Your SlideShare is downloading. ×
Iracema, rita baiana e flor diálogos e metáforas de nação em iracema, de josé de alencar. o cortiço, de aluísio de azevedo e dona flor e seus dois maridos, de jorge amado.
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Thanks for flagging this SlideShare!

Oops! An error has occurred.

×
Saving this for later? Get the SlideShare app to save on your phone or tablet. Read anywhere, anytime – even offline.
Text the download link to your phone
Standard text messaging rates apply

Iracema, rita baiana e flor diálogos e metáforas de nação em iracema, de josé de alencar. o cortiço, de aluísio de azevedo e dona flor e seus dois maridos, de jorge amado.

4,421
views

Published on


0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total Views
4,421
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
1
Actions
Shares
0
Downloads
29
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

Report content
Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
No notes for slide

Transcript

  • 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV COLEGIADO DO CURSO DE LETRAS COM HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURAS – LICENCIATURA FABÍULA DA SILVA BORGES IRACEMA, RITA BAIANA E FLOR: diálogos e metáforas de nação emIracema, de José de Alencar, O cortiço, de Aluísio de Azevedo e Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado Conceição do Coité 2012 1
  • 2. FABÍULA DA SILVA BORGES IRACEMA, RITA BAIANA E FLOR: diálogos e metáforas de nação emIracema, de José de Alencar, O cortiço, de Aluísio de Azevedo e Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado Monografia apresentada ao Departamento de Educação, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Curso de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas – Licenciatura, como parte do processo avaliativo para obtenção do grau de Licenciado em Letras. Orientadora: Profª. Ms Eugênia Mateus de Souza Conceição do Coité 2012 2
  • 3. A todos da minha família, pelo carinho e compreensão que semprederam na minha trajetória. Pelo incentivo e força que cada um meofereceu nos momentos de aflição. Por cada sorriso que partilharamcomigo nos momentos de glória. 3
  • 4. AGRADECIMENTOS Primeiramente agradeço a Deus, ser supremo, meu conselheiro e amigo, que sempreme deu energia e coragem em todos os momentos de árdua batalha para vencer mais umaetapa na trajetória de minha vida. Ao meu pai, Augusto Pereira Borges, que, mesmo tendo partido na minha infância,entregou-me, como legado, a coragem de lutar pelos meus sonhos. De modo especial, à minha mãe, Maria José Barbosa Borges, que apesar de passarpor momentos difíceis, assumindo o papel de pai e mãe, soube me ensinar o valor da vida eperseverar nos meus sonhos, também já se foi, mas seus ensinamentos foram o meu nortenessa trajetória. À minha irmã, Lindinalva, pelo o incentivo e carinho que sempre me deu,assumindo, às vezes, o papel de minha mãe. À minha cunhada, Maria Claudia, pelas caronas, conselhos e conforto nos momentosde aflição. Ao meu irmão, Augustinho, por cada palavra de incentivo que me valeu para persistirneste trabalho. Ao meu sobrinho, Augusto Cesár, pelos muitos favores prestados, torcida e apoio. A todos os meus professores, que me mostraram a beleza da Literatura. De modo muito especial, à minha professora orientadora Eugênia Mateus, pelascarinhosas e indispensáveis orientações, pelo estímulo, por cada texto/livro que meindicou/emprestou, por ter me mostrado a beleza da literatura. Agradeço ainda, pela paciênciae compreensão, que colaborou para que este trabalho se tornasse real, apesar de sabermos que,“dorme quem pode”, “dormi”, sua orientação permitiu que conciliasse trabalho e faculdade. Ao professor Deijair, pela paciência hercúlea, pelo tom baixo e decidido com que sedirige ao alunado e pelos sorrisos de canto e olhares amigos, nos mais difíceis momentosquando a vontade é de desistir. Finalmente, agradeço a todos que colaboraram para o cumprimento dessa tarefa.Nomear a cada um seria inviável depois de tantos neurônios queimados e uma mente tãocalejada por tantas letras que ousavam desfilar em meio às palavras seus sábios ensinamentosnas páginas e mais páginas e mais páginas... desenhadas pela escrita a ser decifrada por umaleitura atenta e dividida entre o prazer de ler e a obrigação de fechar mais um ciclo. 4
  • 5. Ser homem é ser responsável. É sentir que colabora na construção do mundo. Antoine de Saint-ExupéryÉ curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Clarice Lispector O que reúne e atrai as pessoas não é a semelhança ou identidade de opiniões, senão a identidade de espírito, a mesma espiritualidade ou maneira de ser e entender a vida. Marcel Proust 5
  • 6. RESUMOA nação se concretiza sob a pena dos escritores cujas narrativas estabelecem a dialéticaidentitária e entra num campo imaginário de representações. A brasilidade imaginada, objetode tantas especulações, incentiva estudos no sentido de se buscar a metáfora de nação,representada pela figura feminina nos romances, como é o caso desse trabalho – Iracema(José de Alencar), O cortiço (Aluízio de Azevedo) e Dona Flor e Seus Dois Maridos (JorgeAmado). Iracema, Rita Baiana e Flor são pontes entre lados opostos de uma nação; elasdeterminam a influência dos colonizadores/estrangeiros na formação do povo brasileiro; afeminilidade da nação se abrindo aos espaços de transgressão dos modelos esperados para arepresentatividade dos desequilíbrios comuns nos espaços e assinalados, ironicamente, namulher, objeto de descarte nos espaços públicos, mas trazidas por Jorge Amado à revelia dosmodelos estereotipados fincados pelos modelos convencionalizados.PALAVRAS-CHAVE: Romantismo versus Naturalismo versus Modernismo. Literatura.Nação versus Identidade. Figura Feminina. 6
  • 7. ABSTRACTThe nation is materialized from the pen of writers whose narratives establish the dialectic ofidentity, and get in a field of imaginary representations. The imagined Brazilianness, object ofso much speculation, encourages studies in order to find the nation’s metaphor, represented bythe female figure in the novels, as in this works - Iracema (José de Alencar) O Cortiço(Aluízio de Azevedo) and Dona Flor e Seus Dois Maridos (Jorge Amado). Iracema, RitaBaiana and Flor are bridges between opposite sides of a nation, they determine the influenceof colonizer/foreigners in the formation of Brazilian people, the nation’s femininity openingthrough spaces of transgression of the expected models for the representation of commonimbalances in the marked spaces, ironically, the woman, object of discard in the publicenvironments, but brought by Jorge Amado in absentia of stereotyped models stuckconventionalized by the models.KEY - WORDS: Romanticism versus Naturalism versus Modernism. Literature. Nationversus Identity. Female Figure. 7
  • 8. SUMÁRIOINTRODUÇÃO 091 NARRANDO A NAÇÃO, A COR LOCAL E A IDENTIDADE: a dialética da conceituação ............................................................................................................ 131.1 Nação: construção imaginária narrada .................................................................... 151.2 A escolha da cor local: uma busca de perfil de brasilidade ................................... 181.3 Identidade nacional /cultural: duas versões, uma realidade ................................. 202 ROMANTISMO, REALISMO E MODERNISMO: a mulher sob três focos .... 242.1 O sublime ser mulher alencariano: da nativa à europeizada ................................ 262.2 Mulher e transgressão: o determinismo naturalista no perfil de mulher em Aluísio de Azevedo .................................................................................................. 302.3 Amadas e Amado: o modernismo de Jorge Amado e o ser feminino .................... 333 MULHER SOB O OLHAR LITERÁRIO E SÍMBOLO DE NAÇÃO ............. 383.1 Iracema: projeto de invenção nacional romântica .................................................. 393.2 Rita Baiana: o caso e o descaso de uma nação ....................................................... 433.3 Flor: a nacionalidade jorgeamadeana projetada em ícone identitário ..................... 47CONCLUSÃO ................................................................................................................. 52REFERÊNCIAS .............................................................................................................. 54 8
  • 9. INTRODUÇÃO É do conhecimento de muitos, que os países colonizados buscam firmar-se comonação soberana. Para isso acontecer um tortuoso caminho tem que ser trilhado. Esse processoimplica formar uma identidade nacional, tarefa nada fácil, porque nessa busca dá-se a junçãode culturas diversas ou o (des)encontro das diferenças, o que favorece à negação dedeterminada cultura ou em conflitos sangrentos que escorrem por quase toda a escrita de todauma história do país. Para entender, portanto, o processo de formação do povo brasileiro é pertinente umavolta ao passado, para reflexões que nos auxilie a compreender o processo construtor denação; apesar de a modernidade sugerir a mistura entre as etnias, a temática das identidadesestá sempre em discussão. E, diante dessas inquietações a literatura pode oferecer as respostaspara se compreender como a nação brasileira se formara na busca da identidade nacional. A mistura do colonizador português, do índio e do negro formou o povo brasileiro;este processo de formação, porém, não agradou a todos. Logo trataram de buscar umaidentidade nacional para o país. Neste caminho longo e de percursos confundíveis, muitosautores brasileiros retrataram, nas suas narrativas, os tipos humanos mais representativos dopaís (o negro, o índio e a mulher). A inclusão da mulher na literatura brasileira foi um marcoimportante para a busca da identidade nacional. O papel desempenhado por essas figuras naLiteratura serão objeto de estudo neste trabalho. Nota-se que desde a criação do mundo, a mulher tem sido ícone de uma nação, vistacomo símbolo sedutor, capaz de manipular a mente masculina, a fim de conseguir seusobjetivos, ou ainda, delinear, através de seu perfil, a imagem de nação. Diante dessaafirmação, ressalta-se a história bíblica de Adão e Eva (Gn 3, 6-14). Adão foi convencido porEva a comer o fruto proibido, onde perdeu sua pureza. Nessa perspectiva é inegável que,desde os tempos antigos, se retratava a figura feminina como estereótipo de submissão,embora desviasse os sentidos masculinos. Obviamente esse estereótipo perdurou por toda ahistória e favoreceu autores que buscavam uma figura para representar a nação, com traçoexuberante e nacional, capaz de representar a Identidade nacional/cultural. Assim, este trabalho trilha pela temática Literatura e Nação/Identidade nos romances:Iracema (José de Alencar), O cortiço (Aluísio de Azevedo) e Dona Flor e Seus Dois Maridos(Jorge Amado), que sabiamente protagonizou por meio de personagens femininos a metáforade nação. A leitura desses romances é de suma importância para a sociedade compreender a 9
  • 10. formação da identidade nacional/cultural do nosso país, onde a figura feminina recebeurelevância, além de ser um trabalho que propõe (des)construir o projeto de nacionalidade pelaimagem metafórica das personagens femininas, que proporcionará a reflexão sobre a atualnação brasileira e sua formação. O trabalho foi projetado a partir dos seguintes questionamentos: Quais indícioslinguísticos e literários levaram os autores à escritura dessas narrativas, trazendo a mulhercomo símbolo de nação? Mediante o conceito de identidade nacional/cultural como seencaixam os projetos literários desses autores? Brasilidade/nacionalidade como dois projetosfotográficos de Brasil ou a representatividade para uma rejeição aos moldes portugueses?Quais indícios ou atitudes femininos simbolizam a imagem de nação em Iracema, Rita Baianae Flor nos projetos literários de autores de épocas distantes? O primitivismo em Alencar, amestiçagem em Aluisio de Azevedo e os princípios da modernidade em Jorge Amado definemuma literatura-espelho de projetos de invenção, afirmação ou amadurecimento de Brasil? Diante dos questionamentos, acreditou-se haver uma explicação aceitável, uma vezque se tem vasto acervo da história do nosso país. Possivelmente os autores tentaram mostrar nessas narrativas novas palavras eentonações que figurassem a nacionalidade, mediante interação entre recursos linguísticos(local/colonizador), visto como aversão ao estrangeiro colonizador. Cogita-se, ainda que, aoutilizar a figura feminina, como símbolo nacional, os autores denotem a negação ao heróieuropeu, como insinuação à perda do espaço nessa nação, pelo colonizador. Partindo do pressuposto de que a arte da escrita nacional expressara-se em váriosmovimentos literários, entende-se que esses autores tentassem se adequar ao contexto daépoca, quando a figura feminina refletia as mudanças ocorridas em estilo literário parasolidificar a nação e a busca da identidade nacional/cultural. Portanto, seria abrasilidade/nacionalidade uma espécie de registro fotográfico de Brasil representado comoespaço e cultura soberanos à revelia dos moldes portugueses, haja vista a necessidade deautoafirmação e reconhecimento. Provavelmente os autores buscassem a revelação de uma literatura expressiva dosentimento de nação, ora menosprezando o europeu ora exaltando o nacional, a sua história.Por tais colocações, acredita-se serem as figuras femininas (Iracema, Rita Baiana e Flor,objeto do estudo), a imagem de cultura, comportamento, expressão, primitivismo,mestiçagem, ordem, desordem, além de algumas outras dicotomias presentes nos projetos deinvenção de identidades e nação. Enfim, a literatura como espelho da reflexão da históriaverossímil da construção de um país e de seus representantes sob a perspectiva da metáfora. 10
  • 11. Em busca pela confirmação dessas respostas, foi necessário fazer a releitura e análisedas narrativas com base em críticos que discutem a escrita literária do país e dos autores, Joséde Alencar, Aluísio de Azevedo e Jorge Amado, assim como, teorias que trazem abordagemda nação (Anderson, Renan, Perrone-Moíses, Figueiredo), Identidade (Hall, Bernd, Debrun) eMulher (Ville, Hellena, Lucena, Miranda) sob o olhar literário. Para a realização desse trabalho, utilizou-se a pesquisa bibliográfica a fim de atingiro objetivo proposto – (Des)construir o projeto de nacionalidade pela imagem metafóricafeminina, representada nas personagens Iracema, Rita Baiana e Flor de Iracema (José deAlencar), O cortiço (Aluísio de Azevedo) e Dona Flor e Seus Dois Maridos (Jorge Amado).Contudo, enveredar pelas leituras e escritas aptas a cumprir as etapas da pesquisa, outrosobjetivos se tornaram guia:a. Conceituar nação e cor local/identidade nos séculos XIX e XX.b. Identificar traços nacionais nas narrativas, sob a perspectiva da cor local/identidade.c. Reconhecer o papel desenvolvido pela figura feminina para a formação de nação.d. Relacionar a sensualidade como um traço marcado de identidade e de nação.e. Comparar os projetos de nação e identidade (nacional/cultural) ao longo da construção da brasilidade.f. Analisar a metáfora de nação/identidade nos perfis femininos da literatura alencariana, azevediana e jorgeamadiana. Seguindo estas veredas, o estudo se organizou em três capítulos por onde tanto arevisão bibliográfica como a fundamentação teórica dialogam junto à análise das narrativas. No primeiro capítulo – Narrando a nação, a cor local e a identidade: a dialética daconceituação –, são apresentados conceitos sobre narrativa da nação, Cor Local e Identidade.Neste capítulo, é discutida e conceituada, a nação como imaginário ficcional, papel que aliteratura desempenha, a representação da cor local vem atrelada a negação ao colonizador e aformação da identidade nacional como um meio de buscar sua origem, pura. Porém todasessas discussões giram em torno da figura feminina. No segundo capítulo intitulado Romantismo, Realismo e Modernismo: a mulhersob três focos, são abordados alguns aspectos dos movimentos literários em foco nadiscussão. A mulher é analisada dentro de cada narrativa, destacando o modelo da figurafeminina representada em cada movimento, assim como sua representação e mudança dentroda sociedade brasileira. Mulher sob o olhar literário e símbolo de nação, terceiro capítulo, expõe-se umadiscussão a respeito de cada uma dessas personagens (Iracema, Rita Baiana e Flor), como 11
