sua imagem pública em decorrência dos problemas que o mesmo não conseguia solucionar, seria então um dos motivos que o levou a optar por abrir mão do trabalho que fazia e deixar na memória a marca de um homem bom. Segundo Marcimedes Silva, o homem após o suicídio recupera a imagemCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 54. 54 de ativo e dono da própria vida e de suas decisões, capaz de influenciar a realidade em que estava inserido. Na visão do autor tal atitude é um ato de comunicação que faz ecoar uma voz que estava calada ou que não tinha alcance no meio em que vivia. Isso acontece porque "... o indivíduo ao morrer, "passa a viver". Ele ai, então, expressa muito de seu estado emocional e de sua interioridade que não foi possível comunicar em vida." (DIAZ, apud SILVA, 1992, p.92). Neste sentido, as imagens do caráter caridoso, do homem livre de interesses pessoais e financeiros que viveu para ser “escravo do povo” e sustentáculo da família, como ele mesmo se intitulou, permaneceria mesmo em meio a tantos conflitos, embates e após críticas e acusações. Um governante com especificidades que o destacou diante dos demais e fizera o povo o escolher rompendo o cordão de ligação simbólica com a família Rios, mas que foram insuficientes para garantir uma transformação estrutural que o mesmo não pretendia fazer. Perante a sociedade, ficou as marcas de um ser emocional, que é lembrado e defendido pela população mais carente acompanhante de sua trajetória, e que garante que “em Coité nunca haverá alguém como ele”. Neste sentido a administração de 1992- 1996 é reveladora de um momento único na história de Conceição do Coité, no qual as estruturas permaneceram intactas, mas o imaginário local conhecera o único período em cerca de 30 anos, no qual foram mescladas as cores do poder.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 55. 55 CONSIDERAÇÕES FINAIS Dentro do contexto de dominação tradicional, na campanha de 1992, a imagem popular dominou com maestria o cenário de oferta simbólica de imagens privilegiando a afetividade como norteador da opção de voto. Características peculiares e inerentes a Diovando Carneiro Cunha que foram capazes de ocultar as diferentes “cores” da política local em prol de uma união que representaria todo o povo coiteense. Sentimentos diversos fizeram com que sobrepujasse a cultura política local agregando ao seu favor eleitores de ambos os grupos políticos numa campanha onde “azuis e vermelhos eram irmãos” desafiando a legitimidade do líder que já havia construído um poder acima de tudo simbólico. No campo das representações atuou como uma forma de superação do capital emocional, das características carismáticas em relação ao poder econômico e tradicional vigente. Significa uma ruptura com a devoção aos hábitos costumeiros, com a opção do eleitor pelo candidato “econômico” e um redirecionamento para a pessoalidade e atributos de aproximação afetiva. Do ponto de vista estrutural não houve mudanças no cenário político com a chegada da oposição ao poder representada por Diovando Carneiro. Seu governo obedeceu ao movimento das estruturas vigentes, não havendo superação de modo que ocorreu um retorno às raízes tradicionais da política municipal. Os mesmos fatores que serviram de sustentáculo para dar vitória a Diovando Carneiro, proporcionaram o seu enfraquecimento. Sua cordialidade, carisma e desprendimento ideológico com um grupo político partidário fizeram com que ele perdesse o controle diante dos variados interesses e da pressão adversária que o julgava como incapaz, analfabeto, um mero “carregador de defunto” que por ousadia caíra nas estradas do terreno público. De modo que a estrutura na qual governou não havia sido montada por ele, mas aceita a fim de evitar possíveis conflitos, e