UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB      DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV              COLEGIADO DO CURSO DE LETRA...
GLEIDIANE PINTO DA SILVA CUNHAO PENAR E A PENA: uma investigação policial sob a ótica do                 discurso feminino...
O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer amulher: o jogo mais perigoso.Friedrich NietzscheA histó...
DEDICATÓRIAPoderia nesta ocasião usar uma expressão cristalizada do tipo: “Dedico este trabalho a todosque de alguma manei...
AGRADECIMENTOSA Deus, meu maior mestre, refúgio e renovação. Proporcionou-me esta oportunidade deconhecer pessoas excelent...
RESUMOO estudo na dimensão do olhar patriarcalista versus a transgressão sustenta-se no objetivo demapear a construção da ...
ABSTRACTThe study on the dimension of the patriarchalist gaze versus the transgression is sustained inthe goal to map the ...
SUMÁRIOINTRODUÇÃOPrimeiras pistas ...........................................................................................
8INTRODUÇÃOPrimeiras Pistas       A situação da mulher na sociedade brasileira é um dos temas que tem despertadomuito inte...
9para igualar-se ao sujeito autor, haja vista a impregnação, no pensamento social, sobre ainferioridade intelectual femini...
10atualizar as leituras sobre o tema. Almeja-se, ainda, ampliar os estudos em torno da obra eSônia Coutinho enquanto autor...
111   O PENAR E O OLHAR SOBRE A MULHER: narrativa literária e o    discurso histórico           A narrativa está irrestrit...
12             Desse modo, Sônia Coutinho adequa-se a esta modalidade de escrita que, aolançar ao público suas histórias, ...
13literários que estabeleciam uma representação de mulher para cada época vivenciada pelosescritores. No Romantismo, ideal...
14são narrativas que se distinguem por suas estruturas e obtêm suas forças a partir daverossimilhança2.             Durant...
15surgimento de mulheres escritoras, em especial, no Brasil ocorre a partir do século XIX, emdecorrência do crescimento da...
16              A escrita feminina brasileira amplia-se através de Rachel de Queiroz, no entanto,Clarice Lispector é que p...
17defende que o texto Oswaldiano representa a continuidade e a ruptura, tenta romper,entretanto, absorve tudo o que for fa...
18descritas pelas autoras retratavam o papel da mulher que se submete as normas sociais, masque desejava transgredir.     ...
19família da burguesia local” (COUTINHO, 1998, p. 32). E ainda, ao apresentar a protagonistada narrativa como uma mulher t...
20preconceito por parte da sociedade masculina que a enxergava como incapaz de exercer talfunção: “Ele me achava raceé dem...
21                        A escrita se torna, então, um espaço alternativo através do qual se possa [...]                 ...
22acontecer nas regras de relacionamentos e de papéis designados para a mulher. E tais papéisexcluem o direito de a mulher...
23             Sobre a relação entre texto e leitor, Rogel Samuel discute a respeito daimportância do leitor numa obra lit...
24interrogar e tentar subverter as perspectivas sociais impostas à mulher brasileiracontemporânea.
252 A PENA: a revelação de um discurso em crise            A escrita feminina embala o ritmo ainda lento do movimento, enq...
26            Os seios de Pandora, pois, configura-se em uma questão de gênero, porém, a elenão se restringe, porque a lit...
27mostram essa diferença, uma vez que se discute muito com relação à busca de igualdade? Umdesses aspectos são os discurso...
28               Para definir discurso, podem-se utilizar as palavras de Barthes (2004, p. 68)quando diz que “[...] discur...
29retratar os perfis e comportamentos femininos contemporâneos além de desmascarar ospreconceitos sofridos pela mulher na ...
30também o próprio cânone literário 8. Esse cânone se refere ao que fora imposto pelo sistemapatriarcal falocêntrico.     ...
312.2 A ambiguidade da pena na construção do eu feminino            A questão da identidade é um dos temas de grande reper...
32Tessa Laureano. Apesar de apresentar características inerentes à mulher contemporânea,busca uma identidade fixa que colo...
33trânsito, onde espaço e tempo se cruzam para produzir figuras complexas cujas identidadessão extremamente fragmentadas e...
34                        nos anos 80 [...] e assinalando uma transformação relativamente a centros de                    ...
35“Estava triste. Imaginou o que veriam nela as pessoas com quem cruzava. Uma mulhermachucada, barriguinha proeminente, bo...
36enfrentar diversos conflitos para buscar sua valorização enquanto ser humano sem levar emconsideração o sexo ao qual per...
373 PANDORA E SUA CAIXA: as surpresas da narrativa de Sônia Coutinho            A narratologia contemporânea permeia os es...
38entre a mulher e a mulher, isto é, há modelos que são revisitados e decifrados nesse gêneropolicial: mistério e investig...
39feminina são introduzidos para mostrar uma nova concepção de romance policial longe deestratégias tradicionais masculina...
40para o romance policial, que se tornou referência obrigatória. O autor classifica o policial emtrês modalidades: o roman...
O penar e a pena uma investigação policial sob a ótica do discurso feminino
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O penar e a pena uma investigação policial sob a ótica do discurso feminino

  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV COLEGIADO DO CURSO DE LETRAS GLEIDIANE PINTO DA SILVA CUNHAO PENAR E A PENA: uma investigação policial sob a ótica do discurso feminino Conceição do Coité 2011
  2. 2. GLEIDIANE PINTO DA SILVA CUNHAO PENAR E A PENA: uma investigação policial sob a ótica do discurso feminino Monografia apresentada ao Departamento de Educação da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), curso de Letras Vernáculas, como parte do processo avaliativo para obtenção do grau de Licenciada em Letras. Orientadora: Profa. Ms. Eugênia Mateus de Souza Conceição do Coité 2011
  3. 3. O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer amulher: o jogo mais perigoso.Friedrich NietzscheA história da mulher é a história da pior tirania que o mundoconheceu: a tirania do mais fraco sobre o mais forte.Oscar WildeA mulher é o negro do mundo. A mulher é a escrava dos escravos. Seela tenta ser livre, tu dizes que ela não te ama. Se ela pensa, tu dizesque ela quer ser homem.John LennonSe perdermos a ilusão do conhecimento, se só existem verdadessimuladas, o que seria para nós desvendar um mistério? O que seriadecifrar um enigma? É a tarefa infinita de impor uma interpretaçãosobre outra interpretação, o que, não se faz sem violência.Vera Lúcia Follain de Figueiredo
  4. 4. DEDICATÓRIAPoderia nesta ocasião usar uma expressão cristalizada do tipo: “Dedico este trabalho a todosque de alguma maneira contribuíram para minha formação”. No entanto, prefiro apontarpessoas, que são especiais e ajudaram-me de forma direta a chegar a este momento.Então...Dedico este trabalho à minha irmã, colega, amiga... enfim, companheira inseparável, Eliziane,que partilhou todos os momentos acadêmicos, ora de sufoco, ora de sucesso. Agora, aorelembrar tudo o que juntas vivemos, vejo o quanto foi importante a sua presença durante essepercurso. E apesar de tantas “Marias” em sua vida, colaborou de forma satisfatória para queeste estudo fosse concluído.Dedico, principalmente, à minha mãe, Maria Amélia, que, sempre presente, ouviu meuslamentos, acalentou meus soluços desesperados, só não pensou comigo meus trabalhos,minhas leituras, porque, (in)felizmente somente eu poderia fazê-los. Entretanto, esteve ali,cativa, cuidando de mim, nessa escalada íngreme que subi com muita garra, sentindo sua mãome sustentando.
  5. 5. AGRADECIMENTOSA Deus, meu maior mestre, refúgio e renovação. Proporcionou-me esta oportunidade deconhecer pessoas excelentes com quem houve uma troca efetiva de conhecimentos e aconquista de alcançar mais este nível de conhecimento e formação, além da graça de teclartantas horas a fio e conseguir transpor, ao menos, parte do que me propusera a fazer nestapesquisa. O que seria de mim sem a fé que tenho Nele?A minha mãe, pelo incentivo e cuidado próprio do seu devir efêmero e constante, na suasimplicidade. Ao meu pai que, com seu ar sério, deixou brilhar nos olhos, muitas vezes, oorgulho que sentia ao ter suas filhas em uma Universidade.A minha irmã, Viviane, que, com suas doces palavras, assegurou-me conforto, acalmou-meno desespero insistente, abriram-se o sorriso da confiança, aquiesceu meu desassossegocontínuo e clarearam o fundo do túnel onde às vezes me encontrava mediante excesso deleituras e escassez de vontade do relógio em se segurar.A minha Vó (Terezinha) que, com sua fé inabalável e carinho ilimitado, não se intimidou coma quantidade de orações e preces a fazer a cada etapa difícil a ser vencida por mim.Ao meu sobrinho Hiago, disposto à beleza da inocência juvenil, pelos favores e recadosdados, pelas horas quando me fazia rir, embora momentos não propícios à alegria (no caso, aminha) porque nuvens pesadas assombravam minhas horas com o desespero de quem correcontra o tempo...Ao meu esposo, pelo apoio e torcida para que este curso terminasse logo e mais, porcompreender, mesmo com dificuldade, tantas ausências e desatenções;Ao meu cunhado (Lêu), que no início da minha vida acadêmica carregou-me, literalmente,nos braços, quando pessoas negaram-me auxilio.E em especial, à minha Professora orientadora Eugênia Mateus, que me mostrou a beleza daarte literária através de seu apoio e inspiração no amadurecimento de conceitos e informaçõesque me levaram a escrita deste trabalho. Mostrou-me também que “penar” é preciso e nosajuda, através da desse processo „quase‟ catártico, chegar à “pena”. Foi sofrido, mas... euescrevi não com tinta carmim. Brinquei com o preto no branco... uma delícia! Umainvestigação nada convencional!
  6. 6. RESUMOO estudo na dimensão do olhar patriarcalista versus a transgressão sustenta-se no objetivo demapear a construção da escrita de autoria feminina enquanto narrativa policial, apoiado n‟Osseios de Pandora, de Coutinho, como corpus da pesquisa. Narrativa contemporânea, propíciaà representação dos discursos sobre a mulher - objeto do olhar na literatura de todos ostempos, porém restrita, na maioria das vezes, à submissão -, o romance retrata o femininoliterário, ameaçado por indicadores, cuja compreensão distancia-se do reconhecimento doprocesso antropofágico (HELENA, 1983) pelo qual passaria a mulher. A revelação do sujeitosob o penar dá-se através de um discurso em crise (CUNHA, 2001) e, pelo desenho autoral(TELLES, 1992) ambíguo da pena. A questão de gênero (CONFORTIN, 2003; ORSINI,2003) sobressai de uma caixa mitológica onde Pandora retrata desafios literários que, se nãomata, pode condenar pelo julgamento social, o qual Coutinho intervém, alegoricamente, comnarração sob gênero policial (TODOROV, 2006; PONTES, 2007) para as pistas da morte deTessa Laureano, a pintura da transgressão, com a maestria da escrita literária de retóricaconvincente plena de literariedade exigida pela arte. Com pesquisa bibliográfica, mais oumenos precisa, descortinou-se a aventura de um estudo desafiador justificado pelo interesse dereiterar novas perspectivas mediante ingresso feminino no mundo público, semnecessariamente, desvencilhar-se do privado. A autora, pois, revista, implicitamente, ahistória da opressão feminina e o faz através do gênero policial, a fim de provar, de pena empunho, que o ser mulher não mais segue padrões preestabelecidos de um penar sem fim.PALAVRAS-CHAVE: Discurso. Feminino. Narrativa policial.