  • 12. figuras femininas, que representaram a nação na literatura brasileira, para a formação daidentidade, ora com traços negativos ora com traços positivos. Ao observar a trajetória dessaspersonagens, os papéis desempenhados por elas percebe-se a contribuição que os textosliterários deram para a formação da identidade do país, trazendo a mulher para o centro dasdiscussões. A partir dessas considerações, observo que esse estudo será significativo para acompreensão sobre formação da identidade nacional/cultural do nosso país, onde a figurafeminina recebe relevância, além de ser um trabalho que proporcionará a reflexão sobre aatual nação brasileira e sua formação. Diante dessa realidade, ressalto a relevância do estudopara a universidade, visto que a temática identidade direciona no interior das academiasalguns estudos. Creio, portanto, que a pesquisa sobre nação/identidade centrada empersonagens femininas de épocas distintas provoque reflexão sobre “nossas verdades” econstrua mais uma parte do mosaico de estudos sobre nacionalidade focalizada à luz dametáfora mulher/nação. 12
  • 13. 1 NARRANDO A NAÇÃO, A COR LOCAL E A IDENTIDADE: adialética da conceituação O que é ser brasileiro? Será mesmo que faz sentido falar desse ser? É fácil afirmar a existência da Nação brasileira, se atentarmos apenas para os aspectos geográficos, jurídicos ou diplomáticos. E definir a identidade brasileira como o atributo, a etiqueta do conjunto populacional, ou dos indivíduos, que vivem dentro desse quadro formal. Mas parece que Nação e identidade nacional exigem algo mais. Como, por exemplo, um consenso em torno de certos valores, e uma diferença entre ele e outros tipos de consenso, ou entre eles e outros consensos nacionais. Ora, desde os fins do século XIX, muitos têm duvidado seja da coesão brasileira seja da diferença específica do Brasil (Michel Debrun). Certamente a discussão em torno da construção de nação faz-se cada vez maispertinente em países que passaram por um processo colonizador e tiveram a sua emancipaçãopolítica tardia. É inegável, pois, que o Brasil passara por este processo e buscou construir-seenquanto nação. A ideia de nação trouxe uma série de infortúnios1 ao povo, de modo geral,devido à sua formação. Ora, a população brasileira resultou do fruto da mistura docolonizador português, do índio e do negro africano, peças essenciais para a construção domosaico (povo) brasileiro, entretanto, o questionamento étnico polemizou os conceitos e,portanto, os ajustes discursivos tornavam-se dissonantes da realidade. Essa ideia denação/nacionalismo surgiu entre os séculos XIX e XX, período que remete à independênciapolítica do país e aparecem os prenúncios de cor local e/ou identidade nacional/cultural. Neste período, Machado de Assis já chamava a atenção para a produção literária queseria publicada, com um instinto de nacionalidade e certa presença da cor local. De fato suaspalavras previram a literatura brasileira. Assim a independência alterou a face do país quelogo busca afirmação nacional, e a literatura teve um papel preponderante neste novo rumo.Pensar uma cor local surge, pois, com o Romantismo e, mais tarde, reconfigura-se comoidentidade nacional. A literatura assume papel difusor dessas ideias, uma vez que buscadespertar, no povo, sentimentos nacionais. Neste sentido, a busca por uma escrita quetraduzisse a nação/identidade faz parte da trajetória literária brasileira, que se compromete1 O infortúnio se deu em dois blocos. O primeiro no grupo da elite que discutia a cor local/ identidade nacional egerenciava/decidia nas discussões sem, no entanto, conseguir uma definição suficiente, uma unidade. O segundobloco trazia negros e índios silenciados e, portanto, à margem, objeto de avaliação. 13
  • 14. com o nacional em detrimento ao opressor/colonizador. Mas há de se pensar no nacional porsubtração. Um trâmite traiçoeiro, marcador de dependências até então camufladas. Esse era um objetivo almejado de diversos autores, porém, era preciso encontrar umrepresentante para a construção da nação. Nessa perspectiva, Pesavento (1998) assinala que, anação pode ser vista como uma comunidade imaginária ou um universo simbólico dereferência e, a referência nacional se configura como um projeto que qualifica o real,transfigurando-o e atribuindo-lhe sentidos precisos. A questão identitária desencadeou a buscaromântica mediante conflito de já não se poder/querer ser português, contudo para que essadiscussão se efetivasse exigia-se a escolha de um representante nacional, capaz de incorporare concretizar o universo natural, genuinamente nacional. Neste enfoque, os autores brasileiros elegem, inicialmente, os índios como maiorícone de nação. Os autóctones seriam os verdadeiros donos dessa terra e, a partir dessaescolha, eles seriam a representatividade da exuberância natural/nacional. Dentro dessaperspectiva, o índio apareceu nos romances (fábulas) de fundação de nacionalidade. Porém,apesar de as narrativas sobre o índio não serem protagonizadas apenas por imagem feminina(Peri/Ubirajara), ela se destaca como marca de nacionalidade, pelo atributo à sensualidade, àexuberância tropical e pela fragilidade/força dentro do espaço social e familiar. As imagens mostradas pela literatura passam a dar sentido à identidade, buscandonas origens e na cor local criar sua própria história. Torna-se, pois, evidente que, para sefirmar como nacional, a literatura brasileira busca nessas origens e cor local criar a nação, ecom narrativas alencarianas se dissemina a construção da identidade nacional. Alencar criouuma imagem heroicizada do índio com o intuito de construir a nacionalidade brasileira. Noentanto, é sempre bom lembrar que, nessa busca da nacionalidade, o índio aparece naformação identitária como figura sacralizadora2, haja vista o olhar sobre ele como ser sagrado,puro, habitante do paraíso Brasil. Contribuindo para essa reflexão, Zilbermann (apudFIGUEIREDO, 2005) diz que a exaltação do índio se fez por necessidade de uma genealogia,de um mito cosmogônico, inspiração no autóctone e dono original da terra. A busca do representante nacional não se fez apenas nesse período, pois a arteliterária tem em sua história vários momentos, de acordo com as características e contextos decada época, com o objetivo de buscar a nacionalidade, a representação de sua gente.2 “Essa função sacralizante ou celebrativa (DUBOIS, 1978, p. 74) ‘lembra as origens sagradas da poesia e parececonsolidar a base ideológica da prática literária’. No âmbito dessa função de sacralização épica ou trágica, aliteratura ‘deve significar [...] a relação de um povo a um outro no DIVERSO’ (GLISSANT, 1981, p. 193), sobpena de permanecer folclorizante ou caduca” (BERND, 2003, p. 33). 14
  • 15. Assim é importante lembrar que as narrativas literárias Iracema (José de Alencar), Ocortiço (Aluísio de Azevedo), e Dona Flor e Seus Dois Maridos (Jorge Amado) mostramatravés da imagem feminina3 o processo de construção da identidade nacional. Essasnarrativas traduzem a mulher como símbolo sedutor e capaz de centralizar pontos extremos deuma nação, isto é, o lado positivo e/ou negativo do universo nacional. Nas narrativas, osautores construíram a identidade nacional/cultural, não como um processo simples, pois elanão é única, nem definitiva; pode ser vista como um processo sócio-metamórfico, isto é,procura se adequar ao contexto histórico. Diante de tais colocações, Figueiredo (2005) assinala que as identidades nacionaissão negociadas em função do momento com o apoio do Estado-Nação. Por fim a construçãoda nação e a busca por uma identidade nacional fez-se pertinente ao momento, pois buscavamlivrar-se do estigma de colônia de Portugal, para tornar, de fato, o país livre e soberano comosua própria nação, embora esta uma comunidade politicamente imaginada como é definidapor Benedict Anderson, seja a nação.1.1 Nação: construção imaginada narrada Nacionalismo, embora, reconhecidamente como projeto político, enquanto projetoliterário, ganha modalidades diversificadas cujo panorama se apresenta em dois eixos: oprimeiro limita-se a dimensões localistas (concepção ontológica, fixa e permanente denacionalidade); o segundo, mas universal e reconhecedor das diferenças, baseia-se, pois, nasproporções múltiplas, na liquidez e na alteridade4. O sentido de identidade nacional, pois, seconfigura na ficcionalidade. A literatura, nesse caso, oportuniza a expressão dosnacionalismos pelo imaginário ficcional.3 Tal afirmação não nega a identidade na figura masculina. O corpus do trabalho está centrado na imagemfeminina de nação, a partir de mulheres na literatura.4 Segundo Ceia (2010), “Não menos complexa é a tentativa de reduzir a alteridade a um princípio de identidade.Os poetas modernistas são hábeis neste tipo de jogo de destruição da barreira psicológica entre o eu e o Outro emuitos fizeram dessa relação o cerne da sua poesia. Está neste caso Mário de Sá-Carneiro, cujo entendimento daalteridade é investigado em ‘Eu-Próprio o Outro’ [...] A presença do Outro é sempre uma presença invisível. Aúnica aspiração consiste na possibilidade de encontrar a unidade entre ambos, uma unidade parmenidiana capazde desvelar o Ser uno e imutável. O problema da intersubjectividade parece pronto a resolver-se com a revelaçãodo significado íntimo do sentimento do eu para com o Outro, que é um sentimento de ódio. [...] O Outro existeapenas para eu saber aquilo que não devo ser. Servir-me-á para corrigir o erro de ser-eu-deste-modo-errado.Como afirma Sartre, na sua teoria sobre a alteridade: ‘[...] o ódio é ódio a todos os outros num só. O que euquero alcançar simbolicamente ao perseguir a morte de um tal outro, é o princípio geral da existência de outrem.O outro que odeio representa afinal os outros. E o meu projecto de o suprimir é projecto de suprimir outrem emgeral, ou seja, de reconquistar a minha liberdade não-substancial de para-si [...]” (O Ser e o Nada, trad. de G.Cascais Franco, Círculo de Leitores, Lisboa, 1993, p. 412). 15
  • 16. O termo nação liga-se a uma vasta produção intelectual de onde surge um campominado de conceitos ora convergentes ora divergentes. O termo aparece no país logo após asua independência política. Se o Estado (entidade política e territorial), fora criado, restavainventar a nação e o sentimento de pertencimento à nova comunidade. Ela, portanto, pode sercompreendida como resultado de um esforço interno para a construção de sentimentos depertencialismo grupal e que sejam capazes de dar legitimidade ao aparato político eadministrativo do estado nacional. Esse termo “criar” o país caberia agora à literatura que, decerta forma representa o resultado de seu contexto. Perrone-Moisés (2007) ressalta que aliteratura teve um papel efetivo na constituição de uma consciência nacional e na construçãodas nações latino-americanas. Ela assinala ainda que a literatura do Brasil marca seucompromisso com a vida nacional e objetiva repudiar o opressor/colonizador. As reivindicações nacionalistas nascem e vivem da rejeição de um outro opressivo, que impõe seus princípios e seus valores, apagando ao mesmo tempo, os de uma cultura determinada. Esse outro é um invasor, um colonizador, um explorador [...] (PERRONE-MOÍSES, 2007, p. 36). Esse procedimento torna-se comum, mediante o reconhecimento (ou não) dasdiferenças, as quais reivindicam o estranhamento capaz de instaurar a negação do outro. Entranesse prospecto um jogo de poder cujo domínio desenha os caminhos de uma nação, e, porconseguinte, todo um conjunto (des)construído de significações a serem compreendidas pelosparticipantes do processo. Mas, o que referencia uma nação? Limita-se, nesse momento, a discutir nação como construção imaginada, conceitodefinido por Benedict Anderson, (2005), para quem a nação é uma comunidade politicamenteimaginada, autônoma e limitada. Neste sentido, entende-se que a existência da nação dependede um aparato simbólico por meio do qual são construídos os sentimentos de comunhão,companheirismo e horizontalidade social entre seus membros. Ela é imaginada porque nem mesmo os membros das menores nações jamais conhecerão a maioria de seus compatriotas [...] é imaginada como limitada, porque até mesmo a maior delas, que abarca talvez um bilhão de seres humanos, possui fronteiras finitas, ainda que elásticas, para além das quais se encontram outras nações. É imaginada como soberana porque [...] as nações sonham em ser livres [...] O penhor e símbolo dessa liberdade é o Estado soberano [...] (ANDERSON, 2005, p.14). 16
  • 17. Construir a nação. É preciso uma volta ao passado e uma busca pela imagem à qualpossa orgulhar/representar e projetar sua trajetória. Sobre esse conceito, Sommer (2004) alertaque a intenção dos autores era de incorporar e concretizar tudo o que se almejava,especialmente, o universo natural (nacional). Renan (apud MIRANDA, 2010) salienta que anarrativa da nação é um jogo sutil de lembrar e esquecer, mas uma nação não existe sempassado. A construção de uma nação exige o esquecimento e até o erro histórico. SegundoRenan, é fundamental que todos os indivíduos tenham muito em comum, e que todos tenhamesquecido muitas coisas; eis aí a essência da nação. […] sem o esquecimento da violência existente na origem de todas as formações nacionais é impossível conseguir-se a unidade que as constitui. A comunhão de interesses comuns pelos indivíduos é também partilha de coisas que devem ser esquecidas em conjunto ou lembradas, quando destrutivas, para que não se repitam, para que sejam constantemente “esquecidas” […] (MIRANDA, 2010, p. 35). Para os críticos literários, fica evidente que, para se construir a nação é necessárioque a literatura busque na história elementos positivos ou “manipuláveis” capazes de atenderaos interesses das instituições políticas ou ideológicas dessa nova nação. Segundo Zilbermann(1999), o nacionalismo literário é profundamente relacionado à questão política. A burguesia,solidamente instalada no poder, busca na literatura a representação do Estado que a dirige eadministra. Os autores, portanto, procuram mostrar através da literatura a feição própria,singular a cada nação através de elementos nacionais que a representem. Os autores de literatura brasileira buscaram, desse modo, construir a nação a partir defiguras representativas do país, desde o índio à figura metaforizada da mulher. A produção deuma escrita que, pela imagem de mulher, a nova nação é narrada como construção simbólica.A imagem feminina metaforizada como expressão de nacionalidade cria um jogo dialéticoque ora interioriza ora exterioriza a cultura paternalista adolescente de um país que procuravaautonomia sociopoliticocultural. A colonização deixara heranças que a pós-colonialidaderevisa em busca da formação cultural brasileira. José de Alencar, com seu projeto de invenção de Brasil, procura a interiorização daessência das terras brasileiras e vê na figura indígena o princípio de sua história e formaçãonacional. Aluísio de Azevedo, décadas mais tarde, revisita a formação do país e registra aexploração além de sintetizar a própria visão realista do comportamento humano. E, JorgeAmado, já no século XX, interioriza o exterior, exterioriza o interior, isto é, reconhece 17
