UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIADEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO - CAMPUS XIV        LICENCIATURA EM HISTÓRIA          Kécia Dayana...
Kécia Dayana da Silva CarneiroDevoção e festa no sertão baiano:   Juazeirinho, 1930 – 2008.                  Monografia ap...
Agradecimentos       Durante a realização deste trabalho recebi o apoio de algumas pessoas. Por issogostaria de destacar a...
[...] essa dinamicidade da festa religiosa permite entender não sóelementos internos, mas sobremodo situações de ordem con...
ResumoOs festejos religiosos são objetos de estudo que possibilitam o entendimento de diferentesaspectos de uma sociedade....
SumárioIntrodução ..................................................................................................      ...
7                                              Introdução        Desde a Antiguidade as festas eram realizadas para marcar...
8elementos presentes no cotidiano, aos quais não se restringem apenas as populações locais,mas compõem o cenário religioso...
9localidade a partir da construção da capela, assim como a movimentação e alteração docotidiano durante os dias das festas...
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11                                    Fontes e Metodologias        Como afirma Kátia Mattoso, “O trabalho do historiador é...
12impulsionaram a busca de informações que elucidassem as lacunas e até mesmo legitimassemalgumas afirmações relacionadas ...
13quando é produzido o livro. Relata sobre acontecimentos importantes e esferas diversas, comopolítica, economia, cultura ...
14e descontração. Uma matéria do jornal, intitulada “Deus é Festa”21, demonstra a visão daIgreja em prol das festividades ...
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16           Sobre a troca dos padroeiros, tivemos como suporte duas documentações: umacertidão de doação das terras para ...
17       Destacamos também como documentação referente aos primeiros moradores deJuazeirinho, no início do século XX, duas...
18        A última etapa das entrevistas foi a transcrição e a análise das informações, esta foirealizada de forma a conte...
19                                      1. História e religiosidade        1.1 As práticas religiosas no Brasil        As ...
20padroeiros eram elementos constantes na vida do cristão, na medida em que “dentro da casa,uma série de imagens, quadros ...
21                           Essa intervenção clerical no curso do catolicismo no Brasil vai demarcar                     ...
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26        Durante as festas em devoção à Santa Terezinha e à Sagrada Família, as relações nãose restringiam somente ao âmb...
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30atividades religiosas para o sertanejo, apresentando-as como elementos formadores de suaidentidade, porque os costumes, ...
31                           por um conjunto de práticas dispersas. Comporta uma riqueza de maneiras                      ...
32                                2 O Distrito de Juazeirinho       2.1 Origem       A história de Juazeirinho está relaci...
33           Em 1933, com a construção da capela, a fazenda começou a ganhar mais famílias, éimportante ressaltar que, nes...
34        2.2 Manifestações religiosas                          A oração, a penitencia, a promessa, a vela acesa ajudam a ...
35                          linguagem simbólica expressa nas orações [...] Na verdade, em todas essas                     ...
36que cada noite da festa é consagrada a uma pessoa, onde esta fica responsável pelos fogos deartifício para abrilhantar a...
37são voltadas à parte central da sala principal, onde o altar enfeita a imagem da Santa protetora.Percebemos que neste mo...
38dinheiro. Participam das brincadeiras as crianças, os jovens, os adultos e os idosos e, emboraentre os mascarados preval...
Devoção e festa no sertão baiano
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Devoção e festa no sertão baiano

  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIADEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO - CAMPUS XIV LICENCIATURA EM HISTÓRIA Kécia Dayana da Silva Carneiro Devoção e festa no sertão baiano: Juazeirinho, 1930 – 2008. Conceição do Coité, Ba. 2010
  2. 2. Kécia Dayana da Silva CarneiroDevoção e festa no sertão baiano: Juazeirinho, 1930 – 2008. Monografia apresentada ao Curso de Licenciatura em História do Departamento de Educação do Campus XIV da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), para obtenção do grau de Graduação em Licenciatura em História, sob orientação da Profa. Suzana Severs. Conceição do Coité, Ba. 2010
  3. 3. Agradecimentos Durante a realização deste trabalho recebi o apoio de algumas pessoas. Por issogostaria de destacar alguns nomes que foram muito importantes no decorrer destes meses depesquisa. À minha orientadora, Profa Dra. Suzana Severs, por ter me estimulado em todos osmomentos, acreditando em meu potencial. Por sua paciência, carinho e dedicação; contribuídocom seus ensinamentos para a elaboração e realização desta pesquisa. Aos meus pais, Valmirete e Gilsoney Carneiro, que estiveram me apoiando sempre,torcendo por minhas vitórias, acreditando em meus sonhos e dando suporte para a realizaçãodeste trabalho. À minha irmã, Kécia Dayane Carneiro, por sua companhia e dedicação de sempre,encorajando-me em todos os momentos; compartilhando todas as descobertas. Ao meu esposo, Ederlan Oliveira, por ter entendido a importância deste trabalho,sempre me apoiando e, de forma paciente, compreendendo a minha ausência em muitosmomentos. Aos meus colegas, Ana Lúcia Correia, Alaudja Lima, Fabiane Pinto, Maiara Gordiano,Sinara Carneiro e Cristian Barreto pela amizade e pelo incentivo em todos os momentos.Obrigada pelas sábias sugestões. A todos os juazeirenses que contribuíram para a realização deste trabalho, fornecendofontes e informações imprescindíveis. Não poderia deixar de citar o Padre Charles e os funcionários da Paróquia NossaSenhora da Conceição do Coité que disponibilizaram documentações importantes para aconcretização desta pesquisa.
  4. 4. [...] essa dinamicidade da festa religiosa permite entender não sóelementos internos, mas sobremodo situações de ordem contextual,social e local, enriquecendo o trabalho do pesquisador; que,fatalmente mergulhará num universo cultural marcado pelohibridismo das informações, pela multiplicidade das representaçõese pela complexibilidade de certas apreensões do divino ou sagradonas ações cotidianas e peculiares das festas brasileiras [...](SANTOS, Claudefranklin)
  5. 5. ResumoOs festejos religiosos são objetos de estudo que possibilitam o entendimento de diferentesaspectos de uma sociedade. A partir da análise da devoção a um santo padroeiro, é possívelconhecer a história, a cultura e a religiosidade de um determinado grupo social. Apresentamosnesta monografia a festa da padroeira de Juazeirinho, que tem início em meados de 1930 coma construção da capela e com a devoção dos moradores da localidade a dois santos padroeiros,Santa Terezinha, a qual tinha uma imagem no altar, e à Sagrada Família, para a qual teria sidodoado o terreno para a construção da capela. Este conflito envolvia as famílias mais influentesda localidade, que tinham diferentes devoções numa busca de demarcação de poder. Situaçãoque se prolongou durante os festejos à Santa Terezinha até a segunda metade da década de1970, quando, mediante o risco do fechamento da capela, é encontrada a Certidão de Doaçãodo terreno aos santos Jesus, Maria e José tornando-se, até os dias atuais, padroeiros dalocalidade. Para elucidar tais questões, este trabalho inicia-se com a elaboração de umarevisão bibliográfica fazendo uma discussão sobre aspectos teóricos e metodológicosnecessários para o desenvolvimento da pesquisa. Apresenta aspectos relacionados à históriada origem de Juazeirinho, explicando algumas práticas que fazem parte da sua cultura ereligiosidade, como as rezas que acontecem no âmbito público e privado durante praticamentetodos os meses do ano em devoção aos santos católicos. Por último, analisa a devoção durantea festa da padroeira como um elemento do patrimônio cultural imaterial, destacando asdiferentes atuações dos devotos, seus conflitos e significados, assim como as etapas deestruturação do evento religioso, que é interpretado neste trabalho como um espaço diverso,formado por símbolos sagrados e profanos em um ambiente de devoção e festa.Palavras-Chave: Juazeirinho, história, festa, religiosidade.
  6. 6. SumárioIntrodução .................................................................................................. 07Fontes e Metodologias................................................................................ 111. História e religiosidade: comentário bibliográfico............................... 191.1 O desenvolvimento das festas religiosas no Brasil .................................................... 191.2 A festa religiosa como objeto da historiografia......................................................... 231.3 A festa como um espaço de relação entre o sagrado e o profano ............................ 261.4 A religiosidade como patrimônio cultural imaterial ................................................. 292. O Distrito de Juazeirinho....................................................................... 322.1 Origem ..................................................................................................................... 322.2 Manifestações religiosas ........................................................................................... 342.3 Festas populares ................................................................................................ 373. “Uma capela, duas padroeiras”............................................................. 413.1 A edificação da capela ...................................................................................... 413.2 O conflito familiar ............................................................................................. 433.3A primeira padroeira................................................................................................... 454. Festa da Sagrada Família....................................................................... 494.1 Organização da festa. ................................................................................................ 494.2 Participação dos devotos .......................................................................................... 504.3 As práticas religiosas durante a novena .................................................................... 534.4 festa: sociabilidade e cotidiano ................................................................................ 554.5 A hierarquia religiosa e social durante as atividades festivas ................................... 57As transformações na festa da padroeira.................................................. 60Referências ................................................................................................. 62Lista de Fontes utilizadas.......................................................................... 65
  7. 7. 7 Introdução Desde a Antiguidade as festas eram realizadas para marcar o início ou o término decelebrações importantes, sendo sempre de caráter religioso, em adoração às divindadessobrenaturais, marcadas por procissões e promessas. Quando o Cristianismo éinstitucionalizado, estas práticas ganham assimilação, os rituais considerados pagãos sãoincorporados à teologia cristã, assim como suas divindades são substituídas pelos santoscatólicos.7 Neste sentido, as festas e as tradições religiosas ganharam outras formas de realização,com o estabelecimento de datas específicas para sua comemoração. A Igreja passou adeterminar os dias de festa, distribuídos em dois grupos, separando as celebrações entre festasque têm datas geralmente fixas, como o Natal e Reis, e as festas dos santos, com destaque asdestinadas à devoção à Virgem Maria.8. No Brasil, o Catolicismo tradicional é marcado por seu caráter devocional e festivo,com símbolos e eventos em devoção aos santos padroeiros. Percebemos grande participaçãodos fiéis anualmente em romarias e procissões como uma característica que compõe o cenáriodas festas religiosas do calendário católico, através de diferentes expressões da cultura e dareligiosidade no país: Santuários e imagens religiosas atraem multidões no Brasil [...] cerca de 15 milhões de pessoas se deslocam por motivos religiosos todos os anos no país. As festas religiosas surgem como uma das nossas mais importantes expressões culturais, estabelecendo um calendário que demarca os tempos e organiza grande parte da nossa vida social[...]9 Existem muitos lugares santificados e, inúmeras são as manifestações religiosas que,por meio de festas, novenas, procissões, encenações, missas e romarias, transformam-se emverdadeiros espetáculos de devoção. As diversas festas tradicionais constituem-se como7 FUNARI, Pedro Paulo; PELEGRINI, Sandra C. A. O que é Patrimônio Cultural Imaterial. São Paulo:Brasiliense, 2008.8 MEGALE, Nilza Botelho. Folclore brasileiro. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.9 STEIL, Carlos Alberto. Catolicismo e Cultura. IN: VICTOR, Vicente Valla. (org.). Religião e cultura popular.Rio de Janeiro: DP&A, 2001. p.11.