  7. 7. ABSTRACTThe study on the dimension of the patriarchalist gaze versus the transgression is sustained inthe goal to map the construction of the writing of feminine authorship while police narrative,backed in Os seios de Pandora, Coutinho, as search corpus. Contemporary narrative,propitious to the representation of speeches about the woman-object of the gaze in literatureof all time, though restricted in most cases, the submission, - the novel depicts the literaryfeminine, threatened by indicators, whose understanding distances from the recognition of theanthropophagic process (HELENA, 1983) through which the woman would pass. Therevelation of the subject under the languishing takes place through a discourse in crisis(CUNHA, 2001) and, by authorial drawing (TELLES, 1992) ambiguous sentence. The genreissue (CONFORTIN, 2003; ORSINI, 2003) stands out from a mythological box whichPandora depicts literary challenges which, if not kill, you can condemn by social trial, whichCoutinho intervenes, allegorically, with narration in police genre (TODOROV, 2006;PONTES, 2007) to the vestiges of death of Tessa Laureano, painting of transgression, withthe mastery of literary writing of persuasive rhetoric full of literariness required by art. Withbibliographic search, more or less precise, opened up the adventure of a challenging studyjustified in the interest of reiterate new perspective through the participation of women in thepublic world without necessarily, extricate itself from private. The author, therefore, revised,implicitly, the history of womens oppression and does so through the genre police, to prove,pen in hand that woman being no longer follows predetermined patterns of an endlesslanguishing.KEY-WORDS: Discourse. Feminine. Police narrative.
  8. 8. SUMÁRIOINTRODUÇÃOPrimeiras pistas ................................................................................................................... 081 O PENAR E O OLHAR SOBRE A MULHER: narrativa literária e o discurso histórico ...................................................................................................................... 111.1 Mulher e sociedade burguesa: objeto de prazer e de escrita ...................................... 121.2 Antropofagia e o deglutir da imagem feminina no século XX ................................... 161.3 Tessa Laureano e a contemporaneidade: a pintura de uma revelação ........................ 202 A PENA: a revelação de um discurso em crise ......................................................... 252.1 Sônia Coutinho e o desenho discursivo da mulher contemporânea ........................... 262.2 A ambiguidade da pena na construção do eu feminino .............................................. 312.3 Os seios de Pandora: uma questão de gênero ............................................................ 333 PANDORA E SUA CAIXA: as surpresas da narrativa de Sônia Coutinho ............. 373.1 Seios e Pandora: pistas de um gênero policial ........................................................... 383.2 Tessa Laureano e a morte na Literatura feminina ...................................................... 453.3 Um caso para estudo: a transgressão literária e a feminina ........................................ 48CONCLUSÃODesvendando pistas... a queda do penar e a lição deixada pela pena .................................. 51REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 54
  9. 9. 8INTRODUÇÃOPrimeiras Pistas A situação da mulher na sociedade brasileira é um dos temas que tem despertadomuito interesse aos pesquisadores de diversas áreas das Ciências Humanas. Com relação àLiteratura, as mulheres, através da escrita, firmaram-se no amplo universo literário e aprincipal mudança pela qual atravessou essa autoria é o fato de essas escritorasconscientizarem-se quanto a sua liberdade de expressão. Este trabalho pretende adentrar discussões que se propõem a analisar, discursivamente,a escrita feminina em textos literários, bem como ressaltar a situação da mulher enquantopersonagens de romances e como ser social perante uma sociedade preconceituosa. Para tanto,foi tomado como objeto de pesquisa o romance Os Seios de Pandora, da escritora baianaSônia Coutinho, com o objetivo de mapear a construção da escrita de autoria femininaenquanto narrativa de gênero policial. O trabalho foi esquematizado a partir dos seguintes questionamentos: Seriam Os seiosde Pandora uma narrativa contemporânea marcada pelo espaço urbano propício àstransgressões da escrita feminina que aponta para o gênero policial? Quais elementosutilizados por Sônia Coutinho na construção de Os Seios de Pandora fazem a obra aproximar-se do gênero policial sem desqualificar o texto literário? Estariam os elementos deliterariedade transpostos na escrita de Os seios de Pandora como um jogo alegóricoafirmativo da qualidade da escrita feminina tanto quanto a masculina? Diante desses questionamentos foram levantadas hipóteses que serviram de basepara o desenvolvimento da pesquisa. Nessa perspectiva, supôs-se que Os seios de Pandoraestruturam-se em forma de gênero policial, provavelmente, como estratégia de desvendartanto o grande mistério que rodeia o crime de Tessa Laureano – uma das protagonistas danarrativa – como também buscar pistas para desmascarar a realidade de uma escrita nemmasculina nem feminina, mas aquela que transpira arte, distante da visão da escrita de gêneroou escrita feminina. Sônia Coutinho, talvez, tenha se utilizado de elementos comuns aopróprio texto literário, para a confirmação de uma escrita consistente de arte e beleza, porquedenuncia ao passo que desperta o prazer do texto, principal função da literatura. E, ainda, oselementos de literariedade estariam transpostos na escrita de Os seios de Pandora para criar adimensão artística através da alegoria e, assim, dissipar um jogo segundo o qual começa ahistória de mulher ativa no meio social, não para se colocar à frente da escrita masculina, mas
  10. 10. 9para igualar-se ao sujeito autor, haja vista a impregnação, no pensamento social, sobre ainferioridade intelectual feminina. Para responder a tais questões, fez-se a releitura e análise da obra com base em críticosque discutem a escrita literária de Sônia Coutinho, a escrita de autoria feminina, em geral,bem como a composição literária, além de textos que trazem abordagens a respeito do gêneropolicial atrelado a escrita da mulher. Utilizou-se a pesquisa bibliográfica para o desenvolvimento desse estudo, pelanatureza do objeto de trabalho. O trabalho estrutura-se em três capítulos por onde tanto arevisão bibliográfica como a fundamentação teórica percorreram junto à análise da obra, umavez que o constante diálogo com autores que discutem sobre o mesmo tema facilitou a escritado texto. No primeiro capítulo discute-se o olhar que se tem sobre a mulher em narrativasliterárias, tanto como personagens quanto escritoras, além de ilustrar a influência do discursohistórico na construção literária, haja vista a arte acompanhar todas as transformações sofridaspela sociedade. A figura feminina, resultado de um processo de antropofagia, revela-se sobdiferentes formas e épocas, contemporâneas ou não aos autores, e, pari passu, ganha voz econstrói seu próprio discurso. O segundo capítulo enfatiza a questão do discurso feminino empregado no processo deescrita literária e o que o diferencia ou não da escrita masculina. Nesse momento, discute-se oconceito de autoria feminina e as condições sob as quais a autora Sônia Coutinho escreve seustextos e abre espaço para as discussões de gênero, além de apresentar personagens quebuscam uma identidade não mais atrelada a parâmetros patriarcalistas. Uma escrita de basesliterárias descrentes do gênero do criador para qualificar a arte. No terceiro capítulo expõe-se uma discussão a respeito dos artifícios literáriosutilizados por Sônia Coutinho que aproximam a obra do gênero policial sem desqualificar otexto literário, já que muitos críticos consideram o romance policial como uma degradação daliteratura. Percebe-se, pois, a transgressão tanto literária quanto feminina nos textos da autora,ao tratar de temas polêmicos que despertam atenção do leitor, como é o caso da morte –característica recorrente em textos de autoria feminina, como alegoria à divisão que condenaos desafios encarados pela mulher. Pretende-se, com esse estudo, o acréscimo das discussões que motivaram odesenvolvimento da pesquisa e a contribuição à abertura dos horizontes sobre o estudo críticoda produção literária brasileira de autoria feminina, mais especificamente, na Bahia, a fim de
  11. 11. 10atualizar as leituras sobre o tema. Almeja-se, ainda, ampliar os estudos em torno da obra eSônia Coutinho enquanto autora do campo de escritoras que discutem e criam imagens demulheres na ficção brasileira contemporânea que a cada dia introduz novos conceitos emudanças em sua forma de escrever, como é o caso da escrita de romances no gênero policial. Atualmente, o discurso que se faz sobre a mulher não é mais atrelado a padrõesconvencionados socialmente, uma vez que, através da escrita de textos, sejam eles engajadosem diferentes gêneros literários, as mulheres romperam com o processo de silenciamento aoqual foram submetidas. Ao discutir a questão de autoria na contemporaneidade, a figurafeminina agora deve ser encarada como um sujeito que produz seu próprio discurso, seja emprol da defesa de sua classe, seja para mostrar a sua capacidade intelectual de escrita que, pormuito tempo, fora subestimada.
  12. 12. 111 O PENAR E O OLHAR SOBRE A MULHER: narrativa literária e o discurso histórico A narrativa está irrestrita à literatura. Sabe-se que tanto a história quanto aliteratura sempre andaram por caminhos entrecruzados. Um entrecruzamento marcado, porexemplo, nos romances históricos, embora se saiba que por mais que a ficção ou a históriaretomem o passado, ele surge apenas por recomposição. É um tempo fora do alcance, apenasretratáveis os aspectos sociopoliticoeconômicos de determinado tempo e/ou lugar. Há apenas a chance de os olhos da atualidade enxergar o passado. Desse ângulo,pode-se entender o compromisso maior da história com a aproximação da realidade. Ànarrativa literária cabe a liberdade da imaginação, à ficcionalidade descomprometida comverdades, mas com a plurissignificação por meio de jogos verossímeis, isto é, a possibilidadede existência. Este processo se dá mediante uma estruturação impregnada de subjetividades.Seja sob discurso histórico ou narrativa literária, as sociedades estampam-se na escrita e aexistência humana e seus comportamentos encontram-se retratados pelas palavras figuradasnum jogo alegórico próprio de representações do real. A arte literária, contudo, procura aproximar o leitor do fato narrado, porémdesinteressada da forma veraz de como o receptor olhará para a narrativa, por exemplo. Osjogos linguísticos produzem os seres de papel plenos de vida somente no espaço do textoassim como todos os elementos que se apresentem. Por detrás de seu discurso, pois, haveráuma carga crítica a ser considerada. Com estas colocações, entende-se o quanto o penar feminino demorara tanto parasucumbir. Autoria masculina viveu sob a prescrição de uma sociedade patriarcalista quecolocara a mulher em um espaço para ser ora venerada ora submissa. Como uma voz sufocadana garganta poderia manifestar-se com toda a repressão existente? Uma “falha” patriarcalista?! Permitiram às senhoras das fragilidades sociais aleveza da escrita e com que leveza pode-se desenhar todo o manifesto do senhorio feminino.A pena encontrou novas mãos cujas habilidades puderam mostrar ao mundo o pensamentofeminino que, sob a proteção da arte de criação literária, recompôs um legado histórico paraser avaliado por olhos leitores perspicazes para alcançarem as críticas ali desenhadas e àespera de algumas reconsiderações acerca de um legado obscurecido pelo discurso sobre afragilidade e submissão da mulher.
