A crítica orwelliana aos regimes totalitaristas hélio pereira barreto

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A crítica orwelliana aos regimes totalitaristas hélio pereira barreto

  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIADEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃOCAMPUS XIV – CONCEIÇÃO DO COITÉHÉLIO PEREIRA BARRETOA CRÍTICA ORWELLIANA AOS REGIMESTOTALITARISTASCONCEIÇÃO DO COITÉ2012
  2. 2. HÉLIO PEREIRA BARRETOA CRÍTICA ORWELLIANA AOS REGIMESTOTALITARISTASMonografia apresentada à Universidade do Estado daBahia, Departamento de Educação, Campus XIV, comorequisito final à conclusão do Curso de Letras comHabilitação em Língua Inglesa e Literaturas –Licenciatura.Prof. Dr. Luiz Antônio de Carvalho ValverdeCONCEIÇÃO DO COITÉ2012
  3. 3. HÉLIO PEREIRA BARRETOA CRÍTICA ORWELLIANA AOS REGIMESTOTALITARISTASMonografia apresentada à Universidade do Estado daBahia, Departamento de Educação, Campus XIV, comorequisito final à conclusão do Curso de Letras comHabilitação em Língua Inglesa e Literaturas –Licenciatura.Aprovada em: ___/___/___Banca examinadora_______________________________Luiz Antonio de Carvalho Valverde – OrientadoraUniversidade do Estado da Bahia – Campus XIV_________________________________________Neila Maria Oliveira SantanaUniversidade do Estado da Bahia – Campus VII_________________________________________Rita de Cássia SacramentoUniversidade do Estado da Bahia – Campus XIIICONCEIÇÃO DO COITÉ2012
  4. 4. Dedicamos este trabalho aos nossos familiares,pela contribuição ao longo de todo o sempre,aos amigos, pelas horas de conversa,aos colegas, pela jornada,e aos mestres inesquecíveis,por toda a ajuda dada.
  5. 5. AGRADECIMENTOSA Deus, em primeiro, lugar, por ter feito o homem um ser político e de pensamento livre,capaz de refletir e criticar construtivamente desde suas criaturas até seu criador.Aos meus familiares que com amor me trouxeram até aqui, apoiando sempre a jornada embusca do conhecimento como forma de dignificação do homem.Ao Profº Luiz Antonio De Carvalho Valverde, por ter acolhido o projeto e incentivado otrabalho e pelas suas brilhantes contribuições ao longo dos anos nesse curso.Aos meus professores, desde o primário até os dias de hoje, colaboradores essenciais na buscado conhecimento, em especial à professora Flávia Aninger de Barros Rocha, por despertar emmim o gosto profundo e intenso pela literatura, fosse por uma prazerosa leitura, ou uma poruma didática de entendimento da vida.Aos amigos, pela amizade, por estender a mão, apoiar e me confortar nos momentos deangústias e dificuldades, em especial a Airan Monalize Reis Mendes, por puxar minha orelhanos momentos de distração e pelos sucessivos avisos acerca das minhas obrigações.Aos funcionários do Campus XIV pela disposição em me ajudar em todos os momentos.Aos colegas, pelos momentos de alegria, convívio e apoio.
  6. 6. Welcome to your lifeTheres no turning backEven while we sleepWe will find youActing on your best behaviorTurn your back on Mother NatureEverybody wants to rule the worldIts my own designIts my own remorseHelp me to decideHelp me make the most ofFreedom and of pleasureNothing ever lasts foreverEverybody wants to rule the worldTheres a room where the light wont find youHolding hands while the walls come tumbling downWhen they do Ill be right behind youSo glad weve almost made itSo sad they had to fade itEverybody wants to rule the worldI cant stand this indecisionMarried with a lack of visionEverybody wants to rule the worldSay that youll never, never, never, never need itOne headline, why believe it?Everybody wants to rule the worldTears for Fears
  7. 7. RESUMOEste trabalho teve como objetivo, desde o início, propor um retrato da crítica orwelliana aosregimes totalitaristas da segunda metade do século XX através de uma análise sociológica epolítica do romance 1984. Tendo como ponto inspirador do projeto a leitura dessa obra deGeorge Orwell, e o entendimento da sociedade “democrática” atual como um regimetotalitário maquiado, esse trabalho se valeu da pesquisa bibliográfica na busca por subsídiosteóricos acerca da literatura e sua relação com a realidade; do totalitarismo em seus aspectosde discurso e prática, principalmente; do Neoliberalismo, entendido nesse trabalho como umregime totalitarista, por promover uma dinâmica de alienação de massas. A essas três frentesde pesquisa os principais teóricos consultados foram: Arendt (2006); Candido (2006); Betto(2012); Goldmann (1990); Llosa (2007); Lukács (2000); Orwell (1946); Trotsky (2008). Apartir das leituras feitas pudemos traças um paralelo entre as relações de influência existentesentre a Literatura, mais especificamente o romance, e a realidade. Essa linha de raciocínioservindo, desse modo, para justificar o entendimento de um romance enquanto crítica a fatosda vida real. A respeito do totalitarismo, os teóricos estudados, e os fatos históricos apontadosnos permitiram assinalar com clareza como se configuravam os regimes totalitários daprimeira metade do século XX. Por fim a análise acerca do Neoliberalismo serviu como pontochave no entendimento da atualidade do romance e a importância da leitura do mesmo para osdias de hoje. O estudo detalhado do romance, a partir das elucidações teóricas, apontou, comoesperado, a narrativa como, também, uma crítica aos regimes totalitários.Palavras-chave: Literatura. Realidade. Totalitarismo. Neoliberalismo.
  8. 8. ABSTRACTThis work had as main objective, since from the beginning, proposing a portrait of theorwellian criticism towards the first Twentieth Century half through a sociological andpolitical analysis of the novel 1984. The inspiring point of the project was the reading of thisGeorge’s Orwell book, and the understanding about the “democratic” contemporary society asa fake democratic like totalitarian regime, this work made use of the bibliographic research inseeking for theoretical subsidies about literature and its relation to reality; totalitarianism in itspractice and discourse aspects, mainly; Neoliberalism, understood in this paper as atotalitarian regime, for this promotes a dynamic of alienation of the masses. Concerning thesethree areas of research, the main consulted theorists were: Arendt (2006); Candido (2006);Betto (2012); Goldmann (1990); Llosa (2007); Lukács (2000); Orwell (1946); Trotsky (2008).Starting from the done readings we could draw a panorama of the relations of influencesexisting between the Literature and, more specifically the novel, and reality. This line ofthought then, serves to justify the understanding of a novel as a critic to real life facts. Aboutthe totalitarianism, the theorists studied, and the historical facts appointed allow us to assignwith clarity how do configure the totalitarian regimes of the first Twentieth Century half. Bythe end the analysis about the Neoliberalism served as a key point to the understanding of thenovel’s timeliness and the importance of its reading to the to-day’s days. The detailed study ofthe novel, starting from the theoretical elucidations, pointed out, as waited, the narrative, alsoso, a critic towards the totalitarian regimes.Keywords: Literature; reality; totalitarianism; Neoliberalism.
  9. 9. SUMÁRIOINTRODUÇÃO: GUERRA É PAZ, LIBERDADE É ESCRAVIDÃO, IGNORÂNCIA ÉFORÇA......................................................................................................................................91 A LITERATURA COMO DENÚNCIA, O TOTALITARISMO COMOACUSADO...............................................................................................................................111.1 Literatura x Realidade.........................................................................................................121.2 O romance como arma de denúncia....................................................................................151.3 O Totalitarismo Utópico.....................................................................................................191.3.1 Do Discurso......................................................................................................................191.3.2 Da prática.........................................................................................................................222 A FALÁCIA DO INGSOC – CARICATURA DOS REGIMESTOTALITARISTAS...............................................................................................................252.1 Os quatro ministérios e a deturpação da realidade..............................................................262.2 O Grande Irmão – O amado opressor.................................................................................353 1984 E O NOSSO TEMPO .................................................................................................383.1 A atualidade de 1984...........................................................................................................393.2 O Neoliberalismo frente a crítica orwelliana......................................................................423.3 A Polícia do Pensamento x A criação de uma cultura global – Um novo modelo decontrole......................................................................................................................................44CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................................46REFERÊNCIAS......................................................................................................................49
  10. 10. 9INTRODUÇÃO:GUERRA É PAZ, LIBERDADE É ESCRAVIDÃO, IGNORÂNCIA É FORÇAEric Arthur Blair, ou George Orwell, nasceu na Birmânia em 1903, filho de umafamília com tradição de trabalhar no setor administrativo do Império Britânico. Foi membroda Polícia Imperial na Índia, por vontade própria viveu a pobreza extrema junto com osmiseráveis de Londres e Paris, e lutou na Guerra Civil Espanhola, onde viu pessoalmente oque mais lhe atormentou na vida, um fato ser contado não da maneira como aconteceu, mascomo “queriam” que tivesse acontecido. Produziu uma grande e qualificada quantidade deensaios políticos e crítica literária, além de romances considerados clássicos da Literatura,como Animal Farm e Nineteen Eighty-four. Morreu em 1949, após publicar sua maior obra ese casar pela segunda vez, vítima da tuberculose. A biografia reduzida do autor nos conta emlinhas gerais como foi a vida dele, no entanto a sua obra prima, 1984, nos proporciona umavisão do gênio político e literário.Os três slogans do Partido são tão macabros quanto sua prática despótica e hipócrita.Os sentidos diametralmente opostos entre as ideias por trás dessas seis palavras nos indicamcerteiramente a natureza do romance de George Orwell. Winston escreve em seu diário:Para o futuro ou para o passado, para um tempo em que o pensamento é livre, emque os homens são diferentes uns dos outros e não vivem sozinhos – para um tempono qual a verdade existe e o que é feito não pode ser desfeito: Do tempo dauniformidade, do tempo da solidão, do tempo do Grande Irmão, do tempo doDuplipensar – saudações! (ORWELL, 1984, p.27) [tradução nossa]1Em um mundo onde todos são vigiados, onde duas ideias contraditórias podem serdefendidas pela mesma pessoa simultaneamente, em um mundo no qual PENSAR é crime,vive Winston Smith, funcionário do Ministério da Verdade (Mentira), único no romance amostrar de fato ter consciência da sua condição de dominado. Os três slogans do Partidorepresentam, senão, um discurso falacioso completamente contraditório da prática, enquantoque o Duplipensar dá sustentação a essa prática, pois impede o questionamento de qualquerarbitrariedade, desde que ela seja imposta pelo Grande Irmão.A narrativa de 1984 é muito rica e profícua, não por acaso o romance é clássico, e nelapodemos depreender uma série de aspectos importantes de serem estudados. Apesar disso não1To the future or to the past, to a time when the thought is free, when men are different from one another and donot live alone – to a time when truth exists and what is done cannot be undone: From the age of uniformity, fromthe age of solitude, from the age of Big Brother, from the age of doublethink – greetings!