  8. 8. 8elementos presentes no cotidiano, aos quais não se restringem apenas as populações locais,mas compõem o cenário religioso e cultural do Brasil 10. E, mesmo diante dos avanços científicos e tecnológicos verificados no último século,as festas religiosas ainda representam grande influência na vida cotidiana, principalmente nointerior do país, em que as tradições e a devoção aos santos católicos são realizadas de formamais intensa, através de expressões diferenciadas da religiosidade. “Em pleno século XXI, oser humano continua procurando a alternativa da fé para resolver seus problemas, expressarseus sentimentos e ativar a memória coletiva.”11 Em Juazeirinho, Distrito localizado á 12 Km da Cidade de Conceição do Coité,percebemos que desde a sua fundação a população preserva, através de práticas diferenciadas,várias manifestações que marcam sua cultura e religiosidade como tradições importantes deseu patrimônio imaterial, em que os diferentes sujeitos que são identificados na festa, como osorganizadores, participantes e observadores, ganham espaços peculiares e contribuem para aconstituição de uma identidade festiva, em um universo de múltiplos sentimentos, de váriossignificados. Neste sentido, identificamos a tradicional festa da Padroeira, realizada desde meadosde 1930 como uma manifestação religiosa relevante para ser analisada neste trabalho,podendo ser estudados diferentes aspectos de sua história e cultura. Entendendo que oselementos religiosos influenciam de forma significativa o cotidiano desta localidade, o estudoda religiosidade “ permitirá vislumbrar também o entendimento acerca da formação dosentimento de pertencimento, ao passo que questões como singularidades e alteridade tornama compreensão de manifestações e representações coletivas mais claras no campo da pesquisahistórica” 12. Esta pesquisa tem como propósito estudar o patrimônio imaterial religioso conservadopela população juazeirense, entendendo como as manifestações religiosas festivas sãodesenvolvidas nos âmbitos público e privado, analisando de forma mais detalhada as Festasda Padroeira de Santa Terezinha (1930-1970) e da Sagrada Família (1971-2008), destacandode que forma a população juazeirense delas participavam, suas crenças, tradições e conflitos. Pretendemos demonstrar que o estudo das manifestações religiosas permite também oconhecimento de alguns aspectos da história local, como por exemplo, o crescimento da10 JUKEVICS, Vera Irene. Festas religiosas: a materialidade da fé. Disponível em: <www.jornalismo.com. br. >.Acesso em: 15 de Julho de 2008.11 PASSOS, Mauro. O catolicismo popular. IN: A festa na vida: significado e imagens. Petrópolis: Vozes,2002.p.165.12 SANTOS, Monteiro Claudefranklin. A festa como objeto de estudo de pesquisa histórica no campo dareligiosidade. Disponível em : www.scielo.br/scielo. Acesso em: 06 de Maio de 2009.p.03.
  9. 9. 9localidade a partir da construção da capela, assim como a movimentação e alteração docotidiano durante os dias das festas. Entendendo também as diferentes relações sociaisexistentes, porque o estudo das práticas religiosas possibilita desvendar aspectos relacionadosà estrutura social e às hierarquias existentes, assim como os conflitos implícitos durante asfestividades. Objetivamos também evidenciar como, ao longo das décadas, a população juazeirenserealizou as festas da padroeira, suas rupturas e continuidades, entendendo como as mudançasna sociedade influenciaram em sua religiosidade. Porque tais atividades têm grandesignificado e importância sociocultural, “a análise de uma cultura se dá também a partir daanálise de sua religiosidade [...]. Focalizar a religiosidade é desvendar sua história, reconstruiraspectos essenciais de sua existência, de seu universo simbólico, de sua cultura”13. Para tanto, este trabalho está estruturado em quatro capítulos. No primeiro, intituladoHistória e religiosidade: comentário bibliográfico, apresentamos uma discussão teórica sobrehistória e religiosidade, destacando como as práticas religiosas foram desenvolvidas duranteos séculos no Brasil, como também em Juazeirinho elas se apresentam, evidenciando osconflitos e os diferentes elementos sagrados e profanos que compõem o universo festivoreligioso. Fazemos uma abordagem da festa como objeto de estudo da historiografia,evidenciando as várias possibilidades de pesquisa, entendendo-a como parte do patrimôniocultural imaterial. No segundo capítulo, em O Distrito de Juazeirinho, analisamos alguns aspectos dahistória da origem de Juazeirinho, seus primeiros moradores e o processo de estruturação dalocalidade, evidenciando também as diferentes expressões da religiosidade através da análisede algumas manifestações religiosas que são realizadas no âmbito público e privado pelosjuazeirenses. Realizamos a descrição de algumas festas populares em que o universo religiosoencontra-se fortemente imbricado como parte da cultura e religiosidade local, podendo serdestacadas, através destas práticas, suas principais crenças e tradições. No terceiro capítulo, apresentamos um momento marcante na história de Juazeirinho,relacionado aos santos padroeiros da localidade, Santa Terezinha e a Sagrada Família, por issoele tem como título “Uma capela, duas padroeiras”, porque apresentamos como foi oprocesso de edificação da capela, dentro de um contexto conflituoso, envolvendo os devotosdas famílias mais influentes na época, que objetivavam a permanência de padroeirosdiferentes. Evidenciamos também o posicionamento dos moradores da localidade diante da13 FRANCO, Suely Campos. As manifestações religiosas desenvolvidas em São João Del Rei oriundas doperíodo colonial. Disponível em: <www.ces.vc.pt/lab>. Acesso em: 30 de Julho de 2008.p.01.
  10. 10. 10representação de cada santo padroeiro durante as festividades em devoção à Santa Terezinha,assim como o desfecho de todo esse conflito que durou cerca de quarenta anos (1930-1970). No último capítulo, intitulado Festa da Sagrada Família, descrevemos todas as etapasda novena em devoção à Sagrada Família como padroeira de Juazeirinho, evidenciando aatuação dos moradores para a realização da festa, bem como as diferentes práticas realizadas.Fazemos uma análise do universo festivo religioso da padroeira como um momento desociabilidade, em que a vida cotidiana é alterada, destacando também que o estudo da festa daSagrada Família, possibilita o entendimento da atuação dos diferentes participantes, assimcomo as hierarquias sociais são estabelecidas durante a realização dos festejos.
  11. 11. 11 Fontes e Metodologias Como afirma Kátia Mattoso, “O trabalho do historiador é limitado pelas fontes deinformação a que tem acesso”14. Neste sentido, foram os estudos das fontes disponíveis, oumelhor, o cruzamento dessas fontes, que acabaram ampliando o recorte temporal e osobjetivos pensados inicialmente para este trabalho, os quais se limitavam apenas ao estudo daFesta da Padroeira Sagrada Família durante o período de 1990 a 2000. O desenvolvimento da pesquisa foi pensado de forma semelhante ao que asprofessoras Dra. Maria Leônia Chaves de Resende e Suely Franco15 fizeram em trabalhosobre as festividades anuais de cunho religioso, oriundas do período colonial em São João DelRei, Minas Gerais. A partir da identificação de todas as festas realizadas em devoção aossantos padroeiros durante o período estudado, Resende e Franco realizaram uma pesquisautilizando diferentes fontes para analisar aspectos como sua origem, a estrutura das festas,seus participantes e práticas realizadas. O contato com as diferentes fontes e também com o aprofundamento do estudo dahistoriografia relacionada a festas religiosas fez surgir novos questionamentos queimpulsionaram a pesquisa em outros caminhos e também a busca de novas fontes einformações, que se tornaram essenciais para entender o objeto de estudo. Neste sentido, aanálise sobre a História de Juazeirinho e também sobre a Festa da Padroeira de SantaTerezinha foram novas problemáticas, que surgiram mediante o contato com as fontes, nasquais verificamos a necessidade de buscar, de questionar e investigar alguns aspectos queestavam relacionados à Festa da Sagrada Família. Embora não fossem o recorte, não poderiam ser apenas citados, pois necessitaria deum estudo um pouco mais ampliado, e o contato com a documentação conduziu a novasdescobertas que até então eram desconhecidas, como também a desconstrução de algumasinformações, até então, perpetuadas como verdade. Entre essas fontes, o trabalhomemorialista de Marielza Carneiro D’ Vilanova16, pois as informações encontradas14 MATTOSO, Katia M. de Queirós. Bahia Século XIX: Uma Província no Império. Rio de Janeiro: NovaFronteira, 1992.p.28.15 RESENDE, Maria Leônia Chaves de; FRANCO, Suely. Nas Vertentes da Estrada Real: cartografiaetnográfica das práticas devocionais e festas remanescentes de Minas Gerais setecentista. Disponível em:<www.festasnaestradareal.ufsj.edu.br/equipe_de_trabalho_.phpr>. Acesso em: 08 de Agosto de 2008.16 D’VILANOVA, Marielza Carneiro. Juazeirinho: Terra de Gente Valorosa. Conceição do Coité: NossaGráfica. 2007.
