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A reprodução do discurso sexista e a dominação masculina uma análise da relação existencial entre discurso e poder
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  • 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIVCOLEGIADO DE LETRAS COM HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURAS - LICENCIATURA ANA GRACIELE DE OLIVEIRA MOTAA REPRODUÇÃO DO DISCURSO SEXISTA E A DOMINAÇÃOMASCULINA: UMA ANÁLISE DA RELAÇÃO EXISTENCIAL ENTRE DISCURSO E PODER Conceição do Coité 2011
  • 2. 1 ANA GRACIELE DE OLIVEIRA MOTAA REPRODUÇÃO DO DISCURSO SEXISTA E A DOMINAÇÃOMASCULINA: UMA ANÁLISE DA RELAÇÃO EXISTENCIAL ENTRE DISCURSO E PODER Monografia apresentada ao Departamento de Educação do Estado da Bahia (UNEB), curso de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas - Licenciatura, como parte do processo avaliativo para obtenção do grau de Licenciado (a) em Letras. Orientador: Prof. Ms. Robson Batista de Lima. Conceição do Coité 2011
  • 3. 2“Dilaceradas por pertencerem, simultânea econflituosamente, ao espaço privado, ao mundo dolar e da família, regidas pelas emoções, pelossentimentos e pela afetividade, e ao espaço público,ao mundo do trabalho regido pela agressividade,pela competividade e pelo princípio do rendimento,as mulheres descobrem que o acesso às funçõesmasculinas não basta para assentar a igualdade eque a igualdade, compreendida como interaçãounilateral no mundo dos homens, não é liberdade.” Rosiska Darcy de Oliveira
  • 4. 3 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, meu Mestre maior, que em minha caminhada sempre iluminou osmeus passos, mostrando-me o verdadeiro sentido da vida. Que em muitos momentostenebrosos e difíceis, nos quais pensei em desistir, o Senhor, em sua qualidade de Pai sempreme dizia: “Filha, não desanimeis, Eu sempre estarei contigo!”. À minha família, que embora não tendo as mesmas oportunidades que eu, sempre meestimulou nessa busca por conhecimentos, dando-me forças para suportar todas asdificuldades. Ao meu amor, amigo conselheiro e companheiro, que em todos os momentosacompanhou o desenrolar da minha vida acadêmica, seguida de lamentações, inseguranças eincertezas, transformar-se em alegrias e autoconfiança. Graças aos seus conselhos e sua auto-afirmação positiva, pude transformar-me em uma pessoa muito mais capaz e segura para lidarcom os problemas e dificuldades, encarando-os como frutos dos anseios os quais busquei. Aos mestres que contribuíram com o meu aprendizado, mostrando-me as facetasimplícitas da palavra e da literatura, já que são nas linhas submersas que o saber se refaz. Emespecial, ao meu orientador, Robson Lima, por ter contribuído com esse trabalho, pois sem elenão teria o mesmo êxito. Aos colegas, por compartilharem o conhecimento, as dificuldades, as alegrias e astristezas, nessa jornada que durou pouco, mas o suficiente para deixar marcas e saudades. Neste momento de júbilo, olho para o passado e vejo quantos obstáculos foram vencidose quanto amarga foi a luta, mas apesar de tudo, o que mais vale é saborear o gosto doce davitória e lembrar-se de que: Deus só proporciona a cada um de nós aquilo que podemosalcançar.
  • 5. 4 RESUMO Esta monografia se propõe investigar como o discurso constrói e reproduz ideologiasdominantes e de que modo o discurso sexista revela a dominação masculina. O objetivo principalda pesquisa é fazer uma análise discursiva, a fim de identificar a relação existente entre discurso,poder e dominação. Partindo-se do princípio de que a ordem masculina do Cosmo perpassa antes,pela divisão sexual, que separa o universo em categorias distintas: o masculino e o feminino. Aanálise será elaborada também em concomitância com as estratégias discursivas, que funcionamcomo sustentáculos para a (re)produção de sentido. Os principais teóricos utilizados na pesquisaforam: Prado (1979), Studart (1986), Viezzer(1989), Oliveira (19990, Bourdieu (2007) e Van Dijk(2008) .O corpus que constitui o material de análise é composto por artigos selecionados na revistaSeicho-No-Ie: Pomba Branca, revista esta de cunho religioso e direcionada ao público feminino.Verifica-se portanto, que a dominação masculina ocorre, sobretudo, por meio do controlediscursivo, pois aqueles que detêm o poder também controlam os discursos. E como afirma vanDijk (2008): controlar o discurso significa controlar mentes e ações. Nesse contexto, o homem, queé a elite simbólica, detém o poder, também simbólico, e promove, a partir do discurso sexista,separatista e discriminatório, a superioridade masculina e a inferioridade feminina.Palavras-chave: Discurso sexista. Dominação masculina. Estratégias discursivas.
  • 6. 5 ABSTRACTThis work proposes to investigate how the speech builds and propagate dominant ideologiesand how sexist speech shows the male domination. The research main objective is to do adiscursive analysis, in order to identify the relationship between discuss, power anddomination. Based on the principle that, the masculine order of the Cosmus goes throughbefore, by the sexual division that separates the Universe on two distinct categories: male andfemale. The analysis is going to be elaborated too concomitantly with the speeches strategiesthat serve as underpinnings for the (re) production of meanings. The main theorists used in theresearch were: Prado (1979), Studart (1986), Viezzer(1989), Oliveira (19990, Bourdieu(2007) e Van Dijk (2008). The corpus that constitutes the material for analysis is composedby selected articles on the Seicho-No-Ie: Pomba Branca, magazine which is of a religiousnature and directed at a female audience. It appears therefore, that male dominance occursmainly through control of discourse, because those in power also control the discourse. Andas stated by van Dijk (2008): speech control means controlling the minds and actions. In thiscontext, the man who is the elite symbolic, has the power, also symbolic, and promotes fromthe sexist discourse, separatist and discriminatory, male superiority and female inferiority.Keywords: Sexist speech. Male domination. Speeches strategies.
  • 7. 6 SUMÁRIOINTRODUÇÃOCAPÍTULO I: ANÁLISE SOCIOCOGNITIVA DO DISCURSO 1- Discurso, cognição e sociedade......................................................................09 2- Discurso, ideologia e poder............................................................................13 3- Elite simbólica, controle e acesso...................................................................17 4- Discurso e Dominação................................................................................... 20 5- Considerações gerais.......................................................................................21CAPÍTULO II: DISCURSO SEXISTA E DOMINAÇÃO MASCULINA 1- Discurso sexista: masculino versus feminino................................................23 2- A dominação masculina.................................................................................31 3- Sexismo, religião e ciência............................................................................37 4- Considerações gerais.....................................................................................41CAPÍTULO III: ANÁLISE DO MATERIAL DISCURSIVO1- A revista Seicho-No-Ie ...................................................................................422- As estratégias do controle discursivo e da dominação masculina...................432.1- Considerações gerais sobre a revista Pomba Branca...................................442.2- Análise crítica do discurso da revista Pomba Branca..................................453- Considerações gerais.......................................................................................54CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................................................................55REFERÊNCIASANEXOS
  • 8. 7 INTRODUÇÃO O discurso é uma cadeia expressa de múltiplos sentidos. Esses sentidos são produzidosmediante uma série de aspectos que envolvem o discurso, a saber: o que, onde, como, para que epara quem o discurso é expresso. Além disso, o discurso por si mesmo não significa, mas aconstrução do significado perpassa antes pelas interpretações pessoais e sociais, isto é, os modelosmentais construídos socialmente. Existe uma relação entre discurso e poder, no entanto, essa relação encontra-se implícitas naspráticas discursivas orais e escritas. Diante dessa perspectiva, faz-se necessário investigar como aspráticas discursivas da mídia impressa contribuem para a reprodução e perpetuação da ideologiamachista, assim também como se institui o processo de manipulação através do discurso. A pesquisa tem como objetivo geral, investigar a relação entre o discurso, o poder e areprodução ideológica em práticas discursivas da mídia impressa, acerca do discurso sexista. Ecomo objetivos secundários: descrever como o controle do discurso e os modos de reproduçãodiscursiva se estabelecem para alcançar a manipulação; mostrar como o discurso controla mentes emanipula ações que condizem com o pensamento do dominante e analisar a inter-relação dodiscurso, do poder, da manipulação e, em especial, a dominação masculina em artigos veiculadosna revista Seicho-No-Ie, através das estruturas organizacionais do discurso. Os Estudos Críticos do Discurso tem um papel crucial no desvendamento das facetasimplícitas do discurso, proporcionando percepções de grande relevância: como o discurso e oabuso de poder se instituem a fim de disseminar ideologias manipulativas do dominador, de queforma esses discursos levam à doutrinação do dominado e à desigualdade social e principalmente, avisualização da interface discurso-cognição que explica como as ideologias e os preconceitosétnicos são expressos, transmitidos, compartilhados e reproduzidos na sociedade. A escolha dateoria crítica do discurso é importante, pois, esta promove o aprimoramento da consciência críticados cidadãos no que se referem aos discursos das elites dominantes e ao modo como as práticasdiscursivas em geral podem influenciar ou manipular atitudes e/ou ações. Para a exposição de tais abordagens, serão discutidos os conceitos: discurso, ideologia, poder,dominação e sexismo, tendo como bases teóricas as perspectivas de van Dijk (2008), PierreBourdieu(2007), Moema Viezzer (1989), Rosiska Oliveira (1999), Danda Prado (1979), HeloneidaStudart (1986) entre outros, com a finalidade de explorar de forma ampla as teorias que alicerçamos estudos críticos do discurso e da dominação masculina.
  • 9. 8 A metodologia adotada foi a pesquisa bibliográfica, englobando análise dos conceitos queenvolvem o discurso, bem como a sua relação com a dominação de gênero e por fim a análise domaterial discursivo. A monografia está estruturada em três capítulos: o primeiro apresenta os princípios queintermedeiam o discurso; o segundo refere-se aos aspectos que compõem e influenciam adominação masculina e o terceiro corresponde à análise das práticas discursivas contidas narevista.
  • 10. 9 CAPÍTULO I ANÁLISE SOCIOCOGNITIVA DO DISCURSO Este capítulo tem por objetivo abordar os princípios constitutivos do Discurso. A análiseteórica desses princípios está pautada na linha sociocognitiva desenvolvida por Teun van Dijk,influente pesquisador dos Estudos Críticos do Discurso (doravante ECD). Essa abordagem baseia-se no pressuposto de que há uma relação de interdependência entrediscurso, cognição e sociedade. A análise também discorre sobre a elite simbólica, o controlediscursivo e o modo como o acesso ao discurso é regulado por aqueles que detêm o poder. Sendoassim, a referida pesquisa centra-se na análise dos meios pelos quais o discurso percorre paraalcançar a dominação. É importante salientar que a análise a qual me propõe-se realizar apresenta odiscurso de modo mais social, ou seja, a maneira como o discurso se constitui, significa e ésignificado dentro de um determinado contexto social.1- Discurso, cognição e sociedade Os seres humanos são seres sociais que se constituem por linguagem e através da linguagem.A todo instante somos convocados a exercer papéis comunicativos que se estabelecem de formaampla e situada num determinado contexto e não de modo restrito e fechado entre emissor ereceptor de textos como defendiam alguns linguistas. Assim, van Dijk (2008, p.12) afirma que: “Odiscurso não é apenas analisado como objeto verbal autônomo, mas também como interaçãosituada, como uma prática social ou como um tipo de comunicação numa situação social, cultural,histórica e política”. Portanto, para os ECD, a ideia de discurso como enunciado fechado é abolidae o discurso é encarado como um evento comunicativo, no qual se observa uma série de aspectosque o circunda, tais como os contextos situacionais e temporais, o veículo usado para propagar oseventos comunicativos, os papéis sociais e comunicativos que os envolvidos no evento discursivoassumem, entre outros. Os ECD enfatizam a análise de ações sociais que permeiam a prática dodiscurso, como o controle social, o abuso do poder, a dominação, as desigualdades sociais ou amarginalização e a exclusão social. De acordo com Rojo & Whittaker (apud IÑIGUEZ, 2004,p.119): “[...] o discurso é sobretudo uma prática social, já que não é contemplado como uma
  • 11. 10‘representação’ ou reflexo dos processos sociais; ao contrário, seu caráter constitutivo é que éressaltado”. O discurso para van Dijk (2010)1 é um fenômeno complexo.Dessa maneira, ele apresenta asseguintes definições: 1- Discurso é o uso da linguagem 2- É um evento de comunicação 3- É ato de fala 4- É uma forma de interação 5- É uma maneira de fazer sentido, símbolo, semiótica 6- É uma forma de cognição, construção, interpretação 7- É uma mensagem 8- É um evento multimodal 9- É arte 10- É capital simbólico (pode ser vendido ou comprado) 11- É conhecimento 12- É texto e contexto Portanto, discurso é a combinação de aspectos econômicos, sociológicos, linguísticos,cognitivos e pragmáticos. Desse modo, para compreender os discursos é preciso conhecimento demundo e dos aspectos contextuais que envolvem a prática discursiva. Além disso, a significação dodiscurso no âmbito local e global depende das experiências pessoais, pois a construção do discursose estabelece na mente. Assim, a cognição, que é o ato de adquirir conhecimento, desempenha um papel crucial narealização do seguimento discursivo. A teoria cognitiva pressupõe que os processos mentais epragmáticos são estruturas decisivas no processo de compreensão, acumulação e reprodução dosdiscursos. Tal estrutura previamente adquirida é particular de cada pessoa que favorece o processode interação comunicativa, tornando, assim, variáveis o modo de interpretar e exteriorizar umamesma prática discursiva: [...] as condições sociais relevantes envolvidas nas formulações das regras pragmáticas, como nas relações de autoridade, poder, papel, polidez, operam sobre bases cognitivas. Isto é, elas são relevantes na medida em que o participante tem conhecimento dessas regras, podem usá-las e são capazes de relacionar suas interpretações sobre o que está ocorrendo na comunicação às características sociais do contexto (VAN DIJK, 2004, p.76).1 van Dijk. Discurso e poder. Palestra apresentada no auditório do PAF - UFBA, Campus de Ondina, em 03-12-10, Salvador. (DVD).