  13. 13. 12 Desse modo, Sônia Coutinho adequa-se a esta modalidade de escrita que, aolançar ao público suas histórias, deixa sempre por conta das variadas possibilidades de leiturase repensar a questão de gênero dentro e fora das narrativas. A mulher objeto de desejo eprazer, com o poder da escrita, mostra-se e como um processo antropofágico pode colaborarquanto ao repensar a mulher do século atual e como suas revelações chegam à sociedade.1.1 Mulher e sociedade burguesa: objeto de prazer e escrita Desde Platão e Aristóteles até os tempos atuais, a literatura, enquanto arte,acompanha todas as transformações da sociedade. Diante desse aspecto, é válido salientar queinúmeras mudanças nas estruturas sociais marcaram o grande processo de expansão mundialno século XIX, e a literatura inclui-se nesse processo transformador. Nesse período, a sociedade impactada vê surgir em seu seio grupos determinadosa conquistar espaços nos mais variados segmentos sociais. Desde trabalhadores aos gruposfeministas vão-se cortinando situações inusitadas ao que se registrara até então. Surgemmovimentos sociais femininos apoiados pela expansão da imprensa e pelo surgimento da“Nova mulher” (TELLES apud DEL PRIORE, 2007, p. 402). E como consequência dessesavanços, surgiram as primeiras escritoras. É possível dizer que para a Literatura, o século XIX é considerado o momento doromance, quando se exclui, das narrativas, enredos que envolvem mitologias, lendas ehistórias do passado para empregar acontecimentos novos e cotidianos, como a prosa da vidadoméstica – a inserção da figura feminina como protagonista das histórias e não como apenasobjeto de companhia ao homem -, fato que contribui para a edificação da supremacia dasideias burguesas. Com novos enredos, há também uma mudança no quadro de leitores dessestextos. Esse público aumenta e dentro dele se encontram em grande quantidade as mulheresburguesas. O perfil das mulheres assim como o perfil da Literatura, em geral, modifica-se deacordo aos interesses e às transformações sofridas pela sociedade. Na Literatura, a mulher,como protagonista de romance foi apresentada a partir de parâmetros impostos por umasociedade patriarcal, onde era predestinada a ser objeto moldado para obedecer e satisfazer àsexpectativas dos pais e, posteriormente, as do marido. A figura da mulher na literatura, historicamente, como personagem – elementoconstitutivo do texto - foi revelada sob diferentes formas, principalmente, pelos movimentos
  14. 14. 13literários que estabeleciam uma representação de mulher para cada época vivenciada pelosescritores. No Romantismo, idealizou-se a figura feminina, como anjo, musa ou criatura -objeto de escrita - nunca criadora. As românticas e angelicais moças desse período eram oestereótipo da pretensão burguesa. Orsini (2003, p. 87) enfatiza que os romances românticosdesenhavam mulheres heroínas, especiais, frágeis, meigas, virgens... dignas de serem amadas. Durante o Realismo e o Naturalismo, teceu-se um discurso objetivo sobre amulher por dois ângulos: um pela „força do bem‟, enquanto submissa e dedicada e outro pela„força do mal‟ transgressora das atividades que lhes eram culturalmente atribuídas (TELLESapud DEL PRIORE, 2007, p. 402). Neste período, as personagens femininas aparecem comoobjeto de prazer. As mulatas retratadas nos romances como objeto sexual, símbolo desedução, estavam sempre ligadas a algum estereótipo pelo grande repúdio à figura negra nasociedade. A Literatura, como representação do real, trouxe pelo Naturalismo a demonstraçãode teses extraídas de teorias científicas 1, como por exemplo, a teoria da inferioridade dosmestiços. Os escritores representavam, em seus romances, portanto, a figura feminina deacordo com suas vivências. As ideias de Cândido (2000, p. 4-7) confirmam que toda escritado autor reflete sua concepção de mundo, sua ótica social, visto que, a influência do meioafeta o comportamento das pessoas, e estas possuem uma enorme ação sobre o artista.Enfatiza que a análise de uma obra deve observar a sua relação com o real, atentando-se parao contexto e as condições de produção sob as quais foram escritos. Quando a análise da obraobserva o contexto social, externo e interno revertem-se, a fim de que elementosextralingüísticos incluam-se como parte constituinte e de grande relevância na obra. A partirdessa ênfase dada ao externo (social) ilustram-se os costumes, as ideias e as tradições daépoca da escrita do texto. Interface história e ficção. Para confirmar essa interface, Gottschalk(apud HUTCHEON, 1991, p.148), discute que a história é tridimensional. Ela participa danatureza da ciência, da arte e da filosofia. E Hutcheon (1991, p. 150) ratifica: história e ficção1 Na segunda metade do século XIX, o “racismo científico” dominou vastamente o meio intelectual. Estas teoriasraciais desenvolvidas na Europa proclamavam a diferença qualitativa intrínseca entre as raças, e qual a “raçabranca” seria o estágio mais avançado do processo civilizatório da humanidade, e as demais raças (negros emulatos) seriam incapazes ou estariam ainda em estágio primitivo do desenvolvimento humano. Para estescientistas, a miscigenação formaria um ser mais desqualificado para a civilização do que qualquer raça pudesseconceber. Na verdade, havia uma preocupação do povo brasileiro em ser branco, já que o brasileiro não possuiuma característica definida (COSTA, 2006, p.134-36)
  15. 15. 14são narrativas que se distinguem por suas estruturas e obtêm suas forças a partir daverossimilhança2. Durante o período Realista da Literatura, muitos fatores influenciavam o destinoda mulher, como por exemplo, a classe social e a etnia. As moças não se casavam por amor,mas para atender aos interesses familiares. Esse fator veiculava a condição de inferioridade damulher com relação ao homem. O espaço que lhe cabia era o do lar, e traições eram“permitidas” somente para o marido, pois as esposas adúlteras tinham sua imagem maculadadiante da sociedade, principalmente, com moças de classe alta, preparadas somente para ocasamento, além de serem mulheres brancas ou descendentes. As mulheres pobres e mestiçastinham um outro destino: eram conduzidas ao trabalho doméstico escravo ou à prostituição. Ao longo desse século, a temática feminina em romances de autoria masculinacresceu de forma gradativa, pelo fato de as mulheres serem grandes leitoras desses textos.Contudo, essa escrita masculina caracterizava-se pela defesa da honra feminina, da virgindadedas moças e da fidelidade das mulheres casadas e pela limitação do espaço doméstico vistoque a incompatibilidade entre casamento e vida profissional feminina sempre fora reforçadano imaginário social. Argumentava-se que, com a prática de outras atividades, as mulheresnegligenciariam “seus” afazeres e sua atenção e cuidados para com o marido e filhos. Estesaspectos eram usados para justificar a instabilidade do matrimônio, no entanto, muitas vezes,essa instabilidade se dava pela incompreensão do cônjuge. Desse modo, todas as mulheresforam representadas para revelar uma prática idealizada como própria da condição feminina:aceitação das regras que lhes eram impostas. Segundo Kehl (1998, p. 108 apud PATRASSO e GRANT, 2007, p. 135), aliteratura do século XIX visava criar, “os códigos burgueses, de si e do lar, que compuseram oimaginário feminino sobre o casamento, moldando as expectativas românticas do amor-paixãopelo lado da literatura [...]”. Nesse contexto, pode-se observar a grande dificuldade da mulherem criar o próprio discurso a partir de suas representações desse século. Por esse aspecto, épossível dizer que, em relação à escrita de autoria feminina, o preconceito cresceu secomparado à mulher apenas como protagonista de romances. Mesmo representadas de modotão restrito aos acontecimentos sociais, as mulheres necessitaram romper com o processo desilenciamento e exclusão que sofreram ao longo da história literária. Desse modo, no Brasil, o2 O entendimento sobre verossimilhança é fundamental para o estudo da Literatura. Aristóteles postula queverossimilhança “não é o oficio do poeta narrar o que aconteceu. É sim, o de representar o que poderiaacontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade” (ARISTÓTELES apudALONSO, 2005).
  16. 16. 15surgimento de mulheres escritoras, em especial, no Brasil ocorre a partir do século XIX, emdecorrência do crescimento da imprensa e do início de movimentos a favor dos direitosfemininos. A criação literária participou da onda de movimentos em prol da causa feminina, ea condição da mulher revelou-se um tema de grande repercussão em muitas narrativas,principalmente, as de autoria feminina, que se expandiram no universo cultural brasileiro eapresentam características peculiares no que diz respeito à linguagem, ao gênero e aosartifícios utilizados por cada escritora ao trazer à tona a dialética da ideologia dominante: “Pormeio da Literatura que produzem, as mulheres hoje não só resgatam a própria históriapassada, como afirmam confiantes a condição de sujeito atuante no presente com vistas a umfuturo pleno” (PELLEGRINI, 2008, p. 22). Contudo, reafirma-se a postulação de HelenaParente Cunha (2003, p. 25): a luta da mulher foi intensa para que pudessem ingressar noterceiro milênio “caminhando com seus próprios pés”, ouvindo um discurso novo pela suaprópria voz. A trajetória da literatura de autoria feminina no Brasil é composta de um grupominoritário. Segundo Alves (1999), ao final do século XIX, as publicações de escritoras, emespecial na Bahia, para chegar ao domínio público, tinham que vir protegidas pelo aval do pai,irmão ou marido ou de um grupo de poetas ou críticos. Há constatações de que algumasescritoras de classe média da sociedade procuraram proteção e respeito através da Igreja, parase resguardar da crítica aos escritos e recepção do público leitor. É possível dizer que os primeiros textos produzidos em meados do século XIXreflitam a realidade da sociedade brasileira e os papéis exercidos pelas mulheres através deuma reprodução dos padrões da época socialmente convencionados. Trata-se de obras querepresentam mulheres submissas aos valores patriarcais que encontram sua realização nocasamento e na maternidade. Telles (2000, p. 761 apud PATRASSO e GRANT, 2007, p. 142)salienta: “Antes a mulher era explicada pelos homens… [...] Agora é a própria mulher que sedesembrulha, se explica”. Essa ideia mostra que, a constante busca por uma escrita femininacom identidade própria vem se firmando, contudo em processo lento assim como todas asconquistas femininas ao longo da história, o que confirma a ideia de Luís: Há uma escrita de mulheres. Confusa e embaraçada como elas. [...] No mais das vezes, as mulheres escrevem segundo o modelo dos homens. [...] Agora começa a haver uma literatura feminina, uma forma de a mulher se interrogar; mas inda só balbucia (1985 apud COELHO, 1999, p. 9).