  12. 12. 12impulsionaram a busca de informações que elucidassem as lacunas e até mesmo legitimassemalgumas afirmações relacionadas à origem da capela, assim como a mudança dos padroeiros. Para realizar a pesquisa sobre as manifestações religiosas em Juazeirinho, foramutilizados como fontes os depoimentos orais, registros fotográficos, videográficos e musicais,como também as documentações existentes na Paróquia Nossa Senhora da Conceição doCoité e a análise de documentos impressos – jornais e folders relacionados às festividadesreligiosas. Neste sentido, foram analisadas o Livro de Tombo da Paróquia Nossa Senhora daConceição do Coité (1855 á 2009), a Certidão de doação das terras da capela Sagrada Família(1932), uma carta particular enviada por José Fernandes Carneiro17 (1981), um Inventariopós-morte (1872) das terras da fazenda Joazeiro, e duas escrituras de compra e venda dasterras do Arraial Joazeiro, de Rachel Carneiro de Souza (1934) e Juvelino Antonio Carneiro(1938). As fontes utilizadas, que estão sob a guarda do Arquivo da Paróquia Nossa Senhora daConceição do Coité, foram os Jornais O Mensageiro, o Livro de Tombo e a Certidão dedoação das terras da capela Sagrada Família. Encontra-se no Centro de Memória Documentalde Conceição do Coité – UNEB o Inventário pós-morte. E, sob propriedade particular, osfolders da festa Sagrada Família (Mário Leandro Silva da Hora, Joaquim Carneiro de OliveiraNeto e Maria Madalena Carneiro) e a carta enviada por José Fernandes Carneiro paraJoaquim Carneiro de Oliveira Neto, todos juazeirenses.Fontes escritas: Impressas: Inicialmente foi realizada a análise da obra da Professora Marielza CarneiroD’Vilanova, Juazeirinho: Terra de Gente valorosa18, que é dividida em subtítulosapresentandos de forma sucinta, informações sobre a História da localidade, contemplandodiferentes aspectos da sociedade. A autora aborda aspectos a partir de 1930 até o ano de 2007,17 Conhecido como Zuza, morador de Juazeirinho, doador do terreno onde foi construído da capela.18 D’VILANOVA, Marielza Carneiro. Juazeirinho: Terra de Gente Valorosa. Conceição do Coité: NossaGráfica. 2007.
  13. 13. 13quando é produzido o livro. Relata sobre acontecimentos importantes e esferas diversas, comopolítica, economia, cultura e religião. É uma fonte importante, na qual explica como a população era organizada e, noscapítulos referentes à “Origem de Juazeirinho” e ao “Aspecto Religioso”, como é denominadono livro, apresenta algumas informações referentes à Festa da Sagrada Família e de SantaTerezinha. Foi a análise deste capítulo da obra que impulsionou a investigação de forma maissistematizada de algumas informações e dados apresentados pela a autora, visto que talmaterial apenas apresenta como fonte para os fatos narrados poucas fotografias, e o contatoque tivemos com fontes orais e escritas tem elucidado algumas contradições em relação aoque tal obra apresenta. O cruzamento das diferentes fontes trouxe dados e aspectos nãoabordados na pesquisa de D’Vilanova. A necessidade de uma análise crítica do documento e o cruzamento de várias fontes,elucidado por Eni de Samara Mesquita19, foi fundamental para a realização desta pesquisa,pois não foi limitada apenas à visão da história apresentada pela memorialista, mas buscamosnovas informações que elucidassem os questionamentos surgidos, entendendo que cadadocumento, oral ou escrito, tem sua intencionalidade e, portanto, deve ser estudadocriticamente, não o interpretando como verdade absoluta. Contudo, apesar das lacunas referentes a alguns acontecimentos importantes,entendemos o trabalho de D’ Vilanova como uma obra memorialista de grande relevânciapara a História da localidade, por ter sido, dentro de suas limitações, uma pioneira que abordaas histórias que são contadas até os dias atuais. Ressaltamos também matérias do jornal O Mensageiro20, editado pelos funcionários daParóquia Nossa Senhora da Conceição do Coité desde 1997. É uma fonte muito interessantepara o estudo de diferentes aspectos, não somente o religioso, mas também por abordar temasdiversificados, como saúde, cultura, política, além de diferentes traços do cotidiano da cidade. Para esta pesquisa, O Mensageiro foi de grande importância, pois destinou grandeespaço para a descrição das festas religiosas. Dessa forma, identificamos como as festas daPadroeira Sagrada Família foram realizadas durante o período de 1997 a 2008, assim como adescrição de festividades através das notas que eram publicadas. Merece atenção a maneira como as festas dos padroeiros, de forma geral, sãoapresentadas em todos os exemplares dos jornais analisados: como um ambiente de animação19 SAMARA, Eni de Mesquita; SILVEIRA, Ismênia S. História & Documento e metodologia de pesquisa. BeloHorizonte: Autêntica, 2007.20 Arquivo pertencente à Paróquia de Nossa Senhora de Conceição do Coité.
  14. 14. 14e descontração. Uma matéria do jornal, intitulada “Deus é Festa”21, demonstra a visão daIgreja em prol das festividades dos santos católicos como uma forma de aproximar os fiéis aeste momento de religiosidade popular. Foram estudadas três colunas no jornal, denominadas Calendário Paroquial,Aconteceu virou notícia, Comunidade em Festa. Em o Calendário Paroquial, sãoapresentadas as datas e os encontros, missas e festas em cada igreja. Neste espaço, foipossível perceber a intensa participação dos juazeirenses nas atividades relacionadas àParóquia Nossa Senhora da Conceição do Coité. Em Aconteceu virou notícia, foi possível ser identificados os acontecimentos, comoencontro de jovens, shows sacros, dramatizações e rezas em adoração aos santos católicos; nacoluna Comunidade em Festa, encontramos diversas reportagens referentes à Festa daPadroeira Sagrada Família, seus temas, comunidades convidadas, procissões, realização desacramentos, período de duração, participação dos párocos e a realização de atividadesculturais, como a atuação dos fiéis na Festa e seus homenageados. A construção da festa religiosa como espaço de sociabilidade e animação pode serverificada também durante a análise dos folders relacionados à festa da Padroeira SagradaFamília, nos quais fica explícita a busca de membros da igreja em tornar o momento festivoum laço de comemoração e animação. Encontramos sob a guarda dos juazeirenses MárioLeandro Silva da Hora, Joaquim Carneiro de Oliveira Neto e Maria Madalena Carneiro22, osfolders com a programação das atividades realizadas durante dez anos, de 1998 a 2008. Nessa fonte, foi possível identificar as datas e horários em que foram realizadas asfestas, assim como as programações, as comunidades convidadas, os palestrantes de cadanoite, como também todas as pessoas que foram homenageadas. Além disso, foi possívelverificar as mudanças e as continuidades na própria estrutura da festa, as atividades que eramrealizadas após os términos das orações, como apresentações artísticas e culturais. Em algunsdesses folders, os párocos também deixavam suas impressões da festa da padroeira e dosdevotos de Juazeirinho, o que contribuiu para perceber como esses representantesinterpretavam o espaço festivo. Tivemos ainda o contato com cânticos e hinos que compõem o caderno de músicas daFesta da Padroeira, merecendo destaque para o Hino à Sagrada Família e o Hino do Juá,21 Jornal O Mensageiro, Nº 83, Ano 10, Novembro de 2004.22 Moradores que atuam na organização da Festa da Padroeira Sagrada Família.
  15. 15. 15produzidos pelo grupo local Nova Luz23. Nessa fonte, ficcou evidente a interpretação dosjuazeirenses de acontecimentos relacionados à história local, assim como a importância que afesta representa para os fiéis, na medida em que as músicas apresentam a crença e areligiosidade dos moradores, entendendo como único modelo de família a apresentada pelaIgreja Católica. Manuscritas: Outra fonte utilizada foi o Livro de Tombo da Paróquia Nossa Senhora da Conceiçãodo Coité, o qual apresenta informações sobre atividades realizadas na própria paróquia e emsuas capelas. É um documento que trata de relatos escritos pelos diferentes padres durante umperíodo de 154 anos. Apresenta também datas e acontecimentos referentes ao própriodesenvolvimento da cidade de Conceição do Coité e seus territórios, porque durante a leituraidentificamos diferentes aspectos relacionados à política, à economia, à cultura, às mudançaseclesiásticas, às relações de poder e à atuação dos diferentes párocos, como também os benspertencentes à Igreja. Em relação a esta pesquisa, o referido Livro de Tombo foi uma fonte imprescindível,fornecendo o relato de algumas festividades realizadas na igreja e em suas capelas, como adevoção aos padroeiros, através de novenas, missas, procissões e eventos religiosos, de modogeral. Sobre Juazeirinho, encontramos informações sobre as festas da padroeira de SantaTerezinha e da Sagrada Família. E, mediante estudo mais minucioso, comparamos dados edatas, período de atuação de párocos, assim como os acontecimentos em Juazeirinho. Essas informações contribuíram para elucidar alguns questionamentos em relação àsinformações oferecidas por D’ Vilanova, como a atuação de alguns padres em Juazeirinho ealgumas datas citadas por ela, na medida em que, através de comparações, foram encontradasalgumas contradições. Existem muitas lacunas relacionadas a algumas décadas, já que nem todos os párocosdescreveram de forma linear suas atividades, desta forma, em relação ao início do século XX,existem poucas páginas que relatam as festas religiosas, assim como os conflitos que foramencontrados em outras fontes relacionadas ao Padroeiro de Juazeirinho, a doação e criação dacapela e a mudança do Padroeiro na década de 1970, são ocultadas no Livro de Tombo.23 Grupo Musical formado por moradores de Juazeirinho responsáveis pelos cânticos durante a Festa daPadroeira Sagrada Família.
  16. 16. 16 Sobre a troca dos padroeiros, tivemos como suporte duas documentações: umacertidão de doação das terras para a construção da capela datada em 1932,24emitida a pedidode José Fernandes Carneiro e Juvelino Antonio Carneiro, que se encontra na Paróquia NossaSenhora da Conceição do Coité, e uma carta particular, datada no ano de 1981, de JoséFernandes Carneiro a Joaquim Carneiro de Oliveira Neto em que relata todo o processoenvolvendo a construção da capela e o período em que a localidade teve dois santospadroeiros. Na certidão de doação das terras, o escrivão Evódio Ducas Resedá declarou que ossenhores acima citados doaram aos santos José, Maria e a Jesus a terra onde foi construída acapela. Nesse documento, encontra-se a data em que a Sagrada Família tornou-se oficialmentepadroeira de Juazeirinho, ou seja, 1970. Na carta escrita por José Fernandes Carneiro a Joaquim Carneiro de Oliveira Neto, seuautor narrou como conseguiu construir a capela, seus esforços e a participação dos moradores,assim como a data em que faz a doação das terras para a Padroeira Sagrada Família, isto é, em1932. Nesta missiva ficou evidente o conflito sobre os santos padroeiros em Juazeirinho e,conseqüentemente, a resolução do problema de uma capela com duas padroeiras (SagradaFamília e Santa Terezinha). É valido explicar que durante a pesquisa surgiu a necessidade de estudar a história daorigem da localidade, a fim de investigar a relação entre ela e o início da devoção aos santoscatólicos. Devido à inexistência de algum trabalho que tratasse do assunto, tivemos o contatocom algumas documentações e fontes manuscritas ainda inéditas, para contextualizar a festada padroeira, como também para elucidar alguns questionamentos que surgiram durante otrabalho, como por exemplo, a relação entre a construção da capela e os primeiros moradoresde Juazeirinho. Em relação ao surgimento de Juazeirinho, tivemos contato com um inventário pós-morte do final do século XIX25, de Josepha Satyra do Amor Divino, no qual o seu marido,Victorio Aurelino Carneiro, declara todos os bens da falecida, entre eles as terras da FazendaJoazeiro. Neste documento, foram analisados alguns aspectos referentes à origem dalocalidade, como as dimensões do território, os moradores, dentre eles um escravo e asatividades produtivas que eram desenvolvidas, além do preço por que a fazenda estava sendoinventariada.24 Certidão sob a guarda da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Coité.25 Inventário encontrado no Centro Documental, UNEB – Campus XIV.
