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Diário nordestino mobilização jovem através da imprensa no território do sisal

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  • 1. 1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA Ariclene Cunha SilvaDIÁRIO NORDESTINO: MOBILIZAÇÃO JOVEMATRAVÉS DA IMPRENSA NO TERRITÓRIO DO SISAL Conceição do Coité – BA 2010
  • 2. 2 Ariclene Cunha SilvaDIÁRIO NORDESTINO: MOBILIZAÇÃO JOVEMATRAVÉS DA IMPRENSA NO TERRITÓRIO DO SISAL Trabalho de conclusão apresentado ao curso de Comunicação Social – Habilitação em Radialismo, da Universidade do Estado da Bahia, como requisito parcial de obtenção do grau de bacharel em Comunicação, sob a orientação da Professora Kátia Morais. Conceição do Coité – BA 2010
  • 3. 3 Ariclene Cunha SilvaDIÁRIO NORDESTINO: MOBILIZAÇÃO JOVEMATRAVÉS DA IMPRENSA NO TERRITÓRIO DO SISAL Trabalho de conclusão apresentado ao curso de Comunicação Social – Radialismo, da Universidade do Estado da Bahia, sob a orientação da Professora Kátia Morais. Data:____________________________ Resultado:_______________________ BANCA EXAMINADORA Prof. (orientador)___________________ Assinatura________________________ Prof.____________________________ Assinatura_______________________ Prof.____________________________ Assinatura_______________________
  • 4. 4RESUMO JORNAL DIÁRIO NORDESTINO: MOBILIZAÇÃO JOVEM ATRAVÉS DA IMPRENSA NO TERRITÓRIO DO SISALEste trabalho busca promover uma análise sobre a trajetória do jornal DiárioNordestino, publicado entre junho de 2005 e fevereiro de 2008, na cidade de SãoDomingos, semi-árido da Bahia. O jornal faz parte de um projeto do ICOJUDE,entidade formada por jovens que buscam o desenvolvimento local, incentivando aparticipação popular e valorização da cultura. Através do método da análise deconteúdo das matérias publicadas, buscar-se-á compreender qual a contribuição doDiário para a comunidade local, tomando-se como base critérios jornalísticos. Serátomada ainda como referência para a análise, a relação entre os movimentos sociaise a comunicação no Território do Sisal, onde se insere o jornal, com fins aodesenvolvimento social.Palavras-chave: comunicação, desenvolvimento, história, jornalismo, território.ABSTRACTThis work search to promote an analysis about the trajectory of the newspaper DiárioNordestino‟s, publishing between june of the 2005 and february of the 2008, in thecity of the São Domingos, of the Bahia. The newspaper make part of the a project ofthe ICOJUDE, institution with young that search the local development, incentivingthe popular participation and to valuation of the culture. Through of the method of theanalysis, contents of the matter published, to search the understanding thatcontribution of the Diário’s for the local communication making as base criterionjournalistic. Will be took still as reference for the analysis, the relation between thesocial movement and the communication in the Territory of the Sisal, where thenewspaper, with position for social development.Key-words: communication, development, history, journalism, territory.
  • 5. 5Dedico este trabalho aos meus pais e amigos queme apoiaram nos momentos em que mais precisei.
  • 6. 6 AGRADECIMENTOSÀ Kátia Morais, minha orientadora que esteve comigo em todos os momentos, peloincentivo e pela confiança.Aos meus colegas de sala, que me deram força para produzir, principalmente, AlineAraújo e Vagna Santos, minhas parceiras, colegas, amigas presente comigo durantetodo o curso. AGRADECIMENTO ESPECIAL:À Deus e aos meus pais: Ariel e Elisvalda.
  • 7. 7LISTA DE SIGLASANATEL: Agência Nacional de TelecomunicaçõesAPAEB: Associação dos Pequenos Produtores do Estado da BahiaCEBs: Comunidades Eclesiais de BaseCODES: Conselho de Desenvolvimento Territorial Rural do SisalDN: Diário NordestinoFATRES: Fundação de Apoio aos Trabalhadores Rurais da Região do SisalFLELC: Feira de Leitura da Escola Luiz de CamõesIBGE: Instituto Brasileiro de Geografia e EstatísticaICOJUDE: Instituto de Comunicação e Juventude Diário NordestinoMOC: Movimento de Organização ComunitáriaONGs: Organizações não governamentaisPC do B: Partido Comunista do BrasilPSB: Partido Socialista BrasileiroPSTU: Partido Socialista dos Trabalhadores UnificadoPTDRS: Plano Territorial de Desenvolvimento Rural Sustentável do SisalSINJORBA: Sindicato dos Jornalistas da BahiaSTR‟s: Sindicato de Trabalhadores RuraisTCU: Tribunal de Contas da UniãoTV: TelevisãoUNEB: Universidade do Estado da Bahia
  • 8. 8LISTA DE TABELASQuadro 1: Tabela da população do Território do Sisal entre 1980 e 2005......... 41Quadro 2: Tabela com síntese das matérias publicadas no DN......................... 62
  • 9. 9LISTA DE FIGURASFigura 1: Primeiro exemplar do jornal Gazeta do Rio.............................................. 18Figura 2: Mapa do Território Rural do Sisal.............................................................. 35Figura 3: Matéria do jornal DN edição nº. 9.............................................................. 67Figura 4: Matéria do jornal DN, edição nº 10 ........................................................... 69Figura 5: Matéria/capa do jornal DN, edição nº 15.................................................... 72Figura 6: Capa do jornal DN, edição nº 2.................................................................. 74
  • 10. 10 SUMÁRIOLISTA DE SIGLASLISTA DE TABELASLISTA DE FIGURASINTRODUÇÃO................................................................................................... 111. IMPRENSA NO BRASIL: UMA ABORDAGEM INTRODUTÓRIA................ 161.1. Nascimento da imprensa no Brasil: primeiros impressos............................ 161.2. Imprensa pioneira na Bahia......................................................................... 211.3. A imprensa baiana nos dias atuais.............................................................. 241.4. Imprensa no Território do Sisal.................................................................... 282. TERRITÓRIO DO SISAL: LUGAR DE LUTA, RESISTÊNCIA EESPERANÇA..................................................................................................... 342.1. O Território e suas características............................................................... 342.2. Vegetação e Fauna Sisaleira....................................................................... 392.3. População.................................................................................................... 402.4. A mobilização da Sociedade Civil................................................................ 432.5. Algumas organizações sociais que se destacam no Território.................... 473. A TRAJETÓRIA DO JORNAL DIÁRIO NORDESTINO NA CIDADE DESÃO DOMINGOS............................................................................................... 533.1. ICOJUDE: uma representação juvenil no território sisaleiro....................... 533.2. O Jornal Diário Nordestino.......................................................................... 563.3. A análise de conteúdo do DN...................................................................... 603.3.1. Social........................................................................................................ 623.3.2. Cultura e Lazer......................................................................................... 643.3.3. Esporte..................................................................................................... 663.3.4. Educação.................................................................................................. 673.3.5. Meio Ambiente.......................................................................................... 683.3.6. Policial...................................................................................................... 693.3.7. Saúde....................................................................................................... 703.3.8. Política...................................................................................................... 703.3.9. Culinária.................................................................................................... 723.3.10. Capas..................................................................................................... 734. Resultados da análise.................................................................................... 75CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................... 77REFERÊNCIAS.................................................................................................. 81
  • 11. 11INTRODUÇÃO Frutos das sociedades capitalistas, os meios de comunicação de massanascem com o papel de preencher lacunas nas interações diretas no contexto dedesenvolvimento das cidades, ampliação das distâncias geográficas entre ossujeitos e escassez de tempo, diante do aumento na velocidade do ritmo cotidiano.Assim, esses meios possuem desde o seu surgimento, dentre outros, o papel deinformar o cidadão sobre o que acontece à sua volta e, ao divulgar essasinformações, influenciar a opinião da comunidade e pretensamente despertar osenso crítico das pessoas. Reforçando essa idéia, Ribeiro (2004, p. 4) diz que “valedestacar o papel desempenhado pela mídia, que fornece informações e pontos devistas diferentes (pluralismo) para que os indivíduos formem valores sobre assuntosde interesse – que contribui para o aprimoramento da democracia deliberativa”. Entre todos os veículos de comunicação existentes, é preciso destacar opapel exercido pela imprensa, pelo jornalismo e por todos os profissionais queatuam nessa área, pois se trata de um meio que distribui conhecimento e informaçãoà sociedade, seja ele através do rádio, da TV, do jornal impresso, da internet ou demeios informais. Dando ênfase ao jornalismo, Traquina (2005) defende que este éentendido como uma realidade seletiva construída através de processos deinteração social entre os profissionais do campo jornalístico, suas diversas fontes e asociedade e, mesmo limitado e constrangido, o poder do jornalismo e dos jornalistasaponta para a importância das suas responsabilidades sociais. Refletindo sobre o assunto, pode-se dizer que esses meios de comunicaçãoocupam um lugar de destaque na sociedade pela sua história e sua influência,tornando-se, inclusive, parte dela. Porém, é necessário se pensar de que formaesses veículos atuam, se eles se adequam aos ambientes, aos comportamentos, à
  • 12. 12cultura dos indivíduos, pois é através desses fatores que estes consegueminterpretar e entender o que está sendo divulgado. De modo complementar, para oentendimento da mensagem, é preciso que esse veículo tenha uma linguagem clarae objetiva. Para Vicchiatti (2005, p. 40) a linguagem “encerra o sentido de comunicaçãopor meio de um sistema de códigos que sejam compreendidos por outros seressemelhantes”, sendo o instrumento através do qual o homem exercita suacapacidade de imaginar e comunicar experiências. A colocação do autor parece ter consistência, tendo em vista o fato de ser alinguagem composta por signos e símbolos que são decodificados pelo indivíduo apartir de suas especificidades culturais, ou seja, dos contextos sociais onde seinserem. Através dela ainda se é possível imaginar, criar ou recriar uma determinadasituação. Aplicando essa noção ao contexto específico do jornalismo, segundo oManual de Redação da Folha de São Paulo, “o texto do jornal deve ter estilo próximoda linguagem cotidiana, sem deixar de ser fiel à norma culta, escolhendo a palavramais simples e a expressão mais direta e clara possível, sem tornar o textoimpreciso” (apud VICCHIATTI, 2005, p. 38). Para o maior entendimento do leitor alinguagem do jornal precisa estar de acordo com a cultura local e com o contexto emque se vive, porém não se pode fugir às regras da língua portuguesa, mas épossível se utilizar uma linguagem coloquial para facilitar a decodificação dainformação. Assim, é impossível não contextualizar a imprensa e o jornalismoregional/local que caracterizam este povo por estarem próximos dos atores sociaisque fazem as notícias acontecerem. Ribeiro (op.cit., p. 7) afirma que “a identidade
  • 13. 13regional necessita de mecanismos de produção simbólica que contemplem o reforçodo sentimento de pertença”. Nesse caso, o indivíduo precisa se sentir integrante docontexto em que está inserido, ou seja, do local. A autora acrescenta ainda que, ao abordar a questão território/conteúdo na imprensa regional, Camponez é enfático: “quem diz imprensa regional diz informação local”. A partir dessa afirmação, é possível compreender a razão de ser do jornalismo regional, uma vez que existe uma ligação conceitual entre localização territorial e a territorialização dos conteúdos. (ibid. p. 7). É notório então que a imprensa e o jornalismo regional precisam trabalhar emconjunto em busca da veiculação de informações locais e de interesse do seupúblico-alvo, compreendendo os seus gostos, hábitos, costumes e interesses econtextualizando com o que será divulgado. Buscando entender um pouco essa realidade jornalística regional/local, apresente monografia tem como objetivo analisar a trajetória do jornal DiárioNordestino, que circulou de 2005 a 2008 na cidade de São Domingos, região semi-árida da Bahia, para, através dos conteúdos publicados nas edições, identificar acontribuição informativa do jornal para a comunidade, observando o contextohistórico local. Nesse processo, é preciso pensar o desenvolvimento e concepção dojornal, ou seja, de que forma as notícias eram divulgadas, observando seu valorinformativo com o olhar voltado para o leitor. A partir disso, buscar-se-á responder àseguinte questão: Qual a contribuição informativa do jornal impresso DiárioNordestino para a comunidade de São Domingos onde os únicos meios decomunicação acessíveis à população são o rádio e a TV? A metodologia utilizada para esse estudo será a análise de conteúdo, já quese busca verificar o teor do conteúdo das matérias publicadas no jornal. Será feita aanálise de dezesseis edições do jornal, publicadas no período de junho de 2005 adezembro de 2006. Segundo Laville e Dione (1999, p. 214) “o princípio da análise de
  • 14. 14conteúdo, consiste em desmontar a estrutura e os elementos desse conteúdo paraesclarecer suas diferentes características e extrair sua significação”. Em outraspalavras, esse tipo de análise procura estudar o seu objeto minuciosamente, paraentão identificar suas características, seu significado e seus valores. Essa metodologia poderá contribuir para descobrir de que forma o conteúdodas matérias veiculadas era importante para a população levando em consideraçãoo local- mesmo diante de desafios como a falta do hábito de leitura e o baixo índicede escolaridade, principalmente entre adultos e idosos na região estudada-buscando perceber, assim, se as notícias contribuíam de alguma forma para odesenvolvimento dos leitores por se tratar do único veículo impresso de informaçãoproduzido no município de São Domingos durante o período investigado. A fim de discorrer sobre a problemática descrita, a presente monografia serádividida em três capítulos. O primeiro, “Imprensa no Brasil: uma abordagemintrodutória”, fará um breve relato sobre a história da imprensa no Brasil, na Bahia eno Território do Sisal, apresentando alguns dos principais jornais que existiram nodecorrer da história e a importância de cada um deles. Apoiaremo-nos, nestemomento, em conceitos de autores como, Cicillini, Guedes, Melo, Oliveira, Sodréentre outros. No segundo capítulo, “Território do Sisal: lugar de luta e esperança”, será feitauma abordagem a fim de contextualizar este espaço, já que nele se insere o objetode análise deste trabalho. Para isso, serão apresentados aspectos como vegetação,fauna e população, além destacar a planta que caracteriza a região e que é tambéma principal fonte de renda da população local: o sisal. A mobilização social, aparticipação e a luta pelos direitos também ganha espaço neste capítulo,explicitando assim, um pouco sobre os movimentos sociais, organizações,
  • 15. 15sindicatos, ONGs entre outras instituições que exercem um papel importante nacomunidade e que através de esforços conquistam espaço e ações em prol dasociedade civil dentro do território. Esse assunto será abordado pela força que essaquestão tem no Território, na tentativa de situar o leitor no contexto social do objetode estudo desta monografia. Autores como, Andrade, Gomes, Hubschamn, Kunsch,Peruzzo, Santos, Toro e Werneck embasam esta parte da pesquisa. O terceiro e último capítulo, intitulado “A trajetória do jornal Diário Nordestinona cidade de São Domingos”, trará a análise de conteúdo do jornal estudado eapresentará o ICOJUDE (Instituto de Comunicação e Juventude Diário Nordestino),instituição idealizadora do Jornal, com uma rápida abordagem sobre suas ações eseus projetos. A descrição do jornal abordará seu surgimento e característicascomo, formato, tiragem, custos, linguagem das matérias, dentre outros. Por fim, seráfeita a análise do conteúdo das matérias nas dezesseis edições analisadas, sendoesta parte subdividida em tópicos das editorias de acordo com os assuntos, critériosjornalísticos para divisão de áreas por temas abordados. Por fim, serão feitas as considerações finais, que buscarão contemplar, à luzdo referencial teórico adotado, uma reflexão sobre o papel exercido pelo jornal DiárioNordestino para a comunidade de São Domingos, tendo em vista suas limitações,falhas e possíveis contribuições para o desenvolvimento local.