  17. 17. 16 A escrita feminina brasileira amplia-se através de Rachel de Queiroz, no entanto,Clarice Lispector é que passa a ocupar um lugar significativo no cenário literário do Brasil. “Éuma espécie de abertura de trilhas fundamentais” (PATRICIO, 2006, p. 19). A partir dadécada de 70, outras escritoras começaram a se impor diante de tal situação, a exemplo deSônia Coutinho, escritora baiana que se inseriu no contexto da Literatura a partir de 1966 eescreve suas histórias comprometidas com a realidade da mulher, não apenas como reflexo dasituação na qual se encontram, mas também como visão crítica. É possível salientar que atualmente, a mulher que se expressa através da ficçãomostra uma consciência crítica acentuada e um tom questionador dos modelos femininos desubmissão herdados da sociedade patriarcal (PELLEGRINI, 2008, p. 24). A ficção femininaaparece agora como a representação de um espaço simbólico em que expõe a nova condiçãosocial para uma mulher contemporânea. Uma das questões teóricas que tem sido debatida pelosurgimento da mulher como um novo sujeito literário é a da especificidade de sua escrita.Lúcia Castelo Branco enfatiza que as produções de escrita feminina incomodam porqueproduzem polêmica e se distinguem dos demais “por possuírem um tom, uma dicção, umritmo, uma respiração próprios” (BRANCO, 1991, p. 13).1.2 Antropofagia e o deglutir da imagem feminina no século XX O Manisfesto Antropofágico (Antropofagia) 3 foi uma manifestação decorrente doMovimento Modernista inaugurado, em São Paulo, pela Semana de Arte Moderna de 1922.Esse movimento mostra a originalidade e o talento de Oswald de Andrade, autor da propostade renovação cultural mais radical e polêmica da Literatura brasileira. No entanto, esseconceito não nasce de Oswald de Andrade, no Arcadismo já se utilizavam de taiscaracterísticas que, hoje, denominam-se antropofagia. O manifesto ridiculariza a imitação aosparâmetros culturais e comportamentos eurocêntricos, como a representação da figurafeminina na literatura descrita a partir de modelos artificiais. A partir disso, esse movimentopropunha repensar os aspectos artísticos manifestados em todas as artes. Gomes (2005, p. 47),3 A palavra “Antropofagia” vem do grego Anthropophagia e etimologicamente significa o ato de comer carnehumana. Na Literatura, a antropofagia (através do manifesto), para Oswald de Andrade pretende inaugurarsimbolicamente uma outra história que, servindo-se do passado conhecido e a partir dele, desterritorializa osterrenos da tradição oficial, criando novas territorializações e apontando novos rumos. Esse conceito tem atraídogrande interesse na comunidade acadêmica, tornou-se foco de freqüentes discussões, inclusive na literaturacomparada (GOMES, 2005, p. 48-9).
  18. 18. 17defende que o texto Oswaldiano representa a continuidade e a ruptura, tenta romper,entretanto, absorve tudo o que for favorável para desfazer com os padrões europeus. Procurarever o passado, incorporá-lo ao presente para projetar um futuro. Quando o Modernismo chega ao Brasil traz resquícios das vanguardas européias.Com isso, pode-se dizer que o Modernismo utiliza-se da antropofagia para revisar e não paraconstruir o novo, porque se utiliza do passado para a criação de novos rumos. Helena (1983,p. 91) enfatiza que, pelo viés da literatura, a antropofagia pode ser discutida a partir de duaspossíveis interpretações: uma focaliza a questão da cultura brasileira desde a literatura doperíodo colonial aos nossos dias e a outra, como uma vertente da cultura do modernismo, quese manifesta através de Oswald de Andrade. O movimento antropofágico questionava a estrutura política, econômica e culturalimplantada pelo colonizador, na qual se formara a sociedade patriarcal brasileira. Com relaçãoà questão estética, o movimento valoriza os elementos nativos e primitivos, juntamente com aassimilação das tendências modernas do pensamento europeu. O Modernismo reavalia osestragos de uma sociedade embasada nos modelos culturais impostos pelo patriarcalismoeuropeu. Quanto à escrita de autoria feminina, a mulher, sempre sob ordens do homem,sentira certo receio em expressar-se livremente e, portanto, acolheu, em seus textos,concepções ainda masculinas. Um aspecto a ser ressaltado sobre a escrita de autoria femininano século XX é o fato de as escritoras tentarem expor a condição feminina e descrever aspersonagens de seus romances diferentemente da escrita de autoria masculina. A condição da mulher, vivida e transfigurada esteticamente, é um elemento basena construção dos textos, não se tratando apenas de um tema literário, mas algo quefortalecesse a luta das mulheres em busca de libertação. Percebe-se, entretanto, que essaspersonagens traziam resquícios de uma escrita masculina, uma vez que a mulher vivia umconstante dilema: cumprir seu papel de esposa e mãe – conduta imposta pelos poderespatriarcais – e seguir seu próprio percurso ao assumir seu papel de mulher pensante e atuantena sociedade. A mulher vivia um momento dialético, não aceitava certa situação, no entanto nãose encorajava a romper com tais padrões, encontra-se, pois, no entre-lugar, conceito propostopor Santiago (2000, p. 36). O entre-lugar é um lugar imaginário, abstrato. É a busca de umlugar que não se encontra. O individuo está preso no passado e não aceita o presente. É adúvida do sujeito que não consegue firmar-se num contexto. Não aceita o que fora imposto,tampouco se identifica com o que está vivenciando (modo de vida, cultura). As personagens
  19. 19. 18descritas pelas autoras retratavam o papel da mulher que se submete as normas sociais, masque desejava transgredir. Sabe-se que a maioria dos escritores brasileiros do século XX escreveu sobreas mulheres e para as mulheres. As descrições físicas e comportamentais do feminino eramfeitas para atender as expectativas masculinas sociais ainda regidas por parâmetrospatriarcalistas. No entanto, não mais era cabível essa escrita estereotipada sobre a mulher epor ela sofrida neste contexto de expansão. A partir desse século, vê-se, com satisfação, que oquadro começa a ser alterado e a mulher passa a ocupar outro lugar na Literatura. Nessecenário da escritura feminina, surge Sônia Coutinho. A escritora viveu sua juventude nos anos60, momento em que os jovens manifestavam seus descontentamentos com os valoresburgueses, sobretudo, a condição da mulher. Nas narrativas de Sônia Coutinho, há a criação de protagonistas que buscam“afirmar-se enquanto sujeito-mulher” (PATRÍCIO, 2006, p. 21) para questionar os papéis deesposa e mãe como únicos modelos a serem seguidos. Em 1998, escreve Os seios de Pandora,romance que tem mulheres transgressoras como protagonistas. O texto traz uma atmosfera demistério que envolve o leitor, e uma personagem jornalista que busca a solução de um crimeem família. A obra em análise, Os seios de Pandora (1998), trata de um dos últimos romancesda escritora. Através de uma escrita instigante acerca da condição da mulher na busca deafirmação e visibilidade numa sociedade fragmentada, ainda regida por resquíciospatriarcalistas, a autora demonstra uma constante preocupação com a situação da figurafeminina e, com esta preocupação cria algumas personagens que aparecem como figuraspreponderantes e que transitam narrativas plenas de conflitos em uma vida de limitações. É ocaso de Tessa Laureano e Dora Diamante, mulheres de classe média urbana, personagenstransgressoras. No romance Os seios de Pandora, Sônia Coutinho, através das descrições davida de suas protagonistas, apresenta mulheres que se mostram independentes, intelectuais,aventureiras – como o próprio título do romance sugere: Os seios de Pandora: uma aventurade Dora Diamante. No entanto, não se trata apenas de uma grande aventura feminista, mas deuma descrição do cotidiano realista da mulher. Contudo, Sônia Coutinho não retrata em seu romance apenas mulheres livres.Apresenta também outro perfil de mulher que se encontra atrelada a valores patriarcais, comoé o caso de Lenira – mãe de Tessa Laureano – que não aceitava a condição de a sua filha serindependente: “Um espanto, aquilo acontecer com a filha aparentemente intocada de uma
  20. 20. 19família da burguesia local” (COUTINHO, 1998, p. 32). E ainda, ao apresentar a protagonistada narrativa como uma mulher transgressora a constrói de maneira lenta, inicialmenteseguindo padrões para mais tarde rompê-los, assim como se dá a luta feminina em busca demaior aceitação na sociedade e na Literatura: “Quando jovem, eu me considerava uma pessoade cabeça aberta, mas casei virgem. Estava presa aos modelos de Solinas, fui educadanaquelas escolas” (COUTINHO, 1998, p. 25). Nessa perspectiva, pode-se dizer que este romance encontra-se sob a vertente daantropofagia, visto que ao criar suas personagens traz perfis diferentes para mostrar acontinuidade e a ruptura assim como a proposta do movimento antropofágico: a continuidaderepresentada por Lenira e a ruptura por Tessa Laureano. Esse aspecto pode ainda ter sido maisum artifício que a autora utilizou para mostrar que a escrita de mulheres não é inferior àescrita feita por homens. Com a construção de suas narrativas, Sônia Coutinho, através da expressãoficcional passa a demonstrar sua força e sua capacidade de escrita. Cunha (2001, p. 22) afirmaque a partir da segunda metade do século XX, com o rompimento dos critérios hierárquicos osquais excluíam a obra literária produzida por “segmentos alteritários”, houve a abertura deespaços para que as vozes marginalizadas fossem ouvidas, como no caso das mulheres, umavez que, até o início do século XIX, atribuía-se uma inferioridade intelectual4 às mulheresassim como se fez com os negros e descendentes. Essa afirmação confirma as ideias de LeGoff (1993, p. 34) ao afirmar: “Foi necessário chegar ao século XX para que os historiadoresse debruçassem sobre a história de uma metade da humanidade – ou seja, sobre a história dasmulheres”. No início do século XX, as mulheres passavam cada vez mais a forçar os limitesdo que lhes era permitido. Em meados da década de 60, passam a lutar – através da escrita –por um lugar na Literatura onde não fossem descritas apenas como objetos maleáveis, cujacondição poderia ser modelada da forma que fosse mais conveniente para o homem. Noromance Os Seios de Pandora, a autora cria uma personagem que segue a trilha daprotagonista, no entanto, introduz outro fator que transgride a ideia de que o poder deve estarcentrado em mãos masculinas. A personagem Dora Diamante é criada para continuar a buscapor liberdade. Liberdade essa subtraída de Tessa. À Tessa coube o exercício de uma funçãoaté então cabível ao sexo masculino, como é o caso de investigador policial. Esse cargodemonstra mais uma ruptura aos valores sociais e a partir desse aspecto, Dora era vítima de4 Somente em meados do século XIX registrou-se o início da emancipação intelectual da mulher brasileira, sob ainfluência européia do cientificismo herdeiro do pensamento iluminista (CUNHA, 2001, p. 23)
