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8                                                        SUMÁRIOINTRODUÇÃO...................................................
9                                       INTRODUÇÃO       A literatura fascina e encanta muitas pessoas com seus múltiplos ...
10Culler, Terry Eagleton, Walter Benjamin, Jacques Le Goff, Nízia Villaça, Michel de Certeau,Leyla Perrone-Moisés, Tzvetan...
11                                             CAPÍTULO I    1 FICÇÃO E HISTÓRIA: um princípio, um meio e dois fins       ...
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16                         A hermenêutica, como arte de decifrar, ensinou-nos a suspeitar do que é                        ...
17                         [...] Não seria difícil imaginar que o pós-modernismo contesta e que                         te...
18as perguntas e as reflexões que brotam da criação (arte). Na contemporaneidade é difícilseparar arte e teoria, aliás, es...
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22       Entendendo essas oposições, principalmente, da relação entre História e ficção, ecomo a literatura se comporta di...
23como afirma Reis (1998 p. 246): “[...] se a história nos ajuda a ler a ficção, a ficção tambémnos ajuda a pensar a histó...
24segunda a escrita dessa história dos acontecimentos, “o relato” ou historiografia. Dessas duastradicionais concepções de...
25         Peter Burk (1992) fala de dois conceitos de história um tradicional e outrocontemporâneo: o primeiro que ele ch...
26      1.5 Usos e abusos da criação literária: um meio de contar as histórias                             “Uma coisa é o ...
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36       Hall (2006) também debate sobre o sujeito e a identidade cultural, ou melhor, sobresua fragmentação, descentraliz...
37       Segundo Hutcheon (1991) as questões ligadas à identidade e subjetividade entram pelarepresentação, pela referênci...
38o mundo real; aquilo a que a ficção se refere é um universo fictício” (HUTCHEON, 1991, p.198). No pós-modernismo a histó...
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Metaficção historiográfica literatura, as narrações da história e o pobre leitor.
Metaficção historiográfica literatura, as narrações da história e o pobre leitor.
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Metaficção historiográfica literatura, as narrações da história e o pobre leitor.

  1. 1. 1UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV CURSO DE LETRAS VERNÁCULAS DEISIANE DE OLIVEIRA SILVA METAFICÇÃO HISTORIOGRÁFICA: literatura, as narrações da história e o “pobre leitor” Conceição do Coité 2010
  2. 2. 2 DEISIANE DE OLIVEIRA SILVA METAFICÇÃO HISTORIOGRÁFICA:literatura, as narrações da história e o “pobre leitor” Monografia apresentada ao Departamento de Educação, campus XIV, Curso de Letras Vernáculas da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), como instrumento da avaliação final da disciplina TCC para obtenção do grau de licenciada. Orientadora: Profª Mª de Fátima S. Barros das Chagas. Conceição do Coité 2010
  3. 3. 3 AGRADECIMENTOSA DEUS pelo acolhimento nas horas de alegria e tristeza, por ter guiado meu caninho, unidominha vida a de pessoas tão deferentes e especiais, pelo privilégio de compartilharexperiências e crescer ao lado de todos.À MINHA FAMÍLIA pela paciência em tolerar as minhas falhas e sempre ajudar nasdificuldades.À Orientadora Prof.ª FÁTIMA BARROS pelo incentivo e persistência.Especialmente aos Professores EUGÊNIA MATEUS, HENRIQUE VALENÇA,JUSSIMARA LOPES E JURÉIA MARIA F. DA SILVA, pelo pronto atendimento de todasas horas.Aos colegas de classe pela pronta colaboração na coleta de dados.Aos muito mais que colegas, aos amigos.
  4. 4. 4 DEDICATÓRIAAos meus amigos:PATRIANA CHAUÍ pela paciência e os ensinamentos nas horas de desespero;HAROLD BRUNA pelos bons conselhos de todas as horas e ajuda nas horas de desespero;EDLANA pela força e confiança na longa caminhada juntas e pela alegria nas horas dedesespero;GEOMEL pelo carinho e meiguice no trato com todos e pela tranquilidade nas horas dedesespero;TIA NENÊ pelos puxões de orelha que muito mereci e acima de tudo pela determinação nashoras de desespero;E como não poderia esquecer a TIO RAI pela proteção e cuidado de sempre e,principalmente, pelas caronas nas horas de desespero.Vivemos no limite por um bom tempo, mas nunca nos faltou espontaneidade, alegria,demonstrações de amizade e solidariedade, amo cada um de vocês.
  5. 5. 5“Pensar e sentir adotando o ponto de vista de outros,pessoas reais ou personagens literários, é o único meiode tender à universalidade e nos permite cumprir nossavocação” (TODOROV, 2009, p. 82).“E repare o leitor como a língua portuguesa éengenhosa. Um contador de histórias é justamente ocontrário do historiador, não sendo um historiador,afinal de contas, mais do que contador de histórias. Porque essa diferença? Simples leitor, nada mais simples.O historiador foi inventado por ti, homem culto, letradohumanista, o contador de histórias foi inventado pelopovo, que nunca leu Tito Lívio, e entende que contar oque se passou é só fantasiar” (ASSIS, 1959, p.395).
  6. 6. 6 RESUMOO presente trabalho analisou a relação entre ficção e história abordada pela metodologia deanálise literária denominada Metaficção Historiográfica, cujo objetivo é investigar ascaracterísticas da Metaficção Historiográfica e sua interferência na concepção de HistóriaOficial dos estudantes do Curso de Letras Vernáculas 2006.1, Departamento de Educação,Campus XIV-UNEB, Conceição do Coité, BA. Para isso, foi preciso realizar uma observaçãoparticipante, através de entrevista com treze estudantes. Além desse método, utilizou-sepesquisa bibliográfica com autores como: Linda Hutcheon, Terry Eagleton, Leyla Perrone-Moisés, Stuart Hall, Afrânio Coutinho e outros que, em suas obras retratam o pós-modernismo, história, ficção e o leitor, além da análise de romance. Com a pesquisabibliográfica, nota-se que são muitos os debates sobre a relação ficção e história, porém nãofoi detectada uma abordagem específica sobre o papel do leitor na formação do conceito dehistória e as estratégias da Metaficção Historiográfica para unir ficção e história de maneiracrítica. Na análise de dados, verificou-se que a leitura de obras literárias com a perspectiva daMetaficção Historiográfica levou os estudantes a perceber a verdade histórica sob outrosolhares.Descritores: Metaficção Historiográfica. Pós-modernismo. Leitor.
  7. 7. 7 ABSTRACTThis study examined the relationship between fiction and history addressed by themethodology of literary analysis called meta-fictional historiography, whose aims toinvestigate the characteristics of meta-fictional historiography and its interference in thedesign of the Official History of the students of the Course of Letras Vernáculas 2006.1,Department of Education, Campus XIV-UNEB, Conceição do Coité, BA. For this, we need toperform an observation, through interviews with thirteen students. Besides this method, weused literature with authors such as Linda Hutcheon, Terry Eagleton, Leyla Perrone-Moisés,Stuart Hall, Afrânio Coutinho and others who, in his works portray postmodernism, history,fiction and the reader, beyond analysis of romance. With literature, it is noted that there aremany debates about the relationship drama and history, but was not detected a specificapproach on the role of the reader in forming the concept of history and strategies of meta-fictional historiography to link fiction and history critically. In data analysis, it was found thatthe reading of literary works by the prospect of Metafiction historiographical led students torealize the truth in other historical sights.Key words: Meta-fictional, Historiography, Postmodernism, Reader.
  8. 8. 8 SUMÁRIOINTRODUÇÃO..................................................................................................................10CAPÍTULO I - FICÇÃO E HISTÓRIA: um princípio, um meio e dois fins na construçãoliterária................................................................................................................................121.1 Pós-modernismo: as contradições dos princípios e dos fins do fazer literário..............141.2 Estudos culturais: as possibilidades dos princípios e dos fins no olhar sobre as margens..............................................................................................................................201.3 O pós-modernismo e a problematização da história.....................................................241.4 Usos e abusos da criação literária: um meio de contar as histórias...............................27CAPÍTULO II - METAFICÇÃO HISTORIOGRÁFICA: o lugar do passado histórico eliterário................................................................................................................................312.1 O “romance” da Metaficção Historiográfica em “Terra Papagalli” .............................332.2 A forma narrativa: narrar... contar... é escolher um ou outro........................................362.3 A função da linguagem e as estratégias de representação: narrações do Brasil................392.4 A intertextualidade paródica: os usos, abusos do outro e suas verdades......................42CAPÍTULO III - A PROBLEMÁTICA DA METODOLOGIA........................................483.1 A abordagem e o enfoque.............................................................................................483.2 O método, não os métodos............................................................................................493.3 A técnica: os instrumentos de coleta de dados..............................................................503.3 O lócus da pesquisa.......................................................................................................52CAPÍTULO IV - E O LEITOR: produtor e/ou consumidor? Não, colaborador.................544.1 O leitor e a realização dos fins do fazer literário............................................................56CONSIDERAÇÕES CONCLUSIVAS- O que restou de nossas histórias?..................... .61REFERÊNCAS...................................................................................................................63ANEXO...............................................................................................................................68
  9. 9. 9 INTRODUÇÃO A literatura fascina e encanta muitas pessoas com seus múltiplos aspectos literários, opoder de concretizar em palavras a beleza da arte de viver expressa pela humanidade. Comessa perspectiva surgiu a necessidade de pesquisar sobre literatura e a área escolhida foi àrelação entre ficção e história. E mais, especificamente, o método de análise literáriaMetaficção Hstiriográfica, com o pós-modernismo e suas implicações na literatura de revisãohistórico-literária, além de seus reflexos nos leitores contemporâneos. Tendo o objetivo geral de investigar as características da Metaficção Historiográfica ese ela interfere na concepção de História Oficial dos estudantes do Curso de LetrasVernáculas 2006.1, Departamento de Educação Campus XIV-UNEB. E como objerivosespecíficos: conceituar as características que contribuíram para a Metaficção Historiográfica esuas especificidades; reconhecer as marcas da Metaficção Historiográfica no romance “TerraPapagalli” dos autores José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta e constatar oposicionamento dos estudantes do curso de Letras Vernáculas acerca do Discurso Oficial,diante da leitura de obras com características da Metaficção Historiográfica. A Metaficção Historiográfica intriga os leitores de diferentes maneiras,principalmente, com esses movimentos que recontam o processo histórico dando ênfase aossujeitos excluídos da construção nacional e os colocando no centro das narrativas, comopersonagens que têm voz e vez na participação e elaboração da nossa identidade. Por isso, aescolha da Metaficção Historiográfica como norteadora deste trabalho não foi aleatória.Surgiu da observação das discussões sobre literatura em sala de aula, quando percebi que osleitores têm diferentes opiniões sobre o que é literatura, sua função, sua importância e tambémas diversas reações diante de textos literários. Graças a essas características a hipótese primeira deste trabalho é de que tais estudosliterários pós-modernos influenciam os estudantes, levando-os a refletir sobre a fragilidadedos conceitos da História Oficial. A Metaficção Historiográfica é uma forma de análiseliterária que une em seus debates as contradições pós-modernas dos limites da arte, teoria epolítica, abordadas por Linda Hutcheon (1991), observa-e a quebra de todas as formastradicionais, reinventa-se a estrutura textual, dissonância do enredo e, principalmente, no usoe abuso da linguagem. Para isso, serão discutidos o pós-modernismo, a história, os Estudos Culturais, a ficçãoe o leitor nas perspectivas de Linda Hutcheon, Zygmunt Bauman, Afrânio Coutinho, Jonathan
  10. 10. 10Culler, Terry Eagleton, Walter Benjamin, Jacques Le Goff, Nízia Villaça, Michel de Certeau,Leyla Perrone-Moisés, Tzvetan Todorov entre outros com o fim de explorar ao máximo astórias que fundamentam os estudos literários contemporâneos. Para atingir os objetivos propostos a metodologia adotada foi a pesquisa qualitativacom uma abordagem fenomenológica, incluindo pesquisa bibliográfica, análise literária,observação e entrevista como fonte de coleta de dados, para fundamentar os objetivos dessapesquisa. A monografia está estruturada em quatro capítulos: o primeiro trata das teorias queinfluenciaram o nascimento da Metaficção Historiográfica; o segundo é composto por umaanálise do romance “Terra Papagalli”, à luz da Metaficção Historiográfica; o terceirocorresponde à metodologia e o último a análise de dados da entrevista.