  • 18. elementos estrangeiros na construção do país sem, no entanto, negar a origem e dispensa acultura paternalista, adolescente do país.1.2 A escolha da cor local: uma busca de brasilidade A construção de uma nação não se limita à defesa de uma identidade definida, maselenca uma complexa estrutura, senão problemática, porque há uma intensa procura de umaresolução ideal, derradeira ou definitiva. O excesso de determinação trouxe um desequilíbriono avanço desse percurso. A busca identitária firma-se sempre numa história passadaautorrepelente ao presente, porque se vive a diferença, e o futuro apresenta reflexos de umpassado, mas não é exatamente o passado. Certamente, compreende-se o instinto denacionalidade de que fala Machado de Assis como a mola propulsora desse projeto identitárioproblemático. Um país recém-descoberto precisa construir-se como nação e, para suaconcretização, faz-se necessário que a literatura desempenhe esse papel, visto que um povosem literatura não é uma nação. A literatura brasileira (apesar de descreditar os europeus)nasce do tronco português inspirada na tendência romântica. Bosi (1994) salienta que ahistória da literatura brasileira nasce sob o signo do nacionalismo. O ensaio sobre a história daliteratura do Brasil, de Gonçalves de Magalhães (1836), considerado o fundador da nossaliteratura, postula que a literatura brasileira deveria apresentar caráter nacional, pois aliteratura de um povo revela seu caráter. Neste caminho, Gonçalves de Magalhães, lança asbases para a construção da literatura verdadeiramente nacional, papel desempenhado porbrasileiros (escritores) que buscam construir a literatura norteada pela valorização do natural(cor local). Os textos inaugurais no século XVII, marcam o barroco, que demarca a literaturapelo gosto da exaltação da realidade e pela apologia ao gigantismo do país. A cor local foicelebrada por várias gerações de literários que dominaram o discurso e valeram-se deemblemas naturais para representar a literatura brasileira. […] Quem examina a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo, como primeiro traço, certo instinto de nacionalidade. Poesia, romance, todas as formas literárias do pensamento buscam vestir-se com as cores do país, e não há negar que semelhante preocupação é sintoma de vitalidade e abono de futuro […] (MACHADO DE ASSIS, 1959, p. 28). 18
  • 19. Machado de Assis em Instinto de nacionalidade afirma que a produção da segundametade do século XVI aparecia com uma certa cor local, vale salientar que, de fato essa corlocal foi escolhida como meio de demonstrar a afirmação do nosso país. Cor local se definepor uma caracterização de pormenores peculiares a certas comunidades. As narrativas doBrasil ainda adolescente revelam um envolvimento na cor local ironizada pelos modernistasenquanto técnica assolada por uma maldição: acreditava-se que o nacionalismo deveriacentrar-se no que seria melhor e mais peculiar para o país: natureza exuberante e índio (bomselvagem). Uma passagem para a consolidação de um país independente. No Brasil, a independência política despertou nos intelectuais a necessidade deconstruir uma literatura “nacional” diferente de Portugal, na qual já se compartilhava a língua(afirmação de um povo), restava agora aos autores buscar afirmação no elemento natural, e acor local serviu de norte para a produção literária. A literatura vestiu-se de cores paradescrever o país através da natureza, plantas, aves e tribos que foram intensamente narradaspara construir uma brasilidade. Bosi (1994) destaca que, apesar de o país declarar-se independente de Portugal,desde 1888, com o sete de setembro, continuava econômico e culturalmente vinculado aPortugal, o que serviu de estímulo para os autores incorporarem a cor local como afirmaçãodo “nacional”. Incentivados pela independência, eles insistiam em destacar essa cor localcomo recurso nacional. A literatura necessitava de um elemento original e nada maispertinente para essa afirmação que a valorização do natural. O amor à terra e a valorização ànatureza foram, sem dúvida, a base para iniciar a produção literária no Brasil. A consolidação cultural se manifestava literariamente haja vista os românticos teremassumido a missão de criar, difundir e elogiar um lugar, um imaginário, uma utopia:personagens, valores, gente. Uma nova visão, contrária a dos europeus – resquícios coloniais. A nação e a(s) identidade(s) brasileira(s), com base na proposta de Silviano Santiago, apresentada no texto de Roberto Corrêa, sobre o mecanismo da espacialização interior/exterior como movimentos que vêm caracterizando os modos de compreensão e uso do valor de nacionalidade e de identidade nacional; periféricas. O termo macumba vem para lembrar nacional e gringo, estrangeiro. Do ponto de partida, nacionalidade e identidade nacional foi o projeto precursor de Alencar, mas reconstruído, por outros viéses, em épocas distintas, por muitos outros artistas [...] proporcionou ao homem um repensar sobre a formação do(s) sujeito(s). A partir de então, procurou-se a inclusão, um bloco de identidades que pudesse englobar uma brasilidade tão diversa. Alencar se valera da exteriorização da cultura do país, representada pelo nativismo, palas origens indígenas, numa visão romântica, externando a cor local, isto é, o movimento deu-se numa só direção, de dentro para fora. 19
  • 20. Nessa exteriorização do interior, veio à tona a essência primitiva do país – uma farsa ridícula do paraíso tropical para turistas, um mau simulacro, falsa essência, doxa, fingida raiz, baixa democracia (SOUZA; SOUZA; SILVA, 2005, p. 9-10). Uma macumba para gringo ver seria a representação literária dessa cor local. Aprodução literária restringiu-se a essa busca e não amadureceu de mediato, esse processo seinicia já finalizando a segunda metade do século XIX. Essa cor local ganha novas tonalidadesao longo do século seguinte com novas definições e reconhecimento às diferenças. Apesar de na segunda metade do século XVIII se perceber certo instinto denacionalidade e a presença de uma cor local, há de se reconhecer que em o Uruguai e oCaramuru de Basílio da Gama e Santa Rita Durão, respectivamente, já era possível sentir umacerta brasilidade, pois seriam narrativas precursoras desse entendimento de uma cor local, decerta brasilidade. O escritor precisa ser homem de seu tempo e deu seu país e possuirsentimento íntimo que nem é peculiar a todos. Nesta linha, o projeto “arquitetônico” do Brasil lançado por José de Alencar, valeu-se da exuberância natural para apresentar / representar o país que se destacaria na literaturanacional. Ele apresentou o país com um matizado de cores locais, inventou a diversidade e opitoresco. O estímulo em amar a terra e orgulhar-se da nacionalidade marcou a literaturabrasileira de uma época. Outros autores também utilizaram a cor local para marcar a nacionalidade, porém,como destacou Machado de Assis, descrever a natureza, obrigatoriamente, não significa quehá nacionalidade, uma vez que o escritor pode pecar nas descrições das figuras e dos lugares.Alencar diferente de muitos autores não economizou exaltação da natureza (cor local) em suasnarrativas.1.3 Identidade nacional/cultural: duas versões, uma realidade O dramático cenário de uma identidade nacional é praticamente comum a todos os países latino-americanos, onde as marcas da colonização muitas vezes têm determinado um complexo jogo retórico e expressivo da memória e o esquecimento na construção da história [...] priorizam-se determinados componentes do processo histórico e esquecem-se aspectos mais traumáticos quando se pretende construir, sob o manto da homogeneização, uma identidade nacional [...] (PEREIRA, 2000, p. 7). 20
  • 21. A questão de identidade para Pereira alerta para se uma cultura for hegemônica, tantopior será o processo de construção de uma identidade nacional, pois uma tentará esmagar aoutra. A construção de uma identidade nacional não se constitui em processo simples, hajavista que, ao se inventar um “nós”, que se opõe ao outro, corre-se o risco de esmagar a culturado outro. Figueiredo (2005) alerta que o processo de criação de uma identidade nacional nãodeixa de ter suas contradições, pois ao se criar uma identidade, cada nação age em nome deuma originalidade singular, o que pode desencadear conflitos sangrentos em nome de umaidentidade. Ela alerta que, no Brasil, a questão da identidade foi colocada, sobretudo, a partirda busca romântica que nasce do conflito de já não se poder/querer ser português, contudo,para que a discussão se efetivasse era preciso resgatar a memória do país e encontrar umrepresentante nacional. Sobre esse conceito, Sommer (2004) ressalta que a intenção dosautores era de incorporar e concretizar tudo o que se almejava, especialmente, o universonatural (nacional). Na narrativa alencariana, propaga-se a construção da identidade nacional. EmIracema, a natureza, exageradamente, descrita permite a visão do lugar como um paraíso.Nesta perspectiva, subtende-se que a natureza é representada pela figura feminina de Iracema,virgem e exótica, como símbolo da terra brasileira. Alencar concilia duas culturas e doispovos (índio/português) para alcançar a nacionalidade. Pesavento (1998) alerta que formularuma identidade nacional, desenhar o perfil do cidadão, estereotipar o caráter de um povocorresponde a práticas que envolvem relações de poder e objetivam construir mecanismos decoesão social. Nessa busca da nacionalidade, Aluízio de Azevedo invade a prosa brasileira com anarrativa naturalista, O Cortiço, e retrata a vida dos imigrantes na sociedade carioca em umprocesso de trânsito de culturas concomitantemente à construção nacional. Nesta narrativa,vale destacar a mudança ocorrida na vida de Jerônimo (imigrante) após conhecer Rita Baiana,uma mulata sensual. Rita Baiana pode ser vista como a figura feminina (nacional) que seduz eencanta o estrangeiro e torna-se responsável por sua transformação, além de circular poralguns espaços e se relacionar com personagens que destoam opiniões sobre ocomportamento. Porquanto, Rita Baiana representa a ponte para um trânsito de culturas. Hall(2003) revela que as identidades nacionais não são características com as quais se nasce, masque são formadas e transformadas no interior de representação. 21
  • 22. A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar ao mesmo tempo (HALL, 2003, p. 13). A animação em torno da definição de identidade nacional não se perde entreintelectuais e brasileiros no final do século XIX, Aluízio de Azevedo, através do amor entreRita Baiana e Jerônimo, reencena o deslumbramento do europeu em relação à América. Dessavez a terra é posta de lado, e a sexualidade entra no jogo discursivo e a literatura passa aexplorar a condição natural da vida humana. A identidade brasileira para a ser vista pelo focoda sexualidade pelo contraste entre as civilizações européia e brasileira. O Brasil é um corpo que goza, e como tal envia ao português estupefato uma mensagem que é uma promessa de gozo. O imigrante português já havia experimentado o clima, as frutas e os aromas brasileiros. Tudo isso era dotado de um aura de novidade e mistério que ele não via como articular em palavras. A entrada de Rita Baiana introduz um apelo extra - o apelo da sexualidade - que era o que faltava para disparar o processo de absorção de Jerônimo a uma nova identidade e a um novo estilo de vida. [...] Quando tudo se dilui em incertezas ao redor da brasileira e do português, só as verdades da sexualidade garantem a permanência da união entre os amantes; trata-se possivelmente do único caráter dominante, mas não necessariamente garantidor de permanência, que, em O cortiço, se tipifica o “ser” nacional (MENDES, s/d). Quebra-se a conciliação romântica e aponta-se para uma menos superficial. Asmodificações são constantes... e, paralelamente a esse processo metamórfico, surgiu oModernismo com uma nova forma de representar a identidade. Segundo Pesavento (1998), osmodernistas indicam o caminho para uma redescoberta do Brasil, a diversidade brasileira,expressa em natureza, raça e cultura, realiza a integração para formar a unidade nação. JorgeAmado apresenta essa corrente na narrativa Dona Flor e Seus Dois Maridos. A personagemFlor representa o Brasil de duas faces ao conciliar seus dois amores, Vadinho/desordem eTeodoro/ordem. Jorge Amado, portanto, serve-se de Flor para representar a sociedadebrasileira. Insinua que a figura feminina (nação) apresenta-se completa quando possui as duasfaces ordem/desordem. O canto ao povo miscigenado, às suas festas e aos seus sabores musicalizou a escritajorgeamadiana que resvalou em identidade e nação. Realidades sociais e históricas cruzaram- 22
  • 23. se ao retrato de baianidade brasilidade distorcida e/ou inventada por um discurso literário eextraliterário. Goldstein (s/d) destaca, sobre Jorge Amado: Seu Brasil mestiço, alegre, festeiro e sensual é um conjunto de elementos pinçados dentro de um repertório histórico e cultural, recortes que revelam e escondem ao mesmo tempo. Escondem conflitos, heterogeneidade e transformações, mas revelam mitos, tabus e desejos de parte significativa dos brasileiros. A contextualização das narrativas abre o panorama para a percepção de identidadecomo processo de constante metamorfose, uma vez que o homem transforma-se à proporçãoque revisa seu conhecimento, sua cultura, seus costumes e hábitos na construção de suaimagem. O índio aparece na formação identitária com imagem sacralizadora, haja vista oolhar sobre ele como ser sagrado, puro, habitante do paraíso de nome Brasil. No entanto,associado à referência de identidade esta o conceito de alteridade – a identidade do outro.Com o mestiço, começa o processo de desconstrução e a literatura descortina-a através dafunção dessacralizadora, isto é, a visão realista e crítica reabilita o conceito identitário peloviés cultural. Os críticos literários, pois, numa revisitação à produção literária brasileira acertamque desde a sua origem o povo brasileiro testemunha a miscigenação em torno da busca daidentidade nacional e a figura feminina representou uma imagem estereotipada da mulhernacional. Assim é pertinente salientar que se deve repensar a diferença, para oreconhecimento das identidades múltiplas e híbridas. 23
