A história do coronelismo em conceição do coité entre 1930 e 1990
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A história do coronelismo em conceição do coité entre 1930 e 1990

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  • 1. UNEB - UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO-CAMPUS XIV COLEGIADO DE HISTÓRIA FELIPE COUTINHO DE LIMA SANTIAGOA HISTÓRIA DO CORONELISMO EM CONCEIÇÃO DO COITÉ: UMA ANÁLISE DAS PERMANÊNCIAS E RUPTURAS POLÍTICAS DO PODER LOCAL ENTRE 1930 E 1990. Conceição do Coité 2010
  • 2. 2 FELIPE COUTINHO DE LIMA SANTIAGOA HISTÓRIA DO CORONELISMO EM CONCEIÇÃO DO COITÉ: UMA ANÁLISE DAS PERMANÊNCIAS E RUPTURAS POLÍTICAS DO PODER LOCAL ENTRE 1930 E 1990. Monografia apresentada ao Departamento de Educação – Campus XIV/UNEB, como requisito parcial para a obtenção do título de Licenciatura em História. Orientador: Prof. Ms. Eduardo Borges Conceição do Coité 2010
  • 3. 3AGRADECIMENTOSAo professor Eduardo Borges, que me acompanhou sabiamente na construçãodeste trabalho como orientador e amigo.Aos meus queridos pais, por estarem sempre ao meu lado me apoiando nasminhas decisões e me ajudando a escolher o melhor caminho para viver.À Priscila, que sempre está do meu lado como fiel companheira, e por fazerminha vida ficar cada vez melhor.Aos meus irmãos, que fazem parte da minha vida sabendo transformá-la emuma verdadeira aventura.Aos meus amigos, que descobri entre os colegas de faculdade, que nuncamais sairão das minhas lembranças nem da minha vida: Alex Teixeira, Moisesde Oliveira, Juliana Carneiro, Thiago Gordiano, Jaqueline Rios, Michele Nunes,João Vitor de Oliveira, Carla Pinho, Ismael de Jesus, Ana Priscila de Carvalho,Ana Vilma dos Santos, Aurineia Almeida.
  • 4. 4RESUMOEsta monografia analisa a história do coronelismo em Conceição do Coitécomo uma permanência política entre 1930 e 1990, com o objetivo decompreender como este sistema conseguiu manter-se no poder local sendo aestrutura política predominante. O conceito de coronelismo é abordado atravésdos processos de adaptação política, observados por autores que analisameste sistema. A discussão teórica é baseada nas relações de poder que seestruturam entre os coronéis e seus dependentes. Na sociedade coiteense, ocoronelismo está presente nas estratégias políticas de dois coronéis, Seu Motae Hamilton Rios. Este trabalho mostra uma perspectiva histórica que identifica,nestas estratégias locais, as características políticas e econômicas queestruturam o coronelismo.Palavras-Chave: Coronelismo; Conceição do Coité; Seu Mota; Hamilton Rios;ABSTRACTThis paper analyzes the history of the Colonels in Conceição do Coité as apermanent policy between 1930 and 1990, with the goal of understand how thissystem has managed to remain in local power and the prevailing politicalstructures. The concept of the Colonels is addressed through the processes ofadaptation policy, observed by authors who analyze this system. The theoreticaldiscussion is based on power relations that are structured among the colonelsand their dependents. In society coiteense, the Colonels is present in thepolitical strategies of two colonels, Mr. Mota and Hamilton Rivers. This workshows a historical perspective that identifies, these local strategies, thecharacteristics of political and economic structure the Colonels. Keywords: Colonels; Conceição do Coité; Mr. Mota, Hamilton Rios;
  • 5. 5 SUMÁRIOINTRODUÇÃO.....................................................................................................61. DISCUSSÃO TEÓRICA SOBRE O CONCEITO DE CORONELISMO...........82. COITÉ DE SEU MOTA – 1930 A 1972...................................................................183. COITÉ DE HAMILTON RIOS – 1972 A 1990..............................................26CONCLUSÃO....................................................................................................36REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.................................................................38FONTES............................................................................................................41
  • 6. 6INTRODUÇÃO Esta monografia que tem como título, A história do coronelismo emConceição do Coité: Uma análise das permanências e rupturas políticas dopoder local entre 1930 1990. Este pesquisa busca identificar em Conceição doCoité características políticas que estruturam o fenômeno coronelístico e queanalisa o papel político dos líderes locais na sua relação com os eleitores egovernos durante os sessenta anos da pesquisa. Esta análise tem como foco a discussão do coronelismo através da suapermanência política para que se possa compreender como este sistemaconseguiu se manter no poder local por tanto tempo. Nesta monografia, adiscussão será feita com base nas relações de poder que se estruturam a partirdos elementos e padrões políticos presentes na sociedade coiteense. Adiscussão abordada mostra uma perspectiva que tenta identificar nasespecificidades políticas locais os aspectos políticos e econômicos queestruturam o coronelismo. O fenômeno político a ser analisado é o coronelismo que surgiu com otítulo de coronel, que era um título da Guarda Nacional surgido em 1831 queera dado a fazendeiros do interior por serem líderes locais que com o título decoronel passaram a ter um amplo poder, inclusive o poder militar localoficializado. Contudo, o coronelismo ultrapassou os limites deste título oficial, eganhou força na República Velha tornando-se um sistema político que imperouem vários municípios de todo o Brasil, sobretudo no Nordeste. Esta estruturapolítica apesar de ter sofrido algumas transformações que acompanharam asmudanças econômicas, ainda mantêm características que não se perderamcom o tempo. Estas características estão baseadas na relação de clientelismo entre o“coronel” e seus dependentes, onde o político se apropria do poder localpúblico como se fosse particular através do apoio do governo estadual efederal, instaura a política de apadrinhamento de familiares e no período daseleições, compra votos para garantir o seu curral eleitoral. Todos estes
  • 7. 7aspectos estruturam o coronelismo como fenômeno político-social queconsegue se adaptar aos diversos contextos históricos. Identificar estas características do coronelismo que permaneceram nocenário político de Conceição do Coité adaptadas a uma nova realidade emque estavam inseridas é essencial para compreendermos este fenômeno. Comisto, poderemos entender como os coronéis conseguiram manter a suainfluência política sobre a população coiteense por tanto tempo. Para atingir este objetivo foi necessário no primeiro capítulo aelaboração de uma discussão teórica sobre o conceito de coronelismo paraentendermos as características e as transformações políticas deste conceitoque se flexibilizou diante de novos contextos socioeconômicos. Desta formapoderemos identificar os mecanismos coronelísticos que permaneceram nasrelações de poder entre os coronéis e os seus dependentes é fundamental quesejam analisadas as trajetórias pessoais e políticas de dois líderes locais deConceição do Coité, “Seu Mota” e Hamilton Rios. No segundo capítulo é discutida a trajetória política de “Seu Mota” e assuas estratégias coronelísticas para se manter no poder local como principalliderança política. No terceiro capítulo é analisada a trajetória política deHamilton Rios comparando as suas estratégias políticas com as utilizadas porSeu Mota. Com isso, poderemos compreender quais das principaiscaracterísticas do coronelismo permaneceram presentes e quais sofreramadaptações para que fosse possível manter este sistema estruturado epresente na política local. Analisar o coronelismo como uma permanência política é mostrar umavisão mais ampla de sua importância na sociedade brasileira que é formadapor tantos municípios que ainda mantêm os políticos como donos do poderlocal se utilizando da máquina pública para dar continuidade a esta estruturaque ainda gera dependência política e econômica para as populações.