  • 16. 161. IMPRENSA NO BRASIL: UMA ABORDAGEM INTRODUTÓRIA Este capítulo está dividido em quatro seções. A primeira, “Nascimento daimprensa no Brasil: primeiros impressos”, buscará uma aproximação com o universodo jornalismo impresso brasileiro a partir de referências a alguns dos jornais quefizeram parte da história da impressa nacional em seus primórdios. A segundaseção, “Imprensa pioneira na Bahia”, irá tratar dos principais periódicos jornalísticosimplantados no Estado, bem como suas características, a fim de compreendermos operfil traçado pela impressa baiana em seu primeiro momento. A terceira seção, “AImprensa baiana nos dias atuais”, abordará os três jornais de maior circulaçãoatualmente no estado, abordando rapidamente suas linguagens e formatos. Por fim,a seção “Imprensa no território do sisal” se dedicará à apresentação de alguns dosimpressos que compõem a produção jornalística do território, tendo em vista ser esteo espaço no qual se insere o jornal investigado nesta monografia, e que seráexplorado no terceiro capítulo.1.1. Nascimento da imprensa no Brasil: primeiros impressos A imprensa no Brasil é oficialmente implantada em 1808, após a chegada deD. João, que, impedido de permanecer em Lisboa em decorrência da invasãofrancesa, instalou a sede do Reino Português na cidade do Rio do Janeiro. Deacordo com Melo (2003, p. 87-88), [...] Mantinha-se o Brasil, até aquela época, em situação de atraso, não preenchendo os requisitos mínimos para abrigar o Príncipe Regente e seus nobres acompanhantes, acostumados aos progressos de uma capital européia [...] a implantação da imprensa não constituiu uma iniciativa isolada, mas vinculou-se a um complexo de medidas governamentais capazes de proporcionar o apoio infra-estrutural para a normalização das atividades da Coroa Portuguesa.
  • 17. 17 Reforçando esse pensamento, na obra “História da Imprensa no Brasil”,Sodré (1999, p.01) esclarece que a imprensa brasileira nasce atrelada ao poderpolítico e que “a história da imprensa no Brasil é a própria história dodesenvolvimento da sociedade capitalista”, tendo em vista o contexto deconcentração urbana, início do processo de desenvolvimento do comércio eindústria e elevação do nível cultural das elites vindas de Portugal. Naquelemomento, a imprensa chegava ao país com um forte poder influenciador sobre ocomportamento dos indivíduos, e como interessava à Coroa criar uma imagempositiva diante da população, a imprensa foi um dos instrumentos escolhido paraisso. O primeiro folheto impresso no Brasil chamava-se Relação da Entrada, comdezessete páginas de texto, redigido por Luís Antônio Rosado da Cunha e impressopor Antônio Isidoro da Fonseca, antigo impressor conceituado em Lisboa(OLIVEIRA, 2009). Já o primeiro jornal oficial do país, a Gazeta do Rio de Janeiro,foi lançado em setembro de 1808 e feito na imprensa oficial. Os textos veiculados nojornal eram extraídos da Gazeta de Lisboa e de outros jornais ingleses. SegundoOliveira (ibid, p.16), [...] Seu caráter era de folha unilateral devido à defesa e exaltação do império português. [...] Nos primeiros números tratava quase que apenas sobre a situação de Portugal e Espanha, nações resistentes à dominação de Napoleão e suas tropas. Contava com assinantes e publicava anúncios de comércio. Ao todo, saíram do prelo 32 edições, sendo a maioria extraordinária com quatro páginas. A Gazeta era publicada semanalmente, passando por um período depublicação bissemanal e, a partir de agosto de 1821, circulava três vezes porsemana. O jornal era editado por Frei Tibúrcio José da Rocha e seu conteúdo serestringia aos interesses da Coroa, com assuntos voltados para a vida cortesã. Em29 de dezembro de 1821 o impresso passou a se chamar Gazeta do Rio e,
  • 18. 18posteriormente, com a independência da República, denominou-se Diário doGoverno. Abaixo uma reprodução do primeiro exemplar da Gazeta: Figura 1: Fonte: http://commons.wikimedia.org Outro jornal que se destacou na imprensa brasileira foi o Correio Brasiliense,lançado em Londres por Hipólito da Costa, cidade onde o brasileiro se encontravaexilado diante de momento de forte censura frente aos meios de comunicaçãoproduzidos no país. O jornal era dividido em seções e divulgava documentos,notícias sobre o comércio, informações científicas e literárias, dentre outros temas. O Correio circulou de 1º de junho de 1808 a dezembro de 1822. Por serclandestino, durante todo esse período o impresso encontrou dificuldades para semanter, tendo enfrentado perseguição do governo. Com características específicas,Gazeta e Correio, são marcos importantes da história da imprensa nacional em seusprimeiros momentos. Para Sodré (op.cit., p. 22), [...] a Gazeta era embrião de jornal, com a periodicidade curta, intenção informativa mais do que doutrinária, formato peculiar aos órgãos impressos do tempo, poucas folhas, preço baixo; o Correio era brochura de mais de cem páginas, geralmente 140, de capa azul escuro, mensal, doutrinário muito mais informativo, preço muito mais alto [...] destinava-se a conquistar opiniões.
  • 19. 19 O grande questionamento colocado por alguns historiadores quanto àinserção do Correio na história da imprensa nacional diz respeito à sua produçãocom um olhar externo, logo que o impresso era produzido de Londres a partir derelatos de informantes que estavam no Brasil. Já a Gazeta, era patrocinada pelaCoroa, mantendo caráter informativo, mas a partir da ótica do poder real edivulgando apenas o que era de interesse do governo. A partir de 1820, diante do surgimento de novos impressos, desvinculados dopoder real e desenvolvidos diante de um olhar “interno”, o Correio já não ocupavaprestígio, uma situação intensificada com a Independência do Brasil, fator decisivopara o desaparecimento do veículo. Nesse contexto surgiram vários periódicos, dentre eles o Diário do Rio deJaneiro, fundado em 1º de junho de 1821 e extinto em 1878. Redigido peloportuguês Zeferino Vito de Meireles, foi o primeiro jornal realmente informativo dopaís. Segundo Sodré (ibid, p.50-51), [...] Diário, ocupava-se quase tão somente das questões locais, procurando fornecer aos leitores o máximo de informação. Inseria informações particulares e anúncios [...] A popularidade do periódico cresceu: passou a ser conhecido como Diário do Vintém, pelo preço, e como Diário da Manteiga porque trazia os preços, entre outros gêneros, da manteiga que chegava à Corte para consumo da população. Segundo o autor, o Diário procurava se distanciar das questões políticas dopaís dando enfoque a temas ligados mais diretamente ao cotidiano da cidade, comofurtos, reclamações e divertimentos, tendo ainda um espaço destinado à literatura,por iniciativa do romancista e redator-chefe do jornal, José de Alencar. Naqueleperiódico, o escritor publicou obras como Cinco Minutos, O Guarani e a Viuvinha(SODRÉ, 1999). Outro jornal desse período foi o Diário de Pernambuco, fundado em 7 denovembro de 1825, pelo o tipógrafo Antonino José de Miranda Falcão. O Diário de
  • 20. 20Pernambuco tinha o objetivo de ser informativo, atendendo ao comércio e aosinteresses da comunidade. Posteriormente, assumiu um caráter mais discursivo edenunciador, divulgando intrigas provincianas, o que resultou na proibição decirculação de alguns exemplares (OLIVEIRA, 2009, p. 17). Dois anos após o nascimento do Diário, em 1º de outubro de 1827 surgiu noRio de Janeiro o Jornal do Commercio, por iniciativa de Pierre Seignot Plancher. Ojornal contou com grandes nomes durante sua trajetória, como Rui Barbosa eVisconde de Taunay, dentre outros. Em 1959 passou a integrar o grupo DiáriosAssociados e teve um papel importante na história do Brasil, pois acompanhou atrajetória do país desde o Império, até os dias de hoje. Outro momento importante para a história da imprensa nacional parte dacriação do Pasquim, em 1969, por João Maria da Costa e José Joaquim deCarvalho. Nascido como imprensa alternativa num período de regime militar, tratou-se de um tablóide de circulação semanal com uma trajetória marcada por fortecensura e perseguição governamental. O Pasquim possuía características específicas. Com sua linguagem informale ilustrativa, procurava combater a censura durante a ditadura militar, publicandocharges, caricaturas e outras ilustrações que refletiam a situação. O veículo teve emsua equipe nomes significativos da história da comunicação brasileira como PauloFrancis, Jaguar, Ziraldo, Millôr Fernandes, Henfil e Ferreira Gular. Por causa de uma sátira de Dom Pedro às margens do Ipiranga publicada em1970 a redação inteira do jornal foi presa. Decorrida esta situação, os militaresesperavam que o semanário saísse de circulação e seus leitores perdessem ointeresse, porém o Pasquim não parou por aí, Millôr Fernandes se tornou o novodirigente do informativo até 1971, época que os outros dirigentes foram libertos da
  • 21. 21prisão. A partir de 1980, as bancas que vendiam os jornais começaram a sofreratentados como, explosões e ameaças constantes. Começava o início do fim para oPasquim, que acabou sendo extinto em 1991. Assim, é notório que a imprensa se desenvolve de acordo com a situaçãopolítica e econômica do país. Nas cidades desenvolvidas o avanço é maior, pelo fatode estarem concentradas as sedes do governo, enquanto nas províncias se mantémo sistema atrasado. Dessa forma, um olhar pela história revela que estados comoSão Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco se destacam noaparecimento e veiculação de informativos de cunho jornalístico.1.2. Imprensa pioneira na Bahia: A Bahia também ocupa destaque na história da imprensa do país.Advogados, médicos e clérigos, tornando-se editores e diretores de jornais,fundaram e consolidaram a imprensa baiana (OLIVEIRA, 2009, p. 23). O primeirojornal no estado surgiu em 14 de maio de 1811, intitulado Idade d’ Ouro do Brazil, doportuguês Manuel Antônio da Silva Serva. Circulava às terças e sextas-feiras, comquatro páginas, [...] O jornal era quinzenário e editado no país, em sua própria tipografia. Possuía linha submissa aos ditames do poder colonial e trazia ironicamente inscritos no cabeçalho, os versos do português Sá de Miranda: “Falei em tudo verdades/A quem em tudo a deveis”. Apesar de estar teoricamente voltado à publicação de informações para a sociedade baiana, o jornal terminava por veicular apenas as verdades aceitas pelo regime absolutista. (SOUZA, apud OLIVEIRA, 2009, p. 22-23). O impresso possuía uma característica própria, as notícias políticasapareciam de maneira mais fria, sem tantos detalhes, anunciando-se apenas osfatos, mas sem deixar de tentar influenciar o leitor através das entrelinhas. A linha
  • 22. 22editorial do jornal se mantinha conservadora e defendia o absolutismo monárquicoportuguês. De acordo com Sodré (op. cit., p. 29), Essa pretensa isenção, entretanto, não deveria impedir a folha de mostrar “como o caráter nacional ganha em consideração no mundo pela adesão ao seu governo e à religião”. Assim, deveria ser imparcialmente a favor do absolutismo e constitui-se em órgão de sua louvação. Dessa forma, as informações publicadas no Idade d’ Ouro eram de extremointeresse das autoridades. Com a derrota do general Inácio Luís Madeira de Melo ea expulsão das forças portuguesas da Bahia, o jornal foi extinto, em 24 de junho de1823. Outro jornal importante na história da imprensa baiana foi O DiárioConstitucional, criado em 4 de agosto de 1821 para defender os interessesbrasileiros. Para Lopes (2008, p. 2), “o jornal apoiava a maioria brasileira na JuntaProvisional, que substituía o governador baiano”. E acrescenta que “essa junta eraformada pela maioria de portugueses e tinha o apoio de órgãos oficiais, conhecidoscomo áulicos, principalmente o Semanário Cívico e Idade de Ouro do Brasil”. O Diário travou uma disputa política saindo da monotonia da imprensa naépoca, durante um período de eleição para o governo da Bahia. Por conta daviolência travada durante a campanha eleitoral, o jornal suspendeu provisoriamentesua circulação, voltando a ser distribuído em 10 de maio de 1822, com o nome de OConstitucional, já que deixava de ser um jornal diário (SODRÉ, 1999, p. 52). O papel do Diário era tonificar as autoridades que pendiam para a obediênciaa D. Pedro, enquanto se organizava, no Recôncavo, a força capaz de enfrentar atropa de Madeira. Os redatores do jornal perturbavam a ordem no país. Em 21 deagosto, o jornal publicou uma correspondência contra o „cordão de despotismo‟, fatorimprescindível para o seu empastelamento, em 1823. Descrevendo o fato, Sodréafirma que,
  • 23. 23 [...] à frente de tropilha de militares, o coronel Almeida Serrão invadiu a oficina, decompôs o dono, proibindo-lhe continuar a imprimir o jornal, correu à residência de Corte-Real e, não o encontrando, quebrou os móveis à vista da família, terminando por assaltar as lojas onde se vendia a folha, depredando-as. (op.cit., p. 53). Nesse período os jornais tinham que seguir a linha ideológica do governo,mostrando aí sua submissão a ele. Aqueles que estavam contrários ao seupensamento tinham suas oficinas destruídas, saindo assim de circulação. Novos diários aparecem no cenário baiano como o Guayacurú que difundia osideais republicanos e o Diário da Bahia, que na vida pública teve um papelimportante pelos nomes ilustres em sua redação e por participar dos movimentosque interessavam à capital baiana. O Ateneu circulou de 1849 a 1950, sobresponsabilidade da Escola de Medicina da Bahia. Era um periódico científico eliterário mensal, produzido por professores e estudantes de Medicina, poetas eescritores, com formato diferenciado, baseado num estilo de revista, com poucosanúncios (SOUZA, apud OLIVEIRA, op. cit., p. 23-24). O Diário de Notícias da Bahia circulou em Salvador durante 1935 a 1941,tendo sido [...] um vespertino que desenvolveu ampla campanha política favorável à Alemanha nazista. O diário refletia o esforço das autoridades do III Reich em divulgar as ideologias nazi-fascistas em todo o mundo e foi instrumentalizado por autoridades germânicas que atuavam no Brasil. Tal ação ocorreu sob os consentimentos do presidente Getúlio Vargas e da elite política baiana. (JUNIOR, apud OLIVEIRA, ibid, p. 24). O jornal era considerado um panfleto propagandístico nazista e enquadradocomo um modo de produção capitalista. Em agosto de 1942 foi empastelado. Acausa foi a indignação de setores da população soteropolitana com relação àpostura editorial assumida pelos dirigentes do jornal no seu período de circulação nacidade.
  • 24. 241.3. A imprensa baiana nos dias atuais: Segundo o Sindicato dos Jornalistas da Bahia (SINJORBA), não há umnúmero oficial de quantos jornais circulem atualmente na Bahia, já que não existeum órgão responsável pela verificação desses dados1. Soma-se a isso a falta deregistro de alguns impressos e a dimensão territorial do estado, o que dificulta aoacompanhamento dos periódicos. A fim de traçar um perfil geral da produção jornalística impressa atual noestado da Bahia, nos concentraremos aqui nos três jornais de maior circulação, ATarde, Tribuna da Bahia e Correio da Bahia, todos com sede na capital. O jornal A Tarde foi fundado em 15 de outubro de 1912, pelo jornalista epolítico Ernesto Simões Filho. Colorido, o jornal é dividido em cinco cadernos fixosque se subdividem em cinqüenta e oito páginas e abordam temas como economia,política, cultura, esporte, emprego, além de notícias locais, regionais, estaduais enacionais. Um caderno especial que sai às sextas-feiras com dezesseis páginas é oFim de Semana que divulga eventos, shows, peças sobre os seguintes temas:cinema, crianças, estação, gula, música, cênicas entre outros. Esse caderno, naverdade, é uma exposição dos eventos que irão acontecer de atração na cidade,incentivando os indivíduos a prestigiarem o trabalho artístico dos profissionais daárea. Com diagramação organizada estrategicamente para chamar a atenção doleitor, o informativo utiliza-se de muitas fotos para ilustrar as matérias e textos emsua maioria curtos2.1 Informação cedida por telefone pela secretária do SINJORBA em dezembro de 2009.2 Informações observadas através da análise do periódico do dia 08 de janeiro de 2010, ano 98, nº 33.147.
