A lavagem de são roque em riachão do jacuípe um espaço de integração entre a população pobre e as prostituas nas décadas de 1930 1950

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  • 1. 2Introdução: A análise das religiões no Brasil compõe-se em objeto de curiosidade de diversasáreas de estudos acadêmico, como Historia Filosofia, Sociologia, Antropologia, entre outras,abordando as mais variadas vertentes, porém todas estas, acredita-se que as vivênciasreligiosas de qualquer tempo enquanto fenômeno religioso não se esgota em si, mas ampliaperspectivas e possibilidades cada vez maiores e mais amplas. Neste contexto a atenção destetrabalho será voltado para a instituição católica, especialmente á Festa dedicado ao GloriosoSão Roque, praticada em Riachão do Jacuipe – BA. Cidade por ter sua localização ás margensdo Rio Jacuipe, no semi-árido baiano com uma distância aproximadamente da capital baianade 183Km. No qual, seu território esta incluído na zona do “Polígono da Seca”. Para a realização desse trabalho abordarei os festejos de São Roque em Riachão doJacuipe nas décadas de 1930-1950.O visual parece ter estado sempre associado a vivencia e ateatralidade de relação com os orixás que no candomblé, o santo homenageado tem funçãohomologa. E possível acompanhar essa prática cultural de herança africana através defotografias e vídeos, práticas essas excluídas pala Igreja Católica. Após essas considerações faz-se necessário demonstrar algumas possibilidades deabordagem e, em seguida, apontar algumas inquietações temáticas. Porém algumas discussõesteóricas, atenta-se, neste momento para a participação do fenômeno religioso na realização daLavagem das Prostitutas em louvor a São Roque em Riachão do Jacuipe- Ba. Dessa forma buscando uma história local numa perspectiva da História Cultural,pretendo analisar os motivos que levou a igreja católica de Riachão do Jacuipe a não aceitarnum ato discriminatório, separar a parte religiosa dos festejos de São Roque, realizado pelaIgreja Católica local, da parte profana, realizada pelas prostitutas.O trabalho apresenta-se dividido em três subtópicos: O primeiro intitulado: Breve histórico sobre a prostituição que busca compreender ofenômeno da prostituição nas décadas de 1930-1950.O segundo intitulado: Resistência e opressão vivida pelas prostitutas trata-se do processo desegregação, exclusão e preconceito sofrida pelas prostitutas e luta pelas mesmas para resistir eainda lutar contra a dominação da sociedade autoritária e se fazerem presentes na sociedademesmo que por pouco tempo.
  • 2. 3Já o terceiro subtópico: O contexto da festa após Abdias objetiva conhecer as mudanças apósa morte de Abdias CarneiroE por fim as considerações finais remetem a sistematização do que foi identificado na pesquisa numprocesso em que o lado religioso da festa de São Roque foi separado da parte profana. A Lavagem deSão Roque. Identificando conflitos sociais, mas também, como afirmam os seus participantes, umespaço de alianças, alegrias e a diversão era, sobretudo, uma forma de expressão, de auto-afirmação naquela estrutura social.
  • 3. 4A LAVAGEM DE SÃO ROQUE EM RIACHÃO DO JACUÍPE: UM ESPAÇODE INTEGRACAO ENTRE A POPULACAO POBRE AS PROSTITUTASNAS DÉCADAS DE 1930-1950Breve histórico sobre a prostituição Historicamente, há registros da existência de prostitutas desde a Antigüidade. NaGrécia Antiga a classe das hetairas, eram as prostitutas mais sofisticadas, que além de suasprestações sexuais ofereciam companhia e com as quais os clientes frequentemente tinhamrelacionamentos prolongados. No entanto, em fins do século XV a prostituição passa a serproibida em quase toda a Europa, por conta da enorme difusão da sífilis no mesmo momentoem que ocorriam as crises da Reforma e da Contra-Reforma, quando a intolerância erajustificada com o discurso que defendia o equilíbrio entre aquilo que era mais santo e maispuro. No Brasil o fenômeno da prostituição existe desde o período colonial e transformou-seem objeto de estudo a partir da segunda metade do século XX. Alguns autores1 afirmam queas prostitutas do Brasil Colônia contribuíram para a construção e valorização do seu oposto:ou seja, as mulheres puras, identificadas com a Virgem Maria e longe da sexualidadeexcessiva. Nessa realidade, as mulheres que exerciam a prostituição eram vistas comopacificadoras da violência sexual, salvaguarda do casamento moderno e, ao mesmo tempo,taxadas de meretrizes. Para compreender o significado da prostituição neste período, é necessário lembrar-seda realidade social: a pobreza, que fazia do meretrício um ofício ou uma forma de trabalholigada à sobrevivência. A prostituta, carregada de preconceitos como herdamos hoje no Brasil,nasce do conflito entre as duas diferentes idéias e realidades de prostituição existentes: asprostitutas de bordel caracterizadas como bem instruídas, sofisticadas, educadas, etc. comaparente permissão para transgredir e as prostitutas de bordéis populares, predominantementepobres, mulatas ou negras, e que se sujeitavam á prostituição por razões de sobrevivência.1 Podemos citar entre os autores em questão: SOIHET, Rachel. Mulheres pobres e violência no Brasil urbano. In:PRIORE, Mary Del (org). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 1997, p.362. FRANCO,Setastião Pimentel. O gênero feminino na história brasileira: da exclusão e busca da participação. FCAADisponível em:<www.fcaa.com.br/sitenovo/.../lernoticia.asp?...> Acesso em: 14 Jul. 2009BROTTO, Renata Batista. Médicos e padres: maternidade e representações dos papéis sociais da mulher (1860-1870). Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2009. Disponível em:www.fiocruz.br/ppghcs/media/dissertacaorenatabrotto. Acesso em: 14 Jul. 2010. DEL Priore, Mary Lucy. Ao suldo corpo: condição feminina, maternidades e mentalidades no Brasil colônia. Rio de Janeiro; José Olympio,1993
  • 4. 5 Nesse contexto Sueann Caulfield vem falar da hierarquia social das prostitutas, ouseja, no final da década de 1920 no Rio de Janeiro as prostitutas de classe baixa ficavamseparadas isoladas em áreas que os próprios policiais reservavam, pois, o objetivo dosmesmos pressionados pela sociedade era mantê-las longe dos centros comerciais, e da linhados bondes distante dos “cidadãos respeitáveis”. A sociedade cobrava dos policiais por meiode campanhas sensacionalista da empresa e pelas autoridades médicas e jurídicas temendo oaumento da criminalidade e desordem social no Rio de Janeiro.2 Nesse sentido ficava a cargoda policia a retirada das prostitutas do centro, isolando-as em bairros periféricos ondelocalizava os chamados baixo meretrício, evidenciando o preconceito de raça, etnia e classepor parte da elite. Observando assim, um número relevante de prostitutas pobres e negras3. A respeito disso Waldir de Abreu, afirma que: Já no século XVII, em Recife, era ostensiva a prostituição, sob a dominação holandesa, quer em numerosos sobrados e bordeis, quer em prostíbulos do porto. Variava a categoria desde as negras, mulatas e brancas nacionais até as louras e 4 ruivas holandesas. Uma delas chegou a ser denunciada ao Santo Ofício” . Para Gilberto Freire: A cidade de Recife talvez deva ser considerada a primeira de uma série de pequenas Sodomas e Gomorras, que floresceram á margem do sistema patriarcal brasileiro. Foram muitos os sobrados que, ainda novos tiveram lá, como em cidades mineiras, em Salvador, e no Rio de Janeiro, seu patriarcal desvio, seu sentido familiar pervertido, sua condição cristã manchada por extremos de libertinagem.5 Segundo Guido Fonseca em seu livro História da prostituição em São Paulo6, JoséArouche de Toledo Rondon fala, em 1788, sobre a visão deprimente que se tinha nas ruas dacidade: meninas pedindo esmola e outras, se prostituindo sendo que a maioria delas tinhaidade inferior a 12 anos. Relata ainda que em 1825, crianças rejeitadas ou filhas de militaresenviados ao extremo sul do país da Pátria que não haviam retornado ou voltavam inválidosperambulavam pelas cidades e acabavam sendo recolhidas por famílias miseráveis que logo asatiravam à prostituição, visando o lucro, como na Grécia Antiga. No século XX, havia2 CAULFIELD, Sueann. O nascimento do mangue: raça, nação, e o controle da prostituição no Rio de Janeiro,1850-1942. Rio de Janeiro: Tempo, 1996 nº 9.p.44. Disponível em: www.historia.uff.br/tempo/site/?cat=37.Acesso em: 20 de Jul. 2009.3 CAULFIELD, Sueann. Op. cit. p. 44.4 ABREU, Waldyr de. O submundo da prostituição, vadiagem e jogo do bicho: aspectos sociais, jurídicos epsicológicos. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1968. p. 42.5 Idem, ibidem, loc. cit. p. 42.6 ANDRADE, Ivanise. Prostituição e exploração: comercialização de sexo jovem. Disponível em:www.caminhos.ufms.br/.../impressao.htm?artigo=45. Acesso em 20 de Jun 2010.