  • 24. 2 ROMANTISMO, REALISMO E MODERNISMO: a mulher sob três focos A mulher não possuía identidade, não era dona de si mesma, não possuía a palavra, que leva o ser a um plano de reflexão e autoconscientização. [...] A mulher hoje pode aspirar a ser e não apenas a viver parasitariamente. [...] Na sociedade primitiva a mulher detinha um grande poder advindo de sua atuação como sacerdotisa ou feiticeira. A mulher exercia esse fascínio por ser ligada à terra-mãe. Mas o homem dominou a terra e subordinou a mulher, criou as leis e as instituições inaugurando a sociedade patriarcal. A mulher foi confinada no interior do lar para procriar e alienou-se. Tornou-se o “Outro”. [...] A mulher evoluiu lentamente em todo o mundo. A situação política, econômica e religiosa refletiu-se na trajetória feminina. Na Idade Média a mulher achava-se na total dependência do pai ou da proteção de um marido que lhe era imposto. Não possuía nenhum direito como pessoa (Eliana Gabriel Aires). As gerações literárias sempre buscaram a narrativa da nação enquanto espaçoimaginário, entretanto respeitado e merecido por todos. A literatura brasileira, desde oRomantismo, providenciou uma nação com seus respectivos representantes de cor local. Oíndio fora o primeiro foco do olhar, mas a dialética identitária trouxe discussões polêmicas embusca de uma característica genuinamente brasileira. Este texto, no entanto, centra-se no olharda narrativa sob o foco da mulher para a construção de nação. É notável o novo papel que as mulheres assumem na atual nação brasileira, contudovolta e meia percebemos que elas ainda sofrem estereótipos herdados da ficção do país. Paracompreender a sociedade de hoje é necessário revisitar os movimentos literários do país evislumbrar as mulheres que foram desenhadas pelos nossos autores. A literatura brasileira firmou-se a partir da Independência do Brasil e buscavamostrar sua soberania através de uma escrita nacional com elementos também nacionais. Como intuito de mostrar a grandeza do país, vários autores elegeram a mulher como figurarepresentativa do Brasil ao longo da história literária, porém, é recorrente nas narrativasrepresentações estereotipadas de mulher: anjo, perigosa, imoral, sedutora e tantas outras“qualidades” que fizeram delas símbolo do país, ora com traços positivos ora negativos. 24
  • 25. Segundo Lucena (2003, p. 207), a explicação é encontrada na civilização ocidental, quetransformou/representou a mulher como um ser secundário inferior e deve manter-se submissaao homem: Desde a cultura greco-romana a condição feminina é representada como passiva e inferior, tomando como parâmetro o padrão anatômico, fisiológico e psicológico masculino. Toda a carga discriminatória entre homens e mulheres. A figura feminina começa a se destacar no Romantismo quando os autores retratamatravés de uma visão ideológica, representada como um ser puro, angelical, frágil e, aomesmo tempo, capaz de encantar e seduzir todos, próprio da corrente romântica. Partindodesse pressuposto, compreende-se porque José de Alencar retratou em suas narrativas váriosperfis de mulher, todas com certo ar pueril. Na narrativa alencariana, um dos destaquesfemininos é Iracema apresenta como uma mulher pura, passiva que se deixa levar pelo amorque tem por Martim, abrindo mão de tudo. Candido (1993) ressalta que José de Alencar foi um dos escritores românticos quemais idealizou a imagem feminina como ser puro, angelical, pronta a servir, abrindo mão desua individualidade para satisfazer o outro. Essa imagem é uma consequência da visãopatriarcal daquela época em que a mulher deveria mostrar-se inferior ao homem. Após o Romantismo, os escritores continuaram a tematizar narrativas,fundamentando suas idéias na razão e na ciência. As narrativas escritas nesse período sãodenominadas realistas, por conter características próprias ao momento de transformação peloqual o país passava; a figura feminina aparece em oposição à mulher romântica. É na escritade Aluísio de Azevedo, O cortiço, que se constata essa questão. Nessa narrativa, ganhadestaque a figura de Rita Baiana, descrita como uma mulher independente, rebelde, impura epervertida e que seduz e encanta os homens para alcançar seus caprichos, isto é, conseguirrealizar seus desejos. Aqui a voz feminina fazia-se ouvir a partir de jogos deterministas. Em relação à concepção ideológica, percebe-se uma ruptura entre a mulherromântica (frágil/pura) e a naturalista (traiçoeira e sedutora), que simboliza a quebra deparadigmas. Representa uma criatura mais autônoma, bem decidida, sem levar emconsideração a visão patriarcalista. Coutinho (2004) assinala que Aluísio de Azevedo, aoescrever O cortiço, consegue mostrar sob a ótica do aglomerado do cortiço os novos tipos 25
  • 26. humanos que a sociedade brasileira passou a ter, inclusive o novo olhar sobre a figurafeminina. A temática feminina à luz da literatura aparece também na corrente modernista,especialmente, nesse caso, na narrativa de Jorge Amado, transmitindo uma visão realista dacultura popular, na qual a mulher representa papel principal. Candido (1993) destaca que omodernismo não fugiu à regra, seguindo a incorporação do material local, que é próprio dopaís, na representação da cultura brasileira, espalhada nos distantes recantos do nosso país. Na narrativa Dona flor e Seus Dois Maridos percebe-se que Jorge Amado descreve afigura de Flor como uma mulher que assume atitudes, trabalhava como professora de culináriae guiava-se pela própria vontade, apesar de apresentar-se virtuosa na sociedade, esconde seusvícios secretos. Flor representou a figura da mulher liberta dos padrões então vigentes nasociedade, ao “assumir” seu triângulo amoroso e encaixou-se na ruptura por sua condição demulher em uma sociedade preconceituosa. Deduz-se que a personagem Flor foi criada com opropósito de quebrar paradigmas até então possíveis ao homem ou então com o intuito dereafirmar a figura feminina como um ser em liberdade. Sem dúvida hoje a mulher assume outros papéis na sociedade, mas os resquícios dasmulheres pintadas na literatura contribuíram para a visão estereotipada que se tem frente àmulher brasileira. Do ser sublime ao mais libertário, as mulheres desfilam nas linhas literáriaspara descortinar o grande elenco de diversidade identitária feminina a mostrar-se para osmeios sociais e a encarar seus desafios frente à nação da qual faz parte e pode referenciá-lapelos mesmos descaminhos vividos pela mulher. O difícil acesso à sua narrativa de nação.2.1 O sublime ser mulher alencariano: da nativa à europeizada Louvado, exaltado e ou desqualificado, o sujeito feminino é figura recorrente emnossa literatura, marcada por traços positivos e/ou negativos, que o classificam como mulherbela, solitária, alegre, astuciosa e dotada de irresistível sensualidade. Assim, a mulher aparecena nossa literatura e fora marcada por traços puramente negativos, de mulher libertina quedeixa emergir sua imoralidade, que seduz e encanta os ditos virtuosos. Diante desseargumento, vale salientar a visão de Lucena (2003, p. 19) que explica o conceito de mulher,oriundo da formação da civilização ocidental, que perdurou nas narrativas literárias: 26
  • 27. [...] subproduto humano (durante certo tempo, admitiu-se que a mulher era destituída de alma), e sua ‘’debilidade’’ justificava os muitos defeitos que lhe eram atribuídos. As mulheres eram, assim, consideradas vis, inconstantes, covardes, frágeis, imprudentes, incorrigíveis, astutas, frívolas, preguiçosas, avaras, ambiciosas, orgulhosas, invejosas, voltadas a divulgações inúteis e dotadas de reduzida capacidade intelectual. A aceitação inconteste dessas características “naturais” fizeram delas, de um lado seres minusválidos e dependentes e, de outros, perigosos sobre os quais se deveriam exercer controle e vigilância constantes, o que implicava exigir e cobrar da mulher humildade, submissão, piedade e obediência [...]. Partindo dessas colocações, voltarmos ao passado para revisitar os movimentosliterários – Romantismo, Realismo e Modernismo – para entendermos como a figura damulher foi construída/representada em nossa literatura. Na segunda metade do século XIX, jáconsolidada a Independência do Brasil, percebe-se o orgulho nacional, ligado aos projetos deconstrução do país, próprio de uma consciência, ainda ingênua, encontrada no Romantismo. ORomantismo no Brasil marca o início do século XIX e foi palco de várias transformações quecontribuíram decisivamente para a formação de uma verdadeira identidade nacional e, porconseguinte, uma literatura com características genuinamente brasileiras. Bosi (1994) esclarece que esse movimento surgiu quando Gonçalves de Magalhãespublicou, na França, “Niterói - Revista Brasiliense” e lança um livro de poesias românticas,fator que serviu de norte para outros autores aderirem essa escola literária. Os escritoresromânticos se impuseram à tarefa de escolher um ponto de partida para buscar o progresso dopaís, e necessitava inventar uma genealogia, uma tradição, que nos imprimisse um perfil denação. Dessa forma, o Romantismo se solidifica, tematiza o jovem passado e cria um terrenofértil para o florescimento das mitologias nacionais; ganha destaque, nesta tarefa, José deAlencar, que privilegia as simbioses (terra natural) e apresenta/representa através do índio(Perí / Ubírajara / Iracema) as mitologias nacionais. Neste caminho, destaca-se o fato que fora marcado no Romantismo de Alencar, amorà terra e orgulho da nacionalidade que, sem dúvida foi o fundamento da ideologia indianista.Constrói-se a prosa indianista de Alencar focalizada na figura do índio (mulher) selvagem,porém cheio de virtude, como símbolo da pureza e da inocência. Nesta narrativa, o autorutiliza uma linguagem simples, porém com forte traço da língua tupy. A linguagem usada porAlencar para escrever o romance Iracema é uma tentativa de representar a língua e o caráterindígenas para o leitor entender a lenda do Ceará como se tivesse saído da boca de um índiobrasileiro. 27
  • 28. Segundo Pereira (2000), Iracema é uma das grandes narrativas românticas erepresenta uma figura suprema da literatura alencariana. O romancista apresentou Iracema(mulher), como um ser superior; ela é sempre um pouco mais nas qualidades e virtudes. Essascaracterísticas de Iracema são marcadamente encontradas em toda a narrativa, como símbolodo índio (mulher romântica) e do lugar, uma vez que o nome da personagem é o anagrama deAmérica, novo continente, representante de um novo povo e um novo lugar. Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e a mata do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas. [...] (ALENCAR, 1991, p. 20). Natureza e mulher. Espaço e feminino. Dualidades unilaterais que consumam ogênero de uma nação recém-organizada e tão adolescente que mal se reconhecia na suaestrutura e essência. Iracema simboliza uma das muitas mulheres que Alencar caracterizou nanossa literatura romântica, porém todas as outras trazem traços bem distintos, mas commarcas do romantismo do autor. Diante desse discurso, Miranda (2010, p. 25-27) destaca asmulheres criadas por esse autor. [...] “Incompreensível mulher!” –, que diz muito dos vários perfis de mulher que José de Alencar tratou em distintos romances ao longo de sua vasta narrativa. Há aí um ponto de partida para se entender a atração do escritor cearense pelo desenho das mulheres que criou, de Iracema a Ceci, de Diva a Aurélia, para citar apenas algumas. [...] [...] figuras tão distintas como a Lúcia de Lucíola, e Iracema, do romance homônimo de 1865, irão conformá-lo de maneira excepcional. Uma, ao incorporar a subjetividade burguesa em ascensão e reagir violenta e ironicamente contra ela; ao absorver os valores cristãos do conquistador e sacrificar-se a eles, sem perder os traços de sua cultura de origem [...]. Brait (1985) destaca que a narrativa de Alencar possui uma visão romântica atravésda personagem Iracema, ser sagrado, puro e doce. Iracema é vista como mulher perfeita, 28
  • 29. condição da figura feminina no Romantismo, visão ideológica que se tem da mulher. Iracemarepresenta a mitologia de Alencar: “Iracema é filha do Pajé, e guarda o segredo da Jurema. Oguerreiro que possuísse a virgem de Tupã morreria” (ALENCAR, 2009, p. 33). Iracema éfilha de Araquém, pajé da tribo tabajara, e deve manter-se virgem porque guarda o segredo dajurema e o mistério do sonho. Sua mão fabrica para o Pajé a bebida do Tupã. Um dia, Iracemaencontra na floresta, Martim, que se perdera de Poti, amigo e guerreiro pitiguara com quemhavia saído para caçar e agora andava errante pelo território dos inimigos tabajaras. Iracemaleva Martim à cabana de Araquém, que abriga o estrangeiro. [...] Diante dela e toda a contemplá-la está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos cobrem-lhe o corpo. […] O estrangeiro seguiu a virgem através da floresta. […] A virgem aponta para o estrangeiro e diz: – Ele veio, pai. – Veio bem. É Tupã que traz o hospede à cabana de Araquém. (ALENCAR, 1991, p. 21-23). Alencar caracteriza a proibição de se tocar o corpo de Iracema, porém ela aoconhecer Martim por ele apaixona-se. Apesar de ser retratada como pura Iracema apresenta-secomo uma figura desobediente ao dá o licor da jurema a Martim, que a procura sob os efeitosda droga. Essa atitude de Iracema pode também ser vista como uma marca do amorromântico, que se revela mais forte, capaz de quebrar regras. Iracema recosta-se langue ao punho da rede; [...] Já o estrangeiro a preme ao seio; e o lábio ávido busca o lábio que o espera, para celebrar nesse adito d’alma, o himeneu do amor. [...] O cristão repeliu do seio a virgem indiana. [...]. Volta a serenidade ao seio do guerreiro branco [...]. – Virgem formosa do sertão, esta é a última noite que teu hóspede dorme na cabana de Araquém, onde nunca viera, para teu bem e seu. Faze com que o sono seja alegre e feliz. [...] – A virgem de Tupã guarda os sonhos da jurema que são doces e saborosos! [...] – Vai, e torna com o vinho de Tupã. Quando Iracema foi de volta, já o Pajé não estava na cabana; tirou a virgem do seio o vaso que ali trazia ocultando sob a carioba de algodão entretecida 29
  • 30. de penas. Martim lhe arrebatou das mãos, e libou as gotas do verde e amargo licor. o. Agora podia viver com Iracema [...]. [...]. Quando veio a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada, qual borboleta que dormiu no seio do formoso cacto.[...]. Vendo Martim a virgem unida ao seu coração, cuidou que o sono continuava [...]. A filha de Araquém escondeu no coração a sua ventura (ALENCAR, 1991, p. 49-51). Assoberbada pelo amor romântico e pueril, a nação construída na índia Iracemaconsente a invasão consciente de uma quebra hegemônica de existência primitiva. Nasce umnovo referencial de lugar numa estratégia “inocente”, porém, natural do ser humano. Unir-seao outro que o atrai pelas diferenças. Identidade e diferença comungam de um mesmo cáliceinseparáveis no existir do eu e do outro de que complementam e constroem a narrativa de umanação, nesse caso, tímida, inocente, primitiva, invadida, mas amorosa de um amor platonizadopelas inconveniências de formações civis incompatíveis quando não se reconhecem.2.2 Mulher e transgressão: o determinismo naturalista no perfil de mulher em Aluísio deAzevedo No final do Romantismo brasileiro a partir de 1860, as transformações econômicas,políticas e sociais levaram nossos autores a produzirem uma literatura muito próxima darealidade (e quando não o foi?), fundamentando suas histórias na razão e na ciência. Asnarrativas produzidas nesse período, conhecidas como realistas, possuem característicaspróprias ao enfatizar a influência do meio na formação do caráter humano. Essa visão decorredo grande valor que a ciência passou a ter para explicar a realidade, seguida das idéias devárias correntes de pensamento que buscavam a compreensão do homem e da sociedade,especialmente, o darwinismo que entendia o homem como resultado do meio. Candido (2004, p. 8), observa que os escritores passaram a usar o fundamento dessascorrentes para explicar o comportamento e as transformações em que o individuo pode sofrer. [...] outro resultado dessa convergência da biologia e das ciências sociais foi o relevo dado a estoutra idéia essencial do darwinismo, a de que “as circunstâncias externas determinam rigidamente a natureza dos seres vivos, inclusive o homem, e de que nem a vontade, nem a razão podem agir independentemente do seu condicionamento passado” (Hayes). É a noção de 30