  11. 11. 10há espaço para tanto nessa pesquisa, e nosso foco será nas características totalitárias doIngSoc, percebidas nitidamente apenas por Winston. Desiludido com sua vida solitária evazia, Winston então reflete sobre o Partido a partir de suas memórias e das evidênciasencontradas por ele. No seu caminho, ele se depara com intrigantes pessoas, como omisterioso O’Brien, a revoltosa e amante Júlia e um membro da Polícia do Pensamento,Senhor Charrington.Quando planejado, 1984 seria chamado de O último homem da Europa, no entanto,por encorajamento dos editores, Orwell mudou o título do romance fazendo uma inversãoentre os dois números finais que compunham o ano de lançamento da obra, 1948. O solitárioWinston é, de fato, o último homem na Oceania, e trava uma luta ferrenha entre sua própriafraqueza intelectual e a incontrolável sensação, quase certeza de que algo muito erradoacontecia no seu mundo, de que a vida deveria ser diferente, de que a liberdade deveria ser defato a liberdade, de que a verdade deveria existir em oposição à mentira e serem inalteráveisas suas posições.Essas características que somente Winston consegue perceber de maneira críticamarcam na voz do narrador, todo o conteúdo político de 1984, objeto desse estudo. O absurdoconceito do Duplipensar implica na total ineficácia de qualquer outro aspecto da vida humana,uma vez que nada é errado nem certo, conquanto assim deseje Grande Irmão. Desse modo omundo cinzento no qual vive o nosso herói não é tão somente aterrorizador, mas eficiente aoextremo em sua dinâmica.Em seus atos de rebeldia, Winston acredita agir sem o conhecimento da Polícia doPensamento, e ao passo que se envolve com Júlia vai percebendo aos poucos o perigo quecorre, deliberadamente tomando para si esse perigo, como se esse fosse o feito principal a serrealizado em sua vida. O personagem, no entanto, se engana, e desde o primeiro momento emque sua cabeça pensou fora dos limites do Grande Irmão, suas heresias foram vigiadas,manipuladas e gravadas, configurando um jogo de gato e rato, o qual só o Partido poderiasairia vencedor. Winston certamente acerta ao dizer: “crime de pensamento não implica emmorte: crime de pensamento é a morte”.A distopia, em sua essência, desenha um futuro inimaginavelmente sombrio edesumano. A esse contexto vemos o quanto a obra de Orwell escava o medo pelo arbítrioincontrolado. A morte a qual Winston se refere não é o cessar da vida, mas o cessar do serhumano. Esse problema, profundamente abordado em 1984, não se trata de pura invenção, e,portanto, é objeto de análise dessa pesquisa. Ler as desventuras do famigerado Winston é,senão, olhar para uma pintura que mostra o lado obscuro do totalitarismo. E qual é sua pior
  12. 12. 11faceta que não a supressão do indivíduo? A negação do ser individual em detrimento doconstruto coletivo guiado por uma só cabeça? Winston e Júlia estavam sim mortos ao serempresos, nada mais poderiam ser ou estar. A batalha era em vão, o jogo perdido, eles eram osmortos.Talvez nada desenhe melhor e mais tristemente o medo de Orwell que o parágrafofinal do romance, que a cena de Winston deixando para trás todas as dúvidas, logo elas, iníciode qualquer conhecimento novo e mais aprimorado, e aceitando em seu lugar uma certezaprofunda e forte como as raízes da castanheira: o amor pelo Grande Irmão.Nesse perturbador cenário encontra-se um terreno muito fértil a uma análise crítica esociológica da política totalitária da primeira metade do século XX. O não-lugar de Orwell seveste de aviso, se cobre de alertas para dizer ao homem: “existem verdades e não-verdades, enão se é louco por acreditar na verdade sozinho”. De modo que a modernidade tem conferidoao homem uma atualização do seu papel social, no qual esse deixa de ser agente questionadore passa a ser apenas reprodutor das “tendências” dominantes. A obra do autor inglês é demuito valor e merece ainda toda leitura crítica que puder ter. Talvez possamos traduzir esseromance em uma frase: não vença a vitória sobre você mesmo.
  13. 13. 121 A LITERATURA COMO DENÚNCIA, O TOTALITARISMO COMO ACUSADONesse capítulo abordamos três questões teóricas fundamentais para o norteamentodessa análise – A Literatura e sua relação de influências com a realidade; as bases dototalitarismo evocando aspectos como discurso, prática e políticas de repressão e por fim,avaliações teóricas acerca do Neoliberalismo. Enquanto análise de uma ficção, as duasprimeiras são essenciais, em virtude de tratar especificamente do gênero textual, enquantoforma, em voga. Em ponto inicial de pauta nos debruçamos sobre uma elucidação teóricaacerca da relação estreita que as manifestações artísticas possuem com a realidade.O ponto 1.2 desse capítulo trata do romance como arma de denúncia, apresentando ospostulados teóricos que abrangem essa força do romance. Contribuições imensas têm sidodadas ao longo da história da literatura a esse respeito, e, portanto é de inteiro interesse dessaanálise apresentar o romance sob essa perspectiva. Uma vez que a leitura/análise da obra emquestão busca delinear a crítica feita a regimes despóticos como o Nazismo e o Stalinismo,assim, inevitavelmente, o romance se transforma em uma arma de denúncia, justificandoassim essa elucidação.Por fim trataremos teórica e empiricamente do totalitarismo, de modo a mostrar suascaracterísticas tanto no âmbito do discurso como no âmbito da prática. Como objeto da críticaorwelliana, a apresentação e o entendimento acerca do totalitarismo são de vital importânciapara o andamento dessa análise. Os subsídios serão necessários para que uma relação coerentee coesa seja feita com os aspectos na obra estudados.1.1 Literatura x RealidadeLer 1984 é, sobretudo, mergulhar num mundo de extremos. Winston, nosso anti-heróipode ver quase todos, embora sem a perspectiva do leitor. Até aí tudo bem, mas será que navida os extremos são mostrados assim, deliberadamente como é na ficção? Podemos dizer quenão, que a vida real é dissimulada, no sentido de que nem sempre podemos depreender delatudo que está nas linhas e entrelinhas. Para Vargas Llosa, a literatura é, também, um modo desubmetermos a realidade a uma lupa, trazendo seus aspectos latentes ao alcance da reflexão eda análise.O mundo de suaves e/ou chocantes extremos que a literatura nos apresenta, a exemplodo romance de Orwell, percebido por uma leitura desavisada, ou seja, que desconsidere o
  14. 14. 13contexto no qual a obra está inserida assemelha-se a uma espécie sonho ou de fantasia febril,às vezes até mesmo a um pesadelo. As invenções que no romance do escritor inglês, aexemplo da Novilíngua, que no romance é uma reforma do Inglês que busca a diminuição donúmero de palavras, de modo a eliminar as possiblidades de pensamentos hereges; das Tele-Telas, aparelhos capazes de transmitir e exibir imagens, principal meio usado pelos líderes doPartido para vigiar os cidadãos da Oceania; Polícia do Pensamento, uma organização secretacapaz e investigar os pensamentos das pessoas, e que pela especialidade nessa detecção acabapor coagi-los a sequer pensar qualquer coisa contrária ao Partido, nos levam a pensar, porvezes, se tratar de ou uma obra fantástica, o que não é o caso, ou de alguma loucura queacometeu o autor. Seria dessa maneira, então, que devemos encarar a obra de George Orwell?Muitos entendidos do assunto certamente dirão que não.Vargas Llosa em A Verdade das Mentiras afirma que os romances mentem, ou emnossa hipotética leitura desavisada, devaneiam, mas, segundo ele, essa é apenas uma parte dahistória, a outra, certamente pode ser ilustrada nas palavras do peruano:A outra é que, mentindo, expressam uma curiosa verdade, que somente pode seexpressar escondida, disfarçada do que não é. [...] Os homens não estão contentescom seu destino, e quase todos – ricos ou pobres, geniais ou medíocres, célebres ouobscuros – gostariam de ter uma vida diferente da que vivem. Para aplacar –trapaceiramente – esse apetite surgiu a ficção. Ela é escrita e lida para que os sereshumanos tenham as vidas que não se resignam a não ter. No embrião de todoromance ferve um inconformismo, pulsa um desejo insatisfeito. (LLOSA, 2007,p.12).Encarando a tese de Llosa, passamos então para um novo espectro a partir do qualpodemos ler a ficção. Como uma subversora da realidade, com alento para as mazelas, asublimação de um medo, ou até mesmo o ensaio de um alerta, como poderíamos afirmaracerca de 1984.O que Vargas Llosa nos traz é muito importante, no sentido de entender o porquê deescrever e ler uma obra de ficção. Nessa perspectiva, as insatisfações e medos, os desejos esonhos de uma época, de um grupo social, são percebidos pelo artista que, segundo Goldmann(1990), alcança a “consciência possível”, que em contraste com a consciência real, é capaz deperceber as informações do mundo de um modo transcendental. Analisando por esse viés, oartista, e em consequência disso a sua obra, é capaz de traduzir esse conteúdo latente daconsciência coletiva de um determinado grupo social em algo concreto e palpável, disfarçadosob as camadas de tinta de um romance.