  • 5. 6prostíbulos onde as exploradoras reservavam crianças do sexo feminino, filhas de prostitutasescravas, substituindo as mais velhas ou as que tivessem falecido.7 Através das palavras de Guido Fonseca é possível perceber que o fenômeno daprostituição além de um processo crescente, era uma forma de sobrevivência diante dasituação financeira das famílias, complementando a renda familiar ou até sendo a única fontede renda, ou seja, a questão social em que a maioria das famílias vivia com a pobreza emiséria determinava o aumento da mesma tanto infanto-juvenil, quanto adulta. De acordo com Cremoso, para Evaristo de Moraes, um dos maiores criminólogosbrasileiros, na virada do século XIX ao XX a prostituição era um "mal necessário" para apreservação da moral no lar, não podendo ser considerada crime. Entretanto, ela foicriminalizada como "ato imoral" que ameaçava a vida social. Paralelamente a isso, existiuuma repressão médica, que perpassava a profilaxia da sífilis, e uma repressão moral contra os"escândalos" promovidos pelas meretrizes. Implantou-se, portanto, uma penalização quanto à"conduta anti-social (anti-higiênica ou desmoralizante)" das meretrizes que ofendessem asociedade e o Estado. A Medicina foi um instrumento como forma de penalizá-la, pois apolícia devia capturar as prostitutas para exames médicos. Tratava-se, então, de um controleda sexualidade vista como criminosa pelo discurso da Criminologia: declarava-se sernecessário uma Polícia Sanitária para criminalizar a prostituição8. Fosse a prostituição, no discurso da Criminologia, um fenômeno fisiológico, orgânicoou patológico, ela era vista por moralistas, sociólogos e criminólogos como resultado do meiosocial, tendo como principal causa a miséria. O meretrício seria inevitável, pois uma partesignificativa de mulheres somente obteria a sua sobrevivência pela prostituição. Com relaçãoaos homens, o meretrício seria a única forma de obter satisfação sexual. Segundo diversosautores, a prostituição era uma necessidade social como “a ante-moral do lar doméstico [...]”,visto que “não se conhece meio algum eficaz de impedir, coercitivamente, a existência dessainstituição”. Candido Motta, que, além de ter sido um dos principais criminólogos da época, seguiucarreira nos cargos públicos, desde Chefe de Polícia até Secretário da Justiça e SegurançaPública do Estado de São Paulo, escrevendo em 1897, afirmava que a prostituição eraconsiderada um "fenômeno social fatal e necessário", como o crime, uma resultante de fatoresantropológicos, físicos e sociais. "A sua necessidade explica-se pelo derivativo que oferece às7 Idem, ibidem. Loc. cit.8 CREMOSO Karine. P. Estudo teórico sobre a prostituição e as casas de prostituição p.1. Disponível em:<intertemas.unitoledo.br/revista/index.php/ETIC/article/viewFile/.../1119> . Acesso em: 08 jun. 2010.
  • 6. 7excitações genéricas muito intensas, que sem ela não respeitariam, talvez, nem a infância,nem o lar doméstico". Daí, a necessidade de opor barreiras ao vício que, sem elas, se alastrarianum crescendo9. A sexualidade no lar tinha seus limites, devendo ser respeitada a "natureza" e contidosos excessos. A relação sexual ali era mantida dentro dos padrões tradicionais, extirpando-sedesvios, mantendo-se a reprodução e a sexualidade sadia. O submundo da sexualidade deviaser exercido fora do lar, com o sadio e o desvio podendo existir, mas de formas separadas:eles não caberiam no mesmo teto, nem na mesma rua. A perversão só era possível, portanto,no mundo da prostituição, cabendo dentro do lar o respeito. Para alguns criminólogos, apesar da preponderância das causas sociais na explicaçãodo meretrício, existiam casos patológicos, mulheres que se entregavam "à prostituição pelas 10exigências mórbidas do seu organismo” . Lombroso afirmou a existência da prostituição(feminina) nata, do mesmo jeito que existia a criminalidade (masculina) nata, ambas marcadaspela hereditariedade11. De acordo com esses mesmos pensadores, "a prostituição com as características da quehoje conhecemos resultou do desenvolvimento urbano"12. O período de 1870 a 1920 foiexatamente aquele em que tanto a cidade de São Paulo, como outros núcleos do mesmoestado (principalmente Campinas e Santos) estavam se formando. São Paulo se transformavanum centro industrial e de serviços, Campinas era o principal centro cafeeiro e Santos ogrande porto do estado, por onde passava toda a exportação e importação de mercadorias e,principalmente, imigrantes13. A urbanização também foi um dos fatores que contribuíram para o surgimento daprostituição em Riachão do Jacuípe, ou seja, por volta dos anos 50 à cidade acentua o seudesenvolvimento. É nesse período que chegam à luz elétrica, as indústrias e as rodovias. Foientão que vieram pessoas, principalmente do sexo masculino de vários lugares para trabalharna construção da BR 324 e foi aí que se deu a procura de mulheres para satisfazer o desejo9 MAZZIEIRO, João Batista. Sexualidade Criminalizada: Prostituição, Lenocínio e Outros Delitos - São Paulo1870/1920. São Paulo: Revista brasileira de História. vol. 18 n. 35, 1998. Disponível em:www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102...script. Acesso em: 20 Jul. 200910 PRIMEIRO CONGRESSO BRASILEIRODE PROTEÇÃO Á INFÂNCIA, Rio de Janeiro. Anais. Rio deJaneiro: MORAES, Evaristo de. "Prostituição e Infância", 1925. 10 p.11 ABREU, Waldir de, Op. cit., p. 19.12 MORAES, Evaristo de. Op. cit., p. 10.13 Sobre a cidade e são Paulo consultar: FAUSTO, Boris. Crime e Cotidiano. A Criminalidade em São Paulo(1880-1924). São Paulo: Brasiliense, 1983. In CRUZ, Heloísa Faria. Trabalhadores em serviços: dominação eresistência. São Paulo: Marco Zero/CNPq, 1990.