  • 25. 25 O A Tarde lançou em 2008 a revista MUITO, que acompanha o impresso naedição de domingo. Segundo dados extraídos do site do Jornal3, a revistaconstituída em média de cinqüenta e duas páginas, ocupa o posto de maior revistade circulação Norte/Nordeste, com cem mil exemplares. Seu conteúdo aborda temascomo moda, gastronomia, personalidades, esportes, qualidade de vida e consumo.Laércio Lucas e Celane Rosa, no blog Comunicação Café: História do Jornal ATarde, defendem que o A Tarde é “um jornal diário que circula no estado da Bahia,sendo considerado o maior jornal do Norte/Nordeste do país” e acrescenta que “naatualidade, é o diário mais antigo em circulação”. Em virtude da tecnologia e darapidez exigida para se divulgar os fatos, o A Tarde também está disponível nainternet, com sua versão online, trazendo notícias sobre política, cultura, cinema,esporte, tempo, mundo, entre outros. Outro jornal importante da Bahia é o Tribuna da Bahia, fundado por ElmanoSilveira Castro em 21 de outubro de 1969, num período de ditadura militar no país,apresentando uma linha editorial que defendia a independência do status quo, [...] com uma nova linguagem, ousado conceito gráfico, novas expressões, quebrando muitos tabus do jornalismo, graças à audácia de seu redator- chefe, Quintino de Carvalho. Cabe lembrar que a Tribuna da Bahia, internamente, também foi audaciosa ao implantar, pela primeira vez no Brasil, um manual de redação e criar a famosa Escolinha TB de Jornalismo. (BRUNO, 2003, p.1). Ao longo dos anos de circulação, o Tribuna passou por altos e baixos, tendoconseguido se manter nos períodos de crise. No dia 21 de julho de 2003 o veículoaparece nas bancas com uma cara nova. [...] Segundo editorial assinado por Paulo Roberto Sampaio, a TB está "totalmente remodelada, com novo conceito gráfico, mais conteúdo, espaço crítico ampliado, novos colaboradores, cronistas e articulistas de renome nacional e um compromisso renovado com a Bahia..." (ibid, 2003).3 www.atarde.com.br
  • 26. 26 Atualmente, o jornal diário chega às bancas com vinte e quatro páginasorganizadas em cinco cadernos que trazem as seguintes editorias: Política, Brasil,Cidade, Saúde, Esporte, Segurança, Municípios e Dia & Noite. Esta última enfatiza acultura divulgando shows, peças e notícias sobre os artistas4. Os cadernos doinformativo possuem sempre a primeira e última página coloridas e o restante empreto e branco. Já a sua diagramação é bem estruturada, não havendo uma„poluição visual‟ – excesso de informação, através de fotos e textos, que deixa ojornal com uma aparência cansativa. No conteúdo do jornal não se encontramclassificados e nota-se um número pequeno de anúncios publicitários. As matériasrelatam fatos, ações, denúncias, entretenimento entre outros temas que ocorrem naBahia, no Brasil e no mundo, dando uma atenção maior ao local. O informativo aindadivulga suas notícias na versão online5. O terceiro impresso de maior circulação no Estado é o Correio da Bahia.Fundado em 20 de dezembro de 1978, faz parte da Rede Bahia e está ligado aogrupo do político Antonio Carlos Magalhães. Segundo Anjos (2004, p. 8), o jornal setornou um importante instrumento de comunicação para a família Magalhães efuncionava como porta voz das ações deste grupo. No decorrer de sua trajetória, o Correio passou por algumas alterações emseu projeto gráfico, fruto da própria demanda do mercado: “Ao longo de sua história,o periódico passou por inúmeros processos de renovação tecnológica, sempreapoiados por uma agressiva política de marketing, criando promoções para aconquista de mais leitores e anunciantes” (Rede Bahia de Comunicações, apudLIMA, 2003, p. 133).4 Informações adquiridas através da análise do jornal do dia 8 de janeiro de 2010, ano XL, nº 12776.5 www.tribunadabahia.com.br
  • 27. 27 O informativo circula nas principais cidades da Bahia, tendo presença maisforte na Região Metropolitana de Salvador. De acordo com informações do seuexpediente, o número de assinantes é hoje de cerca de dezesseis mil, sendo atiragem diária de vinte e dois mil exemplares de segunda a sábado e trinta mil aosdomingos. A maioria dos leitores do impresso pertence às classes A e B (ANJOS,op. cit.). Atualmente denominado Correio*, acompanhado do logotipo “O que a Bahiaquer saber”, o jornal inovou no seu projeto gráfico e passou a ser publicado emformato de revista, com trinta e seis páginas distribuídas em editorias como:Variedades, Bahia, Economia, Brasil, Mundo, Esporte, Mais e Vida além dosclassificados e do caderno 24h*6. Com páginas coloridas, exceto os classificados, ojornal possui uma diagramação e uma distribuição publicitária estratégica, na maioriadas vezes em páginas pares que chamam mais atenção ao leitor. O Correio*também conta com a versão online7. De modo geral, o que se observa é que, além de uma própria necessidade dese atender ao mercado, as alterações pelas quais os jornais impressos têm passadoem termos de formato, conteúdo e técnica possuem uma relação direta com oadvento de suas versões online. A instantaneidade e agilidade típicos do meiovirtual, ao mesmo tempo em que vêm reduzindo o número de leitores do impresso,têm exigido constantes adaptações por parte dos veículos, fazendo com que elesbusquem formatos mais atrativos, conteúdos mais diretos, temas mais diversos,dentre outras medidas para atrair o leitor. No entanto, não se deve perder de vista o6 Informações constatadas através da análise do jornal do dia 8 de janeiro de 2010, ano XXX, nº 09952.7 correio24horas.globo.com
  • 28. 28perfil de cada um desses veículos, devendo exercer cada um seu papel específico,respeitando-se suas características, enquanto meios de comunicação.1.4. Imprensa no Território do Sisal: Tendo em vista que o jornal objeto de análise deste trabalho se insere noespaço semi-árido baiano denominado Território do Sisal8 faremos uma breveabordagem sobre impressos significativos ali implantados. Atualmente o Territórioconta com jornais quinzenais e mensais em circulação. Quanto aos grupos aosquais se vinculam, esses impressos nascem a partir de projetos desenvolvidos pororganizações da sociedade civil ou por apoio do poder público. Refletindo sobre o caráter de publicações jornalísticas em contextosterritoriais menores- tomando-se como referência jornais de grande circulação- aliteratura apresenta algumas características peculiares a esse tipo de impresso. Demodo geral, autores ressaltam o perfil de maior proximidade com o leitor, diante deuma maior interação entre leitores e redatores, sendo os primeiros, em muitoscasos, fonte para as matérias. Para Oliveira (2009, p.25), em impressos regionais oulocais, o autor da matéria ou da nota conhece “algo mais” sobre elas e o contexto da notícia. Este algo mais diz respeito à personalidade, aos casos de família, aos acontecimentos banais e polêmicos envolvendo-as, à sua rotina na cidade, enfim, a complexidade que envolve esses seres humanos. Contribuindo com essa idéia, Cicillini (2007, p. 1) afirma que, os jornais regionais/locais atuam efetivamente como meio de difusão das informações locais. E essa informação local é representada, na maioria dos casos, pelas temáticas „cidades‟, incluindo as mais freqüentes e recorrentes „colunas sociais‟, o „esporte‟ e a „política‟.8 Uma contextualização sobre o território do sisal será feita no próximo capítulo.
  • 29. 29 A autora acrescenta ainda que “os jornais impressos, por serem relativamentemais acessíveis e baratos que as outras mídias, concentraram em si as principaismanifestações jornalísticas necessárias ao incremento regional/local” (p. 2). Dessaforma, o jornal regional/local possui um significado muito importante, pois além doautor da matéria conhecer o ambiente e o comportamento dos indivíduos, pelo fatodele estar próximo à sociedade, esse meio de comunicação representa a sociedadeatravés das notícias divulgadas, retratando a situação da população em suaspáginas e parágrafos. Do mesmo modo, Guedes (2007, p. 2) acredita que o jornal impresso local éum meio de valor significativo para a comunidade em que é veiculado, pois é focadona população e no cotidiano das pessoas. Através desse processo, é possívelconhecer melhor os moradores da cidade, os gostos, os costumes, enfim, cria-seuma relação de afeto entre o jornal e a população. A identificação com o jornal acontece, na maioria das vezes, porque o leitor játem certa visão de mundo atrelada ao local, um fator que influencia nocomportamento e no pensamento desses indivíduos. Assim, o redator deve buscarem seus textos transcrever essa realidade de forma natural, onde o leitor possa sesentir inserido naquele contexto. E geralmente, essa prática pode ser constatadanos jornais locais da região que buscam informar, entreter e segurar o leitor naslinhas e entrelinhas do texto. Na cidade de Conceição do Coité, foi lançado em 15 de maio de 1967 o jornalO Coiteense, sob responsabilidade do Grêmio Estudantil 21 de abril, do ColégioSanta Terezinha, presidido por Roberto Pinto Lopes. Datilografado e rodado emmimeógrafo a álcool, as matérias, distribuídas em quatro páginas, tratavam deacontecimentos culturais, esportes, literatura, utilidade pública e denúncias, dentre
  • 30. 30outros. Ao todo foram publicadas cento e noventa e duas edições, tendo sido suaúltima circulação no dia 8 de junho de 1988 (OLIVEIRA, 2009, p. 27). Ainda em Coité, em 29 de dezembro de 1980, é lançado o Boletim doEsporte, posteriormente denominado de Tribuna Coiteense, idealizado por MárioSilva, com a colaboração de Vanilson Oliveira. Impresso em mimeógrafo a óleo empapel ofício (A4), inicialmente o impresso trazia notícias sobre esporte mundial elocal. A partir da segunda edição, passou a publicar também informações sobre oesporte em distritos e cidades vizinhas a Coité. Totalmente impresso em preto ebranco, a maioria das edições continha seis páginas, com tiragem em torno detrezentos a quatrocentos exemplares, devido ao desgaste do estêncil. O Tribunaapresentava poucas fotografias e anúncios publicitários. Somente a partir de 1990, ojornal passou a contar com maior espaço destinado a anúncios publicitários,divulgando estabelecimentos como padarias, oficinas, papelarias e bancos. Asmatérias divulgadas refletiam a situação política, econômica, cultural e social dacidade, faziam denúncias e críticas sobre problemas administrativos, esclareciamescândalos e boatos, e prestavam serviços à população. O jornal foi extinto em 8 denovembro de 1996, após um desentendimento dos idealizadores e pela falta detempo e recurso (OLIVEIRA, op. cit.). O município de Valente, inserido no Território do Sisal – semi-árido da Bahia,também tem seu nome marcado na história da imprensa regional. O jornal Tribunado Sisal circulou na cidade e nos municípios de Retirolândia, Santa Luz e SãoDomingos de 2005 a 2008. Surgiu a partir da iniciativa de um grupo de amigos9 que9 Arnaldo Amaral de Oliveira, Antônio Edil Lopes, Gelson Carneiro da Cunha, Ivanilton Araújo, Sílvio RobertoHabib e Mário Moreira. As informações mais precisas sobre este jornal foram adquiridas através da análise dealguns exemplares e de uma entrevista realizada em janeiro de 2010 com Ivanilton Araújo, um dosresponsáveis do jornal.
  • 31. 31sempre tiveram vontade de colocar em prática a idéia de um jornal regional nacomunidade. Dentre esse grupo de amigos, se destaca o bancário e políticoIvanilton Araújo, que a partir da terceira edição se tornou o responsável peloinformativo. Com uma tiragem mensal de até dois mil exemplares, e inicialmente com 12páginas - a partir da terceira edição passou a ser com 10 páginas – o Tribunasempre teve a capa e a última página coloridas, porém as páginas internas do jornaleram em preto e branco, com algumas exceções para a editoria de Esportes. Ojornal era dividido em sete editorias, sendo elas: geral, educação/cultura, diversos,local, esporte, saúde e social. O Tribuna era custeado através de patrocínios do comércio local, comanúncios publicitários, que variavam entre R$ 35,00 (trinta e cinco reais) e R$100,00 (cem reais), dependendo do tamanho; além da Câmara de Vereadores e daPrefeitura, que cobriam uma página cada com a divulgação de suas ações. O jornalpossuía uma forte vinculação com o poder político local, o que comprometia suaimparcialidade. As matérias geralmente eram artigos sobre temas livres e diversos, escritospelos idealizadores e por colaboradores da sociedade, na maioria médicos,advogados, bancários, contadores, políticos, juiz, padre, dentre outros que seutilizavam de uma linguagem mais culta. O jornal divulgava ainda matériasrelacionadas a empresas, associações e fundações em atividade em Valente emunicípios vizinhos, além de conteúdos relacionados às ações da prefeituramunicipal. Vale frisar que o jornal contava com espaço era aberto à comunidadepara escrever matérias, porém a população não costumava se utilizar do mesmo.
  • 32. 32 Com o passar do tempo, o Tribuna foi perdendo sua periodicidade por causada falta de patrocínio e da irregularidade da contribuição da prefeitura. Assim o queera arrecadado não cobria os custos, ficando inviável a veiculação do jornal, quelançou sua última edição em outubro de 2008. Atualmente, existe um grande déficit em números de veículos impressos decomunicação no território, isso por causa do baixo índice de leitura, de incentivo àprodução de informativos, sejam eles jornal, revista ou boletim. Ainda assim,encontram-se boletins institucionais que divulgam ações da empresa e/ouorganizações como é o caso da Associação dos Pequenos Produtores do Estado daBahia (APAEB) e do Movimento de Organização Comunitária (MOC), que possuemesse tipo de informativo. Este último se destaca neste aspecto, produzindo umimpresso chamado Boletim informativo MOC e um jornal chamado Giramundo. Segundo informações encontradas no site da Instituição10, o Giramundo “é umjornal regional que busca, de forma criativa e dinâmica, levar informações dequalidade para a população da Região Sisaleira”. Possui oito páginas e umatiragem de dez mil exemplares por edição. As notícias geralmente tratam deacontecimentos da região destacando os movimentos sociais, os direitos infanto-juvenis e o desenvolvimento sustentável. Olhando pela quantidade de veículos impressos que circulam no Território doSisal, este tem muito que crescer e um longo caminho a percorrer ainda. Tanto doponto de vista da qualidade, tendo em vista critérios de linguagem jornalística quantoo aperfeiçoamento do próprio veículo, despertando assim, o interesse do leitor. Masantes de tudo é preciso despertar na comunidade o hábito da leitura e o interesse10 www.moc.org.br
  • 33. 33por esse meio de comunicação tão rico em informações, para então, tornar essaprática comum no cotidiano das pessoas.