  15. 15. 14Antonio Candido, em Literatura e Sociedade, traz argumentos que em mão duplacorroboram e rebatem essa maneira de se analisar uma obra literária. Citando Sainte-Beauve,Candido (2006) aponta que o “poeta”, ou por assim dizer, o artista literário, não é um meroespelho da realidade, mas tem todo um aparato próprio que, o artista tem o “seu núcleo e oseu órgão, através do qual tudo o que passa se transforma, porque ele combina e cria aodevolver à realidade.” (SAINTE-BEAUVE apud CANDIDO, 2006, p. 28).Para o autor, “é necessário delimitar os campos e fazer sentir que a sociologia nãopassa, neste caso, de disciplina auxiliar; não pretende explicar o fenômeno literário ouartístico, mas apenas esclarecer alguns dos seus aspectos.” (CANDIDO, 2006, p. 28). Nessesentido, fica esclarecido que esse trabalho não vai à busca de uma tese que imponha umaexplicação ao fenômeno de criação do romance de Orwell, mas antes, busca entender algunsaspectos dessa obra, claramente manifesto na sociedade na qual viveu o autor. Candidotambém afirma que se faz necessário avaliar de que maneira a obra influencia na sociedade,de que modo ela é capaz de modificar as estruturas que a levaram a ser sublimada.Cabe agora saber quais são os fatores sociais, pelo menos os mais decisivos, queinfluem na obra, e de que maneira essa influência se realiza. Candido aponta que esses são, asaber: a estrutura social; os valores e ideologias e as técnicas de comunicação. O autor explicaque esses fatores podem influir em graus e maneiras diferentes sobre a obra:O grau e a maneira por que influem estes três grupos de fatores variam conforme oaspecto considerado no processo artístico. Assim, os primeiros se manifestam maisvisivelmente na definição da posição social do artista, ou na configuração de gruposreceptores; os segundos, na forma e conteúdo da obra; os terceiros, na sua fatura etransmissão. (CANDIDO, 2006, p. 30).Como tratamos aqui das ideologias e dos valores da sociedade da qual Orwell fezparte, está implícito que, de acordo com essa esquematização apresentada por Candido, nosconcentraremos em estudar a forma e o conteúdo de 1984. E para além desse reconhecimento,tentaremos entender, mais adiante, qual o impacto dessa obra sobre a sociedade.Nesse ponto, cabe esclarecer, teoricamente, de que maneira se desenrola a forma e oconteúdo de determinada obra literária, e mais profundamente, de que maneira essa forma eesse conteúdo abarcam as ideologias e valores de uma época. Lukács faz algumascontribuições nesse sentido:[...] Em vez de querer compreender o Helenismo desse modo, ou seja, perguntarinconscientemente como poderíamos em última instância produzir essas formas oucomo nos portaríamos se possuíssemos tais formas, mais frutífero seria indagar pela
  16. 16. 15topografia transcendental do espírito grego, essencialmente diversa da nossa, quetornou possíveis e também necessárias tais formas. (LUKÁCS, 2000, p. 28).Ao falar das formas helênicas de “perfeição impensável”, Lukács inverte o sentido dabusca, que tenta, primordialmente, imaginar essas formas em nossos dias, em nossasociedade, e imaginar qual comportamento seria o nosso se dessas formas fossemosdetentores. O teórico indica, então, que a ação correta seria descobrir qual a topografiatranscendental do espírito que tornou possíveis e também necessárias tais formas.Nesse sentido, a forma e o conteúdo de uma obra, bem como todos os “fantasmas” e“heróis” nela presentes serão resultantes, primeiro, do transcendentalismo de um povo, esegundo, do transcendentalismo do artista que, grosso modo, poderá causar estranheza ou serreconhecido de imediato de acordo com a consciência possível, no sentido goldmanniano,alcançada por esse povo. Essas considerações impõem ver a literatura como resultante de umprocesso de estímulos, como sugere Antonio Candido, a partir do qual o artista cria ecombina, fechando o ciclo com o impacto que determinada obra provoca na sociedade.Seguindo os argumentos até aqui, podemos afirmar que a literatura se ligaintimamente com a realidade, aninhando-se em um ato sexual que leva o artista a um orgasmotranscendental, visto que esse é um ser dotado de uma profunda cadeia nevrálgica, a qual lheconcede notável sensibilidade, capaz de transformar os estímulos que sua parceira lheproporciona inconscientemente. Entenda-se por parceiras as estruturas sociais que cercam oartista de estímulos e formas, levando a movimentos sensuais de criação de figuras, ícones eimagens; no ápice dessa relação, como alvo do gozo, encontra-se o público, que, sendo parteconstituinte dos estímulos sentidos pelo artista, é levado, de maneira extasiante, a umamudança interna, que acaba por fim a refletir nas estruturas sociais. Assim o ciclo secompleta, e a cada obra o gozo dessa relação amorosa entre literatura e realidade sediferencia, sem jamais deixar de existir.Essa relação íntima das estruturas sociais com a obra pode ser entendida em Lukács,quando este aponta o caráter de o homem não se achar solitário, de não ser único portador dasubstancialidade. Certamente suas palavras valem aqui de grande significado para oentendimento dessa relação.[...] o homem não se acha solitário, como único portador da substancialidade, emmeio a figurações reflexivas: suas relações com as demais figurações e as estruturas2que daí resultam são, por assim dizer, substanciais como ele próprio ou maisverdadeiramente plenas de substância, porque mais universais, mais “filosóficas”,mais próximas e aparentadas à pátria original: amor, família, Estado. (LUKÁCS,2000, p. 29).
  17. 17. 16Assim sendo, dentro da concepção de Lukács, torna-se pertinente a análise que nosleva ao apontamento dessa relação de amor entre a literatura e a realidade. O homem, ou oartista, não pode sozinho ser criador daquilo que o transcende. A dialética é intensa e coesa, enão pode o artista fugir disso sem se distanciar da “pátria original”, sem perdersubstancialidade, sem diminuir seu campo de atuação. Portanto, dizer que literatura erealidade são membros de uma íntima relação não foge ao alcance da razão, e não fere demodo nenhum o que se pode conferir como concreto e verdadeiro.1.2 O romance como arma de denúnciaEm 1984 o Partido censura e reescreve toda a produção literária do passado, além deproduzir, em escala “industrial” e de maneira artificial e sintética, ficção para os proles –classe trabalhadora da Oceania considerada à margem do mundo civilizado, o Partidoconsidera-os tão inofensivos e alienados que sequer se dá ao trabalho de vigiá-los ou puni-los;são a classe mais baixa na sociedade estruturada pelo IngSoc. Essa prática do Partido revelaalgo muito peculiar e importante sobre as obras de ficção. Se a censura e a própria confecçãoideológica desse gênero literário é feita pela casta dominante, em sentindo inverso podemosperceber o papel da ficção, do romance, como uma arma antagônica ao o opressor. VargasLlosa em a verdade das mentiras faz um relato sobre essa percepção do romance como armade denúncia contra os “arbitrários”:Os inquisidores espanhóis, por exemplo, proibiram a publicação ou importação deromances nas colônias hispano-americanas, argumentando que esses livrosdisparatados e absurdos – quer dizer, mentiroso – poderiam ser prejudiciais para asaúde espiritual dos índios. [...] Ao proibir não obras determinadas, mas um gêneroliterário em abstrato, o Santo Ofício estabeleceu algo que, a seus olhos, era uma leisem exceções: que os romances sempre mentem, que todos oferecem uma visãofalaciosa da vida. Há anos escrevi um trabalho ridicularizando esses arbitrários,capazes de uma generalização semelhante. Agora acho que os inquisidoresespanhóis foram, talvez, os primeiro a entender – antes dos críticos e dos própriosautores – a natureza da ficção e de suas propensões sediciosas. (LLOSA, 2007, p.11-12).Esse relato de Llosa é bastante pontual e põe em voga o que tratamos aqui, as“propensões sediciosas” dos romances. De acordo com a citação acima e o que segue em Averdade das mentiras, podemos contemplar o romance como um instrumento de revolta, quese opõe à ordem instalada, incita o questionamento, denuncia as mazelas, os desmandos. Não
  18. 18. 17fosse assim, não teria sentido uma casta dominante em um dado estrato social empreender auma ação contra a publicação ou importação de obras de ficção.É interessante e até fascinante pensar que Orwell soubesse de alguma maneira sobreesse aspecto da ficção, e em uma “metalinguagem literária” traduziu essa característica no seupróprio romance ao trabalhar a criação de ficção artificial ou mecânica. Os inquisidoresespanhóis, tal qual o Partido, tinham consciência do poder de transgressão e transcendênciado romance, isso os aviltou a ponto de proibirem a importação ou publicação desses livros. OPartido, não satisfeito com a censura, se dedica também a criação de romances que não são“romances”, uma vez que é sabido em 1984 que, ao contrário do que propõe Vargas Llosa,“no coração desses livros” produzidos pelo Partido não “chameja um protesto”.Goldmann (1990) aborda em Sociologia do Romance o problema do desaparecimentodo personagem, e a representação das estruturas econômicas da sociedade ocidental atravésdo fetichismo da mercadoria, proposto por Marx, e mais tarde da coisificação, com Lukács. Apartir desse processo de coisificação das estruturas no percurso da história, o sociólogo buscaachar relação desse fenômeno com a história das estruturas romanescas. A respeito disso eleaponta, em contraposição a distinção entre romance clássico e as estruturas que deram origemao romance moderno:Robbe-Grillet acaba de o dizer: o romance clássico é um romance em que os objetostêm uma importância primordial, em que só existem por suas relações com osindivíduos. Os dois períodos ulteriores da sociedade capitalista ocidental, o períodoimperialista – que se situa, aproximadamente, entre 1912 e 1945 – e o período docapitalismo de organização contemporâneo, definem-se no plano estrutural, oprimeiro, pelo desaparecimento progressivo do indivíduo como realidade essenciale, correlativamente, pela independência crescente dos objetos; o segundo, pelaconstituição desse mundo de objetos – em que o humano perdeu toada a realidadeessencial, quer como indivíduo, quer como comunidade – em universo autônomo,com sua estrutura própria, que só permite ao humano exprimir-se ainda algumasvezes e dificilmente. (GOLDMANN, 1990, p. 180).Perceber na sociedade moderna a exasperada valorização dos objetos, e o“desaparecimento do indivíduo como realidade essencial” nos leva a uma concepção dosvalores e ideologias do mundo moderno que desagregam o indivíduo do “transindivíduo” –indivíduo capaz de aglutinar e condensar o espírito de uma sociedade em determinadomomento histórico – ou consciente coletivo. Se trouxermos isso para as sociedades decontrole, nos deparamos com um estado de inconsciência no que concerne ao entendimento,que em virtude disso pode levar a uma impossibilidade de mudança consciente por parte dosseus integrantes no campo da luta de classes, da sociedade em questão.