  • 7. 8sexual dos trabalhadores. Sobre esse momento, observa Dedê14 uma das primeiras moradorasdo bairro: Isso tudo era lama. A luz não era, era luz de motor, nem acendia digamos sete horas quando era dez horas ia embora. Ia muitas firmas em Riachão umas quatro a cinco firmas. Naquela época aqui era um movimento doido, era um movimento estrupido era muito movimento, muita mulé, muleres jovens.15 Nesse ambiente urbano as opções de trabalho feminino ainda são limitadas destacandoo comércio informal e, em casos extremos, em que essas opções não estavam disponíveis dá-se a prostituição diante de um cenário de dificuldade e pobreza. Mais tarde, nas décadas de1980 e 1990, a crise do sisal no nordeste baiano, contribuiu também para o empobrecimentoda população e o aumento da prostituição. Veja-se nesse sentido o relato de Dona Idalina,antiga profissional do sexo na região: Naquele tempo eu sofria muito. Naquele tempo eu vendia minhas carnes para comer, né isso, perdendo noite, dando boa vida a dono de abuate. Naquela vida era uma vida precuaria, uma vida de sofrimento, mas a gente vivia tudo na honestidade(...)16 Segundo Moraes, a grande indústria "tende a destruir os elos e freios familiares". Osbaixos salários femininos faziam com que a prostituição fosse "um fenômeno econômico,como sendo o complemento do salário insuficiente, ou a falta absoluta de salário". 95% dasprostitutas, nessa perspectiva, vinham das classes pobres.17 Fica assim evidente a relação ambígua entre a rejeição e a aceitação da prostituição.Por um lado sua figura feria a conduta, a moral e os bons costumes da sociedade, e por outronão deixava de atender as vaidades masculinas que viam nas meretrizes o cumprimento desuas fantasias e desejos já que para a estrutura familiar e social a relação entre o casal era derespeito, ou seja, não cabiam os ímpetos do desejo masculino. Diante da visão comum das pessoas, e do preconceito existente, a imagem daprostituta quanto ao seio familiar é de que a mesma não tem apoio ou afeto da sua família, ouseja, é sozinha na vida. Porém, um olhar mais atento evidencia uma realidade diferente, fatorrelevante surge neste contexto que vai quebrar essa visão na qual as prostitutasfrequentemente eram uma fonte de renda para suas famílias e contribuíam com a economialocal como consumidoras de produtos e serviços. É o que se constata, por exemplo, na fala de14 Uma das primeiras moradoras do bairro da Rua do Fogo15 FERREIRA, L.; BRITTO, Kall. Documentário: Rua do Fogo - Memórias do Baixo Meretrício. In. IIIencontro de cinema Negro Brasil/África Américas. Rio de Janeiro, 2009. Riachão do Jacuípe. 2009. 1 CD16 Idem, ibidem. Depoimento de Dona Idalina, antiga profissional do sexo na região:17 MORAES, Evaristo de. Op. cit., p. 158-160.
  • 8. 9Maria de Lurdes, lavadeira, que afirma ter lavado roupas das prostitutas da Rua do Fogo.Segundo dona Maria de Lurdes ela criou seus filhos com a ajuda das prostitutas que ao voltarde suas viagens ainda traziam presentes para seus filhos. E mesmo diante do preconceito damaioria da sociedade ela se orgulha de ter convivido com as prostitutas. Segundo Maria deLurdes elas eram seres humanos também.18 A despeito dessa inserção as prostitutas eram descriminadas na sociedade jacuipensetendo como único espaço de expressão uma festa religiosa: a festa de São Roque. Para melhorentendimento desse espaço e dos seus conflitos cabe uma breve caracterização da sociedadejacuipense. A cidade de Riachão do Jacuípe situa-se a margem da BR 324 encontra-se a 75km da cidade de Feira de Santana, no semi-árido baiano, distanciando-se a 183 km deSalvador, capital do Estado da Bahia. Riachão do Jacuípe na década de 40 e 50 era uma pequena cidade e continua sendo emrelação à extensão territorial e carrega traços culturais característico de cidade pequena, ouseja, as relações sociais se davam de forma rápida, pelo fato de todos se conhecerem osacontecimentos acabavam chegando a todos os habitantes com certa velocidade. De acordocom a memória local a maior parcela da população professava o Catolicismo, sendo que seobservava em meio à população subalterna como da Rua do Fogo e outros, além da devoção aSão Roque havia também seguidores do Candomblé que louvam São Roque e os OrixásObaluaê ou Omolu. Porém, era notória a proibição de batuques naquela época. A respeito detal comportamento da sociedade Rachel Soihet vem falar dos objetivos e métodos usados porpoliciais para combater as manifestações culturais e para elucidar ela cita como exemplo aFesta da Penha no Rio de Janeiro mo momento da transição para a modernidade: O objetivo da repressão era não só o problema da ordem publica, ameaçadas por roubos e conflitos supostamente sugeridos entre os populares, como também as manifestações culturais destes grupos, tais como a capoeira, o batuque, o samba etc., sendo apreendidos os instrumentos que os acompanhavam: violão, pandeiro e outros. Sobre a vertente de origem negra das manifestações populares recaía com maior ênfase o viés preconceituoso, limitando a repressão19. Em meio a esta opinião preconceituosa da sociedade, ou seja, da elite era nesseperíodo que a base econômica dos jacuipense predominava a agropecuária de bovino, suíno,ouvino e caprino movimentando a economia da região, além da criação de gado que tinhacomo referência a bacia leiteira da região, sem esquecer a agricultura de subsistência, as18 CONCEIÇÃO de Oliveira, Maria de Lurdes. Lavagem de São Roque. Casa da entrevistada: 2008. Riachão doJacuipe. 10 Jul. 2008. Entrevista concedida a M. N. de Lima19 SOIHET, Raquel. Festa da Penha: resistência e interpretação cultural (1890-1920). In CUNHA, M. C. P.(org.), Carnavais e outras f(r)estas, Campinas: Unicamp, 2005. p. 355.
  • 9. 10pessoas se ajudavam e compartilhava de muita abundância na alimentação e colheita. Osnúmeros de fazendas de gado foram aumentando de forma significativa, os fazendeirosmovimentavam a economia local, e também exerciam certa autonomia na cidade. Pensando em autonomia o plano político, indica que se trata de uma regiãotradicionalmente controlada por grandes proprietários rurais e comerciantes. Pode-se afirmarque até meados da década de 80, o quadro político local era marcado por formas tradicionaisde dominação que remontam ao “coronelismo” do início do século passado, observava-se aolado de suas casas de fazenda o tronco que estava ali como símbolo de poder e autoridade dosenhor. Nesse sentido, afirmam Padrão e Pinheiro, o “poder local”, expressão hoje tão emmoda, não era ali uma redução do conteúdo da informação de um conceito; ao contrário,encontrava-se bem fundado em relações personalizadas de mando, que, segundo relatos,intimidavam pessoas ou grupos a não questionarem a dominação a que se encontravamsubmetidos.20 Um elemento comum aos municípios da região era, até recentemente, a fortedeficiência de infra-estruturas e serviços sociais. Às precárias condições de acesso à águapresentes tanto nas comunidades rurais como em bairros urbanos, somavam-se deficiênciasnos serviços de saúde, carência de escolas, professores e material didático, inexistência deinfra-estrutura de esportes e lazer, serviços de comunicação e transporte insuficientes. É nesse contexto que os grupos subalternos principalmente na Rua do Fogo na qual seformava com rua estreita que vai se enlarguecendo, com casinhas bem juntinhas, uma coladana outra que dava acesso a outra rua. Um bairro humilde, constituído de moradores de baixarenda como: magarefes, lavadeiras, pedreiros, as fateiras, os carroceiros e açougueiros. Aafro-descendência é muito marcante. Tem também o Rio Jacuípe, que corta toda a Rua e boaparte da cidade. Segundo a população nesse período quando as enchentes chegavam alagavamtodas as casas das ruas. Na beira do rio, as antigas profissionais do sexo criavam seus filhos,tratavam os fatos de boi, pescavam. A Rua do Fogo gerava a economia da cidade e a prostituição era só uma conseqüência.Lá, tinha fábrica de balas, batedeiras de sal, olarias na beira do rio, tudo na Rua do Fogo ouadjacências. E lá se localizava os baixos meretrícios de inicio se dava os encontros furtivosem locais com estrutura de bodega, como ressaltei anteriormente as ruas não eram asfaltadas enão tinha luz elétrica na cidade, mas era lá que recebiam inúmeras mulheres das regiões20 PADRÃO, Luciano Nunes In PINHEIRO, Maria Lúcia Bellicanta. Um estudo de impacto: oprograma de pequenos projetos da CESE na Região do Sisal. Salvador: CESE, 2004. Disponívelem:< www.cese.org.br/.../Cese%20-%20Estudo%20de%20Impactos%20-%20Relatrio%20Final%20(v_08-10-04).doc> Acesso em: 8 jul. 2009.