  • 34. 342. TERRITÓRIO DO SISAL: LUGAR DE LUTA, RESISTÊNCIA E ESPERANÇA Neste capítulo, será feita uma breve revisão sobre o que é o Território doSisal. O primeiro tópico, “O Território e suas características”, falará sobre osmunicípios que compõem esse espaço, a base econômica do lugar, e seu principalproduto: o sisal, que é a fonte de renda da maioria da população. O segundo,“Vegetação e Fauna Sisaleira”, dará uma idéia de como é caracterizada a região,através de paisagem e animais que habitam o local. O terceiro, “População”,enfatizará a população rural, a situação de pobreza e miséria e o êxodo rural. Oquarto, “A mobilização da Sociedade Civil”, retratará um pouco da história do povosisaleiro que se deparava com a exclusão social e que, através da mobilização, daparticipação, da comunicação e do exercício da cidadania vem conseguindo seorganizar e conquistar ações em prol da sociedade. Por último, “Organizaçõessociais de destaque no Território”, dará espaço para algumas organizaçõesimportantes que atuam no território e que contribuem para o fortalecimento e odesenvolvimento da população no contexto social e político.2.1. O Território e suas características Os Territórios de Identidade foram criados por iniciativa do Governo Lula como objetivo de identificar oportunidades de investimento e prioridades temáticasdefinidas a partir da realidade local de cada Território, possibilitando odesenvolvimento equilibrado e sustentável entre as regiões11. A Bahia,especificamente, foi dividida em vinte e seis Territórios sendo um deles o Territóriodo Sisal, localizado na região semi-árida do Estado. Segundo Santos (2009, p. 4),11 Informações extraídas do site da Secretaria do Planejamento do Governo da Bahia. Disponível em:<http://www.seplan.ba.gov.br/mapa_territorios.html>. Acesso em 15 de janeiro de 2010.
  • 35. 35“o semi-árido baiano ocupa a região central do estado, representando 60% dasuperfície territorial, abrangendo 258 municípios”. Porém, o Território do Sisal écomposto por vinte municípios. São eles: Araci, Barrocas, Biritinga, Candeal,Cansanção, Conceição do Coité, Ichu, Itiúba, Lamarão, Monte Santo, Nordestina,Queimadas, Quijingue, Retirolândia, Santa Luz, São Domingos, Serrinha,Teofilândia, Tucano e Valente, conforme o quadro abaixo. Figura 2: Território Rural do Sisal Fonte: CODES, 2008 A renda média per capta da população da região é de meio salário mínimomensal12. As atividades de exploração do sisal enfrentaram um período dedecadência na década de 70, a base econômica é a pecuária extensiva e aagricultura familiar de subsistência, sujeitas a longos períodos de seca queciclicamente atingem a região, agravando os problemas sociais. Estes problemassão ainda aprofundados pela falta de acesso da população aos serviços básicos12 Fonte: Índices de Desenvolvimento Econômico e Social dos Municípios Baianos, Seplantec, 2002
  • 36. 36como saúde, educação e a inexistência de políticas adequadas à realidade do semi-árido. (RAMOS E NASCIMENTO apud GOMES, 2006, p. 1). A cidade de São Domingos, município sede do jornal Jornal Diário Nordestino,objeto de estudo do presente trabalho, está situada neste território. Localizada aaproximadamente 240 km da capital baiana, e segundo dados do Instituto Brasileirode Geografia e Estatística (IBGE), possui uma área de 265,38 km², tendo comobioma a caatinga e, com economia baseada no cultivo do sisal, agropecuária,comércio e serviços públicos. Algumas cidades do Território são conhecidas como cidades que integram aRegião Sisaleira pelo fato destas terem como atividade econômica principal aextração da fibra do sisal. Vale salientar que a região sisaleira engloba, além doTerritório do Sisal, os seguintes territórios: Bacia do Jacuípe, Piemonte daDiamantina e Piemonte Norte do Itapicuru. O sisal ou agave sisalana perrine, é uma planta originária da península deYucatan, no México. Foi introduzida na Bahia em 1903 por Horácio Urpia Jr. Santos. A partir do início do século XX os contornos da região começam a mudar com a chegada do sisal em 1903 e de sua exploração econômica a partir de 1934. A introdução da cultura do sisal foi implementada pelo Governo do Estado como alternativa para o desenvolvimento das regiões semi-áridas, frente ao processo de transformação do sistema pecuniário e do declínio da economia açucareira (SILVA & SILVA, apud SANTOS, op. cit, p. 5). Essa planta trouxe uma possibilidade de mudança para a vida da populaçãoda região. Conforme Marques (2002, p. 15), foi no ano de 1939 que o sisal chegou àcidade de Feira de Santana e começou a ser cultivado, tendo como característicasser “uma planta suculenta, de cor verde, folhas lisas e com grande capacidade deretenção de água da chuva e orvalho”, que contribuiu na época para a permanência
  • 37. 37do homem no campo e continua sendo uma das principais bases de sustentação daeconomia regional. O sisal alcançou papel de destaque na Bahia no período entre 1938 e 1942,quando o governador Landulpho Alves passou a estimular o seu plantio comoalternativa de sobrevivência do sertanejo, aproveitando as condições favoráveis domercado interno criadas pelos obstáculos de importação de produtos similares porconta da Segunda Guerra Mundial. Altamente resistente às secas, o sisal se apóiaespecialmente na cultura minifundista em pequenas e médias propriedades de terra,cujo alicerce principal é a agricultura de subsistência. (CODES, 2008). Uma região marcada pela escassez e irregularidade das chuvas, o territóriolocalizado no semi-árido baiano encontrou no sisal uma alternativa: asustentabilidade das famílias que residem, principalmente, na zona rural. ParaHubschman (2002, p. 23), o papel do sisal foi ainda determinante: uma grande parte das terras do sertão, muitas secas e sem grandes possibilidades de irrigação, se não fosse o sisal, não poderiam encontrar uma utilização econômica viável. É o caso da região de Valente e Santa Luz, onde o sisal contribuiu de forma decisiva para manter, nesses municípios, milhares de famílias sertanejas que, na ausência do sisal, certamente, iriam engrossar os fluxos migratórios em direção às grandes cidades. Foi através do sisal que a região achou a possibilidade de sobrevivência e dese tornar mais produtiva, mesmo com a falta de chuva e seu solo carente emnutrientes, pelo fato da planta ter uma grande facilidade de absorver e armazenarágua. Uma forma encontrada para se garantir a sobrevivência e evitar o êxodo rural. Os índices pluviométricos da região que normalmente variam entre 600 mm e800 mm anuais são periódicos e sem regularidade; muito freqüentemente 70% daschuvas, nos anos chuvosos, concentram-se em dois ou três meses. Quando essesíndices caem para 200 mm e 400 mm, inviabilizam o armazenamento de água e
  • 38. 38praticamente toda atividade agropecuária, constituindo os conhecidos períodos deseca que duram entre dois a cinco anos (CODES, 2008). As freqüentes estiagens servem de justificativa pelos difusores competentesdo discurso e legitima a manutenção da situação de pobreza e misériahistoricamente fundamentada na má-distribuição de terras e na apropriação dopoder local (GOMES, 2006, p. 4). Isso reflete na situação financeira das famílias quetrabalham no campo desde o processo do plantio até a comercialização do sisal. Para o cultivo e comercialização do sisal é preciso uma mão-de-obra aplicadae reforçada por ser um trabalho pesado, como explica Andrade (2002, p. 76), a preparação do solo pode ser mecanizada, porém as demais tarefas, como o plantio, os tratos culturais, o corte das folhas e a secagem são manuais. O desfibramento é feito pelo motorzinho ou máquinas paraibanas, nas propriedades. Após o desfibramento e a secagem, as fibras são transportadas para as batedeiras, para serem escovadas e beneficiadas. Após essas operações, elas podem ser exportadas ou transformadas em cordas, tapetes, sacos, etc. O plantio e o corte são realizados por uma pessoa que, com o auxílio de umjumento, transporta as folhas cortadas até a máquina para então serem desfibradase estendidas para secagem. A máquina paraibana, mais conhecida na região comomotor de sisal, já deixou muitos trabalhadores mutilados, por ter uma lâmina cortantemuito afiada, exigindo certa habilidade e rapidez do operador. Nesse tipo de trabalho não existe contrato escrito, os acordos são feitosverbalmente, não havendo segurança alguma em casos de acidentes; e sendo ostrabalhadores remunerados pela quantidade que produzem. Segundo Andrade (op.cit, p. 78), “os proprietários preferem o trabalho temporário, porque permite reduzirsensivelmente os custos de produção e as despesas exigidas pelos encargossociais”. O sisal sai do campo seco e é levado para a batedeira, local onde esse ébatido e preparado para a comercialização. De acordo com o autor citado acima “o
  • 39. 39trabalho é efetuado por homens, mulheres e crianças” e acrescenta que “aremuneração é determinada pela produção diária, e os pagamentos são semanais,exceto os do gerente, do balanceiro e do batedor, que são mensalistas” (ibid. p. 79).É um trabalho pesado e de mão-de-obra barata, além de não garantir nenhum tipode benefício aos trabalhadores, que se submetem a tais condições por falta dealternativas na região. A planta rústica oriunda do México se consolidou como o principal arranjoprodutivo da região e motor das profundas transformações históricas, políticas,sociais e culturais do território (FERREIRA & MOREIRA13, p. 1). Além disso, atravésda tecnologia e de pesquisas realizadas, surgiram novas possibilidades de utilizar afibra do sisal em vários ambientes, desde decoração de casas como na fabricaçãode bancos de carros entre outros produtos.2.2. Vegetação e Fauna Sisaleira A vegetação predominante da região é a caatinga, com uma paisagemformada de pedras e lajedos e forte presença de arbustos de raízes profundas,como umbuzeiro, o icó, a baraúna, o licuri, a umburana e diversas espécies decactáceas como o xique-xique, o cabeça-de-frade, a palma e o mandacaru, sendoos dois últimos utilizados em períodos de seca na alimentação do gado. Quando a grande maioria das plantas caatingueiras perde suas folhagens nosperíodos de estiagens assegura a alimentação para dezenas de espécies, deinsetos a caprinos e ovinos; a palma, o mandacaru e tantas outras espécies se13 No artigo “A construção da comunicação comunitária da região do Sisal: uma rede tecida com fibra eresistência” não consta o ano de publicação. Este foi extraído da internet através do endereço informado nasreferências. Por esse motivo haverá citações dos respectivos autores sem o ano no decorrer deste trabalho.
  • 40. 40constituem em ingredientes alimentares fundamentais para a sustentação dosanimais na região. O licurizeiro, como o umbuzeiro, tiveram – e ainda têm - papel dedestaque na alimentação humana e animal nos momentos de crise por seconstituírem em fontes nutritivas importantes para os animais e para os humanos(CODES, 2008). A fauna da região se caracteriza mais por animais como bodes, que sealimentam de cascas das árvores e de folhas secas para garantir seu sustento nosperíodos de estiagem, e jumentos, que sempre estiveram presentes na vida dohomem do campo, seja para o trabalho com o sisal ou para montaria. De acordo com o PTDRS – Plano Territorial de Desenvolvimento RuralSustentável do Sisal do CODES – Conselho de Desenvolvimento Territorial Rural doSisal (2008, p. 19), é na região sisaleira, que se configura a nordestinidade do baiano. A começar por suas paisagens, pontilhadas por lajedos, carrascais e tabuleiros, onde vicejam mandacarus, caroás, facheiros, mancambiras e gravatás, tão bem descritas pelo grande clássico da literatura nacional, Os Sertões, de Euclides da Cunha. E como parte indissociável desta paisagem, com ela própria se confundindo, assoma a figura heróica do vaqueiro, com suas típicas vestimentas de couro para permitir adentrar na caatinga e que inspirou este genial intérprete da alma brasileira na célebre assertiva de que “o sertanejo é antes de tudo um forte”. De fato a região caracteriza o Nordeste baiano, não só através de sua fauna eflora, mas também através dos costumes, crenças, tradições, literatura e pela força ecoragem do homem do campo no decorrer das adversidades que encontra durantesua trajetória de vida. Um povo marcado pelo sofrimento, luta e esperança.2.3. População O Território do Sisal era habitado, em 2000, por 552.713 pessoas, ocorrespondente a 4,3% da população total do Estado (CODES, 2008). É notório que
  • 41. 41com o enfraquecimento do sisal, com os longos tempos de estiagens, a populaçãofoi diminuindo, dirigindo-se aos grandes centros à procura de melhores condições devida. Segundo o CODES (2008, p. 27-28) Durante a década de 80, a população cresceu a uma média de 2,65% ao ano; enquanto na década seguinte o crescimento foi de apenas 0,44% ao ano. Tomando-se por base as estimativas do IBGE para 2005, e mantendo- se a atual tendência, no final da década o crescimento médio anual será de apenas 0,007%. Em alguns Municípios essa queda chega a ser preocupante, como são os casos de São Domingos que no período de 1991 a 2005 perdeu 44% da sua população e Ichu que, de 1980 a 2005 perdeu 42%. Porém, os censos de 2007 e 2008 apontam uma nova perspectiva. Namaioria das cidades, a evolução da população foi significativa. Os númerosdemonstram o crescimento populacional de alguns municípios, como Araci,Conceição do Coité e Santa Luz, conforme demonstra o quadro abaixo. Quadro 1 – População dos Municípios no Território do Sisal População¹ Municípios 2005 2007 2008 Araci 48.989 51.912 54.092 Barrocas 12.725 13.182 13.722 Biritinga 14.654 13.961 14.307 Candeal 9.741 9.019 9.157 Cansanção 32.601 32.789 33.920 Conceição do Coité 58.810 60.835 63.318 Ichu 3.712 5.881 6.101 Itiúba 36.257 35.749 36.890
  • 42. 42 Lamarão 9.137 11.988 12.682 Monte Santo 56.602 52.249 53.577 Nordestina 13.357 12.172 12.599 Queimadas 25.522 27.186 28.368 Quijingue 27.891 27.068 28.001 Retirolândia 10.635 11.938 12.446 Santa Luz 31.156 33.633 35.029 São Domingos 7.430 8.818 9.130 Serrinha 74.868 71.383 73.655 Teofilândia 19.719 20.702 21.382 Tucano 53.661 48.740 49.972 Valente 19.969 21.512 22.489 TOTAL 554.711 570.717 590.837Fonte: IBGE, Contagem da População(¹) Estimativas/IBGE Mas também, pode-se notar uma redução significativa da população emoutros municípios como, Tucano e Monte Santo. Essa realidade é predominante nazona rural, que por causa do clima e do solo, não oferece meios de sobrevivênciaque atendam à todos que habitam nessa área. Observa-se que a população rural reduz-se de forma gradual (em alguns municípios de forma brusca) mas permanente porque faltam políticas capazes de dinamizar a economia e alavancar processos de desenvolvimento geradores de inclusão social e de qualidade de vida; os segmentos mais afetados são os mais jovens, de maior capacidade produtiva e com perspectivas de melhorar a condição de vida. Por outro lado, a redução do número de habitantes, além de enfraquecer o setor produtivo rural, com a perda de força de trabalho, dificulta ainda mais a adoção de medidas que possam desenvolver a economia regional (CODES, 2008, p. 33).