  19. 19. 18Nesse sentido, o artista, que para Goldmann, tem a capacidade de alcançar um graumáximo de consciência possível, uma vez membro de um estrato social, é responsável porpuxar, em um pulo imaginativo e criativo, a essência dessas estruturas que obliteram oindivíduo da consciência coletiva. Em outras palavras podemos, de maneira palpável, a partirdas pesquisas goldmannianas, ilustrar também o papel de conscientização – leia-se denúncia –das formas romanescas, mais estritamente, as modernas.Para Goldmann, contrariamente, a criação cultural é movida pela aspiração a ummáximo de coerência, a um máximo de consciência possível. Essa intencionalidadenão é a vingança do recalcado contra as censuras impostas pela consciência, mas otrabalho da própria consciência em busca do esclarecimento. (FREDERICO, 2004,p.12).A visão acima apresentada empenha um pensamento analítico que nos move contra asanálises freudianas da criação cultural. Não seria sensato, todavia, desacreditar inteiramente aanálise psicanalítica das obras de ficção, no entanto, o olhar sociológico nos interessa em umnível muito mais elevado ao passo que buscamos entender em 1984 não um indivíduo, sejaele Winston Smith ou George Orwell, mas a sociedade europeia, e por que não dizer mundial,assombrada pelo medo de um domínio dos modelos políticos totalitários da primeira metadedo século XX.Na tentativa de delinear as formas romanescas enquanto arma de denúncia, cabetrazer a visão de alguém que entende, talvez nem sempre conscientemente, as intrincadasestruturas internas do romance, que sabe o seu motivo de ser, o objetivo que com sua estética,quer alcançar a forma romanesca. Vamos então à fonte de saberes que nos vai ajudar aentender o que aqui se pretende:O que eu mais tenho tido vontade de fazer durante os últimos dez anos étransformar a escrita política em uma arte. Meu ponto de partida é sempreum sentimento de partidarismo, uma sensação de injustiça. Quando eu sentopara escrever um livro, eu não digo a mim mesmo, ‘eu vou produzir umaobra de arte’. Eu o escrevo porque há alguma mentira que quero expor,algum fato para o qual quero chamar atenção, e minha preocupação inicial éconseguir audiência. Mas eu não poderia fazer o trabalho de escrever umlivro, ou mesmo um longo artigo de revista, caso não houvesse também umaexperiência estética. (ORWELL, 1946, p.5) [Tradução nossa]22What I have most wanted to do throughout the past ten years is to make political writing into an art. My startingpoint is always a feeling of partisanship, a sense of injustice. When I sit down to write a book, I do not say tomyself, ‘I am going to produce a work of art’. I write it because there is some lie that I want to expose, some factto which I want to draw attention, and my initial concern is to get a hearing. But I could not do the work ofwriting a book, or even a long magazine article, if it were not also an aesthetic experience.
  20. 20. 19O autor de 1984 e Animal Farm, em um ensaio no qual descreve os porquês de eleescrever, mostra-nos uma visão na qual, para ele, toda obra literária é política, eprimariamente, todo autor tem um impulso histórico, “o desejo de ver as coisas como elas são,descobrir fatos verídicos, e guardá-los para a posteridade” (ORWELL, 1946). Essasconsiderações escritas por Orwell nos dão um subsídio muito valoroso, nos mostram que osautores “escrevem porque há alguma mentira que eles querem expor, algum fato para o qualquerem chamar a atenção”, e isso é, de maneira viva e colorida frente a nossos olhos,denúncia. E o que Orwell tanto denunciava, como ele comenta recorrentemente no ensaiocitado, “nessa época que vivemos”?A resposta para a pergunta acima pode estar em 1984. Se lermos essa obra como umacrítica ao totalitarismo, como uma denúncia às suas complexas teias de poder e manipulaçãodas massas, a experiência nos parece natural. Nesse sentido, evidencia-se a forte tendênciasediciosa dessa obra do autor inglês. Como ele mesmo aponta em “Porque escrevo”, “Cadalinha de trabalho sério que” tem “escrito desde 1936 tem sido escrita, direta ou indiretamente,contra o totalitarismo e em prol do socialismo democrático como o” entende. Parece-lhe “semsentido, [...], pensar que alguém pode evitar escrever sobre tal.” (ORWELL, 1946).Com as palavras do autor a pularem frente aos nossos olhos, nenhuma orientaçãocontrária parece refutar a proposta de um romance como denúncia. Muito pelo contrário,George Orwell corrobora essa visão, dando-nos a valiosa credibilidade de quem escreveuromances que desempenham tão bem esse poder de denúncia. Considerações maisprolongadas mostram-se, por ora, desnecessárias, uma vez que nos parece bem colocada alinha de pensamento que ilustra a proposta dessa discussão.1.3 O Totalitarismo UtópicoA História nos mostra que na luta de classes, a classe operária, que nem sempre foi aclasse operária como conhecemos hoje, foi sempre a que levantou as revoluções sem, noentanto, ter conseguido mudanças verdadeiras em benefício próprio. Isso deu margem, emdeterminados momentos, para que homens e “partidos” se arrogassem do poder, usando paratal, um discurso pautado na utopia.A Utopia, de Thomas Moore, descreve um lugar ideal, onde todos trabalham parasatisfazer às necessidades básicas de cada um, e o desenvolvimento da sociedade se dá peloprazer da contemplação e do estudo, feito através da avaliação crítica contínua da realidade.
  21. 21. 20Na pretensão, falaciosa, diga-se de passagem, de montar uma sociedade como a descrita em AUtopia, tendo a igualdade como o eixo central, “líderes revolucionários” levaram, através dodiscurso, a classe operária a amotinar-se, a exemplo do que aconteceu na Rússia – mais tardeUnião Soviética e depois Rússia de novo – derrubando a casta dominante, levando então àclasse intelectual ao poder e mantendo a classe operária onde essa sempre esteve.Essa análise busca, de modo primordial, tratar da crítica que se desenha em 1984contra o totalitarismo utópico – no sentido do discurso pautado na pretensão inverídica deformar uma sociedade igualitária e livre – assim, faz-se importante definir, de modo histórico,através de provas documentais, como era o discurso dos regimes totalitários, e através dosescritos de críticos consagrados, que viveram, ou sentiram na pele as imposições dessesregimes, a exemplo de Hannah Arendt e Leon Trotsky, mostrar como foram, na prática, essesregimes. Posto isso, passemos então ao discurso.1.3.1 Do DiscursoFalar do discurso utópico dos regimes totalitários é passear por uma retórica muitobem desenvolvida. Caminhar sobre um terreno no qual as palavras ganham sentidos diversos,as construções intrincadas, cheias de cantos pintados em cores sortidas, penetram de maneirasorrateira a cabeça e o coração dos ouvintes, não obstante, Orwell, em 1984, descreve comdetalhes extremamente claros o estado de êxtase quase libidinoso no qual entram as pessoasdiante dos discursos inflamados do Grande Irmão.Não podemos falar de discursos dentro do totalitarismo sem falar de uma icônicafigura desse contexto: o ditador russo Joseph Stálin, um perito da oratória, capaz de formulardiscursos muito firmes e ao mesmo tempo amigáveis, exercendo sobre os ouvintes umaespécie de histeria, de transe.É uma característica marcante no discurso de Stálin, por exemplo, a conclamação aopovo, no sentido de que esse se entregue de corpo e espírito pelos propósitos da nação. Essacaracterística pode ser observada em entrevista datada de 1946, divulgada pela revista Vejaem especial online simulando uma possível cobertura da II Guerra Mundial:Acima de tudo, é essencial que nosso povo perceba o imenso perigo que ameaçanosso país, e, assim, elimine a complacência, o relaxamento e a mentalidade detrabalho pacífico e construtivo que vinha sendo tão natural antes da guerra, mas quehoje, diante de uma situação radicalizada pelas batalhas, pode ser fatal. (STÁLIN,1941).