  • 10. 11circunvizinhas, depois na década de 60 a prostituição ganha um novo cenário com os avançosurbanos e então começam a surgir as Boates. Uma delas que ganhou destaque foi a BoateRefúgio. Dona Bernadete descreve a Rua do Fogo da seguinte maneira: A Rua do Fogo era o seguinte tinha coisa tinha buate muita coisa que não prestava, mas o povo gostava de fazer muita zonzeira muita coisa aí chamou Rua do Fogo. Que era a rua que tinha mais movimento e que tinha mais transito. Hoje é uma rua de família mais eu alcancei sendo rua que só passava mesmo quem fosse da mangueira, quem fosse do brinquedo, quem não fosse não passava. O dia de Sábado mesmo, família quase nenhuma passava porque não prestava não dava pra passar. (...) movimento brega, cabaré tinha uns quatro a cinco, tinha bem uns oito, todo lugar que vendia cachaça tinha dança, cada lugar que tinha dança 21 tinha mulher e tinha movimento. Naquela época, a vida noturna era somente na Rua do Fogo. Doutores, filhos da elitede Riachão que estudavam em Salvador, iam para Riachão no fim de semana buscar diversãona Rua do Fogo. O Centro, a rua de cima, era da elite. E lá, tinha horário para dormir, acordar,e não podia ter barulho, por isso as mulheres do baixo meretrício eram impedidas de subir. Naépoca, tinha um sargento que ficava na vigília para barrar a subida das prostitutas. Um amigode confiança das mesmas, uma espécie de cafetão, era quem combinava os encontros, eraquem comprava remédio em farmácia, levava e pegava carta em correio, porque elas eramproibidas de ir até a rua de cima. Só as mais ousadas como Cheirinho, segundo seu própriodepoimento, é que enfrentava e subia. Há seu Dilo inspetor se um, a mulher subisse na rua de chorte com as pernas de fora ele cobria o reio, agora comigo não que eu era ousada, eu ia mesmo. Vestia o mais curta que eu tinha e ia não é não ninguém abriu o caminho já achou aberto, se tivesse em um bar e uma mulher solteira chegasse todo mundo saia não queria aceitar22 Pessoas da alta sociedade que o dia estava com sua família e a partir das dez horas iam saciar seus desejos e fantasias, o que cabe então uma reflexão porque recriminar as trabalhadoras do sexo já que a alta sociedade participava ativamente ou porque não dizer eram eles os responsáveis pela manutenção das casas. O que nos leva a pensar que a aparência era o elemento fundamental dessa ordem social. Quem vem elucidar isso é a ex- prostituta Cherinho: “Os homens da sociedade era quem vinham naquele tempo, mas antigamente era”.21 FERREIRA, L.; BRITTO, Kall. Documentário. Rua do Fogo - Memórias do Baixo Meretrício,22 Idem, ibidem. Depoimento de Cherinho, uma ex profissional do sexo.
  • 11. 12 Segundo o depoimento de Armando Colombina afirma também que naquele período as mulheres vinham de vários lugares sendo a descontração dos estudantes jacuipense: Juazeiro, Bom Fim, Petrolina, todo essa região vinha muler. Todos os estudantes daquela época filho de Riachão que estudava em Salvador, o fim de semana ia curtir lá em casa porque aqui tinha muitas muleres bonitas, nova e eles 23 fraquentavam e eram bem recebidos. Segundo o depoimento de Edílson um cafetã, os freqüentadores dos meretrícios eram: Duca, era seu Lauro Coletor, meu tio que é Reginaldo, Naginho é médico analista mora em Ipirá, Mundinho de Zé de Cândido que era Ortopedista esse povo tudo freqüentava, Vaginho,Plínio esses homens tudo vinha era de dentro. 24 É nesse espaço que fica evidente a distribuição dos grupos subalternos, e a poucaaceitação formal desses indivíduos em conviver com a sociedade, grupos que sãomarginalizados e excluídos do contexto social jacuipense. Figura 1 Imagem da Lavagem de São Roque. Riachão do Jacuípe. Ano 2009 Na cidade de Riachão do Jacuípe das décadas de 30 e 50 o espaço encontrado pelasprostitutas para estar inseridas na sociedade foi a Lavagem de São Roque. Cabe aqui, porémuma breve caracterização histórica deste festejo.23 FERREIRA, L.; BRITTO, Kall. Depoimento de COLOMBINA, Armando um cafetã24 PEREIRA, Edílson. Nasceu em 28.02.1951, em Riachão do Jacuípe.
  • 12. 13 O culto aos santos, desde os tempos da Colônia se apresenta como a grande expressãodo Catolicismo no Brasil. As aventuras e desventuras de personalidades que simbolizam oideal de pureza e bondade desdobram ao longo dos séculos, ratificando condutas ecomportamentos sociais, que a ótica da Igreja Católica deveria ser seguida pelos fiéis. A lista de santos e santas que povoam o universo católico no Brasil é muito grande,cada um com papel específico na condução das almas. A figura de São Roque é identificadacomo: “Padroeiro dos inválidos, cirurgiões, protetor do gado, contra doenças contagiosas e apeste”. Acompanhando então a história de vida de São Roque para melhor nos situarmos comessa questão, temos as informações de que ele é um santo da Igreja Católica Romana, queprotege contra a peste e é padroeiro dos inválidos e cirurgiões. É também considerado poralgumas comunidades católicas como protetor do gado contra doenças contagiosas. A suapopularidade, devido à intercessão contra a peste, é grande, sendo o Santo de muitascomunidades em todo o mundo católico e padroeiro de diversas profissões ligadas à medicina,ao tratamento de animais e dos seus produtos bem como dos cães. A sua festa celebra-se nodia 16 de Agosto. O culto a São Roque foi difundido em nosso país com a chegada dos colonizadoresportugueses no portal de 1500 e na contemporaneidade mantém-se com o mesmo vigor emdiversas cidades baianas. Em sua pesquisa sobre São Roque, Benevides nos informa que no 25Brasil, o culto a este santo sempre esteve ligado às epidemias de doenças contagiosas . Por 26volta de 1850, estavam ocorrendo epidemias de cólera por todo Brasil : “Na Bahia, ela chegaentre 1855 e 1856 [...] causando a morte de quarenta mil pessoas principalmente em Salvador. Em Riachão do Jacuípe o culto remonta a 1904, quando o flagelo da peste acometeu opovo Jacuipense, semelhante ao que aconteceu em Santos (SP) e Salvador (Ba). Comoconseqüência da epidemia de peste na região de Riachão do Jacuípe a sociedade adotou adevoção á São Roque, ao lado de Nossa Senhora da Conceição padroeira oficial. Desse modoo santo tornando-se Co-padroeiro e santo protetor da cidade, que é festejado no dia 16 deAgosto, data de seu sepultamento em Montpellier, na França, em 1379. Uma vez que enfrentavam a reprovação social, não conseguiam freqüentar os eventosreligiosos cotidianos da Igreja Católica, as prostitutas recorriam á Festa de São Roque para sefazerem reconhecidas na sociedade. Saíam em grupo, em procissão festiva que partia da Ruado Fogo, atual Barão do Rio Branco em direção as principais ruas da cidade com o objetivo25 BENEVIDES, Nete. A Louvação das prostitutas de Riachão do Jacuípe ao Glorioso São Roque. Salvador:Secretaria da Cultura e Turismo, FUNCEB, 2006, p. 5626 O autor, na verdade refere-se equivocadamente á peste bubônica.