  21. 21. 20preconceito por parte da sociedade masculina que a enxergava como incapaz de exercer talfunção: “Ele me achava raceé demais para aquilo. Dizia que eu devia estar na editoria demoda” (COUTINHO, 1998, p. 31). As narrativas femininas de Sônia Coutinho mostram a insatisfação da mulher paracom o lugar de submissão, o conflito entre ser a dona do lar e a pretensão de liberdade eindependência para construir e reconhecer a sua própria identidade. As personagens buscamconstruir seu próprio “eu”, no entanto, esse aspecto não se dá pelo fato de a autora querer seopor à condição masculina, numa procura cega de espaço, mas para mostrar que os conceitosmasculino e feminino são construções discursivas dentro da cultura.1.3 Tessa Laureano e a contemporaneidade: a pintura de uma revelação A Literatura enquanto arte serve de espaço para a articulação de questionamentosacerca da situação em que se encontra a sociedade. Ela acompanha todos os avançosimpactados no mundo e representa a cópia da realidade. Com a Literatura Pós-Modernista,coloca-se em evidencia a linguagem, a arte da palavra. Durante esse momento da Literatura,rejeitaram-se as doutrinas simbolistas quase míticas que haviam influenciado a crítica literáriae acentuou-se a atenção para os aspectos intrínsecos do texto literário. Deseja-se chegar a umaciência da Literatura que tivesse por objeto não a Literatura, mas a literariedade do texto, ouseja, aquilo que lhe confere caráter literário. A utilização da Literatura para representar a realidade tornou-se bastantefrequente. Para a construção dessas narrativas, os autores utilizam-se de elementos híbridos.Toda essa multiplicidade faz com que a caracterização de uma obra pós-modernista seja umatarefa um tanto difícil. Para Coutinho (2006, p. 236), “A questão da conceituação de Pós-modernismo já em si é bastante problemática, uma vez que se trata de um fenômenofundamentalmente heterogêneo”. Com a Literatura contemporânea, história e ficção mantêm-se ligadas, a partir deuma revisão do olhar sobre os (pré)conceitos convencionados pela sociedade, inclusive acercada condição da mulher na Literatura, tanto como personagem quanto escritora. Sobre aliteratura de autoria feminina, Almeida (1999, p. 699-70) comenta:
  22. 22. 21 A escrita se torna, então, um espaço alternativo através do qual se possa [...] retomar como uma área de questionamento o espaço do outro, as brechas, os silêncios e ausências do discurso e da representação aos quais o discurso feminino tem sido relegado. A escrita se transforma numa possibilidade, num espaço que serve de impulso subversivo para a expressão de uma voz feminina que encontra em sua própria alteridade os meios de evasão. Hutcheon (1991, p.83) afirma que o Pós-modernismo assimilou muitascaracterísticas inerentes ao Modernismo, no entanto criou novas perspectivas – o que seconvencionou chamar de literatura contemporânea que, por sua vez, cedeu espaço àsminorias, inclusive aos discursos de gênero. O romance Os Seios de Pandora é uma obra Pós-modernista por apresentarcaracterísticas inovadoras principalmente quando a autora descreve as suas personagensfemininas. Tessa Laureano, protagonista da narrativa, mulher desafiadora aos valoresconvencionados socialmente, mostra-se aparentemente independente, mas carrega consigomedos e depressões por conta dos problemas enfrentados por ser uma mulher que busca novosrumos para a sua história. Seu comportamento não condizia aos costumes e modos de vida dacidade onde nascera: “Casou e descasou algumas vezes, com pessoas sempre inesperadas.Seus amores eram um prato cheio para os mexeriqueiros da provinciana Solinas”(COUTINHO, 1998, p. 15). Esses problemas eram causados pela própria família, inimigacruel, uma vez que não aceitava a condição de vida escolhida por Tessa. Ela vive sobconstantes ameaças e é vítima fatal de uma cilada: “Puxa vida, não aguentaram uma mulhercomo ela, pensei. Talentosa e livre, desafiadora” (COUTINHO, 1998, p. 16). Ressalta-se, porém, um dado importante: o fato de que, nas narrativas de SôniaCoutinho, a figura masculina aparece mais como planos de fundo para os romances. Em OsSeios de Pandora, a figura do pai é ausente e deixa uma herança que passa a ser o estopimpara uma guerra familiar: de um lado, a mãe, o irmão e a filha, do outro Tessa, emancipada,no entanto sofre pressões da família por ainda necessitar de ajuda financeira para suprir assuas necessidades materiais: “Logo após a morte do meu pai, minha mãe, a inventariante dosbens, me telefonou e perguntou se eu não abriria mão da minha parte da herança em favor deminha filha, Zelda [...]” (COUTINHO, 1998, p. 10). Herdar do pai, para a família da protagonista, representaria concessão de podereconômico à mulher – principal entrave para a emancipação feminina. Sem o apoio dafamília, a protagonista apela às artes plásticas para preencher o espaço que lhes sobra por faltadesse apoio. Com isso, Tessa deixa transparecer que, para a mulher, as inquietações vão
  23. 23. 22acontecer nas regras de relacionamentos e de papéis designados para a mulher. E tais papéisexcluem o direito de a mulher realizar-se fora do casamento, em outro caminho que não seja odo lar. A pintura – que seria o outro caminho escolhido por Tessa Laureano – serve comoum refúgio para a personagem expor seus sentimentos no que diz respeito à relaçãohomem/mulher, já que suas telas possuem imagens de vaginas e pênis: “[...] Mas seu trabalhotinha outras facetas. Seu erotismo, por exemplo, flores-vaginas, caules-pênis. Masculino efeminino, como em Louise Bourgeois (COUTINHO, 1998, p. 38) – mais um motivo para quea sociedade a veja como algo ameaçador e atrevido, já que o trabalho feminino sempre forareforçado no imaginário social como algo desestabilizador dos lares, pois se argumentava que,com a prática de outras atividades, as mulheres negligenciariam “seus” afazeres domésticos esua atenção e cuidados para com o marido e filhos: “[...] a atividade profissional feminina éconsiderada sem valor próprio, incapaz de fundar uma identidade plena (LYPOVETSKY,2000, p. 221). Para a construção da sua narrativa, Sônia Coutinho utiliza-se de elementoscomuns à literatura contemporânea, como a forma pela qual o romance é escrito: os capítulosnão são intitulados e há uma alternância de narradores. Ora quem fala é Tessa Laureano, queconta a sua trajetória de vida, ora é Dora Diamante que serve como uma espécie de ouvintedas histórias e dos fatos que envolvem Tessa para, a partir disso, construir a sua voz no texto.Outro aspecto é a relação entre texto e leitor, uma vez que a importância dada ao receptor éuma característica das rupturas pós-modernistas. Em relação a isso Compagnon comenta: Para a teoria literária, nascida do estruturalismo e marcada pela vontade de descrever o funcionamento neutro do texto, o leitor empírico foi igualmente um intruso. Ao invés de favorecer a emergência de uma hermenêutica da leitura, a narratologia e a poética, quando chegaram a atribuir um lugar ao leitor em suas análises, contentaram-se com um leitor abstrato ou perfeito (1999, p. 142). O leitor deve estar atento às pistas deixadas pelos narradores para saber distinguirquem na verdade está empregando o seu discurso no texto, visto que as narradoras-personagens possuem uma história de vida que se assemelham. Para que haja o entendimentodo texto, o leitor deve adentrar a narrativa para ressignificá-la. Deve servir como uma espéciede “investigador”, já que o próprio texto traz indícios de ser uma narrativa policial, e todanarrativa dessa espécie necessita de um detetive.
  24. 24. 23 Sobre a relação entre texto e leitor, Rogel Samuel discute a respeito daimportância do leitor numa obra literária e enfatiza que diante de um texto, o leitor projetaexpectativas que podem ser satisfeitas ou não, diz ainda que “a obra de arte não está nem notexto, nem na leitura, mas entre os dois. Acontece um ponto de convergência entre o texto e oleitor, um ponto que nunca pode ser definido completamente” (2002, p. 120). Além desse aspecto, a obra também apresenta outros artifícios que mostram orompimento com as estruturas tradicionais de romance. Estruturas estas a que os leitores seacostumaram. A falta de uma narrativa linear, uma vez que há a mistura das histórias de vidade duas personagens – uma que conta a sua vida de luta em prol de liberdade social efinanceira; outra que tenta desvendar um crime exercendo uma profissão aceitável somentepara homens. Há a mistura de gêneros textuais, quando introduz trechos de cartas e notíciasjornalísticas durante o discurso do narrador. Com isso, a autora rompe com o estilo clássicode escrita, liberta-se dos paradigmas literários. Para construir a trajetória de vida dasprotagonistas, Coutinho utiliza a morte como metáfora para o fim da “ousadia” feminina.Outro fator presente em sua narrativa é a intertextualidade 5 e se acentua ainda mais quandodescreve as ações das suas personagens a partir de mitologias a respeito da condição damulher: Uma história que se embaralha na memória. Uma história que aconteceu há muito tempo, cujos detalhes se esfumaram. Que, recriada, se torna outra. Processo de inventar uma história verdadeira. A história de Pandora, que abriu sua caixa e, de dentro, saíram pragas, a ruína e a morte. É o que me ocorre agora, recostada nos travesseiros, anos depois, segurando a pasta com as cartas de Tessa Laureano (COUTINHO, 1998, p. 24). A romancista Sônia Coutinho tem se destacado no cenário da Literaturanacional não só pela qualidade de sua ficção na qual oferece uma visão feminina da realidade,mas também pela análise crítica a respeito da sociedade brasileira contemporânea. Questionaa situação das mulheres de classe média nas últimas décadas do século XX. Envolve nestaanálise as relações de gênero, os preconceitos e a sexualidade dessas mulheres. Aspersonagens, a exemplo de Tessa Laureano que se revelou uma mulher corajosa ao quebrar osparadigmas impostos pela sociedade através de sua família, têm sido a base para a escritora5 A intertextualidade foi introduzida na Literatura por Júlia Kristeva (1966), por influência da dialogicidade deBakhtin. A palavra intertextualidade significa interação entre textos, um diálogo entre eles. É texto no sentidoamplo: um conjunto de signos organizados para transmitir uma mensagem, portanto, no mundo atual damultimídia, ela acontece entre textos de signos diferentes.
  25. 25. 24interrogar e tentar subverter as perspectivas sociais impostas à mulher brasileiracontemporânea.
  26. 26. 252 A PENA: a revelação de um discurso em crise A escrita feminina embala o ritmo ainda lento do movimento, enquantodeslocamento, da mulher nos espaços sociais. Qualquer movimento de luta parte da escrita e,embora essa tenha sido habitual, sua ação meio estática revela-se contraditória, uma vez quese entende a movimentação acionada por aqueles que lêem. O discurso, como exposição metódica de determinado assunto, visa interferir noraciocínio ou nos sentimentos do ouvinte ou leitor. Os recursos linguísticos ouextralinguísticos presentes, no discurso, materializam-no ideologicamente. Seja lógico,dialético, retórico ou poético, ele permite a comunicação humana focada em um objetivo. O discurso que entra em crise abalara-se pela competição incoerente dasformações e funções sociais. Na literatura de Sônia Coutinho não se pretende a veracidadeabsoluta, haja vista a presença de um discurso poético e dialético, isto é, embora saiba aimprobabilidade da verdade absoluta, abandona a razão em prol da ficção ao passo que reveladuas afirmações antagônicas: tese e antítese. Enquanto a tese apresenta uma afirmação ousituação, a antítese opõe-se e o conflto gera a síntese cuja nova afirmação é refutada pelaantítese gerando nova síntese... um jogo infinito. Estas contradições desfilam em Os seios de Pandora. Ora, a autora põe frente àfrente mulheres ideologicamente distantes. Cabe ao leitor, em meio a narrativa, buscar suasreflexões fruídas da poética do discurso. Embebe-se o leitor de um discurso um movimentoem prol da consciência de novos tempos, novas funções sociais e novos desafios quanto àexpectativa nas relaçõs de gênero. Sônia Coutinho desenha discursivamente a mulher contemporânea. O paradoxoentre suas personagens contempla a ambiguidade da pena na construção do eu feminino. Penacomo um sentimento àquelas aprisionadas pelas convenções e conceitos cristalizados porparte dessa sociedade patriarcalista ou ainda como instrumento favorável à difusão docomportamento “transgressor”, na perspectiva tradicionalista. Mulher não se constrói nodiscurso de Coutinho, ela se desconstrói, quebra paradigmas e mostra-se socialmente comosujeito de sua própria história. História enigmática pincelada por Tessa Laureano cujas pistasconduzem Dora Diamante a mais um exercício transgressor dos moldes predestinados |àmulher. Revestida de detetive, Dora faz sua ronda em busca de pista que respondam sobre umassassinato alegórico da morte da transgressão à ótica patriarcalista.