  17. 17. 17 Destacamos também como documentação referente aos primeiros moradores deJuazeirinho, no início do século XX, duas escrituras de compra e venda das terras do arraialJoazeiro, pertencentes à Rachel Carneiro de Souza, compradas em 1934 e vendidas a JuvelinoAntonio Carneiro, em 193826. Nas quais foi possível identificar o período em que os lotesforam vendidos, bem como seus respectivos valores e compradores. Com o cruzamento deoutras fontes, verificamos as primeiras famílias proprietárias das terras da fazenda Joazeiro.Fontes orais Neste trabalho, tiveram grande destaque também as informações guardadas namemória dos juazeirenses, através das entrevistas com alguns devotos que participaram daFesta da Padroeira. Foi possível, através da análise desses depoimentos, perceber as diferentesinterpretações, as rupturas e continuidades, conseguindo também informações que nosdocumentos escritos não são retratadas, assim como detalhes e impressões guardadas namemória. O trabalho com a História oral envolveu os participantes das festas da padroeira deSanta Terezinha e Sagrada Família, teve como base as instruções de Verena Albertini27,quando orienta para que as transcrições sejam realizadas respeitando todas as expressões e osaspectos da fala dos entrevistados, sem que seja feita qualquer alteração. Ela apresenta osrelatos da memória como importante espaço para estudo, que precisa ser realizado com umametodologia específica, sendo desenvolvido em etapas. As entrevistas tiveram como ponto inicial a escolha de dez pessoas, entreorganizadores e participantes, baseadas em roteiros que contemplassem alguns temas centrais.Com a realização das primeiras entrevistas, os roteiros foram modificados, variando de acordoa cada entrevistado, sendo ampliados em alguns aspectos. É importante ressaltar que nodecorrer da pesquisa foram retirados alguns nomes e também acrescentamos outros, namedida em que surgia a necessidade de novas informações, por isso a realização e atranscrição das entrevistas foram acontecendo de forma gradual. De forma geral, o tempo deduração era trinta minutos.26 Ambas sob guarda dos herdeiros de Joaquim Moraes Carneiro, morador de Juazeirinho ( falecido).27 ALBERTINI, Verena. Fontes Orais. IN: PINSKY, Carla Bassanezi ( org.).Fontes Históricas. São Paulo:Contexto, 2005.
  18. 18. 18 A última etapa das entrevistas foi a transcrição e a análise das informações, esta foirealizada de forma a contemplar todos os aspectos da fala dos entrevistados. As citaçõesencontradas neste trabalho seguem originalmente a forma como foi gravada.Dificuldades encontradas Para o estudo dos documentos manuscritos, foram necessárias muitas horas para ler efotografar, visto que não era permitido fazer a cópia, soma-se a isto a dificuldade para ler,devido a algumas palavras quase indecifráveis e também a má condição de algumas partes, oque acabou dificultando uma leitura mais detalhada. Por outro lado, em relação às fontes impressas, a dificuldade esteve relacionada à faltade um arquivo organizado, pois foi preciso muito tempo para poder organizar os documentose depois selecioná-los. Em relação ao Jornal o Mensageiro, encontramos amontoados deexemplares referentes ao período de 12 anos, que formavam uma média de 150 jornais, entreeles exemplares repetidos, os quais tivemos que catalogar e posteriormente destacar os quefaziam referência a Juazeirinho, no total somaram 35 jornais que foram utilizados narealização do trabalho. Em relação à história oral, encontramos alguns problemas, pois foipreciso muito tempo para as transcrições das entrevistas realizadas. Entendendo as fontes como objetos constituídos por várias linguagens que a partir daescolha do historiador podem contribuir para entender aspectos do passado de uma sociedade,contribuindo para decifrar códigos dentro de cada temporalidade através de váriasinterpretações e instrumentos metodológicos28. Este trabalho foi desenvolvido baseado nainterdisciplinaridade, através do estudo de fontes escritas, manuscritas, impressas e orais. As conclusões alcançadas foram construídas através da análise e do cruzamento dasinformações encontradas nesses documentos, como uma forma de contemplar o temaproposto e elucidar a problemática diante das limitações encontradas, como ausência dearquivos catalogados, tempo para realização da transcrição das entrevistas e ausência dealgumas documentações. Fatos que impediram uma análise mais aprofundada de algunsaspectos.28 CHUVA, Márcia. A História como instrumento na identificação dos bens Culturais. MOTTA, Lia. (org.). Riode Janeiro: IPHAN, 1998.
  19. 19. 19 1. História e religiosidade 1.1 As práticas religiosas no Brasil As tradições religiosas européias moldaram a religiosidade brasileira desde o períodocolonial, através das festas em adoração aos santos católicos no âmbito público e privado.Com as imagens dos santos, trazidas pelo colonizador português, vieram também às crenças emitos que deram origem ao catolicismo tradicional popular brasileiro.29 Estas práticas se configuravam como espetáculos públicos, de ostentação de riqueza epoder, mas eram utilizadas também como meio de controlar e tentar homogeneizar os hábitosde toda a população colonial. Legitimando o poder do branco cristão, na medida em que,através da repressão e da violência, objetivavam acabar com as influências consideradaspagãs e profanas dos índios e africanos. No período colonial, as festas religiosas representavam para a Igreja Católica e para oEstado português meios de manipulação e controle de poderes, sendo as atividades religiosasdirecionadas pelo calendário real ou litúrgico. Desta forma, apesar das festas religiosascoloniais se constituírem como ambientes de trocas culturais, “as procissões, novenas,adorações e superstições marcavam também a crença e religiosidade colonial como elementosdoutrinários, que eram utilizados como instrumentos de propagação dos interesses doscolonizadores”30. Assim, a religiosidade no Brasil direcionou as atividades cotidianas de grande parte dapopulação, neste período existiam pelo menos três momentos em que os colonizadorescatólicos, através de um gesto simbólico e ao som dos sinos das igrejas, paravam para realizarorações. “Desde o despertar o cristão se via rodeado de lembranças do Reino dos Céus, naparede contigua a cama, havia sempre algum símbolo visível da fé cristã”31. As práticas religiosas caracterizavam-se também pelas atividades públicas e privadas;destaca-se neste sentido o papel da capela e dos eclesiásticos, algo que fora herdado da culturareligiosa portuguesa. Luis Mott explica que as manifestações de fé e adoração aos santos29 STEIL, Carlos Alberto. Catolicismo e Cultura. IN: VICTOR, Vicente Valla. (org.). Religião e cultura popular.Rio de Janeiro: DP&A, 2001.30 DEL PRIORI, Mary. Festas e utopias no Brasil colonial. São Paulo: Brasiliense. 2000.p.51.31 MOTT, Luiz. Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu. IN: NOVAIS, Fernando A; SOUZA,Laura de Mello e. ( orgs.). História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.p. 164.
  20. 20. 20padroeiros eram elementos constantes na vida do cristão, na medida em que “dentro da casa,uma série de imagens, quadros e amuletos sinalizavam a presença do sagrado no espaçoprivado do lar”32. A Colônia apresentava características diversas, devido ao processo de colonização,culturas e crenças diversas aparecem imbricadas. Em um contexto onde as irmandadescatólicas também tiveram um papel importante, sendo os primeiros organizadores docatolicismo no país, o qual foi marcado pelas manifestações externas. “Como as alegresmissas [...] Estas parecem ter preconizado momentos de igual euforia religiosa [...] Asprocissões festivas Também ilustravam o lado alegre da religiosidade na colônia, assim comoelementos sagrados e profanos”33. Dessa forma, a religião no Brasil desenvolveu-se de forma bastante peculiar, comoresultado da junção de diferentes crenças, símbolos e significados. Até o século XIX, areligiosidade popular, era marcada com a presença de elementos sagrados e profanos emdiferentes cenários das manifestações religiosas africanas e européias, por meio das festas eprocissões religiosas, compondo o catolicismo lúdico e barroco no Brasil: [...] o Catolicismo no Brasil se caracterizava por elaboradas manifestações externas de fé: missas celebradas por dezenas de padres, acompanhadas por corais e orquestras [...] As festas religiosas de adoração aos santos como um dos principais veículos do catolicismo popular, onde atividades e sentimentos de adoração se misturavam com festa e sexualidade, sendo 34 elementos explícitos principalmente no imaginário religioso baiano. Contudo, a partir da segunda metade do século XIX, o catolicismo tradicional popularcaracterístico por seu caráter devocional e festivo é estruturalmente reformulado. Osdirigentes leigos das irmandades são substituídos por padres e congregações religiosas dentrode um contexto modernizador e reformador da religiosidade popular, através de umaintervenção clerical, controlada pela igreja oficial, com o objetivo de purificar o catolicismo,atuando no controle dos santuários e das festividades. Contudo ocorreu durante essa mudançareformadora uma divisão interna entre essas duas correntes no catolicismo:32 MOTT, Luiz.Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu. IN: NOVAIS, Fernando A; SOUZA,Laura de Mello e. ( orgs.). História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.p. 164.33 SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasilcolonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.p.100.34 REIS, João José,. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo:Companhia das Letras, 1991.p.49.