  • 43. 43 Mas ainda, em um território marcado pela pobreza, pela miséria, peloanalfabetismo- segundo dados do IBGE (2007)14, a taxa de analfabetismo noTerritório corresponde a 34,2%- e pela falta de políticas públicas suficientes paraatender a toda população, existem ainda pessoas que lutam pelo desenvolvimentolocal e direitos coletivos, e vêm conquistando espaços importantes na sociedade.2.4. A mobilização da Sociedade Civil “A história dos movimentos sociais no Brasil não é linear, sendo caracterizadapor fluxos e refluxos. Entretanto, sua conquista fundamental é a valorização docoletivo ao individual” (CÉSAR, 2007, p. 84). Mesmo com as idas e vindas, altos ebaixos que movimentos sociais enfrentam, grande parte deles ainda conseguepensar no coletivo, buscando despertar o interesse e o comprometimento doindividual, estimulando a pessoa a se manifestar em prol da sociedade. Para Kunsch(2007, p. 60), a sociedade civil tem um papel preponderante, que é “influenciar amudança do status quo, do poder do Estado e do mercado, para atender àsdemandas das necessidades locais, nacionais, regionais e globais”. Para que issoseja alcançado é preciso força de vontade e determinação dos indivíduos, nosentindo de irem em busca das melhorias desejadas. O Território do Sisal é marcado pela exclusão social, pela história de lutas dosmovimentos sindical, associativista, cooperativista, organização das mulheres, entreoutros, e traz em si uma história de organização dos movimentos sociais e dearticulação de ações visando um processo de desenvolvimento do meio rural. Apartir disso, passou-se a pensar em assuntos como: agricultura familiar, educação,saúde, infra-estrutura, cultura, comunicação dentre outros. (CODES, 2008).14 www.ibge.gov.br
  • 44. 44 Nesse contexto Gomes (2006, p.2) afirma que, a construção da região sisaleira não acontece descontextualizada. Ela emerge historicamente no movimento de profundas transformações sociais, culturais e tecnológicas do fim do Século XX, em que o avanço do processo de internacionalização da economia capitalista monopolista atinge seu ápice com o aprofundamento do fenômeno da globalização e seu discurso totalizante da ditadura do dinheiro e da informação. Isso demonstra que a população da região, através de suas organizaçõessociais, vem se manifestando em busca de melhoria da qualidade de vida e debenefícios em prol da sociedade, sempre com o intuito de alcançar o objetivodesejado, nesse caso, a mobilização social se destaca através da ação dosindivíduos. Mas, afinal, o que é mobilização social? Toro e Werneck (2005, p. 13)defendem que “mobilizar é convocar vontades para atuar na busca de um propósitocomum, sob uma interpretação e um sentido também compartilhados”, e acrescentaque “a mobilização ocorre quando um grupo de pessoas, uma comunidade ou umasociedade decide e age com um objetivo comum, buscando, quotidianamente,resultados decididos e desejados por todos”. Assim, ao reivindicar uma causa coletiva, a sociedade civil assume um papelde destaque no processo de participação das ações e decisões que visam o bem-estar social. Para Kunsch (op.cit, p. 60), a sociedade civil hoje assume papel preponderante nos processos de participação social em defesa da democracia, dos direitos humanos e da cidadania, graças, sobretudo, à atuação dos movimentos sociais organizados, da ONGs e do terceiro setor como um todo, que extrapolam a relação de oposição ao Estado para fazer frente também ao mercado. Dessa forma, o processo de participação social é muito importante para aconstrução da cidadania. Para Toro e Werneck (op.cit, p. 28) “a participação, em umprocesso de mobilização social, é ao mesmo tempo um objetivo a ser alcançado e
  • 45. 45um meio para realizar os outros objetivos” e acrescentam ainda que “a participaçãoé uma aprendizagem”. Buscando entender um pouco o que é cidadania, Kunsch(2007, p. 63) afirma que “cidadania refere-se aos direitos e às obrigações nasrelações entre o Estado e o cidadão”. Já segundo Morais (2009, p. 3), que reflete opensamento de Marshall, diz que, tendo nos estudos de Marshall (1967) um de seus principais referenciais, a noção de cidadania é inicialmente composta por: conquistas e usos dos direitos civis, políticos e sociais. Um conceito amplo e em constante construção, cidadania pode ser relacionado não apenas aos direitos básicos para a sobrevivência em sociedade, mas como a capacidade de discernimento crítico que permita a participação em decisões que interfiram na vida deste mesmo indivíduo. Necessariamente, os fatores participação, mobilização e cidadania estãointerligados e nesse processo de aprendizagem, ao tentar mudar algo e/ou lutar poralgo, que os indivíduos aprendem a lidar com as situações adversas e a perceber aimportância da união, da força daqueles que buscam algo melhor para a sociedade,sem esquecer os direitos, deveres e a igualdade social. Dagnino (2002, p. 296),afirma que “a participação da sociedade civil na publicização de um enorme númerode demandas de direitos tem alterado a face de sociedade brasileira ao longo dasduas ultimas décadas”. Além disso, a comunicação também contribui para odesenvolvimento e divulgação das ações promovidas pela sociedade e pelo Estado.Peruzzo (2007 p. 46) diz que, a comunicação, por meio de seus variados processos, que incluem canais de expressão e o intercâmbio de informação e de saberes, bem como os mecanismos de relacionamento entre pessoas, públicos e instituições, desempenha papel central na construção da cidadania. Assim, a comunicação, pode ser vista como “instrumento para a criação dacidadania em meio às redes sociais que hoje tomam forma na chamada era daglobalização” (CÉSAR, op.cit, p. 78). A autora acrescenta que a comunicação é “um
  • 46. 46processo de relacionamento social” que interage com outras áreas do conhecimento,aprimorando uma rede de relacionamento nos campos de trabalhos. No entanto, o real comprometimento da comunicação com as questõessociais requer o reconhecimento de que cada realidade carrega suasparticularidades, merecendo, cada processo de mobilização e cidadania um caminhocomunicativo específico, tendo sempre em vista os objetivos que se pretendealcançar. Refletindo sobre isso, Morais (op. cit. p. 13) coloca que Indagar sobre a que tipo de mobilização social a comunicação se presta colaborar é, portanto, uma tarefa que exige analisar o ato comunicativo através de diferentes vias, em diferentes momentos e tendo em vista os diversos elementos que dele fazem parte, tendo sempre em mente que cada contexto comunicativo, assim como cada processo de mobilização possui as suas particularidades, não existindo, portanto, um caminho modelo a ser seguido. Trazendo esse assunto para o semi-árido baiano, Ferreira e Moreira (p. 2)demonstram que os movimentos e organizações sociais que se utilizam dacomunicação para promover ações coletivas parecem se preocupar com essarealidade. Os autores afirmam que, inseridos na paisagem semi-árida brasileira, que corresponde a 75% do Nordeste do país, os grupos sociais que aí se instalaram desenvolveram um sistema de comunicação específico, uma rede ou conjunto interligado de fluxos comunicativos constituído de atores, conteúdos e meios definidos a partir de princípios e propósitos. Nesse caso, os grupos sociais contam com um processo de planejamento edefinição dos objetivos que pretendem buscar e utilizam a comunicação parainteragir no processo, um método inteligente e abrangível. Já para Gomes (2006, p.4), o acesso e a produção local de informação configuram-se como elemento central na disputa e na resignificação de uma cultura marcada pela oralidade, pela dominação e por imagem de “aridez” social. Aos movimentos sociais locais, a comunicação apresenta-se como estratégia de re-afirmação dos ritos, ritmos e significações locais, e transformação dos valores de subserviência, motivando a convivência emancipatória com o sertão.
  • 47. 47 Os movimentos sociais são agrupamentos coletivos organizados para atuarna sociedade e a partir disso produzir uma mudança na vida dos indivíduos inseridosnesse contexto social. Para esses movimentos serem visíveis é preciso atenção porparte dos meios de comunicação, como, mídia impressa, eletrônica e digital.Veículos como rádio, TV, jornal impresso, dentre outros são muito importantes paraa visibilidade das ações da sociedade organizada. Pode-se entender, portanto, opapel a ser exercido pela comunicação em parceria com os movimentos sociais paraa implementação de suas ações, diante do caráter mobilizador dessa área, sejaatravés de veículos ou por meio da própria comunicação interpessoal.2. 5. Organizações sociais de destaque no Território Alguns motivos retardaram o surgimento e a consolidação de movimentos ede organizações sociais na região. Um deles foi a forte presença das oligarquias quesouberam, ao longo da história, controlar a população, criando situações deinsegurança e medo, evitando o surgimento de forças organizadas que, enquantobuscassem objetivos específicos, pudessem trazer dificuldades para o seu projetopolítico, e o isolamento da região (CODES, 2008, p. 60). Porém com o tempo, a sociedade sentiu a necessidade de se organizar pararesolver questões da própria comunidade. Assim, contou com o apoio das CEBs(Comunidades Eclesiais de Base) e da Igreja Católica, que iniciaram esse processo.Segundo Santos, (2009, p. 8), as CEBs ajudaram a criar movimentos sociais para organizar sua luta: associações de moradores, luta pela terra e também o fortalecimento do movimento campesino. Na região do sisal, as CEBs influenciaram a criação de muitos movimentos sociais.
  • 48. 48 A partir dessa iniciativa surgiram várias organizações que buscam e visam àmelhoria da qualidade de vida da população, como: os STR‟s (Sindicatos deTrabalhadores Rurais), a FATRES (Fundação de Apoio aos Trabalhadores Rurais daRegião do Sisal), a (APAEB) Associação dos Pequenos Produtores do Estado daBahia, o MOC (Movimento de Organização Comunitária), o CODES (Conselho deDesenvolvimento Territorial Rural do Sisal), entre outras. Os STR‟s surgiram por volta da década de 70 a partir da mobilização dedelegados de polícia incomodados com a ausência de políticas públicas de saúdenas cidades, o que mantinha a população em situação de extrema carência e altonível de vulnerabilidade. A fundação de sindicatos com a proposta de oferecerserviços médico-odontológico à comunidade. Hoje seu principal objetivo érepresentar os trabalhadores rurais dos municípios, tendo como público-alvo ospequenos agricultores e agricultores familiares, meeiros, posseiros, arrendatários ecomodatários (CODES, 2008, p. 60). Uma entidade importante para a região é a FATRES, fundada em 1996 com oobjetivo de fortalecer as forças dos Sindicatos, e com ações voltadas aostrabalhadores rurais. De acordo com o CODES (2008, p. 61), “é uma sociedade civil,sem fins econômicos, de natureza beneficente, considerado de utilidade públicamunicipal e estadual”. A entidade também se relaciona com outras organizações quelutam em prol do Território. Outra organização que se destaca no território é a APAEB, que “surgiu em1979 da luta contra a cobrança extorsiva do ICM aos pequenos produtores rurais,com atuação regional de defesa econômica e ação sócio-política” (TEIXEIRA apudSANTOS, 2009). Segundo o CODES (2008, p. 64), a entidade atua na Região doSisal,
  • 49. 49 com um conjunto de ações voltadas para o desenvolvimento regional sustentável. Todas as ações visam a melhoria da qualidade de vida dos agricultores familiares. Entre essas ações, um Programa de Convivência com o Semi-Árido, junto a agricultores familiares que inclui, entre outras medidas, para assegurar a sustentabilidade, a conservação do meio ambiente e o reflorestamento. Dentre as ações da Apaeb poderemos mencionar o trabalho com cadeias produtivas importantes para a região, tais como: beneficiamento e comercialização da fibra do sisal e seus derivados, de produtos da caprinovinocultura e da apicultura. A APAEB, em parceria com a sociedade civil e outras instituições, atua aindano campo da educação ambiental, através de capacitação de agricultores comcursos e treinamentos de conservação do solo, água e vegetação, além dorepovoamento da flora regional. Atualmente, o maior foco da APAEB – Valente é obeneficiamento e a exportação do sisal. Através da fabricação de tapetes e produtosderivados da planta, gera empregos diretos e indiretos, movimentando assim aeconomia da cidade. Falando em organizações, entidades e movimentos, o MOC também estápresente nesse contexto. Segundo Santos (op.cit, p. 8), esse movimento “foifundado em 1967 a partir do trabalho da Igreja Católica com o objetivo de incentivara emancipação social e a criação de grupos organizados para o exercício dacidadania”. O MOC é uma entidade civil, sem fins lucrativos, classificada como umaorganização não governamental, de natureza filantrópica, que busca contribuir parao desenvolvimento integral, participativo e ecologicamente sustentável da sociedadehumana. A instituição concentra sua atuação nos municípios da Região Sisaleira,mas sua metodologia de apoio à mobilização da sociedade civil na luta peloexercício dos seus direitos se estende até mesmo para outros estados, comoSergipe. Atualmente, desenvolve ações estratégicas na área de educação rural,fortalecimento da agricultura familiar no semi-árido, gênero, comunicação e políticas
  • 50. 50públicas. Todas buscam sempre ressaltar a questão da participação popular nasesferas de decisão, tendo em vista o desenvolvimento integrado e sustentável daRegião. São cinco programas básicos de atuação: Programa de Educação doCampo, Programa de Fortalecimento da Agricultura Família no Semi-árido,Programa Água e Segurança Alimentar, Programa de Políticas Públicas, Programade Comunicação, Programa de Criança e Adolescente e o Programa de Gênero,além de Projetos Especiais (CODES, 2008, p. 65). Falando em comunicação aplicada aos movimentos, em 2001, o InstitutoCredicard lançou o Programa “Jovens Escolhas em rede com o futuro”. Tratava-sede um programa social que visava a cidadania, o empreendedorismo e buscava aautonomia do jovem, tendo sido aplicado em nove municípios do Território15. O MOCem parceria com outras instituições sociais, foi o responsável pelo programa naregião. O “Jovens Escolhas” realizava capacitações para os participantes escolhidosatravés de uma seleção sobre temas diversos, como por exemplo: políticas públicas,cidadania, cultura e revalorização cultural, gênero, gestão e produção de projetos,educação etc., e oficinas sobre produção de rádio e boletim. Através deste programafoi criado o “Projeto Jovens Comunicadores”, onde os jovens atuavam nacomunidade local dando assistência às entidades parceiras através da prática dacomunicação comunitária. Cada município contava com o apoio de três jovens, quetinham o dever de produzir um boletim mensal com notícias locais, regionais ereferentes aos movimentos sociais. Na cidade de Valente o boletim chamava-seFala Sério e era produzido por Aline Araújo, Deise Morais e João Paulo Cerqueira.Esse trio também em parceria ao Colégio Estadual Wilson Lins experimentaram o15 Araci, Conceição do Coité, Nordestina, Retirolândia, Riachão do Jacuípe, Queimadas, Santa Bárbara, SantaLuz e Valente.
  • 51. 51fanzine, um informativo de linguagem coloquial que expressava as idéias e opiniõesdos jovens daquela instituição16. Por fim, não poderia deixar de citar o CODES, um Conselho criado em 2002 apartir de uma inquietação da sociedade civil. Assim, no esforço de pensar o seu lugar, a partir de sua heterogeneidade, e de suas demandas diversas e comuns, a sociedade civil começa a discutir suas questões numa perspectiva de território, e não mais de região, o que resultou no Conselho de Desenvolvimento Territorial do Sisal (CODES) [...] é um consórcio de municípios composto paritamente por 14 representantes da sociedade civil e 14 do poder público dos municípios, com o objetivo de propor alternativas de gestão pública para a questão rural no sisal (MOREIRA apud SANTOS, 2009, p. 9). A instituição tem como slogan: “Sisal: um território de fibra e resistência”, quese refere a planta e a luta dos moradores dessa região pela sobrevivência. Deacordo com Ferreira e Moreira (p. 8), a estrutura do CODES está pautada na valorização das lideranças anteriormente excluídas enquanto atores legítimos. O ambiente político deste espaço público criou condições favoráveis para uma atuação mais incisiva dos grupos populares organizados, que de maneira inédita na história local, conquistaram a possibilidade de participar como atores privilegiados da construção de uma política territorial de desenvolvimento. Dessa forma, o CODES busca inserir o indivíduo no contexto social e políticosem discriminação, incentiva a participação e na luta pela conquista de açõesimportantes, como o curso de Comunicação Social/ Rádio e TV implantado em 2005na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus XIV, situado na cidade deConceição do Coité. O curso de comunicação instalado no Território do Sisal foi reflexo daefervescência do sistema comunicativo, em relação à mobilização da sociedadeorganizada local e seu amplo aparato comunicacional comunitário. Pode ser16 Informações adquiridas através de uma entrevista realizada, em janeiro de 2010, com Aline Araújo,participante do programa.