  • 12. 11 Assim, muitas das relações que se estabelecem entre discurso e sociedade perpassam por umfio condutor, antes de processar-se concretamente, isto é, as crenças, os valores, as condutas e oscostumes dos participantes no processo comunicativo são acionados, a fim de produzir oureproduzir sentidos, estejam estes ligados a aspectos de dominação ou reprodução ideológica. Ouseja, um mesmo evento comunicativo é lido ou ouvido por pessoas diferentes, que, por sua vez,irão interpretá-lo e absorvê-lo de forma distinta, a depender das condições contextuais esituacionais nas quais o indivíduo se insere. Além disso, as diferenças culturais tambéminfluenciam o modo como a reprodução discursiva se processa, pois os discursos serãocompreendidos, usados e compartilhados de modo distintos, variando de uma cultura para outra.Para van Dijk (2008, p.27): “[...] os discursos e as maneiras como reproduzem o poder sãodiferentes em diferentes culturas, como também o são as estruturas sociais e as cognições sociaisque estão envolvidas nesse processo de reprodução [...]”. Em geral, os ECD estabelecem uma relação direta entre sociedade, discurso e as práticassociais, em especial, poder e dominação, desconsiderando, portanto, as experiências e as ideologiasque o indivíduo já possui. Na busca pelo desvendamento das relações de poder que envolve o discurso, van Dijkestabelece um quadro teórico-metodológico tridimensional, em que a análise do discurso sematerializa nas práticas textuais da sociedade e nas condições de produção em que essas práticasestão mergulhadas e nos meios cognitivos de processamento e compreensão discursivos. Dessaforma, na análise sociocognitiva do discurso de van Dijk, não há relação direta entre discurso esociedade. Ele propõe um estudo da tríade discurso, cognição e sociedade (ver fig. 1 p.7) poracreditar que existe uma relação interdependente entre esses conceitos. Para compreender a análisecognitiva do Discurso é oportuno expor dois conceitos fundamentais apresentados por van Dijk(apud AZEVEDO, 2008), revelando, portanto, que a teorização do discurso depende dos aspectossociais e cognitivos para tornar-se completa: [...] i) a cognição é uma propriedade desenvolvida individual e socialmente, pois é adquirida, aprendida, formada e transformada tanto em processos de interações sociais, como em processos individuais de percepção, inferenciação etc.; ii) a sociedade é uma construção humana e resulta de interações coordenadas e negociadas entre atores sociais. Essas interações só podem ser realizadas a partir de crenças, conhecimentos, normas e valores compartilhados [...] (p. 23-4). Objetivando entender como as relações sociais e discursivas influenciam o sistema cognitivodos envolvidos no processo comunicativo, van Dijk adota a noção de modelos mentais comoelementos intermediário entre as estruturas sociais e o indivíduo. Esses modelos são as
  • 13. 12representações cognitivas pessoais que envolvem as experiências, interpretações, conhecimentos eopiniões. Os modelos mentais também são caracterizados pelas crenças gerais e abstratas,incluindo os processos cognitivos sociais. Dessa maneira, quando ouvimos ou presenciamos umacontecimento, nossos processos cognitivos constroem um modelo mental de compreensão doseventos, portanto, os modelos mentais funcionam como fator aliado da compreensão textual.Campos (2010, p.2) afirma que: “Os modelos mentais formam, portanto, a interface entrerepresentações sociais generalizadas, por um lado, e o uso individual dessas representações napercepção social, interação e discurso, por outro”. Sociedade, cognição e discurso são três dimensões que se encontram intimamenteinterligadas. Sem considerarmos a cognição, por exemplo, não podemos entender satisfatoriamenteas demais dimensões. Isso porque os indivíduos precisam, primeiramente, observar, experimentar,interpretar e representar as estruturas sociais como fazendo parte de suas interações cotidianas. Osdiscursos, assim como as demais práticas sociais desses indivíduos, sofrem a influência dosmodelos mentais construídos para os eventos específicos. Dessa forma, a cognição (social epessoal) funciona como uma ponte entre o discurso e a sociedade. Os discursos, por sua vez, vão além de práticas interacionais ou sociais. São estruturas queexpressam e transmitem sentidos. A construção e a interpretação desses sentidos perpassam pelosmodelos mentais (crenças, valores, conhecimentos, atitudes etc.) que se diferenciam de pessoa parapessoa. Portanto, os discursos não são cadeias estáticas de sentidos ou significados que se realizamdiretamente na sociedade, antes são estruturas que influenciam nossas mentes, transmitindo,transformando e reproduzindo ideologias. É desse modo que a tríade (sociedade, cognição ediscurso) está intrinsecamente relacionada. Observe a figura a seguir que representa a tríadediscursiva proposta por van Dijk, a qual mostra os três vértices da pirâmide como partesinseparáveis: COGNIÇÃO SOCIAL Interpretação Atitudes Ideologia DISCURSO ---------------------------- SOCIEDADE
  • 14. 13 Figura 1: A Tríade da Análise Cognitiva do Discurso2 Através dessa figura, observa-se que na análise sócio-cognitivista do Discurso, proposta porvan Dijk, é impensável que a prática social do discurso se estabeleça sem os aspectos cognitivos,pois discurso, sociedade e cognição se relacionam de modo constitutivo. Desse modo, van Dijk(2006) afirma que: “A cognição opera na interface da relação entre discurso e sociedade”.2- Discurso, ideologia e poder De modo amplo, os discursos que circulam socialmente são controlados por aqueles quedetêm o poder. Este fato ocorre não por acaso, pois os discursos, em sua maioria, referem-se atextos de ordem persuasiva que influenciam comportamentos, atitudes e modos de pensar e agir daspessoas. Embora uma pequena parcela da sociedade acredite que dispõe de total liberdade e se acheisenta da reprodução ideológica, engana-se, pois há, em todos os setores da sociedade, umadependência maior que rege toda essa amplitude. São as leis, as normas e os códigos queestabelecem padrões a serem seguidos. É por meio dessa aparente liberdade que a ideologiadominante se “esconde”. Nos ECD, a ideologia e o poder desempenham papéis cruciais para a compreensão damaneira como a dominação se instaura na sociedade e o papel que o discurso desenvolve namesma. Há uma enorme variedade de conceitos que permeiam a ideologia; entretanto, de acordo àsbases que sustentam a análise do discurso, ideologia é uma forma de cognição social que podeservir tanto à legitimação quanto à resistência ao poder e à dominação, em que a estrutura cognitivaabrangente controla a formação, transformação e reprodução de outras estruturas cognitivasespecíficas, como as ações, conhecimentos e as opiniões em modelos mentais e comportamentaisque resultam numa representação social, como o preconceito de cor e de gênero. A estrutura ideológica constitui-se de uma gama de metas previamente selecionadas eaplicadas que favorecem implicitamente os interesses dos dominantes. A disseminação dessaideologia não ocorre de modo particular e unilateral, mas abarca uma estrutura complexa. Dessaforma, os pilares de sustentação e propagação do discurso são acionados: as instituições religiosase educacionais e os meios de comunicação, que, por sua vez, dão credibilidade e veracidade aosdiscursos.2 Retirado da tese de Karina Falcone Azevedo (2008, p. 25)
  • 15. 14 As bases da reprodução ideológica são regidas pelas estruturas do poder, que controlam eestabelecem os padrões sociais e comportamentais da sociedade. Em épocas remotas, o poder eraexercido de modo vertical, isto é, sobre o controle de classe e dos meios de produção. Com odesenvolvimento tecnológico e a possibilidade de ascensão social mais abrangente, atualmente aprática do poder tem sido amplamente modificada, o controle passa a ser sobre as mentes dasmassas e, para que o controle se realize, é preciso que haja o controle sobre os discursos públicosnas diversas esferas sociais. O controle é exercido basicamente através da persuasão ou do medodas punições impostas pela classe dominante. Segundo van Dijk (2008, p.87): “Poder é uma propriedade das relações entre grupos,instituições ou organizações sociais [...]”. Assim, a Análise do Discurso considera apenas o podersocial, e não o poder individual como critério de análise. Dessa maneira, o poder passa a seranalisado a partir das várias formas de resistência e contrapoder dos grupos dominados. A sociedade atual é regida por dois tipos de poder: o simbólico e o material. O primeirorefere-se ao poder de acesso ou controle dos discursos públicos, por exemplo, as figuras sociais quese destacam no mundo da fama ou os que possuem status na sociedade, juízes, jornalistas,advogados, militares etc. Já o poder material refere-se a termos econômicos, isto é, os que seconcentram no topo da pirâmide social, os grandes empresários, banqueiros e milionários.. Nota-se que há uma relação existencial entre poder social e controle social, pois o poder éexercido, principalmente, por meio do discurso, sendo este realizável através da interação social,isto é, o controle de membros de um grupo sobre outros indivíduos. A análise das estruturas queregem o exercício do poder percorre algumas dimensões que se relacionam de modo contínuo. Emprimeira instância, encontram-se as instituições que representam o poder na sociedade: os órgãospúblicos, as forças armadas, os meios de comunicação de massa, as instituições religiosas,políticas, jurídicas e de ensino. Em segundo nível, encontra-se a hierarquização de autoridade queexiste no epicentro de cada uma dessas instituições, o que possibilita que existam diferentes atos defalas entre quem comanda e quem obedece. Em terceiro nível, observa-se a relação de poder entregrupos que se distanciam de modo antagônico: brancos e negros, homens e mulheres, ricos epobres, heterossexuais e homossexuais entre outros. Essas variações de poder promovemdesigualdade do controle do discurso, isto é, aqueles que possuem controle ativo dos discursos,portanto, uma auto-apresentação positiva -Nós- controlam os que possuem acesso limitado aosdiscursos, sendo estes referidos nos discursos através da apresentação negativa - Eles. Em quartonível, encontra-se a análise da abrangência, do domínio e do teor de influência que o exercício dopoder exerce sobre as pessoas, sendo estes controlados pelos atos discursivos e o modo como esses
  • 16. 15discursos são propagados e selecionados previamente pelas instituições que regulam o nível doimpacto da influência a depender do objetivo que se almeja alcançar. A sociedade só se mantém ordenada e controlada graças às relações legítimas de poder, que,por sua vez, impõem regras, ordens e limites. Sem esses aspectos, a sociedade seria um verdadeirocaos. Na medida em que o poder é exercido, obedecendo a sua legitimidade, proporcionabenefícios para a sociedade. No entanto, há ainda assim regras e leis que aparentemente traçam umparâmetro de igualdade, porém as diferenças de poder existem de modo que nos faz acreditar queas desigualdades de conhecimento e de acesso são normais, variando, portanto, de acordo com aposição que ocupamos na sociedade. Como, por exemplo, as relações de poder entre o médico e opaciente, os pais e os filhos, o empresário e seus funcionários, os padres e os fiéis etc. O que interessa aos analistas críticos do discurso são justamente os usos e as práticas dopoder que ultrapassam o limite de sua legitimidade, portanto, o abuso de poder. Essas práticasabusivas do poder acarretam consequências sociais negativas como a dominação, a doutrinação, asdesigualdades, as injustiças. O abuso de poder revela-se quando ocorre a transgressão de regras e normas que regulam osdireitos sociais e civis das pessoas em prol dos interesses particulares daqueles que têm poder. Ailegitimidade do poder se realiza concretamente quando as pessoas têm o acesso limitado a umaeducação de qualidade, a informações importantes que desenvolvam sua criticidade, e oimpedimento de ascender socialmente entre outras variáveis. Essas ações ilegítimas do poderpromovem formas desiguais de tratamento e de parâmetros de vida. Segundo van Dijk (2008) osusos ilegítimos do poder podem proporcionar consequências sociais e mentais negativasprovenientes da dominação discursiva, entre elas estão: desinformação, estereótipos e opreconceito, que, por sua vez, resultam em modelos mentais que influenciam o processo socialnegativo: a discriminação. A análise da dominação discursiva, no que se refere as suas consequências positivas ounegativas, varia de acordo com a cultura e as ideologias de cada indivíduo, bem como os padrõesde justiça e liberdade de cada país. Finalmente, observa-se que a execução e reprodução do poder ocorrem no discurso e atravésdele. Desse modo, tanto a escrita quanto a fala desempenham papéis decisivos no exercício dopoder. O poder discursivo também se manifesta de forma indireta, por meio das representações,modelos de expressão, descrição ou legitimação das ações e ideologias dos que têm poder. Van Dijk (2008) afirma que existe uma correlação direta entre a abrangência do discurso coma estrutura abrangente do poder, pois poderosos possuem acesso ilimitado a uma gama de
  • 17. 16discursos. Enquanto os sem-poder controlam apenas uma parcela ínfima dos discursos, em geral asconversações cotidianas, e nos mais variados discursos assumem posturas de receptores passivos. É através do exercício do poder e do controle discursivo que os atores do discurso transmitemideologias, influenciando e manipulando as mentes das pessoas e consequentemente controlando aformação das cognições sociais que satisfazem os seus anseios, pois para van Dijk é pelo discurso,principalmente, que as ideologias são expressas, adquiridas e representadas, por meio de estruturase estratégias textuais. Logo, entende-se que há um elo entre discurso, poder e ideologia, assim arealização de qualquer um desses aspectos depende dos outros.3- Elite simbólica, controle e acesso A definição de elite simbólica está centrada no poder. Os que possuem poder na sociedade e,consequentemente, dominam a ação discursiva são caracterizados como elite simbólica. Estacategoria pode ser exemplificada pelos seguintes grupos sociais: político, empresarial, jornalístico,policial, midiático, alguns profissionais da área da saúde e da educação entre outros. A análise do poder simbólico não deve ser feita a partir do poder de uma pessoa, mas o modocomo a influência que a posição social ocupada por tal, relaciona-se com um poder organizado eabrangente. Um exemplo claro dessa abrangência e organização do poder se institui quando umdeputado elabora e propõe leis, no entanto, essas leis por si mesmas não possuem significação eaprovação, precisam passar por votação de uma comissão parlamentar para serem sancionadas oureprovadas. A classificação de elite simbólica está intimamente ligada ao poder simbólico, ou seja, aopoder de acesso e controle dos discursos públicos, que por sua vez, regulamentam o controlesocial, pois controlar discursos significa controlar mentes. É por meio desse controle que objetiva-se perpetuar os propósitos e interesses dessa elite. Para van Dijk (2008), o poder simbólico pode ser originado de outros tipos de poder. Dessemodo, um professor possui poder simbólico, portanto, acesso especial aos discursos, por recorrer àsfontes do conhecimento, e os políticos por possuírem regalias que o poder político lhes fornece. A maneira como os discursos são articulados e controlados influenciam não só mentes comotambém promovem o estabelecimento de formas desiguais de poder. Esse poder simbólico que éexercido pela elite simbólica é posto em prática quando as decisões sobre gênero, estilo e forma deapresentação dos discursos são controladas por aqueles que detêm poder:
  • 18. 17 [...] Esse poder não se limita à articulação em si, mas também inclui o modo de influência: eles podem determinar a agenda da discussão pública, influenciar a relevância dos tópicos, controlar a quantidade e o tipo de informação, especialmente quanto e quem deve ganhar destaque publicamente e de que forma. Eles são os fabricantes do conhecimento, dos padrões morais, das crenças, das atitudes, das normas, das ideologias e dos valores públicos [...] (VAN DIJK, 2008, p. 45). Essas articulações existentes entre poder, controle e acesso resultam na prática do poderideológico, ou seja, a elite simbólica (tais como: políticos, jornalistas, advogados, diretores deemissoras etc., através do seu poder social e econômico) controla o acesso aos discursosproporcionando a manutenção da ideologia dominante. A gama de estratégias utilizadas pelos agentes discursivos com objetivo de promover ahegemonia ideológica ultrapassa o limite da legitimidade. Assim, um mesmo evento comunicativopode privilegiar um grupo da sociedade, apontando ações positivas e desprestigiar outro grupo,acentuando os pontos negativos que os circundam. Um bom exemplo disso são as reportagenstendenciosas e preconceituosas que apresentam o negro como cúmplice do crime e do tráfico,aquele que precisa ser excluído da sociedade para acabar com a marginalidade e suas reaiscondições de sobrevivência são banalizas, em contraponto apresenta o branco como sujeitosocialmente correto, que necessita de proteção e se encontram envolvidos em ações ilícitas sãovítimas do sistema que o corrompe. É a partir do controle dos discursos e das limitações de acesso que a ideologia se reproduz nasociedade, pois o controle do discurso resulta no controle da mente. Van Dijk (2008, p.18) afirmaque: “Se o discurso controla mentes, e mentes controla ação, é crucial para aqueles que estão nopoder controlar o discurso em primeiro lugar [...]”. Esse controle discursivo ultrapassa o limiar doevento comunicativo, isto é, controla-se as estruturas de produção do discurso, que envolve asuperestrutura: o que falar (quais tópicos são significativos e quais são irrelevantes); como éformulado, exposto (a escolha lexical, a elaboração e ordenação precisa das orações); onde oevento comunicativo é realizado ou propagado; para quem é direcionado (adequação dos atos defala para alcançar a compreensão dos participantes); e para que (quais os níveis de impacto ouinfluencias que os discursos pretendem alcançar). Além dessas estruturas que envolvem o contextoe a produção do discurso, há também o controle dos níveis retóricos, estilístico, semântico epragmático. Portanto, o poder é definido como o controle do outro, sobre as ações do outro, com afinalidade de promover a manipulação, reprodução ou transformação de ideologias. A relaçãocontrole, discurso e poder se caracteriza na sociedade, entre outros exemplos, quando o homem,em seus discursos patriarcalistas, reserva à mulher um lugar inferior ao seu, seja no âmbito
  • 19. 18político, econômico, profissional e familiar, objetivando, desse modo, torná-la submissa a ele. Aperpetuação desse discurso machista se revela por meio da influência mental baseada nos discursosque promovem informações, ensinamentos e sugestões que moldam as ações e opiniões daspessoas: “[...] A esposa deve tomar a decisão de se integrar completamente no marido e de passar aatender às vontades dele, conscientizando-se de que ela e o marido constituem um só ser [...]”(SEICHO-NO-IE, 2007, p.14). Nesse exemplo, podemos observar um discurso fortemente marcadopela ideologia machista. O ato de linguagem realizado pelo autor do texto é o aconselhamento: “Aesposa deve tomar a decisão de...”. Trata-se, portanto, de um conselho da revista Seicho-No-Ie parasuas leitoras sobre como se tornarem esposas ideais para seus maridos. Por meio desse discurso, arevista busca influenciar o modelo mental que suas leitoras têm sobre o papel da esposa nocasamento, fazendo-as acreditar que marido e mulher tornam-se um único ser. Se adotarem talmodelo idealizado de esposa, essas mulheres possivelmente agirão conforme o recomendado, ouseja, buscarão atender todas as vontades de seus maridos. Dessa forma, o discurso machistapropagado pela revista ajuda a manter a dominação masculina. Não é difícil notar que o controle discursivo perpassa pelo viés do controle da mente, e estese dá por meio do controle do texto e do contexto, objetivando, assim, controlar os modelosmentais sociais. As bases do acesso são definidas por meio do poder de controle que a elite simbólica exercenos mais variados discursos, sejam escritos ou orais. Os níveis do acesso são distribuídos de mododesigual e excludente. Por exemplo, os telespectadores possuem acesso restrito ou limitado aalgumas informações de um determinado acontecimento, em contrapartida o diretor da emissoratem acesso livre, isto é, detêm o poder discursivo, por isso estabelece regras e limitações quedefinem o processo comunicativo: o que e quem pode falar ou escrever, para quem e onde o eventocomunicativo deve se processar, quais tópicos devem ser enfatizados e quais devem ser omitidos. Essas estratégias de limitação de acesso ocorrem nas mais variadas práticas discursivas,desde uma conversação habitual até situações mais formais. Tais limitações se estabelecem e sediferenciam segundo os diversos aspectos sociais, econômicos, profissionais, culturais e de gênero.Assim, em uma determinada situação discursiva que envolve o ambiente familiar, o homem possuio poder discursivo, isto é, tem acesso mais ativo na conversação, enquanto a mulher segue algumaslimitações de acesso. No entanto, em um julgamento o homem é o réu e a autoridade maior dasessão jurídica é uma mulher, as limitações de acesso serão guiadas segundo o critério profissionale situacional. Desse modo, as definições dos padrões de acesso possuem ligação entre o discurso eo poder social.