  21. 21. 21 Essa intervenção clerical no curso do catolicismo no Brasil vai demarcar uma divisão entre o catolicismo popular tradicional e o catolicismo esclarecido clerical dentro do sistema católico como um todo. Evidencia-se, neste período, dois subsistemas no catolicismo que vão disputar espaços de poder e influência na sociedade brasileira: um popular, de corte devocional, centrado no culto aos santos, e outro moderno, centrado nos sacramentos e na mediação do clero35 Essa reforma se estendia em vários aspectos, como a regeneração dos clérigosmudando seus comportamentos através de uma formação religiosa mais eficaz, ou seja, emsua formação intelectual. Como também objetivavam moldar a religiosidade e os costumesdos fieis, existia a preocupação de inibir a presença de elementos considerados não-sagradosdurante as festas religiosas católicas; essa precaução configurava-se através de proibições porvias legais ou pela repressão através da violência das autoridades locais. Pois a participaçãopopular era considerada fora do padrão a ser seguido, buscava-se ignorar os elementos e ascrenças36. Essa reação estava relacionada ao fato de as manifestações religiosas serem, até então,marcadas pela presença do profano, considerado pelo clero reformador como atividades quedesviavam do caráter religioso. Para tanto realizaram várias modificações nos rituaisreligiosos, buscando por alterar as antigas devoções e as festas religiosas em homenagem aossantos padroeiros populares, como relata Maria Aparecida Gaeta: No final do século XIX, entretanto, as devoções que possuíam uma larga expressão popular, como a de São Benedito e a do Divino Espírito Santo, a de Nossa Senhora do Rosário, a de Santa Ifigênia, a de Santo Elesbão e a dos Reis Magos começaram a ser desqualificadas[...] Discretamente as imagens eram retiradas dos altares centrais e alojadas em capelinhas[...]Sem combater diretamente as devoções populares, os padres romanizadores limitavam-se a não participar delas e a condenar os excessos cometidos durante as suas festas.37 Atuavam, portanto, para evitar os abusos nas festas em devoção aos santos populares,que envolviam mascarados, bebidas, comidas, danças e folia. Com o apoio de outrasautoridades, o clero reformador estabeleceu vários termos no código de postura dos35 STEIL, Carlos Alberto. Catolicismo e Cultura. IN: VICTOR, Vicente Valla. (org.). Religião e cultura popular.Rio de Janeiro: DP&A, 2001.p.16.36 COUTO, Edilece Souza. Festejar os santos em Salvador: Tentativas de reformas e civilização dos costumes(1850-1930). IN: BELLINI, Ligia. Formas de Crer: ensaios de história religiosa no mundo luso-afro-brasileiro,século XIV-XXI. Salvador: Edufba, 2006.37 GAETA, Maria Aparecida Junqueira Veiga. A cultura clerical e a folia popular. São Paulo: AUPUH,1997.p.192.
  22. 22. 22municípios brasileiros com normas que deveriam ser seguidas durante as festas religiosas. “ Oclero brasileiro buscou o reforço e a ajuda das congregações européias. Capuchinhos italianos,lazaristas franceses e jesuítas chegavam ao Brasil com a missão de reformar o catolicismo.”38 É preciso explicar que no cenário festivo permaneceu a intervenção e a participaçãodos membros da Igreja católica na conservação de algumas festas religiosas, para perpetuar osvalores cristãos e sociais defendido pela Igreja. As manifestações são espaços de demarcaçãode poder e status, em que o clero e os políticos desfrutam de posições privilegiadas ediferenciadas do restante da população no desenvolver das procissões. A presença do cleroatua como um meio de reprimir a presença de elementos profanos, servindo para padronizaros costumes e as crenças, controlando as manifestações de fé e religiosidade. Contudo, embora essa reforma romanizadora, a religiosidade brasileira permaneceutendo como característica a devoção aos santos católicos. As procissões religiosas, porexemplo, são realizadas com o intuito de adoração de caráter penitencial e festivo econfiguram-se como elementos essenciais na constituição do catolicismo brasileiro. Na Bahia, embora existam também muitas festividades relacionadas a outras religiões,têm grande destaque as realizadas em devoção aos santos católicos em todos os meses do ano,como uma forma de exteriorização do culto religioso e da manifestação da fé. Os cristãosrealizam preces e promessas a Deus, e aos santos de devoção com festas e romarias. Ascelebrações associadas à devoção aos santos padroeiros são os principais ritos realizados noEstado, com missas, procissões, festas e grande participação popular. Em um contexto dediversificadas práticas e crenças. Em Juazeirinho, os moradores realizam festas religiosas que acontecem no âmbitopúblico e privado. Através de um levantamento realizado, identificamos o Reisado, as Rezasnas residências em devoção aos Santos Católicos, o Mês Mariano, a Paixão de Cristo, osfestejos Juninos, a Celebração do Natal e a Festa da Padroeira. Ou seja, durante praticamentetodos os meses do ano, festas, rezas, procissões e novenas são elementos que marcam ocotidiano da população juazeirense, através de manifestações que estão divididas ematividades realizadas na igreja, local da Sagrada Família, onde toda a comunidade participa, eas realizadas em residências, em que os proprietários prepararam suas casas como umademonstração de fé e dedicação.38 COUTO, Edilece Souza. Entre a Cruz e o Confete: A carnavalização das festas religiosas e a reforma católicaem Salvador (1850-1930). IN: Projeto História: revista do Programa de Pós-Graduados em História daUniversidade Católica de São Paulo.São Paulo: EDUC,2004.p.47.
  23. 23. 23 Através do estudo dos eventos festivos religiosos realizados em Juazeirinho,percebemos que estes são formados por momentos diferenciados que se estabelecem em umconjunto de ações que começam na organização das atividades, na realização das práticascomo também nos ambientes após as celebrações. Merece destaque na localidade a participação popular com as diversas crenças, atravésde orações específicas em cada data festejada. Desta forma, a religiosidade constitui-se comoum elemento da cultura, onde as diferentes práticas marcam a identidade individual ecoletiva.391.2 A festa religiosa como objeto da historiografia A configuração da História das religiões e religiosidades verifica-se no final séculoXIX e início do XX, quando pesquisadores começaram a inventariar os costumes e as práticasde caracteres religiosos de grupos considerados primitivos, para os quais os elementosreligiosos eram um fator importantíssimo em sua organização. As primeiras pesquisas erambaseadas em ideias positivistas e evolucionistas40. Contudo, através da contribuição daSociologia neste campo de pesquisa, essa visão foi, aos poucos, alterada. No Brasil, as produções historiográficas começaram a ser realizadas após a criação doInstituto Histórico Geográfico, em 1838, mas estes trabalhos, conforme explica Eni MesquitaSamara, apenas no século XX percebe-se uma mudança nas áreas de pesquisa, através detrabalhos que estavam baseados em diferentes linhas temáticas: Ao longo da década de 1970, a difusão de cursos de pós-graduação em História, associada às transformações político-sociais ocorridas em nosso País, coincidiu com o esgotamento de métodos e interpretação histórica, sustentada em sínteses globais da realidade brasileira. Entre os pesquisadores, observam-se também, neste período, profundas mudanças em suas diretrizes de trabalho com ênfase nas questões da contemporaneidade e das minorias, dando voz e lugar aos personagens antes sem História. Em39 OLIVEIRA, Waldir Freitas. Santos e festas de Santos na Bahia. Salvador: Secretaria de Cultura e Turismo,Conselho Estadual de Cultura, 2005.40 HERMANN, Jacqueline. História das religiões e religiosidade. IN: CARDOSO, Ciro Flamarion;VAINFAS,R. (org.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Elsevier,1997.p.329-352.
  24. 24. 24 decorrência, abriram-se novos campos de investigação histórica, com linhas de pesquisa específicas, muitas delas com circunscrição regional [...]41 Até meados da década de 1970, as festas religiosas eram trabalhadas como folclore,depois deste período, começaram a ser encaradas como objetos de estudo dos historiadores,como um espaço de pesquisa, sendo interpretadas como novos objetos para conhecercoletividades, identificar os comportamentos, tensões e representações simbólicas e culturais.Edilece Couto afirma que a festa enquadra-se no campo da História Cultural e o estudo dareligiosidade popular brasileira, assim como seus símbolos e crenças, permite a compreensãoda Cultura Popular: Por meio das festividades é possível perceber os comportamentos, as representações e visões de mundo de um determinado povo. Tanto quanto um momento de prazer, as festas guardam costumes, tradições e especificidades culturais. Muito do que conhecemos atualmente sobre culturas negras e indígenas foi revelado pelos estudos dos seus festejos e rituais42. Em 1960, a História Cultural traz como foco o estudo da cultura popular, colocando osproblemas “em que as pessoas comuns são deixadas de fora”43. Nessas décadas, os trabalhosacadêmicos são atraídos por temas relacionados à cultura popular. A partir da união com aAntropologia, a História Cultural surge com novas abordagens e práticas plurais, ressaltandoos estudos relacionados à micro-história e dando destaque às especificidades das culturaslocais. Essa década pode ser entendida nos meios historiográficos como uma reação aosprivilégios dados às grandes narrativas históricas. Dentro do estudo das festas, destacamos precisamente a influência da comunicaçãooral, dos costumes e das tradições orais em pesquisas, abrindo espaço para o estudo dassensibilidades e da cultura, em um contexto em que e a história econômica e social dividelugar com a História Cultural e a Micro-História. As pesquisas relacionadas a esse objeto emergiram dos estudos da História Culturalcomo um local privilegiado para se pensar o exercício da religiosidade popular e sua relaçãocom os diferentes segmentos sociais. Sendo, portanto, importantes para estudo das práticas41 SAMARA, Eni de Mesquita; SILVEIRA, Ismênia S. História & Documento e metodologia de pesquisa. BeloHorizonte: Autêntica, 2007. P. 43.42 COUTO, Edilece Souza. A puxada do mastro: transformações históricas na festa de São Sebastião emOlivença, Ilhéus. Editora da Universidade Livre do mar e da mata, 2001.p.203.43 BURKE, Peter. O que é História Cultural? .Rio de Janeiro. Jorge Zahar Ed. 2005.
