UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA          GLÉCIA CARNEIRO OLIVEIRA     DISCURSO E PRECONCEITO: SENTIDOS DAVALORIZAÇÃO ÉTNIC...
GLÉCIA CARNEIRO OLIVEIRA     DISCURSO E PRECONCEITO: SENTIDOS DAVALORIZAÇÃO ÉTNICO-RACIAL E DA RESISTÇÊNCIA NAS          M...
GLÉCIA CARNEIRO OLIVEIRA     DISCURSO E PRECONCEITO: SENTIDOS DAVALORIZAÇÃO ÉTNICO-RACIAL E DA RESISTÇÊNCIA NAS          M...
O negro sempre foi vítima dediscriminação, tanto social quanto racial.Por isso, dedico esse trabalho a todos osmovimentos ...
AGRADECIMENTOS  Agradeço, primeiramente a Jesus Cristo, Senhor e Salvador de minha alma que,com seu sacrifício na cruz do ...
“Ninguém nasce odiando outra pessoapela cor de sua pele, ou por sua origem,ou sua religião. Para odiar, as pessoasprecisam...
RESUMOEsta monografia tem como objeto de estudo a análise das letras das músicas dabanda Reflexu’s, a partir da Análise do...
ABSTRACTThis monograph has as its object of study to analyze the lyrics of the bands Reflexufrom the Discourse Analysis of...
SUMÁRIOINTRODUÇÃO-------------------------------------------------------------------------------------------091. RACISMO E...
9INTRODUÇÃO      É fato que a participação do negro, em todas as dimensões da sociedade,sempre foi marcada pela submissão ...
10para justificar e naturalizar as relações entre dominadores e dominados sob a falsaótica de superioridade e inferioridad...
11brasileira passou a buscar na música uma forma de representação social e protesto,oriunda de uma perspectiva que é possí...
12      Entende-se a partir da AD que os aspectos relevantes discutidos, sobre asmúsicas da banda Reflexu’s, bem como o ti...
131. RACISMO E HISTÓRIA       Analisar sob uma visão crítica as relações raciais no Brasil foi e tem sido umatarefa difíci...
14      A lei deu a “liberdade” aos escravos, porém não resolveu os problemas racias.A realidade foi cruel com muitos dele...
15confirmando assim a superioridade branca sobre índios e negros. A segunda, aescola histórica, argumentava que as raças p...
16      O termo raça tem uma variedade de acepções, geralmente utilizadas paradescrever um grupo de pessoas que compartilh...
17         O final dos anos de 1930 é marcado no Brasil pela dominância de uma certaideologia mestiça, pela qual os teóric...
18com intuito de substituir a identidade negra. Isso foi interpretado pelos movimentosnegros como um dos efeitos do racism...
19                        completará. (ROMERO, 1954, p.52).          Fica evidente que o autor acreditava na viabilidade d...
20utilizadas pelas teorias raciológicas como fatores definidores da caracterização dasraças.                      Encontra...
21democracia racial, calcada da convivência pacífica das diferentes raças formadorasda nacionalidade brasileira.1.5 OS EST...
22Para a autora, no pensamento social brasileiro a cor aparece como algo concreto.Nos diversos âmbitos, a cor emerge como ...
23sobre a desigualdade social, evidenciando que a abolição da escravatura relegou amassa de ex-escravos, pondo-os à margem...
24      Este estudo possibilitou observar as eventuais barreiras para a ascensãosocial dos negros e mulatos, ou seja, a su...
25                     [...] a identidade da pessoa negra traz do passado a negação da tradição                     africa...
26inúmeros cientistas estudaram a evolução e a problemática dos negros, um temafundamental, tendo em vista a presença majo...
27mercado de trabalho há uma desigualdade enorme. Os negros ainda são os queocupam os piores cargos, recebendo os menores ...
282. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS DA ANÁLISE DO DISCURSO (AD)2.1 AS CATEGORIAS DA AD      A AD é a disciplina das Ciências da Lin...
29sim em como e porque o diz e mostra”.(PINTO, 2002, p.27)      A questao é que a AD não trabalha apenas para entender o q...
30         O poder, segundo a conceituação elaborada por Michel Foucault, é vistocomo algo que se dispersou pelas entrelin...
31produção, considerá-lo limitado por procedimentos de controle e delimitação, que seapresentam tanto de modo externo, com...
322.4 FORMAÇÃO DISCURSIVA E IDEOLÓGICA      A introdução do conceito de FD coloca em xeque a noção de máquinaestrutural fe...
33regularidade do discurso. O que Foucault propõe é analisar esses quatro níveis nãocomo elementos dados, mas analisá-los ...
34articulação entre estrutura e acontecimento. Adotando a perspectiva de que odiscurso é da ordem da estrutura e do aconte...
35associado ao de função enunciativa e discurso:                    em seu modo ser singular (nem inteiramente lingüístico...
36afligiam o mundo, como a guerra, a opressão, enfim a discriminação. Partindo dopressuposto de Orlandi de que            ...
37       Nesse sentido, Orlandi (2006) explica que o conceito de interdiscurso dePêcheux possibilita-nos compreender que a...
38diretamente relacionada à criatividade que instaura o diferente na linguagem, namedida em que o uso pode romper com o pr...
393. MÚSICAS DA BANDA REFLEXUS: CONSTRUINDO OS SENTIDOS DAVALORIZAÇÃO E DA RESISTÊNCIA       Os sentidos e significados da...
40da função enunciativa (2006). A AD possibilitará uma investigação minuciosa dosenunciados, a fim de entender os aconteci...
41          Os enunciados serão representados uniformemente através das marcas: E.1,E.2 e assim por conseguinte.CATEGORIA ...
42O negro é lindo é uma ostensidade    Em erupção, movimento Negros invademNo bate rebate, uma pausa Uma velha canção     ...
43lutaram contra a desigualdade na tentativa de mudar a situação em que a populaçãode cor se encontrava e que em sua grand...
44um efeito no discurso da fala corrente, ou seja, o já-dito possui uma relação com oque se está dizendo (ORLANDI, 2005). ...
45sociedade atual. O que é bem visível, e não foge da temática, é que realmentehavia uma classe excluída naquela sociedade...
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's

3,734
-1

Published on

0 Comments
1 Like
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total Views
3,734
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0
Actions
Shares
0
Downloads
26
Comments
0
Likes
1
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Discurso e preconceito sentidos da valorização étnico racial e da resistência nas músicas da banda reflexu's

  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA GLÉCIA CARNEIRO OLIVEIRA DISCURSO E PRECONCEITO: SENTIDOS DAVALORIZAÇÃO ÉTNICO-RACIAL E DA RESISTÊNCIA NAS MÚSICAS DA BANDA REFLEXUS Conceição do Coité, 2011
  2. 2. GLÉCIA CARNEIRO OLIVEIRA DISCURSO E PRECONCEITO: SENTIDOS DAVALORIZAÇÃO ÉTNICO-RACIAL E DA RESISTÇÊNCIA NAS MÚSICAS DA BANDA REFLEXUS Monografia apresentada ao Curso de Comunicação Social (Rádio e TV) da Universidade do Estado da Bahia – Departamento de Educação, Campus XIV, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Comunicação com Habilitação em Rádio e TV, sob a orientação do Prof. Msc. Tiago Santos Sampaio. Conceição do Coité, 2011
  3. 3. GLÉCIA CARNEIRO OLIVEIRA DISCURSO E PRECONCEITO: SENTIDOS DAVALORIZAÇÃO ÉTNICO-RACIAL E DA RESISTÇÊNCIA NAS MÚSICAS DA BANDA REFLEXUS Monografia apresentada ao Curso de Comunicação Social (Rádio e TV) da Universidade do Estado da Bahia – Departamento de Educação, Campus XIV, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Comunicação com Habilitação em Rádio e TV, sob a orientação do Prof. Msc. Tiago Santos Sampaio. Data:____________________________ Resultado:________________________ BANCA EXAMINADORA Prof. (orientador)___________________ Assinatura________________________ Prof.____________________________ Assinatura_______________________ Prof.____________________________ Assinatura_______________________
  4. 4. O negro sempre foi vítima dediscriminação, tanto social quanto racial.Por isso, dedico esse trabalho a todos osmovimentos sociais da negritude quelutaram e ainda lutam por essa causa -almejam uma futura igualdade racial.
  5. 5. AGRADECIMENTOS Agradeço, primeiramente a Jesus Cristo, Senhor e Salvador de minha alma que,com seu sacrifício na cruz do calvário me ensinou o amor ao próximo como premissa imprescindível ao caráter humano. E que me deu força e sabedoria para que eu conseguisse essa vitória.Agradeço em especial aos meus pais. Meus primeiros educadores e, certamente, os mais importantes da minha vida. Minha mãe pelo amor incondicional e parceria, exemplo de mulher que devo seguir. Meu pai, pelo apoio integral e pelo incentivo, mesmo diante de muitas dificuldades. Vocês fazem parte desse caminho. Amo vocês!À Rômullo Alves Cedraz, seu amor, companheirismo, cumplicidade e compreensão foram fundamentais nestes últimos anos. Sei que neste período, muitas vezes teve que conviver com minha ausência. Por isso mais uma vez muito obrigada, vocêtambém faz parte dessa conquista e foi um fator importante, tanto como acalento de meu coração, como na minha formação profissional. Te Amo!A minha família (irmãos, tios, avô e primos) que foi e é um fator de suma importância na minha trajetória, desde os primeiros passos até o fim de minha vida. Às Minhas amigas Osméria Almeida Carneiro (Bella Almeyda) e Mariana Azevedo, por estar sempre junto a mim nos momentos difíceis que tive de enfrentar. Aos meus ex-colegas de trabalho pelo apoio e pela compreensão na minha ausência, em especial ao diretor, Fernando Cedraz de Oliveira Filho e ao Vice- diretor, Odeval Moraes Carneiro.A Henrique Valença, por sua colaboração e compreensão nos momentos que mais precisei de um suporte. Ao Professor e orientador Tiago Santos SampaioE a todos e todas que direta ou indiretamente me ajudaram nessa conquista. Grata por tudo.