  11. 11. 11 CAPÍTULO I 1 FICÇÃO E HISTÓRIA: um princípio, um meio e dois fins É claro que somos as mesmas pessoas Mas pare e perceba como o seu dia-a-dia mudou Mudaram os horários, hábitos, lugares Inclusive as pessoas ao redor São outros rostos, outras vozes Interagindo e modificando você E aí surgem novos valores, Vindos de outras vontades, Alguns caindo por terra, Pra outros poderem crescer Caem 1, 2, 3, caem 4, A terra girando não se pode parar1 (...) Metamorfose seria o termo mais indicado para tratar sobre o conceito de literatura aolongo dos tempos. Suas definições são compostas de vários significados, dependendo darelação com a sociedade que perpassa as épocas e em cada uma delas assume um sentidodiferente sem abandonar os antigos. Ao longo do tempo, a relação da literatura com o mundofoi afirmada e negada, teve de refletir os valores do “belo”, se separar da ciência, ser usadacomo meio de transmissão de ideologias etc. Principalmente, no final do século XX e iníciodo século XXI, com as convergências das diferentes teorias e concepções de literatura, novas,antigas e outras re-visitadas, afinal, “A terra girando não se pode parar”. Modificar, integrar, surgir, cair, crescer, a música cantada por Pitty, pode servir paratraduzir muito bem o contexto da literatura hoje, seu campo de atuação é tão extenso que nãopodemos distinguir o real do imaginado, o científico do censo comum, o hoje do ontem, aliás,estão em constante processo de mudança. “A literatura não nasce no vazio, mas no centro deum conjunto de discursos vivos, compartilhando com eles numerosas características; não épor acaso que, ao longo da história, suas fronteiras foram inconstantes”, como afirma Todorov(2009, p. 22).1 Anacrônico. Composição de Pitty e Graco. Ano de Lançamento: 2005, Gravadora: Deck Disc.
  12. 12. 12 O conceito de literatura, sua relação com o mundo, com as ciências sofreu e sofremudanças, exemplo disso é sua atual relação com a história. Antes, com o humanismo (séculoXVI), tínhamos a junção de todos os discursos: história, literatura, ciências etc. Entre osséculos XVII e XVIII, essa união se esvai, como água por entre os dedos, separa-se a ciênciada humanidade e consequentemente da literatura. Como nos lembra Souza (2006, p.16): “Mas a oposição humanidades/ciências éapenas um primeiro esboço ainda muito geral de especialização dos campos discursivos ou daatividade cultural, que será objeto de novos arranjos até que se delineie a oposiçãociência/literatura”. O primeiro esboço se intensificou e a literatura passou a indicar ficção,logo fantasia, e história, a ciência de narrar os fatos “importantes” da humanidade. Mas “e ai surgem novos valores, vindos de outras vontades”, atualmente as linhasdivisórias entre literatura e história, com o desenrolar do pós-modernismo, se tornaram muitofrágeis e foram contadas as versões verossímeis na literatura. Verdades omitidas pela HistóriaOficial, linhas que narram apenas os fatos, foram reveladas na escrita ficcional. Devido àexpansão do interesse por estudos sobre esse tema, fica evidente a fragilidade do poderargumentativo da história e a evolução dos artifícios adotados pela literatura pós-modernistapara tornar cada vez mais convincente e intrigante as histórias ficcionais. Essa é uma das vertentes dos estudos literários e aqui será o foco desse estudo. O jogoentre ficção e história é muito antigo e até hoje não existe um vencedor. Os escritores têmconsciência das potencialidades da literatura, das possibilidades de seu poder discursivo e usaseus mecanismos estruturais e estéticos: os simulacros, a paródia, a pastiche, a autobiografia,a fantasia, a verossimilhança para criar novas narrativas que se aproximam e criticam o fazerhistórico. Essa brincadeira leva não só a refletir sobre os temas tipicamente literários, mastambém, a duvidar das condições de escrita da própria História Oficial. As críticas tanto sobre o posicionamento autoritário e unilateral da história quantosobre a literatura, por se aproximar da narração oficial da história de forma tão inovadora, temcontado com a participação assídua do leitor para construir e destruir as oposições, os debates,os estudos e, principalmente, as leituras da história e da literatura. As convergências entreficção e história são acentuadas graças quase que por completo ao contexto sócio/históricopós-moderno que mistura as “histórias possíveis” com as “narrativas dos acontecimentos”2. O discernimento necessário para não ultrapassar essa linha tênue – ficção e história −está em saber que ficção é um emaranhado de realidades possíveis. Porém o pós-modernismo2 Termo usado por Peter Burk (1992), para caracterizar História tradicional que vai de encontro à Nova História.
  13. 13. 13deixa essa decisão a cargo de cada leitor, já que este tem o papel fundamental na construçãodo sentido do texto, pois as obras de arte sejam elas arquitetura, pintura, escrita, dança,escultura entre outras, só ganham sentido no contato com o exterior (expectador/leitor), e suasincursões pelos contextos sócio-históricos. [...] Essa coerência – imaginada, fictícia – depende, claro, parcialmente, dos próprios dados, mas também da plausibilidade de sua significação possível, imaginada pelo escritor/historiador de tal maneira que o leitor possa reconstruí-la. Sendo assim, a construção de “mundos reais”, de realidades possíveis, a sua plausibilidade, dependem, também, do contexto histórico real no qual eles são produzidos e reproduzidos pelos leitores. (LEMAIRE, 2008, p.10-11, grifos do autor). Nesse capítulo pretendo discutir as características contraditórias do fazer literário pós-modernista, e para isso abordarei primeiro a problemática que envolve a literatura e as marcasdo pós-modernismo com sua carga crítica, seu relacionamento com a história, suas influênciasculturais e, principalmente, as abordagens teóricas da Metaficção Historiográfica e seurelacionamento com o leitor. Tendo em vista que a literatura pós-modernista tem o mesmoprincípio de criação da História Oficial, as histórias passadas da humanidade, um mesmométodo de criação, o discurso narrativo; fins diferentes, pois as duas, tanto a literatura quantoa História tem objetivos divergentes: a primeira se firma como ficção e a segunda comoverdade.1.1 Pós-modernismo: as contradições, princípios e fins do fazer literário. [...] Na verdade, não há apenas um pós-modernismo, mas vários, e cada uma dessas construções foi cunhada num contexto distinto para servir a fins diferentes [...] (COUTINHO, 2004, p. 236). Toda a proposta de definição está sujeita a contestações, e em se tratando daproblemática do pós-modernismo esse perigo é muito maior, pois esta é muito mais que umapalavra usada de várias maneiras e por vários seguimentos teóricos. A reflexão de Coutinho(2004) é a proposta acertada para abrir a discussão do paradoxo contemporâneo. Entre os vários pós-modernismos, um é apontado por alguns autores como movimentoliterário que nomeia as mudanças ocorridas a partir da década de 60 do século XX, mudançastão complexas e com tantos defensores quanto opositores. Em decorrência disso, como afirmaCoutinho (2004), existem vários pós-modernismos, dai a dificuldade em definir esse termo,
  14. 14. 14tendo de aceitar suas indefinição. Não é permitido nomear de forma simples e objetiva suasindefinições, por ele ser plural, recente e ainda não ter um o afastamento temporal suficientepara caracterizá-lo (discernimento que só o tempo é capaz de proporcionar). Devido as suas especificidades não poderá ser reduzido a um punhado de traçosdistintivos e restritos. Refletindo a pluralidade e os paradoxos, não existe uma formaconsensual de referí-lo, porém, existe um termo que parece ser unânime entre os teóricosatuais, tanto os defensores, quanto àqueles que condenam desde Hutcheon (1991) a Eagleton(2005); de Nizia Villaça (1996) a Perrone-Moisés (1998); de Bauman (1998) a Coutinho(2004). Essa parece ser mais que uma palavra, é um termo que abarca de forma muitogenérica as posições teóricas usadas pelos estudiosos citados, mas é o primeiro passo paraentender o pós-modernismo, esse termo é: contradição. Em face do emaranhado de definições contraditórias apontadas pelos autores antesmencionados, faz-se necessário um esclarecimento deste trabalho acerca dos termos pós-moderno, pós-modernismo e pós-modernidade – lembrando que não existe consenso entre osteóricos. A preferência pelas definições que seguem parece ser as mais acertadas para o bomandamento deste trabalho. Como se fez entender Perrone-Moisés (1998 p. 181), pós-modernoé “considerado como um feixe de posturas filosóficas e traços estilísticos”, esses traçosaparecem em diferentes autores e em períodos também diferentes. Seriam: [...] heterogeneidade, diferença, fragmentação, indeterminação, relativismo, desconfiança dos discursos universais, dos metarrelatos totalizantes (identificados como ‘totalitários’), abandono das utopias artísticas e políticas [...] (PERRONE-MOISÉS, 1998, p. 183, grifos do autor). Como também explica Rogério Forasteeri da Silva 2001, o pós-moderno é um tempo,uma era de incredulidade, em relação às metanarrativas totalitárias como o cristianismo,marxismo, o iluminismo, pressupostos que tentam unificar todos os campos do conhecimentoem torno de uma doutrina única. O pós-moderno aborda a individualidade e o local, tentandodesvendar as estruturas de poder que existem no comando das metanarrativas, os jogosideológicos e de poder. O pós-modernismo é o movimento que surge depois das vanguardas artísticas doinício do século XX, um conjunto de ideias. Também a pós-modernidade nasce emconseqüência do rompimento das múltiplas teorias sociais, históricas e filosóficas fixas do