  25. 25. 25coletivas e individuais, através das diferentes atividades desenvolvidas durante as celebrações.“Ao se tornarem objetos dos historiadores, desnudou-se a questão acerca da dinâmica e domovimento das festas, colocando-as no centro a sua própria historicidade, avaliada através dediferentes variáveis”44. A cultura e a religiosidade têm sido encaradas como campos complexos de discussãohistórica, pois percebemos que a historiografia vem dando especial atenção ao campo dasreligiosidades. No campo da religiosidade, vêm ocorrendo mudanças referentes ao recorte deestudo; se antes estava mais voltado aos aspectos institucionais, agora se volta para asvivências concretas das práticas religiosas, como as procissões e as orações. Essa mudança de enfoque é marcada pelos estudos de temáticas antes negligenciadas,fato que permitiu o estudo dos homens e atitudes comuns, neste contexto, a religiosidadepassa a se enquadrar no campo da pesquisa historiográfica, como explica ClaudefranklinSantos: É preciso ver a festa como um objeto de estudo dentro da discussão da cultura popular. Para tanto, o contexto pela História Cultural permitiu compreendê-la dentro de uma dinâmica de sociabilidades, as quais fomentam identidades de variados agrupamentos humanos e sociais.45 As pesquisas nos campos das práticas religiosas e costumes surgem na busca pornovos objetos a partir do estudo do cotidiano, utilizando novas fontes e métodos, através dediferentes perspectivas. As festas religiosas tornam-se um campo de estudo que demonstrauma gama de temas e questões que começam a ser investigadas com o intuito de seremanalisadas as diferentes formas de religiosidade· Em Juazeirinho, as práticas religiosas festivas em devoção aos santos padroeirospodem ser entendidas como um fenômeno de sociabilidades, pois, através da análise dasatividades que compõem as novenas, percebemos que as festividades não só alteram o ritmoda vida da localidade, como também promovem a relação entre as pessoas com idades,gêneros e regiões diferentes, através de diferentes significados e práticas, configurando-secomo momentos religiosos de expressão cultural e popular.44 Abreu, Martha.O Império do Divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro 1830 / 1900. NovaFronteira, 1999.p. 38.45 SANTOS, Monteiro Claudefranklin. A festa como objeto de estudo de pesquisa histórica no campo dareligiosidade. Disponível em : www.scielo.br/scielo. Acesso em: 06 de Maio de 2009.p. 04.
  26. 26. 26 Durante as festas em devoção à Santa Terezinha e à Sagrada Família, as relações nãose restringiam somente ao âmbito da igreja, como também ao grande número de pessoas queficam aos arredores, em meio a conversas informais, alternando a atenção entre as atividadesreligiosas realizadas e as informações adquiridas dentro das rodas de conversas paralelas.Essas atividades autônomas verificadas no contexto religioso festivo podem ser entendidascomo um elemento que compõe o próprio catolicismo, que se constitui em “ um intricadosistema de práticas, significados, rituais e personagens que transitam por este universoreligioso e que ultrapassam as fronteiras institucionais da Igreja”46.1.3 A festa como um espaço de relação entre o sagrado e o profano Entre uma das principais características das festas religiosas podemos destacar arelação entre o sagrado e o profano. Como afirma o sociólogo Emile Durkheim “o fenômenoreligioso é constituído por crenças e ritos, caracterizados como sagrados e profanos[...] ”47.Para tal, a presença destes dois elementos são importantes para a manutenção da hierarquiareligiosa durante a realização das cerimônias e dos rituais públicos. Neste sentido, a dicotomia existente entre o sagrado e o profano é estabelecida pelasautoridades religiosas para designar as estruturas consideradas superiores ou inferiores, com oobjetivo de moralizar o ser religioso, como afirma Pierri Bourdieu,: A oposição entre os detentores do monopólio da gestão do sagrado e os leigos, objetivamente definidos como profanos, no duplo sentido de ignorantes da religião e de estranhos ao sagrado e ao corpo de administradores do sagrado, constitui a base do princípio da oposição entre o sagrado e o profano... logo é licito indagar se rompeu com este sentido primeiro e primitivo, a fim de distinguir formações sociais dotadas de aparelhos religiosos desigualmente desenvolvidos e de sistemas de representações religiosas desigualmente moralizados e sistematizados[...]48.46 STEIL, Carlos Alberto. Catolicismo e Cultura. IN: VICTOR, Vicente Valla. (org.). Religião e cultura popular.Rio de Janeiro: DP&A, 2001.p.10.47 DURKHEIM, Emile. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália. São Paulo:Paulinas, 1989.p. 547.48 BOURDIEU, Pierre. Gênese e Estrutura do Campo Religioso. IN: A economia das trocas simbólicas.SãoPaulo: Perspectiva,1999.p. 27-78.
  27. 27. 27 Não existe uma única classificação que diferencie estes dois elementos – o sagrado e oprofano –, encontramos várias formas de interpretação, variando de acordo a cada religião ecultura. Tais aspectos nem sempre estão separados, pois o “uma tal existência profana jamaisse encontra em um estado puro[...] não consegue abolir completamente o comportamentoreligioso” 49. Percebemos uma relação, ou seja, uma junção entre folia e religião desde as tradiçõescristãs da Idade Média. Naquela época, era comum a permissão de espetáculos populares ditospagãos nas celebrações católicas, dentro de um variado espaço de representações religiosasnas quais seus símbolos e elementos festivos e religiosos são formados por elementossagrados e profanos. Durante os festejos religiosos, existe a ligação dos diversos elementos: as músicas, osfolguedos e a comida, que são utilizadas para homenagear os santos padroeiros. “a imbricaçãodo sagrado e do profano está presente nas celebrações religiosas, nas festas públicasorganizadas pelas autoridades civis. ”50 Apesar da atuação da igreja em estabelecer separado os elementos considerados portais como sagrado e profano, a folia é um elemento presente em varias celebrações emdevoção aos santos católicos, são momentos em que orações, folguedos e comidas compõem afestividade como partes integrantes onde não se distinguem da euforia e da devoção. As principais festas no Brasil têm relação com algum fenômeno religioso, seu inícioou término é quase sempre relacionado a um marco sagrado, através de uma polaridade derituais, que variam entre os atos solenes e as manifestações populares51. Portanto fica evidenteque, embora a busca por parte das autoridades em separar tudo que não esteja dentro dospadrões religiosos historicamente construídos, a relação entre o sagrado e o profano não deveser encarada de forma dicotômica, pois a religiosidade em sua essência é formada pordiferentes elementos e práticas individuais e coletivas. Além disso, a conceituação entre o que seja classificado por manifestações sagradasou profanas apresenta-se de formas diferenciadas, dependendo da cultura e do momentohistórico de cada sociedade. Entendemos as festas religiosas como espaços de sociabilidade ede trocas culturais, pois elas não se configuram como homogêneas nem imóveis, mas emambientes em que os diferentes sentimentos, vivências e interpretações no fenômeno festivoreligioso permitem a relação de diferentes elementos por que as práticas consideradas49 ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1992.p. 27.50 COUTO, Edilece Souza. A puxada do mastro: transformações históricas na festa de São Sebastião emOlivença, Ilhéus. Editora da Universidade Livre do mar e da mata, 2001. p. 176.51 SERRA, Ordep. Rumores de Festa: o Sagrado e o Profano na Bahia. Salvador: Edufba,2000.
  28. 28. 28profanas se configuram através de manifestações diversas, compondo também o cenáriofestivo religioso. Dentro destes vários componentes, destacamos as barracas que são encontradas aosredores da igreja durante as festividades. Estas assumem um espaço de atividades comerciaisatravés da venda de comidas e bebidas e são apreciadas pelos participantes que desfrutam dosdiferentes ambientes festivos. “Em um contexto onde vários aspectos compõem o cenário comelementos considerados sagrados e profanos, relacionando duas categorias que estãoimbricadas, onde a existência de um depende do outro variando de cada cultura etemporalidade”52. Em Juazeirinho, durante os anos de 1993 e 2005, as atividades relacionadas à Festa daPadroeira eram realizadas durante o dia, com os ensaios das coreografias e dramatizações atéo horário do culto, quando tudo acontecia. Mas as atividades estendiam-se após o termino dascelebrações, com a barraca de comidas típicas, e, nos últimos dias, com os bingos e os leilões,assim como a apresentação de capoeira e do bumba-meu-boi. A Barraca era realizada com omaterial doado pelos moradores, em que uma comissão dividia por noite a rua responsável. O leilão já era realizado desde a festa de Santa Terezinha (1930), através de doaçõesdiversas, que variavam desde comida, doce e bebida. Percebemos que na noite do leilão apraça ficava mais cheia de gente que ia para se divertir com os valores que eram oferecidos.Estas atividades estavam voltadas também para o patrocínio da festa. Essas atividades são elementos que compõem a festa da padroeira em Juazeirinho. Comosão apresentadas nos folders da festa durante as novenas realizadas nos anos de 2003, 2006 e2007, as atrações culturais já faziam parte da programação com destaque. No ano de 2008, napenúltima noite da festa, verificamos a presença da capoeira antes de começar a celebração,como forma de animar a festa, mas é importante ressaltar que estas atrações, durante os diasda festa, foram proibidas e não são mais realizadas com frequência, como explica LuisDurval: Entre outras atividades religiosas também que inseria na festa, né, sem dúvida a participação, né no louvor. No final nós tínhamos as apresentações culturais que eram realizadas depois do culto, e que também enriquecia o nosso novenário, mas por motivos superior, seguindo algumas orientações de não misturar a festa mundana com a festa religiosa, nós a não ser que fosse todas as apresentações voltadas a músicas católicas ou músicas religiosas, não músicas mundanas como era antigamente feita, e por causa dessas e outras nós nos reunirmos, porque ninguém decide nada sozinho, mas em conjunto com a comunidade se fosse fazer uma vez colocasse no final da noite da juventude, justamente um chamado a essa juventude para participar52 SERRA, Ordep. Rumores de Festa: o Sagrado e o Profano na Bahia. Salvador: Edufba,2000.p.70.
  29. 29. 29 de forma no louvou, tudo isso agente conseguia que esses jovens participasse de forma direta e participativa de nossas noites.53 Durante a Festa da Padroeira, os padres da Paróquia Nossa Senhora da Conceiçãoatuavam através das orientações litúrgicas relacionadas às procissões e orações de cada noite.Além disso, o pároco responsabiliza-se pelos sacramentos, ou seja, pela realização doscasamentos coletivos, os batizados e a Celebração Eucarística. Como já foi elucidado, desde adécada de 1860 percebe-se o processo de romanização do catolicismo brasileiro, além decuidar da formação dos futuros padres, a Igreja Católica desejava modificar a religiosidadedos leigos.54 Embora os membros da Igreja católica atuem em separar os elementos sagrados e osprofanos, como forma de controlar e influenciar a devoção dos santos por meio de atividadesque perpetuassem a influência das normas religiosas na sociedade, em Juazeirinho,percebemos que juntamente com a devoção aos santos católicos, elementos como músicas,peças teatrais, danças e a comida, configuram-se como um momento importante, como umarelação entre os ritos religiosos. Para os devotos juazeirenses, essas atividades deixam a festa mais animada, nestesentido não encontramos durante as entrevistas uma aversão entre os entrevistados em relaçãoà presença das atividades consideradas profanas ou a inovações. Pois os elementos existentesultrapassam o universo imposto inicialmente pela Igreja Católica, já que as orações oficiaiscatólicas rezadas são relacionadas com a música, e as danças locais voltadas à realidade dalocalidade. 1.4 A religiosidade como patrimônio cultural imaterial Para Melo Morais Filho, as festas religiosas da Igreja católica configuram-se como umfator de movimentação e organização social, os eventos religiosos litúrgicos e popularesrepresentam a conservação das tradições nacionais. Ressalta também a importância das53 Entrevista de Luiz Durval Oliveira Carneiro, radialista da Juá FM e participa da organização da Festa daSagrada Família. Concedida em 08 de Agosto de 2009.54 COUTO, Edilece Souza. Festejar os santos em Salvador: Tentativas de reformas e civilização dos costumes (1850-1930). IN: BELLINI, Ligia. Formas de Crer: ensaios de história religiosa no mundo luso-afro-brasileiro,século XIV-XXI. Salvador: Edufba, 2006.