  • 8. 81. Discussão teórica sobre o conceito de coronelismo Para analisar o coronelismo é preciso que este conceito seja bemtrabalhado e definido a partir dos aspectos políticos que estruturam estesistema de relações baseadas no clientelismo e no paternalismo. O primeiro aspecto a discutir é considerar como “coronel” não apenasos lideres municipais que receberam o titulo da Guarda Nacional, mas tambémtodo fazendeiro que adquiriu autoridade política através da utilização do poderpúblico para aumentar o seu poder econômico e consequentemente aumentartambém a sua influencia como liderança na política local. Este poder se efetiva a partir de duas frentes determinantes. A primeirafrente de poder se estabelece através da relação entre o coronel e seusdependentes, na qual cumprir os favores pessoais pedidos pelos dependentesfaz parte da estratégia política do coronel. A segunda frente de poder é arelação entre o coronel e o governo estadual, esta relação se estabelecetambém como uma troca de favores, enquanto o coronel depende da verbaestadual, o governo estadual depende dos votos do coronel. Vitor Nunes Leal, demonstra em seu livro uma construção históricamais rígida atrelando totalmente o coronelismo a vida no campo. “A forçaeleitoral presta-lhe prestígio político a partir da sua privilegiada situaçãoeconômica e social de dono da terra.” (1997, p. 42) O autor afirma que o poder local no interior do Brasil só era exercidopor chefes municipais que tivessem uma ligação direta com o campo. Estarelação entre coronelismo e poder rural no interior é tão sólida para Leal que “avitalidade (do coronelismo) é inversamente proporcional ao desenvolvimentodas atividades urbanas.” (1997, p. 275) . Diferente do que afirma Leal, Faoro não considera que o coronelismoestá totalmente vinculado ao território agrícola em que apenas os fazendeirosteriam condições políticas para exercer a função de “coronel” da política local.Faoro afirma que existiam categorias de coronelismo atreladas a cidade.“Outros categorias, que não as territoriais, podem ocupar a posição de coronel,como o coronel advogado, o coronel comerciante, o coronel médico, o coronel
  • 9. 9padre.” (2000, p. 710) Dentro desta discussão conceitual Janotti considera que: Não houve uma simples substituição de dirigentes, antes define-se uma nova composição de força, entremeada por novas situações econômicas (...) À medida que se desenvolviam as funções urbanas no município, sua importância econômica e, consequentemente, eleitoral passava, então a ser exercido por pessoas que não detinham, necessariamente, a posse da terra. (1981, p. 69) A partir da discussão desses autores fica evidente que a presença docoronelismo na cidade existia e que não dependia tanto da fazenda. Mas apresença do coronelismo na cidade só vai aumentar com o tempo. Já nasdécadas de 20 e 30 do século XX começa-se a perceber este deslocamento dopoder local para a cidade sem deixar de ter influência nas fazendas. Ainda que existam divergências neste aspecto territorial do coronelismo,nota-se que há entre os autores uma convergência de idéias sobre o papelfundamental da relação existente entre o poder público e privado como aspectoessencial para a estruturação do coronelismo. Cada autor faz umainterpretação diferenciada desta relação , eles sabem da sua importânciapolítica para os coronéis. Leal afirma que: O coronelismo é antes uma forma peculiar de manifestação do poder privado, ou seja, uma adaptação em virtude do qual os resíduos do nosso antigo e exorbitante poder privado tem conseguido coexistir com um regime político de extensa base representativa.” (1997, p. 40) Este autor deixa bem claro que para o coronelismo existir é necessárioque se faça o uso do poder privado como mecanismo político para alimentar asrelações de confiança que fazem parte da sua estrutura de influência. Autores como Pang considera que “a principal função do coronelismoera a hábil utilização do poder privado acumulado pelo patriarca de um clã ouuma família mais extensa” (1979, p. 21). Esta habilidade aplicada também nasua política de favores que baseia toda a estrutura coronelista que se constróia partir deste poder privado. O aumento do poder dos “coronéis” gera também um aumento dadependência econômica e política que faz parte da relação pessoal existenteentre os “coronéis” e seus dependentes. Segundo Faoro, o “coronel” exerce
  • 10. 10este poder político com base no seu poder econômico que está atrelado aopróprio governo. Para ele a relação entre poder público e privado é muito maiscomplexa por não considerar que a função pública é apenas um prolongamentodo poder privado (2000, p. 700) Para que o “coronel” possa manter a sua política de favores, ele precisaser rico ou no mínimo ter uma renda capaz de satisfazer as necessidades demuitos dependentes que quando precisam de algum favor vão procurá-lo.Queiroz defende que “a fortuna é um dos meios principais de se fazerbenefícios (...) O prestigio dos coronéis “lhes advém da capacidade de fazerfavores” (1976, p. 191). Esta riqueza se mostra fundamental para que os“coronéis” possam aplicar a sua política de favores como principal mecanismopara a manutenção da dependência econômica e política dos seus agregados. Contudo, a estrutura coronelística não se resume apenas a relação dedependência econômica e política. Existe também o aspecto social que sofreforte influencia do coronelismo. Esta influência é percebida através da relaçãode autoridade local do “coronel” que tem poderes ilimitados dentro da suafazenda ou do seu município. O reconhecimento tácito que a comunidade tem da autoridade do Coronel. Abandonada pelos poderes públicos no que se refere à saúde, à justiça, e à instrução, pois o município não tinha condições de atende-la, via o Coronel como protetor natural. (JANOTTI, 1981, p. 57) Ser a autoridade máxima nesses locais é lidar com todo tipo de situaçãona qual ele seja o juiz, o delegado, o prefeito, o fazendeiro, e o padrinho. Umdesses papéis sociais é exercido no momento em que ele é utilizado comoreferencial de justiça, moral e ordem. A não ser em época de eleições, o Coronel, na maior parte da s vezes não necessita despender capital para atender aos solicitantes. Soluciona dissídios forçando o “acordo” entre as partes, o seu prestígio é o aval da “sentença”. A garantia é dada, segundo o dito popular, “pelo fio de sua barba”, isto é, a palavra do Coronel substitui o contrato escrito. (JANOTTI, 1981, p. 59) Além do papel de autoridade que o “coronel” exerce sobre sua clientela,o seu papel social de padrinho é fundamental para que mantenha o controlesobre os seus afilhados. Como padrinho, ele constrói uma solidariedade entre o
  • 11. 11dominante e o dominado que aproxima socialmente os dois principais atores docoronelismo. “As relações de compadrio tão difundidas no coronelismo“suavizam as distâncias sociais e economias entre o chefe e o chefiado.””(JANOTTI, 1981, p. 57) Estas relações de compadrio influenciaram na estruturação das“parentelas” em torno da autoridade política do coronel. As “parentelas”asseguram a proximidade política entre as camadas sociais antagônicas quese expressam no coronelismo. Ainda que esta aproximação tenha uma barreiraeconômica que impede uma maior aproximação entre os membros dasdiferentes camadas sociais existentes em uma só parentela. Entendemos por “parentela” brasileira um núcleo bastante extenso de indivíduos unidos por parentesco de sangue, formado por várias famílias nucleares, regra geral, economicamente independentes, vivendo cada qual em sua morada; as famílias podem-se dispersar a grandes distâncias, o afastamento geográfico não quebrando a vitalidade dos laços ou das obrigações reunindo os indivíduos uns aos outros no interior do grupo. A característica principal do grupo é sua estrutura interna, bastante complexa, e variando de uma configuração mais igualitária, até uma estratificação em vários níveis. (QUEIROZ, 1976, p. 182) A parentela mostra-se uma estrutura complexa que aceita variações nofenômeno coronelístico através da relação existente entre as camadas sociaisque compõem esta estrutura. O coronel sempre representa a efetivaestratificação social dentro da parentela, mesmo que esta tenha “umaconfiguração mais igualitária”, o coronel e seus familiares têm uma fortedistinção econômica e política dentro do grupo ao qual pertencem. Este conceito de parentela de Queiroz define o grupo social lideradopelo coronel que se modifica de acordo com as estratificações políticas eeconômicas através das relações entre as camadas sociais e por isso seaproxima muito do conceito de oligarquia familiocrática de Pang. A oligarquiafamiliocrática basea-se numa interpretação que o autor faz sobre o conceito deparentela de Queiroz. Contudo, o autor mostra que existiu diversos grupossociais, chamados pelo autor de oligarquias, que estavam atrelados aocoronelismo tendo características sócio-políticas distintas entre si por surgiremem locais diferenciados. O grupo mais presente na sociedade brasileira foi a
  • 12. 12oligarquia familiocrática, porém também surgiu a oligarquia tribal, colegiada epersonalista. Pang afirma que: A maioria dos coronéis brasileiros situa-se nesta categoria (oligarquia familiocrática).Caracteristicamente organizada pelo chefe de uma única família, ou clã, a esfera de influencia existia dentro de uma município. A participação numa oligarquia (nesse caso um clã) incluía a família em si, pessoas da mesma linhagem, parentes por afinidade, afilhados de batismo ou de casamento e, às vezes, o povo dependente do ponto de vista sócio-econômico. (...) Possui diversas características únicas: o sucessor do chefe não precisa ser um herdeiro direto do líder do clã; os membros podiam ser dispersos geograficamente; tanto a solidariedade vertical, quanto a solidariedade horizontal eram permitidas na competição externa. (PANG, 1979, p. 40) Além desta estrutura social o coronelismo também era formado por umaestrutura político-partidária que valorizava as suas ações políticas nosmunicípios. Esta relação é mantida entre os coronéis e os PartidosRepublicanos de cada estado. O P. R. é o velho Partido Republicano anterior a1930, que fora o órgão do coronelismo rural; é o partido conservador rural.” (QUEIROZ, 1979, p. 26). Este partido juntamente com os coronéis garantiramos seus poderes políticos com a institucionalização da política dosgovernadores na Primeira República. Foi com esta estratégia de governo que oentão presidente do Brasil, Campos Sales, governou o Brasil tendo umarelação de compromissos e barganhas com os coronéis e governadores dosestados que garantiram a sua vitória para Presidente. “O coronelismo, comoforma de domínio oligárquico, foi reforçado pela evolução política da PrimeiraRepública” (PANG, 1979, p. 55) E para que o coronelismo se mantivesse como estrutura predominantena Primeira República o principal instrumento dos coronéis eram as eleições.Neste período, os favores aumentavam para que o “voto de cabresto” fossedestinado ao candidato que o coronel apoiava. “É, portanto, perfeitamentecompreensível que o eleitor da roça obedeça à orientação de quem tudo lhepaga, e com insistência, para praticar um ato que lhe é completamenteindiferente.” (LEAL, 1997, p. 56-7) As fraudes eleitorais também estão vinculadas a nítida autoridade queos coronéis tinham sobre a sua clientela e também sobre toda a cidade. Porque