  15. 15. 15século XIX, um período histórico. Sendo assim, fenômenos que abordam tanto osmecanismos sociais quanto artísticos, estudar o pós-modernismo implica diretamente escreversobre as ebulições sócio-históricas da época expressa pela arte contemporânea3. A arte pós-moderna é extremamente inovadora, no sentido de abordar temasexperimentais, e sua principal característica é o poder autoquestionador, com uma carga decriticidade, muito além das formas apresentadas pelos movimentos artísticos precedentes.Essa marca delineia os princípios da construção literária com objetivo de situar o pós-modernismo como cicatriz da escrita das décadas pós 60. Na tentativa de uma linha divisória entre o modernismo e o pós-modernismo, osteóricos, tentam traçar características opositoras, o que os diferencia e o que marca a rupturaentre um e outro. Mas o primeiro presenciou as rupturas, as quebras de paradigmas queaprisionavam o homem e a sociedade positivista, o segundo viu essas características seampliando, evoluindo e principalmente sendo reelaboradas, logo não existiria o pós-modernismo sem o modernismo. O modernismo alimentou o pós-modernismo [...] o pós-modernismo se desenvolveu nitidamente a partir de outras estratégias modernistas: sua experimentação, auto-reflexiva, suas ambiguidades irônicas e suas contestações à representação realista clássica (HUTCHEON, 1991, p. 67). Uma das contradições do pós-modernismo é a comunhão de traços que caracterizam osmovimentos modernista e pós, com o acréscimo dos efeitos das mudanças sociais do séculoXX. Stuat Hall (2006) analisa essas mudanças político-sociais como grandes descentramentosque fizeram surgir o sujeito moderno e aqui podem ser usados para caracterizar o contextopós-moderno. A reinterpretação do marxismo, a descoberta do inconsciente, por Freud, a linguagem(um conjunto de sistemas que ganha sentido nas relações culturais), por Ferdinand Saussure, oregime de poder moldando o sujeito conforme denunciou Michel Foucaut, e por último,porém não menos importante, os impactos dos movimentos em defesa do: feminismo,homossexualismo na sociedade, mudanças sócio-ideológicas do início do século XX queantecederam e influenciaram as teorias pós-modernistas que, segundo Terry Eagleton (2005,p. 84) são principalmente:3 A palavra “contemporânea” será usada como sinônimo de pós-modernista, não existe consenso entre osteóricos citados em relação ao fim ou não desse movimento.
  16. 16. 16 A hermenêutica, como arte de decifrar, ensinou-nos a suspeitar do que é flagrante auto-evidente. O estruturalismo nos ofereceu um itálico sobre os códigos e convenções ocultas [...]. A fenomenologia entregou alta teoria e experiência cotidiana. A teoria de recepção examinou o papel do leitor na literatura [...]. Teorias que se completam – as do início do século XX e as da segunda metade domesmo século, são responsáveis pela mudança no comportamento social de toda uma época eque, consequentemente, transformou a escrita literária desta época. Conforme os diferentesposicionamentos sobre o pós-modernismo, irei apresentar as concepções de vários autoressobre o mesmo objeto (arte e teoria) e como esses apontamentos desenham os princípios e osfins da literatura nesse contexto. Terry Eagleton é um dos críticos opositores do pós-modernismo, mas não é capaz denegá-lo e afirma que: “Esse é o reino pós-trágico do pós-modernismo. Ele é muito jovem parase lembrar de uma época na qual existiam [...] verdade, identidade e realidade [...]” (2005, p.89). Para ele o pós-modernismo prega um mundo livre dos paradoxos, sem diferenças, semafirmações unânimes, uma manifestação da liberdade, em toda sua plenitude, ao lado daascensão da cultura popular, sendo o preço dessa liberdade e dessa pluralidade atransformação de todos em mercadorias. Tudo e todos são compráveis. “[...] o pós-modernismo que aqui marcou a quebra, à medida que tanto teoria quanto arte tornaram-sepatentemente não-elitistas e consumistas”. A nova ordem social “[...] era conhecida como oshopping center”. (2005, p.103, grifos do autor) . Perrone-Moisés (1998) também critica o posicionamento dos pós-modernistas, nãocomo aponta Eagleton, mas negando a existência desses pressupostos e afirmando que: “Ostraços apontados como pós-modernos são, assim, ora modernos, ora mais antigos”(PERRONE-MOISÉS, 1998, p. 184). Defende que os argumentos dos defensores do pós-modernismo não são convincentes devido à constatação de que muitos dos escritores tidoscomo pós-modernos o são apenas devido a posicionamentos ideológicos, distintos dosvigentes em sua época. Já Linda Hutcheon (1991) defende o pós-modernismo como um movimentoriquíssimo em seus posicionamentos teóricos, democrático por ser extremamente livre paradiscutir todos os temas possíveis e despir-se de todas as amarras formais e tradicionais,descentralizando os discursos dominantes, além de afirmar que:
  17. 17. 17 [...] Não seria difícil imaginar que o pós-modernismo contesta e que tentativas de mudança ele oferece: a democratização cultural das distinções entre arte elevada e inferior, e um novo didatismo; um questionamento político potencialmente radical, contextualizando teorias sobre a complexidade discursiva da arte; e uma contestação de todas as visões anistóricas e totalizantes (HUTCHEON, 1991, p. 76). A escritora identifica esses traços em todas as formas artísticas, analisando suascaracterísticas discursivas. Porém foca seus estudos, principalmente, no romance que ela julgaser a forma literária que melhor une as características pós-modernas. Outra escritora que comunga da opinião acima citada, em defesa do pós-modernismo,é Nízia Villaça (1996, p.27), principalmente, no que diz respeito à fragmentação e àdescentralização da criação, acrescentando o alto nível de “subjetividades” desse recenteposicionamento sobre a arte contemporânea: “A questão dos sujeitos é esclarecedora, pois éno surgimento da pluralidade, das subjetividades, que se pode compreender as décadasposmodernas” 4, a multiplicação dos sujeitos em suas formas mais fragmentadas, presentesnos romances e sua adequação aos diferentes contextos. Os posicionamentos sobre o pós-modernismo aqui apresentados são apenas umpequeno esboço do emaranhado de contradições que vigora na elaboração da arte,resumidamente definidos como: quebra de paradigmas, contestação das verdades universais,pluralidade, contradição, democratização das artes, fragmentação, descentralização, ascensãodas subjetividades, intimismo, foco no leitor. Com base nos autores citados, no geral de seusposicionamentos, esse é o rascunho do desenho a ser delineado pela arte e escrita dessemomento da história da humanidade. Dos muitos posicionamentos abordados nas poucas linhas desse trabalho o que meparece mais coerente é o de Linda Hutcheon (1991, p. 61). Para ela: “O moderno estáembutido no pós-moderno, mas o relacionamento complexo entre eles é de consequência,diferença e dependência [...]”. Não se pode negar sua existência, já que se fala, teoriza-se,contextualiza-se o pós-modernismo e não se pode ser radical, o ideal é estudar as marcas desua contradição sem esquecer da própria provisoriedade de nosso tempo. A arte pós-modernista compara-se à função primordial da filosofia que é de fazerperguntas e refutar as respostas, já que as perguntas filosóficas são impossíveis de seremrespondidas humana e universalmente. Assim, o mais importante não são as respostas, e sim4 Segundo a autora Nizia Villaça (1996), o uso do termo posmoderno sem hífen visa a acentuar a paradoxocontido na terminologia escolhida para denominar inúmeros campos do saber contemporâneo.