  30. 30. 30atividades religiosas para o sertanejo, apresentando-as como elementos formadores de suaidentidade, porque os costumes, as crenças e superstições no imaginário religioso sãoelementos importantes no cotidiano da vida religiosa.“Na intimidade do povo, na convivênciadireta com essa gente é que se conserva seus usos adequados, que melhor se estuda a nossaíndole, o nosso caráter nacional[...] Em um país em que acha-se ridículas as tradições edesfaz-se delas ”55. O estudo da religiosidade permite a análise de diferentes aspectos da história de umasociedade, porque esta é representada através de elementos diferenciados. Desta forma, amemória e a identidade coletiva e individual não são expressas apenas através do patrimôniomaterial. As manifestações, as práticas e as festas religiosas também são elementosimportantes no processo de construção da identidade, pois evidenciam as peculiaridades e assemelhanças de grupos e de indivíduos. Os bens imateriais são patrimônios históricos, e suaanálise possibilita a construção de uma História plural, evidenciando a atuação de diferentessujeitos, saindo da visão geral e homogênea56. No Brasil, diversas cerimônias religiosas continuam sendo realizadas e simbolizando,além dos sentimentos religiosos, as crenças individuais e coletivas. A religiosidade é um fatorna construção da identidade e cultura local, pois as festas religiosas populares são oriundas deum conjunto de elementos de diferentes culturas, católicas e africanas, profanas e sagradas.Percebemos um sincretismo religioso, a devoção aos santos padroeiros caracterizando-a peladiversidade de manifestações religiosas e expressões de fé57. Essas práticas fazem parte do patrimônio cultural imaterial, como um espaço abertopara o estudo da História. A festa religiosa ocupa um espaço social de destaque e o aparato desua realização é retrato vivo de representações culturais, entendemos as manifestaçõesreligiosas como práticas populares em constante movimento, sendo, portanto, necessária suavalorização e preservação: è necessário buscar as formas de preservação e manifestação dessas práticas. Considerando-se que o entendimento da cultura é o entendimento de sua dinâmica, a cultura popular está permeada por múltiplos atores, lastreada de continuidades/ descontinuidades, contraposta por historicidades diversas. Sua compreensão não se restringe ao acervo de coisas, objetos, produtos ou realidade. Ela é um processo vivenciado no seio da sociedade,55 MORAIS FILHO, Melo. Festas e tradições populares no Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia. 1979. p. 03-19.56 ORIÁ, Ricardo. Memória e Ensino de História. IN: BITTENCOURT, Circe (org.). O saber histórico na salade aula. 10 ed. São Paulo: Contexto, 2005.57 MEGALE, Nilza Botelho. Folclore brasileiro. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
  31. 31. 31 por um conjunto de práticas dispersas. Comporta uma riqueza de maneiras de fazer, atualizar e expressar – recriadas e reinventadas em suas formas.58 As festas no Brasil compõem o cenário cultural, e as manifestações religiosaspopulares representam um papel importante, na medida em que contribuem para a construçãoda indenidade coletiva, possibilitando várias interpretações do sagrado.5958 PASSOS, Mauro. O catolicismo popular. In: A festa na vida: significado e imagens. Petrópolis: Vozes,2002.p. 168.59 JUKEVICS, Vera Irene. Festas religiosas: a materialidade da fé. Disponível em: < www. Jornalismo.com. br.>. Acesso em: 15 de Julho de 2008.
  32. 32. 32 2 O Distrito de Juazeirinho 2.1 Origem A história de Juazeirinho está relacionada ao surgimento de uma fazenda cujo nome éJoazeiro. Em um inventario60 pós-morte, datado em 1872, encontramos a descrição da fazendaJoazeiro61, que tinha como proprietária Josepha Satyra do Amor Divino e Victorio AurelinoCarneiro. Neste documento, o marido declara todos os bens pertencentes à falecida, em 06 dedezembro de 1871, entre eles, as terras da fazenda Joazeiro. O estudo do documento deixa evidente que se constituía como uma pequenapropriedade, com poucos animais e um escravo. Diante da descrição dos bens existentes, entreeles bens de uma casa de farinha, leva-nos a acreditar que a família era sustentada pelaprodução de gêneros relacionados à mandioca. Neste período, a fazenda era habitada por seispessoas da mesma família, Josepha Satyra do Amor Divino (esposa) e Victorio AurelinoCarneiro (esposo), além de seus quatro filhos, que tinham a idade entre dois a nove anos, etambém a presença de um escravo cujo nome era Antônio. Os próximos documentos encontrados que fazem referência a Joazeiro datam no iniciodo século XX. A análise de duas escrituras de compra e venda das terras da Vila Joazeirodemonstra que desde o final do século XIX essas estiveram sob o domínio das famíliasMoraes e Carneiro; até 1922 pertenciam a José Moraes Silva, depois compradas por JuvelinoAntonio Carneiro e em 1938 pertenciam a Joaquim Carneiro de Moraes. Estes dados deixamexplícito que desde a sua origem tais famílias tiveram maior controle sobre as terras dalocalidade. Existe uma lacuna entre a data deste inventario (1872) e as escrituras (1922). Nestetrabalho não encontramos documento algum sobre a localidade durante estes cinquenta anos.Inclusive, o único trabalho que trata sobre o tema, ou seja, a obra da memorialista Marielza 62D’Vilanova apresenta informações a partir do século XX. Assim, através desta pesquisa,estes documentos saem do anonimato, mas ainda faltam fontes para ser reveladas.60 Inventário encontrado no Centro Documental, UNEB – Campus XIV.61 O imóvel estava sendo inventariado pela quantia de 50 mil réis.62 D’VILANOVA, Marielza Carneiro. Juazeirinho: Terra de Gente Valorosa. Conceição do Coité: NossaGráfica. 2007.
  33. 33. 33 Em 1933, com a construção da capela, a fazenda começou a ganhar mais famílias, éimportante ressaltar que, neste período, Joazeiro já recebia muitos visitantes por causa dasrezas que eram realizadas nas residências dos moradores. Desde então, começou a ganhardestaque por meio de suas manifestações culturais e religiosas, que em sua maioria ainda sãorealizadas, como relataremos adiante. Foi consultada também em uma escritura datada de1934 a descrição da venda das terras da “Casa Nova”, local onde, segundo os juazeirenses,tinha um sótão que era utilizado como escola durante a semana e salão de baile aos sábados. Na memória da população local, a origem de Juazeirinho está associada à construçãoda Capela Sagrada Família, o que fica evidente no trecho do Hino feito pelos juazeirenses emhomenagem a seus fundadores: Comunidade de uma linda História, surgiu de um povo hospitaleiro, que abrigava a sombra de uma árvore, cujo nome era Juazeiro... Dos caminheiros alguém parou, embaixo á sombra do Juá se abrigou. Fez moradia por lá ficou, fincou seus pés como o juá enraizou..Juazeirinho agora vem celebrar, a tua história é digna de louvor. Juazeirinho com o teu povo a prosperar, tu és o fruto que o Senhor aqui plantou... Era um fazendeiro religioso, que para louvar a Deus chamava o povo, vinha gente de todo o lugar, perto da sombra começaram a se abrigar...Povo reunido, num só louvor, comunidade e povoado então formou. Morador forte lutador, como os frutos do Juá que prosperou...Somos povo amigo e hospedeiro, celebramos com a própria vida, temos como Santo Padroeiro. Nossa Sagrada Família... Exemplo vivo de amor e fé, com Jesus Cristo, Maria e São José. Santo esposo, santa mulher e o filho amado família de Nazaré63. [grifo nosso] Observando a letra do hino, podemos entender que a questão religiosa está relacionadaao surgimento da fazenda, dando destaque para a atuação do senhor José Fernandes (Zuza)com a construção da capela, contudo os documentos encontrados revelam que a existência depessoas na localidade antecede a década de 1930. A Vila Joazeiro começa a ser formada a partir da atuação destes fazendeiros, namedida em que as famílias principiaram, em meados da década de 1920, a vender os lotes deterras de suas propriedades para familiares e moradores de fazendas vizinhas. Percebemos quea influência das famílias Moraes e Carneiro, de certa forma, foi mantida até os dias atuais,tendo destaque na história local em diferentes áreas na política, educação, economia ereligião.63 Hino do Juá, autoria do Grupo Musical Nova Luz.
  34. 34. 34 2.2 Manifestações religiosas A oração, a penitencia, a promessa, a vela acesa ajudam a abrir os caminhos. Essas expressões devem ser tidas, comunicadas e guardadas na memória. [...] fazer o sinal da cruz, tirar o chapéu ao passar diante de uma Igreja, referenciar uma imagem. Nesse universo estão também os ramos, a água benta, a vela da procissão do santo padroeiro64 Em Juazeirinho, são diversas as expressões do sagrado e da fé, a religiosidade émarcada por forte influência do catolicismo tradicional, embora haja a atuação dos padres emestabelecer limites para a realização das atividades na localidade. Percebemos que sãorealizadas muitas manifestações religiosas nas residências em devoção aos santos católicos,além disso, as celebrações na igreja também são marcadas pelo caráter devocional. A análise dos jornais O Mensageiro demonstra que as atividades religiosas realizadasna localidade contemplavam quase todos os meses do ano, no calendário paroquial, o núcleode Juazeirinho aparece com destaque mediante a quantidade de missas, procissões, retirosreligiosos, confissões, celebrações, e shows sacros, “as confissões perduraram todo o dia, bemcomo as visitas às escolas e principalmente aos doentes, tudo findou com a celebração davida”65. Merece destaque entre os juazeirenses a devoção à Maria, diante do levantamentorealizado, ficou evidente que grandes rezas, sejam na igreja ou nas residências, fazemreferência a Nossa Senhora. Dentro de suas diversas representações, a santa é homenageadadurante as festividades como também no dia a dia, através de orações e novenas, e nautilização de símbolos, como terços e imagens em quadros, camisas e altares. Essa devoçãopode ser entendida como elemento da religiosidade popular, conforme afirma Mauro Passos: A religiosidade popular não é um mero acervo histórico-cultural, mas sim expressão de vida. É um reflexo da ação das pessoas. Está circunscrita no cotidiano, na repartição, nas permanências e singularidades. A presença de Maria e a invocação ao seu nome demonstram seu amparo e proteção nas horas de perigo, nas horas de perigo nas doenças e nas dificuldades. O uso do rosário no pescoço é uma forma de buscar proteção. Há toda uma64 PASSOS, Mauro. O catolicismo popular. IN: A festa na vida: significado e imagens. Petrópolis: Vozes,2002.p. 179.65 Livro de Tombo da Paróquia Nossa Senhora de Conceição do Coité.