  • 31. onipotência do ambiente, ou milieu de Conte e Taine. O homem é parte integrante da ordem natural, seu corpo quanto seu espírito se desenvolve e atuam debaixo de seu condicionamento total e inevitável. O ambientalismo, contribuição da antropogeografia aos estudos sociais no século XIX, contaminou a mente dos historiadores da civilização e da cultura, em seguida aos trabalhos de Lamarck, Buffon, Cuvier, e à narrativa de geógrafos como Ritter, Kohl, Peschel, Reclus, Ratzel. Foi por meio de Buckle e de Taine que a noção se popularizou e se tornou um lugar-comum da crítica histórica e da crítica de artes e letras. Nesse ponto a influência de Taine, inclusive ou, sobretudo no Brasil, é avassaladora. Bosi (1994) ressalva que, ao contrário do Romantismo que procurava idealizar ohomem/natureza, o escritor realista, analisa o indivíduo a partir dos componentes hereditáriose das circunstâncias que determinam seu comportamento. Foi neste contexto que surgiuAluízio de Azevedo com a narrativa O cortiço, registrando bem as mudanças da sociedadedaquela época. O autor procura mostra por meio das personagens a nacionalidade que vai seformando em meio ao aglomerado de estrangeiros e brasileiros. Aqui não se fala uma sólíngua, temos o falar do italiano, do português, do francês, do baiano, do ex-escravo, docarioca, todos partilhando uma mesma língua que não é puramente a portuguesa, mas simuma língua mestiça, assim como a população do país. Contudo, o que nos interessa nessanarrativa é a figura feminina e sua transformação dentro daquela sociedade. A narrativa tem várias figuras femininas (Bertoleza, Pombinha, Piedade, Rita Baianae tantas outras) que circulam numa luta constante com seu meio, o comportamento dessasmulheres é fundamentado pelo determinismo que age friamente na conduta do indivíduo.Observa-se a figura de Bertozela, descrita como uma ex-escrava que passara a viver em“liberdade” na cidade e agora trabalhava para João Romão, em uma situação de totalescravidão além de ser sua criada (sem remuneração), ela também exercia o papel da“amante” sonhando em sair da condição de inferioridade, porém ela permanecia igual,capacho de João Romão, que só queria explorá-la. Outra figura que se destaca na narrativa é Pombinha, mulher muito fraca, nervosa,doente, que é “forçada” a se casar, contudo, separa-se do marido, contaminada pela influênciade sua madrinha Léonie, torna-se uma criatura impura, (prostituta/lésbica), porém entende-seque essa visão segue os padrões da norma social vigente, regrada de preconceitos. Piedade é outra figura que sofreu influência do meio, quando chegou ao país traziano semblante a serenidade, criatura boa, simpática que consegue se manter longe dasperdições brasileiras (vícios, farra, traições etc.), no entanto, também sofre transformações, 31
  • 32. quando se vê abandonada por Jerônimo, se entrega ao deszelo, não cuida mais do corpo e vaibuscar refúgio na bebida. Apesar de essas mulheres representarem as transformações ocorridas nocomportamento humano, a figura que merece destaque é Rita Baiana. Ela se destaca nanarrativa, por apresentar características exóticas da mulher brasileira (mulata). Rita é umamulher inquieta, bela e sedutora, que se diverte todas as noites, distribui abundantesexualidade, uma excelente dançarina de carnaval. Azevedo não poupou nada para acentuar alibertinagem de Rita Baiana. [...] E viu a Rita Baiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de ombros e braços nus, para dançar. A lua destoldara-se nesse momento, envolvendo-a na sua como de prata, a cujo refulgir os maneios da mestiça melhor se acentuavam, cheios de uma graça irresistível, simples, primitiva, feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de serpente e muito de mulher. Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita [...]. Depois, como se voltasse à vida, soltava um gemido prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas, descendo e subindo sem nunca parar com os quadris [...] (AZEVEDO, 1998, p. 72). Azevedo mostra as marcas de Rita Baiana como uma mulher que distribuía graça,sexualidade a todos do cortiço, e deixa claro que a mulher naturalista nada tinha decomportada, ao invés disso, tinha “fogo impregnado na pele”, fator que a deixava toda feita depecado. Ele ainda mostra o poder que a mulher naturalista tem na transformação da vida deum “homem honesto”. Rita Baiana consegue transformar Jerônimo em um sujeito pervertido,que abandona a esposa e a filha para juntar-se a ela que, com sua sedução, influencia-o amatar o seu amante Firmo. [...] Donde vens tu?... segredou ela. De cuidar da nossa vida [...]. Aí tens a navalha com que fui ferido!... – Quem o matou? – Eu. – Sim, sim, meu cativeiro! Respondeu a baiana, falando-lhe na boca; eu quero ir contigo; quero ser tua mulata, o bem de seu coração! Tu és os meus feitiços! – E apalpando-lhe o corpo: – Mas como estás ensopado! Espere! Espere! O que não falta aqui é roupa de homem pra mudar!...[...] (AZEVEDO, 1998, p. 152-153). 32
  • 33. A partir do olhar de Lucena (2003) e Coutinho (2004), compreende-se que toda adescrição feita por Azevedo sobre Rita Baiana, segue a teoria naturalista, ao mostrar odomínio/transformação da figura feminina, frente à sua vida. Azevedo valeu-se de Rita paraapresentar a animalidade sexual que a mulher passou a se submeter. Dessa forma, observa-sea mulher nos textos realistas, um ser independente, rebelde, que encanta e seduz o universomasculino, em busca de interesses físicos e materiais. Assim, foi a visão que o autor deixousobre a mulher, sujeito que rompe, corrompe as virtudes para render-se ao pevertimento,indicando que todos os que se aproximarem dela serão contaminados pela sua conduta.2.3 Amadas e Amado: o Modernismo de Jorge Amado e o ser feminino Para compreender a figura feminina, representada por Jorge Amado, é oportunoassinalar, o discurso da corrente modernista no qual ele está inserido. O Modernismo noBrasil começou com a Semana de Arte Moderna de 1922, e teve como fonte inspiradora asvanguardas européias e se propõe a atualizar o Brasil ao seu tempo. A geração modernista é marcada por uma liberdade de estilo e aproximação dalinguagem com a linguagem falada. Naturalmente, observa-se que, desde o Romantismo, abusca de traços particulares da realidade brasileira já estava presente em algumas narrativas,entretanto, foi na segunda fase modernista que surgia Jorge Amado para desnudar a hipocrisiados valores até então vigentes. Para entender essa corrente, é interessante mencionar as reflexões de Pesavento(1998, p. 31). Segundo ela, os modernistas indicam o caminho para uma redescoberta doBrasil, inspiram-se na diversidade, na multiplicidade e nos contrastes do país paradescrever/escrever o Brasil urbano presente. [...] modernista do Brasil urbano e popular, entretanto, se converteria numa brecha na qual se insinuou a “redescoberta do Brasil”, que teria sequência nos anos 30. A palavra de ordem era ir em busca de um outro país que se ocultava por trás das aparências [...]. A releitura do Brasil inspirava-se na diversidade, na multiplicidade, nos contrastes entre o moderno e o arcaico e o rural e o urbano, pondo em xeque as próprias relações com a Europa. O olhar renovador do modernismo aprofundava-se, e a idéia central da corrente de 30, que se prolongaria nos anos 40, seria a da diversidade cultural. 33
  • 34. Desse ponto de vista, Jorge Amado anuncia a opção pelo popular e pelo o urbano aocompor uma literatura que apresenta o Brasil de hoje com resquícios do passado rural.Segundo Bosi (1994), os romancistas modernistas dão maior ênfase à realidade brasileira,denunciando problemas sociais ou as mazelas políticas da região. Goldstein (s/d) ressalta que,Jorge Amado sempre resvalou em temas que retratava e idealizava a realidade, ora tratava dasrelações sociais das quais viveu, ora inventava/distorcia aspectos da sociedade brasileira. Entendendo essas idéias, e refletindo os depoimentos do autor, compreende-se quefoi observando as mulheres (mulatas, prostitutas, lavadeiras e jovens ricas) que ele criou umaliteratura com os tipos femininos memoráveis, servindo-se delas para acentuar a força, asensualidade, a coragem, a sabedoria e a irresistível beleza da mulher brasileira. A partir daí,ele criou os tipos femininos que marcaram a literatura modernista: Gabriela (Gabriela cravo ecanela), Tieta ( Tieta do agreste), Dona flor (Dona Flor e Seus Dois Maridos), entre tantasoutras para escrever uma ficção de mulheres fogosas, ardentes e sensuais e que despertam odesejo masculino. Para compreender um pouco mais essa visão da mulher criada por Jorge Amado, voubuscar em Dona Flor e seus Dois Maridos, um entendimento da figura feminina que elarepresentou na ficção modernista. Dona Flor é professora de culinária da escola Sabor & Arte.Observa-se aqui que o nome da escola Sabor & Arte se transforma malandramente notrocadilho saborear-te, já antecedendo o que narrador cria para a figura de Dona Flor.Logicamente, primeiro a arte da cozinha para posteriormente degustar o sabor proporcionadopela arte. Essa sequência lógica, no entanto, quebraria o jogo semântico para a aproximaçãoentre os personagens: a mulher cativa e seu esposo vadio. Viúva de Vadinho (um malandro), decide fechar-se para o amor, porém precisa desexo, e, ainda jovem e bonita, desperta a atenção do Teodoro (corretíssimo farmacêutico),com quem se casa. Contudo, Flor logo percebe uma enorme distância entre Vadinho(subtraindo-lhe o dígrafo no nome, obtém sua maior característica) e Teodoro (teo é o radicalindicativo de Deus, portanto, teríamos nesse personagem, o homem na essência desejada damulher, ao menos, em comportamento público). Com Vadinho tudo era loucura (prazer/insegurança), porém com Teodoro ela tinha o inverso, um sexo comportado e comedido, asquartas e aos sábados (melancolia/solidez). Flor vivia em meio a esse impasse: tinha a segurança, faltava-lhe, pois, a emoção.Subtende-se que a canalhice de Vadinho, sempre pronto a infernizar a vida dos outrosviventes, criava uma certa magia no seu existir que exalava vida, vida vivida em essência semsubtrações, ao contrário, multiplicada por todos perigos oferecidos pelos prazeres, impactou a 34
  • 35. vida de muitos e favoreceu a poucos. Então aparece num passe alegórico (em formafantasmagórica) para confundir/satisfazer Flor: – Você? – disse numa voz cálida mas sem surpresa, como se o estivesse esperando. No leito de ferro, nu como dona Flor o vira na tarde de domingo de carnaval quando os homens do necrotério trouxeram o corpo e o entregaram, estava Vadinho deitado, a la godaça, e sorrindo lhe acenou com a mão. Sorriu-lhe em resposta dona Flor, quem pode resistir à graça do perdido, àquela face de inocência e de cinismo, aos olhos de frete? Nem uma santa de igreja, quanto mais dona Flor, simples criatura. – Meu bem... – aquela voz querida, de preguiça e lenta. – Por que veio logo hoje? – perguntou dona Flor. – Porque você me chamou. E hoje me chamou tanto e tanto que eu vim... – como se dissesse ter sido o seu apelo tão insistente e intenso aponto de fundir os limites do possível e do impossível. – Pois aqui estou, meu bem, cheguei indagorinha... – e, semilevantando-se, lhe tomou da mão. Puxando-a para se, ele a beijou. Na face, porque ela fugiu com a boca: – Na boca, não. Não pode, seu maluco. – E por que não? Sentara-se dona Flor na borda do leito, Vadinho novamente se estendeu a La vontê, abrindo um pouco as pernas e exibindo tudo, aquelas proibidas (e formosas) indecências (AMADO, 2001, p. 310). O escritor de Dona Flor e Seus Dois Maridos expressa uma faceta da mulher baiana,que, apesar de ter moral, expressa a vontade de viver e de amar com liberdade o prazer dacarne. Assim, ao colocar Vadinho morto/fantasma diante de Flor que aceita se encontrar comele às “escondidas”, Amado acentua a ideia de que a mulher traz nas veias o dom dainfidelidade (insatisfação sexual). Flor passa a viver uma vida conjugal com dois amores, umtriângulo amoroso que revela o desmedido desejo de Flor (mulher brasileira). Aqui não serevela a questão do adultério, comum na literatura realista. Fixa no episódio a liberdade deviver da mulher que, assim como os homens, podem fazer escolhas. Embora o leitor possacaptar certa submissão de Flor às vontades das aparições de Vadinho, estaria ela seguindo asordens do falecido ou as suas próprias? –Você hoje vai dormir cedo, minha querida, ontem estava febril – recomendou o bom marido. Dona Flor tão satisfeita, de repente inteira e uniforme, não mais contraditória, dividida ao meio, em luta apenas o espírito e a matéria. Apenas um temor: se ele não voltasse, o seu primeiro? Se não voltasse? Mas ele veio, e apenas o doutor se foi para a farmácia (de capa e guarda- chuva, pois de novo aumentara o aguaceiro), eis dona Flor e Vadinho no leito de ferro, sobre o colchão de molas, a vadiar (AMADO, 2001, p. 386). 35