  18. 18. 18as perguntas e as reflexões que brotam da criação (arte). Na contemporaneidade é difícilseparar arte e teoria, aliás, esse parece ser apenas mais um dos paradoxos do pós-modernismo,elas estão ligadas por posicionamentos ideológicos e por semelhanças estéticas devido ao altoteor de liberdade artística. A literatura faz suas próprias escolhas e tem que assumir os riscos de sua ousadia, elaousa caminhar por diferentes campos do saber para atrair e inquietar o leitor, mas por ser umavia de mão única com dois sentidos e seu ponto alto está no encontro entre a obra, que vem dolado esquerdo e o espectador do lado direito. Um depende mutuamente do outro, sem essecontrato não existiria a arte, nem espectador e sem espectador não existe arte. Isso fica evidente em todas as formas de arte, mas tratarei em especial da escritaliterária, que na opinião de Eagleton (2005), traz consigo toda uma aba de especificidades e deescritores que revolucionaram o pensamento ocidental. Especialmente, o poder destrutivo dalinguagem, ao defender que todas nossas pré-supostas certezas eram discursos construídospela linguagem, que podem ser facilmente manipulados para se adequar às necessidades dassociedades, com o intuito de manter as posições das hierarquias e moldar o pensamentohumano. Ao perceber essa trama, explodem os movimentos que reivindicam a atenção paraaqueles sujeitos que foram durante séculos manipulados e excluídos da escrita e da sociedadecomo se não existissem ou existissem apenas para servir. O pós-modernismo literário abarcaessa nova concepção de descentralizar as grandes narrativas, por ser um movimento em quetodos os segmentos humanos: político, histórico, social, artes, cultura e religião, ora sãoapontados como a intensificação do modernismo, ora como completamente distintos. Refletir sobre a escrita pós-moderna é pensar em arte como a possibilidade de váriasrealidades alternativas que se imbricam e todas são tanto possíveis quanto à realidade. Umadas muitas características da pós-modernidade é o “autoquestionamento” que também foitransposto para a arte, a qual surge no ambiente contemporâneo com o objetivo de questionartodos os parâmetros positivistas, as narrativas de fundação, as questões ideológicas e depoder. Segundo Barthes (2004, p.05), “[...] já não se vê a literatura como um modo decirculação social privilegiado, mas como uma linguagem consistente, profunda cheia desegredos, dado ao mesmo tempo como sonho e como ameaça [...]”. Falar da escritacontemporânea envolve não apenas relatar os apontamentos do pós-modernismo enquantomovimento literário, mas e, principalmente, relatar as influências culturais que perpassamtoda a literatura. Estudo que será feito de forma mais profunda na próxima seção deste
  19. 19. 19trabalho, ao abordar principalmente a influência dos Estudos Culturais na literatura, que é oresultado das descentralizações e das novas abordagens temáticas sobre a cultura e seu papelna sociedade.1.2 Estudos culturais: as possibilidades dos princípios e dos fins no olhar sobre asmargens O posicionamento dos Estudos Culturais5 lembra o mito Iorubá contado por ElianaLourenço de Lima Reis (1999), quando ela analisa a obra literária de Wole Soyinca: Dizem os mitos iorubas que, a principio, os deuses viviam na Terra com os homens, porém uma falta humana fez com que voltassem a seu mundo. O longo isolamento entre deuses e homens deu origem a uma barreira intransponível entre eles, uma espécie de intricada floresta feita de matéria e não-matéria. Angustiados com a sensação de incompletude devido à separação, os deuses sentiram a necessidade de se ligarem novamente aos homens. O único que conseguiu a fachada de destruir a barreira entre os mundos foi Ogum, que, usando o primeiro instrumento feito de ferro, abriu caminho para si e para os outros deuses, restabelecendo o contato entre deuses e homens. Devido a uma falta trágica, contada em outro mito, Ogum é obrigado a repetir essa viagem anualmente em favor dos homens, mantendo sempre aberto um canal de comunicação entre os mundos (REIS, 1999, p. 85-6). A simbologia desse mito encontra-se na sua relação de circularidade como escreveReis (1999), a noção de tempo cíclico, Todo ano “Ogum” faz o mesmo percurso e a imagemque representa essa ideia é o emblema da “serpente que morde a própria cauda”. A eternadescrição de criação e destruição, o ciclo termina e logo outro começa. Por essa noção estarligada à fatalidade do circulo vicioso, segundo Reis (1999), Soyinka escolhe a “Faixa deMöbius” para uma interpretação pessoal do mito de “Ogum”. [...] sinal grego de infinito (∞), a Faixa de Möbius indicam uma sequência sem principio nem fim [...], por tanto sem um centro fixo, constituindo uma perfeita imagem de descentramento e das relações não-hierarquizadas. Sendo uma imagem da unidade na diferença [...] (REIS, 1999, p.86).5 Segundo Hall (2003, p. 188), “Os estudos culturais abarcam discursos múltiplos como numerosas históriasdistintas. Compreendem um conjunto de formações, com as diferentes conjunturas e momentos do passado”.
  20. 20. 20 Por ser essa faixa um símbolo que representa a ideia de não existência de centro seassemelha aos Estudos Culturais, rompendo com as dicotomias: branco/preto, bem/mal,centro/periferia, verdade/ficção. Como foi mostrado, o pós-modernismo estruturou-se ao ladoda escrita literária e as características outrora apontadas, apresentam-se, principalmente, emrelação à interface ficção e história, pois essas abarcam de forma significativa suas marcas. O fazer literário pós-moderno apresenta as mesmas características do movimento emsi, além de seu poder “auto-questionador”, desconstrói as narrativas de fundação, abordandoas realidades possíveis graças a seus mecanismos artísticos. A desconstrução das narrativasperpassa pela exposição dos novos valores. Primordialmente rompe os limites entre ficção eHistória, elabora novas realidades, busca o passado para parodiá-lo, substituindo asconstruções linguísticas tradicionais, rompendo os paradigmas humanistas, etc. Os novos debates teóricos sobre o conceito de cultura são muito divergentes, Hall(2003) fala de duas concepções de cultura de forma muito simples: “para chegar àsindefinições”. Esse pensador vê a cultura como um conjunto de especificidades quecaracterizam um povo, as práticas sociais, o modo de vida. E vê também a cultura comodomínio de ideias, narrações, histórias pelas quais um povo atribui sentido e refletem sobre asnecessidades, as experiências em comunidade. Assim, define a cultura para os EstudosCulturais: “[...] o esboço de uma linha significativa de pensamento dos Estudos Culturais: dir-se-ia, o paradigma dominante. Ele se opõe ao papel residual de mero reflexo atribuído ao ‘cultural’. Em suas várias formas, ele conceitua a cultura como algo que se entrelaça a todas as praticas sociais: como práxis sensual humana, como atividade da qual homens e mulheres fazem a história” (HALL, 2003, p. 133, grifos do autor). O contexto de desconfiança prepara o surgimento dos Estudos Culturais, nascido nomomento de ruptura entre velhos e novos paradigmas, em que entra em questão a dialéticaentre poder e conhecimento, disposto a analisar a produção e apropriação da cultura de massae suas estruturas discursivas. Segundo Culler (1999), há duas matrizes básicas: oestruturalismo francês, que trata a cultura como um conjunto de práticas sociais possíveis deserem descritas; e a teoria literária, de origem marxista, que analisa a cultura como uma formaideológica opressora. Apesar de ter nascido da análise literária, a aplicação de teoriassocioculturais a formas literárias e seus discursos, hoje os Estudos Culturais é um campo de
  21. 21. 21atuação que engloba e amplia o discurso literário, perpassando para os mecanismos deprodução cultural. [...] o projeto dos estudos culturais é compreender o funcionamento da cultura, particularmente no mundo moderno: como as produções culturais operam e como as identidades culturais são construídas e organizadas, para indivíduos e grupos, num mundo de comunidades diversas e misturadas, de poder do Estado, indústria da mídia e corporações multinacionais. Em princípio, então, os estudos culturais incluem e abrangem os estudos literários, examinando a literatura como prática cultural específica (CULLER, 1999, p.49). Nessa perspectiva de estudar a cultura em seus múltiplos aspectos como forma deexpressão e de opressão, os Estudos Culturais tangenciam os Estudos Literários. Preocupam-se tanto com o estabelecimento dos cânones, quanto aos possíveis ângulos de interpretaçãodesde histórico, psicológico, sociológico, questões de raça, gênero, posições de centro emargem6. As múltiplas formas de análise literária expressam a contraditoriedade dos estudosliterários tradicionais, observando e estudando as diferenças, como nasceram e porque semantêm as oposições que excluem ora um ora outro da colcha de retalhos que forma asociedade. Aos Estudos Culturais justamente aliam-se “quer por vocação interdisciplinar quer porinteresse em agentes marginalizados ou tipos subalternos” (SOUZA, 2006, p. 145). Porestudar os grupos minoritários, sua produção cultural7 e as forças ideológicas que asconstroem e controlam, incluindo as produções escritas (literárias), os Estudos Culturaisentram em oposição com a literatura canônica e a forma de estabelecimento dos cânones.Outro apontamento é o debate entre ficção e História, ao discutir o lugar dos discursos nãooficiais e o papel da literatura como disseminadora de ideologias. A literatura é uma forma de expressão que tanto cria, quanto destrói valores sociais,segundo essa opinião, e por trazer essa qualidade, ela é tão amada e odiada. Assim, apreocupação com os efeitos (reações) do texto artístico, a ideia de produção artística supõemum circuito entre o autor e o receptor, isto é, a obra artística só se realiza pelo efeito que elacausa no receptor.6 Essas noções são basicamente definidas por Hutcheon (1991, p. 85): “[...] repensar as margens e as fronteiras enitidamente um afastamento em relação a centralização juntamente com seus conceitos associados a de origem eunidade[...]eterna e universal”. E as margens “[...] local, regional e não totalizante [...]”.7 Nesse contexto Hall (2003, p. 128) define cultura como: “[...] todas as práticas sócias e constitui a soma dointer-relacionamento das mesmas”.