  • 13. 13todo o processo eleitoral era controlado por ele, do registro dos eleitores até aapuração dos votos. Durante a elaboração da lista definitiva, seus responsáveis se encarregavam de excluir determinados eleitores, omitindo seus nomes da relação, por estarem em posição política oposta à do Coronel. No dia das eleições, a Mesa Receptora dos Votos interferia em todos os sentidos sobre o eleitorado. (...) O momento da apuração se constituía no mais privilegiado para favorecer determinados candidatos; sob o mínimo pretexto anulavam-se cédulas ou acrescentavam-se cédulas, sem a mínima fiscalização da oposição, impedida de entrar no recinto. (JANOTTI, 1981, p. 51) As eleições eram muito importantes para este contexto de favorecimentopolítico mútuo porque os chefes locais dependiam dos Estados para aliberação de verba para os municípios. E assim, continuaram com sua políticaclientelista nas regiões. “A chance do controle político estará na compreensãoeleitoral, como sempre, não necessariamente sanguinária, mas com o sacrifícioda autonomia municipal.” (FAORO, 2000, p. 702) Os coronéis compreendiam muito bem o processo eleitoral fraudulentoao qual faziam parte e queriam mantê-lo intacto para que não perdessemnenhum privilégio que tinham como garantia da sua continua autoridade local epara isso tinham o apoio dos governadores e presidente. Despejando seus votos nos candidatos governistas nas eleições estaduais e federais, os dirigentes políticos do interior fazem-se credores de especial recompensa, que consiste em ficarem com as mãos livres para consolidarem sua dominação no município. (LEAL, 1997, p. 279) Janotti considera que é nesse momento que se efetiva a política decompromissos entre coronéis, Estado e União. A eleição garante a todos acontinuidade e manutenção da política coronelística. “O papel quedesempenhava o Coronel no processo eleitoral garantia a sobrevivência de umsistema político que alijava as classe populares.” (JANOTTI, 1981, p. 50) Eaumentava a barganha entre coronéis e governantes que tinham que alimentaras vontades políticas muito particulares dos coronéis exigindo-lhes fidelidadeincondicional. Pang afirma que: “o resultado das eleições, na PrimeiraRepública, era um produto da colaboração dos que controlavam os municípios
  • 14. 14(os coronéis), e os que controlavam o legislativo (presidente e governadores).”(1979, p. 36) Esta relação de dependência que os coronéis têm com o Estado podeser analisada de várias formas. Leal (1997, p. 70) analisa esta dependência selimitada ao momento da eleição, onde se o coronel apoiar o candidato quevencer as eleições estaduais e federais, aquele terá total liberdade política paragir no seu município. No entanto, Raymundo Faoro afirma que esta relaçãovai ser de obediência do coronel com o governador que é garantida através daautoridade da milícia estadual e também através da dependência econômicado município em relação ao Estado. Para Janotti, esta relação é estabelecidaatravés de uma política de compromissos em que os dois lados têm direitos edeveres a cumprir e exigir. Todos os aspectos que foram abordados fazem parte da caracterizaçãodo coronelismo “clássico” que durou até a década de 1930. Depois desteperíodo muitas transformações políticas ocorreram no Brasil. Getulio Vargastomou o poder e começou a estruturar sua política autoritária que seconcretizou totalmente com a implantação inconstitucional do Estado Novo. Faoro observa que com Getúlio Vargas no poder a autoridade doscoronéis enfraqueceu bastante porque “o coronel cede lugar aos agentes semi-oficiais, os pelegos, com o chefe do governo colocado no papel de protetor epai, sempre autoritariamente, pai que distribui favores simbólicos e castigosreais.” (2000, p.793) A visão deste autor não considera que houve muitosacordos políticos entre coronéis e Getúlio Vargas. Para que a estratégia políticacentralizadora de Vargas funcionasse, ele precisava de apoio em todo o Brasil.Nos municípios do interior do Nordeste e de outros lugares do Brasil, o apoiovinha dos coronéis, ainda que estes perdessem alguns dos seus privilégiospolíticos. Um deles era aceitar a nomeação dos prefeitos feita diretamente pelopresidente. O poder privado dos “coronéis” - que a instituição dos prefeitos de nomeação, doutrinariamente, visava destruir – não desapareceu: acomodou-se para sobreviver. A morte aparente dos “coronéis” no Estado Novo não se deve, pois aos prefeitos nomeados, mas a abolição do regime representativo em nossa terra. Convocai o povo para as urnas, como sucedeu em 1945, e o “coronelismo” ressurgirá das próprias cinzas. (LEAL,1997, p. 160)
  • 15. 15 Getúlio Vargas não “matou” politicamente os coronéis. Eles continuaraminfluentes em seus redutos, apesar de estarem em com menos poder. SegundoJanotti, “após a Revolução de 30 modificações são registradas nas relaçõescoronelísticas, mas não a ponto de determinar sua extinção. Não há duvida queGetúlio Vargas se valeu dos coronéis do sertão (...) para tomar o poder e nelese manter”. (1981, p. 80) Com a volta da democracia como modelo político vigente, voltaram oscoronéis a ter força com seus métodos de dominação e influencia política.Métodos que já foram abordados, mas que ganharam novas característica esua dimensão político-social aumentou muito. “O coronelismo não declinou,mas evoluiu para uma nova forma de domínio oligárquico.” (PANG, 1979, p. 62) As mudanças sócio-econômicas ocorridas no Brasil durante este períodocriou um novo coronel que está adaptado a vida multipartidária da democraciae a sua maior dependência ao governo estadual e federal. Ainda que estejaligado a uma economia tradicional. “O coronelismo demonstra, portanto, teruma estrutura bastante plástica, adaptando-se a sucessivos momentoshistóricos (JANOTTI, 1981, p. 80) Vilaça (1988) defende a idéia de que é o coronel que tem melhorescondições econômicas para trazer a modernidade para o seu reduto. Estainiciativa é uma tentativa de continuar controlando a economia local. Apesar deparecer ser um líder “moderno”, a sua postura se mantêm muito conservadorapara manter a sua autoridade política. O coronelismo para Pang (1979) teve que se adaptar ao crescimento daindustrialização e ao surgimento dos partidos políticos em 1945. Nestaadaptação, ele perdeu sua “importância militar” de representante da ordempublica que tinha poderes ilimitados no seu município. Mas ganhou novasferramentas para dominar politicamente os seus dependentes. Com o surgimento das rádios e sua ampla difusão no período do EstadoNovo, elas ganharam uma importância política no interior muito grande por tersido por muito tempo o único meio de informação das cidades do interior doBrasil. Por causa desta importância a maioria das rádios passaram a sercontroladas por grandes empresas que tinham os políticos como osempresários.
  • 16. 16 A utilização dos meios de comunicação para influenciar diretamente napolítica oficial é chamada de “coronelismo eletrônico”. Segundo Suzi dosSantos: No Brasil das duas últimas décadas, podemos estabelecera atualização do conceito de coronelismo trabalhado em Victor Nunes Leal para o de coronelismo eletrônico através da adição das empresas de comunicação de massa, em especial as de radiodifusão, como um dos vértices do compromisso de troca de proveitos. Assim, a parceria entre as redes de comunicações nacionais e os chefes políticos locais torna possível uma concentração de audiência e influência política. (2006, p. 5) Este tipo de coronelismo está totalmente inserido na realidade políticabrasileira. Mas ele precisa ser definido como um novo mecanismo dedominação que coexiste com as outras formas de dominação coronelistaclássica. O novo coronel, além de dominar os seus dependentes através defavores cotidianos como dar remédio, comida, roupa e aumentar sua influenciaem época de eleição, também controla através da informação transmitida nasrádios e canais de televisão que domina. Apesar desta aparente plasticidade política que é percebida pelatentativa dos coronéis de se adaptarem aos novos tempos, o coronelismo semostra cada vez mais enfraquecido. Mesmo que ainda existam coronéis queconseguiram se adaptar bem as novas estruturas sociais e as novastecnologias. Eles, agora, têm que disputar o poder local com outras forçaspolíticas. E quer arroteando segurança e permanência, ou, mais raramente, afetando prudência e evitando choques, se torna cada vez mais dependente, para ser forte, de forças que, se ele ainda influencia , nunca controla: depende dos governos, das polícias, dos votos; presa de uma imagem sua facilmente transfigurada pela imprensa, ou nos comícios, já permitidos, a contra gosto aos adversários. ( VILAÇA, 1988, p. 18) O coronel já não é mais o mesmo. Este contexto político democráticofacilita a entrada ao poder de pessoas que quebram a hegemonia política docoronel. O seu prestígio já não atinge tantos cidadãos, a sua clientela diminuiusignificativamente. O coronelismo vive um nítido processo de declínio. Segundo
  • 17. 17Queiroz, “o desaparecimento do coronelismo não se apresenta, pois, apenasprogressivo, como também irregular” (1979, p. 211) Esse processo de declínio do coronel é visto segundo Bursztyn “comouma “seleção natural” imposta pela modernização do capitalismo na região,conseqüência do poder econômico e político local.” (1984, p. 32) Os poucos coronéis que ainda conseguem sobreviver a este ambientehostil e que podem em pouco tempo ser extintos, vivem a própria mutaçãopolítica. “O coronel deixa de ser o sujeito da ação do estado para tornar-seobjeto” (1984, p. 31) Um objeto político que tenta revigorar o seu valor localadaptando-se aos novos contextos sócio-econômicos para manter a suaautoridade política o menos alterada quanto possível. Conceição do Coité éuma cidade que passa por este processo e para que possamos compreendercomo o coronelismo sobreviveu nesta cidade é necessário entendermos comoeste sistema político funcionou antes de sofrer significativas transformaçõespolíticas e sociais.