  6. 6. “Ninguém nasce odiando outra pessoapela cor de sua pele, ou por sua origem,ou sua religião. Para odiar, as pessoasprecisam aprender, e se elas aprendema odiar, podem ser ensinadas a amar...” Nelson Mandela
  7. 7. RESUMOEsta monografia tem como objeto de estudo a análise das letras das músicas dabanda Reflexu’s, a partir da Análise do Discurso de orientação francesa (AD). Parte-se do pressuposto de que essas músicas têm seus sentidos construídosespecialmente para dois aspectos centrais: a valorização étnico-racial e o protestocontra o preconceito racial. Partindo da premissa de que o negro sempre foioprimido e posto em lugar de desvantagem se comparado ao branco, a banda, pormeio das suas músicas, promovia a possibilidade de uma reflexão sobre a igualdadesocial em suas relações com as questões étnico-raciais. A estrutura da monografia édividida em 3 capítulos – o primeiro faz uma breve contextualização do racismo, deforma a caracterizá-lo, abordando acerca da complexidade que existe sobre a idéiade raça; No segundo, são abordados conceitos da Análise do Discurso (AD) deorientação francesa, respaldada em estudos elaborados, principalmente por MichelFoucault e Michel Pêcheux. O último capítulo faz a análise dos enunciados retiradosdas letras de 17 músicas da banda Reflexu’s. É necessário ponderar que a bandautiliza-se de recursos baseados em discursos de resistência e valorização comintuito de transmitir uma mensagem contra o preconceito racial através da exaltaçãoe valorização dessa etnia. Para fins de facilitar o trabalho, a análise foi subdivididaem 2 categorias: a primeira refere-se aos enunciados que remetem a resistênciacontra o preconceito racial e a segunda aos de valorização da etnia negra. A partirda análise dos enunciados pode-se inferir que os sentidos e significados enraizadosnas letras das músicas da banda Reflexu’s, refletem acima de tudo a um desejo deliberdade que através da simbolização remetem a uma africanidade ancestral pormeio da utilização de elementos culturais. Utilizando-se da memória discursiva,representou todo um passado histórico. Já com as condições sociais de produção,foi possível perceber a importância do contexto em que esses discursos estavaminseridos.Palavras-chave: Análise do Discurso; Preconceito Racial; Protesto; Valorizaçãoétnico-racial; Música.
  8. 8. ABSTRACTThis monograph has as its object of study to analyze the lyrics of the bands Reflexufrom the Discourse Analysis of French oriented (AD). It starts from the assumptionthat these songs have their senses built especially for two central aspects: thevaluation and the ethnic-racial protest against racial prejudice. Assuming that theblack has always been oppressed and put in place a disadvantage compared towhite, the band through their music, promoted the possibility of a reflection on socialequality in their relationships with ethnic and racial issues. The structure of themonograph is divided into three chapters - the first is a brief background of racism inorder to characterize it, focusing on the complexity that exists on the idea of race: Inthe second, concepts are covered Discourse Analysis (DA ) French guidance,supported the concepts developed primarily by Michel Foucault and Michel Pecheux.The last chapter is the analysis of statements taken from the lyrics to 17 songs fromthe bands Reflexu‟s. It is necessary to consider that the band makes use of featuresbased on discourses of resistance and enhancement in order to convey a messageagainst racial prejudice through praise and appreciation of this ethnic group. In orderto facilitate the work, the analysis was divided into two categories: The first refers tostatements that refers to resistance against racial prejudice and the second valuationof the black race. From the analysis of statements can be inferred that the meaningsembedded in the lyrics of their songs Reflexus reflect above all a desire for freedomthrough the symbolization refer to an African ancestor through the use of culturalelements. Using the discursive memory, represented a whole historical past. Nowwith social conditions of production, it was possible to realize the importance ofcontext in Which these talks were inserted.Keywords: Discourse Analysis; Racial Prejudice, Protest, ethnic and racialAppreciation, Music.
  9. 9. SUMÁRIOINTRODUÇÃO-------------------------------------------------------------------------------------------091. RACISMO E HISTÓRIA ----------------------------------------------------------------------------131.1 A HERANÇA DA ESCRAVIDÃO----------------------------------------------------------------131.2 O RACISMO E AS TEORIAS RACIOLÓGICAS--------------------------------------------141.3 PARA ALÉM DO CONCEITO DE RAÇA------------------------------------------------------151.4 A SUPOSTA DEMOCRACIA RACIAL---------------------------------------------------------191.5 OS ESTUDOS SOBRE RAÇA PATROCINADOS PELA UNESCO NO BRASIL---211.6 A SEGREGAÇÃO DO NEGRO NA BAHIA: DADOS SOCIO-ECONÔMICOS------252. ANÁLISE DO DISCURSO--------------------------------------------------------------------------282.1 CATEGORIAS DA ANÁLISE DO DISCURSSO---------------------------------------------282.2 DISCURSO E PODER----------------------------------------------------------------------------292.3 AS CONDIÇOES SOCIAIS DE PRODUÇÃO DO DISCURSO-------------------------302.4 FORMAÇÃO DISCURSIVA E IDEOLÓGICA------------------------------------------------322.5 ENUNCIADO----------------------------------------------------------------------------------------342.6 MEMÓRIA DISCURSIVA-------------------------------------------------------------------------362.7 PARÁFRASE E POLISSEMIA-------------------------------------------------------------------373. MÚSICAS DA BANDA REFLEXUS: CONSTRUINDO OS SENTIDOS DAVALORIZAÇÃO E DA RESISTÊNCIA -------------------------------------------------------------393.1 RESISTÊNCIA E LUTA CONTRA O PRECONCEITO RACIAL-------------------------433.2 VALORIZAÇÃO DA NEGRITUDE--------------------------------------------------------------60REFERÊNCIAS------------------------------------------------------------------------------------------70APÊNDICE------------------------------------------------------------------------------------------------75ANEXOS---------------------------------------------------------------------------------------------------81
  10. 10. 9INTRODUÇÃO É fato que a participação do negro, em todas as dimensões da sociedade,sempre foi marcada pela submissão dos valores da cultura negra em relação aosbrancos. Historicamente os negros sempre estiveram subordinados na estruturasocial e econômica, tanto no período escravocrata quanto nos que se seguiram.Para Lilia Moritz (2002), o preconceito racial brasileiro tem suas raízes no séculoXVIII, quando se iniciou o tráfico dos negros escravizados para o país. A sociedadese desenvolveu preconceituosamente, mesmo sendo este um país de maioria afro-descendente. Esta questão, no entanto, não é amplamente discutida e abordadapelos veículos de comunicação, camuflando o preconceito com a afirmação daexistência de uma suposta democracia racial. Não são poucos os exemplos de manifestações sociais e culturais queexistem em prol de uma política antirracista ao longo da história da humanidade. NoBrasil não foi diferente. No decorrer da história brasileira podem-se observardiversas ações e manifestações contra o preconceito racial. Um exemplo que podeser citado é a organização do Movimento Negro Unificado (MNU), que produziu eincentivou no Brasil, desde a década de 1970, uma ampla discussão sobre questõesraciais do ponto de vista das populações de ascendência africana. A partir desses movimentos uma minoria de negros conseguiu amenizar, emparte, as barreiras impostas pelo preconceito e exclusão social. Entretanto, apesarde tantas lutas, a população negra continua sendo marginalizada pela sociedade e évista ainda como despreparada. Não porque tenha menos capacidade, mas porquenunca lhes foi possível expor a contento ou desenvolver todas as suaspotencialidades. Este problema social, enfrentado até hoje, tem suas origens quandofoi abolida a escravidão e não houve nenhuma política social de integração dosnegros às atividades comuns, o que ocasionou a formação de uma classedesfavorecida, a qual, mais tarde, foi classificada a partir de mecanismospreconceituosos surgidos a partir de estudos de evolução biológica do século XIX,período no qual se aplicou o conceito de raça à humanidade, marcando a relação desuperioridade e inferioridade entre brancos e negros. Tal concepção justificou asrespectivas relações de dominação. A noção de raça foi elaborada intrinsecamente
  11. 11. 10para justificar e naturalizar as relações entre dominadores e dominados sob a falsaótica de superioridade e inferioridade entre seres humanos. Existe no Brasil um ideário de país cordial caracterizado pela presença de umpovo pacífico, sem preconceito de raça. Mas a realidade é que em nosso país existede fato um racismo camuflado, disfarçado no mito da democracia racial, oriundo deuma tradição mental racista. Para muitos teóricos contemporâneos, o racismobrasileiro tem se tornado uma arma ideológica. A etnia1 negra sempre foidiscriminada por uma maioria da sociedade, a qual tende a negar a existência deuma discriminação racial. O mito da democracia racial é uma crença, que por muito tempo vigorou, eainda vigora, no Brasil, fazendo com que muitos acreditassem que não haviaobstáculos para a ascensão social do negro, diferentemente de outros países comoos EUA e a África do Sul, onde o racismo se efetiva através de conflitos raciaisabertos. A imagem que por muito tempo se cultivou no Brasil era a de um paísdemocrático no quesito racial. Porém, essa crença se chocava com a realidadenacional, onde sempre foi evidente a exclusão do negro. Porém, essa crença sechocava com a realidade nacional, onde sempre foi evidente a exclusão do negro. A década de 1980 foi um período caracterizado por inúmeras manifestaçõespolítico-sócio-culturais em prol da efetiva democracia racial brasileira, fazendo comque alguns artistas buscassem na música uma forma de denunciar o preconceito eas injustiças sociais que se manifestavam de diversas maneiras durante essadécada. Diante disso, torna-se relevante e necessário aprofundar o conhecimentosobre esse tema, contextualizando e caracterizando o papel da música uma vez queesta funcionará aqui um alvo de análise sobre a produção de sentidos ao assumir-secomo instrumento de contestação e resistência. A música tornou-se, assim, para os negros, mais que um espaço derepresentação sem fronteiras, para funcionar como um símbolo de resistência econtestação. A música sobre o preconceito racial existe há muito tempo. No Brasil,foi a partir da redemocratização, na década de 1980, que a música como forma deprotesto contra o preconceito racial ganhou popularidade. Desde então, a sociedade1 Será utilizada a nomenclatura etnia em detrimento da de raça, já que a gênese da idéia de raça,base do pensamento racista, é de onde se originou a ideologia de superioridade e racial.(SKIDMORE, 1976)
  12. 12. 11brasileira passou a buscar na música uma forma de representação social e protesto,oriunda de uma perspectiva que é possível integrar a esta elementos históricos eculturais. Foi nesse contexto que a banda Reflexus se destacou, tornando-se aprimeira banda baiana a se projetar no cenário nacional dessa década. A trajetóriada banda evidencia uma proposta especialmente de protesto, traduzindomusicalmente uma riqueza cultural, baseada na denúncia e na valorização da etnianegra. Pensando nessas considerações, esta monografia objetiva analisar aconstrução do discurso de valorização da negritude e de protesto contra opreconceito racial nas letras de algumas músicas da banda baiana Reflexus. Deforma específica e como premissas analíticas objetiva compreender as condiçõeshistóricas do contexto brasileiro que ensejaram a produção de discursos de protesto– logo de valorização étnico-racial – apontando genericamente para o tratamentoconferido a estas questões nas músicas do período analisado; repertoriar e discutiras categorias teórico-metodológicas da Análise do Discurso de orientação francesa(AD) e identificar e analisar os recursos discursivos que constroem os sentidos deprotesto e exaltação da negritude nas letras das músicas da banda Reflexu´s. O problema parte da questão de como são construídos discursivamente ossentidos de valorização étnico-racial e de protesto contra o preconceito racial nasletras das músicas da banda Reflexu´s. O argumento hipotético gira em torno dapressuposição de que a música é trabalhada a partir de recursos discursivoscarregados de mecanismos de persuasão que visam transmitir uma mensagemcontra o preconceito racial através e valorização dessa etnia através da constanteexaltação de elementos culturais em suas relações com os processos históricos. Como referencial teórico, a pesquisa partiu dos estudos realizados no âmbitoda Análise de Discurso de orientação francesa (AD), utilizando autores como MichelFoucault e Michel Pêcheux, que criaram conceitos e categorias, facilitando assim oentendimento da construção dos sentidos, significados e posicionamentosideológicos existentes nos discursos. A música, enquanto discurso, permite focalizara linguagem em seu funcionamento, o sujeito em interação, produzindo sentido pormeio da linguagem em dada situação e contexto histórico, concebendo a relaçãoentre história, sujeito e linguagem, na complexa decorrência de produção desentidos (ORLANDI, 2005).