  • 36. Em decorrência dessas ideias, é pertinente destacar o pensamento de Da Matta (1997,p. 99), sobre o papel da dualidade vista como uma marca carnavalesca e que certamente oescritor modernista apoderou-se para representar seus personagens ficcionais. [...] o “triângulo ritual” aparece como algo inesperado justamente porque a seu lado corre um conjunto de interpretações “oficiais” do Brasil, todas marcadas pela fascinação com um dualismo, do tipo: exploradores/explorados; norte/sul; litoral/interior; preto/branco; Brasil moderno/ Brasil/arcaico; feudalismo/capitalismo; escravos/senhores; império/república; quando – na verdade – as vertentes interpretativas mais duradouras do cenário social brasileiro falavam (e ainda falam) em três elementos, tal e qual aprendemos na escola primária e na “vida”. Assim temos: céu/inferno/purgatório; preto/branco/mulato; preto/branco/índio; sim/não/mais ou menos; como se ao lado da visão dualística, uma perspectiva triangular ou triádica corresse oculta, inconscientemente, constituindo um discurso dos brasileiros sobre o Brasil que também é importante [...]. Ville (1996) chama a atenção para o fato de Jorge Amado servir-se da figurafeminina baiana / brasileira para vender uma imagem erótica da mulher brasileira, com odiscurso da ficção popular da Bahia. “[...] A prioridade em ressaltar os méritos culinários deDona Flor permite fazer surgir imagens/representações da mulher brasileira/ baiana,associadas aos liames cama/cozinha, ou melhor, mulher/ comida [...]”. Seguindo essa linha de raciocínio, salienta-se que, apesar de Jorge Amado apresentara imagem da mulher como mulher-comestível, seus defensores atribuem sua literatura comouma narrativa que representa o povão, e o que o povão espera é justamente este tipo dedescrição de mulheres sensuais e dispostas a servir seu homem. Jorge Amado ao escreverDona Flor e Seus Dois Maridos deu ao seu leitor a oportunidade de saborear a boa cama e amesa da mulher baiana. A literatura jorgeamadiana não se restringe a esse olhar pejorativo. Os estudosmulticulturais permitiram ampliação das discussões temáticas, aspecto que possibilitou lernarrativa como Dona Flor e seus Dois Maridos pelo lado também cultural. E a culturaparticularizada no espaço baiano de Jorge Amado consegue universalizar a visão construídasobre o ser mulher tão mediocramente descrita sem perfis valorativos. A escrita literária desseautor baiano transgrediu universos tradicionalistas e reverteu o símbolo de nação perfeita edesenhada por linhas muito bem aparelhadas que divergem da realidade minuciosa narradaspela mulher amada de Jorge. 36
  • 37. 3 MULHER SOB O OLHAR LITERÁRIO E SÍMBOLO DE NAÇÃO [...] determinada concepção e modelo de sociedade são colocados em discussão, com a finalidade de estabelecer o vínculo obrigatório entre a criação literária e a nação (Giselle Laguardia Valente). A escrita literária ao representar a realidade por meios de narrativas apoderou-se deconceitos patriarcalistas para apresentar/representar personagens femininos. A Mulher,expressão do sujeito encoberto, explorado, exposto do mundo pós-colonial, simboliza anação, objeto tão abstrato quanto o ser mulher – sujeito de essência mascarada socialmente.As ações idealizar, cobrir, explorar e expor manifestam-se sobre a mulher nesse mundo pós-colonial. A partir dessas colocações, salienta-se que mesmo que a literatura brasileira nãotenha sido largamente explanada à luz do pós-colonialismo, não há como negar que toda anossa literatura seja marcada pelo colonialismo. Examinando as narrativas literárias percebe-se que boa parte do discurso literário pós-colonial focalizou o papel feminino como sersubmisso à figura masculina, resquício herdado da cultura ocidental aos países colonizados eque perdurou por vários textos literários. O homem, neste contexto, foi convencido de umasuperioridade sobre as mulheres, passando a ter o direito e o controle sobre a vida feminina.Ele passa a assumir o papel da ordem e a mulher, da desordem. Neste caminho, observa-se que a ficção literária de autoria masculina dos séculosXIX e metade do século XX revela que essa produção fora baseada em comportamentos pré-estabelecidos pela sociedade, frente à figura feminina. Lucena (2003, p. 101) afirma que odiscurso literário representa/apresenta uma visão conservadora e discriminatória que engendraformas de silenciamento e exclusão frente à figura feminina. Desse ponto de vista dos temas revelam-se três grandes grupos: o da transgressão de comportamentos estabelecidos, que ocasiona a punição da mulher; o dos estereótipos e convenções de feminilidade, que vão desde a educação até o trabalho da mulher na sociedade, sempre enfatizando a passividade; e o terceiro, decorrente da estereotipia, calcado nos binômios do tipo cultura x natureza, atividade x passividade, inteligência x sensibilidade, em que o primeiro elemento, de valor positivo, considerado a norma, é atribuído ao homem, enquanto o segundo, o desvio negativo, caracteriza a mulher. 37
  • 38. O texto literário se constrói dentro do mundo ficcional, contudo, isso não impede queseus autores busquem inspiração na realidade vivida ou imaginária, haja vista a produçãoliterária do nosso país, que buscou como fonte inspiradora a figura feminina para representar /simbolizar o país no mundo literário. A mulher, como protagonista das narrativas foi descritaa partir de normas impostas por uma sociedade tradicional patriarcalista na qual o conceito demulher restringia-se à submissão ao homem. Na história do Brasil, a mulher sempre foi relegada a serviço do homem, ao silêncio,e/ou a objeto sexual, talvez isso se deva ao fato de o país ter herdado a cultura colonial. Nestecaminho, a literatura persistiu e muitas são as narrativas que representam através depersonagens femininos esta situação de mulher objeto. Com essas reflexões, é que procuro entender os romances Iracema (José de Alencar),O cortiço (Aluísio de Azevedo) e Dona Flor e Seus Dois Maridos (Jorge Amado) que, pormeio delas, procuram construir/mostrar uma nação em formação. Essas narrativas podem serconsideradas essenciais para explicar a sociedade de cada época e como essa nação foirepresentada. Iracema, Rita Baiana e Flor são personagens femininos que desenham a naçãoatravés de seus perfis. As narrativas analisadas de ângulos divergentes, da maneira em queutiliza a figura da mulher, porém são igualmente válidas na representação da sociedadebrasileira. Segundo Candido (2000), por meio da literatura, divergências nacionais foramexpostas, na medida em que os escritores pesquisaram o passado na busca de um símbolonacional, de um brasileiro nato. Possivelmente, foi em busca dessa raça “pura” que os autoresse nortearam e utilizaram o feminino como símbolo nacional. Em decorrência dessas questões, Brandão (2006, p. 33) salienta que a mulherrepresentada na literatura corre o risco de servir de fetiche masculino, presa a representaçõesviris, isso se deve ao efeito de leitura, que muitas vezes acaba por se tornar um estereótipo quecircula como verdade feminina. Porém, a literatura pode romper com essa ideologia/utopia,revelando-se como artifício do discurso histórico.3.1 Iracema: projeto de invenção nacional romântica Na tarefa de escolher um ponto de partida em direção ao progresso, os escritoresromânticos tinham que criar uma genealogia que lhe transmitisse um perfil de nação coesa,para firmar-se como soberana. Para consolidar-se como nacional, a literatura brasileira da 38
  • 39. época romântica criou uma imagem heroicizada do índio. Tarefa muito bem elaborada peloescritor José de Alencar. A literatura brasileira marca seu compromisso com o nacional e esseengajamento pode ser perfeitamente visto em Iracema, de José de Alencar. Como tarefa decriar um imaginário social sobre o Brasil, Alencar romantiza o contato do homem branco como índio e cria uma fábula perfeita ao processo de colonização do país. A partir do título, o autor evidencia o processo colonizador por que o país passara.Os nomes atribuídos aos personagens caracterizam valores: Iracema, que nada mais é do queum anagrama a palavra América, e Martim que remete ao deus romano Marte, o deus daguerra e da destruição. Neste enfoque vale destacar que a junção de Iracema e Martimresultou no mestiço Moacir (filho da dor). Iracema vai-se esculpindo em meio à naturezabrasileira e tudo gira ao seu redor. A nação se descortina pela escrita inventariosa de Alencarque põe em discussão a questão eticorracial em um dado contexto, principalmente, no que dizrespeito à raça branca e ao índio. Sobre isso, Brait (1985, p. 34) ressalta que: A personagem Iracema, desde o nome – lábios de mel, de ira, na língua tupi, ou reverberação de América – até as ilações possíveis com a matriz do Novo Mundo – ela é mãe de Moacir, cujo pai é o branco Martim, ela é a selvagem penetrada pelo colonizador, ela morre e deixa um filho mestiço como sobrevivente e primeiro de uma raça partida marcada pelo sofrimento [...]. José de Alencar recorre, para a construção dessa personagem, à exuberância danatureza brasileira (virgem e exótica) pronta a ser explorada pelo colonizador. Sua belezaprovém exatamente dessa comparação superior à natureza que, aos olhos dos europeus(colonizadores), surge como um ser exótico (mulher). A beleza superior e notável de Iracemapode ser confrontada a beleza da América ao ser vislumbrada pelos colonizadores. Iracemafoi descrita como a terra brasileira virgem, cheia de tesouros naturais e fonte de desejo. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado (ALENCAR, 1991, p. 20). Nesta narrativa, acentua-se a visão de um paraíso terrestre e tropical, que despertadesejo e interesse dos europeus frente à terra descoberta. Desta forma, a beleza exótica deIracema despertava a cobiça do homem branco (Martim). Este poder que Iracema/terra possui 39
  • 40. é carregado de ideologia frente à figura feminina romântica que traz nas veias a passividade,assim como o encontro entre essas duas raças e inclusive os segredos: a terra brasilis possuíamistérios a serem desvendados pelos brancos com a ajuda dos índios, se assim o quisessem;por sua vez, Iracema possuía o segredo da jurema que pertencia à sua tribo (terra) e entregou-a ao branco assim como se conhece a história entre colonizadores e nativos. Alencar conciliouperfeitamente duas culturas e dois povos distintos para formar o povo brasileiro. Miranda (2010, p. 32) destaca que o autor de Iracema exagera nas comparações feitasem toda a narrativa frente à figura feminina. Segundo ele esta narrativa sintetiza de maneiraidealizada a forma como ocorreu à união dessas raças, “o branco, os índios e a mulher seabraçam”. Entretanto, sabe-se que a abundância de adjetivos e a inocência pueril são comunsna escrita romântica, nesse caso, o exagero do autor retrata seu momento artístico. Iracema metaforiza a nação, a junção de duas culturas, dois povos, um abre mão desua tribo (terra) para dar vez ao estrangeiro. Iracema acompanha Martim. Durante algumtempo, eles são muito felizes, e a alegria se completa com a gravidez de Iracema. Porém,Martim se cansa da mudança de vida para esta felicidade e seu interesse pela esposa comcostumes diversos dos seus começa a se perder. Iracema percebe a frieza do marido e sofre.Martim se ausenta com frequência em busca de caçadas e batalhas contra inimigos dospitiguaras. A personagem, deslocada de sua tribo para o litoral, começa a ‘‘morrer’’. Enquantoguerreia, nasce seu filho, Moacir: “– Tu és Moacir, nascido do meu sofrimento” (ALENCAR,1991, p. 82). Solitária e saudosa, Iracema tem dificuldade para amamentar o filho e quase nãocome. Martim fica longe de Iracema por oito luas e, quando volta, encontra-a a beira damorte. Segundo Helena (2001, p. 15), a lição que o Romantismo de Alencar parece emitir éa de que o recolhimento no território da intimidade dá vazão a uma solidão intencionalmenteconstruída. Fechar-se para o mundo e abrir para a extrema intimidade do eu é uma forma,retomada pelos personagens românticos de contornar o peso insuportável que passa a custar àvida em sociedade. Voltar-se para dentro de si passa a ser não um meio, mas um fim. Assim, apersonagem de Iracema pode ser vista como a terra, que em sua singularidade se vê obrigadaa morrer para dar vida a outras vidas. Pereira (2000, p. 50) salienta que dentro dessa narrativa, outra leitura pode ser feitano papel desempenhado por Iracema ao submeter-se ao véu romântico, que quebra as regraspor esse amor incondicional. 40
  • 41. Outro caminho de leitura a percorrer e o que aponta convergência dos diversos elementos da trama em função do amor e da maternidade de Iracema como algo absoluto – um verdadeiro ato inaugural, se sobrepondo até mesmos aos valores sagrados da índia que, embora guardiã do segredo da jurema, usa desse alucinógeno para seduzir Martim. Brandão (2006, p. 88) destaca que enchendo a mulher de palavras ou capturando apalavra feminina, o homem ocupa todos os espaços, todos os vazios. As mulheres plenasacabam-se esvaziando pela morte. Ele ressalta ainda que as mulheres alencarianas vão sofrercom uma estranha gravidez, simbolizando o corpo feminino, como espaço da morte ou davida, do túmulo ou do vazio ou da plenitude, da castração ou da recusa. Miranda (2010, p. 33) chama a atenção para o nascimento de Moacir, “filho da dor”depois da longa ausência de Martim, quando a personagem feminina é condenada à morte. Amaternidade se realiza como um desnarrativamento da força primitiva que a natureza dispõe,possibilitando tanto a vida como a morte. Assim Iracema entrega o filho a Martim, deita-se narede e morre consumida pela dor: “Tudo passa sobre a terra” (ALENCAR, 1991, p.89).Começa a colonização e a narrativa termina. Com seu projeto de invenção do Brasil, o autor procurou a interiorização da essênciadas terras brasileiras e viu na figura indígena o princípio de sua história e formação nacional.Segundo Pereira (2000, p. 51), no nível de fábula, a raça indígena foi sacrificada peloprocesso de colonização, contudo, em termos poéticos, manteve-se viva à força da narrativaliterária sempre pronta a povoar o imaginário do país. Essa narrativa recebeu elogios do crítico literário Machado de Assis. Segundo ele olivro é escrito com sentimento e consciência. Tal é o livro do Sr. José de Alencar, fruto de estudo e da meditação, escrito com sentimento e consciência... Há de viver este livro, tem em si as forças que resistem ao tempo, e dão plena fiança do futuro [...]. Espera-se dele outros poemas em prosa. Poema lhe chamamos a este, se curar de saber se é antes uma lenda se um romance. O futuro chama-lhe narrativa-prima (ASSIS, 1959, p. 27 ). Perrone-Moiséis (2007, p. 34) alerta que o encontro (ou enfrentamento) dacivilização com a barbárie foi alegorizado por numerosos romancistas, entre os quais sedestaca o brasileiro José de Alencar, com Iracema. A narrativa propõe aos brasileiros oestímulo em amar a terra e em orgulhar-se da nacionalidade brasileira. Sem dúvida, Alencarsempre foi um defensor apaixonado pelo romance nacional uma das bases em que se 41
  • 42. fundamentou a ideologia indianista. O indianismo apresentava uma imagem positiva do povobrasileiro: o amor a terra e a valorização da comunidade.3.2 Rita Baiana: o caso e o descaso de uma nação O nacionalismo de origem romântica perdeu força face à gênese de um projeto maisrealista e menos restrito às fronteiras nacionais. Agora, a América deixa de ser uma fábula,ligada à exaltação da natureza e do bom selvagem, para ser vista como uma realidadeburguesa política e, economicamente, complexa, que busca se adequar ao novo quadro dopaís. Os escritores brasileiros começam a retratar o país por meios das narrativas literárias.Não se olha mais para os índios, porque o ideal para o progresso civilizatório é a construçãoda cidade. O fenômeno da valorização da cidade se reproduz em narrativas brasileiras, entreelas O cortiço, narrativa que caracteriza a realidade urbana do Rio de Janeiro. Como o próprio título indica essa narrativa mostra as camadas populares quepassaram a circular no país. Aluísio de Azevedo descreve a construção da identidade nacional,por meio da fusão de culturas (brasileiras/estrangeiras). Essa junção resultaria em novoshábitos praticados pelo povo brasileiro. O autor procura focalizar a residência coletiva que opaís passaria a adotar como meio de receber o grande contingente estrangeiro na formaçãocapital do império brasileiro. A narrativa em questão consiste em desnudar a realidade, demonstra as mazelashumanas e sociais que o país enfrenta, neste momento de afirmação nacional. Pesavento(1988, p. 28) esclarece essa tendência do escritor naturalista era adequada para o momento emque o país recebia os egressos da senzala, os caboclos nacionais e os imigrantes europeus nonovo mercado de trabalho. Com os óculos do realismo que Azevedo escreveu O cortiço, como uma forma demostrar o verdadeiro Brasil. Neijar (2011) salienta que, Aluísio de Azevedo põe a facaimpiedosa na hipocrisia, câncer social de todos os tempos. Sugere uma sociedade mais justa emais humana, por meio da apresentação dos tipos que passam a circular a sociedade urbana. Para Monteiro (2002), O cortiço representava a atual sociedade carioca, a cidade emum surto de expansão/crescimento que travava em si contrastes flagrantes das construçõesmuitas das vezes de péssima qualidade e/ou a propagação dos cortiços, num processodeficiente de urbanização. 42