  • 18. 182. COITÉ DE SEU MOTA DE 1926 a 1972 A estrutura coronelística que foi discutida no primeiro capitulo sedesenvolveu em Conceição do Coité a partir da figura de Wercelêncio Calixtoda Mota, Seu Mota. Ele se tornou um coronel de patente e de poder porqueexercia o seu papel político de Coronel. Desta forma, é necessário queentendermos como se estruturou o coronelismo de Seu Mota. Discutindo assuas estratégias políticas e econômicas que se assemelham com ascaracterizadas no primeiro capítulo e também abordando as estratégiasoriginais oriundas da política local. Para analisarmos o período em queConceição do Coité teve como líder e coronel, Wercelêncio Calixto da Mota,Seu Mota, é fundamental que possamos conhecer e entender sobre a vidapessoal deste político. Seu Mota nasceu em 1894 no Arraial de Valente, que fazia parte da vilade Coité, tendo uma vida humilde e já aos três anos de idade ficou órfão de paie muito novo se mudou para a Vila de Coité distanciando-se um pouco da zonarural e tendo um contato aproximado com os comerciantes daquela vila. O quefacilitou ainda mais a aproximação de Seu Mota aos comerciantes foi ocasamento de uma de suas irmãs com um comerciante de Conceição do Coité,Abílio Araújo. Seu Mota passou a ser empregado de Abílio Araújo e com otempo se tornou sócio do próprio Abílio. Neste contexto social, o carisma de Seu Mota será um diferencialpercebido desde a sua infância. Aos dez anos de idade já chamava muitaatenção das pessoas em Coité por causa do seu carisma e por ser um meninomuito comunicativo. Com este seu jeito ele ganhou a confiança de João daPedreira, que era o Coronel João Manuel Amâncio, uma das principaislideranças locais no período imperial e também no começo da República. Estaliderança local passou a lhe tratar como o filho que ele não tinha. Podemos perceber que Seu Mota construiu a sua liderança atravésdeste dois pilares sociais que vão ser a base para o seu surgimento como umdos lideres locais. Seu Mota foi influenciado por este dois homens que tinham
  • 19. 19papéis sociais distintos, um era um comerciante, Abílio Araújo, e o outro, umpolítico, João Manuel Amâncio. Wercelêncio Calixto da Mota se desenvolveusocialmente a partir destas duas características pessoais atrelado a sua própriapersonalidade. Estes fatores vão favorecer no surgimento da figura populista ecarismática do seu personagem político que era “Seu Mota”. Diante destas características políticas podemos analisar Seu Mota comoum coronel que não se encaixa com o perfil do coronel clássico de Leal (1975)em que todo o seu domínio político está ligado a fazenda e que os seusagregados são tem uma dependência econômica direta em relação ao coronel. O perfil de Seu Mota se encaixa muito bem com o conceito de coronelcomerciante construído por Pang (1979) que considera como coronelismo arelação de dependência econômica e social que existe entre coronel eagregado sem considerar como fundamental que esta relação esteja inseridana zona rural. Por isso que este autor, afirma que esta relação pode ocorrerentre coronéis de diversos tipos sociais como coronel padre, coronel advogadoe coronel médico e também o coronel comerciante. A sua imagem de político e comerciante já estava sendo construída aospoucos. Segundo relato de Orlando Matos, Seu Mota foi candidato a vereadorjá em 1921, e ganhou, porém não foi empossado por disputas políticas queconseguiram invalidar a sua posse por causa da sua ligação familiar com ointendente Abílio Araújo. O início da sua carreira política no poder legislativo local é adiada,contudo este obstáculo não gerou repercussões negativas em sua imagem .Segundo relato de Orlando Matos, Seu Mota começa a se tornar um líderpolítico em Coité a partir de 1925, quando o Coronel João Manuel Amâncio,João da Pedreira, morre e Seu Mota se torna, literalmente, o seu herdeiropolítico. Vilaça e Alburquerque (1965, p.21) demonstram como pode aconteceresta transição política. O declínio político do coronel quase sempre provoca esfacelamento de poder, atritos e lutas políticas mais acirradas. Com o tempo, aquela forma de supremacia sócio-política se substitui por outra, mais sutil, menos ostensiva, na pessoa de um líder mais moço.
  • 20. 20 O impacto dos acontecimentos na vida política de Seu Mota é sentidorapidamente, já em 1926, ele se torna Intendente Municipal e neste mesmo anofoi o único que recebeu a Coluna Prestes em Coité. Carlos Prestes e seu grupoeram vistos em Coité como os revoltosos. Mesmo com esta imagem, Seu Motaos recebeu em seu comércio e lhes vendeu pão e bolachas. Este episódio ficoumarcado na memória dos coiteenses daquela época, o que ajudou a solidificara imagem de Seu Mota como líder político local. Como Intendente ele concretiza no poder executivo toda a sua influênciapolítica que já era exercida através do seu carisma e da sua condiçãoeconômica. Nesta época, a condição econômica era fundamental para quealguém pudesse exercer uma função política. Isto acontecia, porque os cargosexecutivos não eram decididos por eleição e sim por indicação. Então, para ser indicado era necessário que se tivesse alguma relaçãoeconômica ou familiar com os membros do governo estadual ou comdeputados que pudessem fazer esta intermediação. Segundo Pang (1975, p.21), esta condição econômica era fundamental para sustentar o coronelismoporque “ a principal função do coronelismo era a hábil utilização do poderprivado acumulado pelo patriarca de um clã ou uma família mais extensa.” Diante desta estrutura política de indicação, Seu Mota estava muito beminserido, além de comerciante, ele era representante bancário de vários bancosem Coité e também comprou a sua patente de Coronel da Guarda Nacional.Porém, segundo relato de Orlando Matos, ele não usava a sua patente deCoronel Mota preferia ser chamado de Seu Mota. Todo este dinamismo econômico demonstrado por Seu Mota faz parteda necessidade do próprio coronel trazer para a sua cidade o progresso.Segundo Vilaça (1965, p. 19) “é o coronel , consciente ou inconscientemente,um veículo de mudanças. Vê-se levado a promovê-las como que para nãoperder a iniciativa social e para assegurar seu cetro paternalista de doador decoisas, de patrocinador de causas.” Para manter este seu poder econômico e político sempre fortalecido,Seu Mota, tinha os seus parceiros políticos de oligarquia que a eles era dada aoportunidade de administrar a cidade de Conceição do Coité por indicaçãodireta de Seu Mota, inclusive João Paulo Fragoso, segundo relato de OrlandoMatos, também foi indicado por ele e conseguiu se eleger para ser o primeiro
  • 21. 21prefeito eleito de Conceição do Coité. Esta era uma das estratégias políticas deSeu Mota não controlar “totalmente” o poder em suas mãos, ele ao mesmotempo que indicava, estava dividindo um pouco o seu poder com os seusparceiros, porém mesmo fora do poder executivo oficial ele era a principalreferência política da época. Apenas João Paulo Fragoso em 1934 foi eleito para exercer o cargo deprefeito porque em 1937 Getúlio Vargas instaura no Brasil o Estado Novo eacaba com as eleições para prefeito criando o cargo de interventor federal.Esta medida atinge Coité em 1938 quando Tiburtino Ferreira da Silva énomeado interventor federal para Coité. Durante este período de intervenção federal no poder executivomunicipal, Vanilson (2002) considera que, a cidade de Conceição do Coitéficou dividida politicamente pelas oligarquias locais de Seu Mota e de EustógioPinto Resedá. Até 1948, os dois vão indicar os interventores federais em Coité,cada um favorecendo a sua oligarquia. Mesmo com este cenário político localdividido, Wercelêncio era uma grande autoridade política. Isto se confirmaquando as eleições voltam a ser realizadas em 1948 e Teocrito Calixto daCunha se elege apoiado pelo seu tio, Seu Mota, que tinha lhe indicado. É a partir deste ano que se consolida a influência política de Seu Mota edo seu partido, o Partido Social Democrata (PSD) em Conceição do Coité.Depois do mandato de Teocrito, o próprio Wercelêncio se elege prefeito deCoité em 1955, dando continuidade a sua política clientelista que o tornavacada vez mias poderoso politicamente em Coité. Ainda que ele não gostasse de utilizar o seu título de Coronel comodistinção social, as suas atitudes diante dos seus eleitores e a sua própriapostura como líder local mostram que ele tinha poderes, literalmente, de umcoronel. Desta forma, Seu Mota com sua estrutura econômica pessoal voltadapara o comércio e seus investimentos em associações culturais o tornam umcoronel “moderno” para a sua época. Estas atividades que ele realizava para manter-se no poder fazem parteda base do coronelismo, que segundo Costa Porto apud Queiroz (1976, p.197), era “a capacidade de fazer favores”, o comerciante, pequeno ou grande,aparecia realmente como alguém dotado de excelentes meios de “fazerfavores” aos outros.”