  22. 22. 22 Entendendo essas oposições, principalmente, da relação entre História e ficção, ecomo a literatura se comporta diante das evidências de subjetividade da ciência histórica. Aarte é usada para expor os contrastes e quebrá-los, preocupação que existe desde aantiguidade. Souza (2006) fala da posição de Plantão e sua preocupação com a reação doespectador, leitor e ouvinte de textos literários. Ele não se preocupa apenas com o artista, mascom a qualidade da produção, com seu efeito, achava que a poesia poderia fazer danos,despertar sentimentos prejudiciais não só aos cidadãos, mas também ao estado.Tudo isso porconsiderar o poeta um mentiroso, a arte um engano, a poesia uma mimese que levaria oespectador (leitor) a um “desencaminhamento moral”. Preocupação esta que foi descartadapela crítica literária tradicional ao afirmar que a obra de arte não tem função social, como citaCuller (1999, p.118) ao abordar a posição dos críticos: [...] os críticos deveriam se preocupar com a literariedade da literatura: as estratégias verbais que a torna literária, a colocação em primeiro plano da própria linguagem, e o estranhamento da experiência que elas conseguem [...] ‘ o mecanismo é o único herói da literatura’(grifo do autor). Essa é a principal oposição entre os Estudos Culturais e os estudos da literaturatradicional. Sobre essa oposição Culler (1999), no mesmo livro ao expor sua opinião sobreesse embate, diz que os estudos literários têm que aproveitar cada uma das boas qualidadesdas duas posições, pois não se pode abandonar as tradições nem tão pouco recusar asabordagens dos Estudos Culturais, as histórias das margens. 1.3 O pós-modernismo e a problematização da história Parafraseando Gaarder (1995), o homem só é verdadeiro quando se expressa através daliteratura, pois, despe-se de todo e qualquer preconceito, normas sociais e imposiçõesculturais, ele é livre para ser ele mesmo, camuflado pela linguagem e pela leve teia da ficção.Fora do mundo literário o ser humano é hipócrita e dissimulado, está sempre mentindo sobreseus desejos e vontades, por ter de ser “educado” e seguir padrões sociais culturalmenteimpostos, se pretende ser aceito na sociedade. O pós-modernismo ensina que não existe verdade e sim “verdades”, seja elas naliteratura ou na história, os Estudos Culturais afirmam que a verdade depende de quem contae seu significado depende do contexto cultural. A História, assim como a literatura tradicionalchamam de minimista e ressentida as abordagens desse novo foco teórico e literário, porém,
  23. 23. 23como afirma Reis (1998 p. 246): “[...] se a história nos ajuda a ler a ficção, a ficção tambémnos ajuda a pensar a história [...]”. Não existe a necessidade de oposição e reducionismo entre ambas as partes, éimportante atentar para o fato de atualmente todas as abordagens se complementarem: osEstudos Culturais, os discursos pós-modernistas, ambos não querem reverter os valores,transformar as margens em centro, como afirma Hutcheon (1991). O pós-modernismo querapenas expor suas diferenças e discutir seus mecanismos de construção literária, pois: “[...] Aficção não quer ser história, mas desconfia que o eu social do homem que a produz passa,direta e indiretamente ao eu do narrador (o que está dentro da obra) toda uma experiência devida e de linguagem”. (TELES 1996, p.376, grifos do autor). O narrador na ficção e nahistória é carregado de preconceito e isso se reflete em sua escrita. Sinônimo de liberdade a ficção (literatura) propõe o rompimento de padrões sociaisculturalmente impostos pelas ideologias dominantes, usando a narrativa como ferramenta deação. A ficção não é apenas uma forma de descontração e de liberdade de expressão é tambémpalco de jogos ideológicos, por isso a discussão sobre o papel da ficção na atualidade é tãoimportante. Bauman (1998) explora o lugar da ficção no mundo pós-moderno cheio de incertezas ede descrença nas ciências, perpassando pelo conceito moderno, ele concebe a ficção comouma forma de crítica e de fuga da instabilidade das noções de verdade do mundocontemporâneo. A arte é o lugar das certezas que o mundo real não pode mais afirmar: No mundo moderno, a ficção dos romances desnudava a absurda contingência oculta sob a aparência realidade ordenada. No mundo pós- moderno, ela enfileira unidas cadeias coesas e coerentes, “sensatas”, a partir do informe acúmulo de acontecimentos dispersos. Os status da ficção e do “mundo real” foram, no universo pós-moderno, invertidos. Quanto mais o “mundo real” adquire os atributos relegados pela modernidade ao âmbito da arte, mais a ficção artística se converte no refúgio – ou será, antes, na fábrica? – da verdade (BAUMAN, 1998, p.157, grifos do autor). As noções de “verdade e ficção” hoje são concebidas como as formas pelas quaisconhecemos o mundo e a História, pois a preocupação não é mais em validar a verdade ou amentira e sim em fazer coexistir os diferentes posicionamentos entre os povos e as diferentesculturas. Consequentemente as verdades foram levadas para o campo da História e hoje elanão é mais um campo coeso, e sim composto de multiplicidade de posicionamentos. Santos (2000), fala de duas primordiais noções da palavra história, a primeira seriauma continuidade de tempo ao qual estamos sujeitos, o “fluxo dos acontecimentos” e a
  24. 24. 24segunda a escrita dessa história dos acontecimentos, “o relato” ou historiografia. Dessas duastradicionais concepções de história ele oferece uma terceira contemporânea, afirmando que adistinção entre uma e outra não existe mais, devido às mudanças socioculturais. Já que, para aprimeira acontecer é necessário experiência, vivencia e a segunda é o ato de escrever essaexperiência. Continuando, Santos afirma que a perda da distinção entre as duas é um fenômenosocial, pois perdemos a capacidade de viver, experimentar, devido à expansão doindividualismo, do isolamento nos grandes centros, as cidades. O movimento de prisão ésemelhante ao que Bauman (1998), chama de mal-estar pós-moderno, o sacrifício deliberdade em prol da segurança, que levou a uma busca de prazer individual: “[...] Osesplendores da liberdade estão em seu ponto mais brilhante quando a liberdade é sacrificadano altar da segurança” (BAUMAN, 1998, p. 10). O sacrifício da liberdade na sociedade contemporânea é uma forma de manter-se emsegurança, sem liberdade é necessário buscar formas de prazer com cautela então se tem oafastamento do convívio em sociedade, o que Santos (2000), chama de “encarceramento” essemovimento leva a o homem a perceber o mundo através de relatos, observamos a união daexperiência com o relato, porém os relatos são construções discursivas e não importa o quantotentemos ser imparciais é impossível uma total correspondência ao fato ocorrido, aexperiência, ao verificável, mesmo assim, passamos a conhecer o mundo pelos relatosficcionalizados graças à falta de experiência. Resultado disso é a concepção contemporâneade história que une ficção e relato (historiografia): [...] os relatos históricos são ficcionais – pensando que a condição da ficcionalidade é suspender a relação de exclusão entre verdade e falsidade, entre acerto e erro, certeza e dúvida. Isso ocorre porque a história tem por objetivo documentos-monumentos: todo documento é verdadeiro – incluindo os deliberadamente falsos – e falso, é, simultaneamente, referencia e construção. O material da história são experiências-relatos, corpos-imagens, realidade-virtualidade, vigílias-sonhos (SANTOS, 2000, p. 51). Novas formas de conceber o conceito de história aparecem no cenário socialcontemporâneo por diferentes motivos, pode ser que o apontado por Santos (2000) não seja omais convincente, mas é uma opção no mínimo intrigante. O pós-modernismo traz aincredulidade nas narrativas totalitárias e as reflete.
  25. 25. 25 Peter Burk (1992) fala de dois conceitos de história um tradicional e outrocontemporâneo: o primeiro que ele chama de história tradicional é voltado para a política,para narrativa de acontecimentos, a visão do centro, baseia-se em documentos oficiais e éobjetiva, já o conceito contemporâneo, a nova historia, é voltada para o relativismo cultural,analisa as estruturas de produção da narrativa, visão das minorias, baseia-se em evidênciasvisuais, orais etc., refletindo as convenções (subjetividade). Essa nova concepção pode serchamada de “História Global”, trazendo para o centro dos debates a versão marginal daHistória Oficial e a concepção de que não existe verdade histórica e sim a versão de quemconta. [...] A compreensão brota da diferença: é preciso, para tanto, que se cruzem múltiplos pontos de vista que revelam do objeto - considerado, dessa vez, a parte de suas margens ou do exterior - múltiplas faces diferentes, reciprocamente ocultas. (SCHMITT, 2005, p.352). Segundo Peter Burke (1992, p.10), “A filosofia da nova história é a ideia de que arealidade é social ou culturalmente construída”. Desse posicionamento e o de Schmitt (2005),percebemos que ficção e História perderam suas linhas divisórias, os historiadores deveriamrespeitar as posições dos ficcionistas que usam e abusam das Histórias e os escritores deficção a dos historiadores que também usam romances históricos como fonte de pesquisacomo afirma Souza (2006). A História deixou de ser uma verdade absoluta com os posicionamentos da novahistória, questionando as afirmações imparciais dos relatos dos acontecimentos. Essapercepção forçou os historiadores a buscar outras formas de narrar, pois, “[...] Em outraspalavras a narrativa não é mais inocente na historiografia do que na ficção [...]” (BURKE,1992, p. 330). Passaram a usar mecanismos de criação literária para construir personagenshistóricos, principalmente, quando os documentos oficiais têm dados insatisfatórios. O romance pós-moderno apresenta as características principais da época estudada,normalmente a narrativa acontece como uma releitura de obras e temas passados recorrendo àmemória ou não. Esse jogo tem o intuito de usar o passado para quebrar as verdades absolutase afirmar que a história, assim como a ficção, é uma construção discursiva, além dafragilidade do sujeito. A quebra é feita ao dar voz e vez aos excluídos da construçãohistórica: homossexuais, mulheres, negros, índios etc, ou seja os marginais das relaçõesétnicas, gênero e raça.
  26. 26. 26 1.5 Usos e abusos da criação literária: um meio de contar as histórias “Uma coisa é o fato acontecido. Outra coisa é o fato escrito. O acontecido deve ser melhorado no escrito – de forma melhor – para que o povo creia no acontecido”.8 O contexto pós-modernista e suas contraditórias relações com a ficção e a história,perpassando pelos Estudos Culturais e pela Nova História, influenciando a escrita literáriacontemporânea de forma inovadora e livre de amarras formais e estéticas, uma literatura deautoconsciência, que não quer resolver os paradoxos pós-modernos, ao contrário, querproblematizá-los, e levá-los aos diferentes campos do conhecimento, arte, teoria, política. Seupropósito é fazer conhecer os diferentes posicionamentos sobre temas imutáveis, o ponto dedefesa de cada grupo, etnia, raça, cor, sexualidade, nacionalidade etc. A arte pós-moderna subverte os signos e constroem o sentido ao lado do espectador,para ela não existirem regras, a regra é não ter regra alguma, pode construir simulações tãoreais quanto à própria fantasia da realidade, tão fantásticas quanto à realidade mais crua.Segundo Bauman (1998, p. 133) “[...] arte pós-moderna é um esforço histórico de dar voz aoinefável”. Linda Hutcheon (1991) defende a existência do pós-modernismo e aponta suas marcasem seu livro “Poética do pós-modernismo: história, teoria e ficção”, analisando a arquitetura,o romance, obras fílmicas e teorias. Na primeira parte do livro ela discute os traços quecompõem o pós-moderno, incluindo as influências teóricas e, principalmente, a“problematização” da relação entre ficção e história, dessa maneira prepara o espírito do leitorno sentido de apresentar a complexidade das abordagens contemporâneas. Teoriza, molda,limita, descentra, contextualiza e historiciza o pós-moderno. Na segunda parte demonstra e específica o que considera ser o traço mais marcante dopós-modernismo, a Metaficção Historiográfica e seus recursos intertextuais, aparecendo naliteratura especificamente na forma de romance e é definida como uma abordagem que ampliae subverte as contribuições estético literárias e sua relação com a história. Segundo Hutcheon(1991, p. 61): “[...] se minha principal ênfase recai sobre o romance pós-moderno é porque eleparece ser um fórum privilegiado para a discussão do pós-moderno” (grifo do autor). Essaestrutura textual melhor abarca o processo plural da contemporaneidade e os apontamentosHistóricos.8 Fala extraída da personagem Antonio Bía, do filme Narradores de Javé.