  • 13. 14de louvar São Roque e mesmo momentaneamente marcar um espaço, uma identidade própria,na sociedade, integrando-se a outros grupos sociais. A Lavagem da Rua do Fogo, ou seja, a procissão do dia 15 de Agosto tornou-se omaior evento para a população que habitava naquele espaço. Representava o sentimentoreligioso, artístico e cultural, alimentado pela fé no Santo Padroeiro que para muitosintegrantes da religião do candomblé, sincretiza-se com o orixá Obaluaê. Nas antigas lavagens da rua do fogo as mulheres acompanhavam o cortejo com porrões com água de cheiro, enquanto dançavam enfileiradas e protegidas por correntes dos dois lados. Além das raparigas. O cortejo era composto por homens caboclos e jumentos enfeitados que carregavam água para lavar a Igreja de nossa Senhora da Conceição27 A Lavagem de São Roque possui a riqueza de várias tradições que foram sendoincorporadas. Existem significados que se entrecruzam, crenças que unem o sagrado aoprofano. Os momentos de sociabilidade já ocorriam durante a preparação das atividades,especialmente nas festividades promovidas pela população na arrecadação de fundos para arealização da festa: eram doadas prendas para o leilão por todos os seguimentos sociais, desdepessoas influentes até os mais humildes contribuíam com os festejos na cidade. Em sinal degratidão e fé, anualmente, nos dias 15 e 16 de agosto era realizado o novenário na IgrejaMatriz de Nossa Senhora da Conceição. Feira de comidas típicas, leilões, entre outros jogos,além de três alvoradas e a tradicional procissão religiosa acompanhada pela Filarmônica LyraOito de Setembro. Segundo depoimento de José de Aquino, conhecido como Seu Zico,naquele tempo a festa de São Roque começava nos dia 13 para 14 e 15 para 16 de agosto, erelata: Vinham os Barbeiros de Pé de Serra, quando também existia aqui o terno de Aleluia que tocava juntamente com o tradicional Barbeiro de Pé de Serra. No dia 14 fazia as matinas, tocava às cinco horas da manhã, tocando na porta da Igreja e os sinos tocando. Ao meio dia eles iam à porta da Igreja, tocava as músicas que eram adequadas àquele momento e o sino tocava meio-dia, e repicava anunciando a festa, a mesma coisa às seis horas. No dia 15, celebrando a missa de Nossa Senhora [havia] muito foguete, muito foguete já. Às vezes até a Filarmônica tocava e gente já participando da festa. Missa festiva às 10 horas, a Filarmônica e os Barbeiros tocando a noite [...] Dia 15 também era feito a Lavagem. O que era a Lavagem? Por muitas vezes grupo de senhoras e moças ficavam na Igreja lavando a Igreja. E os Barbeiros, o terno de Barbeiro tocando na rua acompanhada pelas prostitutas. Era o dia em que elas tinham de diversão, de divertir [...] mais nesse dia elas iam dançando, cantando, sambando acompanhado pelo terno de Barbeiro....2827 BENEVIDES, Nete., 2006, p. 110.28 AQUINO, José. Lavagem de São Roque. Casa do entrevistado: 2008. Riachão do Jacuípe. 07. 12. Dez. 2008.Entrevista concedida a M. N. de Lima
  • 14. 15 No dia 16, o ultimo dia de festa, percebe se uma diferença, ou seja, a festa agora erarealizada a parte, sem a presença das prostitutas. Jose de Aquino descreve esse dia assim: Os barbeiros faziam as matinas cinco horas da manhã. Como já foi dito às 10 horas tocava a missa de São Roque, juntamente com as Filarmônicas. Às duas horas iam pra rua com moças da elite. Aí já era o destaque, a diferença. Quer dizer, as moças da de condição fazer o banho de precatório. Era a toalha de mesa ou um lençol seguro por moças desfilando nas ruas para arrecadar fundos arrecadar dinheiro para a comissão da festa. Era acompanhado também pelo terno de barbeiro, pós esse desfile pós arrecadação em quase toda a cidade. Às quatro horas era realizada a procissão que ao chegar à frente da Igreja era dada a benção do santíssimo e encerrada a festa de São roque (....)29 A festa começou partir da década de 1920, mas ganha impulso por volta de 1930, coma organização de Abdias Carneiro. Este fez uma promessa para São Roque que se o Santolivrasse os jacuipense das doenças, todo ano faria uma festa para ele. Assim, durante 59 anos,Abdias administrou os festejos religiosos ligados a Igreja e a Procissão da Rua do fogo emlouvor a São Roque. Abdias nasceu em 28 de abril de 1905, era filho de Jovita LeoníliaCarneiro e de Joaquim Carneiro da Silva, próspero comerciante jacuipense, que fora tambémIntendente e Juiz de Paz do município, além de ser descendente de uma das famílias quefundou Riachão do Jacuípe. Desde criança Abdias participava dos festejos a São Roque, mas só em 1938 passou aorganizar a festa. Quando esteve por conta da organização da Lavagem de São Roqueobservava-se uma maior participação das prostitutas. Ele se dedicou à preparação com muitadedicação e, mesmo não sendo de classe desfavorecida, talvez por ter uma mentalidade maisaberta, não fazia distinção de classe ou etnia. Convidava a todos para louvar o Santo, o queresultava em uma maior participação da população Jacuipense, e as prostitutas eram um dossegmentos que participavam da Lavagem. Segundo Antônio Cedraz Mascarenhas, filho deAbdias: Quem deu embalo foi Abdias porque ele aí deu impulso, gente que dizia Ave Maria que mulheres não podiam vim na rua de jeito nenhum só depois das dez horas da noite. E aí quando ele tomou conta ele aí abriu, jogou solto, deu a liberdade da tarde e deu liberdade da manhã e não tinha nenhum desrespeito, toda vida na festa e na alvorada (...) você não via nenhuma discussão, era com o maior respeito do mundo 30 No período em que Abdias Carneiro organizava os festejos de São Roque, havia umplanejamento anterior aos dias da festividade. O senhor Abdias já encomendava com Leandro29 AQUINO. Op. Cit..30 MASCARENHAS, Antônio Cedraz. Lavagem de São Roque. Casa do entrevistado: 2010. Riachão do Jacuípe.07. 07. Jul.20 10. Entrevista concedida a M. N. de Lima.
  • 15. 16Fogueteiro, os fogos do ano seguinte no final da festa. Ele enviava cartas para os moradoresda zona urbana e da zona rural, solicitando prendas (brindes) destinadas aos leilões queocorriam na noite da novena de São Roque, nas cartas ele dizia: Aproximando dos festejos do Glorioso São Roque, viemos através dessa carta pedir uma prenda pra o glorioso santo para que sejam feitas as despesas da festa do glorioso São Roque, na certeza que, o glorioso São Roque irá continuar sempre a 31 nos livrar da peste. No que confere à organização da festa, Benevides ressalta: Abdias não era um homem de muitas palavras ou grandes demonstrações afetivas, no entanto tinha um grande amor pelos festejos pelos qual era responsável. Bernadete Pereira de Oliveira, que foi porta-bandeira, no tempo em que Abdias campeava sobre a organização anual da festa, é testemunha ocular da época: “oxente se a gente não fosse ele chorava, seu Abdias chorava, chegava a derramar as lágrima, ele não salvava ninguém, num conversava com ninguém mais a bandeira que entrá a bandeira32. Quando doente escreveu uma mensagem no livro de novena pedindo à populaçãojacuipense que não deixasse a festa São Roque se perder. A mensagem dizia: Querido povo Jacuipense Ao se celebrar a primeira festa do “Glorioso São Roque” sem a minha” “presença física”, conclamo a todos para que se empenhem, o máximo para que ela não se perca com o tempo, mesmo se minha família vier a ficar de fora, por conseqüências ingrata do homem. A festa de São Roque já é uma tradição de nossa querida Riachão, porém as dificuldades da nossa região a tornaram menos brilhante na sua essência dos anos passados: mas o povo continua participando na sua piedade e perseverança, graças a vossa fé neste santo que com zelos tão fervorosa os a todos curais. Rogai por todos, Oh! São Roque! E assinando no final33 É importante observar que a Lavagem foi ignorada pela igreja Católica, por constituira parte profana da festa, além de não aceitar que São Roque fosse o segundo padroeiro dacidadejá que a primeira era Nossa Senhora da Conceição. Esse festejo, realizado pelasprostitutas da “Rua do fogo”34 percorria todas as ruas da cidade acompanhada por umabandinha de sopro “os Barbeiros”35.31 Idem, Ibidem. p. 137.32 BENEVIDES, Op. cit. p. 141.33 IGREJA MATRIZ DE RIACHÃO DO JACUÍPE. Novena do glorioso São Roque. Feira de Santana: J. M. A.Comercial Gráfica, [2003?].34 Chamada assim por abrigar um alto número de prostíbulos, como também uma clara alusão ao incêndio queocorreu na região de Mataripe, na década de 60, quando o fogo que tomou uma das peças de petróleo da refinariaLandulfo Alves era avistada ao longe pela população de Riachão do Jacuípe.35 Músicas que tocam de ouvido, sem partitura, se assemelha ao estilo de Filarmônica.