  • 22. 22 Este perfil político de coronel presente em Seu Mota se aproxima emvários aspectos do Coronel Veremundo Soares do livro Coronel Coronéis deVilaça e Albuquerque, considerando algumas diferenças sociais e até mesmoeconômicas, os dois estão participando ativamente do processo de mudançaeconômica que o nordeste esta vivendo neste período. Veremundo Soares, de Salgueiro, finalmente, é, no sertão, o coronel mais corrompido pelas novas formas sociais, o mais vizinho da modernidade. Lido, viajado, burguês em família e no trato, burguês até no status social. Fazendeiro, mas sobretudo comerciante e industrial.(...) Coronel dono de ruas, de farmácia, de maternidade, de pontos de comércio. Coronel de dar grandes festas, bastante sagaz para saber, em tempo, transmitir o seu legado político ou no pactuar com a audácia de novos valores que o desafiam. (1965, p. 45) Sua influência política era tão forte na cidade que na eleição de 1958 eleresolveu apoiar a candidatura de Emídio Ramos que era seu adversário políticoe ele venceu as eleições. Esta fato mostra a capacidade que Seu mota tinha decontrolar os seus eleitores, não penas pelo voto, mas pelo apoio políticoirrestrito. Porque as pessoas não estavam apoiando apenas o candidato aprefeito, estavam apoiando Seu Mota. Queiroz (1976, p. 197) afirma que “aexigência de um coronel, para que seus apaniguados votem em determinadocandidato – imposição muitas vezes sem apelo tem como contrapartida o devermoral que o coronel assume de auxiliar e defender quem lhe deu o voto”. Este poder político perde a sua principal representatividade que estavaconstruída na imagem de Wercelêncio Calixto da Mota. Porém, Seu Motamorre em 1959, muito embora o sua influência política continua viva no seugrupo político oligárquico. E como afirma Janotti (1984, 79), “a própria mortede um Coronel não extingue o poder coronelístico. Seu prestígio político esocial é transferido para outro indivíduo que nem sempre é um membro de suafamília.” Nas eleições de 1963, Antonio Ferreira é eleito como candidato do grupode Seu Mota. Contudo, alguns fatores significativos levaram a uma disputaeleitoral, extremamente, acirrada: O primeiro fator foi que Emídio Ramos nãotinha feito uma boa administração por causa disso a imagem de grupo ficouenfraquecida; O segundo foi que a própria ausência física e política do próprioWercelêncio enfraqueceu o “seu” candidato.
  • 23. 23 Vanilson (2002, p. 77) afirma que, Antonio Ferreira ganhou a eleição deEvódio Resedá por uma diferença de 22 votos, mas o próprio Evódio relata,que a diferença foi de apenas 11 votos e que nesta eleição o juiz eleitoral foiinfluenciado politicamente para que Antônio Ferreira ganhasse a eleição. ParaVilaça e Albuquerque (1965, p. 39) o coronelismo “utiliza-se, enfim, das maistremendas formas de fraude, usando todos os meios que pode mobilizar emfavor de seus objetivos e de sua paixão política.” Esta divisão política bipolarizada nestes dois partidos, o PR e o PSD,atinge até mesmo a Igreja que representada pelo padre Antonio Tarashi,vigário desta Freguesia , relata no livro de tombo, que “o povo está dividido emdois partidos: o PR – a maioria que pertence a este partido constitui o povomau da cidade, inclusive os maçons pertencem a este partido, e o PSD, querepresenta o povo bom da cidade.” Estes dois partidos eram as representações políticas dos coronéis nocenário eleitoral republicano. Porém, cada partido representava este gruposocial de formas diferentes. Queiroz (1976, 26-7) considera que: o P. R. é o velho Partido Republicano anterior a 1930, que fora o órgão do coronelismo rural; é, pois, um partido conservador rural.(...) É o P. S.D. a expressão da nova camada de gente rica; não criou esse partido nenhuma forma nova de participação política, exprimiu- se através do tipo coronelista. Esta divisão política feita pelo padre Antonio Tarashi está carregada dejuízo de valor e com isso podemos notar que ele defende o partido do PSDconsiderando-o como o grupo formado por pessoas, segundo ele, “boas”. Estaé uma análise política de um religioso carregada de sentidos morais quesimplifica um processo político complexo estruturado através da relação destespartidos com o objetivo de conquistar o poder local. Para Janotti (1984, p. 54), “a dominação oligárquica sempre foi violentapodendo assumir tanto formas sutis de coerção, quanto procedimentos damaior crueldade, variáveis de acordo com o lugar e a ocasião.” A disputa pelopoder entre estes dois partidos é o reflexo desta rivalidade oligárquica entre ospolíticos , Wercelêncio Calixto da Mota e de Eustógio Pinto Resedá. Eles eramas principais lideranças políticas e quando não faziam mais parte do cenáriopolítico local, estavam sendo representados por herdeiros familiares e políticos.
  • 24. 24 Contudo, este contexto político sofre uma forte modificação com o golpemilitar de 64. Ainda que Antonio Ferreira tenha continuado como prefeito, ospartido políticos são extintos e surgem apenas duas legendas; a ARENA,Aliança Renovadora Nacional que representava o governo ditatorial dosmilitares e o MDB, o Movimento Democrático Brasileiro que representava umadita oposição que não tinha liberdade de expressão. Dentro deste contexto nacional, Conceição do Coité tinha duas sub-legendas do ARENA, is quer dizer que, os dois grupos que disputavam o poderapoiavam a ditadura. O ARENA 1 representava o grupo do prefeito que era dogrupo de Seu Mota e o ARENA 2 representava o grupo liderado por EvódioResedá. O golpe militar, além de transformar a vida partidária, motiva um acordoentre os dois ARENAs que gerou a indicação de Teognes Antonio Calixto comocandidato único a prefeitura, e para que o acordo fosse selado, Teognes teriaque apoiar Evódio Resedá como candidato único a prefeito nas próximaseleições para prefeito. Porém, este acordo não foi cumprido porque houve umconflito de interesses entre os grupos e Evódio saiu candidato sem o apoio dogrupo de Seu Mota. Evódio disputou a eleição de 1970 contra Doutor Pinheiro, que era ummédico muito conhecido na cidade por atender pessoas com problemas desaúde e não cobrava aos pobres os atendimentos que fazia. Nesta eleição, Dr.Pinheiro ganhou fazendo Evódio Resedá perder novamente uma eleição paraprefeito. Dr. Pinheiro conseguiu esta vitória eleitoral não apenas por causa da suaimagem política fortalecida pelo seu assistencialismo social vinculado a suaatividade médica, também porque pertencia ao grupo de Seu Mota. Contudo,esta vitória também vai trazer para a política local um novo adversário político,Hamilton Rios, que começa uma forte campanha política para derrubar o grupode seu Mota para que ele mesmo possa se tornar o novo prefeito de Coité.
  • 25. 25
  • 26. 263. Coité de Hamilton Rios – 1972 a 1990 Neste capítulo discutiremos como Hamilton Rios conseguiu acabar coma hegemonia política do grupo de seu Mota e quais foram as permanências eas rupturas políticas que ele implantou na política local para que pudessemanter muitas características do coronelismo presentes em Conceição doCoité. Para entendermos os aspectos políticos é fundamental que possamosdiscutir também como Hamilton Rios se estabeleceu economicamente comoexportador de sisal. E como estes dois aspectos, o político e o econômico sãoessenciais para a construção da imagem do coronel é necessário que se façauma análise da sua biografia para entendermos como estes aspectos serelacionam. Hamilton Rios de Araújo antes de tornar-se um grande líder político emConceição do Coité já pertencia a uma família de prestigio nesta cidade. O seuavô, Antonio Felix de Araújo, em 1894, já tinha sido Intendente de Conceiçãodo Coité. Apesar de não ter usufruído desta vantagem de ter ser de famíliatradicional porque o seu pai herdou pouca coisa e não deu uma vida de luxo eriqueza para Hamilton Rios e seus irmãos, nesta fase da vida, Hamilon Riostrabalhou bastante na roça ajudando o seu pai que não tinha muitos recursos.Contudo, pertencer a uma família tradicional em uma cidade pequena ainda éuma forma de distinção social. Hamilton Rios começa a mudar de vida quando o seu irmão, Almir, lheconvida para trabalhar com sisal. Este seu irmão já estava começando atrabalhar com o sisal. E deu a oportunidade para Hamilton entrar no ramo,dando a ele um motor de sisal. Hamilton Rios e o seu outro irmão, Ewerton,fizeram o negócio crescer. Com os lucros iniciais compraram mais motores edepois campos de sisal para que pudessem controlar o negócio cada vez mais.Porque havia em Conceição do Coité vários comerciantes de sisal e eranecessário enfrentar esta concorrência. Nesta época, Misael Ferreira, já era comerciante, e também TeocritoCalixto da Cunha tinha uma empresa que trabalhava com sisal. E existiamcomerciantes menores, contudo a pretensão de Hamilton Rios e seu irmão,
  • 27. 27Ewerton, eram ser grandes comerciantes de sisal e foi o que aconteceu. ComoHamilton Rios percebeu a necessidade de investir em todo o processo demanufatura do sisal, porque todos os outros comerciantes inclusive elepagavam para que o sisal fosse “batido”. Então, ele comprou uma maquinapara ele mesmo “bater” o sisal e não mais depender de outra pessoa paradeixar o seu produto pronto. Com isso, ele estava controlando ainda mais oprocesso de produção do sisal e tendo cada vez mais lucros. Este diferencial comercial fez com que ele e seu irmão enriquecessemrapidamente com o sisal. Mesmo antes de tornar-se um político, ele já “batia” osisal dos outros comerciantes de Coité e região, além de já ser um exportadordo produto. Quando entra para política já estava com uma renda alta suficientepara sustentar a estrutura coronelística já existente e que ele desenvolveriaainda mais em torno de sua imagem pública. O aspecto econômico é fundamental para que o “coronel” sejacaracterizado como tal. Ele precisa ter condições financeiras pessoais parasustentar a sua política assistencialista ainda que se utilize dos recursospúblicos é necessário que o mesmo seja capaz de manter o sistemacoronelístico sem depender totalmente da prefeitura. É por isso que Queiroz (1976) considera fundamental a diferenciaçãoeconômica entre o coronel e sua clientela, era a fortuna que estabelecia aposição social dos membros da parentela, quanto mais rico mais poder tinha emais influência exercia sobre os outros membros do grupo. Hamilton Rios teve dois motivos para entrar na política, o primeiro foique ele não queria que o grupo de seu Mota continuasse no poder porque jáestava a muito tempo dominando politicamente Conceição do Coité e segundoporque Evódio já tinha sido derrotado três vezes para prefeito. Quando Dr.Pinheiro ganha as eleições contra Evódio Resedá, provocando assim a terceiraderrota do mesmo, Hamilton Rios declara para todos que será o candidato daoposição. Ele podia fazer esta declaração porque tinha alguma forma deinfluência política por causa da sua condição social e econômica. Ele fez estaafirmação sem consultar ninguém do grupo que fazia oposição a seu Mota. Eleconsulta seu Evódio apenas depois que tomou a decisão e que fez a suadeclaração, e seu Evódio concordou com a candidatura.