  13. 13. 12 Entende-se a partir da AD que os aspectos relevantes discutidos, sobre asmúsicas da banda Reflexu’s, bem como o tipo de análise, a maneira, a extensão dadiscussão a estes dedicados e sua ordem de apresentação, são decisões doanalista que subentendem uma atitude crítica a partir da AD. Para tanto, seráanalisada uma amostra com 17 letras de músicas, as quais seguem anexadas. Emum universo de aproximadamente 75 músicas, estas foram escolhidas de acordocom a aproximação da abordagem do tema em questão. A estrutura da monografia é dividida em três capítulos: apresenta um brevehistórico do racismo e como este foi se constituindo ao longo da nossa história. Umahistória marcada pelo preconceito e discriminação racial numa sociedademarcadamente pluricultural; O Capítulo 2 aborda as categorias de análise da AD,bem como trabalha alguns conceitos intrínsecos a ela; O Capítulo 3 traz o estudoespecífico sobre as análises propriamente ditas, ou seja, a análise do discurso dasletras das músicas.
  14. 14. 131. RACISMO E HISTÓRIA Analisar sob uma visão crítica as relações raciais no Brasil foi e tem sido umatarefa difícil, sobretudo porque o país possui uma imagem de nação racialmentedemocrática. Ao avaliar as várias dimensões das relações existentes entreindivíduos negros e brancos torna-se perceptível que os negros sempre estiveramem posições desiguais em relação à oportunidade de emprego e educação, porexemplo. Para tentar justificar esta afirmativa tem sido evocada a herança daescravidão como um dos argumentos principais.1.1 A HERANÇA DA ESCRAVIDÃO O processo de escravidão de acordo com a definição dada por Paul Lovejoyé uma forma de exploração que possuía características especificas que Incluíam a idéia de que os escravos eram propriedade; que eles eram estrangeiros, alienados pela origem ou dos quais, por sanções judiciais ou outras, se retirara a herança social que lhes coubera ao nascer; que a coerção podia ser usada à vontade; que a sua força de trabalho estava à completa disposição de um senhor [...] e que a condição de escravo era herdada, a não ser que fosse tomada alguma medida para modificar essa situação. (LOVEJOY, 2002, p. 29-30) A partir da metade do século XIX, a escravidão no Brasil passou a sercontestada pela Inglaterra, que proibiu o tráfico de escravos, pressionando o país aaprovar a Lei Eusébio de Queiróz, abolindo o tráfico negreiro. Aprovou-se logo emseguida a Lei do Ventre Livre, que dava liberdade aos filhos de escravos nascidos apartir daquela data e foi promulgada a Lei dos Sexagenários, que garantia liberdadeaos escravos com mais de 60 anos de idade. Somente no final do século XIX é quea escravidão foi mundialmente proibida. No Brasil, sua abolição foi tardia, ocorrendoem 13 de maio de 1888, com a promulgação da Lei Áurea, feita pela Princesa Isabel.
  15. 15. 14 A lei deu a “liberdade” aos escravos, porém não resolveu os problemas racias.A realidade foi cruel com muitos deles. Sem moradia, e em condições econômicasprecárias, muitos negros não conseguiam emprego, sofriam preconceito ediscriminação racial. A grande maioria passou a viver em habitações de péssimascondições e a sobreviver de trabalhos informais e temporários. Fazendo umareleitura do processo de abolição brasileiro, Lilia Schwarcz afirma que esseprocedimento: Carregava consigo algumas singularidades. Em primeiro lugar, a crença enraizada de que o futuro levaria a uma nação branca. Em segundo, o alívio decorrente de uma libertação que se fez sem lutas nem conflitos e sobretudo evitou distinções legais baseadas na raça [...] Além disso, em lugar do estabelecimento de ideologias raciais oficiais e da criação de categorias de segregação [...] já nesse contexto projetou-se aqui a imagem de uma democracia racial, corolário da representação de uma escravidão benigna.(SCHWARCZ, 1998, p. 187) A discriminação sempre existiu ao longo da história como um fenômenosocial, no entanto, o racismo tal como concebemos hoje, é um conceitorelativamente recente. Surgiu essencialmente como uma justificativa da escravidão edo colonialismo, opondo-se aos movimentos abolicionistas emergentes.1.2 O RACISMO E AS TEORIAS RACIOLÓGICAS O racismo é uma teoria construída sob a égide da pureza e separação daraça, respaldada em uma falsidade cultural ou científica que nasce no século XVIII,mas eclode no século XIX, período em que surgem as teorias sobre as diferençasentre as raças. É considerado ainda como a manifestação do preconceito e dadiscriminação que permeiam as relações de raças em uma sociedade (MUNANGA,1996). Segundo Skidmore (1976), as teorias raciais podem-se dividir em três grupos.A primeira escola é a etnológico-biológica, cuja afirmação centrava-se no argumentode que as diferenças fisiológicas representavam as variedades da raça humana eque tais diferenças tinham ligação com o clima a que cada raça estava exposta,
  16. 16. 15confirmando assim a superioridade branca sobre índios e negros. A segunda, aescola histórica, argumentava que as raças podiam ser fisicamente diferentes umasdas outras, com a branca superior a todas as outras, por que o gene do homembranco seria mais forte. O terceiro grupo teórico de pensamento racista foi ochamado darwinismo social. Defendia um processo evolutivo que iniciava com umaúnica espécie, na qual as raças evoluíam de formas inferiores para superiores,resultado da sobrevivência dos mais aptos. Todas essas teorias tinham intuito dejustificar a superioridade do homem branco. O então chamado racismo científico ganha corpo nas grandes nações domundo. No Brasil, o seu desdobramento na política e na sociedade do períodotornou-se assunto amplamente debatido entre os historiadores, sociólogos,antropólogos e cientistas políticos. Essa nova abordagem histórico-sócio-antropológica considera que A origem do racismo não é cientifica, e o homem não nasce com preconceito. É política, social ou econômica, prestando-se para justificar seus interesses, exploração econômica, ou como argumento para a dominação política. (CARNEIRO, 2005, p. 9) Ou seja, a teoria raciológica, serviu principalmente para concretizar osinteresses econômicos e políticos das grandes potências colonizadoras que estavaminteressadas em dominar certos segmentos populacionais, como exemplo, os povosda América, Ásia e África. As teorias raciais impulsionaram as desigualdades entre os seres humanos epor meio do conceito de “raça” puderam classificar a humanidade. Para Munanga “araça não é uma realidade biológica, mas sim apenas um conceito, aliás,cientificamente inoperante para explicar a diversidade humana e para dividi-la emraças estancas. Ou seja, biológica e cientificamente, as raças não existem” (2004, p.19).1.3 PARA ALÉM DO CONCEITO DE RAÇA
  17. 17. 16 O termo raça tem uma variedade de acepções, geralmente utilizadas paradescrever um grupo de pessoas que compartilham certas característicasmorfológicas. A idéia de raça tem sido questionada pela chamada genética depopulações, que se debruça sobre a variabilidade biológica das populaçõeshumanas. Desde as atrocidades do nazismo, no contexto da Segunda GuerraMundial, esse termo vem sendo refutado por biólogos e cientistas sociais, já quevem sendo usado para se referir à cor da pele e à aparência das pessoas ou mesmoa sua ancestralidade. Politicamente, o conceito de raça também é utilizado porsetores de movimentos negros na luta contra o racismo. No Brasil, o conceito de raça foi retomado pelo movimento negro na segundametade do século XX, especificamente no final da década de 1970, destacando-se oMNU, surgido em 1978. Hoje presente em quase todo o Brasil, é referência degrande significado para a luta político-ideológica de encaminhamentos de agregaçãoe mobilização da população afro-descendente. Por conta dessa multiplicidade de significações acerca desse conceito é que aciência e a política têm se entrelaçado nos debates sobre raça no Brasil, baseadosnuma suposta desigualdade genética entre os indivíduos. Alertam para os perigospostos pelo determinismo genético que podem abrir margem para novas formas deracismo. O tema da raça é ainda mais complexo na medida em que inexistem no país regras fixas ou modelos de descendência biológica aceitos de forma consensual. Afinal, estabelecer uma “linha de cor” no Brasil é ato temerário, já que essa é capaz de variar de acordo com a condição social do individuo, o local e mesmo a situação. Aqui, não só o dinheiro e certas posições de prestigio embranquecem, assim como, para muitos, a “raça”, transvestida no conceito “cor” transforma-se em condição passageira e relativa. (SCHWARCZ, 1998, p. 182) Lideranças do movimento negro têm questionado também a utilização doconceito de raça, por acreditar que ela reforça, através da biologia, o discurso damiscigenação que tende, por sua vez, a ser associado à existência de umademocracia racial no Brasil, fornecendo, desta forma, um respaldo biológico para odiscurso da mestiçagem que, historicamente, tem sido acionado para se minimizar aexistência de racismo e das desigualdades raciais no Brasil.