  22. 22. 21A entrevista trata basicamente do rompimento do tratado de paz firmado entre aAlemanha Fascista e a União Soviética, e nesse trecho, Stálin referia-se às estratégias paravencer a batalha contra os alemães. Independente do clima de guerra fica claro a maneiracomo o discurso de Stálin leva a um sentimento de unidade, de igualdade entre os homens emulheres russos. Ele trata a nação e o povo como uma só unidade. “Os habitantes da UniãoSoviética, então, precisam se mobilizar e reorganizar seu trabalho em um novo equilíbrio, umequilíbrio de guerra, no qual não pode haver piedade para o inimigo.” Stálin vai além, e lançapara o povo, através do seu discurso o sentimento de ódio, capaz de incitar de maneira imoralas pessoas, tirando proveito de suas fraquezas e medos.Observando por esse viés do discurso, independentemente da prática, o comandantesupremo da União Soviética mostra-se um líder virtuoso, cheio de compromissos para comseu povo. Trotsky, em a Revolução Traída, utiliza-se de documentos diversos, comopublicações de matérias e entrevistas concedidas por Stálin para delinear o seu discurso, navisão de desse autor, falacioso.No capítulo A URSS no espelho da Nova Constituição, Trotsky inicia falando sobre aConstituição que segundo Stalin seria a mais democrática do mundo, palavras essas repetidasdiariamente pela imprensa. Diferente do que é dito por Stalin, o que ocorre na verdade, comoexplica Trotsky, é que, já no nascimento, essa constituição, de democrático nada tem.Podemos ver aqui, claramente, o que se vem discutindo:– “a mais democrática do mundo”. Muito pelo contrário, a maneira como estaConstituição foi elaborada poderia fazer nascer bastante dúvidas: nem na imprensa,nem em quaisquer reuniões, nada se disse. Ora, no dia 1º de março de 1936, Stalindeclarou a um jornalista americano, Roy Howard: “Adotaremos sem dúvida a nossaConstituição no fim deste ano”. Stalin sabia pois muito precisamente quando seriaadotada uma constituição da qual o povo ainda nada sabia. Por que razão havemosde deixar de concluir que a Constituição “mais democrática do mundo” se elabora ese impõe de maneira muito pouco democrática? (TROTSTKY, 2008, p. 249).Trotsky nos faz pensar, como algo pode ser democrático dessa maneira? O que sepode supor com maior embasamento em vista dessas apreciações é que o processo de criaçãoe imposição da constituição soviética não foi nada democrático. Adiante o autor aponta que oprojeto foi sim, submetido à apreciação, mas mostra contundentemente que isso não garantedemocracia alguma no processo:É verdade que o projeto foi, em junho, submetido a “apreciação” dos povos daURSS. Mas pode-se procurar em vão em toda a superfície da sexta parte do globo o
  23. 23. 22comunista que se permitisse criticar a obra do Comitê Central ou o sem partido queousasse discutir a proposição do partido dirigente. A “discussão” reduziu-se pois aoenvio de mensagens de gratidão a Stalin pela “vida feliz” que iria oferecer aspopulações. O conteúdo e o estilo dessas mensagens tinham sido fixadas pelaconstituição precedente. (TROTSKY, 2008, p. 249).Ao passo que vamos analisando os postulados de Trotsky, cabe entender que, não sãoapenas as palavras de Stalin, ou de qualquer outro déspota que subjugam as pessoas através deuma inflamação espiritual coletiva: todo um aparelho ideológico é montado, de modo que asideias são espalhadas com vigor, adentrando cada pessoa de maneira assombrosamente sutil.Isso pode ser verificado em diversos episódios, tanto da União Soviética “stalinista” como daAlemanha nazista.Talvez, por uma questão diferenciada do ponto de vista do discurso, não sejainteressante aqui se aprofundar em outros líderes, como seria o caso de Hitler, de Mussolini ede Franco. Ao tratarmos de 1984 estamos lidando, em via oposta ao que aponta o título dotrabalho, com uma crítica ao socialismo totalitário e déspota da URSS, sem, no entanto,negarmos que essa crítica se aplique a qualquer outro regime totalitário com teor semelhante.Sendo, enganosamente baseada nos ideais socialistas de Marx, Engels e Lênin, a Revoluçãode Outubro aplica-se com maior sensatez a essa descrição, de modo que atemo-nos aqui aosdiscursos de Stálin, enquanto líder do Partido Comunista e do regime montado após aRevolução de Outubro.1.3.2 Da PráticaComentar sobre o discurso, sobre a ideologia do totalitarismo, é, essencialmente, falarde algo diametralmente oposto à prática. O nome consagrado, totalitarismo, nos dá, bementendido, a ideia de qualquer coisa que fuja a galopadas longas do que seria uma sociedadesocialista ou comunista, que tenha como base para a sua construção a igualdade. Pois se ahistória consagrou o termo e o conceito, achamos por direito discutir a prática desses regimesde governo a partir de análises teóricas historicistas, que elucidam essa questão, fugindo daenfadonha tarefa de enumerar fatos históricos que delongariam por demasiado essa“conversa”.Por um trato mais estético, comecemos falando de algo que se distancia um pouco doassunto, mas que se aproxima do motivo dele ter sido abordado pelo autor do romance aqui
  24. 24. 23analisado. Em um ensaio intitulado “Shooting an elephant”, George Orwell narra umacontecimento que se poderia chamar de inusitado e de certa forma até corriqueiro, mas que é,para o autor, essencialmente inglório e revelador. O fato narrado ocorreu durante os anos queele trabalhou como oficial da Polícia Imperial Britânica em Burma. Um elefante adestradosaiu do controle, e estava provocando o maior frisson na comunidade, de modo que, Orwell,enquanto autoridade ali presente, devia fazer algo. O ato do autor de pedir que lhe trouxessemum rifle, vendo-se ele na necessidade de talvez matar o elefante, o leva a uma posição depoder e de subjugação. No seu relato, uma multidão de mais de duas mil pessoas oacompanhava, olhando-o, pressionando-o com uma vontade que parecia, segundo Orwell,empurrar-lhe irresistivelmente. A partir desse exemplo ele aponta um caminho inverso dasconsequências do totalitarismo:Eu percebi nesse momento que quando o homem branco se torna tirano é a suaprópria liberdade que ele destrói. Ele se torna uma espécie de manequim, posandooco, a figura convencionada de um sahib. Por que é condição de seu “mandato” queele passe a vida tentando impressionar os nativos, e então, em cada crise ele tem quefazer o que os nativos esperam dele. Ele usa uma máscara, e sua face se acostuma aela. Eu tive que matar o elefante. Eu me cometi a fazer isso no momento que mandeique trouxessem o rifle. (ORWELL, 1936) [Tradução nossa]3Observamos sempre o totalitarismo do ponto de vista do oprimido, de modoque se torna pouco frutífera a questão: por que o totalitarismo? Mas se o fizermos do ponto devista do opressor, qual seria a resposta para essa pergunta? O próprio George Orwell nos dáuma pontinha de resposta em 1984: O’Brien, ao declarar que o Partido não se interessa porriquezas nem luxo, mas sim pelo poder, puro e simples, nos faz pensar na razão pela qual umgoverno se torna totalitário. O déspota, ao se arrogar do poder, busca, de modo constante,manter-se no posto, e para tanto precisa manter a postura que lhe cabe, de modo que se tornaele também um escravo, escravo do próprio desejo, da própria loucura, da própria opressão.Essa busca pelo poder parece ser, como nos mostra a história, inerente do ser humano, mesmoque latente em alguns e mais bem definida em outros.Ao tratarmos da prática dos regimes totalitários, leia-se principalmente, Stalinismo eNazismo, estamos falando de duas vertentes de ação, uma que perpassa o discurso, sendoveículo e objeto ao mesmo tempo: a propaganda; e outra que é a violência do estado, a3I perceived in this moment that when the white man turns tyrant it is his own freedom that he destroys. Hebecomes a sort of hollow, posing dummy, the conventionalized figure of a sahib. For it is the condition of hisrule that he shall spend his life in trying to impress the "natives," and so in every crisis he has got to do what the"natives" expect of him. He wears a mask, and his face grows to fit it. I had got to shoot the elephant. I hadcommitted myself to doing it when I sent for the rifle.
  25. 25. 24imposição de ideias à força, sendo que esta segunda depende, operacionalmente, da primeira.Essa relação de dependência da segunda vertente para com a primeira se dá por conta de que,o totalitarismo, tal qual descrito por Hannah Arendt, não estaria satisfeito apenas com a possedo poder de opressão, mas, de modo a se perpetuar, necessitaria também da aprovação dopovo, e a esse propósito a propaganda se presta com total destreza. Esse caráter é muito bemdescrito em 1984, a partir de O Livro de Emmanuel Goldstein, no qual George Orwell apontaque o objetivo do poder é o poder.De modo que a história prova-nos que toda a máquina opressora um dia sucumbe àsmassas oprimidas, diferente não seria, no entanto com o modelo pensado pelos líderes dosregimes totalitaristas. A solução, então, foi encontrar uma maneira através da qual a opressãoao povo fosse vista como salvação, de modo que os assassinatos, os despóticos julgamentos, eàs forçadas confissões fossem vistas apenas como prova da importância do regime totalitário.Uma distorção tal capaz de converter o mal no bem, o déspota em democrata, a opressão emlibertação e igualdade.Arendt (2006, p.340) aponta, ao tratar sobre a publicação de documentos oficiais doperíodo de vigência do Reich, que entre os anos de 1949 e 1958 nada “aconteceu, nem”parecia “provável que” acontecesse “no futuro, que nos” apresentasse “o mesmo inequívocofim da história ou as mesmas provas horríveis, claras e irrefutáveis desse fim, como foi o casoda Alemanha nazista.” A autora assinala que apesar da abundância de material, cerca deduzentas mil páginas, dos dados estatísticos vitais, acerca do número de vítimas, por exemplo,não tinham uma indicação sequer.Revela-se aqui mais uma prática totalitarista, que é abordada de modo ininterrupto em1984, a falsificação de documentos oficiais. Mais à frente, a cientista política discorre sobreos documentos do governo comunista soviético, de modo que o que ela apresenta corroboraveementemente esse caráter escuso da documentação das atividades dos regimes totalitaristas.Os algarismos, quando surgem, são irremediavelmente contraditórios; cada uma dasorganizações fornece dados diferentes, e tudo o que ficamos sabendo com certeza éque muitos deles foram retidos "na fonte" por ordem do governo. 3Além disso, osarquivos não informam das relações entre os vários setores de autoridade, "entre oPartido, os militares e a NKVD", ou entre o partido e o governo, e silenciam quantoaos canais de comunicação e comando. Enfim, nada nos ensinam quanto à estruturaorganizacional do regime, da qual tanto sabemos no que tange à Alemanha nazista. 4Em outras palavras, embora sempre se tenha sabido que as publicações oficiaissoviéticas serviam a fins de propaganda e eram completamente indignas deconfiança, agora parece claro que nunca existiram, em parte alguma, fontes dignasde fé e material estatístico em que se pudesse confiar. (ARENDT, 2006, p.341).