  27. 27. 26 Os seios de Pandora, pois, configura-se em uma questão de gênero, porém, a elenão se restringe, porque a literatura de Sônia Coutinho amplia esse universo para abstrair alémde um discurso em defesa da mulher. Seu texto de qualidade explora a perspicácia do leitornão apenas para desvendar os mistérios, mas, fá-lo abrir a caixa de Pandora. Nela, além dasmaldades humanas, há a esperança. E Os seios de Pandora metaforizam o discurso mitológicona contemporaneidade com a pena enquanto meio simbólico da prisão/liberdade feminina aolongo do(s) século(s).2.1 Sônia Coutinho e o desenho discursivo da mulher contemporânea O conceito de autoria, de acordo com Foucault (2001, p. 24), se estabelece, nacultura moderna, no final do século XVIII e início do século XIX, quando se instaura a noçãode texto como propriedade cujos direitos passam a pertencer ao autor. Ele aparece na culturamoderna a partir do momento quando se começa a atribuir aos textos uma individualidade. A tradição literária e ainda questões mais modernas à produção escrita exaltam afigura do autor e o consideram em algumas correntes como a função que o eu assumeenquanto produtor de linguagem, ou ainda, como indivíduo falante que pronunciou ouescreveu um texto. Para contrapor a essa última ideia, Orlandi (1993, p. 78-9) traz a concepção deautor e defende que não basta falar para ser autor, falando, o indivíduo é apenas falante, “oautor é o sujeito que, tendo o domínio de certos mecanismos discursivos, representa pelalinguagem, um papel, na ordem social em que está inserido”. Além dessas funções, há umaoutra, de acordo com o princípio de autoria estabelecido por Foucault (2001, p. 77) no qualele postula que “o autor é o princípio de agrupamento dos discursos, unidade e origem de suassignificações. O autor está na base da coerência do discurso”. A questão da autoria é algo bastante complexo, principalmente, quando se discutea respeito de autoria masculina e autoria feminina, pois é fato gramatical e cultural instituídoque o gênero masculino engloba o feminino e a mulher aparece sempre como algo pertencentea alguém. No entanto, nas últimas décadas, tem-se demonstrado que os significados para ospares de palavras que denotam diferenças de gênero não são os mesmos, e na verdade, “autoranão é feminino de autor nem linguística, nem literária, nem culturalmente (TELLES, 1992,p.46). Mas, se a mulher é tão diferente do homem em termos de produção, que aspectos
  28. 28. 27mostram essa diferença, uma vez que se discute muito com relação à busca de igualdade? Umdesses aspectos são os discursos presentes nos textos escritos, visto que a mulher agora nãomais aceita ser representada da mesma maneira que fora durante muito tempo pela escritamasculina. Segundo Cunha (1999, p. 11), por mais diferentes que sejam as formas de escritada mulher, há características comuns que as identifica: “São estruturadas ou amalgamadascom a própria vivência do feminino, do ser-mulher, no ato de viver” A vida oprimida no passado reflete no comportamento feminino hoje, pois épróprio do ser humano se questionar, buscar a si quando a rotina lhe incomoda. Assim, amulher descobriu na escrita uma forma de desmascarar os comportamentos masculinos paracom a figura feminina. Por tanto sofrimento da mulher é que lhes foi “permitido” depois dopenar, a pena6. Primeiro a mulher “penou”, sofreu os preconceitos e esteve sob as ordensmasculinas. Em seguida, a “pena” surge em novas mãos e a escrita serve como uma espéciede refúgio, onde as mulheres poderiam expor seus sentimentos, sofrimentos, e outrasmulheres tomariam também consciência da situação na qual a classe feminina se encontrava. É nessa vertente que aparece Sônia Coutinho, escritora que desenha um perfil demulher não como vítima da sua história de subjugação ao homem, mas como causadora dosconflitos, manipuladora dos comportamentos masculinos, a exemplo de Alice – protagonistado romance O caso Alice (1991), texto que antecede a publicação de Os Seios de Pandora –que comete o homicídio contra o namorado, talvez para se vingar daquilo que sofreu durante ainfância. Suas ações futuras foram influenciadas por situações passadas: Seguro o revolver com as duas mãos e faço pontaria em direção ao rosto de Dalmo – de tio Max? – é quando, num relance, imagino que tudo ainda pode ser revogado, que sou capaz de perdoar. Mas então se faz escuridão, os registros de minha memória se apagam (COUTINHO, 1991, p. 106). Vale salientar que cada pessoa tem o seu ideal linguístico e social. A línguacoloca múltiplo repertório de possibilidades à disposição de cada um. Segundo Proença Filho(1999, p. 24), ao assumir o discurso, o indivíduo busca escolher os meios de expressão quemelhor configurem suas ideias, pensamentos e desejos. Esses fatores é que caracterizam oestilo de cada autor.6 Discurso da professora Eugênia Mateus de Souza em uma aula do Componente Curricular Estudo da Produçãoliterária baiana (09/07/2010), na qual se discutia a respeito da escrita de autoria feminina na literatura.
  29. 29. 28 Para definir discurso, podem-se utilizar as palavras de Barthes (2004, p. 68)quando diz que “[...] discurso é um ato individual de seleção e atualização”. O discursopossibilita operar a ligação necessária entre o nível linguístico e o extralinguístico. Naconcepção bakhtiniana, os discursos não são autossuficientes nem indiferentes uns aos outros;está repleto de ecos e lembranças de outros discursos. Nesse caso, o discurso é a rearticulaçãodo passado e projeção do futuro, carregado pelas marcas sociais, políticas, culturais eideológicas. É o que acontece no discurso de Sônia Coutinho quando escreve romancesfemininos: adota inicialmente concepções masculinas ao construir personagens que mostramo comportamento feminino baseado no sistema patriarcalista e depois traz outros perfisfemininos para desafiar a sociedade. Articula o passado para a projeção do futuro, como bemfoi apontado no capítulo anterior. Dentre outras ideias, Foucault tem o discurso como um jogo estratégico epolêmico, assim como a luta feminina para defender sua liberdade de expressão e suarepresentação em obras masculinas: “O discurso não pode ser mais analisado simplesmentesob seu aspecto linguístico, mas como jogo estratégico de ação e de reação, de pergunta e deresposta, de dominação e de esquiva e também como luta” (2001, p. 31). Diante das concepções acima, vale ressaltar que todo discurso é carregado de 7ideologias . Para confirmar essa ideia, Brandão discute a respeito da carga ideologia existentenos discursos e defende que: A linguagem enquanto discurso não constitui um universo de signos que serve apenas como instrumento de comunicação ou suporte de pensamento; a linguagem enquanto discurso é interação, e um modo de produção social; ela não é neutra, inocente (na medida em que está engajada numa intencionalidade) e nem natural, por isso o lugar privilegiado de manifestação ideológica (1997, p. 12). Diante desse aspecto, pode-se dizer que Sônia Coutinho não escreve apenas paramostrar a sua capacidade de escrita e se colocar a frente à inteligência masculina. A suaescrita possui uma ideologia, um propósito. Para tanto, utiliza-se do discurso literário para7 Segundo Chauí (1981, p. 23) o termo ideologia nasceu como sinônimo da atividade científica que procuravaanalisar a faculdade de pensar, tratando as ideias como fenômenos naturais que exprimem a relação do corpohumano, enquanto organismo vivo, com o meio ambiente. No entanto, para contrariar esse significado, o termopassa a ter um sentido pejorativo, pela primeira vez, com Napoleão que qualifica os ideólogos franceses de“abstratos, nebulosos, idealistas e perigosos‟ (para o poder) por causa do seu desconhecimento dos problemasconcretos. Desse modo, a ideologia passa a ser vista então como uma doutrina irrealista e sectária, semfundamento objetivo e perigosa para a ordem estabelecida.
  30. 30. 29retratar os perfis e comportamentos femininos contemporâneos além de desmascarar ospreconceitos sofridos pela mulher na sociedade e na literatura, inclusive enquanto escritoras.Sobre discurso literário, Maingueneau (2006, p. 8) enfatiza que esse tipo de discurso causaambiguidade, uma vez que a literatura tenta representar a realidade através da verossimilhançae pode apresentar mais de uma “verdade” sobre a história que, nesse caso, é a história da lutafeminina. Desse modo, a literatura é utilizada como uma forma de arte e de instrumentosocial: [...] discurso literário soa ambíguo. De um lado, designa em nossa sociedade um verdadeiro tipo de discurso, vinculado a um estatuto pragmático relativamente bem caracterizado; de outro, é rótulo que não designa uma unidade estável, mas permite agrupar um conjunto de fenômenos que são parte de épocas e sociedades muito diversas entre si. Nessa vertente, pode-se dizer que através de seus romances, em especial, Os seiosde Pandora, Coutinho analisa a situação social da mulher brasileira do século XX. A obracompreende as relações de gênero, sexualidade, maternidade e o envelhecimento, consideradopor Bailey (1999) como um “fenômeno sociológico” e de questionamento às expectativassociais conferidas à mulher brasileira contemporânea. Assim, através da suas personagens, a autora mostra a mulher que desestrutura asconvenções, à revelia da história. Para exemplificar esse aspecto, têm-se as protagonistas doromance em análise. Através de um discurso instigante, Sônia Coutinho apresenta mulheresque desafiam a sociedade em busca da autoafirmação. São personagens com a idade entre osquarenta anos, “maduras”, ou seja, já refletem sobre seus atos. Uma é considerada atrevida,por desafiar a família burguesa e buscar sua independência financeira e pessoal; a outra,abusiva, por exercer uma função até então masculina, e, ainda, por investigar o assassinato daprimeira. Personagens com histórias de vida parecidas e que sofrem preconceitos e ameaçaspor conta da coragem em enfrentar grandes desafios que, para a sociedade da época era algoextremamente transgressor. Uma das questões teóricas bastante discutidas a respeito do surgimento dessenovo sujeito literário – o sujeito mulher – é a da especificidade de sua escrita. A mulher agoraenquanto escritora além de desafiar a sociedade através da criação de personagens, desafia
  31. 31. 30também o próprio cânone literário 8. Esse cânone se refere ao que fora imposto pelo sistemapatriarcal falocêntrico. Muitos críticos defendem a ideia de que a escrita feminina tem crescido de formaacentuada. De acordo com Cunha (1999, p. 12), “o fenômeno mais significativo da Literaturadeste último quartel do século é o produzido pelas mulheres”. Através dessa expansão daprodução literária feminina discute-se hoje que essa escrita revela um discurso-em-crise. Esseaspecto acontece pelo fato de as escritoras lançarem tantos desafios em sua forma de escrevere representar a condição feminina na arte. Diante de tais colocações, é possível dizer que Sônia Coutinho encontra-se nesserol de escritoras que revelam um discurso-em-crise. No entanto, esse discurso não representauma escrita embaraçada e confusa, como deixa transparecer na palavra “crise”. É que osleitores estão acostumados a ler obras femininas apenas sob a ótica da defesa da mulher.Coutinho utiliza a condição feminina como fonte para suas narrativas, entretanto, utiliza-se deoutros elementos para descrever essa condição, como a desordem da nova linguagem poéticaou ficcional, o fragmentarismo e a ambiguidade. Não retrata um olhar maniqueísta sobre asituação da mulher, mostra agora uma consciência fragmentada. Trata-se de um discursonarrativo que exige intensa participação do leitor na busca para uma possível interpretação. Ao se tornar sujeito do discurso, Sônia Coutinho entra em conflito com apassividade e obediência. Os textos expressam as novas experiências da mulher de modopeculiar e revelador e retrata a diferença do olhar feminino sobre o mundo e a diferença domundo que observa o feminino. Com todas as inovações na forma de escrever, a concepção que se tem sobre aescrita feminina torna-se ambígua, quando as autoras possibilitam ao leitor repensar a questãoda escrita não focada apenas para representar a mulher e o espaço que tem garantido noâmbito social, tampouco entrar em uma disputa cega por prestígio, mas mostrar que através daescrita, as mulheres tem se conscientizado e ganhado força para construir uma identidade quenão servisse apenas de suporte para o homem.8 Segundo Reis (1992), o cânone literário é o conjunto de obras e seus autores, consolidadas como “as maiores” eatemporais, bem como reprodutoras de valores, normalmente ditas universais, e por isso, dignas de estudo etransmissão às futuras gerações.