  • 52. 52considerado o primeiro produto efetivo do Plano de Comunicação do CODES quecontribuiu para o re-direcionamento da atuação acadêmica no território (FERREIRAe MOREIRA, p. 10). O curso veio fortalecer o trabalho desenvolvido pelosmovimentos, formando profissionais que poderão replicar seus conhecimentos nascomunidades. Trazendo novas perspectivas tanto para os movimentos sociais,quanto para a própria UNEB, no seu papel de universidade que precisa estaratrelada à comunidade, o curso de Comunicação poderá ainda representar aesperança para dezenas de jovens de Conceição do Coité e cidades circunvizinhas,que poderão ver ali outra opção de escolha em busca do conhecimento, doaperfeiçoamento e de uma nova profissão. Assim, é possível ver que a sociedade civil organizada do Território do Sisalse manifesta e luta pelo desenvolvimento e por melhores condições de vida dosindivíduos que habitam nessa região, mobilizando e estimulando as pessoas aparticiparem desse processo importante e significativo no contexto social. Assim, osmovimentos sociais, instituições e ONGs que atuam em busca de crescimento emelhorias para a comunidade, seja no lado social, cultural ou político, merecem overdadeiro reconhecimento e valorização por parte dos próprios indivíduos e peloEstado.
  • 53. 533. A TRAJETÓRIA DO JORNAL DIÁRIO NORDESTINO NA CIDADE DE SÃODOMINGOS A fim de refletir sobre as questões abordadas nos capítulos anteriores, estapesquisa propõe um estudo de caso do Jornal Diário Nordestino (DN), um projetodesenvolvido por jovens que buscavam levar informação e entretenimentoinicialmente à população de São Domingos, município sede do veículo e, numsegundo momento, a municípios vizinhos. Para isso, inicialmente será feita umacontextualização, a fim de esclarecer o cenário no qual se dá a criação do DN, maisprecisamente a partir de uma abordagem sobre o ICOJUDE, entidade na qual sedesenvolve o projeto. Em seguida se procederá uma análise de conteúdo do jornal,a fim de verificar de que forma o território do sisal é retratado em suas matérias para,a partir disso, refletirmos sobre o papel do veículo como facilitador para oengajamento do público jovem com vistas ao desenvolvimento local.3.1. ICOJUDE: Uma representação juvenil no território sisaleiro As iniciativas de organização e de desenvolvimento territorial são grandesdesafios dentro dos Movimentos Sociais e, apesar dos esforços de alguns setores eentidades, a juventude do Território do Sisal tem poucas oportunidades de formaçãopolítica e técnica sobre questões referentes a projetos que lhes estimulem e lhesdêem condições de defender seus interesses econômicos, culturais e sociais. Dentrodessa realidade de poucas ações sociais e organizações com potencial parapromover alternativas de discussão e execução de projetos não institucionalizadosno território sisaleiro, jovens- na maioria estudantes, filhos de servidores públicos- domunicípio de São Domingos fundaram, em fevereiro de 2006, o Instituto deComunicação e Juventude Diário Nordestino (ICOJUDE).
  • 54. 54 Desde sua criação, o Instituto tem como objetivo atuar como uma entidade departicipação popular e aglutinação de jovens da região, em torno do fortalecimento evalorização da cultura regional, além de: difundir informações; discutir alternativasafirmativas para a juventude da região; e desenvolver projetos que busquem aformação e estimulem a geração de renda para jovens, abrangendo as questões dediversidade e gênero, de modo a interagir com a comunidade. Nesse sentido, oICOJUDE busca consolidar sua imagem como entidade representativa da juventudedo semi-árido baiano, estimulando a participação da juventude em conselhos, fórunse ações semelhantes, além de buscar capacitação técnica, política e social para osmembros da equipe e para a juventude participativa dos processos de construçãopropostos pela comunidade na qual a instituição se insere. Segundo o artigo 2º do seu Estatuto, o ICOJUDE tem uma atuação voltada para a busca por alternativas para promoção da assistência social; promoção do desenvolvimento econômico e social e combate à pobreza, trabalhando com a experimentação, não- lucrativa, de novos modelos sócio-educativos e de economia solidária; desenvolver estudos e pesquisas, assim como tecnologias alternativas, produção e divulgação de informações e conhecimentos técnicos e científicos que digam respeito à juventude e à comunicação; e promoção da cultura, defesa e conservação do patrimônio histórico e artístico. A entidade visa a integração e a relação com atores sociais locais,fortalecendo e ampliando os canais de participação em políticas públicas que sepropõem à melhoria da qualidade de vida da juventude e da comunidade nosacontecimentos cotidianos, educacionais e políticos, e no desenvolvimento destaspolíticas de maneira sustentável. A missão do ICOJUDE, portanto, é ser um agente voltado para políticas paraa juventude na Região Sisaleira, propondo, construindo e executando projetosrelacionados a essas temáticas, procurando, assim, fortalecer a comunicação e
  • 55. 55melhorar as condições e expectativas da região, a fim de contribuir para que oindivíduo seja o protagonista das transformações sociais ao aproveitar aspotencialidades e vocação das comunidades do semi-árido baiano. O Instituto tem uma formação em núcleos municipais e um núcleo centralarticulador – cada integrante é responsável por uma área como, comunicaçãointerna/externa, cultura, educação dentre outras, o que mantém a relação atualizadaentre cada município. Seu quadro técnico é constituído por indivíduos comexperiência anterior em Movimentos Sociais: movimentos estudantis, ONGs,estudantes do ensino médio e universitários em processo de formação e/ouformados, além de contar com uma rede de consultores/parceiros ligadosdiretamente ao Terceiro Setor, entre os quais, professores universitários. O ICOJUDE desenvolve um trabalho focado em algumas áreas como eixosnorteadores, a exemplo de cultura; meio ambiente; educação e formação;comunicação; tecnologia; geração de emprego e renda; esporte e lazer, dentreoutros. Os principais projetos já desenvolvidos pela Instituição foram: I SeminárioMunicipal de Meio Ambiente; Intercâmbio Cultural; Projeto Cinema na Praça;Oficinas de Empreendedorismo Juvenil; Conferência Municipal de Juventude;Semanas Negras no Território do Sisal (nos municípios de Conceição do Coité eValente); Festivais de Juventude; além, de uma atuação junto a organizaçõesjuvenis e participação em Conselhos como o Conselho Municipal de Juventude deSão Domingos; Rede de Jovens do Nordeste; Articulação de Políticas Públicas;Encontro Nacional de Juventude Negra, em 2007, nas cidades de Vitória daConquista e Lauro de Freitas; Campanha de Participação Política; II Fórum SocialNordestino, em 2007, em Salvador; EDUPOP (Encontro de Educadores Popularesdo Nordeste) em Recife/PE, no ano de 2008; Conferência Estadual de Juventude da
  • 56. 56Bahia, nas etapas territorial, estadual e nacional; e II Festival da Juventude doNordeste: Desenvolvimento Juvenil no Nordeste Brasileiro, na cidade deQuixadá/CE em 2009, dentre outros. Além disso, a entidade desenvolve trabalhos em parceria com associações erádios comunitárias do Território do Sisal. Entre elas destacam-se: “São DomingosFM”, (atualmente fechada pela ANATEL, mas em processo de regularização);“Valente FM”; Coletivos de Jovens de São Domingos e Nova Fátima; e Rede deJovens do Norte e Nordeste. No entanto, o projeto de maior impacto e que melhor representou a propostado ICOJUDE foi o jornal Diário Nordestino, objeto de investigação desta pesquisa eque será abordado mais à frente. O Diário alavancou a idéia de organização e açãoda juventude e para a juventude. A partir daí, o grupo começou a interagir com osdiversos atores da sociedade, por ser um veículo de interligação entre tais atores e,com o tempo, se solidifica institucionalmente através da entidade. Após quase quatro anos de fundado, O ICOJUDE conta atualmente comaproximadamente trinta e cinco membros, incluindo sócios e colaboradoresvoluntários, e se mantém através da execução de projetos sociais firmados por meiode parcerias com o Governo e com instituições privadas.3.2. O Jornal Diário Nordestino O Jornal Diário Nordestino (DN) surgiu em junho de 2005 diante da carênciade acesso às informações sobre a região sisaleira e pela necessidade davalorização, resgate e difusão dos fatos histórico-culturais do território do sisal, ondeestá localizado São Domingos, município sede do veículo. A dificuldade de acesso àleitura é fator de extrema relevância para a validação da proposta do jornal no
  • 57. 57contexto social da cidade, pelo fato de não haver circulação de meios decomunicação impressos acessíveis à população local, um quadro que permaneceainda hoje. Seu objetivo era promover discussão sobre a preservação e a valorização daidentidade cultural, discutindo assuntos de interesse regional; estimular a leitura,dando acesso a textos educativos e fomentando o debate acerca de temasimportantes sobre sociedade, educação, política, dentre outros; abrir espaço para apopulação escrever textos e publicá-los, dando à comunidade possibilidade deexpressão através de um veículo de comunicação que refletisse os seus anseios;difundir informações e acontecimentos regionais, a fim de contribuir para a interaçãosocial; e promover concursos e eventos, fomentando a mobilização da comunidadepara criação de projetos posteriores. O Jornal Diário Nordestino, sendo o principal instrumento de atuação doICOJUDE, visava ser um meio interativo, onde a comunidade pudesse interferir noseu processo de construção, além de discutir com a comunidade assuntosrelevantes para a região sisaleira. A idéia era que o impresso funcionasse como ummediador entre o Instituto e a comunidade regional, conforme deixa claro o editorialda primeira edição do jornal, publicado em junho de 2005, transcrito abaixo. O Jornal Diário Nordestino surge depois de várias discussões acerca da necessidade de um veículo de informação, voltado à nossa comunidade, e principalmente onde o povo tenha liberdade de se expressar. Este jornal tem o interesse de registrar fatos e acontecimentos, discutindo nossa cultura e valorizando a nossa sociedade. Enquanto meio de comunicação aberto, tem por objetivo principal colocar-se à disposição da voz popular, onde é o povo o construtor e mantenedor deste projeto. Objetivamos ainda estimular a leitura, difundir informações, promover eventos, projetos e concursos a fim de movimentar a cultura e a educação. Mas, principalmente, buscamos ser um jornal interativo, que seja próximo, onde as pessoas se identifiquem e se encontrem a cada notícia lida.
  • 58. 58 Estaremos empenhados em fazer o melhor a cada edição, e nos colocamos abertos a presença de todos. Para o sucesso do nosso jornal, a sua participação é de fundamental importância. VEM COM A GENTE! Observa-se que as fontes de informações disponíveis à população de SãoDomingo no período de lançamento do jornal eram basicamente os canais abertosde televisão, no âmbito nacional e estadual, e as rádios locais e circunvizinhas.Algumas destas funcionavam ilegalmente no ano de criação do DN, um quadro nãomuito diferente do que se tem atualmente, já que as duas rádios do município, a“São Domingos FM” e “Baianinha FM”, encontram-se fechadas por determinação daANATEL. Com isso, fica evidente a falta de diversidade de canais de comunicaçãono município, o que permitiria um aprofundamento sobre temas que são de interesseda população local. Os princípios defendidos pelo DN eram: ética, competência, perseverança,verdade, criatividade, seriedade, consciência e liberdade. Sua missão era atuarcomo um veículo de informação impresso voltado para o Território do Sisal e abertoà participação popular, de forma a beneficiar os indivíduos, transmitindo informação,educação e cultura. Já a sua visão era ser reconhecido como um veículo decomunicação sério, livre, verdadeiro, que representasse, valorizasse e defendesse oterritório e o Nordeste do país. O Jornal foi fundado por doze jovens, destacando-se sete: Ariclene Silva(autora deste trabalho), Diana Guimarães, Girgleide Bispo, Moisés Oliveira Neto,Tytta Ferreira, Pedro Américo e Milena Cardoso. O DN era produzido mensalmentee circulou de junho de 2005 a fevereiro de 2008, inicialmente na cidade de São
  • 59. 59Domingos e a partir da terceira edição nas cidades vizinhas de Valente e NovaFátima17. No total foram produzidas vinte e uma edições, todas em formato preto ebranco, exceto a edição de número dezenove que foi uma edição especial de doisanos de jornal publicada em junho de 2007 com oito páginas, mas a maioria dasedições continha quatro páginas. O formato da página do jornal era 32 cm de alturaX 24 cm de largura. A tiragem era variada, inicialmente com mil exemplares e, apartir da terceira edição, com dois mil e quinhentos exemplares. A produção doconteúdo e distribuição dos exemplares era feito gratuitamente pelos jovensidealizadores do projeto. As funções eram distribuídas igualmente entre osintegrantes do grupo. O Jornal possuía um estilo diferenciado, em relação aos veículos impressostradicionais, pelo fato de ser produzido por jovens da própria comunidade. Comperiodicidade mensal, as matérias tinham uma linguagem de fácil compreensão etinham como público-alvo todas as camadas dos municípios onde circulava. Opróprio nome do impresso era sugestivo, procurando caracterizar o povo, a região,como pode ser verificado no editorial de sua segunda edição, publicada em julho de2005. [...] o nome surge como diário para fazer alusão ao fato de um diário ser um local onde se registra fatos importantes, onde se faz reflexões, comentários, registra recordações e avaliações sobre acontecimentos. O diário por si só é um espaço onde a liberdade impera e se diz o que pensa. O nordestino no nome do jornal é pelo importante fato de estarmos inseridos nesta região e pela importância de valorização desta cultura e forma de vida, bem como estímulos as produções sócio-econômicas das comunidades que assim se identificam [...]17 Porém, neste trabalho a análise será feita levando em consideração apenas a cidade de São Domingos e acontribuição informativa do jornal para a comunidade local.