  26. 26. 25Percebamos que uma análise documental, à medida do que é possível em vista daescassez de documentos, revela: primeiro no conteúdo desses documentos, as práticasnefastas dos regimes totalitaristas em termos de ações tais como expurgos, julgamentos,acusações, assassinatos entre outras práticas; segundo, na própria essência dos documentos,uma vez que esses são incoerentes no que diz respeito ao todo, deixam de revelar ligaçõesinternas do regime que são de fundamental importância para o esclarecimento de seusdesmandos.Entrando no âmbito da União Soviética, apesar de tratar exatamente do problema daescassez de documentos, Arendt golpeia categoricamente a política soviética dedocumentação dos fatos. Ela vai além, e comenta sobre o apoio das massas a esses regimestotalitários, imortalizados nas figuras “patriarcais” de Hitler e Stálin:É muito perturbador o fato de o regime totalitário, malgrado o seu caráterevidentemente criminoso, contar com o apoio das massas. Embora muitosespecialistas neguem-se a aceitar essa situação, preferindo ver nela o resultado daforça da máquina de propaganda e de lavagem cerebral, a publicação, em 1965, dosrelatórios, originalmente sigilosos, das pesquisas de opinião pública alemã dos anos1939-44, realizadas então pelos serviços secretos da SS ([...] [Relatórios do Reich.Seleção dos relatórios sigilosos colhidos pelo Serviço de Segurança da SS], Neu-wied & Berlin, 1965), demonstra que a população alemã estava notavelmente beminformada sobre o que acontecia com os judeus ou sobre a preparação do ataquecontra a Rússia, sem que com isso se reduzisse o apoio dado ao regime. (ARENDT,2006, p.339).Se a teórica alemã evoca essa questão do apoio das massas aos regimes totalitaristas,não se desvirtua observar o que diz Trotsky a respeito da relação discurso–prática–povo.Vejamos que essa relação de harmonia, forçada ou não, é complicada de ser analisada,embora possamos delimitar alguns contextos que nos guiem a um entendimento. HannahArendt refere-se a uma pesquisa de opinião feita na Alemanha. Isso nos traz, em primeirainstância, a questão da paixão racial e do antissemitismo, e apesar do terror imposto às“raças” perseguidas, um sentimento de complacência e apoio às ideias da facção nazista fluíano coração de uma grande parcela do povo alemão. Essa característica, sabemos, não éinerente ao povo soviético, ou pelo menos não a tal ponto.Bem entendida essa questão, o fato é que, tanto o discurso na União Soviética quantona Alemanha Nazista, se davam a favor do povo, contrário à prática, ao passo que a prática, sedava, de modo disfarçado, em concordância com o discurso e contra o povo. Essa relação, nãose desenha tão intricada como parece, e pode ser elucidada em A Revolução traída, em queTrotsky aponta as inconsistências e falácias da Nova Constituição. De modo que essa análiseda prática totalitarista já vem dançando melindrosamente por um longo espaço, fica essa
  27. 27. 26consideração de Trotsky como o retrato documental do que “é” e do que foram as práticas dostotalitaristas do século XX:A promessa de oferecer aos cidadãos soviéticos a liberdade de votar “nos que elesquiserem votar” é mais uma metáfora estética que uma fórmula política. Os cidadãossoviéticos não terão o direito de escolher os seus “representantes” senão entre oscandidatos que lhes serão designados, sob a égide do Partido, os chefes centrais elocais. [...] As Juventudes Comunistas perdem o direito de se ocupar de política nopreciso momento em que o texto da nova Constituição é publicado. Ora, os jovensdos dois sexos possuem direito de voto a partir dos dezoito anos e o limite de idadedas Juventudes Comunistas (vinte e três anos) não foi baixado. A política foi de umavez por todas declarada como monopólio de uma burocracia que escapa a qualquercontrole. (TROTSKY, 2008, p.255-256).Diante das demonstrações de Trotsky nada mais nos é dignado de ser dito que possaacrescentar algo novo. Fica assim então, estabelecida uma fotografia, diminuta é claro, daprática e do discurso dos regimes totalitaristas.
  28. 28. 272 A FALÁCIA DO INGSOC – CARICATURA DOS REGIMES TOTALITARISTASNa mira da presente pesquisa encontra-se uma busca por uma delineação que nosmostre claramente o porquê de considerar 1984 uma caricatura dos regimes totalitaristasregidos por personas famosas como Hitler, Mussolini e Stálin. A narrativa de George Orwellconta a história de um herói moderno, perdido no meio da esmagadora força do estado, capazde sentir-se indignado com toda a injustiça, no entanto, incapaz de fazer a diferença ou deorganizar um movimento revolucionário.A breve descrição da obra acima apresentada não contempla, contudo, o que, pelomenos do ponto de vista sociológico e político, há de mais importante na narrativa do InglêsOrwell. Winston, nosso “herói”, é o quartzo através do qual podemos enxergar todas asnuances do IngSoc; as duas faces do Big Brother; os deturpados ministérios da Paz; do Amor,da Fartura e da Verdade; o suposto dissidente Emanuel Goldstein; o medo provocado pelaPolícia do Pensamento; o Duplipensar e a Novilíngua. Todas essas características juntaslevam na busca empreitada nessa pesquisa, a uma caracterização do que podem e puderamfazer os regimes totalitaristas com os aspectos da vida humana, na direção da obliteração doindivíduo e a criação de uma massa não pensante controlada pelo sistema.Abordaremos nesse capítulo, de maneira primária, o que concerne aos quatroMinistérios da Oceania e sua deturpação da realidade, discurso e prática do Partido, o GrandeIrmão como personificação do amor e da justiça e como agente da opressão, nessa ordem.2.1 Os quatro ministérios e a deturpação da realidadeNão se poderia afirmar com certeza, mas se Orwell avaliasse quais dos Ministérios naOceania ele temeria mais, certamente diria ser o Ministério da Verdade, Minitrue emNovilíngua. Como quase tudo que fosse dominado pelo Partido, os Ministérios tambémtinham funções que se opunham totalmente às qualidades que os davam nomes. O Ministérioda Verdade tinha como principal função a alteração do passado e a falsificação de notícias, demodo que qualquer previsão, determinação ou prática do Partido nunca estivesse errada,injusta ou incoerente com o discurso atual. Em alguns de seus ensaios, George Orwelldescreve com extremo pavor a possibilidade de a realidade ser contada não como se deu, mascomo interessa a alguns.É justamente no Ministério da Verdade que trabalha Winston Smith, nosso “herói”.Sua função é reescrever notícias antigas, colocando-as em acordo com as novas necessidades
  29. 29. 28do Partido, que se desenham com apenas um objetivo, manter o poder nas mãos de quem otem.Antes de continuarmos falando dos quatro Ministérios, é preciso que se faça umaapresentação do Duplipensar, único mecanismo capaz de proporcionar o funcionamento dadistorção da realidade promovida pelo Partido. De acordo com o descrito na narrativa, oDuplipensar é a capacidade de acreditar em duas ideias diametralmente opostas e aceitar asduas como válidas. Para efeitos práticos de descrição pensemos na soma de 2 + 2, que todossabemos resultar em 4, mas que, se conveniente para o Partido for, pode ser 3, pode ser 5, outodos de uma só vez, como explica O’Brien em conversa com Winston. Assim, o Duplipensaré a capacidade de transformar uma verdade em mentira, uma mentira em verdade, esquecerque tal transformação aconteceu, e se necessário, fazer o processo inverso esquecendo-sedesse, em seguida.Talvez isso nos pareça absurdo, mas a vida real possui um sentimento, ou talvezatitude, que se parece muito com o Duplipensar, a hipocrisia. Orwell, em um de seus ensaios,trata do modo como os Ingleses são hipócritas quanto ao Império Britânico, apenas para citarum exemplo.Bem, conhecido o Duplipensar, passemos à analise dos Ministérios, que aqui importana delineação do funcionamento do IngSoc. Antes de nosso pequeno passeio falávamos doMinistério da verdade e da alteração do passado, tanto na literatura quanto nos periódicos, demodo que as palavras atuais do Partido estivessem sempre certas, tanto agora quanto nopassado, sem que nenhuma prova escrita pudesse dizer o contrário.Assim como a terceira mensagem, esta referia-se a um erro muito simples quepoderia ser corrigido em alguns minutos. Como a pouco tempo atrás, em Fevereiro,o Ministério da Fartura fez uma promessa [..] de que não haveria redução da raçãode chocolate durante 1984. Na verdade, como sabia bem Winston, a ração dechocolate seria reduzida de trinta para vinte gramas no final da presente semana.Tudo que era necessário era substituir a promessa original por um aviso de queprovavelmente seria necessário reduzir a ração de chocolate em algum ponto emAbril. (ORWELL, 1984, p. 38-39) [Tradução nossa]4O que é promovido no Ministério da Verdade vai além da simples alteração das“notícias” do Times, este também altera a literatura, os periódicos, os panfletos, e toda essaalteração passa, no fim das contas, por verdade, sem que haja nenhuma prova de que tal4As for the third message, it referred to a very simple error which could be set right in a couple of minutes. Asshort a time ago as February, the Ministry of Plenty had issued promise […] that there would be no of thechocolate ration during 1984. Actually, as Winston was aware, the chocolate ration was to be reduced from thirtygrammes to twenty at the end of the present week. All that was needed was to substitute for the original promisea warning that it would probably be necessary to reduce the ration at some point in April.