  32. 32. 312.2 A ambiguidade da pena na construção do eu feminino A questão da identidade é um dos temas de grande repercussão em discussões nateoria social. A ideia de que as “velhas identidades” que durante tanto tempo trouxeramestabilidade para o mundo estão em declínio e com isso surgem novas identidades. Comoconseqüência tem-se a fragmentação do individuo moderno até então encarado como umsujeito unificado (HALL, 2003, p.7). Os teóricos argumentam que as rápidas e sucessivastransformações do mundo globalizado têm causado uma mudança na forma de os indivíduosverem a sociedade e os sujeitos. A partir de todas as transformações no quadro social, aidentidade pessoal é também atingida na medida em que há a multiplicação dos meios derepresentação e significação cultural. Com relação à identidade feminina, muitos estudiosos defendem que omovimento feminista é um dos responsáveis pelo descentramento do individuo moderno, umavez que reivindica a posição social das mulheres que passaram a questionar a formação deidentidades próprias. Nessa vertente, a representação da identidade feminina sofre mudanças:o papel que exercia na sociedade, que antes era certo (mesmo que convencionadosocialmente), agora é representado sob diferentes formas. O discurso a respeito de umaidentidade feminina fragilizada tem decaído devido aos espaços de atuação da mulher. Issoacontece por causa das transformações do mundo moderno que conduziu a mulher a atuar emdomínios, antes, privilégios masculinos. Um dos espaços conquistados é a escrita literária. Ao se tratar do tema identidade feminina na Literatura, principalmente, quando ostextos forem escritos por mulheres, deve-se levar em consideração a duas posições que amulher exerce dentro das narrativas: a escritora – que cria personagens femininas – e apersonagem que é um indivíduo diferente daquele que escreve. Nesse aspecto, podem-seanalisar as personagens femininas de Sônia Coutinho. A autora as constrói para mostrar abusca incansável por uma identidade feminina respeitada pela sociedade onde estão inseridas.Nesse mesmo contexto, tem-se a autora, que, através de sua escrita, tenta neutralizar asdiferenças entre os sexos e mostrar que a mulher capaz de lidar com a arte escrita. Há,portanto, dúbio sentido quando se fala da busca pela construção da identidade feminina. Em Os Seios de Pandora, as protagonistas buscam a sua identidade através dedesafios lançados à sociedade. Tentam exercer muitos papéis e com isso causam conflitosfamiliares e sociais. Pode-se dizer, portanto, que a narrativa traz uma abordagem das grandesquestões individuais e sociais que afetam as pessoas em situações diversas, como é o caso de
  33. 33. 32Tessa Laureano. Apesar de apresentar características inerentes à mulher contemporânea,busca uma identidade fixa que coloque em evidência a sua capacidade de desempenhar váriasfunções e ser independente. Sabe-se, entretanto, que a procura pela identidade definida é algoextremamente complexo, uma vez que de acordo com Stuart Hall “A identidade plenamenteunificada, completa, segura e coerente é uma fantasia” (HALL, 2003, p. 13). O sujeito pós-moderno é definido por Hall como não possuindo uma identidadeessencial ou permanente, ela é formada e transformada de acordo ao sistema cultural que oindivíduo está inserido. Assim, Tessa Laurenao, ao exercer tantas funções, seu próprio “eu”entra em conflito. Ora, sente-se forte por conseguir desafiar as ideias da época, ora se sentefrágil por ainda depender do apoio de outras pessoas para se manter livre: “[...] a própriaTessa não tinha muita clareza quanto ao que estava acontecendo com ela. Só sabia queenfrentava uma série de obstáculos e infortúnios. Às vezes achava que era tudo vingança damãe, mas não sabia o motivo” (COUTINHO, 1998, p. 36). Essa crise de identidade faz parte de um processo amplo de transformaçõessofridas pela sociedade moderna. Com isso, há um abalo nos quadros de referência que davamaos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social. Sobre essa crise e a adversidade daconstrução identitária, Stuart Hall, discute: Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão continuamente deslocadas. Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos [...] (HALL, 2003, p. 13). A identidade é definida historicamente e não biologicamente (HALL, 2003, p.25).Em se tratando de Tessa Laureano, nasceu em uma cidade interiorana regida por ideiaspatriarcalistas, no entanto, assume identidades diferentes em diversos momentos. Identidadesessas que não unificadas ao redor de um “eu” coerente (HALL, 2003, p.14), vive como aprofissional em busca do produto de seu trabalho, quer a independência financeira e procura oreconhecimento da maternidade. Por conta de tantas funções sente-se, muitas vezes, solitária,confusa, fragmentada. Ao falar em fragmentação do sujeito pós-moderno, a teoria de Homi Bhabha(1994. p. 26) torna-se de grande importância para essa discussão e para a análise dapersonagem, uma vez que, para o autor, o ser humano encontra-se em um momento de
  34. 34. 33trânsito, onde espaço e tempo se cruzam para produzir figuras complexas cujas identidadessão extremamente fragmentadas e em um constante processo de construção, e exatamente porisso, levando a uma certa sensação de desorientação e, algumas vezes, até mesmo deexclusão. Sônia Coutinho, através da escrita, apresenta mulheres que buscam umaidentidade capaz de sustentar sua condição de sujeito apto ao exercício de várias funções. Épossível dizer ainda que essa escrita feminina seja decorrente de um conflito identitário darelação da mulher com a busca pela sua própria identidade. Os Seios de Pandora, assim como outros textos da autora, apresentam mulheresem busca de uma identidade desvinculadas de valores convencionados pela sociedade. Não setrata de textos em defesa da causa feminina. A autora assume uma visão equilibrada acerca doprocesso de emancipação da mulher e apresenta, através da ficção, os avanços, os problemas eos limites, quando dramatiza situações vivenciadas por personagens misteriosas edesafiadoras. Diante desse aspecto, não se pode negar que a sua ficção serve como uma pontepara as discussões a respeito da questão de gênero na Literatura.2.3 Os seios de Pandora: uma questão de gênero O estabelecimento do gênero como uma categoria importante à análise literáriacausou alguns abalos à tradição ocidental. Com o rompimento do papel que vinhadesempenhando através de séculos – o de ser somente sujeito passivo da história – e com oingresso em domínios públicos, as mulheres trouxeram grandes transformações nas estruturaspsíquicas, tanto dos homens quanto delas próprias. Para a reflexão a respeito dessastransformações, as discussões acerca das questões de gênero têm ganhado força, sobretudo naLiteratura, a partir do crescente número de publicações femininas e dos estudos sobre amulher e a sua escrita. Helena Confortin (2003, p. 108) postula que o conceito de gênero éainda para a sociedade algo bastante polêmico, haja vista ser recente em termos de ciência. Éusado há menos de vinte anos e foi introduzido pelas feministas anglo-saxãs. Campos (1992,p. 113) ainda traz outra definição a respeito de gênero e como esse termo foi sendodesenvolvido em outras camadas além da história de luta feminina: Gênero concerne à experiência social e pessoal de um e de outro sexo; desenvolve-se enquanto categoria analítica a partir do pensamento feminista,
  35. 35. 34 nos anos 80 [...] e assinalando uma transformação relativamente a centros de interesse da década anterior, tais como uma história das mulheres, a questão da ginocrítica, isto é, do estudo feminista da escrita da mulher, pressupondo- a marcada pelo sexo. Transcedendo, porém, as fronteiras da pesquisa feminina vão inscrever-se nas categorias das ciências humana e sociais, de sorte que sua utilização paraleliza-se às demais categorias indicadoras de diferença. Em muitas pesquisas, a questão de gênero tem sido utilizada como sinônimo demulheres. Esse aspecto preocupa alguns estudiosos, uma vez que, a partir dessa concepção degênero, os estudos femininos se centrariam nas mulheres de maneira estreita. Dessa forma, anoção de gênero definiria as mulheres e os homens em termos recíprocos, não podendo serentendidos de forma individual. No entanto, deve-se repensar a questão de gênero como “umacategoria útil à história e não apenas à história das mulheres [...]. O gênero dá significado àsdistinções entre os sexos, ele transforma seres biologicamente machos e fêmeas em homens emulheres, seres sociais” (SCOTT, 1992, p. 64). Para Scott, os estudos sobre gênero devem incluir o homem e a mulher em suasmúltiplas vinculações, prioridades e relações de poder. Esse termo pode enfatizar a históriadas mulheres, mas também a dos homens e até das relações entre homens e mulheres, além deoferecer um espaço para a análise das desigualdades e das hierarquias entre esses segmentossociais. Para reafirmar essas concepções, Costa et al (1985, p. 5) discutem que, a partir dosestudos de gênero houve uma mudança significativa no olhar sobre a mulher e sua relaçãocom o homem e a sociedade. A partir desse ponto de vista haverá maior entendimento sobreas desigualdades enfrentadas pelas mulheres em detrimento dos homens: Há um esforço para dar visibilidade à mulher como agente social e histórico, como sujeito; portanto, o tema sai das notas de rodapé e ganha o corpo dos trabalhos. Surgem estudos preocupados não só em desvendar a opressão das mulheres, como também demonstrar que a abordagem destas questões pode trazer contribuições importantes ao entendimento da sociedade. É nessa vertente que se encontra, além de outros aspectos, o romance Os Seios dePandora, haja vista a autora utilizar o espaço da escrita para mostrar a relação existente entreo sexo masculino e o feminino, o primeiro sendo ainda abordado como ser superior tanto noaspecto intelectual quanto social e o segundo como agente paciente de todas as açõespraticadas pelo homem, além de desmascarar os preconceitos sofridos pela figura femininaquando procuram igualar-se à masculina em termos de independência financeira e profissão:
  36. 36. 35“Estava triste. Imaginou o que veriam nela as pessoas com quem cruzava. Uma mulhermachucada, barriguinha proeminente, bolsas em cima das pálpebras. Uma mulher a quemninguém mais dava importância” (COUTINHO, 1998, p. 64). Os Seios de Pandora tratam de um texto que faz repensar a questão de gênero nãomais centrada somente no feminino, mas em gênero como mudança, “[...] ultrapassando a faseda denúncia e opressão e a descrição das experiências e/ou vivências femininas”(CONFORTIN, 2003, p. 110). Com a exposição do cotidiano realista da mulher, a autora quermostrar as diferenças que existem entre os sexos e o modo pelo qual essas diferenças têm sidoentendidas como desigualdades. Por ser mulher e escrever sobre mulheres não faz com que aautora utilize seus textos somente como argumentos para a defesa feminina, apenas tentamostrar que não há diferenças entre os sexos, apenas os homens, ao possuírem o poder daescrita, a utilizaram para beneficiarem a si próprios e à sociedade a qual pertenciam. Não se pode negar que há diferenças biológicas na caracterização do masculino edo feminino, no entanto, essas características não devem ser vistas como algo que dêsuperioridade ao ser masculino. Discursos biológicos em torno dessas diferenças tentamconvencer a sociedade de que o cérebro da mulher é desenvolvido de uma determinada formae o do homem de outra, de maneira que faz com que os homens sejam mais lógicos, maisracionais, capazes de tomar decisões difíceis e as mulheres sejam intuitivas, frágeis,sentimentais. Essas ideias de diferenças entre os sexos é que geram preconceitos contra amulher. No caso do romance em análise, a personagem Dora Diamante ao procurar empregocomo redatora de jornal foi dispensada porque naquele momento só havia vaga para a sessãopolicial e no pensamento do chefe de departamento, uma mulher não poderia preencher talvaga: “A vaga estava ocupada por outro redator. O único lugar disponível era na policia. Euvoltaria para a variedade, prometeu ele, logo que surgisse oportunidade” (COUTINHO, 1998,p. 19). A obra de Sônia Coutinho mostra-se muito representativa da modernidadenarrativa, sobretudo quando pretende destacar e discutir a questão de gênero. A autora,através do romance Os Seios de Pandora revela o universo feminino do ponto de vista daprópria mulher. E este aspecto permite abordar com maior autoridade as questões queenvolvem o feminino. As suas personagens exemplificam como a sociedade ainda encara amulher a partir de vários estereótipos com os quais as mulheres “modernas” precisam lidar,mesmo vivendo no século XXI. Os perfis escolhidos, conforme são apresentados na obra,mostram mulheres em transformação, na qual está em busca de sua identidade e precisa
  37. 37. 36enfrentar diversos conflitos para buscar sua valorização enquanto ser humano sem levar emconsideração o sexo ao qual pertencem.