  • 43. Coutinho (2004) afirma que, O cortiço pode ser visto como o melhor romance queretrata o aglomerado brasileiro. Livro singular, pela força da narrativa, pelo choque dos tiposem contraste e pela numerosidade das figuras. Essa narrativa foi produzida sem os exagerosda ciência e soube conciliar arte e polêmica. No romance, o autor relata a vida promíscua dos diversos moradores da habitaçãocoletiva, ressaltando o poder que o mais forte exerce sobre o fraco. Aqui os indivíduos seanimalizam sob domínio do sexo/dinheiro (prazer/ganância). O cortiço tem caráterdocumental ao mostrar a sociedade carioca em processo de fusão de raças, que resultaria emnovos hábitos na formação da identidade nacional. A engrenagem dessa narrativa é Rita Baiana, moradora do submundo do cortiço. Elaé representada na narrativa como uma desavergonhada que proporciona os elementos pararepresentar a exploração da mulher (nação) dentro do naturalismo. Porém outros personagenssão essencialmente importantes para mostrar o processo de mutação/aculturação dentro dessenovo Brasil. Apesar de meu interesse de estudo ser a figura de Rita Baiana, não posso deixar depincelar o personagem criador do cortiço, enquanto moradia. João Romão é apresentado nanarrativa como o imigrante português (explorador) que veio para o país dos trópicos em buscade riqueza. Ele é o português ganancioso que, na busca por conseguir fortuna e prestígio,abusa de seu corpo físico no trabalho braçal, comete pequenos roubos além de explorar seusempregados, especialmente Bertozela, “ex-escrava”, criada e amante para alcançar essesobjetivos. De volta à Rita, ela aparece com excesso de sensualidade (fartura), o que nos fazpensa - lá como a representante da abundância da natureza brasileira, que agora despertaoutros interesses comerciais, ou novas explorações: Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva, que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a narrativa verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhado-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da 43
  • 44. Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca (AZEVEDO, 1998, p. 73). A figura de Rita está associada à transformação ocorrida na vida de Jerônimo. Aprincípio, ele aparece como um homem honesto, ajuizado, caráter invejável, cordial,trabalhador, de uma simplicidade contagiante. Porém, ao chegar ao cortiço com essasqualidades, chama a atenção da mulata Rita que, mesmo sendo comprometida com Firmo(malandro/valentão), faz questão de mudar de classe e investe em Jerônimo que, apesar depertencer à plebe portuguesa continua superior como homem branco. [...] mas desde que Jerônimo propendeu para ela, fascinando-a com sua tranquila seriedade de animal bom e forte, o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior [...] (AZEVEDO, 1998, p. 151). Ao chegar e se instalar no cortiço, Jerônimo mostrava-se feliz com a família, apesarde sofrer com saudade da terra natal. Porém, após conhecer Rita Baiana, uma mulata sensual,transforma-se, perde suas qualidades, abandona esposa e filha e rende-se aos encantos damulata brasileira. Enxergamos a mulher por esse ângulo, a figura de um perigo para a sociedade. Rita émaleficamente sedutora seu corpo possui algo estranho, animalesco, que desperta tentação ediscórdia. A figura de Rita, é inferiorizada e subjugada pela sociedade, ela oprime e seduz oshomens e, mesmo assim, consegue glória e alcança seus objetivos. Sobre isso Brandão (2006)ressalta que o papel das mulheres nas culturas é contraditório e ambíguo, pois estudosantropológicos mostraram que elas se incluem conforme as regras estabelecidas pelocasamento e se excluem pelas regras que as associam aos ciclos e às perturbações da naturezahumana. São esposas e mães (ordem) e total paradoxo quando o assunto são perturbaçõesnaturais (desordem). Aqui, dentro da perspectiva de nação, a ordem representa a passividadedo povo, frente aos critérios impostos pelos estrangeiros, no entanto a desordem seria aquebra das imposições, adotar ou seguir outros caminhos sem uma direção certa. Figura singular, extraordinária e perigosa (nação), Rita Baiana, independente erebelde critica até as instituições do casamento (ordem); para ela, casamento é cativeiro, amulher, ao se casar (desordem), não se domina mais, torna-se escrava do marido. E assim, elaprossegue sua trajetória sem se ligar ao casamento, porém, em busca da desordem na vidaalheia (Piedade/Jerônimo) para conseguir o amante que queria. 44
  • 45. Rita (nação), tão desejável quanto fascinante, surgia na vida de Jerônimo como umelemento de transformação/transculturação5, ele se encantara com os maneios da mestiça eagora se rendia a ela, no processo de transculturação, incorpora a cultura brasileira sem deixartotalmente de lado a sua cultura, na formação da identidade nacional. Jerônimo tornara-se umhomem preguiçoso, com a desculpa de que aqui o sol era quente demais para certos trabalhos,estereótipo que perdurou no povo brasileiro, os trópicos serviam para a curtição. E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os hábitos singelos de aldeão português: Jerônimo abrasileirou-se. A sua casa perdeu aquele ar sombrio e concentrado que a entristecia. [...] Jerônimo principiou a achar graça no cheiro do fumo e não tardou a fumar também com os amigos. E o curioso é que quanto mais ele ia caindo nos usos e costumes brasileiros, tanto mais os seus sentidos se apuravam, posto que em detrimento das suas forças físicas. Tinha agora o ouvido menos grosseiro para a música, compreendia até as intenções poéticas dos sertanejos, quando cantam à viola os seus amores infelizes; [...] (AZEVEDO, 1998, p. 86). Para Monteiro (2002, p. 52), O cortiço mostra perfeitamente a sociedade do Rio deJaneiro em um processo de urbanização, que passava a ter/receber as classes marginalizadas eAluízio de Azevedo com uma crítica severa retratar as mazelas e os problemas sócias que opaís passava a ter. O cortiço revela a heterogeneidade da população. Imigrantes europeus mesclam-se a uma maioria de mestiços brasileiros de várias procedências. Lavadeiras, policiais, artesãos e artíficies mesclam-se á malta de malandros, capoeiras e mantêm na sua vida de relações, uma estremeada teia com comerciantes, fazendeiros, cocottes francesas e mulheres que fazem má vida (na Rua de São João). O romance exibe pois uma mescla de população que já se distancia de certo modo de uma atividade rural, profundamente marcada pela monocultura cafeeira, e já prinpicia um caráter indisfarçavelmente amorfo, aquilo que viria a se constituir no proletariado urbano. Ao escrever O cortiço, Aluísio de Azevedo, propôs uma literarura focada naformação da identidade nacional em um processo de misturas de raças, (estrangeiros /mestiços). Essa mistura resultaria no caratér do povo brasileiro. A narrativa pois, satirizou a5 “Entendemos que el vocablo transculturación expresa mejor las diferentes fases del proceso transitivo de unacultura a otra, porque éste no consiste solamente en adquirir una cultura, que es lo que a rigor indica la vozanglo-americana aculturación, sino que el proceso implica también necesariamente la perdida o el desarraigo deuna cultura precedente, lo que pudiera decirse una parcial desculturación, y, además, significa la consiguientecreación de nuevos fenómenos culturales que pudieran denominarse neoculturación” (ORTIZ, s/d, p. 5-6). 45
  • 46. sociedade brasileira, mostrando o poder que o mais forte exerce sobre o fraco e a influênciaque o indivíduo recebe de seu meio na formação/transformação de seu caráter. Neijar (2011, p. 273) elogia O cortiço, ressaltando que a escrita de Azevedo é dura,escorreita, com agudeza do fio da lâmina, desfiando as alienações de uma sociedadeapodrecida e ilusória. É escrita que sabe doer e se apropriar do sofrimento coletivo. Com base nessas colocações, observo que Rita Baiana pode ser vista como a nação,possuía a abundância / caos dessa sociedade em processo de transformação. Seu dote físico,caráter e astúcia, são peças essenciais para a transformação / feição do imigrante nessemomento de exploração. Rita reproduz e reflete as mudanças sociais da nação, agora o paísoferece (riquezas), mas em troca quer receber sua parte, à qual tem direito.3.3 FLOR: a nacionalidade jorgeamadeana projetada em ícone identitário [...] Qualquer processo de construção identitária é um embate entre elementos recorrentes de um repertório cultural e novos valores ou práticas, que passam a fazer sentido e se tornam estratégicos em novos contextos históricos (Ilana Seltzer Goldstein). A realidade nacional agora é outra, e a releitura do Brasil guiava-se na diversidade,na valorização do outro para alcançar a nacionalidade. Nasce uma literatura que dialoga com anão ficção e Jorge Amado é representante dessa literatura, em busca da unidade nação. Assim,surgiu Dona Flor como uma forma de mostrar a sociedade brasileira no seu novo momento. Essa narrativa começa com um bilhete de Dona Flor a Jorge Amado. O autor insinuaque a história é verídica, desperta no leitor a curiosidade por tratar-se de um fato“verdadeiro”. Foi trilhando esse caminho entre a verdade e a mentira que Amado retratouFlor. Dona Flor é filha de Dona Rosilda, que sonha em casar a filha com um homem rico, fazo impossível para a filha ingressar na sociedade burguesa, e foi em uma destas tentativas queFlor conheceu Vadinho. Flor estava com a mãe em uma festa “chique” e lá conhece Vadinho, que seapresentou como um cidadão poderoso do governo encanta Dona Rosilda, que logo dá abenção para o casamento. Porém, mais tarde, Vadinho mostra sua verdadeira identidade(malandro / esperto / jogador), uma grande decepção para a mãe de Flor, mas isso não muda o 46
  • 47. interesse de Flor por Vadinho, que se casa com o malandro sem a benção da mãe e leva umavida de prazer e incerteza. Em pleno carnaval da Bahia, Vadinho, fantasiado de baiana, morre e deixa Flor, umaviúva jovem e triste. O tempo passa e Flor se conforma com a falta de Vadinho, mas decidefechar-se para outros amores, continuar sua vida dando aulas na escola Sabor e Arte. Flor,passa seu tempo para as aulas de culinária, mas à noite chega e os sonhos a perturbam, elabusca explicação para suas inquietações com as amigas, e Dona norma da-lhe umdiagnosticou, para suas perturbações: – Isso é falta de homem, minha santa. Você é moça, não sofre de doença grave, não é capada que eu saiba, que é que está querendo? Mesmo as freiras se casam para suportar a castidade, se casam com Cristo, e ainda assim tem umas que botam chifres em Jesus – e, sorrindo ao recordar [...] (AMADO, 2001, p. 214). Flor escuta as amigas e decide se abrir para outro casamento, logo surgempretendentes, mas ela opta pelo respeitado doutor Teodoro, que passa a frequentar sua casa,com o mais absoluto respeito, noivos e cercados de amigos, logo resolvem casar. O segundo casamento de Flor consuma-se na maior tranquilidade, com a benção damãe e a felicidade de todos os amigos, Flor passa a viver sua nova vida conjugal. Teodoro(honesto / respeitador) é bem diferente de Vadinho. Representa a tranquilidade para a vida daesposa. No tempo de Vadinho, Flor pagava as contas da casa, inclusive o aluguel, comTeodoro a situação é outra; ele é sócio de uma conceituada drogaria, tem boa condiçãofinanceira e pretende comprar a casa que mora, mas seu dinheiro está comprometido com ocomércio e pela honestidade de Teodoro, ele logo encontra um fiador. [...] O banqueiro considerou o boticário, tipo honesto, cheio de escrúpulos, incapaz de lesar quem quer que fosse. Não era homem para correr o risco de operação bancária sem a certeza de absoluta cobertura – doutor Teodoro não jogava nunca. Sorriu Celestino: como a vida era surpreendente! Aquela mansa Flor, tímida presença e de tempero insuperável, tomara em casamento dois homens mais oposto, um o contrário do outro. Imaginou-se oferecendo dinheiro emprestado a Vadinho, como agora fazia ao drogarista. As mãos nervosas do rapaz tomariam da caneta e firmariam quanto papel pusessem em sua frente, desde que tais assinaturas lhe rendessem uns mil-réis para a roleta. [...] (AMADO, 2001, p. 330-331). 47
  • 48. Flor vivia feliz ao lado do metódico Teodoro, mas essa felicidade não se acentuavaem tudo, ele lhe oferecia segurança, porém lhe faltava à emoção com que vivia com Vadinho.Em meio a essa “felicidade”, Teodoro faz uma música em homenagem a Flor e toca-a na festade aniversário de casamento. Neste dia Flor teve outro presente, ao entrar no quarto: encontrou Vadinho (morto)nu em cima de sua cama. Esse episódio marca o começo de um dilema na vida de Flor, e elapassa a conviver com seus dois amores. A princípio, Flor é representada como uma mulher deinata decência, e não quer se render a tentação de trair Teodoro com o espirito imaterial deVadinho. Quando o doutor chegou par a janta, dona Flor se reintregara por completo em sua inata decência e ainda mais fortalecera a decisão de manter-se digna do marido, preservando-lhe sem mácula o nome e o conceito, e límpida a fronte onde fulgiam idéias, fervilhavam conhecimentos. “jamais mancharei o nome que me ofereceste, nem plantarei cornos em tua testa: antes prefiro morrer” (AMADO, 2001, p. 328). Apesar da resistência de Flor – essa aversão de Flor denota a rejeição que a naçãoteve em aceitar as diferenças –, Vadinho continuava a investir, a cada dia torna-se maisatrevido disposto a tenta - lá; ela tenta resistir, encomenda um trabalho (macumba) para quelevem Vadinho de volta ao mundo dos mortos. Nesse momento, a resistência é dele; faz uma reviravolta na Bahia, visitando osamigos e perseguindo os desafetos do jogo. De tanto insistir, Vadinho convence Flor de queeles não irão trair afinal ele é seu primeiro marido: “O amaldiçoado tinhas falas de açúcar,lábia fina, lógica e retórica, sabia os argumentos capazes de confundi-la e sua voz era umacalento: – Meu bem, não foi para dormir juntos que a gente se casou? – E então?” (AMADO,2001, p. 342). E, desta forma convenceu Flor, esclarecendo que ela só seria feliz com os seusdois amores, Vadinho e Teodoro. “E aqui se dá por finda a história de dona Flor e seus doismaridos, descrita em seus detalhes e em seus mistérios, clara e obscura como a vida”(AMADO, 2001, p. 397). Durante a leitura de Dona Flor e Seus Dois Maridos, logo reconhecemos um fortesabor regional devido à caracterização das personagens no entorno/centro da Bahia. Flor édescrita como uma mulher de temperamento forte, de traços mestiços, um tipo espontâneo,mulher sem preconceito, aproximava da mulher brasileira padrão, tudo na medida certa. Ela 48