  • 16. 17 Durante a Lavagem de São Roque, as mulheres se vestiam com roupas com muitobrilho e acessórios extravagantes, desfilavam com bandeiras, cantando e dançando durantetodo o percurso, que culminava com a lavagem da Igreja Matriz pelas próprias prostitutas.Figura 2 Festa de São Roque. Ano de 1997. Em Figura 3- Imagem da lavagem de São Roque, 1997primeiro plano Idalina Soares da Hora (porta- bandeira)uma ex-profissional do sexo Segundo informações orais de uma ex-participante da lavagem, era este o „único‟ diaem que elas estavam livres para percorrer a cidade como integrantes da sociedade. “As coisasque eu brincava no meio delas tudo só era a Lavagem aqueles outros negócio não era” 36. Essa fala de Dona Bernadete na citação acima vem evidenciar uma contradição muitopresente em todas as falas dos entrevistados: o preconceito estava impregnado não sónaquelas que se dizia de “famílias de bem”, como as próprias prostitutas demonstravam aoafirmar que a rua “não prestava”. Em cada lugar, a festa de são Roque tem características singulares, mas todas elas sãorealizadas a partir de referências comuns, ativadas pela memória coletiva que envolve o santoprotetor contra as doenças contagiosas. Vejamos o ideal construído em torno da imagem deSão Roque através das orações e do hino de São Roque rezadas nas novenas: Hino de são Roque Ó são Roque pai amável Que doce contentamento eu sinto a cada momento Teu Santo nome invoca Refrão: Salve, salve, salve São Roque Protetor universal Que nos livra sempre da peste E nos guarda de todo mal Ó São Roque glorioso36 FERREIRA, L.; BRITTO, Kall. de Dona Bernadete uma ex profissional do sexo.
  • 17. 18 Que só um anjo celeste Mandou – vos Deus ajudar Contra o contágio da peste Rogai por nós, oh! São Roque diante do sumo bem pra que nos livre da peste Trazendo nos lábios Teu nome São Roque eu te chamo dia e noite como filho eterno Pai.37 Esta citação se faz relevante, pois, ilustra muito bem o valor e a fé ao santo exaltado.Ao proferir palavras de exaltação ao santo, há um estreitamento dos laços entre as „pobrescriaturas pecadoras‟, que rogam por sua proteção e bondade. Já que era o santo da cura,bondade, da caridade e que ajudou os pobres e os doentes. Contudo, em 1930, as mulheres da antiga „Rua do Fogo‟, atual Barão do Rio Branco,localizada na área do meretrício Jacuipense, tiveram acesso às comemorações de São Roque.Também considerado protetor das raparigas38 do sertão, o santo iria protegê-las das doençascomo a sífilis à qual estavam expostas devido a sua profissão. Ou seja, a devoção dasprostitutas mais velhas ao santo, justifica-se pelo fato de considerá-lo como protetor dasdoenças venéreas e como aquele que iriam „absorvê-las‟ dos „pecados da carne‟. Além disso,pode-se considerar também que a festa era um momento de embate político, na medida emque representava a luta dessas mulheres pela inserção na sociedade. Na verdade, as prostitutas aproveitavam dessa festividade, desse evento anual, para seafirmarem socialmente como cidadãs e como a padroeira Nossa Senhora da Conceição erauma festa religiosa de maior participação elitizada, acabava excluindo os outros grupossociais. Nesse sentido, Benevides afirma que: As raparigas levadas pelo fervor dessa devoção, porém oprimidas e excluídas dos festejos pela tradicional sociedade local, instituíram para a tarde do dia 15 de Agosto um evento festivo pelas ruas da cidade, para o qual levou uma grande parcela da população ecomonicamente menos privilegiada, como; feirantes, magarefes, lavadeiras , carroceiros e coveiros os quais vivem na expectativa dessa encanação anual escrita no calendário Jacuipense. 39 Assim, uma vez que as prostitutas não acharam espaço para estarem integradas àsociedade Jacuipense, a Lavagem de São Roque acabou tendo mais um significado, ou seja,tornou-se um pretexto, mesmo que inconscientemente, para inserção social, apresentando-secomo espaço alternativo, que abrigava de forma mais igualitária a participação de todos. Vale lembrar, porém, que esse contexto não é exclusivo de Riachão, mas que se fazpresentes em outros lugares, como Feira de Santana, onde a festa religiosa era marcadatambém por dois momentos: a Procissão e a Lavagem de Santana (sendo esta ultima a parte37 Cântico do glorioso São Roque. [s.n], 16 de Agosto de 1995.38 Termo utilizado para se referir as prostitutas.39 BENEVIDES, Op. cit. p. 19.
  • 18. 19profana ). A Lavagem era o momento em que a maior participação era do „povo‟ contandocom a participação dos organizadores da Festa religiosa. No caso da festa feirense, de acordo com a programação oficial, em 1945, a Lavagemera vista como: Festa do povo No dia 25 de Janeiro, quinta- feira, o nobre povo feirense estará nas ruas da Cidade, em explosões de alegria e de reconhecimento, levando a Santana orações de risos e de sons. A Cidade inteira estará de pé, contente e sadia, ao lado da divina Padroeira. É a tradicional Lavagem, manifestação simples, mas sincera, dos humildes, dos que sofrem resignados e esperançosos.40 O segundo momento, a festa Religiosa “A missa Solene”, era na verdade, uma missagrandiosa realizada depois de sete dias depois do bando anunciador, sempre pela manhã queera celebrada por vários sacerdotes. Essa missa reunia orquestras, maestros, e filarmônicas. 41Em que se percebia o luxo e requinte para louvar Santana. O programa da festa assim odescrevia: Dia 26 É o dia máximo de grandiosidade e esplendor, porque é o dia da Festa. Nesse dia extraordinário tudo será melhor e mais completo. Toda a Feira irá pôr aos pés da Padroeira, as flores do seu amor e de fé. As matinas, a novena, a tocata, feita pela „EUTERPE FEIRENSE‟ terá uma concorrência fora do comum. [...] A noite desse grande e glorioso dia tocará ao auge e animação no Largo da Matriz, sob nuvens de lança-perfume e os doces sons da sympathisada. Características parecidas a essas citadas se davam também em Salvador, com a Festade Nosso Senhor do Bonfim. Esta festa é considerada a mais importante das comemoraçõesde largo de Salvador. O religioso (a parte sacra da festa) inicia-se com o novenário que seencerra no segundo domingo após o Dia de Reis, ou seja, 06 de Janeiro. A festa realiza-se noLargo do Bonfim, bem em frente à igreja, no alto da Colina Sagrada, na última quinta-feiraantes do final do novenário e é marcada pela lavagem da escadaria e do adro da igreja porbaianas vestidas a caráter, trazendo na cabeça água de cheiro para lavar o chão da igreja eflores para enfeitar o altar. O outro momento, considerado com a parte profana, dá-se com „A festa da lavagem‟ éatribuída à promessa de um devoto. O cortejo parte ainda pela manhã da Igreja de NossaSenhora da Conceição da Praia e vai até o Bonfim, arrastando multidões. Contando com a40 SILVANIA, Maria Batista. Conflitos e comunhão na festa da padroeira em Feira de Santana (1930 -1950). 1997. Monografia (Especialização em Teoria e Metodologia da História), Universidade Estadual de Feirade Santana. Feira de Santana. 1997. p. 37.41 Idem, ibidem, loc. cit. p. 38