  38. 38. 373 PANDORA E SUA CAIXA: as surpresas da narrativa de Sônia Coutinho A narratologia contemporânea permeia os espaços artisticoliterários e tal como aliteratura clássica prescinde dos recursos intertextuais. A caixa de Pandora e seus mistériosmetaforizam a escrita de Os seios de Pandora. Todo um mistério, a busca por pistas e ossegredos por se revelarem à luz de olhos perspicazes como os de Dora Diamante. Dora, nome de origem grega, significa presente, dádiva. Indica uma pessoa queresolve tudo devagar, pacientemente e de modo ordenado; bom senso e moderação. Diamante,também grego, significa inconquistável, indomável, por sua dureza. Eis um bom perfil para apersonagem que viria a desvendar os enigmas que circulavam a morte de Tessa - formadiminutiva do inglês Therese, Teresa. Certamente origina-se do grego theros, verão, ou therizo, colher. Laureano,expressão latina, significa coroado com louros, vitorioso. Tessa Laureano traduz a liberdade ea vitória de uma mulher que, acusada pela família e pela sociedade, perde a vidamisteriosamente e cabe à Dora Diamante, com sua vontade férrea e prudência, aniquilar ossegredos de uma perseguição. As pistas a serem seguidas eram tão obscuras quanto o título Os seios de Pandora.Faz-se necessário conhecer o mito de Pandora e sua caixa de maus fluidos quebrantáveisapenas por um único elemento: a esperança. Tem-se, pois, um caso para estudo. O gêneropolicial, mais indicado para a tessitura do texto, imbrica-se nas teias literárias e desfaz oestereótipo de subliteratura. Há um texto de elaboração exemplar aberto às discussões desdecriação literária à quebra, à transgressão de escrita. Literatura Contemporânea, repaginada e mais consistente, retrata as transgressõessociais com mais veemência. A arte relendo a vida com imagens atemporais próprias àmetaforização de fatos e ou acontecimentos relegados a espaços sociais. A linguagem literáriaplena de prazer e fruição permite ao leitor o sabor e o saber de expressões norteadoras paracompreensão de comportamentos. Como a morte é veiculada nessa arte em Os seios de Pandora? A morte dosonho de liberdade ressignificada por olhares que resgatam pistas e demonstram que a mulhermorre na representação de seus desejos, mas permanece na luta por encontrar o espaço e odireito social de ir e vir, de possuir vida privada e pública. O gênero policial de SôniaCoutinho como reinvenção de estilo. Uma personagem detetive que estabelece a distância
  39. 39. 38entre a mulher e a mulher, isto é, há modelos que são revisitados e decifrados nesse gêneropolicial: mistério e investigação.3.1 Seios e Pandora: pistas de um gênero policial Cada século traz consigo afirmações e inúmeras mudanças nas estruturas sociais.Durante o século XX, com o aumento da violência urbana, coube à Literatura o papel derepresentar também tais acontecimentos. Os crimes passaram a ser tema de textos literários ea partir desse aspecto um novo gênero é introduzido na Literatura: o gênero policial. Atribui-se o surgimento do romance policial ao escritor Edgard Allan Poe com apublicação de contos utilizando-se do ambiente urbano com a mistura de elementos como ocrime, o detetive e a investigação, elementos estes que passaram a ser peças-chave para osurgimento de textos no gênero policial. No Brasil, é possível dizer que não há uma tradição de produzir esse tipo deromance como houvera sempre nos Estados Unidos. Contudo, observa-se que, nas últimasdécadas, houve um crescente número de escritores e escritoras que adentram a esse gênero e osucesso de público tem sido o mesmo que em outros países cuja produção é ainda maior. Assim como Edgard Allan Poe pode ser considerado o introdutor do textopolicial, há também a “versão feminina” que se destaca no cenário desse tipo de escritura:Agatha Christie, que já vendeu milhões de exemplares dos seus livros e se sobressai ainda porter sido a grande precursora da figura do detetive feminino. Desde sua origem, o romance policial tem sido escrito por um grande número demulheres que até recentemente adotavam modelos masculinos para suas narrativas. Noentanto, o amadurecimento crítico resultou numa transformação radical da escrita feita pelamulher: passou de uma literatura sentimental, que apreciava a emoção para uma literatura deperfil questionador, revolucionário, político, que coloca em evidência a ação. Desse modo, o“amor” passa a ser um tema pouco explorado (no entanto, não esquecido) e dá-se ênfase àexploração de aspectos que até então diziam respeito ao homem, fator tão discutido naliteratura feminina contemporânea. Com o aparecimento de escritoras no contexto policial, o próprio gênero passaagora a ter um novo olhar, uma vez que as mulheres impõem em seus textos, uma visãofeminina da realidade e a partir desse aspecto outros elementos, típicos da escrita de autoria
  40. 40. 39feminina são introduzidos para mostrar uma nova concepção de romance policial longe deestratégias tradicionais masculinas. Nesse âmbito de inovações na escrita de romances surge Sônia Coutinho. Aautora tenta romper paradigmas acerca da escrita de autoria feminina, introduzindo, em seustextos, aspectos inerentes ao gênero de romance policial, considerado por muitos críticosliterários como uma degradação na Literatura, isto é, subliteratura. No entanto, Mario Pontes(2007, p. 68) defende a ideia de que não se deve julgar esse gênero como uma “desprezívelsubliteratura”. Ele tem seus processos, com suas próprias regras. Em Os seios de Pandora, há outros elementos a serem discutidos - além daquestão da figura feminina na Literatura -, uma vez que o texto traz uma atmosfera demistério que envolve o leitor e uma personagem que tenta investigar a vida da protagonistaapós certos acontecimentos misteriosos – aspectos marcantes na escrita da autora, uma vezque o romance em questão segue uma trilogia de romances que podem estar inseridos nogênero policial. Sônia Coutinho enquanto autora do campo de escritoras que discutem e criamimagens de mulheres na ficção brasileira contemporânea introduz novos conceitos emudanças em sua forma de escrever. De acordo com Mario Pontes (2007, p. 56), as mulherescomeçaram a escrever e publicar contos e romances policiais. Começaram a se tornarimportantes por capacidade e “ousadia” de utilizarem as mesmas estratégias de autores que asprecederam, uma questão de influência, muito comum a toda escrita. Isso vem confirmar asideias de Sônia Coutinho quando discute a respeito da inserção de mulheres no contexto dogênero policial: “[...] as escritoras de livros policiais, até bem recentemente, adotavam elaspróprias modelos masculinos para suas histórias e personagens, criando detetives homens,calcados nos tipos consagrados do gênero” (COUTINHO, 1994. p. 17). No que diz respeito às características estéticas do romance policial, teóricos comoFrançois Fosca (apud Tzvetan Todorov, 2006, p. 95) descrevem este tipo de romance daseguinte forma: Parte-se de um caso de aparência inexplicável, uma personagem é culpadainjustamente, a partir de indícios superficiais. Aparece a figura do detetive (geralmente,homem) que investiga, raciocina para desvendar o mistério do caso. A solução é sempreimprevista e coerente e quanto maior for o mistério, mais simples será a sua explicação. Para muitos autores, o romance policial é uma narrativa de massa fundamentadaem conceitos fixos que chegam ao ponto de tentar encaixá-los em fórmulas. Nessa vertente,Tzvetan Todorov (2006, p. 95), ao utilizar a noção de estrutura, estabeleceu uma tipologia
  41. 41. 40para o romance policial, que se tornou referência obrigatória. O autor classifica o policial emtrês modalidades: o romance de enigma que apresenta um sempre um crime misterioso a seresclarecido e, além disso, os crimes são sempre solucionados sem riscos nem ameaças para odetetive; o romance negro, cujas histórias se fundem, a narrativa coincide com a ação docrime; e o romance de suspense que combina as propriedades das anteriores, serve detransição entre o romance de enigma e o romance negro. No romance em análise a autora utiliza elementos próprios do gênero policial,como uma morte, um suspeito, mistérios e ainda a presença de uma personagem que se dispõea fazer uma investigação acerca da morte da protagonista: “Enquanto penteava a matériasobre espancamento, o assassinato de Tessa foi me enchendo de raiva”. [...] E me ocorreu queeu podia fazer uma bela reportagem, um protesto, em torno do seu assassinato (COUTINHO,1998, p. 16). No entanto, essas características são apresentadas sob uma nova perspectiva.Não segue necessariamente as regras que são impostas à produção de romance policial. A figura do detetive – característica do gênero policial - não se encontra nanarrativa de Sônia Coutinho. Essa característica tem sido abordada pela escritora de formadiferente do romance policial de autoria masculina, uma vez que alguns elementos doromance escrito pela ótica masculina não fazem parte ou são alterados, quando escritos sob oolhar da mulher. No entanto, é possível salientar que, com todas as transformações que aescrita feminina tem sofrido, o próprio gênero policial passa por um processo dedesconstrução, com o aparecimento da ótica feminina, pela qual se trocam modelostipicamente masculinos por abordagens femininas, criando detetives mulheres que,consequentemente, desconstroem essa imagem cristalizada de detetive homem. Freitas (2005, p. 04) discute a respeito de características modernas do romancepolicial e destaca que, na Literatura brasileira das últimas décadas do século XX, o romancepolicial, remodelado, emerge como exercício de questionamento. Investigar não se restringemais à busca de culpados, mas sim, à exposição das dúvidas sobre os impasses humanos esobre a própria experiência artística. É o que acontece com a investigadora Dora Diamante aobuscar desvendar os mistérios que envolvem a morte de Tessa Laureano. Não busca apenasidentificar o assassino, mas também tenta desvendar o motivo pelo qual levou à morte umamulher que para ela era extremamente corajosa. Como bem postula Coutinho (1994, p. 14), a evolução do romance policial atravésda inserção da voz feminina nesses textos trouxe inúmeras inovações. As mulheres passaram

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