  • 20. 194- Discurso e dominação Os ECD se propõem a estudar e discernir as relações de poder que envolvem a sociedade.Nesse sentido, busca-se examinar até que ponto o poder é exercido de forma legítima eprincipalmente o modo como o abuso de poder é praticado e como o uso ilegítimo do poderprejudica as pessoas, promovendo desigualdades sociais, produção e reprodução de ideologias,manipulação e dominação. O abuso de poder comunicativo, usado de modo intencional para atingir um determinadoobjetivo se realiza de forma previamente elaborada, ou seja, quando a mídia se propõe a apresentarfatos ou acontecimentos que ocorrem nas favelas, em vez de informar na tentativa de minimizar oproblema social decorrente da estrutura capitalista e mostrar as reais condições de vida que osenvolvidos nas drogas e crimes enfrentam cotidianamente, vítima desse sistema excludente edesigual, apresentam reportagens racistas e preconceituosas, ignorando, portanto, a condiçãomarginal que os indivíduos se encontram e o visível descaso das autoridades para com esteproblema social. Van Dijk (2008) define como dominação as práticas de abuso de poder, que implicam não sódimensões negativas como a injustiça e a desigualdade, mas também todos os usos ilegítimos dopoder que proporcionam a violação dos direitos constitucionais das pessoas. A prática dadominação está presente em nossa sociedade desde os primórdios, quando os povos de culturaágrafa foram dominados por aqueles que detinham a prática da escrita. Atualmente a dominação seespalha por todos os âmbitos sociais: familiar, político, jurídico, profissional, econômico etc. A dominação nem sempre é observada segundo a verticalização do poder, isto é,dominante dominado, esta é analisada como forma de cooperação, interação discursiva entre osparticipantes da prática discursiva e nem sempre apresenta-se de modo explícito. A dominaçãoatualmente, se realiza através do controle das mentes das pessoas, portanto, ela se apresenta demaneira muito mais indireta. As relações de gênero entre homem e mulher, no que diz respeito ao enfoque da dominaçãose apresentam de modo concomitante, isto é, a dominação não se revela apenas por parte dohomem, ela se apresenta também nas mulheres, quando estas reafirmam as suas condiçõesinferiores e permanecem subjugadas ao controle masculino, tais reafirmações se dão devido aosmodelos mentais previamente definidos e perpetuados pela cultura patriarcal, portanto, tem-senesse caso, a dominação atrelada a um conceito cultural e histórico.
  • 21. 20 O exercício da dominação se relaciona imbricamente com as estruturas do poder, pois osgrupos dominantes possuem o nível de poder estabelecido de acordo com o grau de influência econtrole que são capazes de exercer sobre os atos e as mentes dos grupos dominados. Para van Dijk(2008), o exercício da dominação se realiza por meio da existência de uma base de poder, sendoesta, o viés que possibilita o acesso privilegiado a uma série de recursos sociais escassos queproporcionam diferenças sociais, tais como o dinheiro, o status, a fama, a força, o conhecimento, ainformação etc. Os grupos dominantes podem exercer maior ou menor controle sobre outros grupos oupodem também controlá-los somente em situações sociais específicas. Do mesmo modo, os gruposdominados podem ter um grau variado (maior ou menor) de aceitação, consentimento, legitimaçãoou resistência desse domínio, podendo também, achá-lo “natural”, aceitando-o sem apresentarnenhuma manifestação de contrapoder. Segundo Gramsci (apud VAN DIJK, 2008), a hegemonia do poder dos grupos dominantespode estar associada a leis, regras, normas, hábitos e ao consenso geral. Dessa maneira, sãoexemplos típicos dessa hegemonia, o domínio de classe, o sexismo e o racismo. Posto que, nemsempre o exercício do poder se realiza por meio de ações e/ou atos abusivos executados pelosgrupos dominantes; podem também estar presentes nas inúmeras ações consideradas normais docotidiano. Van Dijk (2008) aponta que atualmente a dominação, na maioria dos casos, não é exercidapelos poderosos através da força, mas por meio da aceitação do próprio dominado. Ou seja, éatravés da hegemonia de uma determinada ideologia que os dominadores conseguem exercer opoder, por meio do assentimento e participação dos dominados. Isso porque, a hegemonia se dá apartir do controle das mentes. Nota-se, portanto, que a supremacia dominante ganhasustentabilidade mediante as ideologias que são reproduzidas e do modo como as pessoas podemagir, de acordo com seu próprio livre-arbítrio, no interesse dos possuidores de poder.5- Considerações gerais Neste capítulo analisei os principais elementos constituintes que envolvem o processodiscursivo, segundo a análise sociocognitiva do discurso. A ancoragem dessa teoria centra-se noestudo triangular que relaciona sociedade, discurso e cognição social como fatores constitutivosentre si. Dessa forma, a construção e compreensão das práticas discursivas perpassam antes deprocessar-se, pela cognição, pois as representações cognitivas pessoais e sociais dos participantes
  • 22. 21do processo comunicativo influenciam diretamente no modo como o discurso é significado nasmentes das pessoas e na sociedade. Além disso, observa-se que na dimensão discursiva existem as relações de poder queresultam em estratégias de acesso e controle discursivo. Em geral, o poder social exerce grandesinfluências nos processos comunicativos, ou seja, os detentores do poder discursivo controlam odiscurso, por meio do controle do material de produção, formulação e distribuição dessesdiscursos, objetivando assim, produzir e reproduzir as representações ideológicas desejadas. A prática do poder é exercida direta ou indiretamente na sociedade. O uso legítimo do poder,portanto, o modo direto como o poder é exercido se realiza por meio das leis, regulamentações epadronizações que regem a sociedade. Em contraponto, os usos ilegítimos de poder se concentramnas representações, expressões e ideologia definidas e propagadas na sociedade pelos atores dopoder, com a finalidade de atingir seus interesses. Esses usos abusivos de autoridade resultam emconsequências sociais negativas como as desigualdades sociais, a dominação e a manipulação. Outro fator importante da teoria crítica do discurso apresentado, neste capítulo, refere-se àideologia que é um sistema unificado de ideias que estão associadas aos interesses de grupos ouinstituições sociais que possuem o poder simbólico ou econômico. Dessa maneira, a ideologia estáassociada ao uso da linguagem e ao exercício da produção e reprodução de representaçõescognitivas que satisfazem os anseios da elite simbólica. Nessa abordagem, verifica-se que adominação se revela através do uso da ideologia, afinal atualmente o exercício da dominaçãotornou-se mais contundente, através do controle mental. Conclui-se que o poder e a ideologia são expressos na sociedade pelo discurso e no discurso.Sem o uso da linguagem esses elementos não podem ser exercidos ou legitimados. Diante disso,observa-se que as estruturas básicas que envolvem a dimensão discursiva: poder, ideologia edominação estão presentes na maioria dos discursos orais ou escritos que circulam socialmente eque, por sua vez, influenciam o modo de pensar e agir das pessoas.
  • 23. 22 CAPÍTULO II DISCURSO SEXISTA E DOMINAÇÃO MASCULINA Este capítulo discorre acerca dos aspectos que compõe a dominação masculina. Em primeirainstância, a abordagem mostra como o discurso sexista promove a discriminação, as desigualdadese sustenta a dominação masculina. Pois, ser homem ou mulher vai muito além dos hormônios eórgãos sexuais que diferenciam o macho da fêmea, mas também em assumir papéis sociaisdefinidos pela sociedade como masculinos e femininos, e que, por sua vez, classificam as mulherescomo seres inferiores e, consequentemente, subordinadas aos homens. O conjunto das considerações apresentadas neste capítulo está centrado na reprodução dodiscurso da dominação masculina. Nesse discurso, a mulher é caracterizada como sexo frágil,devendo, portanto, servir o sexo forte, o homem. Este oprime e domina a mulher, assim, se produza ideologia masculinizante. Em última instância, a abordagem se apresenta segundo os pilares de sustentação do discurso:a religião e a ciência, que, por meio dos seus dizeres, promovem e disseminam ideologias quefavorecem o status quo da sociedade.1- Discurso sexista: masculino versus feminino As relações desiguais de gênero na sociedade se justificam por meio do binarismohomem/mulher. As visíveis estruturas biológicas que diferenciam o homem da mulher sãoconsideradas como elemento distanciador entre o universo masculino e o universo feminino. A dicotomia sexual surge antes mesmo do nascimento. A determinação do sexo acarretaránuma série de escolhas que determinarão os padrões de masculinidade ou feminilidade: escolha donome, cor do enxoval, os tipos de brinquedos e de roupas entre outros detalhes, serão referenciaispara marcar a desigualdade entre homem e mulher. Oliveira (1999, p.33) afirma que: “[...] Desde onascimento, o sexo determina o lugar do indivíduo de um lado ou de outro da fronteira, primeiraseleção que será formada pela prática social”.
  • 24. 23 Segundo Bourdieu (2007), a diferença socialmente estabelecida entre os gêneros e,especialmente, a divisão social do trabalho se justifica a partir da diferença biológica entre ossexos. O princípio da divisão sexual do mundo é também abordado por Almeida (2010, p.21):“Nascidos machos ou fêmeas, mas socializados como homem e mulher todos se deparam com oprocesso histórico de construção de identidade diferenciada de um e de outro gênero”. Ambosapresentam a relação existencial entre as diferenças sexuais e as posições e funções definidas pelasociedade. As dimensões bipolares que circundam a divisão sexual e a divisão das coisas seguem ummodelo de oposições que fortalece a visão androcêntrica. Para Bourdieu (2007), o conjunto deoposições que organizam o cosmo é revestido de significação social. Assim, o movimento para oalto está associado ao homem, à ereção, ou à posição superior no ato sexual e na vida profissional.No quadro abaixo, o sistema de oposições equivalentes sugeridas por Bourdieu (2007), sociólogofrancês, aponta como esse modelo de contrariedades sustenta o discurso sexista: Quadro 1: As oposições homólogas HOMEM MULHER Alto Baixo Na frente Atrás Direta Esquerda Seco Úmido Duro Mole Temperado Insosso Claro Escuro Fora (público) Dentro (privado) Subir Descer Magro Gordo Grande Pequeno Forte Fraco Grosso Fino Mente Corpo Produção Reprodução
  • 25. 24 Ativo Passivo Objetivo Subjetivo Racional Emocional Na representação sexista, o homem é portador de um órgão sexual com configuração externae visível, que, por sua vez, penetra um órgão sexual interno e praticamente implícito. Daí aexistência do ato ativo e passivo, que, na cultura androcêntrica, estabele como ativo a açãomasculina e passiva a ação feminina. Alves (2001, p.3) define que: “O ativo significa atuante,intenso, vivo, ágil e enérgico. [...] ativo que dizer bens e direito a receber. Passivo é o contrário [...]é quem ou o que recebe uma ação, que não atua, inerte, indiferente, [...] significa dívidas eobrigações a pagar”.Todas essas definições surgem para reafirmar a cultura e a ideologia machista. O corpo torna-se portanto, o lugar onde são inscritas as disputas pelo poder, isto é, o sexodefinirá quem ocupará a posição de dominante e quem ocupará a de dominado. Souza3 (p.2) afirmaque: “[...] O corpo é a materialização da dominação, é o lócus do exercício do poder porexcelência”. Sayão (2003) defende que: [...] a simples observação dos órgãos externos ‘diagnostica’ uma condição que deve valer para toda a vida. Passamos a ser homens ou mulheres e as construções culturais provenientes dessa diferença evidenciam inúmeras desigualdades e hierarquias que se desenvolveram e vêm se acirrando ao longo da historia humana, produzindo significados e testemunhando práticas de diferentes matizes (apud SOUZA, p.2). Observa-se, portanto, que as reações e representações do corpo suscitam em formashierarquizantes de poder. A representação social do corpo e a interpretação social de certos objetose ações revelam esquemas de percepções dominantes que levam as mulheres a terem umarepresentação negativa do seu próprio sexo. Bourdieu (2007) afirma que a divisão entre os sexos está presente de modo inevitável na‘ordem das coisas’, ou seja, encontra-se em todo o mundo social e incorporado nos corpos e noshabitus4 dos agentes, de modo que funcionam como sistema de percepção, que influenciam opensamento e a ação dos mesmos. As aparências biológicas, fortemente defendidas pelo modelomasculinizante, produziu nos corpos e nas mentes das pessoas a inversão da relação entre as causase os efeitos e naturalizou a construção social sexuada. Desse modo, Bourdieu (2007, p. 9) lança3 Sem notificação de ano. Confira a referência4 O conceito de habitus é fundamental para entender como a prática da dominação adquire caráter natural.Segundo Bourdieu (2007) o habitus pressupõe um conjunto de noções que antecede a ação, esta por sua vez,constitui-se nas práticas dos agentes, dentro do âmbito social.