  • 60. 60 As despesas com a produção do DN eram cobertas através de patrocíniosconseguidos pela equipe. O custo inicial mensal, entre despesas com ligaçõestelefônicas e deslocamentos da equipe, diagramação e impressão, era em médiaduzentos e cinqüenta reais. A partir de janeiro de 2007 o jornal passou a encontrardificuldades para circular, pois os patrocínios começaram a diminuir – algunsdeixaram de anunciar alegando que não tinha mais o interesse de divulgar seuscomércios e outros se justificaram dizendo que o jornal não trouxe retorno algumpara o seus estabelecimentos – e o valor arrecadado já não era o suficiente paramanter os custos de circulação. Por esse motivo, somado à falta de tempo paradedicação da equipe ao projeto, o veículo começou a circular em meses alternados,especificamente em fevereiro, maio, junho e agosto de 2007, tendo sua últimaedição veiculada em fevereiro de 2008. Durante os seus quase três anos de circulação, o DN contou também com osite Diário Nordestino18, onde eram divulgadas as matérias contidas no impresso,além de informações sobre a Instituição, eventos, patrocínios, dentre outrasinformações. A página foi extinta juntamente com o jornal. Diante desse quadro, as metas almejadas pelo DN não foram alcançadas:sede própria; repórteres correspondentes em dez cidades do território do sisal;alteração no formato; ampliação do número de páginas e tiragem (quinzenal), epossuir registro oficial.3.3. A análise de conteúdo do DN18 www.diarionordestino.com.br
  • 61. 61 Do total de vinte e uma edições publicadas, foram analisadas dezesseisedições do DN, correspondentes ao período entre junho de 2005 e dezembro de2006, compondo uma amostra de 76,20%. Para facilitar a análise, as matérias foramclassificadas nas seguintes editorias: “Social”, “Cultura e Lazer”, “Meio Ambiente”,“Educação”, “Esporte”, “Policial”, “Saúde”, “Política”, e “Culinária”. Vale salientar desde já que o espaço Editorial aparece em apenas cincoedições. Já o espaço publicitário foi verificado em todas as edições, totalizandocento e trinta e um anúncios. No rol de matérias publicadas, alcançou-se o númerode duzentas e onze, tendo sido cento e oitenta e oito escritas pela equipe do jornal evinte e três enviadas pela comunidade. As editorias com maior destaque nas edições analisadas do jornal foram:“Cultura e Lazer”, com 51%, e “Social”, com 22% do total das matérias publicadas, oque demonstra um predomínio de assuntos relacionados a essas duas temáticasnas edições do DN. Em seguida aparece “Política”, com 8%, “Esporte”, com 7%, e“Educação”, com 5%. As editorias que menos aparecem são “Culinária” (3%), “MeioAmbiente” (1.5%), “Policial” (1.5%) e “Saúde” (1%). Um detalhamento quantitativo das matérias publicadas nas edições do DNanalisadas pode ser verificado na tabela abaixo:
  • 62. 62 Quadro 2 - Síntese das matérias publicadas no DN TOTAL: 16 edições Edição nº 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 Total Social 3 1 2 5 3 2 4 3 1 1 8 2 1 5 2 3 46 Cultura e 2 7 2 1 4 8 4 7 13 12 12 9 4 3 4 13 105 Lazer Meio 2 1 1 4 Ambiente Educação 1 1 2 1 2 2 1 1 11 Esporte 1 1 2 1 1 1 2 3 1 2 15 Policial 2 1 1 4 Saúde 1 1 1 3 Política 1 1 1 2 2 1 3 1 3 1 16 Culinária 2 2 3 7Fonte: Elaborado pela autora A seguir uma análise de cada uma dessas editorias, a fim de verificar acontribuição do jornal para a comunidade através dos conteúdos veiculados nasedições investigadas.3.3.1 Social: Essa editoria está presente de modo significativo nas dezesseis ediçõesanalisadas do jornal, contabilizando quarenta e seis matérias. Os assuntos tratadossão diversos, indo desde problemas sociais locais até assuntos nacionais deinteresse social com repercussão no território sisaleiro. Inserem-se aqui matériasque tratam de assuntos como Feira Livre, Internet, Conselho Nacional e Municipal
  • 63. 63de Juventude, além de falar de ações realizadas pela sociedade civil, como porexemplo, “Moradores de Valente se unem e fazem mutirões em prol da comunidade”(ed. 4, pag. 3), entre outros temas. As matérias de cunho religioso também foraminseridas nesta editoria. Religião é um assunto pouco mencionado no jornal. Foram publicadas nasedições analisadas três matérias sobre o assunto. Uma sobre “Meditação” na ediçãonúmero nove, página quatro; e as outras duas na edição número onze, página três.A que se destaca dentre as três é “50 anos de fé e devoção a Nossa Senhora deFátima”, que aborda a história da santa no contexto da cidade de Nova Fátima, pelofato da santa ser padroeira deste município. Dentre as matérias de caráter social destacam-se: “Referendo Popular: ocomércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?” (ed. 4, pag. 2);“Crise da APAEB” (ed. 7, pags. 4-5); e “Conselho Tutelar agindo em Nova Fátima”(ed. 13, pag. 1), como se pode verificar nos trechos abaixo: Acontece no dia 23 de outubro, o primeiro referendo popular do país onde os eleitores estão convocados a votar a favor ou contra o comércio de arma de fogo e munição. Existem argumentos que são favoráveis e contrários a proibição. O voto é obrigatório e quem estiver fora do domicílio eleitoral deve justificar a ausência [...] O mais importante empreendimento da Região Sisaleira, a APAEB – Valente passa atualmente por uma crise que poderá afetar toda a economia dos municípios vizinhos. Frente a essa questão os dirigentes da Instituição buscam alternativas para evitar esse acontecimento [...] [...] O conselho tutelar visa também a conscientização da sociedade em geral, incumbindo à família o seu dever e ao menor os seus direitos e deveres, e tem como meta de trabalho que nenhuma criança ou adolescente seja vista como objetos de negligência, discriminação, crueldade e opressão [...] As matérias apresentavam um perfil mais informativo, porém a equipe dojornal também parecia levar em consideração a opinião da comunidade sobre osassuntos abordados. Os trechos acima são exemplos de matérias que buscavam
  • 64. 64informar e conscientizar a população sobre determinados temas, além de fazer osleitores pensar e discutir sobre estes.3.3.2. Cultura e Lazer Matérias relacionadas a essa temática também aparecem com frequência nasedições analisadas, tendo sido cento e cinco matérias publicadas na amostraselecionada. Nesta categoria encontram-se matérias sobre festas/eventos, quarentano total, com o papel de divulgá-los antes ou após ocorridos. Alguns exemplos são:“Acontecerá nos dias 02 e 03 de setembro a XIV Festa de Vaqueiros e Fazendeirosde Nova Fátima” (ed. 14, pag.1); e “Aconteceu dia 01 de janeiro de 2006, entre opovoado de São Pedro e a cidade de São Domingos a primeira Jegada” (ed. 7, pag.6). A maioria das matérias dentro das edições analisadas parece valorizar acultura local, como “São Domingos e Valente participam de evento em Feira deSantana e mostram os valores culturais da nossa região” (ed. 2, pag. 2); “Tradiçõesmarcam a Cultura do Semi-árido” (ed. 7, pag. 2); “Grande Festa e Resgate Culturalna Comunidade de Lagoa Coberta” (ed. 11, pag. 8). Os eventos noticiados pelo jornal são organizados tanto pelo poder públicoquanto pela sociedade civil, tendo sido este último caso mais recorrente na amostrainvestigada. De modo geral, o critério para publicação parece ser a relevância doassunto em termos de notícia para o território. Há ainda um espaço nas edições do DN dedicado à poesia, com a publicaçãode textos de autores consagrados mundialmente, como Charles Chaplin e BertoltBrecht, e artistas regionais, como o sãodominguense Genivaldo de Jesus, conhecido
  • 65. 65como “O Poeta Pingo”. A edição número dez, página sete, por exemplo, traz umahomenagem deste poeta às mães, na poesia intitulada “Um Presente Meu”: Meu Pai do Céu, um obrigado mais que especial, um obrigado de muito valor pelo presente que me deu para eu dedicar o meu amor. Um presente que não tem troca, e eu o levo para onde for. Um presente mais que presente e que nunca me abandonou. Um presente de um passado sempre presente, que meu coração conquistou. Um presente que no futuro da gente, com ela para qualquer lugar eu vou. O melhor presente dado por Deus, a todos os filhos seus. Um presente chamado “Mãe” especialmente porque é meu. O jornal também abria espaço para poesias de cunho religioso, como podeser verificado abaixo: Nova Fátima Tu és uma adolescente, Temes o futuro, Relembra o passado E passeia pelo presente da tua história Carregas o nome de uma mulher forte, Guerreira e determinada Apesar de jovem Tomas decisões de gente grande Tens as ruas estreitas Um povo alegre e acolhedor Nunca serás velha Pois seu nome é Nova Fátima Sinônimo de alegria Tu tens uma atração inexplicável
  • 66. 66 Quem te conhece não te esquece jamais Cidade de encantos mil, tu és demais! Esta poesia, publicada na edição número onze do DN, foi uma homenagempelo aniversário de dezessete anos de emancipação política do município de NovaFátima, de autoria da colaboradora Silvarleide Queiroz. As poesias veiculadas nojornal tratavam de assuntos diversos, indo desde educação e crítica social, até amore religião, dentre outros temas. O humor também está presente nas edições analisadas do DN, com vinte etrês ocorrências na amostra analisada. Sempre havia charges e piadas quedivertiam o leitor, como a descrita abaixo, publicada na edição número dezesseis,página quatro: Com menos de um mês de casada, a filha única chega à casa da mãe toda roxa: _ Oh! Mamãe, o Zecão me bateu! _ O Zecão? Eu pensei que ele estivesse viajando! _ Eu também, mamãe! Eu também! Geralmente eram divulgadas piadas curtas e de fácil compreensão. SegundoPedro Américo, um dos idealizadores do jornal, isso acontecia pelo fato da equipepensar no nível de escolaridade do leitor, pois buscavam atingir todos os tipos depúblicos.3.3.3. Esporte Quando se fala de esporte, as matérias publicadas no DN versavam sobrecampeonatos, torneios, corridas, gincanas, olimpíadas estudantis, dentre outros. Nototal foram quinze matérias, destacando-se duas. A primeira foi uma reportagem
  • 67. 67publicada na edição número nove, tendo ocupado ¾ da primeira página e com otítulo “Craque de São Domingos batendo um bolão nacionalmente” (Figura 3). Otexto fala sobre a vida do jogador Telmário de Jesus Sacramento, conhecido comoDinei, e sua trajetória no futebol, o que rendeu grande repercussão entre os leitoresdo jornal e na cidade como um todo. Figura 3: Edição nº 9, página 1 A segunda matéria de destaque foi “O maior colecionador de São Domingos”na edição número quinze, página três. Trata-se do hobby de um morador da cidade,Wesley Carneiro, colecionador de camisas de times de futebol, todas originais e amaioria de times internacionais. Exemplos de outras matérias publicadas são: “ICorrida do Sisal” (ed. 15, pág. 2), “Campeonato valentense de futebol” (ed. 8, pág. 3)e “Copa da Cidadania” (ed. 11, pág. 2).3.3.4. Educação:
  • 68. 68 Onze matérias sobre educação foram publicadas no DN, na amostraanalisada, e nos casos em que isso ocorria geralmente foram abordadas açõesdesenvolvidas no município, seja pela sociedade civil ou pelo poder público, aexemplo do “Projeto Baú de Leitura” (ed. 6, pág. 2) que fala sobre a contribuição doprojeto para os educadores e alunos, incentivando a leitura e a produção artística; “VFLELC (Feira de Leitura da Escola Luiz de Camões)” (ed. 5, pág. 2), uma feirarealizada por professores e alunos da escola e que apresenta estandes com temasvariados de interesse da juventude, uma tática utilizada pela instituição paraestimular a leitura e afastar os jovens da violência; e “A corrida por uma vaga nauniversidade” (ed. 13, pág. 1), destacando o papel da educação na vida dosindivíduos e o interesse dos jovens pelas vagas na Universidade Estadual de Feirade Santana (UEFS). Pelo conteúdo analisado, as matérias sobre educação buscavam mostrarpara a população, de modo geral, a importância do conhecimento na vida doindivíduo, através, por exemplo, da divulgação de ações educativas voltadas para oestímulo ao hábito de leitura na comunidade.3.3.5. Meio Ambiente: Sobre Meio Ambiente, foram divulgadas quatro matérias nas dezesseisedições analisadas. Algumas delas trazem como títulos: “A questão do meioambiente” (ed. 2, pág. 2); “Meio ambiente: projetos para a região sisaleira” (ed. 2,pág. 2); “ICOJUDE realizará com o Colégio Estadual Luiz de Camões o I SeminárioMunicipal de Meio Ambiente em São Domingos” (ed.10, pág. 1 – Figura 4). Estaúltima foi matéria de destaque no DN, tendo ocupado ¾ da primeira página.
  • 69. 69 Figura 4: Edição nº 10, página 1 No geral, essas matérias enfocam questões relacionadas aos problemasenfrentados com a degradação do meio ambiente, como o surgimento de doenças, apoluição dos solos e das águas; e a conscientização da população sobre aimportância da preservação ambiental, dentre outros. Portanto, parece haver nestaeditoria um caráter educativo e de conscientização.3.3.6. Policial: As matérias policiais eram sempre sobre fatos acontecidos nas cidades ondeo DN circulava, como, acidentes, furtos, prisões e informações fornecidas porautoridades policiais. No total de dezesseis edições, esse tema apareceu quatrovezes, o que demonstra ter sido a área policial pouco explorada pelo jornal. Sobre oconteúdo das matérias, não apresentavam caráter sensacionalista, utilizando, aoinvés disso, uma linguagem jornalístico-informativa. Nenhuma das matérias continhafotos, apenas as informações básicas eram noticiadas sobre cada fato.
  • 70. 703.3.7. Saúde: Dentro desta editoria foram publicadas três matérias na amostra analisada. Aprimeira aborda a situação da saúde pública na cidade de Nova Fátima, outraenfatiza o aparecimento de um barbeiro na cidade de São Domingos e a últimaressalta a questão do tabagismo. Essas não trazem a voz de especialistas, inclusiveuma das matérias foi produzida por um indivíduo representante da sociedade civil,as outras duas pela equipe do jornal. Das três a mais substancial foi “A face do cigarro: um caso real”, publicada naedição número dez, página três. Ao tratar sobre os riscos provocados pelotabagismo a matéria busca conscientizar e sensibilizar os leitores. O textojornalístico é reforçado com a entrevista com uma dona de casa que fumou durantecinqüenta e três anos e sofre com as conseqüências do cigarro: Acho o cigarro uma droga que causa dor e sofrimento, acabou com a minha vida. Peço a todos os fumantes que deixem o cigarro, porque só assim terão mais anos de vida e serão saudáveis.3.3.8. Política: Foram veiculadas dezesseis matérias sobre Política nas edições investigadas,destacando-se quatro: a primeira traz como título “Seminário do PT em SãoDomingos” (ed. 8, pág. 1), abordando as ações do partido frente à crise política eoutros projetos importantes para a cidade. A segunda, “TCU condena presidente daCooperativa Mista dos Produtores” (ed. 3, pág. 3), denuncia irregularidades da deuma cooperativa da cidade, conforme trecho abaixo: O Tribunal de Contas da União (TCU) julgou irregularidades as contas da Cooperativa Mista de Produtores de São Domingos (Coopesd-BA), cujo presidente à época era o Sr. Rubem Ribeiro Lima e o condenou ao pagamento de R$ 51.846,68 por não prestar conta dos recursos federais repassados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento,
  • 71. 71 destinados à capacitação de 120 prod utores em cursos de aperfeiçoamento em atividades agropecuárias [...] A terceira matéria, “Programa Kit Moradia apresenta irregularidades em SãoDomingos” (ed. 10, pág. 5), apresenta os problemas enfrentados pelos moradoresde um Conjunto Habitacional do município, como pode ser verificado no seguintefragmento: [...] Com apenas cinco meses de inauguradas as casas contém grandes problemas de infra-estrutura. Muitas ações que deveriam ter sido desenvolvidas não tiveram seu cumprimento, de acordo com os moradores do condomínio. Tais como a não construção da praça prometida, sem contar que a rua de acesso é estreita, sendo impossível uma transição adequada [...] Segundo a equipe do DN, o jornal é um veículo de comunicação e seu papelé informar a população dos acontecimentos sejam eles bons ou ruins certos ouerrados. A quarta matéria, “Campanha de Participação Política: voto não tem preçotem conseqüência” (ed. 15, pág. 1), reúne opiniões sobre o voto de pessoasenvolvidas na política como Alice Portugal (PC do B), Lídice da Mata (PSB), LucasRibeiro (PSTU) e integrantes da Rede de Jovens do Nordeste. Conforme matériaabaixo:
  • 72. 72 Figura 5: Edição nº 15, página 1 O jornal, especificamente nesta matéria, agiu de forma parcial, ao entrevistarsomente políticos de partidos de esquerda. Uma possível justificativa para isso é ofato de o veículo estar ligado a um movimento de contestação social, setor que,historicamente, têm nos partidos de esquerda seus parceiros. Esta possíveljustificativa, no entanto, não elimina a falha do jornal do ponto de vista dos critériosde objetividade e imparcialidade que devem nortear a produção jornalística. Noentanto, pelo conteúdo geral analisado, o jornal apresentava relativa imparcialidade.Quando se tratava de denúncia, seja ele contra o poder público ou outra instituição,o espaço era aberto para a defesa do “acusado”. Em alguns casos, os sujeitos aosquais eram atribuídas as denúncias, preferiam não se manifestar.3.3.9. Culinária: As matérias de culinária, no total de sete, eram sempre receitas de pratosfáceis e baratos, como alguns bolos e salgados. Na edição número nove, página 2,
  • 73. 73por exemplo, pela proximidade da Semana Santa, época em que, pela tradiçãoreligiosa, as pessoas costumam não consumir carne vermelha, o DN publicou aseguinte receita: Bacalhau à Baiana - 1 posta de lombo de bacalhau (+ ou – 500g) - 1 cebola (juliana - não muito fina) - 1 tomate (juliana - não muito fina) - 1 pimentão (juliana - não muito fino) - 4 colheres (sopa) de azeite - 3 colheres (sopa) de azeite de dendê - 1 garrafa (500 ml) de leite de coco Rendimento: 4 porções Refogue a cebola no azeite, em seguida acrescente a posta de bacalhau, acrescente o leite do coco e deixe cozinhar. Acompanha farofa de azeite de dendê e arroz branco. As receitas eram escolhidas pela própria equipe do jornal, às vezes retiradasde livros de receitas, outras vezes da internet. Sendo assim, a população nãoparticipava da escolha das receitas divulgadas no jornal, embora fossem feitassondagens informais sobre as preferências do público.3.3.10. Capas: As matérias mais interessantes são sempre divulgadas na primeira página deum jornal. Assim, a capa é uma parte fundamental do meio de comunicação, tendo afunção de atrair o leitor para os conteúdos distribuídos ao longo das demais páginas. No jornal Diário Nordestino esse processo não poderia ser diferente. As capasgeralmente apresentavam as manchetes das matérias mais importantes da edição.Alguns casos específicos eram concentrados na primeira página, sem continuidade
  • 74. 74em páginas subseqüentes, a exemplo da 15ª edição19. Nela, toda a capa é ocupadapor uma matéria sobre campanha de participação política, com três fotos e umanúncio publicitário de 14 x 9,5 cm. Outro exemplo é a 13ª edição onde duasmatérias ocupam todo o espaço, uma educacional, e outra sobre o conselho tutelarna cidade de Nova Fátima. No entanto, o mais comum nas edições do DN eram capas com manchetesvariadas, funcionando como chamadas para textos completos no interior do jornal. Aedição número 2 (Figura 6), por exemplo, traz sete manchetes, sendo cinco sobrecultura e lazer; duas sobre meio ambiente e uma nota sobre as obras das casaspopulares da cidade de São Domingos. A edição número onze apresentava quatromanchetes, sendo duas de caráter cultural, uma religiosa e outra sobre meioambiente; e uma matéria sobre o sindicato dos servidores públicos da cidade. Figura 6: Capa do DN Fonte: Edição nº 2, página 119 Ver figura 5.