  35. 35. 35 linguagem simbólica expressa nas orações [...] Na verdade, em todas essas expressões populares há um jogo de construção e reconstrução.66 De acordo com as informações descritas pelos Párocos no Livro de Tombo daParóquia Nossa Senhora da Conceição do Coité, a vida cotidiana na localidade entre a décadade 1930 até 1950 era muito agitada, com frequentes rezas e eventos religiosos, comofestividades, procissões e celebrações. Destacamos as missões67 realizadas, com ascomunhões e confissões das famílias católicas, chegando a um único período de pregação onúmero de 470 confissões na capela do Joazeiro68. De acordo com as informações do jornal OMensageiro as rezas em homenagem a Nossa Senhora de Fátima, por exemplo, são realizadasdesde 1958: Nada de abolição da escravatura, nada de falsa liberdade. A data treze de maio para nós Católicos lembra Nossa Senhora de Fátima. Em Juazeirinho, há 50 anos atrás, um missionário trouxe diretamente de Lisboa, Portugal, uma Imagem de Nossa Senhora de Fátima. Desde esta data 13 de maio de 1958 que ficou incrementada a Devoção a Nossa Senhora com este título. Quase todos os anos celebramos a Eucaristia nesta data em Juazeirinho. Este ano a motivação foi maior e os preparativos também por causa das Bodas de Ouro. Parabéns a Comunidade de Juazeirinho.69 A temporada de 23 de fevereiro a 02 de março do ano de 1958 foi de grande atuaçãodos moradores para a realização das missões na capela. Foi inclusive o período em que alocalidade ganhou, para compor o altar da capela, a imagem de Nossa Senhora de Fátima, quefoi recebida por um caloroso espetáculo da fé católica, com aclamações piedosas, foguetes esinos, formando um cortejo com grande entusiasmo popular, com um santuário formado áfrente da capela.70 Atualmente a festividade em devoção a tal santa é realizada durante os trinta dias domês de maio, todas as noites a partir das 19:00 são cantados os hinos em homenagem aNossa Senhora. Após os trinta dias a reza é encerrada sempre com uma dramatização daaparição da santa para os pastoris. È importante evidenciar que a análise deste eventoreligioso possibilita a identificação das famílias que recebem destaque durante os festejos, por66 PASSOS, Mauro. O catolicismo popular. IN: A festa na vida: significado e imagens. Petrópolis: Vozes,2002.p. 176.67 Celebrações religiosas.68 Livro de Tombo da Paróquia Nossa Senhora de Conceição do Coité.69 Jornal O Mensageiro, Nº 114 , Ano 14 , Junho de 2008.70 Livro de Tombo da Paróquia Nossa Senhora de Conceição do Coité.
  36. 36. 36que cada noite da festa é consagrada a uma pessoa, onde esta fica responsável pelos fogos deartifício para abrilhantar a reza. Contudo as mesmas pessoas permanecem por muito tempo sendo homenageadas e,mesmo após o falecimento, a noite da reza é transmitida para um familiar, além disso, deacordo com alguns juazeirenses, fica, por vontade dos organizadores, a noite para quem temmais proximidade ou condição de patrocinar os fogos. Muitas vezes, as noites são destinadasa pessoas que já não fazem parte das festividades. Então, essa distribuição realizada acaba porse constituir também como legitimação do poder que a igreja tem de perpetuar ou excluir osfiéis dos lugares de destaque. Em paralelo a estes eventos realizados na igreja, a religiosidade local também écaracterizada pelas rezas no âmbito privado em devoção aos santos padroeiros, práticasreligiosas que moldam o cotidiano de algumas famílias. Grande parte dos devotos possuialtares em seus quartos, com quadros e imagens dos santos católicos, percebemos que estesoratórios são espaços caracterizados por velas e flores, onde realizam suas orações diárias. Neste sentido, podemos destacar a reza em devoção a Nossa Senhora das Candeias,realizada na residência do senhor Joaquim Morais Carneiro, desde 1956, no dia 02 defevereiro71. Os festejos e os preparativos para a realização da reza são iniciados às seis horasda manhã, durante todo o dia, como uma forma de demonstração à devoção a Nossa Senhora,no intervalo de três horas fogos e orações são oferecidos à santa . A reza é iniciada às 19:30, horário em que os familiares já se encontram no interior daresidência a esperar a chegada dos convidados e, como uma procissão, aos poucos chegam osdevotos, que se dividem entre as pessoas mais velhas que se posicionam à frente do altar quese encontra no núcleo da sala principal, com as imagens de Nossa Senhora das Candeias e doMenino Jesus ao lado, rodeadas de flores e velas. As vozes de um grupo de quinze mulheres começam os cânticos e orações, que sãoacompanhados por grande parte dos presentes, formados por 150 pessoas. Entre elasfamiliares, juazeirenses e visitantes, com uma faixa etária diversificada. Esta participaçãopopular nas manifestações religiosas pode ser entendida como uma permanência da nossacrença e tradição, elementos que ainda compõem o cenário religioso do Brasil. A reza é dividida em quatro momentos semelhantes ao ritual realizado na IgrejaCatólica, marcados pelos cânticos, hinos e orações que louvam, agradecem e pedem aproteção a Nossa Senhora das Candeias. Durante o período de quarenta minutos, as atenções71 Informações fornecidas por Djalma Lopes Carneiro, filha de Joaquim Moraes Carneiro.
  37. 37. 37são voltadas à parte central da sala principal, onde o altar enfeita a imagem da Santa protetora.Percebemos que neste momento as orações são realizadas em grupo, contudo, ao término doscânticos, os fieis demonstram separadamente a sua crença e, de joelhos em frente à imagemde Nossa Senhora das Candeias, realizam suas orações particulares, que também compõem oritual da reza. Em Juazeirinho, a religiosidade popular é caracterizada pela devoção, pela prática deorações específicas para cada santo protetor e para cada situação, com crendices e símbolos.Durante o período da quaresma, não é raro encontrar famílias que conservam hábitos de seusantepassados, seguem as orientações e crenças, alterando, durante estes dias, alguns hábitosdiários. As mulheres não pintam as unhas com cores fortes, como vermelho ou preto, não sepermite durante a sexta-feira santa que se utilizem martelos e pedras para serviços domésticospor fazer referência aos castigos que Jesus sofreu na cruz. Destacamos também o tratamento que é dado às folhas que são levadas para a missade ramos, elas são conservadas como amuletos. Essas expressões presentes na religiosidadeda população juazeirense devem ser entendidas como parte de um simbolismo religioso quecaracteriza a localidade em seu cotidiano com atividades devocionais e que, portanto, devemser valorizadas. 2.3 Festas populares Juazeirinho possui também um calendário com manifestações culturais queapresentam uma junção entre o sagrado e o profano, na medida em que são realizadas, tendocom um marco um acontecimento religioso e são desenvolvidas anualmente e apreciadas pormuitas pessoas da região e de outras cidades. Neste sentido, a Pascuelinha merece destaque por ser uma festa que é realizada desde adécada de 1930 sempre em um final de semana após a Páscoa. As festividades são iniciadascom o desfile dos mascarados72, no início da tarde, saem às ruas os grupos infantis e, ao cairda tarde, os grupos dos “grandes”, como são chamados pelos moradores da localidade osmascarados adultos, os quais aterrorizam os participantes com brincadeiras para arrecardar72 Pessoas caracterizadas com máscaras de monstros.
  38. 38. 38dinheiro. Participam das brincadeiras as crianças, os jovens, os adultos e os idosos e, emboraentre os mascarados prevaleçam os homens, verificamos também nos últimos anos a presençafeminina entre os mascarados. Em paralelo a isto, realiza-se a Cavalgada, ou seja, um desfile de cavalos pelas ruasda localidade com os vaqueiros da região, moradores e visitantes. Além da algazarra que éformada pelos mascarados, durante a noite, o tradicional samba da localidade entra em cenaanimando ainda mais a festa com a presença do bumba-meu-boi73. É interessante ressaltar que em tal festividade há o espaço reservado para a celebraçãoreligiosa na igreja, neste momento, apesar da tentativa de os organizadores estabelecerem umdistanciamento entre as orações que são realizadas no interior da igreja, grande parte dosparticipantes ativos, ou seja, quem se caracterizou de mascarado, já se encontra envolvidapela animação e pela embriaguez. Este é um ponto intrigante em que a Pascuelinha assumesignificados diferenciados dentro do espaço festivo. Para finalizar a festa da Pascuelinha, aproximadamente às vinte e duas horas realiza-seo tão esperado momento da leitura do testamento do Judas, que é produzido pelos juazeirenseshá aproximadamente setenta anos, envolvendo o nome de personalidades locais e de regiõesvizinhas. Logo após, é realizada a queima de um boneco representando Judas. Contudo é necessário explicar que nos últimos anos o número de mascarados temdiminuído significativamente, assim como a leitura dos testamentos, a duração tem sido cadavez mais reduzida. Segundo os organizadores da festa, essa manifestação cultural estáacabando por falta de apoio e incentivo de algumas autoridades e também dos moradores dolocal. Outra atividade tradicional que é realizada em Juazeirinho e que se estabelece entre ouniverso religioso e o profano são os festejos Juninos. Estes acontecem no âmbito públicodurante as festas que atraem visitantes com as músicas, quadrilhas, fogos, comidas e bebidastípicas da região. Como também no âmbito privado, onde a devoção dos santos católicos éconservada, através da realização das rezas e da queima de fogueiras, que se configura emmomentos em que as famílias se reúnem também para beber e comer. Verificamos também a realização dos batizados, que acontece através de um ritual emque as pessoas já batizadas oficialmente na Igreja Católica, diante da impossibilidade dereceber novamente o sacramento, fazem o batizado na fogueira, como é chamado pelos mais73 Caracterização da imagem de um boi que é vestida pelos moradores de Juazeirinho durante os dias de Festa.

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