  30. 30. 29façanha tenha acontecido. É de interesse, como aponta Vargas Llosa, de todo governo quevisa à manutenção do poder, alterar o passado, de modo que estes estejam sempre com arazão. Isso o escritor peruano aponta ter sido feito pelos Incas, assim Orwell descreveu em1984, e assim ele viu acontecer, pessoalmente, durante a guerra civil espanhola.Em um estado totalitário, não somente e a opressão são capazes de manter o povosubjugado. É preciso que o Partido se afirme, que ele não se contradiga jamais, e mais queisso, é preciso que esse possa, por meio de toda sua carga ideológica, entrar no coração dosoprimidos, de modo que esses não possam, mesmo que conscientes da necessidade, se rebelarcontra o opressor.Em linhas gerais, o verdadeiro trabalho do Ministério da verdade é a propaganda,usada como força coercitiva, no sentido empregado por Arendt (1951). Quando a autoraaponta que o intuito da propaganda não é, senão, provocar um comportamento, utilizando-sedos argumentos religiosos, científicos, os preconceitos sociais e, muito frequentemente, amentira. A teórica alemã descreve e elucida a questão da propaganda nos regimes totalitários,e nossos olhares, voltados para 1984 não se enganam e veem, perfeitamente, como oMinistério da Verdade desenha-se uma caricatura muito fiel do que é o discurso ideológicopropagandista dos regimes totalitários.Tratamos inicialmente do Ministério responsável pela propaganda, e antes deprosseguirmos para os próximos, cabe mais uma pincelada no que Arendt (1951) propõe aoescrever sobre a propaganda e seu sucesso nos regimes totalitaristas. Arendt (1951, p.395)aponta que “O “coletivismo” das massas foi acolhido de bom grado por aqueles que viam nosurgimento de “leis naturais do desenvolvimento histórico” a eliminação da incômodaimprevisibilidade das ações e da conduta do indivíduo.” Nesse viés, o estado totalitário secoloca como detentor da dinâmica que move a vida, como a consciência maior, coletiva,eliminando do caráter político a individualidade e suas divergências. Na narrativa do romanceo Partido se declara de tal modo, como consciência imortal e infalível, justamente por sercoletiva:Mas eu te digo Winston, que a realidade não é externa. A realidade existe na mentehumana, e em nenhum outro lugar. Não na mente individual, que pode cometererros, e de todo modo logo se perde: apenas na mente do Partido, que é coletiva eimortal. O que quer que seja que o Partido acredite ser a verdade é a verdade. Éimpossível ver a realidade senão olhando pelos olhos do Partido. (ORWELL, 1984,p. 251) [Tradução nossa]55But I tell you, Winston, that reality is not external. Reality exists in the human mind, and nowhere else. Not inthe individual mind, which can make mistakes, and in any case soon perishes: only in the mind of the Party,
  31. 31. 30Evidente que toda pretensão de uma análise direta e com nuances de prescriçãoincorrigível é perigosa e passível de erros, no entanto, não é necessária nem mesmo uma boavontade muito grande para perceber quanto dessa carga de ficção, no sentido dado por Arendt,imposta pela propaganda dos regimes totalitários, está presente em 1984. Se a mente coletiva,pretendida pelos regimes totalitários agem assim, de maneira onipresente e infalível, isso sedá apenas pelo discurso falacioso, umas vez que a abolição do indivíduo aprisiona a sociedadee poda, com o passar do tempo, qualquer possibilidade de rebelião.Sem dúvidas, um aparelho ideológico contundente é base central para qualquergoverno totalitarista, no entanto, outras maneiras de opressão e controle são necessárias, poissão também, capazes de manter as pessoas focadas em sua devoção pelo opressor.O Ministério da Fartura e o Ministério da Paz podem ser colocados no mesmopatamar, pois tratam de coisas semelhantes, de acordo com o que o próprio Orwell constrói noromance. O primeiro, como já ficou claro, ocupa-se com a fome e a miséria. É o Ministérioresponsável pela produção e distribuição de todos os bens produzidos na Oceania. O que aprincípio não tem nada de incomum. No entanto, se observarmos o que já foi descrito sobre oMinistério da Verdade, perceberemos que, intimamente, a principal função do Ministério daverdade não é, por uma maneira ou por outra, promover o bem estar social. No mesmosentido, o Ministério da Fartura tem como finalidade promover fome e miséria na Oceania.Essa constatação tem sua importância explicada por O’Brien:“O poder verdadeiro, o poder pelo qual temos que lutar dia e noite, não é o podersobre as coisas, mas sobre o homem.” Ele pausou, e por um momento assumiunovamente seu ar de professor questionando um aluno promissor: “Como umhomem afirma o seu poder sobre outro?” [...] “Exatamente, fazendo-o sofrer.Obediência não é suficiente. A menos que ele esteja sofrendo, como você pode tercerteza que ele está obedecendo a sua vontade e não a dele? Poder está em infligirdor e humilhação. Poder está em quebrar uma mente em pedaços e depois coloca-losjuntos em novas formas da sua escolha.” [...] Se você quer uma imagem do futuro,imagine uma bota pisando em uma face humana – para sempre.” (ORWELL, 1984,p. 268-270) [Tradução nossa]6which is collective and immortal. Whatever the Party holds to be truth, is truth. It is impossible to see realityexcept by looking through the eyes of the Party.6“The real power, the power we have to fight for night and day, is not power over things, but over men.” Hepaused, and for a moment assumed again his air of schoolmaster questioning a promising pupil: “How does oneman assert his power over another, Winston?” […] “Exactly. By making him suffer. Obedience is not enough.Unless he is suffering, how can you be sure that he is obeying you will and not his own? Power is in inflictingpain and humiliation. Power is in tearing human minds to pieces and putting them together again in new shapesof your own choosing.” […] “If you want a picture of the future, imagine a boot stamping on a human face –forever.”
  32. 32. 31O que O’Brien fala para Winston parece devaneio e alucinação, no entanto tem umfundo muito coerente. Seguindo os princípios do Duplipensar, o nome do Ministério daFartura é um antagonismo direto à sua função. Essencialmente, a função desse ministério épromover o sofrimento, a fome, a miséria na sociedade da Oceania. Não é de interesse doestado que as pessoas tenha um bom padrão de qualidade de vida. Não é de interesse doestado que as pessoas tenham suas necessidades básicas satisfeitas inteiramente, de modo adar-lhes qualquer que seja a possibilidade de prazer, satisfação ou conforto.No funcionamento do Partido, os membros têm diversas funções nas fábricas, noscampos, na burocrática administração, entre outras tarefas. O que chama a atenção é que aprodução declarada de bens de consumo é enorme, porém, a maior parte da população viveprecariamente, com porções “muito bem racionadas” de comida, roupa, produtos de higienepessoal e alguns prazeres. Isso faz parte das ações de opressão e controle. Fica, então, apergunta, aonde vão parar todas as riquezas produzidas que não servem, por deliberado intuitodo Partido, para aumentar o padrão geral de qualidade de vida das pessoas?É nesse ponto que cabe mostrar como os Ministérios da Fartura e da Paz podem sercolocados no mesmo patamar, e ainda mais, como a atuação do último influencia no sucessodo primeiro. Sendo função de o primeiro promover a precariedade da vida ao privar aspessoas de terem acesso aos bens produzidos, é necessário para que esse trabalho sejarealizado de maneira satisfatória, que os bens de consumo, ou que a força de trabalho dosmembros do Partido e dos proles seja gasta, “desperdiçada” por algum evento justificável enecessário, de modo que, mesmo que sofrendo, as pessoas acreditem sofrer para o bem danação.Quando Arendt (2006) toca no assunto ficção, em Origens do Totalitarismo, referindo-se à propaganda, ela nos traz também um fecundo material para decifrar o que se esconde portrás do Ministério da Paz. Também, pelos princípios do Duplipensar, a função do Ministérioda Paz é promover a guerra. O fato é, como explica Orwell no livro de Goldstein, não há maisnada pelo que lutar, pois a produção de bens de consumo passou a ser suficiente nos trêssuperestados, Oceania, Eurásia e Lestásia. Nesse sentido fica a pergunta: qual o motivo daguerra então? A resposta, de acordo com o pretendido por Orwell encontra-se em um trechodo livro de Goldstein:O objetivo primário da guerra moderna (de acordo com os princípios doDuplipensar, esse objetivo é simultaneamente reconhecido e não reconhecido peloscérebros dirigentes do Partido Interno) é gastar os produtos da máquina semaumentar o padrão geral de vida. Desde o fim do século XIX, o problema sobre oque fazer com o superávit dos bens de consumo tem sido latente na sociedade
  33. 33. 32industrial. [...] O mundo de hoje é um lugar nu, faminto e dilapidado, se comparadocom o mundo que existiu antes de 1914, e ainda mais se comparado com o futuroimaginário que as pessoas daquele período esperavam. (ORWELL, 1984, p. 189-190) (Tradução nossa)7Causa choque ver uma descrição como essa dos objetivos de uma guerra, no entanto, adistopia orwelliana se dispõe justamente a esse papel. O caminhar junto do Ministério daFartura e da Paz, portanto, segue, tal como os outros dois Ministérios, o dever de manter umasociedade hierárquica. Não obstante, toda a conjuntura planejada e executada pelo Partido évoltada a uma manutenção ininterrupta do poder.A combinação das ações desses dois Ministérios implica em uma sociedade vivendoem condições que não lhes permite a faculdade plena de pensar. Seja pela ficção epropaganda, seja pela carga horária de trabalho e condições de vida precárias, a capacidadedas massas menos abastadas de se rebelar e tomar o poder da improdutiva casta dominante érelegada silenciosamente.Mais adiante o livro de Goldstein aponta, também, qual o problema em uma sociedadecom um padrão geral de vida elevado, e qual o perigo disso para o Partido, o que deixa claroentão, todo o enfoque dado na guerra pelo Partido, e mais que isso, o fato de que ela, sejacontra Eurásia ou Lestásia, seja ininterrupta e permanente.No romance esses aspectos dos Ministérios da Fartura e da Paz não são tãoprofundamente discutidos, mesmo assim, a delineação aqui feita aponta para quais aspectosda vida na Oceania são realmente controlados por esses dois órgãos. Poderia dizer-se que otrabalho mais eficiente de controle fica por conta desses dois Ministérios, uma vez que eles,juntos, promovem o que se tem de mais geral na opressão e no controle exercido pelo Partidosobre os membros do Partido Externo e sobre os proles. Para explicar melhor a qual tipo desociedade o Partido rejeita, cabe olhar mais um trecho do que diz o livro de Goldstein:Seria possível, sem dúvida, imaginar uma sociedade na qual a riqueza, no sentido deposses pessoais e luxos, fosse dividida igualmente, enquanto o poder permanecerianas mãos de uma pequena e privilegiada casta. Mas na prática essa sociedade nãopoderia se manter estável por muito tempo. Por conta que lazer e tranquilidadeseriam provados por todos, a grande massa de gente que normalmente estáestupefata pela pobreza se tornariam letradas e aprenderiam a pensar por elesmesmos; e uma vez que eles tivessem feito isso, cedo ou tarde perceberiam que aminoria privilegiada não tem nenhuma função e eles os varreriam da sociedade. Em7The primary aim of modern warfare (in accordance with the principles of doublethink, this aim issimultaneously recognized and not recognized by the directing brains of the Inner Party) is to use up the productsof the machine without raising the general standard of living. Ever since the end of the nineteenth century, theproblem of what to do with the surplus of consumption goods has been latent in industrial society. […] Theworld of to-day is a bare, hungry, dilapidated place compared with the world that existed before 1914, and stillmore so if compared with the imaginary future to which the people of that period looked forward.