  • 26. 25mão do conceito de habitus: “[...] (os ‘gêneros’ como habitus sexuados), como o fundamento innatura da arbitrária divisão que está no princípio não só da realidade como também darepresentação da realidade [...]”. A elaboração e a compreensão do conceito de naturalidade, que perpassa a divisão das coisase do mundo, só são possíveis, segundo Bourdieu, por meio da consonância das estruturas objetivase cognitivas: [...] a concordância entre as estruturas objetivas e as estruturas cognitivas, entre a conformação do ser e as formas do conhecer, entre o curso do mundo e as expectativas a esse respeito, que torna possível esta referência ao mundo que Husserl descrevia com o nome de ‘atitude natural’ [...] deixando, porém, de lembrar as condições sociais de sua possibilidade [...] (2007, p.17). Portanto, essas experiências proporcionam ao mundo social e a sua divisão arbitrária, caráternatural e evidente, assim, promove-se o reconhecimento da legitimação da ordem social quefunciona como sustentáculo da dominação. Destarte, é por meio das estruturas cognitivas eobjetivas que esta realidade se apresenta e se reproduz. Segundo van Dijk (2004), as estruturascognitivas funcionam como elementos preponderantes para a construção e a interpretação dosdiscursos, do mesmo modo que o discurso interfere diretamente nessas estruturas cognitivas e, pormeio delas, interfere indiretamente nas estruturas sociais. É por meio das diferenças anatômicas, que essas oposições homólogas entre homem e mulhersurgem como princípio da dominação masculina. Os esquemas estruturais que regem a percepçãodos órgãos sexuais fazem surgir outras oposições que fundamentam o princípio constitutivo dadominação: o positivo e o negativo, o direito e o averso5. Dessa maneira, o homem e a mulher sãovistos como duas variantes que se distanciam entre si, superior e inferior. As diferenças biológicastrasladam para o plano da cultura, estabelecendo dicotomias que apresentam característicasnegativas às mulheres e positivas aos homens6. Para Van Dijk (2008), as estratégias de auto-apresentação positiva (nós = homens) e negativa (elas = mulheres) funcionam como estratégias decontrole e das relações de poder. O discurso da dominação masculina é exorbitantemente discriminatório, pois se sustenta nosestereótipos de gênero para ratificar as hierarquias sociais. Segundo Alves (2001), as dicotomiassão estabelecidas de acordo com dois pólos que se unem de modo antagônico. Em um dos pólos seconcentra a superioridade e a dominação, portanto, o homem - que é caracterizado pela atividade,objetividade, racionalidade, virilidade e força. Por ter todos esses méritos, localiza-se na esfera5 .Pouchelle (apud BOURDIEU, 2007, p.23).6 Esse processo é denominado por Alves (2001) de Dimorfismo cultural.
  • 27. 26pública, isto é, fora do lar, em contraponto, no outro pólo, encontra-se a inferioridade e asubmissão, ou seja, a mulher, representada pela passividade, subjetividade, emocionalidade,frigidez e fragilidade, portanto, situada no espaço privado (doméstico). A dinâmica lei do dualismo sexual se concentra no paradigma da diferenciação e dacontrariedade, objetivando modelar a imagem e a função de cada sexo: O universo cultural e social humano se organiza em torno do eixo da dicotomia sexual, associando cada pólo a um campo de atributos e qualidades em que se exprime diferença e complementaridade: quente/frio, [...], duro/mole, sol/lua, potência/fertilidade [...]. A “ordem da vida” se fundamenta nessa oposição entre os sexos, nessa “lei da união dinâmica das diferenças dos contrários” [...] (OLIVEIRA, 1999, p. 29- 30). No âmbito do pensamento masculino, as mulheres não são vistas como seres diferentes, masprincipalmente como segundo sexo, portanto, inferiores. Definidas por Balandier (apudOLIVEIRA 1999, p. 30) como a: ”[...] metade perigosa da sociedade [...]”. A mulher é definidadesse modo, pois nela se concentra a fertilidade, isto é, a reprodução da espécie, torna-se, portanto,uma ameaça para a ordem social e para a cultura firmada, caso rompa a relação com os homens. Para manter a dominação, os homens não hesitam em apresentar, por meio do discurso ainferioridade da mulher, esta definição intencionalmente estabelecida, está pautada nas diferençasfisiológicas entre ambos os sexos: [...] baseado nas diferenças fisiológicas entre a mulher e o homem, o inferior e o superior, propagandeia que a mulher seja confinada na reprodução biológica e nas correspondentes funções da personalidade feminina, deixando para os homens o papel de cuidar da produção de bens e de comandar a religião, a ciência, a tecnologia e o militarismo e as próprias mulheres. (VIEZZER, 1989, p.104). É natural que existam aspectos corporais distintivos entre homem e mulher, pois ambos sãodotados de genitálias diferenciadas. O que se torna inaceitável é a transformação dessa diferençafisiológica em diferenças sociais e caracterizações inferiores. Os estereótipos sexuais estabelecidospela cultura masculinizante promovem uma construção social excludente atrelada às diferenças edesigualdades sociais que se transformam em relações de gênero e de poder. A promoção da masculinidade sexista inicia-se desde o nascimento da criança, com aconstrução de homens onipotentes, dominadores, portanto, superiores. O rito da iniciação, isto é, adefinição do sexo é apresentada por Oliveira (1999, p. 34) como o momento de: “[...] ritualizar econfirmar a dominação dos homens sobre as mulheres por intermédio da criança do sexomasculino [...]”. Segundo a autora o processo de iniciação se constrói pioneiramente a partir doesquecimento da infância feminina do jovem, vivida junto às mulheres, assim ele sairá do espaço
  • 28. 27sagrado (o lar), e será submetido a viver à margem da sociedade, onde passará por dores esofrimento, a fim de comprovar sua virilidade. Em todos os âmbitos da sociedade, verifica-se que a construção da masculinidade é vistacomo ponto de partida para a perpetuação da dominação masculina. Assim, Asturias (1997) mostraque, de acordo com os valores socialmente determinados, a construção da masculinidade estáassociada a regras previamente estabelecidas: os homens estão impedidos de expressar ternura,carinho, tristeza ou dor, sendo permitido como representação da masculinidade ideal: a ira, aagressividade, a audácia e, também, o prazer. Dessa forma, constrói-se um “macho” castrado desensibilidade e sem amor, dotado de comportamentos agressivos. Em contrapartida, para asmulheres são reprimidas as manifestações de agressividade, de ira e de prazer, sendo exaltadas asmanifestações de ternura, de dor e de sofrimento. Por meio dessas limitações, por um lado, eexarcebações, por outro, é que se constroem mulheres sofridas, relegadas, desprovidas de audácia ecaricaturizadas em expressões de tristeza e dor. Nossa sociedade, imbuída de valores patriarcais e notadamente marcada por valores dacultura masculinizante, continua ensinando que existe um mundo diferenciado para o homem eoutro mundo que é comum para as mulheres. De acordo com este guia socialmente determinado edisseminado cotidianamente pela ideologia machista, as meninas e os meninos aprendem, cada vezmais precocemente, a não ultrapassar os limites divisórios entre o mundo masculino e o feminino.Assim, Asturias (1997, p.2) pontua que: “[...] el mundo de la mujer es la casa y la casa do hombrees el mundo [...]”7. Essa divisão sexuada do mundo proporciona tratamentos desiguais, no camposocial e profissional, homofobia e a violência contra a mulher. A construção da masculinidadedominante resulta diretamente em discriminação (homofobia), sexismo e injustiças. E as relaçõesdiferenciadas de gênero promovem relações desiguais de poder. Para van Dijk (2008), adominação, isto é, a prática abusiva do poder implica dimensões negativas como injustiças,desigualdades sociais e discriminação. A pretensa vontade de mudança de vida, ou seja, a busca por certo nível de independência dasmulheres e, consequentemente, sua inserção no mundo dito dos homens, isto é, as realizações deatividades profissionais são acompanhadas do sentimento de culpa. O jogo contraditório entresucesso e fracasso se traduz se aplica quando a mulher sente-se incapaz ou limitada dedesempenhar seus papéis afetivos com a família. Assim, a mulher pagará o preço por invadir ouniverso masculino, sendo esta demarcação definida de acordo com os padrões dominantes dasociedade, que definem o espaço público e as áreas do poder destinado ao homem e o espaço7 O mundo da mulher é a casa e a casa do homem é o mundo.
  • 29. 28privado, destinado à mulher. Oliveira (1999, p.72) afirma que: “[...] o discurso masculino sempredefinira o que é uma mulher normal, seu lugar, seu papel, sua imagem e sua identidade. Asdissidentes desse modelo eram rejeitadas para fora do campo de visibilidade social”. Ainda segundo Oliveira (1999), a culpa é o sentimento que justifica o “erro” cometido pelasmulheres, pois o espaço público não é apenas lugar de transgressão, mas também lugar deexpiação. Dessa maneira, essa autora define que: “Feminilidade e êxito aparecem como dois pólosdesejados, mas mutuamente excludentes [...] (1999, p.85)”. O êxito, visivelmente alcançado pelas mulheres no mercado de trabalho, busca dissimular asdesigualdades existentes dentro da divisão hierarquizante das profissões, pois as mudanças dacondição feminina seguem o modelo tradicional diferenciador entre o masculino e o feminino.Segundo Editoral do Valor (2006): “São destinados aos homens os melhores cargos e salários. [...]5,5% dos homens ocupados chegaram a um cargo de direção, e apenas 3,9% das mulheres”. Elassão excluídas das profissões públicas que possuem conotação de poder e do setor econômico. Àsmulheres são destinadas profissões que possuem caráter intensificador da dominação, isto é,profissões consideradas tradicionalmente “femininas” direcionadas para o campo do ensino, daassistência social, atividades secundárias da medicina, entre outras profissões intermediárias.Embora exista um número ínfimo de mulheres que ocupam altos cargos no espaço profissional epolítico, é notório que esse número decresce ao passo que se atinge posições mais elevadas dentrode um setor. Bourdieu (2007, p.110) afirma que: “[...] em cada nível, apesar dos efeitos de umasuper-seleção, a igualdade formal entre os homens e as mulheres tende a dissimular que, sendo ascoisas em tudo iguais, as mulheres ocupam sempre posições menos favorecidas [...]”. Além das mulheres terem oportunidades diferenciadas em relação aos homens, elas possuemnível mais baixo de remuneração, por mais que ocupem as mesmas posições. Barested8 alerta que,embora tenha ocorrido avanços legislativos a partir de 1988 com a promulgação da Constituição,como a criação de políticas públicas que visavam promover a igualdade entre homens e mulheres,assim como direitos concedidos especialmente à mulher como: I-Licença-maternidade, semprejuízo do emprego e do salário; II-Proteção do mercado de trabalho da mulher; III-Proibição dediferença salarial entre os sexos e IV-Proibição da dispensa da empregada gestante, desde aconfirmação da gravidez até 5 meses após o parto, ainda prevalecem estupidamente valores eatitudes discriminatórios. Elas estudam mais e ganham menos. É importante pontuar também que amulher brasileira, ainda desempenha a dupla jornada de trabalho, embora tenha conquistado ummelhor nível de escolaridade e maior inserção no mercado profissional.8 Confira referência
  • 30. 29 Barested aponta alguns dados que demonstram a diferenciação de salários e a exclusão dasmulheres: “[...] as mulheres recebem, em média, apenas 63% do salário dos homens. Na esferapolítica do total dos deputados federais, eleitos em 1998, apenas 7,6% eram mulheres, o mesmoocorre no Senado Federal [...]”. Segundo Dimenstein9 o primeiro balanço sobre a situação damulher no Brasil, lançado pelo governo em 2008, 40% das mulheres trabalhadoras ocupamposições precárias. Na esfera governamental, a igualdade ainda encontra-se distante, embora 43,8%dos cargos políticos federais sejam ocupados por mulheres, o índice diminui para 13% nos cargoscomissionados mais importantes. E segundo o IBGE, as mulheres ocupam menos de 10% doscargos políticos existentes. Esses dados mostram a contrariedade e o não cumprimento da lei constitucional referida noArt. 5º da Carta Magna (2007, p.15) que determina: “homens e mulheres são iguais em direitos eobrigações, nos termos desta Constituição”. As desigualdades de gênero são fortalecidas, ainda mais, quando somada as desigualdades declasse, etnicidade e raça, o que vem agravar consideravelmente as discriminações e subordinaçõessofridas pelas mulheres. Desse modo, as mulheres que se encontram mergulhadas nesse obscuro einconcebível universo, enfrentam o desafio de conquistar a igualdade mesmo sendo diferentesegundo os padrões determinados pela sociedade. Portanto, as relações de gênero funcionam por meio de um sistema de signos e símbolos querepresentam valores, normas e práticas, e que, por sua vez, transformam as diferenças sexuais dehomens e mulheres em desigualdades sociais, visto que as relações de gênero ocorrem de maneirahierárquica, de modo que, há a valorização do masculino sobre o feminino. Assim, os valoresmasculinos estão presentes no inconsciente cultural e coletivo e são resgatados por práticasdiscursivas com viés sexista.2- A dominação masculina A dominação masculina segue padrões do patriarcalismo capitalista, sistema este que envolveuma complexa estruturação hierárquica capaz de manter e prolongar o seu exercício de poder. O discurso da dominação se sustenta nas diferentes noções biológicas e mais fortemente nonível cultural, no qual homem e mulher comportam-se e fazem uso dos signos culturais e do meiosocial de modo diferenciado. Segundo Almeida (2010, p. 19): “[...] Sua caracterização se dá ao9 Ver referência
  • 31. 30nível dos elementos distintivos na produção do masculino e feminino, reproduzidos nametalinguagem dialética dos gestos, das roupas, do uso do corpo, das emoções, dos sentimentos[...]”. Tais elementos funcionam como linhas de demarcação, em que homem e mulherpermanecem imersos em um universo imutável e fixo, isto é, separados artificialmente. Oliveira(1999, p.30) aponta que: “Para o homem a mulher é, antes de mais nada, a outra, [...] muito maisque a parceira; essa estranheza se exprime nos sistemas simbólicos [...] e se realimenta, reforçandoa fronteira [...] que separa fazeres e saberes de homens e mulheres” Para Bourdieu (2007), a análise da dominação do homem sobre a mulher tem fundamento noprocesso evolutivo do ser humano. Assim, segundo Viana (2010, p.6): “[...] A origem dadominação masculina não precede a dominação de classe pelo simples fato de que nas sociedadesprimitivas, assim como nas sociedades indígenas, não existe dominação da mulher [...]”. A dominação do masculino sobre o feminino é exercida de forma indireta e implícita, ou seja,por meio da violência simbólica, como define Bourdieu (2007), é uma violência sutil, insensível einvisível as suas próprias vítimas, sendo exercida e propagada pelas vias simbólicas do discurso, doconhecimento e por fim do sentimento. A violência simbólica se fundamente de modoconcomitante entre dominado (mulher) e dominante (homem), ou seja, o dominado não deixa deconceder obediência ao dominante, é por intermédio dessa concessão que a relação de dominaçãose instaura. Assim, essa relação de dominação passa a ser encarada como natural. Tal naturalidade passa a ser critério da dominação que é definida segundo a ideologiamachista, a qual reafirma a condição inferior das mulheres, ao passo que as apresentam como serescapazes apenas de exercer papéis e funções pré-estabelecidas como femininos. Dessa maneira,Viezzer (1989) menciona que o argumento da naturalidade é pilar de sustentação da ideologiamasculinizante que aponta a mulher como naturalmente inferior, e por isso a trata desse modo.Esse modelo naturalista da dominação separa homens e mulheres em grupos hierárquicos distintos,dando privilégio aos homens em detrimento das mulheres. Portanto, as desigualdades vividas pelasmulheres são frutos das vantagens dadas aos homens. Na medida em que uma parcela desse grupo, que se apresenta como dominante, ameaça osesquemas de virilidade estabelecidos, sofre também com a dominação masculina, como é o caso dahomofobia. A aversão gerada pela dominação masculina para com o mesmo sexo, se traduzteoricamente devido às demarcações do ser homem ou mulher, assim, ao se apresentar nasociedade com um determinado sexo e comportar-se como o outro gênero10 é punido e reprimido.10 O vocábulo sexo e gênero apresentado por Stoller (apud VIEZZER, 1989), mostra que sexo se refere aosaspectos biológicos que distingue o macho da fêmea na espécie humana. E o gênero corresponde aos papéis e
  • 32. 31Segundo Viezzer (1989, p.108): “[...] a sociedade está organizada para aceitar a execução dospapéis sociais atribuídos de acordo com as diferenças biológicas que marcam os indivíduos aonascer, e não com as diferenças psicológicas e culturais [...]”. A situação da dominação e da subordinação11 feminina ocorre de modo generalizado e pré-estabelecido segundo os interesses da classe dominante, que sustenta o seu status quo, assumindo,assim, as normas culturais da masculinidade. Enfim, a autora supracitada (1989, p.115) expõe que: [...] as relações homem-mulher nos mais variados tipos de sociedade permitiu compreender que a subordinação da mulher ao homem, através da divisão social do trabalho, sempre respondeu aos interesses econômicos e políticos institucionalizados e transmitidos de geração a geração [...]. A subordinação da mulher ao homem está sempre presente nas relações sociais e ocorre demodo contínuo e perverso, ou seja, varia segundo a situação em que a mulher se encontra nasociedade. De acordo com Viezzer (1989), a dimensão da subordinação abrange também ascontradições de classe e de etnias, além dos diferentes tipos de relações sociais. Dessa maneira,uma mulher pobre sofre conjuntamente discriminação e exploração, por ser mulher e por ser pobre;ao passo que uma mulher negra e pobre, sofre discriminação em três níveis, no que se refere aogênero, a etnia e a classe social. Segundo Bourdieu (2007) a visão androcêntrica é legitimada por meio de agentes específicos,que contribuem para a reprodução de tal ideologia, são eles, a violência física e simbólica cometidapelos homens e pelas instituições familiar, religiosa, educacional e política. Os homens não hesitam em manter o seu poder de domínio sobre a mulher, e ao se depararemcom o término do relacionamento ou sentir-se traído pela esposa, considerada por ele objeto deposse, não aceita perdê-la para outro homem e utiliza-se da violência física para atingir a mulher,que segundo o discurso sexista é a parte fraca, indefesa e sensível, a quem agride, oprime e atémata de forma brutal. Apesar de a dominação masculina ter suas raízes nos planos cultural e histórico, ela seinstaura na sociedade através das relações sociais de gênero, o que ocasionou relações desiguais degênero percebidas universalmente. Os homens estão sempre impondo seu poder social, econômicoe político sobre as mulheres. Viezzer (1989, p.103) afirma que: “O mundo que conhecemos é deles,regulado por eles. São eles que nos impõe as leis limitadas e limitantes, para prosseguir com seufunções desempenhadas e assumidas nas relações com outras pessoas que a sociedade aponta como sendomasculinos e femininos.11 “[...] a subordinação é o conceito geral da dominação masculina, enquanto a exploração, a igualdade, aopressão, a repressão, o machismo, a discriminação e outras formas de dominação são tipos diferentes desubordinação” (VIEZZER, 1989, p.110).