  18. 18. 17 O final dos anos de 1930 é marcado no Brasil pela dominância de uma certaideologia mestiça, pela qual os teóricos do racismo afirmavam que o problema racialbrasileiro residia na miscigenação, ou seja, estavam preocupados com o problemada mistura racial. O mestiço era o exemplo da “degeneração” surgida com ocruzamento de “espécies diversas”. De acordo com Raeders (1988), o principalnome nesse sentido foi o de Arthur de Gobineau, autor do “Ensaio sobre adesigualdade das raças humanas”. Nesta obra, ele postula que a história deriva dadinâmica das raças, subdividindo a humanidade em três complexos raciais: branco,amarelo e negro. Esclarece que a desigualdade das raças humanas não era umaquestão absoluta, mas um fenômeno ligado à miscigenação, colocando assim ofuturo do progresso histórico dependente da ação direta ou indireta das raçasbrancas. Para Ali Kamel, que também escreve a cerca do assunto: O debate em torno de raças no Brasil sempre foi intenso. Deixando de lado todo o debate entre escravocratas e abolicionistas, o século XX foi todo ele permeado por essa discussão. Nas primeiras décadas do século passado, o pensamento majoritário nas ciências sociais era racista. Mas até ele reconhecia que o Brasil era fruto da miscigenação. (KAMEL, 2009, p.18) Diante disso, o Brasil era considerado pelos europeus como um país mestiço.A visão era que o negro desaparecesse pela miscigenação e que algum dia o Brasilseria branco. Muitos nesse período, como Louis Agassiz, afirmavam que era noBrasil que as melhores qualidades do branco, negro e índio estavam se apagandorapidamente, deixando surgir um tipo indefinido e híbrido. Já Raeders (1988),definiu-a como uma população mulata, “assustadoramente feia”. Essas teorias racistas impregnaram o Brasil do século XX. A imagem de umpaís contraditório diante dos seus avanços e recuos sociais, políticos e científicos,ora era colocado, em ritmo de modernidade, ora como símbolo de atraso, atribuídopor alguns à presença de negros. Como resposta, segundo Schwarcz (1998), naPesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada em 1976,pesquisadores do IBGE registraram 136 respostas, intituladas de “Aquarela doBrasil” 2 diferentes relacionadas à cor negra, ou seja, as nomenclaturas foram dadas2 Ver anexo
  19. 19. 18com intuito de substituir a identidade negra. Isso foi interpretado pelos movimentosnegros como um dos efeitos do racismo disseminado na sociedade brasileira. Darcy Ribeiro (1985) já dizia que prevalece em todo Brasil uma expectativaassimilacionista, que leva os brasileiros a supor e desejar que os negrosdesaparecessem pela branquização progressiva. Fazendo com que ocorra umasuposta e efetiva modernização dos brasileiros, procedente tanto por meio dabranquização dos pretos, como pela negrização dos brancos. As tórias raciais teorias pregavam o cruzamento inter-racial como forma deresolver o problema de um país negro e mestiço. Para Skidmore a teoria dobranqueamento [...] baseava-se na presunção da superioridade branca, às vezes, pelo uso dos eufemismos raças “mais adiantadas” e “menos adiantadas” e pelo fato de ficar em aberto a questão de ser a inferioridade inata. À suposição inicial juntava-se a mais duas. A primeira – a população negra diminuía progressivamente em relação à branca por motivos que incluía a suposta taxa de natalidade mais baixa, a maior incidência de doenças, e a desorganização social. Segundo – a miscigenação produzia “naturalmente” uma população mais clara, em parte porque o gene branco era mais forte e em parte porque as pessoas procurassem parceiros mais claros do que elas. (SKIDMORE, 1976, p.81) Essa ideia afirma a busca da negação da imagem de inferioridade inata dosmestiços. A intelectualidade brasileira forjou uma conclusão otimista afirmando que amiscigenação não produzia de maneira inevitável “degenerados”, mas umapopulação branca, tanto cultural quanto fisicamente superior (Skidmore, 1976). Aimigração de europeus apareceu nessa conjuntura como veículo impulsionador dobranqueamento da nação, pois, constituindo uma “raça mais forte”, se imporiam nocontexto racial brasileiro. Sílvio Romero, autor expoente que escreveu sobre o branqueamento, expõeuma ideia da agregação das raças, característica do Brasil. A obra de transformação das raças entre nós ainda está mui longe de ser completa e de ter dado todos os seus resultados. Ainda existem os três povos distintos em face um dos outros; ainda existem brancos, índios e negros puros. Só nos séculos que se nos hão de seguir a assimilação se
  20. 20. 19 completará. (ROMERO, 1954, p.52). Fica evidente que o autor acreditava na viabilidade de um futuro no qual, pormeio da mestiçagem, o sangue de negros e índios viesse a desaparecer dasociedade, mesmo que fosse preciso esperar por séculos, dando lugar aos mulatos,que surgiram com o processo de embranquecimento, significando que o Brasil seriauma nação sem raça. Esta era a imagem passada para o exterior, de um paísdemocrático no quesito racial. Começa então a ser discutido o mito da democraciaracial.1.4 A SUPOSTA DEMOCRACIA RACIAL BRASILEIRA O ideário da democracia racial brasileira surgiu por volta da década de 1930 eera caracterizado como “um sistema legal desprovido de qualquer barreira legal ouinstitucional para a igualdade racial, e, em certa medida, um sistema racialdesprovido de qualquer manifestação de preconceito ou descriminação”(DOMINGUES, 2005, p. 116). Essa idéia foi formulada de forma exemplar porGilberto Freyre (1999), que contribuiu muito para a legitimação científica daafirmação de que no Brasil não havia preconceitos e discriminações raciais. A partirde uma análise minuciosa da formação da sociedade brasileira, descreve como sedava a relação senhor-escravo dentro do engenho, ressaltando a “benevolência” e a“solidariedade” que permeavam esse universo. Freyre também valorizou a fusão dastrês raças ou a interpenetração das culturas portuguesa, indígena e africana naformação do Brasil e de seu povo. Essa argumentação era consistente, uma vez que se baseava na positividadeda intensa mestiçagem da população, fundamentada na riqueza das diferentescontribuições culturais a formar uma nova e rica civilização nos trópicos,caracterizada ainda por baixo grau de tensão inter-racial. A respeito dessacivilização nos trópicos, Sampaio afirma que as condições geográficas foram
  21. 21. 20utilizadas pelas teorias raciológicas como fatores definidores da caracterização dasraças. Encontrareis, nos climas do Norte, povos que tem poucos vícios, muitas virtudes, sinceridade e franqueza. Aproximai-vos dos países do Sul e acreditareis afastar-vos da própria moral: as paixões mais ardentes multiplicarão os crimes; cada um procurará tomar sobre demais todas as vantagens que podem favorecer essas mesmas paixões. (MONTESQUIEU APUD SAMPAIO, 2006, p. 32) Outro conceito também muito discutido na década de 30 foi inserido porSergio Buarque de Holanda (1995), na qual analisa como as relações entre índios,escravos e portugueses nestas terras do sul acabaram por gerar um povo particular,especial, que pode ser entendido através da imagem do homem cordial. Holanda(1995) afirma que o homem cordial é resultado da cultura patrimonialista epersonalista própria da sociedade brasileira. Essa cordialidade enfatizava opredomínio de relações humanas mais simples e diretas que rejeitavam a polidez e apadronização. Para o autor, as relações familiares não eram benevolentes para aformação de homens responsáveis, pois havia uma hegemonia patriarcal vinculadatambém ao homem cordial, a qual impedia uma distinção entre a noção de público eprivado. A impossibilidade que o brasileiro tem em se desvincular dos laçosfamiliares a partir do momento que ele se torna um cidadão gera o homem cordial.Esse homem cordial é aquele generoso, de bom trato, que para confiar em alguémprecisa conhecê-lo primeiro. Holanda considera o Brasil uma sociedade onde oEstado é apropriado pela família, os homens públicos são formados no círculodoméstico, onde laços sentimentais e familiares são transportados para o ambientedo Estado. Pode-se inferir, portanto, que tanto a obra de Gilberto Freyre como a deSergio Buarque de Holanda constituem referencial básico para discutir a sociedadebrasileira, mas muitas dessas hipóteses e conclusões foram posteriormenterechaçadas por uma nova geração de intelectuais que, entre os anos 1950 e 1960,fixaram às ciências sociais no Brasil uma acentuada crítica do materialismo históricoe dialético. Esta crítica acusa, principalmente, Freyre de sustentar o mito de uma
  22. 22. 21democracia racial, calcada da convivência pacífica das diferentes raças formadorasda nacionalidade brasileira.1.5 OS ESTUDOS SOBRE RAÇA PATROCINADOS PELA UNESCO NO BRASIL A partir dos anos 1950, um grupo de cientistas sociais começaram aquestionar o mito da democracia racial, fazendo com que a defesa freyreana dasconcepções de identidade nacional brasileira começasse a se flexibilizar. Por suavez, isso só foi possível após uma série de projetos de pesquisas sobre relaçõesraciais brasileiras, encomendada pela Organização Educacional, Científica e Culturaldas Nações Unidas (UNESCO) em 1960, a qual adotou como parte de sua missão ocombate ao racismo em todo o mundo. A princípio, a pesquisa foi feita no Rio deJaneiro e São Paulo, estendendo-se por algumas cidades de Minas Gerais, e nosestados nordestinos da Bahia e de Pernambuco. As equipes constataram elevadosníveis de desigualdade entre as populações brancas e negras, além de fortesevidências de atitudes e estereótipos racistas. Segundo Oracy Nogueira, os projetos de pesquisa patrocinados pelaUNESCO deixaram um vasto legado para a história da luta contra o racismo, comotambém para o repensar da identidade nacional brasileira. A principal tendência que chama atenção, nos estudos patrocinados pela UNESCO, acima mencionados, é a de reconhecerem seus autores a existência de preconceito racial no Brasil. Assim, pela primeira vez, vem, francamente, de encontro e em reforço ao que, com base em sua própria experiência, já proclamavam, de um modo geral, os brasileiros de cor. (NOGUEIRA, 1985, p. 97) É notório que as pesquisas mostraram que o racismo no Brasil manifesta-secomo preconceito de cor. De acordo com Maggie (1991), na base da discussão emtorno dos sistemas de classificação racial no Brasil estaria a naturalização da cor.