  • 28. 28 Esta condição de autoridade e líder que ele impõe a si mesmo diante deum grupo político enfraquecido é uma demonstração de como vai funcionar suaestratégia política. Seria ele que ditaria as regras políticas do grupo a partirdaquele momento. Hamilton Rios já era o candidato a prefeito quando aseleições tinham acabado de acontecer. Hamilton Rios pode tornar-se um líder político porque também era umlíder econômico. Faoro (2001, p. 700) considera que para um coronel tornar-seum líder político é fundamental que este poder político esteja atrelado a suacondição econômica que possa sustentar o coronelismo. Sendo um homemrico poderia exercer o seu papel político diante de seus partidários. Estemesmo poder econômico também foi demonstrado por seu Mota para lhegarantir uma autoridade local e influência política. Estes dois lideres locaissouberam utilizar o seu poder econômico com objetivos políticos que lhesgarantiu um longo período no poder. Para Janotti ( 1981, p. 69): à medida que se desenvolviam as funções urbana do município, sua importância econômica, e, consequentemente, eleitoral, também, crescia. O poder coronelístico passava, então, a ser exercido por pessoas que não detinham, necessariamente, a posse da terra. Esta foi a sua forma de entrar na política, com todo o seu podereconômico impôs uma vontade pessoal, a de ser o novo prefeito. A suacampanha eleitoral começou, exatamente, naquele momento em que disse queseria o novo candidato. Mesmo faltando dois anos para as eleições, HamiltonRios trabalhava na sua candidatura distribuindo água pelos povoados deConceição do Coité, dando cesta básica, cimento, remédio. O povo ia a suacasa pedir o que precisava e ele, para garantir a sua vitória, dava o que podia. Foi a partir desta política de assistencialismo que Hamilton Rioscomeçou a construir a sua imagem de “coronel” que para Queiroz (1979,p.176-7) faz parte da política de barganha em que o voto é usado como objetode troca por favores pessoais. Em 1974 aconteceu a eleição para a qual Hamilton Rios já faziacampanha desde 1972. Esta eleição foi disputada por dois comerciantes desisal, Hamilton Rios era um exportador do produto e Misael, um dos primeiroscomerciantes a investir nesta atividade que disputava espaço comercial com opróprio Hamilton.
  • 29. 29 Desta forma, podemos perceber como a condição econômica influenciana escolha da liderança política. Os dois candidatos a prefeito eram grandescomerciantes de sisal, e estavam em grupos políticos opostos. A disputacomercial passou também a ser uma disputa política. Contudo, a condição econômica não é o único fator que influencia emuma eleição. Outros fatores devem ser levados em consideração. HamiltonRios com a sua política assistencialista que atingia a população desde 1972influenciou muito não só na zona rural, mas também na zona urbana deConceição do Coité. E esta política foi decisiva para que ele garantisse umavitória com uma boa diferença de votos em relação aos do seu adversáriopolítico. Hamilton Rios conseguiu acabar com a hegemonia do grupo de seuMota derrotando Misael Ferreira. Dando início ao seu governo e a seu domíniopolítico sobre a cidade. É nesta eleição em que os grupos políticos de Coitévão passar a ser chamados de “vermelhos”, o grupo de Hamilton Rios, e os“azuis”, o grupo de Misael Ferreira que pertencia ao grupo de seu Mota. Como Hamilton Rios conseguiu colocar os “vermelhos” no poder e elecontrolava o poder público como prefeito, a sua política assistencialista seriafortalecida diante da necessidade econômica da maioria da população. Umaparcela desta população se torna dependente dos favores que o prefeito,Hamilton Rios, realizava e por isso era chamado de “Pai da Pobreza”. Esta era a sua principal estratégia política, tornar as pessoasdependentes do seu poder econômico e político alimentando uma relação deproximidade afetiva com os seus eleitores. A relação ente prefeito e partidáriosé a mesma do coronel e seus dependentes em que os dois influenciam aspessoas pela política, pelos favores, e pelo afeto. Hamilton Rios foi padrinho demuitos filhos de seus partidários. Isto mostra, que a sua estratégia extrapola aquestão política e econômica tendo uma relação direta com a questão pessoal. Este aspecto afetivo é demonstrado pela relação de compadrio que ocoronel estabelece com os seus dependentes. Janotti (1981, p. 58) consideraque isto ameniza as diferenças sociais entre eles. Esta aproximação favoreciaa manutenção, por parte do coronel, do seu poder. Queiroz (1979, p. 167-8)afirma que no coronelismo:
  • 30. 30 as relações pessoais envolvem a afetividade na determinação do voto, (...) apresenta na realidade como uma reciprocidade de favores, como que um contrato tácito entre o cabo eleitoral e os eleitores. Estes oferecem seus votos na expectativa de um favor ser alcançado, podendo o contrato ser rompido quando uma das partes não cumpre o que dela se espera. A sua política foi totalmente escancarada. Todos sabiam que ele“ajudava” as pessoas desta forma assistencialista. Diferente do que aconteciano período de seu Mota em que esta estratégia já era usada, mas Vanilsonafirma que era uma estratégia disfarçada com poucos favores sendorealizados. Seu Mota apesar de também manter uma relação muito pessoal com osseus eleitores não alimentava tanto este assistencialismo cotidiano. O queacontecia com mais freqüência era o clientelismo que é a troca de favores, osmais diversos possíveis, pelo voto do eleitor. Hamilton Rios desenvolve a sua política através do assistencialismo e doclientelismo. O assistencialismo ele alimenta com favores cotidianos que nãoinfluenciam diretamente nas eleições, são favores que mantêm a dependênciaeconômica dos mesmos diante da sua imagem de político e “coronel”. Oclientelismo se estrutura numa política voltada, exclusivamente, para aseleições em que são atendidos os pedidos e os favores com o objetivo diretode trocar pelos votos das pessoas. Desta forma Queiroz (1979, p. 178) considera que o eleitor não votapassivamente, ele vota consciente no candidato indicado pelo seu coronel emtroca de favores. Contudo, é difícil sustentar que este voto possa ser de algumaforma consciente, ainda que seja diante da percepção de que está negociandoo seu voto em troca de algo. Com isto, podemos perceber que o sistemacoronelístico limita a consciência política dos eleitores que não compreendem aimportância do seu próprio voto. Além desta estratégia política voltada para os seus eleitores, HamiltonRios como prefeito realizou algumas obras, como a construção do EstádioMunicipal, a reforma de escolas, posto de saúde. Realizações queinfluenciaram muito para que a sua imagem política fosse associada a de umbom “coronel”. Com todo este prestígio na cidade, as suas vontades políticascomeçaram a ganhar força e eram atendidas sem muita discussão. Como a lei
  • 31. 31não permitia a reeleição, Hamilton Rios indicou Walter Ramos como candidatoa prefeito do grupo dos “vermelhos” para as eleições de 1976. Ele foi escolhidoporque já tinha sido vereador e era muito influente nos distritos de Aroeira eSalgadália. Indicar o candidato a prefeito era uma clara demonstração de poderdiante dos seus partidários. Ele podia impor a suas vontades políticas porquesabia que não seria contestado e que tinha a seu favor o poder privado emdetrimento do poder público. Hamilton Rios desenvolveu uma relação entre opoder privado e o público muito característica do coronelismo que é fazer dopoder público parte do poder privado. Como bem afirma Leal (1997, p. 275) o“coronelismo é a incursão do poder privado no domínio público.” E com odinheiro público o coronel consegue manter a continuidade do seu sistema. Diante destes aspectos, Walter Ramos disputou a eleição contra SinvalMascarenhas em uma disputa que todos já sabiam o resultado. Walter sendoapoiado por Hamilton Rios teria a vitória garantida diante do grupo dos “azuis”que estava enfraquecido pela derrota eleitoral que sofreram por causa dopróprio “Mitinho”. Nos dois primeiros anos, Walter Ramos foi influenciado politicamente porHamilton Rios em seu governo. Porém, houve um rompimento político entreWalter Ramos e Hamilton Rios. Walter Ramos não aceitou a relação deobediência que tinha que manter com Hamilton Rios. Então, passou a negociarcom outros políticos obras para Conceição do Coité, como esses políticos nãoeram os correligionários de Hamilton Rios houve o rompimento. Esterompimento chegou ao ponto de cada um apoiar um deputado estadualdiferente para as eleições de 1978. Hamilton Rios apoiou Luis EduardoMagalhães e Walter Ramos apoiou João Emílio. Walter Ramos governou pormais quatro anos e continuava inimigo político de Hamilton Rios. Ainda nopoder Walter Ramos já apoiava Misael para prefeito e nas eleições este seuapoio enfraqueceu a candidatura de Hamilton Rios em 1982. Este enfraquecimento político foi provocado por um fenômeno que Leal(1997) já considerava presente no coronelismo que era o aumento dadependência econômica do coronel sobre os recursos públicos. A falta destesrecursos gera um significativo déficit na manutenção da política clientelistaadministrada pelo coronel.