  • 33. 32projeto de desenvolvimento, suas universidades, suas religiões, seus meios de comunicação para asmassas [...]”. Os homens têm em todas as partes do mundo maior acesso e maior mobilidade físicae menor responsabilidade do que as mulheres no espaço doméstico. A elas são reservadas tarefasdo lar ou extensões dessas tarefas como assistência à saúde, ao ensino e ao serviço social, que sãoprofissões e atividades sem qualificação ou status. Em contrapartida, os homens se concentram nasprofissões e/ou posições onde se exerce o poder. Conforme Bourdieu (2007), a dominação masculina encontra sua primazia nas estruturassociais e nas atividades de produção e reprodução, que se apresentam baseadas na divisão sexualdo trabalho, que, por sua vez, confere aos homens profissões e posições privilegiadas no âmbitoprofissional e social. Convergindo com esse pensamento, Welzer-Lang (2001, p.2) pontua que: “Oshomens dominam coletiva e individualmente as mulheres. Esta dominação se exerce na esferaprivada ou pública e atribui aos homens privilégios materiais, culturais e simbólicos [...]”. O efeito da dominação masculina se institui por intermédio das estruturas sociais do corpo,que revela a visão de que a mulher é um ser frágil e inferior, portanto, submisso, tal conceito,largamente disseminado, tornou-se um fator demarcador da violência simbólica. Bourdieu (2007)pontua que o princípio da visão dominante não é simplesmente uma representação mental, mas umsistema de estruturas inscritas de modo grotesco nas coisas e nos corpos, assim, o discursomachista é culturalmente pregado na sociedade. A elite simbólica, objetivando disfarçar o poder e a fim de perpetuar a ação dominatória,utiliza a estratégia do convencimento e do assentimento. Tais ações proporcionam aos dominadosaprovação, sem questionamento do poder que lhes é imposto, por acreditarem que agindo assim,favorecem os seus interesses. A noção de consentimento, apresentada pelo sociólogo francês(2007) caracteriza mais fortemente o conceito de dominação, visto que anula a responsabilidade daopressão por parte do dominante e faz o oprimido sentir-se culpado pela sua condição desubmissão em relação ao poder onipresente dos homens. Um exemplo característico dessa situaçãoocorre no Iemem, onde as mulheres obedecem aos homens por acreditarem que são obrigadas a tal,isto é, algo pré-destinado e, no caso, se desobedecerem, poderão sofrer severos castigos. Portanto,a ideologia masculinizante ratifica e fortalece a dominação. Anterior ao processo de industrialização e a inserção da mão de obra feminina no mercado detrabalho, a submissão da mulher era definida pioneiramente devido à dependência financeira. Hoje,a mulher tem alcançado níveis louváveis de independência econômica. No entanto, a dominaçãomasculina, baseada na divisão sexual do mundo tem se tornado mais severa, pois os índices de
  • 34. 33opressão e agressão têm atingido números alarmantes em todo o mundo. De acordo com a RedeSaúde12, em muitos países a opressão e a violência contra a mulher, ainda são preocupantes: Nos Estados Unidos, pesquisas indicam que 20% das mulheres sofrem pelo menos um tipo de agressão física infligida pelo parceiro durante a vida. Por ano, entre 3 e 4 milhões de mulheres são agredidas em suas casas por pessoas de sua convivência íntima. Na Índia, 5 mulheres são assassinadas por dia em conseqüência de disputas relacionadas ao dote. Na África, cerca de 6 mil meninas sofrem mutilação genital a cada dia. Na América Latina e Caribe, de 25 a 50% das mulheres são vítimas de violência doméstica. Na maioria dos países do Leste Europeu e da ex-União Soviética, a situação das mulheres piorou desde o colapso do comunismo, com um aumento do desemprego e de abusos contra seus direitos. No Brasil, levantamento realizado pelo Movimento Nacional dos Direitos Humanos indica que, em 1996, 72% do total de assassinatos de mulheres foram cometidos por homens que privavam de sua intimidade. (REDE SAÚDE, 2003). De acordo com Welzer-Lang (2001) a cosmogonia gerada pela divisão hierarquica sexual, semantém e é regulada por violências múltiplas e variadas, a saber: violência simbólica, estupros,violências no trabalho e a violência social ou simbólica, esta por sua vez, reserva a mulher umlugar inferior na sociedade. Essas múltiplas violências preservam os poderes dos homens à custa daopressão sofrida pelas mulheres. Segundo uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo/2001(apudMATTOS 2007): “A cada 15 segundos uma mulher é agredida no Brasil; a cada ano são mais de 2milhões de mulheres vítimas de violência [..]” Esses dados revelam que milhares de mulheressofrem os efeitos devastadores da dominação masculina, elas são violentadas verbalmente,fisicamente e sexualmente. As estruturas sociais que regulam o sistema patriarcalista altamente discriminatório produz ereproduz nos homens e nas mulheres por meio do discurso, o princípio de divisão de todo universo,em que a inferioridade e a exclusão da mulher são ratificados e ampliados. Assim, a divisãobiológica do universo revela a dominação masculina, e esta se traduz mais fortemente por meio domatrimônio. Segundo Bourdieu (2007, p.55), no mercado matrimonial: “[...] as mulheres só podemaí ser vistas como objetos, [...] como símbolos cujo sentido se constitui fora delas e cuja função écontribuir para a perpetuação ou o aumento do capital simbólico em poder dos homens [...]”. Desse modo, ao passo que o casamento se torna concreto, o homem transforma a mulher noseu objeto de posse, que deve satisfazer suas necessidades pessoais e sexuais, na outra parteperdida que lhe pertence. Em virtude desses aspectos, o matrimônio apresenta-se como extensão dadominação masculina, pois é na vida conjugal que as ações e atitudes dominantes são maisfortemente demarcadas e visivelmente aplicadas.12 Página da Mulher - Estatísticas (confira referência).
  • 35. 34 Por conseguinte, o discurso da dominação masculina evidencia as diferenças sociaisexistentes entre homens e mulheres que são construídos culturalmente. Nesse sentido, Almeida(2010) expõe que a definição do ser homem ou ser mulher sofre implicação da divisão social dotrabalho, isto é, quais atividades devem ser desenvolvidas pelo homem para mostrar sua virilidadee quais funções são desenvolvidas pela mulher que enaltece a sua feminilidade. Tal divisão compõeo sistema de organização hierárquica, no qual as categorias sexo e gênero são classificadas comosuperior/inferior, ou seja, a mulher é duplamente dominada, enquanto estrato feminino e enquantoclasse. Após o surgimento do movimento feminista em 1970, as sociedades atuais passaram porinúmeras mudanças, no que se refere às questões de gênero. É por meio desse movimento, que acontestação feminina busca provar que as mulheres não são inferiores aos homens e que podematuar nos mesmos espaços que eles. É a partir do movimento feminista e, também, do movimentogay, que o modelo hegemônico de homem e a dominação masculina são fortemente questionados.A mulher se modificou e o homem também. Este deixou de ser o provedor da família; aquela seemancipou e passou, em muitos casos, a ocupar o papel de chefe de família. Fatalmente, a relaçãoentre gênero está sofrendo profundas transformações. Contudo, alguns representantes de ideologiapatriarcal continuam reagindo a essas mudanças e tentam manter a relação de dominação dohomem sobre a mulher e sobre o homoerótico. Nesse contexto atual, as mulheres ultrapassam as fronteiras do universo privado e inserem-seno universo público, na busca pela igualdade entre os sexos, isto é, a aceitação da diferença semhierarquia. Esse impulso que levou as mulheres a reivindicar seu acesso ao mundo privado doshomens, surgiu com a finalidade de suprir muitos anseios que permeavam as vidas das mulherespor muito tempo, além da necessidade de se tornar ativa na sociedade. Oliveira (1999) apresenta asvárias índoles que as mulheres buscavam: [...] Certamente buscavam a independência econômica, posto que a submissão implícita na dependência dos recursos ganhos pelos homens era evidente. Buscavam também o acesso a outros horizontes, a outras experiências, buscavam convivência fora da família, buscavam poder nas decisões da sociedade. Buscavam, enfim, o direito a fazer e rever as escolhas sexuais, buscavam o direito ao controle sobre seus corpos (p. 98-9). Ainda, segundo Oliveira (1999), o acesso das mulheres ao mercado de trabalho e o nãoreconhecimento das atividades efetuadas por elas no lar, funcionam como fatores decisivos noapagamento da fronteira entre o privado e público, entro o feminino e o masculino, em decorrênciadesses fatores, há também o rompimento da identidade feminina, que se encontra pautada na ideiade que a mulher se realiza tão somente nos saberes e fazeres domésticos.
  • 36. 35 Assim, as mulheres buscaram e buscam continuamente, viver em um mundo, onde asdiferenças sexuais, não ultrapassem os limites biológicos, mas que os critérios de igualdade possamser executados.3- Sexismo, religião e ciência Desde os primórdios até ao dias atuais, a subordinação da mulher ao homem tem sidofigurada sob diferentes formas, variando em níveis de extremo rigor, a exemplo de alguns países doOriente, como é o caso do Afeganistão, que segundo dados do Partido Socialista dos TrabalhadoresUnificado (PSTU, 2003) a opressão das mulheres continua, em todo o país e, em especial nasprovíncias, elas não podem sair de casa, frequentar a escola ou tirar documentos. Na ArábiaSaudita o sistema de opressão é também muito extremo, as mulheres são proibidas de dirigirautomóveis, essa proibição é secundária à religião Islamista, que prevalece no país, pois não existelei específica que determina tal limitação. A subordinação da mulher pode ser observada de formamais sutil e menos explícita, no Brasil, onde as leis determinam a igualdade de direitos, sendo que,as mulheres possuem um certo nível de autonomia e de liberdade, no entanto, ainda permanecemsubordinadas ao sexo oposto. Essas variações dependem da cultura e dos padrões sociaisestabelecidos em cada país. Na complexa busca pela explicação dos mistérios do universo, os seres humanos semprerecorreram a fé e a razão, pois eles acreditam que essas duas instâncias são fontes seguras paraexplicação de todo o Cosmo. A questão da dominação do masculino sobre o feminino, se sustenta também nos princípiosda Religião e da Ciência, pois ambos servem como instrumentos, ou melhor, como aparelhosideológicos que promovem a perpetuação da subordinação da mulher e, consequentemente, apermanência das bases da dominação, a saber: a opressão, o machismo e a discriminação. A igreja é um dos pilares de sustentação no qual se sustenta a relação hierarquizante entre ossexos. As religiões detêm o capital simbólico, a produção de sentidos, além de manipular as açõesdos dominados. Através das representações, da doutrina, dos discursos e das normas estabelecidas,ocorre a sacralização do poder desigual entre homens e mulheres. Dessa maneira, a religiãonaturaliza a dominação e a submissão feminina. Em muitas passagens bíblicas é possível observaresta postura, a exemplo do livro de Efésios:
  • 37. 36 Vós mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja; sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos[...] ( BÍBLIA SAGRADA, 2006, p. 188). A submissão da mulher ao homem é levada para a esfera sagrada, pois a sujeição feminina éequiparada com a obediência e a sujeição que se tem ao Senhor. Nos textos sagrados e nastradições religiosas, a visão androcêntrica encontra-se presente. Para tanto, as concepçõesreligiosas atribuem ao homem, o sagrado, enquanto que o pecado é relacionado ao elementofeminino. No livro de Gênesis, encontra-se a descrição da criação de todo o universo, assim como acriação do homem e da mulher. Viezzer (1989, p. 95) afirma que: “[...] Deus se tornou masculino,macho, e fez um homem parir uma mulher, pela costela, para que os intermediários da RevelaçãoDivina e seus parceiros subordinassem perpetuamente o seu próximo mais próximo, a mulher [...]”.Nota-se que desde antes a valorização do masculino é exaltada, pois Eva (a mulher) é proclamadacomo a outra parte, retirada do primeiro, o homem (Adão), portanto, a mulher é definida como“segundo sexo” 13. De acordo com o primeiro livro de Moíses, a mulher é a parte traidora, desobediente, aquelaque representa o pecado, ou seja, a outra metade que é perigosa. Por ter agido de modopecaminoso, carregará consigo as dores da culpa e de sua fraqueza. E assim Deus lhe disse: “[...]Multiplicarei grandemente a tua dor e a tua conceição; com dor terás filhos; e o teu desejo serápara teu marido, e ele te dominará (grifos meus) [...]” (BÍBLIA SAGRADA, 2009, p. 5).Observa-se que tal discurso está repleto de ideologia, que apresenta a mulher como ser subordinadoao homem que lhe deve obediência. Por ser um livro canônico, portanto atemporal, ultrapassavárias gerações e continua situado na atualidade, é reflexo da organização social e da mentalidadeda sociedade. Embora a Igreja tenha realizado algumas reformas, estas não modificaram a visão patriarcalda sociedade, visto que as questões relacionadas à maternidade, à sexualidade e à moralidadecontinuam limitando os direitos civis das mulheres, estejam estes ligados a aspectos sociais oucorporais. Viezzer (1989, p. 66) aponta que: “[...] No conjunto, a Igreja mantém a indissolubilidadedo matrimônio, natalidade e a condenação do abordo como crime”.13 Definição apresentada por Beauvoir (1980 apud VIEZZER, 1989).