  23. 23. 22Para a autora, no pensamento social brasileiro a cor aparece como algo concreto.Nos diversos âmbitos, a cor emerge como algo natural, os sistemas classificatórios apartir dos quais os significados são demarcados servem para marcar as distinçõespresentes no mundo social, as quais são produtos da construção cultural ou social. Ou seja, a identificação entre negro ou mestiço e a pobreza disfarçam asbarreiras que mantêm estas populações afastadas das oportunidades de inserçãosocial, visto que os traços físicos, como formato do rosto, tipo de cabelo e a cor dapele são transformadas em base para a discriminação. Para Nogueira (1985), issopode ser explicado porque aqui o preconceito é de marca, ou seja, determinado pelaaparência, onde o racismo manifesta-se no âmago das relações sociais éincorporado posteriormente pelos negros. É diferentemente do preconceito não deorigem, como nos Estados Unidos, definido pela ascendência. O interesse da UNESCO referente à problemática da raça no Brasil incentivouconsideráveis debates e reflexões, além de incentivar muitos estudiosos brasileirosque haviam participado de pesquisas, a exemplo de Florestan Fernandes (1965) eThales de Azevedo (1996), a prosseguirem com essa temática da democracia racialem suas futuras carreiras. O sociólogo Florestan Fernandes (1965) ao enfatizar a existência dopreconceito de cor no Brasil, vai contestar assim a ideologia da democracia racial.No entanto, no seu discurso, o preconceito de cor está muito articulado aopreconceito de classe, abordando a temática racial fundamentada na desigualdade enuma forma particular de racismo, ou seja, “um preconceito de não ter preconceito”.A respeito da pesquisa feita por Fernandes, Schwarcz afirma que o conjunto dasanálises feitas por ele é revelador, na medida em que, [...] aborda a temática racial tendo como fundamento o ângulo da desigualdade [...] notava, ainda, a existência de uma forma particular de racismo: “um preconceito de não ter preconceito”. Ou seja, a tendência do brasileiro seria continuar discriminando, apesar de considerar tão atitude ultrajante (para quem sofre) e degradante (para quem a pratica). (SCHWARCS, 1998, P. 202) Fica evidente que o foco da análise de Fernandes recai preferencialmente
  24. 24. 23sobre a desigualdade social, evidenciando que a abolição da escravatura relegou amassa de ex-escravos, pondo-os à margem da sociedade. Ou seja, para FlorestanFernandes a origem do preconceito e da discriminação tem sua origem naescravidão. Preconceito este que estaria resolvido com o desenvolvimentoeconômico do país. Em outras palavras, o autor focalizou o processo de inserção donegro na estrutura social e econômica em vias de transformação, e sobre a lutapolítica dos mesmos. Guimarães utiliza as categorias analíticas de „raça‟ e „cor‟ buscando uma razão para o preconceito e a discriminação no Brasil. „Raça‟ é não apenas uma categoria política necessária para organizar a resistência ao racismo no Brasil, mas é também categoria analítica indispensável: a única que revela que as discriminações e desigualdades que a noção brasileira de „cor‟ enseja são efetivamente raciais e não apenas de classe (GUIMARÃES, 2002 p. 50). Com isso pode-se dizer que o preconceito racial no Brasil se sobrepõe aopreconceito de classe. Neste prisma, as categorias „raça‟ e „cor‟ se articulam e estãopresentes nos processos de discriminação e preconceito racial (p. 55). Outro pesquisador muito imponente foi Thales de Azevedo, que fez umpanorama da ascensão social de homens de cor na Bahia dos anos 1950. Aoescrever sobre a existência do preconceito de cor na Bahia, afirma que: A posição dos que negam inteiramente o preconceito é a de quem formula um padrão ideal de relações, inspirado "no desejo que não houvesse (o problema), ou no vão intento de contribuir para que a sociedade o esqueça" [Rômulo Almeida]. Os que exageram as proporções da questão poderiam ser personalidades inadaptadas, o que não ocorre sempre; essa exageração é um poderoso meio para chamar atenção para um problema que se supõe inexistente ou sem importância e funciona também como uma forma de agressão contra o grupo discriminante. (AZEVEDO, 1996, p. 154- 155)
  25. 25. 24 Este estudo possibilitou observar as eventuais barreiras para a ascensãosocial dos negros e mulatos, ou seja, a sua trajetória familiar ou pessoal, os seusinstrumentos, mecanismos e instituições de mobilidade vertical, assim como opadrão das relações sociais entre brancos e negros e as suas atitudes uma vezinseridos nas classes altas. Em linhas gerais, o mito da democracia racial brasileira foi concebido comoparte de uma campanha ideológica maior para justificar o domínio autoritarista eoligárquico no Brasil. Segundo Guimarães (1999), durante o regime da ditaduramilitar foi formada uma ideologia racista, que utilizou a democracia racial como umaespécie de ideologia do Estado brasileiro, para negar os fatos de discriminação e asdesigualdades raciais, que cresciam cada vez mais no país, formando assim umajustificativa da ordem discriminatória e das desigualdades raciais realmenteexistentes. A partir do momento em que esse modelo de governo passou a sofrercrescentes ataques, pôde-se observar o declínio desse mito. Dos anos 1960 aosanos 1980, novos estudos foram feitos sobre as relações raciais, denunciando umavez mais como os negros ficavam em posições desvantajosas diante dos brancos. Na década de 1980, período marcado pela redemocratização brasileira, essemito foi transformado no principal alvo de criticas dos movimentos negros, poisacreditavam ser esta uma ideologia racista. Nesse período, foi instituído o Conselhode Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra, com a implementação depolíticas voltadas para promover a inserção qualificada da população negra, além deuma crescente valorização da cultura com a criação do Dia Nacional da ConsciênciaNegra e o Programa Nacional do Centenário da Abolição da Escravatura, queatraem a atenção para o negro e a questão racial, possibilitando um ambientefavorável ao debate sobre as relações raciais. Desde então, o poder público, pormeio dessas manifestações reconhece que existe discriminação racial na sociedadee que cabe a ele o desenvolvimento de ações retificadoras. Ponderando que numasociedade, que tem no preconceito racial um dos pilares de sua construção sócio-histórica, fica evidente que o negro precisa lutar cotidianamente para tentardesconstruir as imagens criadas em torno da sua etnicidade, pois:
  26. 26. 25 [...] a identidade da pessoa negra traz do passado a negação da tradição africana, a condição de escravo e o estigma de ser objeto de uso como instrumento de trabalho. [...] A cor da pele e as características fenotípicas acabam operando como referências que associam de forma inseparável raça e condição social, o que leva o negro à introjeção de um julgamento de inferioridade [...] (SOUZA apud FERREIRA, 2000, p. 41-42) A Constituição Federal de 1988 também traz avanços indiscutíveis referentesà questão racial. Fundamentada no respeito da dignidade humana, tem como um deseus objetivos fundamentais, explícitos no artigo 3º, I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional; III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.” (Grifo meu). (BRASIL, CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988) Muito embora afirme a igualdade e tenha por princípio o pluralismo e aproteção étnico-cultural como direitos fundamentais, a acessibilidade aos direitosdos segmentos representados merece ainda grande empenho para que seconcretize. A democracia brasileira foi reinventada a partir do pleito dos movimentossociais organizados, que passaram a denunciar as disparidades e injustiças sociais.Não seria coerente dizer que inexiste preconceito no Brasil se a sua extinção foielencada como objetivo de nosso país há pouco mais de duas décadas. Apesar dasconquistas e progressos, estamos longe de termos uma sociedade na qual sejamextintas todas as formas de preconceito e discriminação.1.6 A SEGREGAÇÃO DO NEGRO NA BAHIA: DADOS SÓCIO-ECONÔMICOS As discussões sobre raça na Bahia começaram com as pesquisas sobre osnegros escravizados trazidos da África nos navios negreiros. Desde Nina Rodrigues,
  27. 27. 26inúmeros cientistas estudaram a evolução e a problemática dos negros, um temafundamental, tendo em vista a presença majoritária dos afro-descendentes no Brasil.A partir da década de 1970, foi reforçada a ideia de uma Bahia tradicional, ligada àafricanidade, e ao mesmo tempo repleta de necessidades não atendidas de políticaspúblicas ante as desigualdades raciais. A Bahia é um estado eminentemente negro,a maior parte de sua população é negra ou afro-descendente. Segundo o censo2010, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apesar de nãoocupar o primeiro lugar no Ranking, a Bahia é o Estado com o maior númeroproporcional de negros na população, com 14,4% de pretos e 64,4% de pardos.Entretanto, por um longo período de nossa história, todo esse percentual de negrosparecia invisível ao Estado brasileiro. Essenciais para o norteamento de políticas públicas, as pesquisasdemográficas do país só começaram a incluir em seus formulários o quesito cor apartir do censo realizado em 1987, o primeiro feito após o regime militar. A partir deentão as estatísticas começaram a desvendar as desigualdades raciais existentes nopaís, fornecendo dados que serviram de instrumentos de pesquisas acadêmicas ecomo fomentadores de mobilizações sociais em prol de melhorias nas condições decidadania do povo negro, que vem resultando em avanços significativos nas políticaspúblicas e, aos poucos, promovendo ações de equiparação da igualdade racial noBrasil. De acordo com os índices sobre a desigualdade racial, os negros do séculoXXI ainda sofrem com as marcas deixadas pela escravidão no país. Do total dapopulação brasileira, os negros são os que possuem menor escolaridade, têm maisdificuldade no acesso à saúde e ao mercado de trabalho e são mais expostos àsmoradias precárias. Na Bahia, este fato é mais marcante, devido, sobretudo à maiorpenetração do sistema escravocrata na formação da cultura. Este sistema sempretrabalhou com ofertas restritas de trabalho, sendo mais um meio de limitação dacondição de desenvolvimento do cidadão de origem negra. Isso faz com que ocorrauma verdadeira segregação. Segundo pesquisa intitulada “Os negros no mercado de trabalho e o acessoao sistema público de emprego, trabalho e renda”, realizada pelo DepartamentoIntersindical de Estatística e Estudos Sociais e Econômicos (Dieese), Governo doEstado da Bahia, Fundação Seade e Universidade Federal da Bahia em 2010, no
  28. 28. 27mercado de trabalho há uma desigualdade enorme. Os negros ainda são os queocupam os piores cargos, recebendo os menores salários, isto quando não estãodesempregados. Os dados da pesquisa revelaram que a desigualdade racial nomercado de trabalho, nos últimos cincos anos, permaneceu praticamente a mesmana Região Metropolitana de Salvador. Enquanto um negro recebe R$ 4,75 por horatrabalhada, o não-negro ganha R$ 9,63. As primeiras alternativas surgidas para onegro, neste processo, estão relacionadas com trabalhos manuais, ligadosprincipalmente em empregos públicos, nos sistemas de educação e de saúde. O histórico brasileiro foi marcado pela negação das desigualdades raciais,mesmo apresentando profundo distanciamento entre brancos e negros. O Estadosempre demonstrou competência para sufocar os modelos de resistência coletivaque pudessem ameaçar o poder hegemônico estabelecido. As relações raciaisestiveram, por muitos anos, influenciadas pela idéia de democracia racial. Essaimagem dificultou a visão crítica da realidade vivenciada pelo país acerca dasrelações raciais. Somente nos últimos anos, o Estado brasileiro começa areconhecer as desigualdades existentes entre os negros e brancos e a necessidadede implementação de medidas de combate ao racismo e à desigualdade racial. Segundo Lilia Schwarcz (1993), se durante o período escravocrata os negrosestiveram submetidos a todo tipo de suplícios e humilhações, isto não fez com queperdessem seus traços culturais. Ao contrário, foram capazes de impregna-los nacultura da nação. Mesmo estando submetidos ao poder político e econômicovigente no período, sua cultura permanece vigorosa, estabelecendo lugar inegávelna cultura nacional.