  27. 27. 27 E a Metaficção Historiográfica é uma forma de análise literária que une em seusdebates as contradições pós-modernas dos limites da arte, teoria e política, abordadas porLinda Hutcheon(1991) como a forma do romance contemporâneo. Esse romance pós-moderno não é o único gênero textual com a densidade necessária para abarcar todas asformas inovadoras desse momento, porém ele é um dos mais difundidos nos camposmidiáticos, universitários e de crítica, pois quebra todas as formas tradicionais, reinventa-sena estrutura textual na disposição das páginas, na dissonância do enredo e principalmente nouso e abuso da linguagem. Linda Hutcheon (1991) é muito mais ousada ao afirmar que alémde sua preferência pelo romance, a ficção pós-moderna é “essencialmente metaficçãohistoriográfica”, pois ela abarca todas as rupturas e as novas perspectivas literárias nessemomento contemporâneo. As características pós-modernas mencionadas no decorrer deste trabalho, voltadas paraa relação ficção e História é o que primordialmente Linda Hutcheon (1991) chama demetaficção historiográfica, mecanismo que ela criou com o intuito de explorar os artifíciosliterários que permitem ao mesmo tempo aproximar e questionar ficção e História, pois “Aficção é historicamente condicionada e a história é discursivamente estruturada [...]”(HUTCHEON, 1991, p. 158). A metaficção historiográfica refuta os métodos naturais, ou de senso comum, para distinguir entre o fato histórico e a ficção. Ela recusa a versão de que apenas a história tem uma pretensão de verdade, por meio de questionamento da base dessa pretensão na historiografia e por meio da afirmação de que tanto a história como a ficção são discursos, construtos humanos, sistemas de significação, e é a partir dessa identidade que as duas obtêm sua principal pretensão a verdade. (HUTCHEON, 1991, p. 127). Não nega o valor da história, mas afirma ironicamente que seu conhecimento não étransparente, nem verdadeiro. Ao inserir os ex-cêntricos9 nas paródias intertextuais revela arelação de interdependência entre a margem e o centro, e uma necessidade de criar umaidentidade fora da eurocêntrica, incorpora todas as práticas textuais: quadrinhos, artes, visuais,biografia, teoria, filosofia, psicanálise, contos de fadas etc, todos esses elementos compõem osistema de significação do pós- modernismo.9 Segundo Hutcheon (1991), o ex-cêntrico é “o que está fora do centro”, ou seja, os que ficaram fora daconstrução histórica como sujeitos: negros, mulheres, índios, gays etc. (os marginais).
  28. 28. 28 Para discutir tais aspectos Linda Hutcheon (1991) aponta alguns aspectos formais;subvertendo com a ironia, intertextualidade, as estratégias de representação, a função dalinguagem, a relação entre fato histórico, acontecimento e o debate sobre as verdadesinstituídas. O lugar dessa união é o romance e o uso da paródia como forma de unir passadohistórico no presente textualizado. Esses usos mostram como somos construídos e condicionados pela cultura, pelaideologia e o quanto o poder discursivo pode manipular as lacunas da História. Apresentaçãoque choca e só terá importância e significado se envolver o leitor, fazendo-o refletir sobre seumeio de tal maneira que este ganhe significado fora do mundo da ficção, sobre essa dinâmicaIser, em “Os atos de fingir: ou o que é fictício no texto ficcional”, (1983, p.397) afirma que:Assim o sinal de ficção não designa nem mais a ficção, mas o “contrato” entre autor e leitor,cuja regulamentação o texto comprova não como o discurso, mas sim como “discursoencenado” (grifo do autor). Para a Metaficção Historiográfica o papel do leitor não é só identificar as marcastextuais da história no romance. Para Hutcheon (1991, p. 167): “[...] O leitor é obrigado areconhecer a inevitável textualidade de nosso conhecimento sobre o passado, mas também ovalor e a imitação da forma inevitavelmente discursiva desse conhecimento”. Assim o leitordeixa de ser passivo e torna-se atuante no processo de criação de sentido da obra literária. O romance pós-modernista é o lugar da quebra de paradigmas, da inserção do “outro”como fonte de conhecimento, da união entre os Estudos Culturais, a Nova História e dosnovos estudos sobre o leitor. Dessa mistura de teorias, de ficção, história e literatura, nasce aMetaficção Historiográfica que será estudada com maior ênfase no próximo capítulo, tendocomo exemplo o romance “Terra Papagalli”(2000), uma narrativa sobre o descobrimento doBrasil.
  29. 29. 29 CAPÍTULO II2 METAFICÇÃO HISTORIOGRÁFICA o lugar do passado histórico eliterário Passam os séculos, os homens, as repúblicas, as paixões, a história faz-se dia por dia, folha por folha; as obras humanas alteram-se, corrompem-se, modificam-se, transformam-se. Toda a superfície da terra é um vasto renascer de idéias. (ASSIS, 1959, p. 369). A constatação das ebulições sócio-históricas pós-modernas levou muitos estudiosos aprocuram caracterizar a arte contemporânea influenciada pelos novos paradigmas históricos,teóricos, sociais. Linda Hutcheon (1991) planeja traçar uma poética pós-modernista,discutindo teoria, história e ficção. O pós-modernismo traz consigo uma gama de estudos queprocuram romper com as propostas ideológicas fixas de verdade, centro, imparcialidade,bem, etc. prioridades do positivismo eurocêntrico, machista, patriarcalista e burguês. As problemáticas do rompimento de tais pressupostos não são nada simples, pois opós-modernismo não pretende evocar novos centros, novas verdades, unicidade, etc. SegundoHutcheon (1991), ele quer apenas discutir os discursos ideológicos que regem a sociedade.Desvelar os binarismos: centro/margem, certo/errado, único/múltiplo, fixo/móvel entre outros,propondo as quebras de oposições, evocando o descentramento do sujeito, da história, daficção e da teoria. Problematizar, nunca propor soluções, é a contradição do pós-modernismo.O lugar desse debate é: [...] A metaficção historiográfica sempre afirma que seu mundo é deliberadamente fictício e, apesar disso, ao mesmo tempo inegavelmente histórico, e que aquilo que os dois domínios têm em comum é sua construção no discurso e como discurso (HUTCHEON, 1991, p. 184). Ao revelar a natureza discursiva da Metaficção Historiográfica, existe a necessidadede especificar como ela ocorre na narrativa ao reportar-se ao paradoxo da relação entre ficção,história e o enquadramento do leitor, além de uma rápida abordagem sobre a nomenclatura. Para começar, o termo metaficção não é muito debatido no decorrer do livro. Por isso,segue duas definições prévias. Podemos entender a metaficção como sendo uma tentativa de
  30. 30. 30superar a construção literária tradicional, com o objetivo de subverter os elementos narrativos,tendo como estratégia a elaboração de um jogo intelectual entre a linguagem e as formasliterárias, assim desafia o leitor e suas concepções sobre história e ficção. [...] A menudo se suele entender por «metaficción» los comentários del narrador sobre o proceso de creación. Conviene aclaras qué puede entendrse por metaficción. És uma forma específica de la metatextualidade, es decir, la serie de condiciones que constituyen la lectura y la produccón de um texto em El contexto de uma cultura o período histórico determinado (PASERO, 2000, p. 165, grifos do autor). Nestas estruturas incluir-se-iam [...] quer intromissões ou manipulações de índole mais sub-reptícia mas que, de qualquer modo, e na medida em que também elas interrompem a linearidade do fluxo narrativo, chamam a atenção para o facto de que, efectivamente, se trata de ficção (ARNAUT, 2002, p. 239-40). A metaficção abre espaço para a contestação do caráter subjetivo da escrita literária e,consequentemente, da história como narrativa. Um recurso muito usado na ficçãocontemporânea, tendo como objetivo demonstrar e revelar as estratégias narrativas para oleitor perceber os artifícios tradicionais de estruturação da escrita, de modo a refletir sobre anatureza discursiva e ficcional dos relatos.E por historiografia, simplesmente tida como aescrita da história, contemporaneamente não é só isso, inclui também, o confronto de váriasescritas como define Silva (2001, p. 279): “Os estudos historiográficos gerais [...] pelanatureza própria do trabalho estabelecem uma periodização específica e por força dessamesma periodização tratam de opor ou contrastar escolas históricas ou autores entre si”. Se pensarmos no termo Metaficção Historiográfica ele tem um duplo poder dereflexão: primeiro o papel auto-reflexivo do poder narrativo jogando com a linguagem, aficção e a memória; em segundo, com o confronto da escrita da história, com vozes diferentes,que não se excluem, Hutcheon (1991) une complexamente as problemáticas daautoconsciência da metaficção e as versões da história. Como o termo metaficção está associado á criação literária, o termo historiografia,logicamente, remete a escrita da história. A crise no mundo dos historiadores tradicionais e onascimento das incertezas sobre verdade, as diferentes concepções de documento e a falha emobjetivar o discurso da história fizeram nascer o novo conceito de historiografia. Le Goff(2003, p. 28) escreve que a nova: “[...] historiografia surge como consequência de novasleituras do passado, plena de perdas e ressurreições, falhas de memória e revisão”. Ganha uma
  31. 31. 31dupla identidade, pois, mesmo as contestações de caráter objetivo não nega seu papel nasociedade, hoje caminha por estradas que se cruzam simultaneamente. Inicialmente a historiografia servia para separar na escrita o passado e o presente,dividir os períodos históricos, na contemporaneidade foi levada a considerar e refletir seuprocesso de escrita como determinado por ideologias. Sobre esse movimento Certau (2007, p.22) comenta: “[...] a historiografia envolve as condições de possibilidades de uma mesmaprodução, e o próprio assunto sobre o qual não cessa de discorrer”, já que o historiador estáinserido em um contexto com debates acalorados sobre as condições do real e a construçãodas narrativas. Como o próprio nome deixa evidente a Metaficção Historiográfica evidencia oprocesso narrativo e por isso incorpora textos literários e históricos. Embora tenha algumascaracterísticas semelhantes não é um romance histórico, não trata a relação entre ficção ehistória de forma simples (ficção é mentira e história é verdade). As especificidades entreliteratura e história não é uma característica exclusiva da contemporaneidade, com o decorrerdo tempo, porém, se tornaram problemáticas, ora distanciadas, ora aproximadas.2.1 O “romance” da Metaficção Historiográfica: em “Terra Papagalli” “[...]contudo, repito, se a arte padece, a intenção merece respeito” (ASSIS, 1959). Para exemplificar como as questões da Metaficção Historiográfica são tratadas em umromance pós-moderno, farei uso de “Terra Papagalli” (2000), dos autores José Roberto Toreroe Marcus Aurelius Pimenta, partindo do princípio de que não é possível apontar em um únicoromance todas as características mencionadas por Hutcheon (1991). Aqui será feito um brevelevantamento das marcas do pós-modernismo à luz da Metaficção Historiográfica, com ointuito de atender ao segundo objetivo deste trabalho. Devido às especificidades metodológicas do romance pós-moderno faz-se necessáriouma distinção entre romance histórico, romance pós-modernista e Novo Romance. No séculoXIX com o nascimento do romantismo histórico, caracterizado por usar um período oupersonagens históricos como pano de fundo para criar, inventar histórias. O enredo doromance histórico tem caráter educativo como afirma Soares (2000, p. 204): O romance histórico surge no contexto da série de transformações sociais e econômicas da Europa que repercutem na afirmação e popularização do