  • 38. 37 Segundo Souza14 (p. 8) a Igreja é uma instituição formadora de sentido, que atua fortementena criação e na perpetuação das identidades de gênero, pois as ideias religiosas influenciam demodo contundente nas relações sociais. Ainda que a Ciência se posicione de forma contrária a religião no que se refere à explicaçãodos fatos, há uma união entre Ciência e Religião, a fim de assumir e prolongar o modelo patriarcalda sociedade, pois ambas se beneficiam com tal regime. É por meio desse modelo que os homensapropriam-se das mulheres como se fosse objetos de sua propriedade, podendo, com isso, usar,vender, comprar seus corpos e até matá-las. Muitos pensadores de épocas remotas já apresentavam explicações extremamentediscriminatórias e que exprimiam severamente a ação dominante. Viezzer expõe alguns exemplosde pensamento que configuram o machismo: [...] o matemático Pitágoras (6º séc.a.C.) forneceu uma explicação cruel: “Há um princípio bom, que criou a ordem, a luz e o homem; e um princípio mau, que criou o caos, as trevas e a mulher”[...] Hipócrates (460-366 a.C.), [...] deixou uma sentença que percorreu todo saber médico até a data recente: “O útero é a causa de todas as doenças”.[...] o filósofo e cientista Aristóteles (384-322 a.C), pontificou: “A relação do macho face à fêmea é naturalmente a do superior para o inferior; o macho é governante, a fêmea, o súdito”(1989, p. 97). Essas revelações mostram a construção de um mundo alicerçado segundo a mentalidademasculina que não respeita a dignidade humana e a igualdade da mulher, e que por sua vez,promove o estabelecimento de uma Ordem Universal que vai de encontro ao princípio da igualdadehumana. O sistema de pensamento criado pela racionalização e pela religiosidade extrema levoumilhares de mulheres para as fogueiras da Inquisição. Essa ideologia masculinizante que apregoouo patriarcalismo vem aprofundando cada vez mais o poder masculino sobre as mulheres.Atualmente milhões de vidas humanas são subordinadas e vivem dentro de um verdadeiro cárcere,no qual seus sonhos, anseios e suas próprias vidas são controladas, definidas e demarcadas poraqueles que dizem ser seus “companheiros”. De acordo com Viezzer (1989), o sistema patriarcal, construído a partir da combinação dosmandamentos de Deus e dos parâmetros das leis naturais criou uma aparente ordem das coisas, naqual não se encontra indícios que revelem respeito à dignidade e à igualdade da mulher. Pelocontrário, a mulher continua sendo tratada como inferior e o mais grave sendo surrada pelos seusmaridos como prova de sua virilidade e de seu sentimento de possessividade.14 Ver referência.
  • 39. 38 Desse modo, conclui-se que a construção e o desenvolvimento da mentalidade masculinaseguiram e seguem os padrões dos setores da vida social, que são reconhecidos e que funcionamcomo esferas mantenedoras do poder social vigente, a saber: a política, a religião, a ciência, omilitarismo entre outros. Essas esferas se depararam com uma força de embate, que se encontravaem plena efervescência no final do século XX - o movimento feminista – que objetiva romper ahegemonia masculina e busca a integração unilateral do mundo que separa homens e mulheres. Vale lembrar que, após a década de 1960, várias ciências, tais como a sociologia, aantropologia, os estudos culturais, foram influenciados pelas teorias feministas e contribuíram (econtinuam a contribuir) para a compreensão das categorias homem/mulher, como construçõessociais e culturais e como categorias relacionais, múltiplas e dinâmicas, ou seja, só podemosconceber a masculinidade em relação à feminilidade e, vice-versa. Além disso, não há uma únicamasculinidade e uma única feminilidade, mas sim um feixe de possibilidades de ser homem emulher. Contudo, algumas dessas possibilidades tornam-se hegemônicas, isto é, dominantes eoutras subalternas. Daí alguns teóricos preferirem falar em masculinidades e feminilidades noplural. Por fim, trata-se de categorias dinâmicas, porque os modelos de masculinidade efeminilidade variam de cultura para cultura e mudam ao longo do tempo. 4- Considerações gerais A visão androcêntrica dominante justificada ao longo dos tempos, baseia-se na diferençabiológica entre os sexos. Essa visão se delimita na determinação física do corpo e nas funções demacho e fêmea. É por meio dessas diferenças que se constroem modelos de relações sociais quepressupõem a subordinação de um sexo ao outro. A construção e perpetuação do processo de dominação do homem sobre a mulher se dão,também, por meio da introdução de elementos ideológicos nas ciências naturais e sociais, quepropagandeiam e aprovam o modelo tecno-patriarcalista vigente. Para tanto, a religião reforça aideia da mulher como um ser disposto a servir, a perdoar, a ser subalterna e complentar-se por meioda união conjugal e da maternidade. E a Ciência prega a inferioridade e a fragilidade da mulhercomo algo naturalmente determinado pelos caracteres biológicos. As formas de organização, isto é, de exploração e dominação criadas, mantidas edisseminadas pela sociedade, reforçam a superioridade e a consequente dominação dos homens
  • 40. 39sobre as mulheres, dos brancos sobre os negros e os índios, e das elites simbólicas sobre a classebaixa. Assim, a subordinação feminina ao masculino e, por conseguinte, as relações diferenciadasentre homens e mulhers se produzem e reproduzem dentro do processo social como um todo.Segundo Viezzer (1989), apesar de todas as mulheres serem igualmente atingidas pelo fenômenoda subordinação, há uma variação deste fenômeno, pois ele se manifesta às mulheres em níveis,formas e dimensões diferentes, segundo a classe social, a etnia e a cultura a qual pertencem.
  • 41. 40 CAPÍTULO III ANÁLISE DO MATERIAL DISCURSIVO Este capítulo apresentará a análise das estratégias discursivas presentes na Pomba Branca,uma revista da Seicho-No-Ie, voltada para as mulheres. Este capítulo desenvolver-se-á a partir da aplicação dos pressupostos teórico-metodológicosda Análise Sociocognitiva do Discurso. Com isso, pretende-se mostrar como os discursos que sãopropagados pela Seicho-No-Ie estão perpassados pela ideologia “machista”. Para tanto, seráanalisado cada aspecto da revista Pomba Branca: capa, fragmentos de artigos, articulação entreimagem e texto etc.1- A revista Seicho-No-Ie O movimento Seicho-No-Ie foi iniciado no Japão por Taniguchi Masaharu. Ele misturouintrospecção psicológica e fenômenos psíquicos, a fim de curar doentes através da auto-sugestão.Em 1922, Masaharu lançou uma revista, a qual denominou Seicho-No-Ie, que significa abrigo,casa, lar do crescimento, da plenitude, da vida, sabedoria, amor, abundância e todos os demais bensem grau infinito. Após a publicação da revista, Masaharu conseguiu atrair um grande número de adeptos parasua doutrina. Aproveitando-se do clima de guerra que imperava no Japão, o mestre, prometia que,com a adesão da revista e da prática dos ensinamentos contidos na mesma, todos os males e medosseriam afastados. Com passar dos anos, a filosofia desse movimento adquiriu caráter religioso e, nadécada de 1940, o governo japonês registrou o movimento como religião. Assim, a Seicho-No-Ie passou a ser uma das cento e trinta novas religiões do Japão. Suadoutrina se resume em três princípios básicos: a matéria não tem existência real, só existe realidadeespiritual; o mal não existe, é pura ilusão da mente humana; o pecado também não existe, é merailusão. Por adotar esses princípios, alguns críticos definem a religião como antibíblica. Essa doutrina chegou ao Brasil em 1930, com os imigrantes japoneses, no entanto, começou atomar maior impulso em 1951, quando as obras começaram a ser publicadas em português.
  • 42. 41 A disseminação dessa religião ocorre por meio de publicações de livros dos mais variadostemas, revistas direcionadas para uma variedade de público, além do jornal Círculo de Harmonia,programas de TV, rádio e website. Dentre todas as publicações da Seicho-No-Ie, as de grandedestaque são: Fonte de Luz, Pomba Branca, Mundo Ideal e Querubim. A revista Fonte de Luz édirecionada ao público masculino, acima dos 35 anos; a Pomba Branca é escrita para mulherescom mais de 35 anos; a revista Mundo Ideal é direcionada ao público jovem e a Querubim, aopúblico infantil. Por ser a Pomba Branca uma revista direcionada para as mulheres, a escolha do nome temgrande influência, desde a aceitação dos leitores, até os ensinamentos e as orientações que a revistase propõe a fazer. A escolha do nome “Pomba Branca” possui grande significação: simboliza apureza, a delicadeza e a paz, uma ave que realmente possui atributos que são reservados ao sexofeminino. A Associação Pomba Branca da Seicho-No-Ie se dedica à iluminação da vida da mulher e dafamília. Para isso, publica mensalmente uma revista, que traz artigos cujo conteúdo trata dos maisvariados aspectos da vida da mulher do ponto de vista espiritual, o que proporciona às leitoras umatomada de consciência e auto-valorização. A revista é compota por matérias relacionadas ao dia adia feminino, tais como: receitas especiais, orientações para mães nos mais variados assuntos,meditações, e, principalmente, artigos que preparam a mulher para lidar com as exigências domundo atual e do casamento.2- As estratégias do controle discursivo e da dominação masculina2.1 Considerações gerais sobre a revista Pomba Branca A revista Seicho-No-Ie, por meio do seu discurso fervorosamente machista, dissemina adominação masculina. No rol das exposições contidas na revista, verifica-se que o discursoreligioso é visivelmente demarcado pela ideologia masculina. Na análise das estratégias discursivas, que envolvem o texto, o discurso deve ser analisadosegundo o modelo tridimensional (discurso, cognição e sociedade) proposto por van Dijk. Assim,em primeira instância, observam-se os usos linguísticos, seguido da comunicação de crenças, isto
  • 43. 42é, a construção de sentido do discurso em nossa mente, que é a cognição e, por fim, a interação deum dado discurso em uma situação social. Partindo-se desse princípio, a escolha dos aspectos linguísticos e imagéticos encontrados naPomba Branca servem para reforçar o poder de persuasão e de convencimento da ideologiapropalada pela revista. Vale lembrar que a (re)produção da ideologia comumente ocorre de modoimplícito nos discursos, muito embora sempre deixe pistas ao longo de toda a trama textual. Essaspistas são justamente as estratégias enunciativas e discursivas, que nos permitem desvendar o queestá oculto. A capa da revista em questão (anexo 1) apresenta a imagem de uma rosa, que remete à ideiade fragilidade, docilidade e perfume. Tais predicativos são relacionados diretamente ao ideal defeminilidade hegemônica. A metáfora da flor (re)produz o estereótipo da mulher como sexo frágil,dócil, e, portanto, inferior, que necessita da proteção do homem, considerado o sexo forte. Há,inclusive, um ditado popular que diz que não se deve bater em uma mulher nem com uma flor, oque comprova o quanto essa metáfora está arraigada na nossa cognição social. A escolha da rosapara ilustrar a capa configura-se, portanto, como uma importante estratégia discursiva, podendoinfluenciar, sobremaneira, os modelos mentais das leitoras dessa revista. Essa metáfora reforça aideologia machista de que a mulher é frágil, sensível e indefesa e de que ela, por isso mesmo, deveunir-se e dedicar-se ao homem, a fim de alcançar segurança e visibilidade social, pois, para asociedade, a mulher que não casa não passa de um ser incompleto, que não desenvolveu as funçõesque cabem ao seu gênero: ser esposa e mãe. Sendo classificada de modo pejorativo como“solteirona”, “donzela” e “mal-amada”. Por outro lado, a diagramação da revista possui um ethos15 feminino. As cores e asfotografias de diversas espécies de flores funcionam como elementos atrativos para as mulheres,além de fazerem com que elas se sintam mergulhadas num ambiente que propicia a plenitude, a paze a harmonia. Por ser uma revista direcionada, sobretudo, a mulheres casadas, a Pomba Branca tem comoum de seus temas principais a vida conjugal16. É por meio desse tema que o discurso sexista da15 Segundo Carvalho (2010) o conceito de ethos advém da Retórica de Aristóteles como uma imagem de si que olocutor projeta por meio do seu discurso. A noção de ethos se relaciona com a construção da identidade, pois asrepresentações que o locutor e o alocutário criam um do outro, assim como as estratégias utilizadas no processocomunicativo orientam o discurso e sugere certas imagens identitárias.16 Segundo Stuard (1986), a mulher, principalmente a brasileira tradicional, inicia o seu treinamento para ocasamento por volta dos 6 aos 8 anos de idade, quando esta, é inibida de relacionar-se socialmente, mantendo-seenclausurada dentro de casa. E, embora a menina tenha vivenciado amplo relacionamento e evoluídosociogeneticamente, o casamento direciona a mulher para o enclausuramento, impedindo-a de exercer relaçõesdesafiadoras. A autora afirma também, que apesar de as mulheres possuírem a mesma quantidade de neurôniosdos homens, elas são menos inteligentes, isso ocorre porque o cérebro feminino recebe menos estímulos, sendolevado a permanecer inerte e entorpecido, enquanto as mulheres desenvolvem as tarefas domésticas.