  • 32. 32 É tanto que, Orlando Matos afirma que, a campanha de 1982 foi todafinanciada por Hamilton Rios, até mesmo porque ele não tinha acesso aoscofres públicos para que pudesse utilizar estes recursos para investir em suacampanha eleitoral. Mesmo enfraquecido politicamente Hamilton Rios aindatinha muita força econômica para garantir a sua volta para a prefeitura. Nas eleições para 1982, Hamilton Rios, apesar de estar enfraquecidopelos quatro anos de governo de Walter Ramos, saiu como candidato pelogrupo dos “vermelhos”. O enfraquecimento do seu poder político aconteceupor ter ficado distante do poder público que era uma fonte de recursosfinanceiros que ajudava a sustentar a sua imagem política. Mesmo com este enfraquecimento Hamilton Rios conseguiu vencer aseleições por uma diferença de 229 votos a mais que o seu adversário, MisaelFerreira. O resultado desta eleição demonstra como a política local seestruturava neste período. Hamilton Rios mesmo sem ter acesso aos recursos públicos para mantera sua política assistencialista conseguiu voltar a ser prefeito. Este fatoratrapalhou o desenvolvimento desta estratégia, contudo não impediu que elacontinuasse a existir porque Hamilton Rios já era um grande empresário e tinhacondições econômicas pessoais para sustentar esta política. Esta vitória eleitoral de Hamilton Rios deve ser considerada tambémpelo aspecto afetivo que o próprio Hamilton Rios construiu em sua relação comseus eleitores nesta política assistencialista que ele desenvolveu. A relação deapadrinhamento é uma demonstração da importância deste aspecto afetivo deaté que ponto esta relação pode chegar. O político tornando-se parte da própriafamília do seu eleitor. Outro aspecto que favorece o estabelecimento destarelação pessoal é o que Queiroz (1979, p. 199) caracteriza como “”carisma” –conjunto de dotes pessoais que impõe um indivíduo aos outros, fazendo comque estes lhe obedeçam, tornando suas ordens indiscutíveis justamente porqueemanam dele.” Além desta sua política assistencialista local, Hamilton Rios construiurelações políticas e também pessoais com as principais lideranças do estadoda Bahia. Como era partidário de Antonio Carlos Magalhães, ele mantinha coma ACM uma relação política em que eram negociados os apoios em eleições
  • 33. 33estaduais e os recursos e obras que seriam investidos em Conceição do Coitépelo governo estadual. Esta relação com o governo estadual faz parte da estratégia política docoronelismo que é a negociação do coronel, que manipula os seusdependentes nas eleições estaduais, com o governo estadual para barganharinvestimentos na cidade, porque o poder local ainda é muito dependente dasverbas públicas enviadas pelo governo federal e estadual. Faoro (2001, p. 708)considera que esta relação é controlada pelo governo estadual que tem osinstrumentos políticos e econômicos para submeter os coronéis ao seu poder.Isto é o que aconteceu com Hamilton Rios e ACM. A relação entre eles eraditada pelas ordens do governador que era ACM. A essência do compromisso coronelístico, para Leal (1997, p. 70), estádividida em duas partes, a primeira os chefes locais precisam apoiar,totalmente, nas eleições os candidatos estaduais e federais que fazem parte dogoverno e a segunda o governo estadual deve permitir que os chefes locaistenham total controle sobre os seus municípios. Bursztyn (1984, p. 12)também tem um posicionamento parecido ao considerar que “há uma enormeinterdependência entre os poderes central e local, em cuja essênciaencontramos os imperativos da legitimação recíproca.” Argumento este que serelaciona com a idéia de Janotti (1981, p. 59) de que o coronel é a conexão deuma teia de compromissos políticos que tem dois extremos, um é o vaqueiro, ooutro é o governador do Estado. Hamilton Rios manteve esta estratégia política praticamente intacta noseu novo governo. A sua forte política assistencialista era o que lhe mantinhano poder, tendo uma boa relação com o governo do Estado. Por isso darcontinuidade a estas relações era essencial para que ele pudesse se manter nopoder público. Contudo, durante este governo surge uma figura pública que se tornaseu concorrente utilizando a mesma política assistencialista que elealimentava. Dr. Iêdo surgirá no cenário político coiteense como a liderança quefaltava para o grupo dos “azuis”. O seu assistencialismo estava relacionado aosproblemas de saúde. Para Vanilson Lopes, ele realizava operações sem cobrarpelos custos tendo como objetivo derrotar o grupo de Hamilton Rios.
  • 34. 34 Com isso, Dr. Iêdo tornou-se o principal adversário político de “Mitinho”.Iêdo ficava cada vez mais popular por causa desta relação que ele construíacom seus pacientes. A demonstração que esta liderança estava ameaçandopoliticamente Hamilton Rios é que nas eleições de 1984 o candidato que Dr.Iêdo apoiou para governador, Waldir Pires, teve mais votos em Coité do que ocandidato de Hamilton Rios, Josafá Marinho. Este resultado repercutiu comouma ameaça à hegemonia política dos “vermelhos” em Coité para as próximaseleições municipais. Por isso, Hamilton Rios precisava escolher um sucessorpara disputar as eleições de 1988 contra Dr. Iêdo. Faoro (2001, p. 729-30) afirma que “o que mata o coronel é o próprioexercício de suas funções, em certo momento inúteis, diante dos meios diretosde convívio do governo com o povo.” E que “o coronel flutuará entre ventosadversos, triturado pelos partidos de quadros, burocratizados na suaorganização, revolvidos os próprios sertões pelas periódicas ondascarismáticas, irradiadas das cidades, nacionais em sua amplitude.” Contudo, Dr. Iêdo morre em 1987 por causa de um acidente de carro.Esta tragédia teve duas repercussões políticas importantes para Conceição doCoité. A primeira que os “azuis” não tinham outro candidato para substituir aliderança de Dr. Iêdo o que levou o grupo a ficar divido entre Misael e a viúvade Dr. Iêdo, Tânia. No final das negociações dentro do grupo, Tânia foiescolhida por um grupo totalmente esfacelado. A segunda repercussão estárelacionada à escolha do candidato do grupo dos “vermelhos”. Com a morte deDr. Iêdo e Tânia sendo a candidata, Hamilton Rios não escolhe nenhum políticoque fazia parte do grupo, mas o seu sobrinho, Ewerton Rios de Araújo Filho,Vertinho. Diante deste cenário, a eleição de 1988 foi o momento em que HamiltonRios conseguiu dar continuidade ao seu poder colocando o seu sobrinho naprefeitura. Para Janotti (1981, p. 79), esta pode ser uma tentativa de transferir asua influência política para outro membro do grupo que poderia ser o seusucessor quando o coronel morrer. Esta atitude política de escolher um membro da sua família comosucessor é um reflexo de como ele relaciona as questões públicas com asparticulares a partir da sua autoridade política que impõe a suas vontadescomo se fossem, realmente a vontade do grupo. Hamilton Rios não fez uma
  • 35. 35escolha política, ele fez uma escolha pessoal, particular em que sua família éinserida em um contexto público. Esta é uma atitude de um “coronel” em que somente ele tem voz dentrodo seu grupo político. Ainda que outros partidários tenham condiçõeseconômicas e políticas de contestá-lo preferem aceitar as suas imposições asofrer represálias ou punições políticas. E uma destas imposições é a escolhaindividual e pessoal do seu sucessor. O sucessor foi escolhido e o contexto político colaborou para que aseleições fossem vencidas por ele. Neste contexto devemos considerar a forteinfluência política de Hamilton Rios que tornou prefeito um sobrinho que eradesconhecido na cidade e a morte de seu principal adversário político, Dr. Iêdo.Eleições vencidas, começa o mandato de Ewerton Rios Filho, Vertinho, dandocontinuidade ao governo de Hamilton Rios mantendo o grupo dos “vermelhos”no poder com uma política assistencialista em que se estrutura o sistemacoronelístico. Mesmo com Vertinho no poder público efetivo quem vai manter aadministração do poder local com a sua influência política é Hamilton Rios. Hamilton Rios continua sendo a conexão entre os dois mundos docoronelismo, o mundo do vaqueiro e o mundo do governador. Mundos políticosque se relacionam na manutenção do coronelismo em Conceição do Coité.