  32. 32. 32 nacionalismo, passando a integrar o “elenco das grandes narrativas de consolidação do sentimento nacional e de legitimação do impulso universalizante do Ocidente” (grifos do autor). Para Hutcheon (1991), a atual relação entre ficção e história na literatura diferencia-sedo que conhecemos por romance histórico. Pois, a mútua relação de inclusão e negação dofato histórico na narrativa literária é uma das maneiras pós-modernistas de reelaborar opassado e atribuir sentido ao real. Ela firma que tradicionalmente “ficção histórica” é umaforma clássica de interrelacionar história a literatura, definida: “[...] como aquela que segue omodelo da historiografia até o ponto em que é motivada e posta em funcionamento com umanoção de história como força modeladora (na narrativa e no destino humano)”(HUTECHEON, 1991, p. 1551 grifos do autor). A questão da distinção entre romance histórico e Metaficção Historiográfica não éesgotada pela autora, ela toma as abordagens de (LUKACS, 1962 apud HUTHCEON 1991, p.151): “[...] o romance histórico poderia encenar o processo histórico por meio daapresentação de um microcosmo que generaliza e concentra”. Portanto, a personagemprincipal deve representar tanto o todo quanto o particular de uma sociedade, se históricos,são jogados para o plano secundário na tentativa de “autenticar” o mundo ficcional. Osdetalhes são usados apenas para proporcionar a veracidade (verificabilidade) histórica. Na Metaficção Historiográfica os personagens principais são sempre ex-cêntricos, atémesmo quando o protagonista da narração da história assume uma dimensão diferente,irônica, sem pretensão à universalização. Incorpora os detalhes, não na tentativa de obterverificabilidade, mas usando os detalhes para contestar as falhas na narração da história,mostrando o não reconhecimento do: “[...] paradoxo da realidade do passado, mas suaacessibilidade textualizada para nós atualmente” (HUTCHEON, 1991, p. 152, grifos do autor)As personagens são usadas como meio para questionar as versões da História com suapretensão à verdade universal. Além das Metaficções Historiográficas existem outros tipos de romances como oromance “não-ficional” ou “Novo Jornalismo” nascido na década de 60: trata-se de: “[...] umaforma narrativa documentária que utiliza deliberadamente técnicas de ficção de maneiradeclarada e não costuma aspirar à objetividade na apresentação” (HUTCHEON, 1991, p.153). Esse tipo de romance assemelha-se a Metaficção Historiográfica por suaprovisioriedade, metaficionalidade, forma e, às vezes, conteúdo. Mas, difere por sua volta ao
  33. 33. 33passado recente, criticando quem define a verdade, a subjetividade, no sentido de impor aopinião, o ponto de vista do autor sobre os fatos. A Metaficção Historiográfica ao enfatizar momentos e personagens históricosespecíficos na composição de romances aborda toda uma gama de marcas da escritacontemporânea como: a crítica a versão oficial da história, questiona as centralizações, ashierarquias, os sistemas fechados, os limites entre ficção e história. Duvida de toda e qualquerdemonstração única de verdade e sentido universal, afinal, a ficção pós- modernista não tem opapel de refletir ou copiar a realidade e sim de propor novas leituras do real que não anula ouexclui as existentes, só acrescenta outras possibilidades ao real. Em Terra Papagalli (2000), obra em que a problemática entre ficção e história é muitopresente, pois se trata de uma “Narração para preguiçosos leitores da luxuriosa, irada,soberba, invejável, cobiçosa e gulosa história do primeiro rei do Brasil ou Terra Papagalli”(TORERO & PIMENTA, 2000). Conta a história de Cosme Fernandes, O Bacharel daCananéia, com muitas informações sobre a “descoberta” do Brasil aos primeiros contatos comos gentios e os primeiros colonizadores. A estrutura do romance Terra Papagalli (2000) conta com a inserção de um dicionárioem que se encontram reunidas algumas das palavras da língua tupiniquim; um bestiário, emque são relatados alguns animais estranhos encontrados no Brasil; e um diário de bordo,escrito pelo próprio Cosme, durante a viagem. Embora os capítulos sejam organizados,mesclando carta e diário, a narrativa é uma carta que Cosme Fernandes escreveu ao Conde deOurique sobre quem ficamos sabendo, ao final da narrativa, ser seu filho. Uma releitura crítica da “descoberta do Brasil”, o protagonista é Cosme Fernandes, umdegredado português, apelidado de Bacharel, que assume, no romance, o papel de descobridordas terras brasileiras: a “Terra dos Papagaios”. Cosme Fernandes, juntamente com mais seisdegredados, são deixados na nova terra para aprenderem a língua dos gentios, assegurandoassim, os interesses da Coroa Portuguesa. Após alguns dias na ilha, e a superação de muitasdificuldades os sete são capturados pelos índios e por eles conduzidos à tribo Tupiniquimonde passam a constituir família com as gentias. Com o tempo, conquistam a confiança de toda a tribo, inclusive do chefe Piquerobi,Cosme Fernandes, que por meio de estratégias de guerra leva a tribo dos Tupiniquins asucessivas vitórias sobre outras tribos inimigas, começa a construir um porto batizado de“Paraíso”, no qual ele dá início à prática da comercialização de índios prisioneiros, sendo,depois de alguns percalços, conhecido como o Bacharel da Cananéia por fundar um portoainda maior na vila de Cananéia que ele próprio construiu.
  34. 34. 342.2 A forma narrativa: narrar, contar é escolher um ou outro No romance “Terra Papagalli” (2000) a personagem Cosme Fernandes conta suaversão para o “achamento” do Brasil, adotando como estrutura uma carta para fazer conhecera si e a sua história ao receptor. A narração é feita mesclando as formas de um diário e umacarta, contada em primeira pessoa, com um narrador autodiegético, ou seja “o personagem-narrador é o protagonista da história”, segundo D’Onofrio (1999, p. 64). Este acumula o papelde sujeito da enunciação e do enunciado, narra sob a ótica pessoal os fatos, as personagens, asbrigas e as representações do tempo e do espaço. O tempo da narrativa é diegético,cronológico, o herói conta sua trajetória de vida desde a infância. Linda Hutcheon (1991), fala de duas formas narrativas principais na MetaficçãoHistoriográfica que caracterizam a idéia de subjetividade nos romances: a primeira é aabordagem dos múltiplos postos de vista, e a segunda a do narrador onipotente. No caso dotexto em estudo não existe a perspectiva dos múltiplos pontos de vista, pois o narrador-personagem e protagonista exibe sua opinião sobre os acontecimentos, ele escolhe o que deveser contado, o que é ou não importante. Afirma sempre a veracidade dos fatos e essapreocupação é um indicativo de subjetividade e fragilidade da narrativa. Digníssimo senhor conde, durante a viagem que fiz pelo mar Oceano pude dispor de algum papel de palha e um resto de tinta, com o que escrevi um pequeno diário de bordo. Tomarei a liberdade de acrescentar tais páginas a esta carta, pois acredito serem a mais eficaz e eloqüente descrição daquelas dias. Talvez falte um pouco de estilo na escrita, mas em troca tereis o frescor dos sentimentos in petto e das observações in loco (TORERO & PIMENTA, 2000, p.22, grifos do autor). A subjetividade é marcada pelo narrador que pode tudo desde a inserção de um diáriopara atribuir veracidade a narrativa, deixando o leitor desconfiado de suas intenções, de seuverdadeiro propósito. Mesmo admitindo conhecer tudo que conta pela experiência, seu tomirônico prepara o espírito do leitor para as contradições que seguirão, entre o dito no romancee o conhecimento prévio da História. Na forma narrativa da Metaficção Historiográfica não se tem um sujeito capaz deconhecer o passado com certeza. Uma opção para não atribuir verificabilidade é o uso damemória, que é subjetiva, fragmentária e manipulável ideologicamente, a exemplo damemória coletiva. Para Marilena Chauí (2003) o processo de memorização é objetivo e
  35. 35. 35subjetivo. Objetivas são as atitudes-físico-fisiológicas, e subjetivas a importância do fato paranós. Essa seleção natural afirma que a memória é uma representação do passado, como pontosem comum, porém nunca será a mesma para todos, pois cada ser atribui valor a fatos de formapessoal. No romance, a memória tem a função de organizar os fatos históricos e pessoais donarrador: Continuo então a narrar minha história naquelas distantes terras, mas servindo-me agora apenas da memória. Garanto-vos que tudo será verdade, apesar de muitas páginas parecerem copiadas desses livros de aventuras que se vendem pelas feiras (TORERO & PIMENTA, 2000, p.43). Cosme Fernandes usa a memória para recriar fatos vividos, logo a rememoração entraem cena como afirma Gagnneb (2001, p. 91): “[...] pois não se trata somente de não esquecerdo passado, mas também de agir sobre o presente, não sendo um fim em si, visa àtransformação do presente”. A memória é usada para dar sentido ao passado e fazer seconhecer para a posteridade, dessa forma, fica evidente o caráter subjetivo desseconhecimento. Ao recriar fatos, inevitavelmente, fazemos uso de nossas funções imaginativaspara preencher os detalhes que não tiveram importância para nós. Quando se trata de literaturae história o uso imaginativo permeia a preocupação de vários teóricos: Se retornarmos então ao debate teórico entre história e literatura, é preciso admitir que a produção na linguagem da verossimilhança, a colocação estratégia do ‘efeito de crença’ buscando o apoio sobre a vontade de fazer crê que as coisas ‘se passaram realmente assim’, esta produção deve-se menos a uma suposta exatidão dos fatos que a ‘função imaginária’ que preenche o verossímil na construção da consciência individual e social (LEENHARD, 1998, P.42-3, grifos do autor). A imaginação adentra a história e a ficção, faz parte do convívio social do ser humano,com a descrença nas grandes narrativas como forma de explicar o mundo. Fomos levados aunir os pequenos fragmentos das histórias e ficções dos marginais para atribuir sentido ao queantes era explicado por uma ideologia centralizadora e binarista. O sujeito que reconstrói suahistória em “Terra Papagalli” (2000) é um degredado, participou do descobrimento por acaso,um ex-cêntrico. Assim como Hutcheon (1991) afirma acontecer na MetaficçãoHistoriográfica, o protagonista recria de forma irônica uma história com seu ponto de vista,usando fatos históricos como fonte. Ao narrar sua vida, narra a si mesmo e a história, fazendoinferências e preenchendo lacunas.