  • 44. 43Seicho-No-Ie (re)produz a ideologia hegemônica. Não por acaso, a revista estampa em sua capa aseguinte manchete: O que significa “Amar o marido”. Esse enunciado dá a entender que a revistaapresentará às leitoras um guia de como as mulheres devem comportar-se no casamento paramanter o amor de seus maridos. Essas dicas devem ser seguidas por toda e qualquer mulher quedeseje ser uma esposa ideal e conquistar a felicidade no matrimônio. Nesse sentido, a revistaassume um tom pedagógico em seu discurso e, ao fazê-lo, instaura uma relação de poder entre arevista e suas leitoras: aquela coloca-se no lugar de quem sabe e ensina; estas, no lugar de quemnão sabem e aprende.2.2 Análise crítica do discurso da revista Pomba Branca O artigo intitulado Sobre o relacionamento entre marido e mulher (anexo 2) faz uso dacomparação metafórica ou símile, que segundo Guimarães e Lessa(1988) é uma comparação entredois elementos de universos diferentes. Nesse artigo, há uma comparação entre a mulher e ofuracão, dois elementos de universos distintos: “[...] Como o furacão movimenta-se de acordo coma pressão atmosférica, podemos dizer que sua natureza é dócil como “uma esposa que age deacordo com as palavras do marido” [...]” (SEICHO-NO-IE, 2007, p.7). Essa comparação reforça odiscurso sexista dominante: o furacão “obedece” a pressão atmosférica, assim também, a mulherdeve comportar-se de modo obediente ao marido. Há, no discurso da revista, uma forte tendênciade aprovação e aceitação da ideologia machista, pois pretende, por meio do discurso, perpetuar asubmissão feminina e, consequentemente, justificar a necessidade da obediência total e irrestrita aomarido. A revista transforma o ditado japonês: “Não pensem que pais e dinheiro duram para sempre”em paráfrase: “Não pense que marido e mulher duram para sempre”. Essa paráfrase se traduz comoalerta para os cônjuges, em especial, para a mulher, que deve dedicar-se integralmente ao marido, afim de não perdê-lo. A didática da revista Pomba Branca se realiza através de narrações, que contam histórias devivências reais. Entre um depoimento e outro, a revista expõe aconselhamentos sobre comoalcançar a harmonia e a prosperidade familiar, deixando transparecer que o êxito na vida seconcretiza com a realização conjugal e a procriação: “[...] A filha Miho, formou-se na escolaFeminina Yoshi, da Seicho-No-Ie, Sachiko, também se formou na mesma escola [...] ela é mãe dequatro filhos [...]” (SEICHO-NO-IE, 2007, p.9). Segundo Prado (1979), a sociedade baseada nadivisão biológica dos sexos, criou o mito de que a felicidade da mulher se encontra no casamento
  • 45. 44com o homem amado e no fato de ter os filhos desejados. Desse modo também, é que a Seicho-No-Ie prega: a felicidade, o equilíbrio e a ordem do Cosmo acham-se na harmonia conjugal. Os relatos expostos na Pomba Branca são de mulheres que estão situadas nas esferas maispopulares do Japão, mesmo porque o objetivo da Seicho-No-Ie é atingir o maior número de leitorase adeptos em todo o mundo, assim, os fatos narrados funcionam como um elemento deidentificação entre as mulheres. O trecho, a seguir, mostra como há uma aproximação entre ashistórias narradas e as histórias reais de muitas mulheres: “O marido acabou falecendo [...] A Sra.Tomiko era dona de casa sem outra ocupação, e estava muito preocupada, pensando no que fazerdali para a frente” (SEICHO-NO-IE, 2007, p.10). A partir desse discurso, nota-se que - apesar demuitas mulheres terem ultrapassado a linha divisória entre o espaço público, o mercadoprofissional e o espaço privado, o lar -, tantas outras mulheres ainda encontram-se enclausuradasno ambiente doméstico, desenvolvendo um trabalho obscuro e sem remuneração, reconstruindo eratificando a ideologia da mulher de prendas domésticas. O discurso da dominação masculina insiste em afirmar que os trabalhos domésticos sãoobrigações femininas. E expõe constantemente a ideologia hegemônica da sociedade patriarcal queprega que “é papel da mulher cuidar da casa e dos filhos”. O homem, ao tentar manter o controlesobre a mulher, sempre buscou distanciá-la das funções públicas, reservando a elas os cuidadosdomésticos. A imagem de mulher idealizada pelos homens se resume em qualidades quefavorecem diretamente os anseios e o domínio masculino, a saber: ser recatada, desenvolver suasatividades sem questionar e, principalmente, ser obediente e satisfazer suas necessidades físicas esexuais. Prado (1979) expõe as vantagens do casamento para o homem: Uma esposa é a solução menos cara desde o momento em que o homem tem um emprego fixo e estável [...] Não só a presença da esposa lhes fornece serviços sexuais de melhor qualidade (disponibilidade cotidiana, sem riscos de doenças etc), como ainda a esposa se ocupa de sua alimentação, roupa lavada, em suma, infra-estrutura de sua vida diária (p. 143). É através dos discursos propagados, que o modelo de mulher ideal é construído aos olhos doshomens e da sociedade terminantemente machista e que, por sua vez, deve ser seguido por “todasas mulheres” que desejam ser valorizadas e promovidas pela sociedade com o título de “mulherperfeita”. A Seicho-No-Ie também propaga esse modelo: “[...] Ela é uma moça maravilhosa: meiga,caseira, que gosta de cozinhar e de trabalhos domésticos” (p.11). Segundo a revista são esses osatributos necessários para qualificar uma boa esposa. Atributos estes que favorecem o modelopatriarcal atuante, que separa o mundo em duas instâncias contraditórias entre si:masculino/feminino. O discurso sexista, baseado na divisão sexual do indivíduo, estabelece
  • 46. 45categorias de comportamentos e funções referentes a cada sexo. Embora a mulher tenha superado abarreira divisória do mundo privado e do mundo público, conquistando, cada vez mais, seu espaçono mercado de trabalho, ainda encontra-se aprisionada ao sistema cultural machista, que só resistegraças aos discursos veiculados em todos os âmbitos sociais. Esses discursos difundem a ideia deque a mulher deve, por obrigação, exercer as tarefas do lar e da criação dos filhos. Assim, asmulheres alcançam a independência financeira, no entanto, desempenham a tripla jornada detrabalho, permanecendo subjugadas ao poder dos homens. O segundo artigo (anexo 3) – A possibilidade de ter um companheiro – apresenta algumasquestões que são refletidas principalmente pelas mulheres: “[...] Qual é o ideal de vida conjugal aose casar. Que é que os dois almejam na vida conjugal? Em que partes poderão se ajudar e apoiarmutuamente? [...]” (SEICHO-NO-IE, 2007, p.12). Tanto esse artigo quanto os outros servem para mascarar a dominação de gênero, que insisteem afirmar que as mulheres devem permanecer indiferentes aos assuntos que envolvem a esferaglobal e manter-se ocupadas apenas com os assuntos referentes à vida conjugal e ao ambientefamiliar. Atualmente, muitas mulheres não alcançam o nível operacional de inteligência,permanecendo inaptas para absorver determinados tipos de conhecimento que desenvolvamoperações lógicas. Studart (1986, p.10) afirma que: “[...] sem lutar no mundo, sem atuar no mundo, a mulhervoltou-se sobre si mesma. Enrodilhou-se em seus problemas. Enquanto o homem investigava, elase dedicou à intuição [...]”. Esse processo de introspecção gerou no passado e repercute até hoje nadivisão qualificada das profissões. Aos homens são reservadas profissões que necessitam deraciocínio lógico, que possuem status na sociedade e que desempenham poder. A elas restam asprofissões obscuras, mal remuneradas e complementares as dos homens. O artigo lança a questão problematizadora do texto: “[...] Será que é errado uma mulhercasada amar outro homem que não seja o marido? [...]” (p. 12). A escritora do artigo, JunkoTaniguchi, responde automaticamente seguindo os modelos mentais que foram construídossocialmente por meio de todas as práticas discursivas as quais teve acesso: “[...] ‘Não, isso não estácerto’. Os motivos são vários, mas, em primeiro lugar, é uma traição contra o marido [...]” (p.12).Essa resposta mostra como a hegemonia masculina se constrói através dos discursos, a autoraencontra-se alienada pelo discurso machista, que prega limitações por um lado e barganhas poroutro, ou seja, a mulher deve fidelidade ao marido e, em hipótese nenhuma, deverá traí-lo. Casoocorra, será taxada de “descarada”, “sem vergonha”, e severamente reprimida na sociedade; emcontraponto, o homem que comete adultério recebe o título de “garanhão” e ouvem-se as repetidasfrases: “É normal, é o instinto masculino”. Assim, eles são culturalmente perdoados por suas
  • 47. 46mulheres. É desse modo, que a ideologia machista dissemina a dominação de gênero e trata amulher como objeto de sua posse, além de classificar uma mesma falha de conduta, sob diferentesvisões. Prado (1979, p.73) expõe que: “Para que se constate o adultério como tal basta que a mulherengane o marido uma só vez, ao passo que o marido só é condenável quando sustenta umaconcubina em domicílio conjugal, e é castigado com penas menos severas”. Para o homem, ainfidelidade é vista de modo positivo, porém para a mulher a prática do adultério tem conotaçõesnegativas. Há, neste caso, a hegemonia ideológica. Conforme nos explica van Dijk (2008), aideologia hegemônica apresenta uma tendência para a polarização combinada de auto-apresentaçãopositiva e a outro-apresentação negativa. Essa estratégia só existe graças ao controle discursivo quese encontra nas mãos da elite dominante. O artigo O que significa “Amar o marido” (anexo 4) é o que denota mais fortemente odiscurso sexista, que, por sua vez, revela a dominação. A princípio, no canto superior esquerdo dapágina, há uma figura que, supostamente, mostra o modelo ideal de mulher sonhado pelo homem,aquela que trabalha, cuida da casa e dos filhos. O desenho do coração envolto na fita vermelhademonstra como deve ser serena a união conjugal, baseada no amor e na paixão (simbologia da corvermelha), revela também, que o casamento para a mulher é envolto por sentimentos afetivos quese traduzem em felicidade. Todavia, esse ideal de felicidade sonhado pelas mulheres, torna-seásperas indagações quando se inicia a convivência: “[...] Por que meu marido desrespeita o meudireito de ter uma existência autônoma e quer me obrigar a agir conforme as suas exigências? [...]”(SEICHO-NO-IE, 2007, p. 14). Esse questionamento evidencia a insatisfação sofrida pelasmulheres devido ao modelo dominante vigente. O discurso do mestre Masaharu Taniguchi é taxativo e reprime os comportamentos dedesobediência da mulher para com o marido. Segundo ele, as mulheres que se queixam das atitudesdominantes e limitadoras dos maridos mantêm ideias retrógradas e deveriam, pelo contrário, sentir-se felizes, pois tais atitudes significam amor verdadeiro do marido para com a mulher. Nesse artigo, a polarização ideológica do discurso sexista manifesta-se por meio deestratégias discursivas, a exemplo da escolha lexical. Vejamos o exemplo a seguir: [...] O marido se sente feliz quando a mulher atende com docilidade a seus pedidos e a suas ordens, porque a considera parte de si próprio. Ele não quer que a metade de si perca a coordenação motora; não quer que ela aja de modo desordenado, alheia à sua tentativa de controle (grifos meus) [...] (SEICHO-NO-IE, 2007, p.14).
  • 48. 47 Nesse trecho, podemos constatar que palavras como “pedidos”, “ordens”, “não quer”,“controle”, relacionadas ao comportamento masculino, ajudam a construir uma apresentaçãopositiva do homem. Cabe ao marido, enquanto um ser ativo, ditar ordens e controlar a esposa. Porsua vez, “atende” “docilidade”, “parte”, “metade”, “perca”, “desordenado” são palavras queconstroem uma apresentação negativa da mulher. Cabe a esposa, enquanto um ser passivo,incompleto e dependente, cumprir as ordens do marido e ser controlada por ele. Essa seleção lexical revela a polarização ideológica do discurso sexista. Segundo Platão eFiorin (2002), um texto se constrói em torno de oposições de sentido. Os artigos da Seicho-No-Iesão organizados sobre o sistema de oposições que configuram o sentido: liberdade versussubmissão. As categorias homem/mulher são apresentadas na sociedade como um par antagônico.Dessa maneira, quando se refere ao ser humano, cita-se o homem como a categoria global, e dentrodessa totalidade há uma subcategoria, a mulher. Convergindo com o pensamento de Bourdieu(2007) de que existe uma polarização do Universo, Platão e Fiorin (2002, p. 76) defende que: “Umdos pólos dessa oposição semântica aparece sempre investido de uma apreciação positiva,enquanto o outro é valorizado negativamente [...]”. Nesse contexto, tem-se o gênero masculino,caracterizado pela totalidade, portanto, o que possui valor positivo e o gênero feminino, definidocomo o pólo da parcialidade, subtraído da totalidade, logo o que possui caráter negativo. É a partir da escolha das oposições que a organização textual é constituída, pois a construçãodos diferentes sentidos é encadeada segundo a seleção lexical. Essa “escolha” das palavras éorganizada de acordo com o par de oposições selecionado para nortear o texto. Além da seleção, uma outra estratégia utilizada, no artigo, é o eufemismo, que conformeRigo (2009) consiste no emprego de termos mais agradáveis para suavizar uma expressão, taiscomo: o uso da expressão “fica feliz” em substituição ao verbo “querer”, a escolha do verbo“atende” em vez de “obedece” e o emprego do substantivo “docilidade” substituindo “obediência”.A utilização dessa estratégia retórica atenua a forma eloquente e o poder autoritário do homem,uma vez que o verbo “atender” reflete uma opção, enquanto que “obedecer” remete uma obrigação,do mesmo modo o emprego do termo docilidade significa - disponibilidade para aceitar - emoposição, obediência tem significado negativo que intensifica a submissão. Observa-se, também, o emprego da metonímia (a parte pelo todo) para criar a imagem daidentidade feminina como subordinada à identidade masculina. O homem é o todo e a mulher éuma parte dele. Essa ideia encontra eco no mito bíblico que conta como Deus criou Eva, a primeiramulher, a partir da costela de Adão, o primeiro homem. Há, ainda, o uso da litotes, cuja definição é apresentada por Rigo (2009): “consiste numafrase suavizada ou negativa para expressar uma afirmação. É o oposto da hipérbole [...]”. No caso
  • 49. 48do artigo em tela, ocorre uma suavização da ideia de dominação. Para não dizer que o homem querque a mulher lhe obedeça, diz-se que ele “não quer que sua metade perca sua coordenaçãomotora”. Nota-se, também, nesse trecho, a presença da figura sintática denominada anáfora. Essafigura consiste na repetição da mesma palavra ou construção: “não quer que”. O uso dessaconstrução serve para reafirmar através da negação o desejo afirmativo de dominação do homemsobre a mulher. O discurso constrói a imagem da mulher como segundo sexo, ou seja, como uma identidadesubalterna à identidade masculina que deve atender as ordens do homem. Ora se assim a mulheré tratada, seria ela considerada a outra metade do homem ou objeto de sua posse? Prado (1979,p.45) através de um histórico do papel de esposa pontua cinco imposições para a esposa, quetiveram vigência a partir do século II a.C. na Grécia: a) a mulher deve obediência ao marido; b) está proibida de sair de casa, seja de noite ou de dia, sem autorização do marido; c) está proibida de ter relações com outro homem; d) não deve arruinar a família; e) não pode desonrar seu marido. Com o passar de mais de vinte e dois séculos, poucas alterações ocorreram nessa legislaçãoromana, que ainda continua sendo um admirável modelo de regulamentação da família patriarcal.Essas normas servem para manter os privilégios sociais da classe dominante e perpetuar adominação do homem sobre a mulher. O homem não aceita que a mulher se rebele contra a suatentativa de controle, pois se assim ela o fizer romper-se-á os laços afetivos ou até sofrerá severoscastigos. Tem-se, nesse caso, a intrínseca relação entre poder e dominação. A mulher, inserida nasociedade de cultura masculinizante, é moldada a agir de modo secundário ao pensamentomasculino. Essa ideologia segue o conceito religioso. Na primeira epístola do apóstolo Paulo aTimóteo, aponta-se como deveres das mulheres cristãs as seguintes atitudes: vestirem-se com trajeshonestos, sem adornos; permanecer caladas, pois a mulher é classificada como segundo sexo: “[...]A mulher aprende em silêncio, com toda a sujeição. Não permito, porém, que a mulher ensine, nemuse de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adãodepois Eva [...]” (BÍBLIA SAGRADA, 2006, p.202). Embora a mulher tenha buscadoconstantemente sua autonomia que se encontra perdida desde as primeiras organizações dasociedade, ela ainda encontra barreiras e limitações. Tais obstáculos foram e são sustentados aolongo dos anos por meio do discurso. Como já citado no capítulo anterior, Bourdieu (2007) defende que o casamento funcionacomo um mercado matrimonial, cuja função é contribuir para a perpetuação e/ou aumento do poder
  • 50. 49dos homens. Tal ideia é confirmada cotidiana e continuamente nas uniões conjugais, quetransformam as mulheres em seres submissos, devendo, portanto, satisfazer os anseios do homem.Este, por sua vez, deve dominá-la e reprimi-la de exercer comportamentos ou atitudes que abalemo poderio masculino. Na Bíblia Sagrada (2006), no livro de Colossenses, o conceito de submissão ératificado: “Vós mulheres, estais sujeitas a vossos próprios maridos, como convém no Senhor. Vósmaridos amai a vossas mulheres, e não vos irritei contra elas [...]” (p.195). Verifica-se que aReligião e a Ciência funcionam como sustentáculos do discurso sexista. A mulher sofre com a dominação de modo amplo na sociedade, no entanto, é num contextomais específico – o casamento – que a dominação se revela mais claramente. Segundo a revista emanálise, o casamento é um ato que simboliza a união de um homem e uma mulher, a fim deconstituir juntas uma unidade perfeita e levar uma vida de auxílio mútuo. A revista busca incutirnas mulheres, o modelo da unidade original, de modo estereotipado e dominante, isto é, paraalcançar a unidade perfeita é preciso obedecer ao marido. Desse modo, a Seicho-No-Ie (2007)descreve: “[...] Muitas esposas não compreendem essa verdade e por isso acham que o marido lhesrestringe a liberdade, impondo-lhes exigências [...]” (p.14). Para Masaharu, a união perfeita só éestabelecida quando a esposa se integraliza ao marido e atende as vontades dele. Esse discursomascara como ocorre a dominação na vivência conjugal. No item “Para conseguir a verdadeira felicidade no lar”, o autor do artigo apresenta algumasdicas e avisos de como alcançar a felicidade na vida matrimonial, tornando-a mais interessante eagradável. Observa-se que o aconselhamento é o ato de fala predominante nesse artigo. Osconselhos apresentados estão direcionados ao espaço privado, ou seja, as tarefas desenvolvidaspela mulher no espaço doméstico: [...] Se você é mulher, reflita se tem proporcionado algo bom para seu marido. Por exemplo, até no simples ato de preparar a refeição, você tem demonstrado o amor que sente pelo marido, fazendo o possível para elaborar pratos que agradam o paladar dele? Ou se limita a cozinhar maquinalmente, por achar que é sua tarefa preparar a refeição? [...] (grifos meus) (Idem, p.15). Esses questionamentos reforçam a ideia de que as tarefas domésticas são única eexclusivamente femininas e que devem ser executadas com amor e não de modo mecânico,fazendo pratos que agradem o paladar do marido. A partir dessa assertiva, observa-se que háinformações implícitas no texto, isto é, subentendidos, que segundo Platão e Fiorin (2002, p. 310):“São insinuações, não marcadas linguisticamente, contidas numa frase ou num conjunto de frases[...]”. Assim, subentende-se que os desejos e as vontades da mulher não são considerados. Retoma-se o conceito ideológico da submissão, da inferioridade e da desvalorização do feminino.