  • 19. 20presença de autoridades civis e militares, artistas e personalidades da cidade de Salvador, daBahia e do Brasil. Até a década de 50 as baianas tinham acesso ao interior da Igreja, onde ochão era lavado "com energia e entusiasmo" até que as autoridades eclesiásticas limitaram alavagem apenas ao adro da Igreja.42 Por meio de um universo de contestações sociais que visam manter a ordem estásituado o fenômeno da prostituição, no qual os discursos jurídicos, criminalistas e médicosditam as regras e formulam comportamentos adequados. Mas então como trabalhar com umasociedade que discrimina e ao mesmo tempo mantém a prostituição? E aos homens até queponto torna-se vantajoso a permuta encontrada na harmonia de seus lares por noites embordéis? A historiadora Margareth Rago, da sua interpretação quando ela menciona que nobordel “buscava-se não apenas a transgressão dos comportamentos moralmente sancionados,mas também os excessos, as fugas, os êxtases e a realização dos desejos que outrora eramnegados em casa,”43 visto que a sexualidade dentro do lar tinha suas limitações. Nessa perspectiva dois conceitos se tornam fundamentais para a compreensão dotrabalho. Os conceitos de Gênero e de Prostituição, dando ênfase às questões de moralidadeque padronizavam comportamentos e ditavam regras para a manutenção da ordem. Segundo Gisele Ferreira na visão Michel Foucault,44 todos os discursos sobre o sexo esobre a sexualidade passaram a existir no momento em que se precisavam controlar os corposna ascensão da classe burguesa e em nome de seus referenciais de moralidade. Pode-se dizerque o discurso vai se alterando conforme as práticas sociais, mudando de acordo com a épocaou período da história, dependendo das relações de poder vigentes. E, é no século XIX que aidéia de separação entre o público e o privado vão se aprofundar, e às mulheres, delimita-se osespaços privados. A prostituição em Riachão do Jacuípe não é um fenômeno único. Mas para uma melhorcompreensão do significado cultural e social desse fenômeno, faz-se necessária a utilizaçãoda categoria gênero, através da qual os papéis sexuais são concebidos como construçõeshistóricas diferenciadas. Essa categoria, ao incorporar a dimensão das relações de poder e dasrelações entre homens e mulheres, possibilita a percepção dos poderes informais femininos42 VERGER, Pierre. Lavagem do Bonfim: Tradições e Representações da Fé na Bahia. Disponível em:<www.naya.org.ar/.../ponencias/Luis_Americo.htm>. Acesso em 11 de jul. 2010.43 RAGO, Margareth. Os prazeres da noite: prostituição e códigos da sexualidade em São Paulo, 1890-1930.Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991, p. 188.44 FERREIRA, Gisele Gaspar. Prostituição e criminalidade: o cotidiano e os conflitos nos bordéis pontagrossenses nas décadas de 1930-1940. Disponível em: <htpp:/www.fazendogenero8.ufsc.br/sts.> Acesso em:11de Jul. de 2010
  • 20. 21permitidos por uma situação de sujeição, que nesse contexto histórico, devem ser entendidoscomo contra-poderes sedutores e ilícitos que resultavam em uma existência mais autônomapara as prostitutas Jacuipense. Enquanto o social dorme, é possível encontrar um submundo diferenciado em certas ruas, em alguns bares, nos cabarés, em salas pouco iluminadas e enfumaçadas, onde as tensões urbanas e sociais emergem, e essas são formas fragmentadas e diversificadas de vivências. Onde seus freqüentadores fazem da cidade, um lugar para se trabalhar durante o dia, e fazem da noite um lugar para se divertir e viver suas aventuras e desventuras.45 Ainda em discussão está o comportamento de uma sociedade com considerável graude preconceito, que são ditados pelas normas de moralidade, e nesse mesmo contexto estãoinseridas as atitudes masculinas diante do cenário de contestações femininas, que questionama autoridade do homem e buscam novas formas de sobrevivência. O contato com as fontes possibilita a identificação de profundas marcas de opressão eexclusão das prostitutas na sociedade jacuipense, seja pela Igreja Católica, ou até mesmo pelaforça repressora da polícia. Ao que nos consta, elas eram proibidas de circular normalmentepela cidade, principalmente durante o dia, e de freqüentarem as festas em clubes ou locaisabertos, já que a presença das mesmas significava uma ofensa à moral e aos bons costumesdas “pessoas de bem”. Para as „moças de família‟ qualquer aproximação poderia deixá-lasmal falada se tal ato constituía uma preocupação constante das mães para com as filhas. Paraos homens, essas mulheres nada mais eram do que um “objeto sexual” que lhesproporcionaram certo prazer durante algumas horas na noite. Aliás, freqüentar os prostíbulosera sinal de virilidade. Era comum inclusive, que a vida sexual de muitos jovens se iniciasselá. Essa concepção da classe burguesa significava eliminar focos de doenças queimpregnavam a cidade, e dentre os atores vistos como portadores dos males doentios, estavamàs mulheres prostitutas, ou as “decaídas”, como eram vistas pela população e certificadas pelaimprensa. Essa última citação evidencia claramente o preconceito, discriminação e medo quea sociedade Jacuipense sentia diante das profissionais do sexo fazendo com que essa categoriafosse excluída e marginalizada. Tal preconceito é relatado ainda por dona Idalina, ex-moradora da Rua do Fogo, ao comentar a recusa das „mulheres de família‟ em transitar ali, aoafirmar “a Rua do Fogo era igualmente a rua de família você não via devassidão [...] as45 FERREIRA, Op. cit. Disponível em: <htpp:/www.fazendogenero8.ufsc.br/sts.> Acesso em: 11de Jul. de 2010.
  • 21. 22mulheres casadas que se julgava de passar. Se passasse acho que a doença da gente ia peganelas”46.Resistência e opressão vivida pelas prostitutas A sociedade Jacuipense, cuja origem remonta a 1878, é firmada sobre uma postura eestrutura conservadora, o que revela o preconceito da ordem social estabelecida. Contudo asociedade vai se estruturando ao longo do século, sob a égide da Religião Católica, em que afé em Deus determina seus destinos e assume lugar de destaque sobre todas as tradições epovos. Como também o temor a Deus, a crença na Santíssima Trindade, a louvação áPadroeira e a gratidão a São Roque, aliados á cultura do homem do sertão fizeram crescer noimaginário popular desse habitat uma gama de manifestações culturais que fazem desse povoos criadores de uma cultura popular diversa. Dento de um longo processo de segregação exclusão e preconceito a muito foi osilêncio dado como também muito foi resistido. E é procurando vencer tais desafios que asprostitutas vão lutar contra uma sociedade dominante e autoritária que sujeita o sexo femininoe dita as regras da moral e dos bons costumes e onde o que for de encontro as mesmas seráperseguida e castigada, sendo considerada degenerada. As relações de poder constatadasnesse contexto se dão de forma complexa e conflituosa, mas não dá para ignorar o jogo desedução, de e interesse existente no núcleo dos meretrícios. Sobre isso Alberto Heráclito Ferreira Filho afirma que o processo de segregação dasprostitutas em áreas previamente estipuladas pelas autoridades e as políticas de repressão aomeretrício provocaram uma reação surda em todo período.47 Ou seja, como o projeto políticonão tinha a autonomia necessária percebia-se claramente que as resistências eram em um nívelde interferência muito peculiar às mulheres: as inter-relações e os pactos clandestinos. No caso dos policiais, por exemplo, desmembravam em situações diferentes às vezesesses davam batidas nos meretrícios e em outros momentos eram clientes desses espaços,muitas vezes protegendo e por que não dizer preservando o ambiente contra possíveisfechamentos do recinto. Sobre esta questão o jornal noticia:46 FERREIRA, L.; BRITTO, Kall. Depoimento de Dona Idalina uma ex- prostituta.47 FERREIRA FILHO, Alberto Heráclito. Quem pariu e bateu, que balance: mundos femininos, maternidade epobreza: Salvador: 1980-1940. CEB, 2003. p. 89.