  36. 36. 36 Hall (2006) também debate sobre o sujeito e a identidade cultural, ou melhor, sobresua fragmentação, descentralização, problematização. Para ele, os processos de mudança nasociedade provocaram a provisoriedade da identidade cultural, o sujeito não é mais vistocomo sendo unificada o e estável: “[...] assume identidades diferentes em diferentesmomentos, identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções de tal modo quenossas identificações estão sendo continuamente deslocadas” (HALL, 2006, p. 13). O sujeito cartesiano (branco, homem e europeu) em “Terra Papagalli” (2000) éironizado, o colonizador não tem as características dos heróis românticos: bom, belo,corajoso. Ora assume posição de líder, por imposição do destino, ora é medroso e se faz devítima, segundo a narrativa, quando estabiliza seu poder econômico e social, seu rival (Lopode Pina), consegue uma forma de usurpar o “pobre do Cosme”. O “Bacharel” é manipulador:“Minha história é muito desventurada e dói-me o peito a cada vez que nela penso, mas, comosei que queres ouvi-la, vou contá-la para ti” (TORERO & PIMENTA, 2000, p. 14), em toda anarrativa atribui aos seus colegas a má sorte, a culpa de suas desventuras, além de apresentar,desde o início, aquele que irá se tornar seu carrasco sempre como homem corrupto. Esse Lopo de Pina, de quem ainda muito falarei, parecia conhecer todas as cantigas desonestas que há no mundo e era dado a zombarias (TORERO & PIMENTA, 2000, p.21). Sobre este já falei um tanto e acrescento apenas que tinha por defeito nunca conformar-se com seu estado. Se lhe dessem pão, agasalho e vida honesta, não lhe davam nada. Queria ser rico, vestir gibões de Castela, ter mulher fidalga e escravos. Dava ordens com gosto e as ouvia com azedume.Também tinha inveja da sorte alheia, tanto que se visse um outro com roupa melhor ou mulher mais bela, logo as desejava para si. (TORERO & PIMENTA, 2000,p.49). O narrador-personagem faz-nos sentir com piedade, conversa com seu interlocutor edeixa sempre claro que se trata de uma narrativa verídica: “[...] essas são, senhor, as palavrastais como ela disse [...]” (TORERO & PIMENTA, 2000, p.14). Uma voz envolvida no quenarra, usa da estrutura em primeira pessoa para movimentar suas emoções e sentimentos, alémde diminuir a distância entre o fato narrado e o leitor.2.3 A função da linguagem e as estratégias de representação: narrações do Brasil “O tempo temperou”. (ROSA, 1988, p. 107).
  37. 37. 37 Segundo Hutcheon (1991) as questões ligadas à identidade e subjetividade entram pelarepresentação, pela referência e pela linguagem, pois a relação entre literatura, história erealidade na literatura pós-modernista usa um modelo teórico modernista (auto-representação), que separa a linguagem literária da referência, – a literatura se refere aomundo ficcional. Porém esse modelo é transposto ao incluir textos históricos em romances,quebra-se a auto-representação, sendo que o texto histórico se refere ao real, instala-se oparadoxo pós-moderno. Ao incluir a problemática da linguagem na referência: “[...] a ‘realidade’ a que se refere à linguagem da metaficção historiográfica é sempre, basicamente, a realidade do próprio ato discursivo (daí sua designação como metaficcional), mas também a realidade de outros atos discursivos do passado (historiografia)” (HUTCHEON, 1991, p. 194). A problematização da referência e da representação ligada à história pelo pressupostode que “as palavras se referem a signos pré-fabricados”, por isso a Metaficção Historiográficacontesta toda a concepção simplista de representação. Já que a história como discurso nãorepresenta o real, no processo de criação usa a natureza imaginativa para atribuir sentido aopassado e presente. O historiador também só pode escrever conjugando, nesta prática o ‘outro’ que o faz caminhar é o real que ele não representa senão por ficções. Ele é historiógrafo. Endividado pela experiência que tenho disto gostaria de homenagear está escrita da história (CERTEAU, 2007, p. 26, grifos do autor). As teorias que estudam a arte pós-moderna e as constatações dos pressupostos dohumanismo têm a preocupação com a representação, a relação de subjetividade e como osujeito é representado na cultura e na literatura. O tratamento dado ao indivíduo como um serdescentrado que constrói a si mesmo e ao mundo, usando referências textuais e contextuais,tornando-se eminentemente social como representante de minorias diversas. “[...] elesensinam, por exemplo, que a representação não pode ser evitada, mas pode ser estudada a fimde demonstrar como legitimiza certos tipos de conhecimento e, portanto, certos tipos depoder” (HUTCHEON, 1991, p. 298). Com o caráter social e político na representação dos sujeitos a problemática éampliada, se na literatura modernista existe uma separação: “aquilo a que a história se refere é
  38. 38. 38o mundo real; aquilo a que a ficção se refere é um universo fictício” (HUTCHEON, 1991, p.198). No pós-modernismo a história é vista como um intertexto, compartilhando com algunsteóricos que a literatura não passa de uma referência do texto para o texto. A MetaficçãoHistoriográfica como super discursiva problematiza uma relação de referência com o mundohistórico, ela insere a referência ao abrir as portas para a história e a nega ao atribuirficcionalidade aos dois mundos (o real e o fictício). Na representação feita por Torero e Pimenta (2000), os índios são comumente tratadoscomo diferentes dos portugueses por terem costumes e uma organização social peculiar, sualíngua é um símbolo da estrutura cultural tupiniquin. Mas nem por isso os autores os tratamcomo os livros de História, ou a Carta de Caminha (1999, p. 58-9): “Mas, o melhor fruto quenela se pode fazer, me parece, que será salvar esta gente, e deva ser principal semente queVossa Alteza nela deve lançar”. Relendo a ultima linha da folha anterior, percebi que aprender alguma coisa desta língua dos tupiniquins pode ser de muita valia caso o senhor cometa um dia o desatino de vir um dia a essas terras da gentilidade. Primeiramente, devo dizer que este idioma não possui os sons de “F”, “L” e “R” forte, pelo que há quem diga que ao tupiniquins não têm nem fé, nem lei, nem rei, o que é grande truanice, pois em Portugal temos o “F” e há mulheres que não são fiéis, temos o “L” e há súditos que não são leais, e temos o “R” forte mas são poucos os que agem pela razão (TORERO & PIMENTA, 2000, p.67, grifos do autor). Se na Carta de Pero Vaz de Caminha os índios precisam ser salvos, simplesmente porterem uma crença religiosa diferente, em “Terra Papagalli” existe uma inversão dos valores euma crítica à hipocrisia da sociedade portuguesa. Como discurso, a linguagem não podeescapar a apresentação de uma ideologia tanto na Carta quanto no romance, porém comperspectivas distintas, diferentes sentimentos em relação ao índio. Na ficção “asrepresentações não possuem um conteúdo intrisecamente ideológico, mas executam umafunção ideológica na determinação do sentido” (WALLIS apud HUTCHEON, 1991, p. 298). Sobre o problema da referência pós-moderna e sua atribuição da não referencialidadeentra em contradição, principalmente nas produções metaficcionais, devido a suas estratégiasde escrita englobando os textos históricos. [...] percorrida por malabarismos sintáticos-formais [...]. Essas práticas redundariam não apenas uma estilização extrema mas, pela aliança com comentários metaficcionais, que de modos diversos chamam a atenção do/e para a sua própria construção, seriam, também, as grandes responsáveis pela
  39. 39. 39 desestabilização, senão pelo curto curto-circuito da relação texto-mundo (ARNALT, 2002, p. 220). Para ela a realidade passa, principalmente, pela realidade do processo criativo,permeado de estratégias que aproximam e ao mesmo tempo afastam a relação mundo texto. Atentativa ingênua de reflexo, de mimese deve ser entendida como uma “metáfora de fronteirasfluidas”, já que toda tentativa de reproduzir a realidade passa pela subjetividade do criador. Linda Hutcheon (1991), aponta diferentes conceitos de referência: primeiro, o quedifere o mundo histórico do mundo fictício é a intencionalidade do historiador e doromancista, pois na ficção há a sobreposição da verdade e falsidade; segundo, não negareferencia à ficção, mas atribui a ela um referencial distinto; terceiro, não nega um referente àlinguagem, mas só é acessível pelo texto, questiona a redação da história e separa fato deacontecimento, para dizer que: O que a metaficção historiográfica faz é restabelecer o significado por meio de sua auto-reflexividade metaficcional em relação à função e o processo de geração de sentido enquanto, ao mesmo tempo, não deixa desaparecer o referente. No entanto, esse tipo de ficção pós-moderna também se recusa a permitir que o referente assuma qualquer função original, qualquer função de alicerce ou de controle (HUTCHEON, 1991, p. 193). A auto-refelexividade da ficção pós-moderna não se encaixa nem nega nenhumadefinição de referente, apenas problematiza. Nas Metaficções Historiográficas são múltiplosos tipos de referências, por isso, Hutcheon (1991), fala de “rotas de referências” que é a uniãode diferentes teorias de referência. Para Linda (1991) a linguagem tem o poder de construir e não só de descrever o que érepresentado, tanto na história quanto na literatura. As duas são construções linguísticas, maissimples em relação à narração e aos mecanismos de composição dos discursos históricos eliterários. Recai sobre a Metaficção Historiográfica o papel de demonstrar através dos jogosde linguagem que só inseridos em um contexto, perceptível pelo leitor, os sentidos sãoconstruídos e desconstruídos no interior de uma obra.2.4 A intertextualidade paródica: os usos, abusos do outro e suas verdades Os romances pós-modernistas ou as Metaficções Historiográficas problematizam emsuas estruturas narrativas questões de identidade, subjetividade, representação,

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