  • 49. representa a nação por meio de seu povo, ritos, mitos e muita magia, o ideal da baianidade eda brasilidade. Pellegrini (1999) destaca que as melhores personagens de Jorge Amado, sempreforam às femininas, talvez porque encontre nelas um melhor material para narração, porqueseu corpo e sexualidade podem ser explorados /comparados ou porque ali estão associalmente oprimidas, e que serão mais aceitas pelo público masculino dominante, mastambém ressalta que, Amado não pode deixar de ser visto como o maior contador de histórias,que mostrou o descompasso da cultura brasileira. Essas colocações de Pellegrini, confirma que alguns críticos literários, observa anarrativa com certo preconceito, julga personagens / autor sem levar em consideração ocontexto da narrativa ficcional. Assim, entende-se porque muitos leitores “leigos”, enxergama narrativa impregnada de preconceitos, contribuindo para a formação de estereótipos frenteàs personagens femininas. Blanco (aput MATOS, 2004) enfatiza que a produção amadiana é a que melhordefine a alma popular brasileira, a alegria e a dor do povo são traduzidas por seus fantásticospersonagens, especialmente os femininos. Observe que nessas colocações de Blanco, Florpode ser o exemplo mais vivo dessa alegoria de Amado, ela foi à nação. Persiste nestediscurso Araujo (2008, p. 86): o romance de Jorge Amado estiliza a pobreza feliz, vê classes,não individualidades, alegoriza na mulher o sexo, traz uma moral implícita guiando os passosda ficção, usa de complacência para com os vícios, deformações dos pobres, além de valer-sedo candomblé para explicar personagens (boa ou má) e para mostrar que a herança africanapermaneceu na cultura branca. Assim, por meio de uma vasta galeria de personagens, mulheres sensuais e homensviris em meio ao sobrenatural aconteceu a literatura de Jorge Amado que soube representar aunidade nação por meio da mestiçagem. A mestiçagem é resposta identitária à formaçãocultural e étnica da Bahia, e por extensão no país. A representação da identidade nacional mestiça, festiva, popular, cordial e com o “jeitinho brasileiro” como modo de sociabilidade dileto da qual um dos criadores é Jorge Amado nada mais é que um recorte parcial da sociedade e da história brasileira (Ilana Seltzer Goldstein, s/d). Como se pode ver Amado não era um nacionalista xenófobo, reconhecia que nossopaís necessitava reconhecer nas outras culturas (estrangeiras), a formação do povo brasileiro, 49
  • 50. mestiço (raça/caráter). Segundo Piñon (2011), Amado sabia captar os ruídos populares,traduzia-os por meio de lamentos amorosos de seus personagens a aventura humana, oinstinto do povo brasileiro. Sem dúvida, Flor foi uma perfeita fábula da sociedade brasileira,só está completa quando possui os dois lados de uma mesma moeda, lícito (Teodoro) e ilícito(Vadinho) para alcançar a felicidade. Ao discorrer sobre Jorge Amado, Alves (2007) faz questão de mostrar a importânciado escritor para a construção da nacionalidade. Amado, crítica acidamente a moralidadehipócrita das práticas burguesas em relação a comportamento, ele deixa falar personagens declasses altas e baixas para representar e configurar o choque cultural, o choque de duasculturas. Assim, é narrado o hibridismo cultural do país. A partir dessas colocações, observo que Jorge Amado, com sabedoria contou/montoua nação brasileira, reconheceu por meio da ficção as contradições sociais, e celebrou adiversidade, além de abrir caminho para a reversão dos estereótipos e preconceitos diante dasclasses/tipos populares. Flor com sua simplicidade/gênio forte, harmonizou a nação, mostrouque essa nação não se fazia apenas da ordem, existia a desordem (bem / mau) uma luta social,que precisava estabilizar-se, para encontrar a harmonia. Desta forma, Flor (nação) precisou depersonalidades distintas Vadinho (desordem) e Teodoro (ordem) para alcançar o equilíbrio danação brasileira. 50
  • 51. CONCLUSÃO O novo papel desempenhado pelas mulheres na sociedade contemporânea tem suaorigem no passado. O século XIX contribui para as mudanças sociais, principalmente, no quediz respeito à condição feminina. Assim, por meio das narrativas as mulheres aparecem efornecem imagem do país e do povo brasileiro. As narrativas Iracema (José de Alencar), O cortiço (Aluísio de Azevedo) e DonaFlor e Seus Dois Maridos (Jorge Amado) traçam perfis femininos diferenciados pararepresentar através das personagens femininas a nação brasileira. Em Iracema, a personagem representou uma mulher (povo) passiva, diante daexploração do país, uma nação explorada pelo estrangeiro. Em O cortiço, a personagem RitaBaiana apresentou outra face da mulher, ela se posicionou na ruptura do sujeito passivo frenteà exploração e soube impor ao explorador (imigrante) que adotasse / incorporasse outracultura, a do Brasil. Por fim, Dona Flor e Seus Dois Maridos, trouxe à tona a dualidadefeminina (povo), tradição / ruptura dos costumes e procura mostrar por meio de Flor, oselementos que norteiam o país para formar a pluralidade nacional. As personagens em análise percorreram caminhos distintos em busca da identidadenacional. Observa-se que, apesar de todas buscarem / representarem a nação, cada uma, trilhaseu caminho, incorpora o momento histórico e busca adequação de seu papel aos padrões dopaís reservados à mulher / nação. Colocadas tais pontuações, entende que a literatura tem a capacidade de mostrar aopovo, por meio da ficção, os seus comportamentos, a fim de contribuir para mudanças ouentendimento da postura humana e convoca-nos a repensar nossas verdades. Deste modo, aanálise dessas narrativas, nos permite refletir sobre o passado para um entendimento dopresente, autoriza-nos a indagar sobre quem somos e de onde viemos. Alerta, ainda, para adiferença das culturas e esclarece que o pluralismo é a marca maior do povo brasileiro. Os elementos literários apresentados revelam que o Brasil é um país construído pormúltiplas culturas / diferenças e são facilmente encontradas em todo o povo brasileiro. Semdúvida, essa mistura cultural, formou a imagem do Brasil, como um país multicultural, quesabe reconhecer e aceitar a diversidade, o outro, entender a diferença, desfilar nos jogosidentidade / alteridade. Espero que esse trabalho supere a minha expectativa por (des)contruir o papeldesempenhado pelas figuras femininas como imagem da nação. Por meio dele, pude 51
  • 52. compreender como esse processo se deu/dá na literatura brasileira, e seu desfecho esclareceque a gênese do país tem que lidar sem os preceitos e preconceitos impostos às narrativasliterárias. Os indícios linguísticos e literários marcados por estilos de épocas diferentesproporcionaram a comparação de narrativas de nação pelo perfil feminino de ser e pelaresignação, indignação de se esperar o silêncio de uma boca cansada de calar e de umapersonalidade desiste de esperar e obedecer. Dos conceitos de nação trazidos por Anderson(comunidade imaginada) e por Bhabha (narração), pode-se extrair a concretude dentro dessesprocessos verossímeis de realidade para sentir a essência de nação construir pelo imaginárionarrado e concebido pelos comportamentos humanos ora convencionados ora transgressores. A imagem fotografada dessa nação por escritores de visões de suascontemporaneidades encena o Brasil de época a (des)obedecer desafios e estreitar laços com oestrangeiro. A brasilidade aflorada seja pela inocência seja pelo amadurecimento seja pelosdois ao mesmo tempo marcam a nacionalidade que se nega individualizada e unilateral. Os(des)caminhos femininos trilharam por lugares e tempos decisivos para a construção de nação,embora metaforicamente desenhada para se inventar o lugar e seu povo. O panorama descortinado nesse estudo mostra no primitivismo de Iracema, namestiçagem de Rita Baiana e a ruptura modernista de Flor a intensa discussão acerca denacionalidade. A nação se construira ora, pois pelos percursos do interior ou do exterior dopaís e, com o período modernista, interior e exterior entram antropofagicamente, parareconhecimento de uma nacionalidade coletiva e plural. A partir dessas considerações, observo que esse estudo será significativo para acompreensão sobre formação da identidade nacional/cultural do nosso país, onde a figurafeminina recebe relevância, além de ser um trabalho que proporcionará a reflexão sobre aatual nação brasileira e sua formação. Diante dessa realidade, ressalto a relevância do estudopara a universidade, visto que a temática identidade direciona no interior das academiasalguns estudos. Creio, portanto, que a pesquisa sobre nação/identidade centrada empersonagens femininas de épocas distintas provoque reflexão sobre “nossas verdades” econstrua mais uma parte do mosaico de estudos sobre nacionalidade focalizada à luz dametáfora mulher/nação. 52
  • 53. REFERÊNCIASAIRES, Eliana Gabriel. A mulher e a literatura: o poder da palavra. Anais do XIVSeminário Nacional Mulher e Literatura_ / V Seminário Internacional Mulher e Literatura.Disponível em: <http://www.telunb.com.br/mulhereliteratura/anais/wp-content/uploads/2012/01/eliana_gabriel.pdf>. Acesso em: dezembro de 2011.ALENCAR, José de. Iracema. 24 ed. São Paulo: Ática, 1991.ALVES, Ivia. Leituras Amadianas. Salvador: Quarteto, 2007.AMADO, Jorge. Dona Flor e seus dois maridos. 52 ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e a expansãodo nacionalismo. Lisboa: 70, 2005.ARAUJO, Jorge de Souza. Florações de Imaginários: o romance baiano no século 20.Itabuna/Ilheus: Via litterarum, 2008.ASSIS, Machado de. Instinto de nacionalidade. In: Machado de Assis: crítica, notícia daatual literatura brasileira. São Paulo: Agir, 1959.AZEVEDO, Aluízio. O cortiço. São Paulo: Ática, 1998.BERND, Zilá. Literatura e identidade nacional. 2 ed. Porto Alegre, 2003.BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada. 172 ed. Tradução portuguesa da versão francesa dosoriginais grego, hebraico e aramaico traduzido pelos monges beneditinos de Maredsous(Bélgica). São Paulo: Ave-Maria, 2007.BLACO, Rosa Helena. Estampa de Letra: literatura, lingüística e outras linguagens- ensaios.Salvador: Quarteto, 2004.BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994.BRAIT, Beth. A personagem. São Paulo: Ática, 1985.BRANDÃO, Ruth Silviano. Mulher ao pé da letra: A personagem feminina na literatura.Belo Horizonte: UFMG, 2006.CÂNDIDO, Antônio. Formação da Literatura Brasileira. 7 ed. São Paulo: Itatiaia, 1993.CEIA, Carlos. Alteridade. In: Dicionário eletrônico de termos literários. Disponível em:<http://www.edtl.com.pt/index.php?option=com_mtree&task=viewlink&link_id=541&Itemid=2>. Acessado em: 22/03/2011.COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. 7 ed. São Paulo: global, 2004. 53
  • 54. DA MATTA, Roberto. Mulher – Dona Flor e seus dois maridos: um romance relacional. In:A casa & a rua. 5 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.DEBRUN, Michel. A identidade nacional brasileira. Estudos avançados. vol. 4; nº 8. SãoPaulo, Jan./Apr. 1990. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141990000100004>.Acessado em: dezembro de 2011.FIGUEIREDO, Eurídice (Org.). Conceito de literatura e cultura. Juiz de Fora, UFJF, 2005.GOLDSTEIN, Ilana Seltzer. A construção da identidade nacional nos romances de JorgeAmado. In: Jorge Amado: caderno de leituras. Disponível em:<http://www.jorgeamado.com.br/professores2/06.pdf>. Acessado em: 01/09/2011.HALL, Stuart: A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução Tadeu da Silva eGuaracira Lopes Louro. 8 ed. Rio de Janeiro, 2003.HANNER, June Edilh. Emancipação do Sexo Feminino: a luta pelos direitos da mulher noBrasil. Florianópolis. Edunisc, 2003.HELENA, Lucia. Identidades em curso: José de Alencar e a hipótese Brasil. In: Légua emeia: Revista de literatura e diversidade cultural. Programa de Pós-graduação em Literatura eDiversidade Cultural. Feira de Santana: UEFS, nº 01, 2001-2.KOTHE, Flávio R. O cânone imperial. Brasília: Universidade de Brasília, 2000.LUCENA-GHILARD, Maria Inês. Representações do Feminino. Campinas: Átomo, 2003.LOPES, Liliana Cabral (Org.). Para além da identidade: fluxos, movimentos e trânsitos.Belo Horizonte: UFMG, 2010.MENDES, Leonardo. Rita Baiana: nação e sexualidade em O cortiço. In: Revista Língua &Literatura. Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões. Disponível em:<http://www.fw.uri.br/publicacoes/linguaeliteratura/artigos/n8_2.pdf>. Acessado em:01/09/2011.MIRANDA, Wander Melo. Nações Literárias. Cotia: Ateliê, 2010.MONTEIRO, Carlos Augusto de Figueiredo. O mapa e a trama: ensaios sobre o conteúdogeográfico em criações romanescas: Florianópolis: UFSC, 2002.NEJAR, Carlos. História da Literatura brasileira: da Carta de Caminha aoscontemporâneos. São Paulo: Leya, 2011.ORTIZ, Fernando. Contrapunteo cubano del tabaco y el azúcar. Caracas: BibliotecaAyacucho, 1983. Disponível em:<http://www.fundacionfernandoortiz.cult.cu/downloads/ortiz/Del_fenomeno_social_de_la_transculturacion.pdf>. Acessado em dez/2011. 54
  • 55. PELLEGRINI, Tânia. A imagem e a Letra: aspectos da ficção brasileira contemporânea. SãoPaulo: Fapesp, 1999.PEREIRA, Elvya Ribeiro. Piguara: Alencar e a invenção do Brasil. Feira de Santana:Universidade Estadual de Feira de Santana/ EGBA, 2000.PERRONE-MOÍSES, Leyla: Vira e mexe, nacionalismo: paradoxo do nacionalismoliterário. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.PESAVENTO, Sandra Jatahy; LEENHARDT, Jacques. Discurso histórico e narrativaliterária. Campinas: UNICAMP, 1998.PIÑON, Nélida. O presumível coração da America. Rio de Janeiro: Record, 2011.RENAN, Ernest. O que é uma nação. In: ROUANET, Maria Helena (Org.). Nacionalidadeem questão. Rio de Janeiro: UERJ, 1997.SANTANA, Gisane Souza. Em Busca da Identidade Nacional em Iracema, Memórias deum Sargento de Milícias, O Cortiço e Macunaíma. In: Revista Urutágua – revistaacadêmica multidisciplinar (Cesin – MT/DCS/UEM). nº 09 – abr/mai/jun/jul – Quadrimensal.Maringá, 2006. Disponível em: <http://www.urutagua.uem.br/009/09santana.htm>. Acessadoem: 07 de fevereiro de 2011.SANTOS, Roberto Corrêa dos. O político e psicológico. In: Modos de ser, modos deadoecer. Belo Horizonte: UFMG, 1999.SOMMER, Doris. Ficções de fundação: Os romances nacionais da América Latina.Tradução Gláucia Renate Gonçalves e Eliana Lourenço de Lima Reis. Belo Horizonte:UFMG, 2004.SOUZA, Aline Silva Almeida; SOUZA, Eugênia Mateus de; SILVA, Rosana Carvalho da.Macumba para gringo ver: uma leitura do texto “O político e o psicológico”, de RobertoCorrêa. In: BAIANIDADE: ícone de nacionalidade. Feira de Santana: UEFS, 2005.(Trabalho de conclusão da disciplina Literatura e Identidade no Brasil, ministrada peloprofessor Marcos Botelho, escrito a partir do seminário apresentado em sala de aula).STEARNS, Peter N. Histórias das Relações de Gênero. São Paulo: Contexto, 2007.VALENTE, Giselle Laguardia. História e literatura como espelho de nação. In: Discursos eidentidade cultural. p. 393-397. Disponível em:<http://bibliotecadigital.unec.edu.br/ojs/index.php/unec02/article/view/240/320>. Acesso em:dezembro de 2011.VILLE, André. Dona Flor e seus dois maridos. Tribuna da Imprensa. Rio de Janeiro, 30 jun.1966. Caderno 2, p. 2.ZILBERMANN, Regina. História da literatura e identidade nacional. Rio de Janeiro:UERJ, 1999. 55