manter a sua imagem de pacífico, de amigável e cordial. Diovando tentara fazer um governo “diferente”, sem perseguições a adversários políticos, guiado por suas concepções de caridade, serviu a todos menos a si mesmo. Não era Diovando que estava despreparado para trabalhar pelo povo, mas o município de Conceição do Coité não tinha estrutura para aceitar as possíveis mudanças principalmente nas ações, libertas de métodos persuasivos de domínio que Vando objetivava fazer. Transformações profundas que para acontecer teriam que “ferir” o nome de um homem que vestiu a capa de caridoso e cordial e conseguiu manter no imaginário local a imagem de mera vítima de suas emoções, o prefeito do coração.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 56. 56 REFERÊNCIAS AMADO Janaína; FERREIRA, Marieta de Morais (orgs.). Usos e abusos da história oral. 7.3D.Rio de Janeiro:Editora FGV, 2005. ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. 7. ed. Rio de Janeiro, Sabiá, 1973. AZANBUJA, Darcy. Introdução à Ciência política. 7. ed. Rio de Janeiro: Globo, 1989. BARREIRA Irlys. Chuva de papéis: Ritos e símbolos de campanhas eleitorais no Brasil. São Paulo, Relume Dumará, 1998. BEZERRA, Ada Kesea Guedes. Sentimentos e emoções no espaço da política. Uma leitura da prática eleitoral no cenário midiático. BOCC. Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação, v. 11, 2008. BORBA, Julian. Cultura política, ideologia e comportamento eleitoral: alguns apontamentos teóricos sobre o caso brasileiro. Opnião Pública, Campinas vol. XI, nº 1, Março, 2005, p.147-168. CAPELATO, Maria Helena Rolin. História Política. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n.17, 1996. CARVALHO, José Murilo de. As metamorfoses do Coronel. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 6 maio 2001. CARVALHO, José Murilo de. Mandonismo, coronelismo, clientelismo: uma discussão conceitual. Dados-Revista de Ciências sociais. Rio de Janeiro: IUPERJ, V.40 N. 2, 1997. CAVALCANTE, Maria Juraci Maia. O jornal como fonte privilegiada da pesquisa histórica no campo educacional . Faced/ UFC. COUTO, Clari Alves Ferreira. Orar e Vigiar. O Poder Disciplinar da Religião como Representação do Pecado na A.D. de Conceição do Coité. Dissertação de Pós-Graduação Latu Sensu . Especialização em História-UEFS, 2001. FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 3. ed. São Paulo: Globo, 2001. FERREIRA Marieta de Moraes. A Nova “Velha história”: O retorno da história política. Estudos históricos, Rio de Janeiro, vol.5, n. 10, 1992. FLORES, Elio Chaves. Nós, os bárbaros. Sæculum 3 janeiro/ dezembro 1997. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 20.ed.. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 57. 57 KUPERMANN, Daniel. Perder a vida, mas não a piada O humor entre companheiros de descrença. In: Kupermann, D.; Slavutzky, A. (orgs.) Seria trágico…se não fosse cômico. Humor e psicanálise. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. KUSCHNIR, Karina. CARNEIRO, Leandro Piquet. As dimensões Subjetivas da Política: Cultura política e Antropologia da política, Estudos Históricos. 1999. LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo. 3. ed.Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira.1997. LE GOFF, Jaques. História e Memória. Campinas: Editora da UNICAMPI, 1996. LEMENHE, Maria Auxiliadora. Família, Tradição e Poder: o (caso) dos coronéis. São Paulo: ANNABLUME/Edições UFC, 1995. LOPES, Roberto. Vitórias de Amor e paixão por Coité. Conceição do Coité: Nossa Gráfica. LOPES, Roberto. Palavras ao vento. Conceição do Coité, 2009. LUNA, Luísa de Marilac Luna. A disputa de sentidos na mídia em dois momentos: A construção da imagem de Lula no HGTV e na cobertura de Veja nas Campanhas eleitorais de 1989 e 2002. Belo Horizonte, 2002. MATIAS, Fernanda Carla.O coronelismo no século XXI. Revista Contexto Político. Maringá, Agosto e Setembro de 2007. MATOSO, Kátia Maria de Queirós. Bahia Século XIX. Uma província no Império. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992. NEVES, Erivaldo Fagundes. História regional e local.In: História Regional e Local: fragmentação e recomposição da história na crise da modernidade. Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira de Santana; Salvador: Arcádia, 2002. OLIVEIRA. Vanilson Lopes. Conceição do Coité – A Capital do Sisal. Universidade do Estado da Bahia,1993. OLIVEIRA. Vanilson Lopes. Conceição do Coité: Os sertões dos Tocós. Conceição do Coité: Clip Serviços Gráficos, 2002 PINTO, Surama Conde Sá. Revisando “velhas” questões: Coronelismo e clientelismo na Primeira República Brasileira, PPGHIS/UFRJ. 1997. POLI, Silvia Thaís di. A Função Sinestésica do Jingle Político. Comunicação & Informação (UFG), v. 11, p. 22-31, 2008. QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. “O Coronelismo numa interpretação sociológica” In: FAUSTO, Boris (org.) História Geral da Civilização Brasileira.vol.8. São Paulo: DIFEL, 1975.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 58. 58 SANTOS, Francisco de Assis Alves. Na mira dos coronéis : cartas a um professor coiteense. Dissertação de Pós-Graduação Latu Sensu, Especialização em Estudos Literários, UNEB – Campus XIV, 2000. SILVA, Vera Alice Cardoso. Regionalismo: O Enfoque Metodológico e a Concepção Histórica. In: República em Migalhas: História Regional e Local. São Paulo: Marco Fero, CNPQ, 1990. SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. A modernização autoritária. In: LINHARES, Maria Yedda (org.), História Geral do Brasil, 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 1990.p 351-376. SOUZA, Ana Caroline Luiza. Análise do discurso aplicada em charges e cartuns políticos. Crátilo: Revista de Estudos Lingüísticos e Literários. Patos de Minas: UNIPAM, (1): 39- 48, ano 1, 2008 SKIDMORE, Thomas E. Brasil: de Castelo a Tancredo. 1964-1985. Mario Salviano Silva. (trad.) Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 1991.Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 59. 59 FONTES 1. JORNAIS TRIBUNA COITEENSE: 2ª quinzena de Dezembro de 1987 1ª quinzena de Fevereiro de 1988 2ª quinzena de Janeiro de 1989 28 de setembro de 1990 Outubro de 1990 15 a 30 de Novembro de 1990 19 de Fevereiro de 1993 2ª quinzena de Abril de 1993 1ª quinzena de Maio de 1993 2ª quinzena de Julho de 1993 1ª quinzena de Agosto de 1993 1ª quinzena de Setembro de 1993 Outubro de 1993 Novembro de 1993 2ª quinzena de Novembro 1993 1ª quinzena de Dezembro de 1993 1ª quinzena de Fevereiro de 1994 Maio de 1994 Julho de 1994 08 de Setembro de 1995 05 de Agosto de 1995 23 de Fevereiro de 1996 26 de Abril de 1996 11 de Maio de 1996 6 de Julho1996Create PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 60. 60 JORNAL COITEENSE: 20 de Julho de 1996 09 de Agosto de 1996 12 de Outubro de 1996 25 de Outubro de 1996 13 de Dezembro de 1996 A TARDE: 22 de abril, 1994 8 de outubro de 1996 11 de outubro de 1996. TRIBUNA DA BAHIA: 11 de Outubro de 1982 2. ENTREVISTAS Misael Ferreira de Oliveira, 28 de junho de 2009. Joilson Marcos Cunha Araújo, 02 de Julho de 2009. Aloíza do Carmo Pinto, 23 de Setembro de 2009. Celidonio Ramos Pinto, 23 de Setembro de 2009. 3.VÍDEOS Passeata da Vitória Diplomação no fórum Vando Prefeito dos PobresCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer
  • 61. 61 4. ÁUDIO Rádio Regional AM - 04/03/ 1996 ( 23:28 mim) 5.CORDEL Diovando Carneiro, o herói da caridade. 6. MANUSCRITOS 10 Cartas deixadas por Diovando CarneiroCreate PDF with GO2PDF for free, if you wish to remove this line, click here to buy Virtual PDF Printer