  29. 29. 282. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS DA ANÁLISE DO DISCURSO (AD)2.1 AS CATEGORIAS DA AD A AD é a disciplina das Ciências da Linguagem que teve origem na década de1960, em função da contribuição, principalmente, de Michel Foucault e MichelPêcheux. Possui uma base interdisciplinar situada em três domínios: a Linguística, oMarxismo e a Psicanálise, tendo como suportes iniciais o método de análiseestruturalista, o conceito de ideologia marxista e o de sujeito advindo da teoriapsicanalítica. Tem como objetivo demonstrar que “o discurso é o lugar em que sepode observar a relação entre língua e ideologia, compreendendo-se como a línguaproduz sentido por/ para os sujeitos” (ORLANDI, 2005, p.17). Essa teoria especializada em analisar, de forma reflexiva, as construçõesideológicas presentes num texto, sugere que o objeto de estudo não deveria tratarda língua, nem da gramática, embora essas coisas lhes interessassem, e simestudar o discurso, isto é, a palavra em movimento por meio da qual se procuracompreender a língua fazendo sentido, enquanto trabalho simbólico, parte dotrabalho social geral, constitutivo do homem e de sua história, concebendo assim alinguagem como mediadora entre o homem e a realidade socio-cutural. Realidadeque, tratada por esta pesquisa, foi camuflada, se assim pode-se dizer, pelo discursoracista da sociedade brasileira, que influenciou e ditou padrões específicos, muitasvezes massificando a imagem do negro, que nem sempre estava adequada a estespadrões instituídos pelas classes dominantes e que acabou por gerar desvalorizaçãodas diferenças físicas e sociais dessa etnia e suas miscigenações. A partir doestudo dos discursos de valorização do negro e de protesto contra o racismo nasmúsicas será possível estabelecer relações as ações e posturas das sociedades aolongo da história, em relação ao tema, bem como dão sentido e transformam aprópria história através das suas representações discursivas. Conciderando ainda a linguagem como não transparente, a AD procuraentender “como este texto significa”(ORLANDI, 2005, p.17) e não o que ele diz,como ressalva Minton Pinto. “A análise do discurso não se interessa tanto pelo queo texto diz ou mostra, pois nao é uma interpretação semântica de conteúdos, mas
  30. 30. 29sim em como e porque o diz e mostra”.(PINTO, 2002, p.27) A questao é que a AD não trabalha apenas para entender o que os textosexemplificam, mas tem o intuito de produzir conhecimentos a partir do próprio texto,ou seja, trabalha em busca de se estabelecer um determinado sentido. Assim, paraa AD, nos estudos discursivos não existe separação entre forma e conteúdo, ou seja,possuem uma relaçao de reciprocidade . Diante disso, trabalha a confluência entre alinguística, a história e a ideologia, constituindo assim o novo objeto de estudos, odiscurso.2.2 DISCURSO E PODER Foucault (2008) entende o discurso como um “ conjunto de enunciados quese apoiam em um mesmo sistema de formação”, além disso, para ele O discurso - como a psicanálise nos mostrou - não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo; é, também, aquilo que é o objeto do desejo; e visto que – isto a história não cessa de nos ensinar - o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar. (FOUCAULT, 2004, p.10) Essa é uma idéia renovadora em relação ao discurso, este aparece comoproduto de algo que é exterior a ele, que é o poder. “Por mais que o discurso sejaaparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo,rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder” (FOUCAULT, 2004, p.10). Com sólidos conhecimentos acerca das diversas manifestações de poder pormeio do discurso, Foucault nos leva a compreender as idéias básicas de sua linhafilosófica sobre o saber e o poder, bem como a descobrir o poder das palavras nodiscurso do indivíduo, que ora o exclui, ora o torna dono do saber poder, como muitobem se define nos procedimentos externos ou internos de controle e delimitação dodiscurso.
  31. 31. 30 O poder, segundo a conceituação elaborada por Michel Foucault, é vistocomo algo que se dispersou pelas entrelinhas da sociedade. Não é mais aceitocomo um poder que provém do centro do governo para a sociedade. Mas, o queprocura estar em “harmonia” com as possibilidades dos vários locais de poder. Esses poderes determinam discursos próprios para seus interesses,facilitando a ligação entre o discurso que se quer proferir e o poder que pretendeprivilegiar. É válido inferir que o preconceito racial está associado às relações depoder e dominação existentes entre os grupos da sociedade brasileira, não estandorestrito à dimensão individual, mas presente nas relações sociais sobreviventes depadrões arcaicos moldados durante a escravidão. Em outras palavras, o discurso trabalha para o poder e para aqueles quefazem do discurso arma do poder, conduzindo assim os sujeitos que estão à voltadesses núcleos de poder. [...] O poder se excerce em rede e, nessa rede, não só osindivíduos circulam, mas estão sempre em posição de serem submetidos a essepoder e também de exercê-lo. (FOUCAULT, 1999, p.35). O discurso surge como o defensor de um grupo em detrimento de outro,tomando o discurso enquanto desejo, não é só porque o manifesta, mas aquilo que éo objeto de desejo. Enquanto poder, não só porque traduz as lutas, mas aquilo peloque se luta o poder do qual nos queremos apoderar. Dessa forma sublinha a idéia deque o discurso sempre se produziria em razão de relações de poder, as quaiscontrola, seleciona, organiza e redistribui a produção de sentido dentro da própriasociedade. Segundo Focault (2004, p.9), “Sabe-se bem que não se tem o direito dedizer tudo, que não se pode falar de tudo em qualquer circunstância, que qualquerum, enfim, não pode falar de qualquer coisa”. Essa ideia se explica no fato de quepara Foucault alguns assuntos e discussões são proibidos dentro da própriasociedade, uma vez que existem processos de exclusão dentro da produção dodiscurso, os quais dizem respeito aos discursos que coloca em jogo o desejo e opoder.2.3 AS CONDIÇOES SOCIAIS DE PRODUÇÃO DO DISCURSO Para Foucault, é preciso ainda considerar o discurso nas suas condições de
  32. 32. 31produção, considerá-lo limitado por procedimentos de controle e delimitação, que seapresentam tanto de modo externo, como de modo interno. Estas condiçõescompreendem fundamentalmente a relação entre situação e sujeito. SegundoOrlandi, As condições de produção do discurso irão determinar não o sentido em si, mas as posições ideológicas do jogo discursivo. Podemos considerar as condições de produção em sentido restrito e temos as circunstâncias da enunciação: é o contexto imediato. E se as considerarmos em sentido amplo, as condições de produção incluem o contexto sócio-histórico, ideológico. (ORLANDI, 2005, p.30) Pensando nessas afirmações, pode-se inferir que as condições sociais deprodução interferem diretamente no processo discursivo, já que é através dela que osujeito posiciona-se ideologicamente, fazendo com que os discursos funcionem deacordo com valores, os quais estão presentes nos procedimentos de assimilaçãodos sujeitos trabalhados no discurso, analisando assim as relações históricas, depráticas concretas, que estão vivas nos próprios discursos, relacionando deste modoa língua com “outra coisa”. Foucault define como “prática discursiva”. [...] é um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma dada época e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou linguística, as condições de exercício da função enunciativa. (FOUCAULT, 2008, p. 133) Na verdade, tudo é prática para Foucault, uma vez que ela está imerso emrelações de poder e saber, que se implicam mutuamente, constituindo práticassociais permanentemente presas, amarradas às relações de poder, que as supõeme as atualizam, concebendo assim o discurso, não somente como lugar deexpressão de um saber, mas o lugar em que o poder se exerce. Para o teórico (2008, p.55), os discursos são “práticas que formamsistematicamente os objetos de que falam”. As práticas às quais esse autor se refereadvêm de acontecimentos históricos, que são representados sob o ponto de vistadas formações discursivas (FD).
  33. 33. 322.4 FORMAÇÃO DISCURSIVA E IDEOLÓGICA A introdução do conceito de FD coloca em xeque a noção de máquinaestrutural fechada, “na medida em que o dispositivo da formação discursiva está emrelação paradoxal com seu „exterior‟: uma formação discursiva não é um espaçoestrutural fechado, pois é constitutivamente „invadida‟ por elementos que vêm deoutro lugar” (Pêcheux 1997a, p.314). Esclarecendo a noção de FD, Foucault apresenta quatro hipóteses: aprimeira considera que os enunciados, diferentes em sua forma, dispersos notempo, formam um conjunto quando se referem a um único e mesmo objeto; nasegunda, ressalta que para definir um grupo de relações entre enunciados, deve-selevar em conta sua forma e seu tipo de encadeamento; a terceira parte dopressuposto de que não se poderia estabelecer grupos de enunciadosdeterminando-lhes o sistema de conceitos permanentes e coerentes que aí seencontram em jogo. A quarta e última leva em consideração que a identidade e apersistência dos temas podem relacionar os enunciados de uma mesma formaçãodiscursiva (FOUCAULT, 2008, p. 35-43). Esse conceito de FD de Foucault é baseado em um sistema de dispersão,formados por elementos que não estão ligados por nenhum princípio de unidade,cabendo à AD descrever essa dispersão, buscando as “regras de formação” queregem a formação dos discursos. A preocupação de Foucault não é com o discurso,enquanto expressão de uma idéia ou de uma linguagem, mas enquanto suascondições de possibilidade, o que o autor denomina como as condições da“formação discursiva”. A noção de FD para Orlandi (2005) permite a compreensão do processo deprodução dos sentidos e sua relação com a ideologia. Além de dar ao analistapossibilidades de regular o funcionamento dos discursos, lembra que embora sejaainda polêmica, a noção de FD é de suma importância para analisar essesdiscursos, pois permite compreender o processo de produção dos sentidos, bemcomo a sua relação com uma determinada conjuntura sócio-histórica, que determinao que pode ser dito e o que deve ser dito. Determinantes na formação de um discurso, os objetos, os tipos deenunciação, conceitos e estratégias, caracterizam as singularidades e possibilitam a
  34. 34. 33regularidade do discurso. O que Foucault propõe é analisar esses quatro níveis nãocomo elementos dados, mas analisá-los nas suas condições de possibilidade,verificando as regras que tornam possível seu aparecimento e transformação. Ao descrever o conceito de FD, Foucault define aquilo que é essencial paracompreender a constituição de um saber, isto porque, para o autor: “[...] não hásaber sem uma prática discursiva definida, e toda prática discursiva pode definir-sepelo saber que ela forma” (FOUCAULT, 2008, p. 205). Para Orlandi (2005), asformações discursivas são formações componentes das formações ideológicas.Assim sendo, as palavras mudam de sentido ao passarem de uma formaçãodiscursiva para outra, pois muda sua relação com a formação ideológica. Outro conceito importante na AD é o de formação ideológica (FI). Pêcheux, noprimeiro momento de construção de sua teoria, absorve das revisões althusserianassobre o marxismo, apresentando, então, a ideologia como aquela que interpela oindivíduo em sujeito, concebendo assim, o sujeito coagido ao assujeitamento,destacando a autonomia relativa da ideologia de uma base econômica, e a suasignificativa contribuição para a reprodução ou transformação das relaçõeseconômicas. Nesse sentido, o racismo pode se expressar através das estratégiasque os grupos dominantes encontraram para driblar as normas anti-racistas. Trata-se, pois, de discursos ideológicos que justificam a sua situação dominante sem,aparentemente, violar as normas vigentes. Para Orlandi (2005), o discurso não existe sem o sujeito e “não há sujeito semideologia: o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia e é assim que a línguafaz sentido”( p. 46). Reforça a tese de que a ideologia ocorre em formas materiais eatua através da constituição das pessoas como sujeitos sociais, fixando-os emposições-sujeito e dando-lhes, ao mesmo tempo, a ilusão de serem agentes livres. Ao tratar de ideologia, Orlandi (2005) parte da idéia que a ideologia é odiscurso em si, considerando que a forma histórica de um sujeito assim como aideologia da sociedade em que vive, pode alterar sua percepção sobre determinadosdiscursos. Como por exemplo, no capitalismo, onde existem processos deindividualização do sujeito pelo Estado, que o submete a um reflexo da realidadeaparentemente livre e responsável, provocando o assujeitamento dos indivíduos. Aautora também ressalta que “(...) é pela sua abertura que o processo de significaçãotambém está sujeito à determinação, à institucionalização, à estabilização e acristalização” (2005, p. 52), e que por isso temos que trabalhar continuamente a