  • 22. 23 Em 13 de Outubro de 1910, através de uma noticia moralista, o Diário de Notícias denunciava a constante presença de policiais nas “casas de mulheres” bebendo, jogando ou mesmo participando, aos sábados, dos “bailes licenciosos” promovidos pelas “pensões alegres48 Essa citação serve para ilustrar a relação de poder que as „mulheres de vida pública‟tinham para resistir ao preconceito da sociedade burguesa que via na prostituição um mal.Acabar a mesma era o projeto inicial, porém, ao longo do tempo passa-se a tolerá-la, uma vezque as mulheres de vida fácil serviam para manter o prazer do homem fora de casa, pois,diante dos padrões estabelecidos a mulher de família tinha que preservar sua relação conjugalsem tanto fervor, sendo a prostituição um “mal necessário”. Isso era uma cavalaria da peste, muler vinha até dos infernos aqui pra dentro e de noite ninguém dormia só ia dormir quatro hora da madrugada, três horas. Era uma zuada disgraçada era porrada até em muler aí pra dentro. Muler cansou de tomar torpedo49 aqui dentro desse Riachao. Homem brigava por causa de muler e cachaça também e foi uma putaria da peste.50 Vale ressaltar que os freqüentadores dos bordéis e meretrícios eram fazendeiros,autoridade, intelectuais, ou seja, pessoas da alta sociedade que o dia estava com sua famíliae a partir das dez horas iam saciar seus desejos e fantasias, o que cabe então uma reflexãoporque recriminar as trabalhadoras do sexo já que a alta sociedade participava ativamenteou porque não dizer eram eles os responsáveis pela manutenção das casas. O que nos leva apensar que a aparência era o elemento fundamental dessa ordem social. Quem vem elucidarisso é a ex-prostituta Cherinho: “Os homens da sociedade era quem vinham naquele tempo,mas antigamente era”:Isso prova que os freqüentadores dos bordéis e os principais colaboradores eram de classeabastada.O contexto da festa após Abdias Hoje os festejos Roqueanos apresentam grandes mudanças, após a morte de Abdiasem três de Abril de mil novecentos e noventa e sete, a começar pela novena. Antes eram novedias de festa na Igreja, hoje reduziu-se para três dias (tríduo). Não há mais leilões e simbingos, o que fez com que a participação dos devotos na arrecadação das prendas tenha48 Cf. Diário de Noticias.Bahia, 13 Out.1910.49 Murro de mão fechada50 FERREIRA, L.; BRITTO, Kall. Depoimento de Seu João ex cafetão.
  • 23. 24diminuindo muito. A Lavagem não acontece todos os anos e vai dependendoprogressivamente do patrocínio da Prefeitura, a participação popular também se reduziu, querseja por parte das prostitutas quer seja da população no geral. A respeito disso AntonioCedraz Mascarenhas aponta uma possibilidade da redução do evento em função da Igreja tertirado a ajuda de custo para a festa, o que diminuiu o orçamento das participantes parapreparar suas vestimentas e adereços. Afirma ainda que a postura de Padres levou ao fracassodas festas religiosas tradicionais em Riachão, e dá o exemplo da proibição total, por estes, daparticipação das prostitutas nas atividades da Igreja católica. O Padre Hélio da Rocha foi um dos que ficou totalmente contra a Lavagem de SãoRoque, o que explica ele ter tomado a organização da festa das mãos de Abdias, sem darexplicação alguma ao mesmo. Fato que causou grande tristeza a Abdias, afinal ele já tinhauma relação de carinho e devoção com os festejos. Porém mesmo depois da proibição apopulação jacuipense não aceita essa imposição do Padre e reagi. Contrata-se a bandinha paratocar e alegrar a festa, nesse ano se constata a maior arrecadação feita pela sociedade, asolidariedade marca o evento, pois, a bandinha dos Barbeiros aceitam participar da festa semreceber nem um pagamento. Para elucidar essa questão, Antonio Cedraz Mascarenhasdescreve um fato ilustrativo da mentalidade conservadora desse Padre. Ele conta que nesseperíodo, quando chegou a Pé de Serra para assistir a missa de Bom Jesus da Lapa: O padre Hélio da Rocha se aproximou de mime disse: O que veio fazer aqui? Você queria fazer lá o que eu vi aqui de manhã? Prostitutas em frente à Igreja? [...] Eu não admito o senhor padre dizer uma coisa dessa [...] O senhor está me dizendo que prostitutas não pode entrar na igreja. Me diga o senhor quem foi Santa Madalena? [...] A maior prostituta que o mundo já teve e Jesus perdoou. Será que essas mulheres não merecem ser perdoadas? Quem é o senhor pra ta julgando A, B, 51 ou, C? Olhe o passado do senhor. (Eu sabia que ele era gay) Fica claro a relação de conflito social e cultural entre os vários segmentosexistente nas festas religiosas, da aceitação e rejeição, de uma questão que perpassa esseperíodo (1930 a 1950) e encontra-se até a atualidade. Analisando os depoimentos e fontescoletadas sobre esse espaço simbólico, constatamos a presença marcante dasdesigualdades e preconceitos de uma sociedade dominante e hierárquica. Mas também,como afirmam os seus participantes, aquele era o espaço de alianças, alegrias e a diversãoera, sobretudo, uma forma de expressão, de auto-afirmação nas brechas daquela estruturasocial.51 MASCARENHAS, Antônio Cedraz. Lavagem de São Roque. Casa do entrevistado: 2010. Riachão doJacuípe. 07. 07. Jul.20 10. Entrevista concedida a M. N. de Lima.
  • 24. 25ReferênciasANDRADE, Ivanise. Prostituição e exploração: comercialização de sexo jovem. Nov. 2003.Disponível em: <www.caminhos.ufms.br/reportagens/view.htm?a....> Acesso em 7 jun. 2010.ABREU, Martha. Carnavais e outras Festas: ensaio de Historia Sociais da Cultura. SãoPaulo: Unicamp, 2002.ABREU, Waldyr de. O submundo da prostituição, vadiagem e jogo do bicho: aspectossociais, jurídicos e psicológicos. Rio de Janeiro: Freitas Bastos S. A, 1968BENEVIDES, Nete. A Louvação das Prostitutas de Riachão do Jacuipe ao Glorioso SãoRoque. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo, FUNCEB, 2006CAULFIELD, Sueann. O nascimento do mangue: raça, nação, e o controle da prostituição noRio de Janeiro, 1850-1942.CREMOSO Karine. P. Estudo teórico sobre a prostituição e as casas de prostituição. p.1.Disponível em:<intertemas.unitoledo.br/revista/index.php/ETIC/article/viewFile/1169/1119>.Acesso em: 08 jun.2010FERREIRA, L.; BRITTO, Kall. Documentário: Rua do fogo: Memórias do baixo meretrício.In: III encontro de cinema Negro Brasil/África Américas. Rio de Janeiro, 2009. Riachão doJacuípe. 2009. 1 CDFERREIRA, Gisele Gaspar. Prostituição e criminalidade: o cotidiano e os conflitos nosbordéis ponta grossenses nas décadas de 1930-1940. Disponível em:<htpp:/www.fazendogenero8.ufsc.br/sts.> Acesso em: 11de Jul. de 2010.FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal,1981.FERREIRA Filho,Alberto Heráclito. Quem pariu e bateu, que balance: mundos femininos,maternidadee pobreza: Salvador, 1980-1940.CEB, 2003.MOTTA, Candido. Prostituição, polícia de costumes e lenocínio. São Paulo, 1897.Disponível em: <www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102...script...>. Acesso em: 14 Nov. de2009PRIMEIRO CONGRESSO BRASILEIRODE PROTEÇÃO Á INFÂNCIA, Rio de Janeiro.Anais... Rio de Janeiro: MORAES, Evaristo de. "Prostituição e Infância", 1925. Disponívelem: <www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102...script...>. Acesso em: 14 Nov. 2009RAGO, Margareth. Os prazeres da noite: Prostituição e códigos da sexualidade em SãoPaulo, 1890-1930. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.SILVANIA, Maria Batista. Conflitos e comunhão na festa da padroeira em Feira de Santana(1930- 1950). Feira de Santana: 1997.SOIHET, Raquel. Festa da Penha: resistência e interpretação cultural (1890-1920). InCUNHA,M.C.P.(org.), Carnavais e outras f ( r ) estas, Campinas: Unicamp, 2005.VERGER, Pierre. Lavagem do Bonfim: Tradições e Representações da Fé na Bahia.Disponível em: <www.naya.org.ar/.../ponencias/Luis_Americo.htm>. Acesso em: 11 de jul.2010.