  • 75. 754. Resultados da análise Ao analisar o DN pode-se perceber algumas falhas. Primeiramente, a falta deexperiência da equipe do jornal e de recursos que resultou num veículo preto ebranco, com poucas fotos e textos longos; o informativo ainda não possuía colunasespecíficas, assim, os assuntos não eram tratados com periodicidade. É certoafirmar ainda, que o jornal encontrou dificuldades e limitações ao longo de suatrajetória. Mas ainda destacam-se pontos positivos, no sentido de levar a informaçãolocal à população da cidade. A extinção do DN pode ter sido ainda, pelo fato doICOJUDE atuar em diversas áreas como, juventude, cultura, meio ambiente,comunicação entre outras, diversificando assim o seu foco e impedindo aconcentração de esforços numa área específica. Algumas sugestões de melhoria do ponto de vista jornalístico seriam: inserirmaior quantidade de fotos noticiosas, que exerceriam um papel ilustrativo junto aotexto, mas principalmente, representariam fonte de informação principal para opúblico analfabeto ou com baixo interesse pela leitura. Tendo em vista que aimagem também comunica, esse poderia ter sido um ponto a ser melhor exploradopela equipe do DN a fim de atrair maior número de leitores; produzir textos menorese organizar as editorias para se ter um conteúdo diversificado e atrativo; promovermecanismos de maior participação da população na produção de conteúdos. Outro ponto importante é a diagramação e o visual- um jornal colorido e bemdiagramado desperta a atenção do leitor. Se a intenção era conquistar leitores numcontexto de acesso aos meios de comunicação somente pelo rádio e TV, alto índicede analfabetismo e de desinteresse pela leitura, o aspecto visual, somado a textoscurtos e ilustrados, poderia ser um trunfo a mais para o Diário Nordestino.
  • 76. 76 Além disso, o conteúdo das matérias é uma questão a ser pensada. O fato deo jornal ter sido produzido por jovens, em sua maioria com posicionamento políticodefinido, e clara aproximação com a esquerda, de certa forma influenciou aprodução desses conteúdos, sobretudo na cobertura política. A falta de experiênciajornalística somada a certa ingenuidade do ponto de vista político, interferiram naprodução de conteúdos do jornal, o que, contudo, não descaracteriza o projeto dojornal enquanto iniciativa de um grupo de jovens com reais intenções em contribuirpara o desenvolvimento local.
  • 77. 77CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho buscou analisar a trajetória do jornal Diário Nordestino e suacontribuição informativa para a comunidade de São Domingos, interior da Bahia,onde o informativo circulou de junho de 2005 a fevereiro de 2008. É certo afirmar que a comunicação está presente no cotidiano das pessoas,em suas variadas formas de manifestação, e o papel a ser desempenhado pelaimprensa deve ser sobretudo o de integrar a comunidade, situando-a sobre os fatos.Nesse âmbito, devem ser observados aspectos como linguagem, compromissosocial, criatividade, responsabilidade com a informação, ética, dentre outrasquestões. O Território do Sisal, situado na região semi-árida da Bahia, é um lugarmarcado por um passado sofrido, o que faz com que, ainda hoje, parte considerávelde sua população se desloque para os grandes centros urbanos em busca demelhores oportunidades de sobrevivência. Por outro lado, existem aqueles quepersistem e, com a ajuda de organizações, movimentos e outras instituições quetrabalham em parceria com a sociedade civil organizada, conseguem benefíciospara a região, trazendo um pouco de esperança aos olhos daqueles que sofrem comproblemas sociais e econômicos do dia-a-dia. No caso da apropriação de veículos de comunicação como “elos” sociais emmunicípios do Território do Sisal, apesar de ser uma área de destaque trabalhadapelos movimentos sociais, o que se observa é a pouca exploração do veículoimpresso. Tal fato parece decorrer da consideração sobre o próprio perfil dapopulação local- altas taxas de analfabetismo e pouco interesse pela leitura- além defatores como custos, dificuldade de organização de equipe, dentre outros, fazendodo rádio o veículo mais utilizado na região.
  • 78. 78 A proposta de ICOJUDE de ter no Jornal Diário Nordestino seu principalinstrumento de mobilização social representou um desafio maior, nesse sentido. Ojornal se materializou como reflexo do trabalho de mobilização exercido pelosmovimentos sociais e ONGs do Território e a proposta foi construir um veículoalternativo, capaz de levar informação e entretenimento à população, da forma maisabrangente possível, tendo à frente jovens estudantes interessados em contribuircom o desenvolvimento local. Dentre os aspectos positivos dessa iniciativa, pode-se destacar o fato de tersido o único veículo de comunicação produzido em São Domingos naquele período,e tratando de assuntos referentes diretamente àquela comunidade, num momentoem que a população tinha acesso apenas à programação de rádios comunitáriasque atuavam em situação irregular, sendo permanentemente fechadas pela Anatel,o que dificultava a manutenção de uma relação mais direta e permanente com acomunidade; e de emissoras de televisão oriundas da capital baiana e do eixo Rio-São Paulo que não noticiavam fatos locais, e que nem sempre podiam ser vistas,pela inexistência de aparelhos de televisão em algumas residências, situação quepode ser constatada ainda nos dias atuais. Outra característica positiva era a preocupação da equipe do DN em tratar deassuntos diversos e abrir espaço à participação da população, que poderia exporsuas idéias, pensamentos e produções, como é o caso de textos poéticos, músicas,dentre outros. Em muitos momentos, o jornal ouvia sugestões de leitores em relaçãoàs matérias que seriam veiculadas nas edições. Além dessa abertura à comunidade,os assuntos tratados possuíam uma relação direta com o local, nas mais diversasáreas. A linguagem também buscava se somar a isso, buscando ser simples edireta, a fim de atrair o público leitor.
  • 79. 79 Por outro lado, as limitações também merecem ser mencionadas. Falta deexperiência da equipe em produção de conteúdo jornalístico e organizaçãoinstitucional, o que implica em habilidade em angariar recursos, dentre outrosfatores; falta de foco do ICOJUDE, atuando em diversas áreas e dificultando aconcentração de esforços no jornal, com reflexos na dificuldade de manutenção doimpresso; certa ingenuidade da equipe do ponto de vista político, visto que os jovensdo Instituto tendiam a ver o jornal desvinculado de questões políticas, quando naverdade a política permeia o próprio funcionamento da sociedade; e a falta de hábitode leitura entre a população saodominguense, o que poderia ser amenizado commaior exploração de fotos nas matérias e textos mais curtos, por exemplo; só paracitar alguns. O advento das novas tecnologias da informação e comunicação poderia seraqui indicado também como possível causa para a extinção do Diário Nordestino,mas não acreditamos nessa possibilidade, pelo menos diretamente. Isso porque nãoexistem hoje em São Domingos sites noticiosos produzidos localmente. O própriosite do Diário Nordestino não conseguiu se manter, tendo sido extinto juntamentecom sua versão impressa. De todo modo, quase dois anos após sua extinção, a população ainda serecorda do jornal e de suas notícias. Alguns moradores perguntam, elogiam, criticame até lamentam o fim do periódico, o que pode ser entendido como um retornopositivo à iniciativa do ICOJUDE. Apesar de todos os obstáculos, e refletindo o pensamento de alguns autorescitados neste trabalho, o jornalismo local possui um papel importante para acomunidade, por fatores como proximidade e identificação do leitor com o veículo,por este estar inserido no mesmo contexto social. Sendo assim, apesar de suas
  • 80. 80limitações, o Diário Nordestino, para nós, possui um espaço importante na históriada imprensa sisaleira, e mais especificamente no município de São Domingos, tendorepresentado um significativo instrumento de mobilização jovem para atransformação social. Antes de qualquer avaliação, este jornal pode ser visto como oresultado de um trabalho de luta e perseverança num local onde, apesar dosofrimento, a esperança e a vontade de vencer as adversidades permanecempresente entre as pessoas que compartilham o espaço conhecido como Território doSisal.
  • 81. 81REFERÊNCIASANDRADE, Benedita Pereira de. Sisal e Sociedade Rural: o caso de Valente eSanta Luz – Bahia. In: LAGE, Creuza Santos. ARGOLO, João Lamarck. SILVA,Maria Auxiliadora da (Org.). O sisal baiano: entre natureza e sociedade: uma visãomultidisciplinar. Salvador: UFBA, 2002, p. 71-80.ANJOS, Josineide Costa dos. O Correio da Bahia e o primeiro turno das eleiçõesmunicipais de 2004: uma análise da cobertura jornalística durante o períodoeleitoral. 2004. Disponível em: www.booc.ubi.pt. Acesso em 20 de janeiro de 2010.A Tarde:Ano 98, Nº 33.147. Salvador/BA, 08 jan. 2010.BRUNO, Chico. Tribuna da Bahia dá a volta por cima. 2003. Disponível em:<http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/fd290720032.htm>. Acesso em22 de novembro de 2009.CÉSAR, Regina Escudero. Movimentos sociais, comunidade e cidadania. In:KUNSCH, Margarida M. Krohling. KUNSCH, Waldemar Luiz (Org.). Relaçõespúblicas comunitárias: a comunicação em uma perspectiva dialógica etransformadora. São Paulo: Summus, 2007, p. 78-89.CICILLINI, Fernanda Maria. Mídia impressa e informação local: O Jornal impressono Centro do Estado de São Paulo. 2007. Disponível em: www.bocc.ubi.pt. Acessoem 03 de setembro de 2009.Correio da Bahia:Ano XXX, Nº 09952. Salvador/BA, 08 jan. 2010.DAGNINO, Evelina. Sociedade Civil, Espaços Públicos e a Construção Democráticano Brasil: Limites e Possibilidades. In: DAGNINO, Evelina (Org.). Sociedade Civil eEspaços Públicos no Brasil. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2002, p. 279-301.Estatuto do Instituto de Comunicação e Juventude Diário Nordestino. SãoDomingos/BA, 2006.FERREIRA, Giovandro Marcus. MOREIRA, Gislene. A construção dacomunicação comunitária da região do Sisal: uma rede tecida com fibra eresistência. Disponível em:<http://www.alaic.net/alaic30/ponencias/cartas/Com_popular/ponencias/GT15_3Giovandro.pdf>. Acesso em 15 de dezembro de 2009.Fontes orais:Aline AraújoIvanilton AraújoGUEDES, Viviane Marques. A construção da cultura no cotidiano do Jornalismoimpresso em João Pessoa. 2007. Disponível em: www.bocc.ubi.pt. Acesso em 02de setembro de 2009.
  • 82. 82GOMES, Gislene Moreira. Comunicação, cultura e participação: reflexões sobre aconstrução do desenvolvimento territorial na Região Sisaleira na Bahia. UFBA.UNIrevista, vol. 1, nº 3, julho 2006.HUBSCHMAN, Jacques. Olhar sobre o sisal: as pesquisas sobre o meio, a paisageme a sociedade no sertão sisaleiro da Bahia. In: LAGE, Creuza Santos. ARGOLO,João Lamarck. SILVA, Maria Auxiliadora da (Org.). O sisal baiano: entre natureza esociedade: uma visão multidisciplinar. Salvador: UFBA, 2002, p. 19-24.Jornal Diário Nordestino (São Domingos/BA):01, 02, 03, 04, 05, 06 de 200507, 08, 09, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16 de 2006KUNSCH, Margarida Maria Krohling. Sociedade civil, multicidadania e comunicaçãosocial. In: KUNSCH, Margarida M. Krohling. KUNSCH, Waldemar Luiz (Org.).Relações públicas comunitárias: a comunicação em uma perspectiva dialógica etransformadora. São Paulo: Summus, 2007, p. 59-77.LAVILLE, Christian. DIONNE, Jean. Análise de Conteúdo. In: Construção do saber:manual de metodologia da pesquisa em ciências humanas. Porto Alegre: Artmed,1999, p. 214-231.LIMA, Maria Érica de Oliveira. Rede Bahia de Comunicação: Um exemplo de mídiaregional. São Paulo: Comunicação: Veredas, ano 2, nº 02, novembro 2003.LUCAS, Laércio. ROSA, Celane. História do Jornal A Tarde. 2009. Disponível em:<http://comunicacaocafe.blogspot.com/2008/09/historia-do-jornal-tarde.html>.Acesso em 22 de novembro de 2009.LOPES, Dirceu Fernandes. Uma história marcada por censura e resistência.Reproduzido do jornal da USP, nº 831, 2 a 6/6/2008. Disponível em:<http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br>. Acesso em 22 de novembro de 2009.MARQUES, Nonato. Histórico sobre a cultura do sisal. In: LAGE, Creuza Santos.ARGOLO, João Lamarck. SILVA, Maria Auxiliadora da (Org.). O sisal baiano: entrenatureza e sociedade: uma visão multidisciplinar. Salvador: UFBA, 2002, p. 15-18.MELO, José Marques de Melo. História Social da Imprensa: Fatores socioculturaisque retardaram a implantação da imprensa no Brasil. Porto Alegre: EDIPUCRS,2003.MORAIS, Kátia Santos de. Mobilização com que comunicação? Estabelecendorelações entre práticas comunicacionais e processos de construção cidadã. In:Congresso Brasileiro Científico de Comunicação Organizacional e de RelaçõesPúblicas - Abrapcorp, 3, 2009, São Paulo, SP. Anais (on-line). São Paulo:Abrapcorp, 2009. Disponível em: <http://www.abrapcorp.org.br/anais2009>. Acessoem 28 de janeiro de 2010.OLIVEIRA, Ayala Carneiro de. Conceição do Coité é notícia: Memória e História daCidade nas páginas do Jornal Tribuna Coiteense. Juazeiro. 2009.
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