  35. 35. 34articulação entre estrutura e acontecimento. Adotando a perspectiva de que odiscurso é da ordem da estrutura e do acontecimento, Pêcheux pauta-se na unidadedo discurso para propor modos de leitura Não se trata de pretender aqui que todo discurso seria como um aerólito miraculoso, independente das redes de memória e dos trajetos sociais nos quais ele irrompe, mas de sublinhar que, só por sua existência, todo discurso marca a possibilidade de uma desestruturação-reestruturação dessas redes e trajetos: todo discurso é um índice potencial de uma agitação nas filiações sócio-histórica de identificação. (PÊCHEUX, 2006, p. 56). O autor afirma que “todo enunciado é intrinsecamente suscetível de tornar-seoutro, diferente de si mesmo, se deslocar discursivamente para derivar para umoutro” (PÊCHEUX,2006, p.53), ou seja, uma seqüência lingüística é suscetível dese tornar sempre outra, uma vez que as palavras mudam de sentido conforme asformações ideológicas que as determinam. O que é significativo para a AD, pois osentido não é compreendido como uma unidade fixa, já que é histórico e, por isso,pode deslizar-se para outro, mostrando que a língua tem a sua materialidadediscursiva, ou seja, a tomada de um enunciado pressupõe a consideração dascondições de produção. É indispensável verificar, na associação dos elementos musicais, a presençado elemento ideológico, já que, para se constituir sujeito, o indivíduo é interpeladopela história e pela ideologia (ORLANDI, 2003, p. 46). Essa interpelação acontecequando o indivíduo sofre intervenções da história no sentido de se inscrever em umdiscurso já existente (memória discursiva). E essa inscrição não é eventual, pois háum processo de identificação do sujeito com o discurso predominante.2.5 ENUNCIADO Convém expor ainda o conceito de enunciado. Tendo-se como pressupostos ase considerar o fato de que toda enunciação pressupõe interação verbal entreinterlocutores, pode-se dizer, a partir de Foucault, que o conceito de enunciado, está
  36. 36. 35associado ao de função enunciativa e discurso: em seu modo ser singular (nem inteiramente lingüístico, nem exclusivamente material) o enunciado é indispensável para que se possa dizer se há ou não frase, proposição, ato de linguagem (...) ele não é, em si mesmo, uma unidade, mas sim uma função que cruza um domínio de estruturas e unidades possíveis e que faz com que apareçam, com conteúdos concretos, no tempo e no espaço. (FOUCAULT, 2008, p. 97-98) Essa definição completa-se ao considerar o discurso como um conjunto deenunciados que se apóiam na mesma formação discursiva, constituído de umnúmero de enunciados para os quais se podem definir condições de existência. Oconceito de discurso, compreendendo um conjunto de enunciados que ocorremcomo performances verbais em função enunciativa, é apresentado considerando aidéia de práticas discursivas. Assim, amparado por esse modo de analisar osenunciados, considerando-os instáveis, reconhece-os como objeto de luta, reguladospor uma ordem do dizível, definida no interior de lutas políticas. Ao propor umaexplanação do conceito de enunciado, Foucault diz que: pode-se, na verdade, ter dois enunciados perfeitamente distintos que se referem a grupamentos discursivos bem diferentes, onde não se encontra mais que uma proposição, suscetível de um único e mesmo valor, obedecendo a um único e mesmo conjunto de leis de construção e admitindo as mesmas possibilidades de utilização. (FOUCAULT, 2008, p. 91) Em outras palavras, uma mesma proposição, em sua forma material, podecomportar mais de um significação e definir enunciados diferentes no que concerneà função enunciativa desempenhada, pois a materialidade de um proposição é abase significatica comum. Por isso, Foucault define a materialidade como umapropriedade do enunciado e não como o enunciado produto da intervenção verbal. Ao investigar a materialidade discursiva das músicas, percebe-se que para amaioria das pessoas é uma forma de expressar sentimentos, desejos, frustrações,conceito que não está muito longe da realidade, pois durante muito tempo ela foiutilizada como forma de “abrir os olhos da humanidade” para as questões que
  37. 37. 36afligiam o mundo, como a guerra, a opressão, enfim a discriminação. Partindo dopressuposto de Orlandi de que a Análise de Discurso visa fazer compreender como os objetos simbólicos produzem sentidos, analisando assim os próprios gestos de interpretação que ela considera como atos no domínio simbólico, pois eles intervêm no real do sentido [...](ORLANDI, 2005, p. 26) Para Foucault, o importante é a análise das relações entre os enunciadosnum domínio de coexistência, pensando na existência da palavra como efeito desaberes postos em circulação numa dada época, possibilitando o entendimento decomo se formam os saberes que dão emergência a esses trajetos teóricos quechegam a engendrar qualquer outra coisa.2.6 MEMÓRIA DISCURSIVA Dentro dos postulados da AD Francesa, cada sujeito, na produção de umdiscurso, promove uma relação deste discurso em formulação com o interdiscursoou memória discursiva, ou seja, com todos os dizeres que já foram de fato, ditos.Pêcheux afirma que: a memória discursiva seria aquilo que, face a um texto que surge como acontecimento a ser lido, vem restabelecer os „implícitos‟ (quer dizer, mais tecnicamente, os pré-construídos, elementos citados e relatados, discursos- transversos, etc.) de que sua leitura necessita: a condição do legível em relação ao próprio legível.(PÊCHEUX, 1999, p.52) Em outras palavras, é na memória discursiva que surge a possibilidade detoda formação discursiva produzir e operar formulações anteriores, que já foramfeitas, que já foram enunciadas. Ou seja, a memória discursiva permitirá na infinitarede de formulações (existente no intradiscurso de uma formação discursiva) oaparecimento, a rejeição ou a transformação de enunciados que pertencem aformações discursivas posicionadas historicamente.
  38. 38. 37 Nesse sentido, Orlandi (2006) explica que o conceito de interdiscurso dePêcheux possibilita-nos compreender que as pessoas estão vinculadas a esse saberdiscursivo que não se aprende, mas que produz seus efeitos através da ideologia edo inconsciente. Segundo essa autora, a memória discursiva está articulada aocomplexo de formações ideológicas. Nesse processo discursivo, segundo Pêcheux,os enunciados produzidos em outro período da história podem ser atualizados nonovo discurso ou rejeitados mais tarde em novos contextos discursivos. A partir damemória discursiva, os enunciados pré-construídos podem ser operados naformação discursiva de cada sujeito que, ao produzir novos discursos, constituirelações com o que já foi dito, ou seja, com sua memória discursiva.2.7 PARÁFRASE E POLISSEMIA O funcionamento da linguagem assenta-se na tensão entre processosparafrásticos e processos polissêmicos. Vale salientar que Os processos parafrásticos são aqueles pelos quais em todo dizer há sempre algo que se mantém, isto é, o dizível, a memória. A paráfrase representa assim, o retorno aos mesmos espaços do dizer. Produzem-se diferentes formulações do mesmo dizer sedimentado. A paráfrase esta do lado da estabilização. Ao passo que, na polissemia, o que temos é deslocamento, ruptura de processos de significação. Ela joga com o equivoco. (ORLANDI, 2005, p.36) O primeiro procedimento apresenta-se como indispensável na AD, uma vezque todo o dizer vai se estruturando a partir de famílias parafrásticas, as quais dãocontinuidade ao sentido formado durante a história do indivíduo ou da sociedade.Sobre esse processo, Pêcheux (2001) escreve que “a produção do sentido éestritamente indissociável da relação de paráfrase” e que a família parafrástica deum determinado corpus “constitui o que poderia chamar de matriz de sentido”. (p.155) O segundo é a polissemia, pela qual surge a possibilidade de múltiplossentidos para uma mesma enunciação que fundamenta a atividade do dizer, está
  39. 39. 38diretamente relacionada à criatividade que instaura o diferente na linguagem, namedida em que o uso pode romper com o processo de produção dominante desentidos e, na tensão da relação com o contexto histórico-social, pode criar novasformas, novos sentidos, a multiplicidade de sentidos. Em uma última inferência é importante ressaltar que estes dispositivosanalíticos, são imprescindíveis à realização da AD, constituindo-se, portanto, em umdesafio para aqueles que desejam apreender o processo de realização deste tipo deanálise, já que fazem com que todo sentido se manifeste na relação existente entreo significado e o significante sempre produzindo práticas com sentido. Ainda, autilização desses dispositivos pode colaborar na compreensão de fenômenosdiscursivos que interessam à comunicação e à música, permitindo que novos modosde se pesquisar se concretizem e que intervenções propícias possam serimplementadas no âmbito assistencial.
  40. 40. 393. MÚSICAS DA BANDA REFLEXUS: CONSTRUINDO OS SENTIDOS DAVALORIZAÇÃO E DA RESISTÊNCIA Os sentidos e significados dados às letras das músicas podem serrepresentados a partir do levantamento dos enunciados que expressam discursosreferentes à valorização étnica e de combate ao preconceito racial. É importanteressalvar que dentre as diversas categorias da AD já mencionadas neste trabalho,foram escolhidas como norte principal e metodológico para tecer a análise, ascondições sociais de produção e a memória discursiva. Diante disso, Ao realizar aanálise do discurso desses enunciados, tem-se como objetivo primordialestabelecer/compreender as relações existentes entre a memória discursiva e ascondições sociais de produção. Nesse sentido, a memória recria discursivamentesentidos que dialogam com a produção dos acontecimentos ocorridos no passadoatravés da referência a fatos históricos. Pode ser considerada ainda como “o saberdiscursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do pré-construído,o já dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada da palavra”(ORLANDI, 2005, p. 31). Já as condições sociais de produção referem-se aocontexto histórico em que a música foi produzida, a década de 1980. Todasinfluenciam na produção de sentido da música. Os enunciados transcritos das letras das músicas da banda Reflexu’spossuem uma relação estreita com uma série de formulações com as quais elecoexiste. É através dessas relações que os discursos de valorização da negritude ede resistência se constituíram, como também pelas quais se apagará ou tomará umlugar, podendo ser ou não valorizado, conservado, sacralizado e oferecido, comoobjeto possível, a um discurso futuro. (GREGOLIN, 2006, p.27). Além disso, são constituídos por formações discursivas que condicionam ossujeitos por uma determinada ideologia regulando aquilo que podem ou não dizerem determinadas conjunturas histórico-sociais. São construídos a partir de umamemória discursiva que remete a símbolos da cultura, como também a fatoshistóricos já ocorridos. Partindo do pressuposto de Pêcheux, de que o discurso é sempre produzidopor sujeitos sócio-historicamente determinados e, por isso, condicionado a regrasque regulam as práticas discursivas, as quais determinam as condições de exercício
  41. 41. 40da função enunciativa (2006). A AD possibilitará uma investigação minuciosa dosenunciados, a fim de entender os acontecimentos discursivos que possibilitaram oestabelecimento de certos sentidos em nossa cultura, e concomitantemente nasletras das músicas. Os enunciados foram categorizados de acordo com o pressuposto de que asmúsicas demonstram uma expressiva evidência de resistência e valorização danegritude, ambas relacionadas a elementos culturais. Assim sendo, os enunciadosforam classificados em duas categorias: os que remetem à resistência e luta contra oracismo e à valorização da negritude. Os enunciados foram retirados das letras de 17 músicas da banda Reflexu’sintituladas de: “A fé da razão”, “As forças de Olorum”, “Canto a Minha Cor”, “Canto aNigéria”, “Canto da Cor”, “Canto Para o Senegal”, “Chicote Não”, “Deuses AfroBaianos”, “Jogo Duro”, “Kizomba”, “festa da Raça”, “Libertem Mandela”,” MariꔓMadagascar Olodum”, “Mulher Negra”, “Olodum Ologbom”, “Oração pela libertaçãoda África do Sul” e “Serpente Negra”. Em um universo aproximado de 75 músicas,estas foram retiradas de acordo com a aproximação do tema que aborda a questãodo negro, como também, pelo fato de que todas elas reúnem elementos bemrepresentativos que abordam as duas temáticas centrais - a valorização da negritudee a resistência contra o preconceito racial, estas estão presentes em todo ouniverso. Contudo, estes elementos aparecem de forma mais emblemática e commaior freqüência nas músicas que serão aqui analisadas. É importante enfatizar que a forma como serão analisados os enunciados,seguirá a sequência de categorias estabelecidas anteriormente. Isso só para fins deorganização e como guia de percurso para facilitar o encaminhamento da análisedas letras. É preciso esclarecer também que a ordem em que os enunciadosaparecem no presente trabalho não caracteriza uma importância hierárquica, umavez que todos são de suma importância para a concretização dessa pesquisa. Alémdo mais, as categorias não são isoladas. Apesar dos enunciados serem subdivididosnessas duas categorias distintas, muitos deles se relacionam de forma simultâneacom as duas, no entanto, para fins de análise foi proposta a categorização a partir daidentificação de enunciados com sentido, remetendo-se de modo mais emblemático,ora a uma, ora a outra categoria. Com intuito de estabelecer uma coerência naanálise foram escolhidos três enunciados, os quais representam de modo maismarcante as categorias.