  • 36. 36CONCLUSÃO O coronelismo é um tema que traçou diversos caminhos teóricos, dahistória factual a análise sociológica. Cada uma destas dimensõesepistemológicas deu a sua devida colaboração historiográfica como registro deuma época e como análise de uma estrutura política que ainda faz parte donosso cotidiano. O coronelismo é um conjunto de políticas assistencialistas que sãogeridas por uma autoridade local, o coronel, e que este mantêm o seu poderpolítico estabelecido através da relação pessoal com seus eleitores e danegociação eleitoral com o Estado em busca de verbas. O coronelismo não éum sistema político fechado, mas uma estrutura social e política complexa quefoi capaz de se adaptar as mudanças estruturais que ocorreram na sociedadebrasileira. O coronel é o grande personagem histórico desta história, pode serSeu Mota ou Hamilton Rios, não importa, quem controla a cidade com a suapresença e liderança é o coronel. Seu Mota, em 1930, já era um coronel comerciante que influenciavapoliticamente na cidade a partir do seu próprio comércio. A estratégia políticaque manteve a sua oligarquia muito tempo no poder foi a sua capacidade dedividir o poder local com os seus parentes e partidários, dando a eles o controleda máquina pública. No entanto, o poder político de Seu Mota estava acima docargo de prefeito ou de intendente, ele controlava politicamente a cidadeutilizando a sua influência econômica. Seu Mota foi um coronel de patente e depoder que não usava a patente mas soube usar muito bem o seu podermantendo o seu grupo político no poder executivo municipal por 40 anos. Hamilton Rios surgiu como um adversário político do grupo do Seu Motae com uma política agressiva de assistencialismo conseguiu acabar com estes40 anos de hegemonia política de Seu Mota. As estratégias políticas deHamilton Rios foram muito mais agressivas que as de Seu Mota. Enquanto SeuMota estruturava sua política clientelista na compra de votos no período decampanha e no desenvolvimento de associações culturais, Hamilton Rios
  • 37. 37construiu o seu poder político através de uma ostensiva manutenção de umassistencialismo diário, em que as pessoas não tem acesso a serviços públicosde qualidade e dependem dos seus favores para adquirirem serviços eprodutos. Este tipo de clientelismo é uma mudança significativa nacaracterização do coronelismo em Conceição do Coité. Hamilton Rios também administrou o poder local de uma forma diferenteda de Seu Mota. Ele centralizava as decisões políticas e mantinha os seuspartidários como executores das decisões tomadas. Seu Mota apesar detambém centralizar as decisões tentava dividir o seu poder com os seuspartidários, preferia tomar as decisões nos bastidores. A postura política deMitinho era outra, ele só indicava outro candidato a prefeitura porque alegislação não permitia reeleição, porque o candidato do grupo era ele.Hamilton Rios era um coronel sem patente mas que tinha muito poder eexerceu este poder quase como um coronel de patente. Muitas destas características do coronelismo ainda podem serpercebidas em nossa sociedade porque as políticas públicas básicas ainda nãoatingem a todos igualmente. Desta forma, parte da população ainda necessitapedir favores a políticos que negociam estes pedidos com os votos destaspessoas. A barganha entre políticos ainda faz parte da nossa cultura política, oprefeito negocia obras para a sua cidade em troca de apoio eleitoral aogoverno do Estado. E ainda há uma dificuldade muito grande em separar nopoder executivo municipal a esfera pública da privada. Mesmo que tenha havido muitas mudanças e adaptações o sistemacoronelístico em Conceição do Coité manteve a sua estrutura básicadesenvolvida a partir do clientelismo que alimenta a dependência econômicados eleitores em relação ao coronel e a dependência política do coronel emrelação aos eleitores. O coronelismo em Coité se transformou, mas aindapreserva muito da originalidade estabelecida por Leal. Esta transformação seestabelece a partir de novas estratégias políticas para a manutenção docoronelismo como forma dominante de poder na política local de Conceição doCoité.
  • 38. 38REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASBRAGA, Antonio Mendes da Costa. Liderança e Carisma em Padre Cícero: Umpadre coronel? In: _________ Padre Cícero: sociologia de um Padre,antropologia de um santo. Rio de Janeiro: Edusc, 2008.BURSZTYN, Marcel. O Poder dos Donos - Planejamento e Clientelismo noNordeste. Petrópolis: Vozes, 1984.BURKE, Peter; PAULA, Sergio Goes de. O que é história cultural?. Rio deJaneiro: J. Zahar, 2005.CARVALHO, José Murilo de. Mandonismo, Coronelismo, Clientelismo: UmaDiscussão Conceitual. Dados, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, 1997 . Disponívelem <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S001152581997000200003&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 01 out. 2009.CARVALHO, José Murilo de. Metaformoses do Coronel. Disponível em<http://www.ppghis.ifcs.ufrj.br/media/carvalho_metamorfoses_coronel.pdf>Acesso em: 18 set. 2009.FAORO, Raymundo. Os donos do poder: Formação do patronato políticobrasileiro. 3 ed. São Paulo: Globo, 2001.FLAMARION, Ciro Cardoso. VAINFAS, Ronaldo. (orgs.) Domínios da história:ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997.FOUCAULT, Michel. A Microfísica do poder. 10. ed. Rio de Janeiro: Graal,1992.GARCIA, Maria Tereza. Do coronelismo de enxada ao coronelismo dascâmeras e microfones: a influência do voto nas mãos dos latifundiários eempresários. Disponível em: < http://www.mercadoideias.com.br/mercado/artigos/coronelismo.pdf> Acesso em: 08 jul. 2009.JANOTTI, Maria de Lourdes M. O coronelismo: uma política decompromissos. 3 ed. São Paulo: Brasiliense, 1984.
  • 39. 39LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, Enxada e Voto: O município e o regimerepresentativo no Brasil. 4 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.LEMENHE, Maria Auxiliadora. Família, Tradição e Poder: o(caso) dos cornéis.São Paulo: Annablume, 1995.MACHADO, Paulo Pinheiro. Coronelismo “sem” enxada e “sem” voto: aspectospolíticos e sociais do coronelismo no planalto catarinense Trajetos, Fortaleza,n. 4. Disponível em: http://www.historia.ufc.br/admin/upload/Trajetos4.pdfAcesso em: 15 out. 2009.MARTINS, José de Souza. O poder do atraso: Ensaios de Sociologia daHistória Lenta. São Paulo: Hucitec, 1994.MAYER, Arno J. A força da tradição: a persistência do antigo regime (1848-1914). São Paulo: Companhia das Letras, 1990.OLIVEIRA, Vanilson. Conceição do Coité e os Sertões dos Tocós.Conceição do Coité: Clip, 2002.QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. O coronelismo numa interpretaçãosociológica. In: O mandonismo local na vida política brasileira. São Paulo:Alfa-Omega, 1976.RIOS, Iara Nancy Araújo. Nossa Senhora da Conceição do Coité: poder epolítica no século XIX. 2003. 154f. Dissertação (Mestrado em História) –Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia,Salvador, 2003.SANTIN, Janaína. Rigo. O tratamento histórico do poder local no Brasile ea gestão democrática municipal. In: II Seminário Nacional MovimentosSociais, Participação e Democracia, 1, 2007, Florianóplis. Anais... Florianóplis,UFSC, 2007. p. 323-340SANTOS, Francisco de Assis Alves. Na mira dos coronéis: cartas a umprofessor coiteense. 2000. 70f. Monografia (Especialização em EstudosLiterários) – Universidade do Estado da Bahia, Conceição do Coité, 2000.
  • 40. 40SANTOS, Suzy dos. Coronelismo, radiodifusão e voto: a nova face de umvelho conceito. Disponível em: < http: //www.enecos.org.br/xivcobrecos/textos%20site/comunica%C3%A7%C3%A3o/com%205%20Coronelismo.doc.> Acesso em: 20 maio 2008.PANG, Eul Soo. Coronelismo e Oligarquias (1889-1934). Rio de Janeiro:Civilização Brasileira, 1978.VILAÇA, Marcos Vinicios e ALBUQUERQUE, Roberto Cavalcanti. Coronel,coronéis. 3ª ed., Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1988.
  • 41. 41FONTESDOCUMENTOS DIVERSOSLivro de Tombo da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição do Coité.Jornal Tribuna Coiteense, Conceição do Coité, edições quinzenais de 1987 a1990.ENTREVISTASEvódio Ducas Resedá. Conceição do Coité, 23 de julho de 2009.Orlando Matos Barreto. Conceição do Coité. 25 de julho de 2009.Vanilson Lopes de Oliveira. Conceição do Coité. 19 de maio de 2009