  • 51. 50 Prado (1979) afirma que as mulheres são levadas a absorver a personalidade de seus maridos,visto que, ao assumirem um contrato matrimonial, passam a dispor o seu tempo para atender àsnecessidades dos seus maridos: Cabe a esposa coordenar a vida doméstica, de forma que todas as necessidades físicas e sócio-psicológicas do marido recebam atenção necessária. Isso exige fundamentalmente, de sua parte, uma disponibilidade intelectual, afetiva e material. Desde que a mulher se casa, põe-se à disposição do marido [...] (p.218). O discurso da elite dominante estabelece que a mulher deva estar inteiramente disponívelpara o marido e os filhos, independentemente do estado emocional ou da exaustão física. Mesmoque esta tenha escolhido trabalhar fora de casa, ainda assim, executará as tarefas domésticas.Viezzer (1989) esclarece que as mulheres encontram-se mais casadas com a casa do que com ohomem, que ela cogitou que seria seu companheiro e a ajudaria a solucionar os seus problemas. Noentanto, a mulher é considerada dona de casa, quando solteira e mais ainda ao casar-se. Estaclassificação se dá como se fosse algo natural. Todavia a ocupação de dona de casa não é natural,porém histórica. O que se considera como função naturalmente feminina é apenas a maternidade,todas as outras, foram definidas culturalmente. A sociedade exige que a mulher desenvolva as funções que são inerentes ao seu sexo,segundo as concepções masculinas: companheira, amante, mãe e dona de casa, no entanto, odiscurso propagado por esta sociedade preconceituosa esquece que, antes de tudo, a mulher é umindivíduo que possui os mesmos direitos e deveres do homem. Prado (1979) defende que: “[...] Amulher casada será julgada, valorizada ou criticada pela sociedade ou por seus filhos adultos, comoMÃE e ESPOSA. Não como indivíduo. O homem casado será julgado em função da contribuiçãoque faz à sua comunidade, à humanidade em geral [...]” (p.283). Vale salientar que, no caso da revista Pomba Branca, a elite simbólica, que é composta pelosarticulistas e pelas autoridades religiosas (quase todos do sexo masculino), controlaprioritariamente o que pode e como pode ser dito, ou seja, controla o discurso. É graças ao controlesobre o discurso que a elite simbólica consegue influenciar as mentes das mulheres, maisprecisamente influencia suas crenças, valores e ideologias, enfim, influencia seu conhecimento(cognição social) sobre o que é ser mulher e esposa. Tal influência nos modelos mentaisconstruídos pelas leitoras sobre as narrativas que lhe são contadas refletirá diretamente em suasações cotidianas, fazendo-as agirem contra seus próprios interesses em detrimento dos interessesdos seus dominadores (pais, maridos, irmãos, filhos, chefes, etc). É por meio desse controlediscursivo que o poder simbólico do homem se evidencia e dá sustentação a dominação.
  • 52. 513- Considerações gerais Conclui-se que, apesar da revista Seicho-No-Ie ser de cunho religioso, seus dizeres estãocarregados de ideologia machista, uma vez que a revista ratifica e propaga o modelo da sociedadepatriarcal. É sabido que a ideologia esconde-se geralmente nas entrelinhas do texto. Na verdade, aideologia deixa suas marcas na superfície dos discursos. Essas marcas são as estratégias discursivaslançadas pelo autor do texto e evidenciam o controle sobre o que é dito e como é dito. Destarte, os usos das estratégias discursivas, como a escolha lexical, o uso de figuras delinguagens, entre outros aspectos semióticos servem para atenuar ou até mesmo camuflar aideologia que se pretende disseminar. Diante disso, conclui-se que a dominação masculina sesustenta no discurso e pelo discurso.
  • 53. 52 CONSIDERAÇÕES FINAIS A dominação masculina é exercida por meio da violência simbólica e do discurso sexista,que discrimina as mulheres e todas as outras identidades que derivam da identidade feminina. Os estereótipos de gênero, utilizados nas práticas discursivas, passam a produzir sentidos nomeio social. Desse modo, o discurso sexista apropria-se desses pré-conceitos e através dosprincípios da divisão sexual apresenta, de forma explícita, a polaridade de valores culturais ehistóricos, baseando-se nas diferenças anatômicas ou nas propriedades comportamentais de cadagênero. Diante disso, as representações positivas são sempre atribuídas aos homens e as negativasàs mulheres. A dominação masculina transforma as diferenças sexuais em desigualdades sociais, além degerar diversas expressões de violência, a saber: a violência física contra as mulheres, consideradaum fenômeno universal que atinge todas as classes sociais, culturais, étnicas, raciais e religiosas; aintolerância e a violência contra os homossexuias; o abuso de poder da elite simbólica que écaracterizado pela violação dos direitos humanos, como a discriminação ocupacional, adiferenciação salarial, a falta de assistência integral à saúde; o assédio sexual; a não equidade dapresença feminina nos cargos de direção e a mais sutil, porém não menos agressiva, a violênciasimbólica, que mantém e perpetua as desigualdades sociais e individuais entre os gêneros. Os discursos propagados socialmente servem de sustentáculos para a dominação masculina,pois é por meio destes que a ideologia dominante é disseminada na sociedade. Van Dijk (2008)apresenta o modelo tridimensional discursivo: discurso, cognição e sociedade, como sendo a tríadepercussora para a construção e disseminação dos sentidos e/ou significados dos discursos. Destarte,todo o processo de construção do discurso sexista e, consequentemente, a implantação e odesenvolvimento da dominação masculina perpassam pelas representações cognitivas pessoais(modelos mentais) e sociais (cognição social) dos envolvidos no processo comunicativo. Essasrepresentações, por sua vez, influenciam diretamente no modo de pensar e agir das mulheres. O discurso da Seicho-No-Ie é articulado segundo os padrões sociais vigentes, queestabelecem a dominação do masculino sobre o feminino. O discurso da revista se caracterizacomo abuso de poder, pois a autonomia e a liberdade da mulher são reprimidas. A revista buscamoldar um modelo ideal de mulher, que deve subserviência ao homem. Por meio disso, procuraincutir, nas leitoras, modelos mentais e comportamentais ditos “corretos e valorizados” pelasociedade e que funcionam como aspectos cruciais para um casamento próspero e feliz. Sugere,portanto, ações e/ou atitudes que a mulher deve exercer para alcançar a harmonia conjugal. É
  • 54. 53importante lembrar que tais atitudes e ações são guiadas pelos interesses dos homens emdetrimento dos interesses das mulheres. Desse modo, muitas mulheres são facilmente levadas aagirem de acordo com a ideologia machista, posto que elas foram educadas pela família e pelasociedade para ser a responsável pela edificação e felicidade matrimonial. Com efeito, a dominação masculina é uma construção social, cultural e histórica. Adominação possui como pilares de sustentação os aparelhos sociais: o Estado, a Ciência e aReligião. Logo, as desigualdades sociais, econômicas, políticas e a diferenciação rígida de papéissofridas pelas mulheres são construções ideológicas que têm bases nas noções de virilidade,vinculadas ao domínio e à honra masculina. Exceto os fatores históricos e socioculturais, não existem elementos que determinem ainferioridade da mulher ou a superioridade do homem, o que existe são construções ideológicasque se sustentam no discurso, pois homens e mulheres são seres humanos iguais, em dignidade eem direitos. E o que as mulheres buscam é tão somente a igualdade, já definida universalmente,porém não aplicada. Portanto, o discurso constrói e reconstrói sentidos. E a ancoragem das construçõesideológicas, são as estratégias discursivas como a escolha lexical, o uso de figuras de linguagem, asimagens, as cores, os atos de fala, os submetidos entre outros, que funcionam como elementosatenuantes das ideologias presentes nos discursos. É importante salientar que, há outros aspectosque poderiam ser destacados, a exemplo da questão do controle, da manipulação e da(des)legitimação. Essas questões, no entanto, podem ser contempladas em pesquisas futuras.
  • 55. 54REFERÊNCIASALMEIDA, Anailde. A construção social do ser homem e ser mulher. Salvador: EDUNEB,2010.ALVES, José Eustáquio Diniz. O discurso da dominação masculina. Google. Disponível em:<http://www.abep.nepo.unicamp.br/iussp2001cd/GT_pop_Gen_Alves_Text.pdf.> Acesso em 10dez. 2010.ASTURIAS, Laura E. Contruccion de la masculinidad y relaciones de genero. Cidade deGuatemala, 1997. Google.Disponível em: <http://www.artnet.com.br/~marko/artasturias.htm.> Acesso em 10 dez. 2010.AZEVEDO, Karina Falcone de. (Des) legitimação: ações discursivo-cognitivas para o processo decategorização social. 2008. 671 f. Tese (Doutorado em Lingüística) – Programa de Pós-graduaçãoem Letras, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2008. Google. Disponível em: <http://www.ufpe.br/pgletras/2008/teses/tese-karina-falcone.pdf.> Acesso em 02 dez. 2010.BARESTED, Leila Linhares. Gênero e desigualdades. Google. Disponível em:<http://www.copia.org.br/doc/generoedesigualdades.pdf.> Acesso em 10 dez. 2010.BÍBLIA SAGRADA: Edição de Promessas. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo:King’s Cross Publicações, 2009.BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 5.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.CAMPOS, Carla Leila Oliveira. Estratégias de Referenciação no discurso midiático - práticasideológicas de inclusão e exclusão de dizeres no discurso sobre a guerra. [on-line]. São João del-Rei. 2010. Google. Disponível em:<http://www3.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/1001/02.htm>. Acesso em 04 dez. 2010CARVALHO, Fabiana Castro. Interdiscurso, cenas de enunciação e ethos discursivo em cançõesde Ataulfo Alves. 2010.121f. Dissertação (Mestrado em Linguística) Universidade Federal doEspírito Santo, Espírito Santo, 2010. Google.Disponível em: <http://www.linguitica.ufes.br/files/Interdiscurso,cenas de enunciaçao e ethosdiscursivo em canções de Ataulfo Alves.pdf.> Acesso em 27 ago. 2010.CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL: 1988. 25.ed. Brasília:Câmara dos Deputados, Coordenação de Publicações, 2007.
  • 56. 55DIJK, Teun A. van. Cognição, discurso e interação. 6.ed. São Paulo: Contexto, 2004.------. Discurso e poder. Judith Hoffnagel e Karina Falcone (Org.). São Paulo: Contexto, 2008.DIMENSTEIN, Gilberto. Situação das mulheres no Brasil ainda é precária. (2008). Google.Disponível em:<http://www1.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/imprescindivel/dia/gd231002.htm> . Acesso em12 jul. 2011.GUIMARÃES, Hélio de Seixas; LESSA, Ana Cecília. Figuras de linguagem: teoria e prática.4.ed. São Paulo: Atual, 1988.IÑGUEZ, Lupiciano. Manual de análise do discurso em ciências sociais. 2.ed. Petrópolis, RJ:Vozes, 2004.MATTOS, Vera. Números sobre a violência contra as mulheres. Google. Disponível em:<http://psicanalistaveramattos.blogspot.com/2007/12/nmeros-sobre-violncia-contra-as.html>.Acesso em 12 jul. 2011.OLIVEIRA, Rosiska Darcy de. Elogio da diferença: o feminino emergente. São Paulo:Brasiliense, 1999.PLATÃO, Francisco Savioli; FIORIN, José Luiz. Lições de texto: leitura e redação. 4.ed. SãoPaulo: Ática, 2002.PRADO, Danda. Ser esposa: a mais antiga profissão. São Paulo: Brasiliense, 1979.PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado). Situação da mulher trabalhadora pelomundo e no Brasil. Edição nº 146 (de 13 de março a 23 de março). Google. Disponível em: <http://www.pstu.org.br/jornal_materia.asp?id=766&ida=0>. Acesso em 12 jul. 2011.REVISTA SEICHO-NO-IE: Pomba branca. n. 259, ano XXI, São Paulo, fev. 2007.RIGO, Nilza A. Hoehne. Classificação das figuras de linguagem. Google. Disponível em:<http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria.> Acesso em 11 ago. 2011.
  • 57. 56SOUZA, Adriana. A dominação masculina: apontamentos a partir de Pierre Bourdieu.Google. Disponível em: <http:// www.metodista.br/ppc/netmal-in-revista/netmal01/a-dominacao-masculina-apontamentos-a-partir-de-pierre-bourdieu >. Acesso em 25 jul. 2011.STUDART, Heloneida. Mulher, objeto de cama e mesa. 16. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1986.VIANA, Nildo. A origem da dominação. Google. Disponível em:<http://www.advivo.com.br/blog/paulo-kautscher/a-origem-da-dominacao.>. Acesso em 21 mar.2011.VIEZZER, Moema. O problema não está na mulher. São Paulo: Cortez, 1989.WELZER-LANG, Daniel. A construção do masculino: a dominação das mulheres e homofobia.Google. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ref/v9n2/8635.pdf.> Acesso em 15 Jan.2011.AINDA É LONGO O CAMINHO ATÉ A IGUALDADE DE GÊNERO. Google. Página damulher-Estatísticas. Disponível em: <http://www.feebpr.org.br/Mulher/Estatisticas.htm>. Acessoem 12 jul. 2011.A REVISTA SEICHO-NO-IE. Google. Disponível em:http://www.cacp.org.br/orientais/artigo.aspx?Ing=PTBR&article=378&cont=menu=9&submenu=1. Acesso em 12 jul.2011.
  • 58. 57ANEXOS 1
  • 59. 58ANEXOS
  • 60. 59
  • 61. 60
  • 62. 61
  • 63. 62
  • 64. 63ANEXO 3
  • 65. 64
  • 66. 65ANEXO 4
  • 67. 66
  • 68. 67

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