  42. 42. 41 Os enunciados serão representados uniformemente através das marcas: E.1,E.2 e assim por conseguinte.CATEGORIA 1: RESISTÊNCIA E LUTA CONTRA O PRECONCEITOE.13 - E viva Pelô PelourinhoPatrimônio da humanidade ahPelourinho, PelourinhoPalco da vida e negras verdadesProtestos, manifestaçõesFaz o Olodum contra o ApartheidJuntamente com MadagascarEvocando liberdade e igualdade a reinarE. 24 - Liberdade, liberdade Tanto negro sofredorCom a pena de uma ave A historia já mudouNão ser mais chicoteado Pelourinho, só na lembrançaO feito da raça negra Traz a todos esperançaMuita fé, muita coragem Tanta garra, quanto amorPra trazer toda a justiça Que o negro tanto sonhouLibertou do cativeiro Este povo lutadorEste povo tão guerreiro Que Zumbi acobertouCATEGORIA 2: VALORIZAÇÃO DA NEGRITUDEE.35 - Por persistir seu gingado / O negro foi modeladoMostrando a cor mais linda Quando se vê na históriaNão é motivo de glória / A frustração que passou3 ZULU, Rey; JESUS, Marinez de. Madagascar Olodum. In: Reflexu‟s da Mãe Africa. Emi, 1987.Faixa 1.4 REFLEXU‟S; ALMEIDA, Marquinhos. Chicote Não. In: Serpente Negra. Emi, 1988. Faixa 3.5 REFLEXUS; JESUS, Marinez de. A fé da razão. In: Atlântida.som livre, 1999. Faixa 7 .
  43. 43. 42O negro é lindo é uma ostensidade Em erupção, movimento Negros invademNo bate rebate, uma pausa Uma velha canção Inicialmente pode-se observar que toda a composição dos dois enunciados foiconstruída utilizando-se de um passado histórico. A representatividade doPelourinho, centro histórico da cidade de Salvador e patrimônio histórico dahumanidade, é apresentada na letra da música de forma marcante, como “Palco davida e negras verdades”, ou seja, é considerado histórico porque representa aorigem dos negros que aqui foram escravizados. Porém, no segundo enunciado otermo pelourinho vem com outro significado, era utilizado para nomear uma colunade madeira ou pedra erguida em praça pública para castigar criminosos e escravos,servindo também como símbolo do poder público. O pelourinho, segundo Tavares(1981), serviu para acorrentar e castigar escravos. Tem-se aí uma formaçãodiscursiva baseada em fatores simbólicos que se referem a fatores sócio-históricos eideológicos. No trecho “Protestos, manifestações - Faz o Olodum contra o Apartheid”, alémda formação discursiva de resistência ser baseada em uma memória discursiva,considerada aqui como o que já foi dito, que remete à política de segregação doApartheid6. É possível perceber claramente a relação existente entre o desejo e opoder abordado por Foucault, pois considerando que o poder é causador dediscursos, os discursos de protestos e manifestações expressam o poder que sequer privilegiar e apoderar, surgindo como defensor dos negros em detrimento aosbrancos, revelando dessa forma o discurso enquanto desejo proclamado por [...]”Juntamente com Madagascar - Evocando liberdade e igualdade a reinar”.“Liberdade, liberdade Tanto negro sofredor” A partir do enunciado “Com a pena de uma ave A história já mudou Não sermais chicoteado Pelourinho, só na lembrança” já se percebe um discurso libertárioque por meio da memória discursiva remete à abolição da escravatura, focalizando aassinatura da Lei Áurea, pela qual se deu em parte a liberdade aos escravos que6 Será mais detalhado nas análises seguintes.
  44. 44. 43lutaram contra a desigualdade na tentativa de mudar a situação em que a populaçãode cor se encontrava e que em sua grande maioria foi relegada no decorrer doprocesso histórico. Os enunciados incentivam ainda a luta pela emancipação donegro e do reconhecimento e sobrevivência da cultura e da tradição afro-brasileira.Neste trecho pode-se perceber ainda a presença do componente ideológico noselementos musicais, os quais fazem com que o sujeito dessa prática discursiva sejainterpolado pela história e pela própria ideologia (ORLANDI, 2005). Na categoria 2, os enunciados são baseados em discursos provenientes deuma mentalidade anti -racista representada por meio da resistência e de elementosculturais como a dança e a música. Valoriza os negros através de adjetivos elocuções adjetivas “cor mais linda” “O negro é lindo, é uma ostensidade” e dareferência á escravidão, mostrar que esse passado foi superado, tornandonecessário uma nova prática social, que além de respeitar a origem, reconheça-oscomo formadores da cultura da nação. A partir disso, a formação discursiva que rege esses discursos é de sumaimportância, pois admite apreender o processo de produção dos sentidos esignificados, dados aos próprios discursos, bem como a sua relação com umadeterminada situação sócio-histórica, que determina o que pode ser dito e o quedeve ser dito. A polissemia é caracterizada pela emergência do diferente e damultiplicidade de sentidos de valorização e resistência no discurso, tornando suapresença marcante e obrigatória nas mudanças que a sociedade construiu, e podeser percebida em diferentes situações de discursividade ao longo da história donegro.3.1 RESISTÊNCIA E LUTA CONTRA O PRECONCEITO RACIAL O discurso de resistência aparece nas letras das músicas da banda Reflexu’spor meios de representações histórico-culturais que remetem a uma ancestralidadebaseada na religião e em fatos históricos já ocorridos, ou seja, na memóriadiscursiva, que nesse sentido pode ser entendida como as experiências passadas,retomando os sentidos já ditos em algum momento anterior, produzindo dessa forma
  45. 45. 44um efeito no discurso da fala corrente, ou seja, o já-dito possui uma relação com oque se está dizendo (ORLANDI, 2005). Os fatos históricos mencionados possuemalguma ligação com o tema da negritude. Isso pode ser observado com mais clarezanos enunciados abaixo:E. 47: O negro é nativo é guerreiro/ Padecera coisas que Zambi não quisEu trago a força das negras raízes /O grito do escravo acorrentadoO seu passado negro não envolve O presenteE.58: Há tanta estrada a luzir / Quanta ladeira a descerO negro é, mel na cultura /Sobre uma abolição que me dá amargura em dizerEnquanto eles esnobam nobreza / A gente não tem o que comerO negro modela a certeza / De uma igualdade nascer No fragmento “Enquanto eles esnobam nobreza / A gente não tem o quecomer” percebe-se a influência do contexto em que a música foi criada. No início dadécada de 80, o país atravessava uma forte crise econômica, e a região brasileiraque mais se destacou nesse cenário foi o Nordeste que passava por uma situaçãode fome e miséria, até então imensurável. O fragmento em sequência “O negromodela a certeza / De uma igualdade nascer,” fortalece a ideia de que os negros nopaís, em sua grande maioria, se encontravam nessa situação. Os debates atuaisque se referem às questões da exclusão social afirmam que quase sempre essaexclusão se dá pela cor e/ou classe social do indivíduo. Não é interessante observarapenas o contexto em que vivemos para tentar entendê-las em sua totalidade, masretroceder um pouco na história em uma relação dialética com o presente, paraassim compreender melhor como se formaram os processos que afirmaram asclasses e posições sociais brasileiras, ou seja, os exclusos e os inclusos na nossa7 TROPICÁLIA, Itamar; BRITO, Valmir; Julinho. As forças de Olorum. Kabiêssele. Som Livre, 1989.Faixa 3.8CARVALHO, Roque; ALMEIDA, Marcos. Jogo duro. In: Serpente Negra. Som Livre,1988. Faixa 11.
  46. 46. 45sociedade atual. O que é bem visível, e não foge da temática, é que realmentehavia uma classe excluída naquela sociedade, remanescentes principalmente, doprocesso de abolição. Outra forma de marginalização dos negros no Brasil manifestou-se por meioda segregação espacial. Alguns estudos como o de Edward Telles(2003), na obra“Racismo à Brasileira”, mostram que os lugares em que se encontra o maior númeroda população negra são consequentemente os mais pobres. Sendo assim, um dosmeios estratégicos que essa população encontra para rejeitar tal estado de exclusãoé o deslocamento espacial. “A pobreza, o subdesenvolvimento, a falta deoportunidades – os legados do Império, em toda parte – podem forçar as pessoas amigrar, o que causa o espalhamento” (Hall, 2001, p. 28). A alusão a escravatura aparece também com muita freqüência nas letras dasmúsicas, ressaltando a presença do negro escravizado na criação do progresso dosimpérios, denunciando dessa forma a situação em que os negros eram submetidosnaquela época, como mostrado nos enunciados abaixo, os quais fazem referência auma memória discursiva que possibilita um saber perpetuado através do sentido daspalavras dado ao período escravocrata.E.69: Desde o princípio do mundoQue os homens muitas coisas criaramE para a plantação do progressoEscravizaram esse negro nagôE o império do mundoSe excediam em todos os paísesE.710: Pois o sangue desses negrosDerramavam na TerraPara que os senhores passassemUm tipo de vida melhor9 Id.,1989, faixa 3.10 TROPICÁLIA, Itamar; BRITO, Valmir; CARVALHO, Roque. JESUS, Marinez de. Serpente Negra. In:Serpente Negra. 1988. Faixa 1

×