  34. 34. 33longo prazo, uma sociedade hierárquica somente seria possível na base da pobreza eda ignorância. (ORWELL, 1984, p.191) (Tradução nossa)8Até agora foi traçado um panorama que mostra com a sociedade da Oceania écontrolada e de que maneira os Ministérios deturpam a realidade de modo a promover aconjuntura necessária para controlar o povo. Faltando ainda falar do Ministério do Amor,descrito no romance como o mais assustador, tanto pelo nome quanto pela sua construção,sem janela, e completamente cercado nas proximidades. Esse último Ministério, para finspráticos de trabalho, pode ser chamado de sanatório.Em uma sociedade onde todo pensamento contrário ao do partido dominante é, quaseque totalmente, impossível de ser formulado em virtude de todo o trabalho de lavagemcerebral e medo, ódio aos inimigos e devoção ao Grande Irmão, auto humilhação e aceitaçãodo Partido como a única verdade e a única razão, é necessário que se tenha também ummecanismo de punição, de rendição, de “cura”, para aqueles que mesmo no meio de toda aconjuntura não são capazes de aceitar e enxergar a “verdade”.Com Winston, nem mesmo toda a trapaça, ficção, propaganda e opressão fizeram oefeito desejado pelo Partido. O solitário herói de 1984 é o único que se mostra capaz, nanarrativa, de perceber o absurdo que é o Duplipensar, a deslavada alteração do passado, etalvez o pior de tudo, a vida dura, precária e ignóbil que os membros do Partido Externoengoliam alegremente e com extrema gratidão. O tema central da história, no fim das contas,se passa pela rebelião de Winston, o sucesso momentâneo e por fim a queda. Tudo issovigiado, durante sete anos, por O’Brien, pela Polícia do Pensamento, pelo Ministério doAmor.Quando toda a conjuntura falha, quando toda a propaganda e ficção são ineficientes,quando a miséria e o sofrimento são incapazes de criar em qualquer que seja o membro doPartido, o Ministério do Amor então intervém, fazendo com que o herege, o rebelde converta-se e saia do seu estado latente de “loucura”. Essa intervenção, que à primeira vista podeparecer uma simples tortura, para conseguir a confissão, e então o enforcamento oufuzilamento como castigo vai, no entanto, muito além e tem como princípio ideológico algomuito simbólico e importante para o IngSoc e seus princípios.8It was possible, no doubt, to imagine a society in which wealth, in the sense of personal possessions andluxuries, should be evenly distributed, while power remained in the hands of a small privileged caste. But inpractice such a society could not long remain stable. For if leisure and security were enjoyed by all alike, thegreat mass of human beings who are normally stupefied by poverty would sooner or later realize that theprivileged minority had no function, and they would sweep it away. In the run, a hierarchical society was onlypossible on a basis of poverty and ignorance.
  35. 35. 34Nas palavras de O’Brien para Winston, nenhum dos crimes que este cometeu foram dealguma importância, apenas o pensamento herege importava. Isso talvez não conte muito bemqual o trabalho maior do Ministério do Amor, porém nos aponta para o caminho certo, a partirdo qual podemos trilhar, respondendo à seguinte questão: se uma sociedade dominada evigiada, subjugada pela fome, miséria e o terror da guerra é a base para a manutenção dopoder nas mãos de alguns, qual o perigo de alguém pensar diferente, de ser um lunático ouinsano, como define O’Brien acerca de Winston?A resposta para essa pergunta é bastante interessante, embora não seja difícil decompreender. Quando o Partido diz que Ignorância é Força, Liberdade é Escravidão E Guerraé Paz ele impõe a todos um lema antagônico, absurdo e nada natural.No entanto, toda aconjuntura montada pelo Partido, auxiliado pelos princípios do Duplipensar, leva a umaaceitação livre de coração e alma desses slogans arbitrários e contraditórios. Isso nos mostraquão simples é a ideia por trás da opressão produzida pelo Partido, esse conceito delibera quetodos devem ter como verdade, como razão, o que diz o Partido, o que diz o Grande Irmão;que todos devem ter como amor o amor pelo Partido, o amor pelo Grande irmão, e como ódioapenas o ódio pelos inimigos do Partido, que é apenas por esse definido.Não se encaixar nessa ortodoxia é o mais grave dos crimes, como constata Winston,ao escrever: “Crime de Pensamento não condena à morte: crime de pensamento É a morte”.(ORWELL, 1984).9Isso porque, como já foi mencionado anteriormente, o poder desejadopelos “manipuladores sem face” personificados no Grande Irmão é o poder sobre as menteshumanas, o poder de destruí-las e refazê-las em diferentes formas a seu bel prazer.“Onde não há luz” encontra-se o herege e seu inquisidor, no enorme prédio semjanelas, no Ministério do Amor. A função do desse Ministério tem tudo a ver com o amor,com a devoção e o sentimento paternal pelo salvador de alguém. No entanto o único amor, aúnica devoção e sentimento paternal é todo do Grande Irmão, não há amor que não peloGrande Irmão, nem devoção. É o Ministério do Amor o responsável pela Polícia doPensamento, o responsável pelas prisões, pelos interrogatórios e pelas execuções. Mas acimade tudo, acima de todas as coisas, é o responsável pela cura, pela transformação do herege emum exemplar membro do Partido, em um amante do Grande Irmão.“Você está progredindo. Intelectualmente há pouca coisa de errado com você. Éapenas emocionalmente que você tem falhado em progredir. Diga-me, Winston – elembre-se, sem mentiras: você sabe que eu sempre sou capaz de detectar umamentira – diga-me, qual seu verdadeiro sentimento pelo Grande Irmão?” “Eu o9Thoughtcrime does not entail death: thoughtcrime IS death
  36. 36. 35odeio.” “Você o odeia. Certo. Então chegou o tempo de você dar o próximo passo.Você deve amar o Grande Irmão. Não é suficiente obedecê-lo: você deve amá-lo.”(ORWELL, 1984, p. 284) (Tradução nossa)10Claro está que o Partido aprisiona não o corpo da pessoa, não as ações no sentidofísico, mas suas emoções e seus pensamentos, convergindo todos eles para o Grande Irmão.Enforcar ou fuzilar o herege não é suficiente, é preciso primeiro que ele seja aprisionado,transformado e convertido. Finalizando bem essa questão, Orwell apresenta na narrativa quãoimportante é a liberdade individual de amar ou odiar a quem você bem entender, de pensar oque lhe convir, de conhecer a verdade pelos seus olhos e julgá-la pelos seus princípios, nãopelo Partido, pelo Grande Irmão.Um dia eles decidiriam executá-lo. Não seria possível dizer quando aconteceria, masdeveria ser possível adivinhar alguns segundos antes. Era sempre pelas costas,andando em um corredor. Dez segundos seriam suficientes. Naquele momento omundo dentro dele poderia se entregar. E então, de repente, sem nenhuma palavradita, sem verificar o seu passo, sem mudar uma linha na sua face – de repente acamuflagem viria abaixo e bang! Iria as baterias do seu ódio. O ódio o invadiriacomo uma enorme chama crepitante. E quase no mesmo instante bang! iria a bala,muito tarde, ou muito cedo. Eles poderiam ter estourado o seu cérebro antes derecuperá-lo. A heresia seria impune, sem arrependimento, fora do alcance deles parasempre. Eles teriam feito um buraco em sua própria perfeição. Morrer odiando-os,isso seria liberdade. (ORWELL, 1984, p.283) (Tradução nossa)11Estender ainda mais a discussão sobre os Ministérios do IngSoc e suas funções não semostra mais uma tarefa fecunda. Pôde ser visto na análise até aqui feita como os quatroórgãos desempenham papéis importantes, individuais, mas que fazem efeito apenas emconjunto, para o controle e a manutenção do poder na Oceania. O Partido é imortal, é perfeitopois nega-se, inimaginável possibilidade essa, a aceitar que mesmo um pensamento contrárioas suas doutrinas possa existir sem que eles tenham a oportunidade de muda-lo. O papel dapropaganda e da ficção gera o pensamento geral desejado para cada uma das classes. Osofrimento com a fome, a miséria e a guerra gera a obediência mais sincera. Por fim, o queescapar a esses métodos ficará a cargo do Ministério do Amor. O Grande Irmão será amado,10“You are improving. Intellectually there is very little wrong with you. It is only emotionally that you havefailed to make progress. Tell me, Winston – and remember, no lies: you know I am always able to detect a lie –tell me, what are you true feelings for the Big Brother?” “I hate him.” “You hate him. Good. Then the time hascome for you to take the last step. You must love Big Brother. It is not enough to obey him: you must love him.”11One day they would decide to shoot him. You could not tell when it would happen, but a few secondsbeforehand it should be possible to guess. It was always from behind, walking down a corridor. Ten secondswould be enough. In that time the world inside him could turn over. And then suddenly, without a word uttered,without a check on his step, without the changing of a line in his face – suddenly the camouflage would be downand bang! would go the batteries of his hatred. Hatred would fill him like an enormous roaring flame. Andalmost in the same instant bang! would go the bullet, too late, or too early. They would have blown his brain topieces before they could reclaim it. The heretical thought would be unpunished, unrepented, out of their reachfor ever. They would have blown a hole in their own perfection. To die hating them, that was freedom.
  37. 37. 36o Partido dirá sempre a verdade e ninguém mais, essa é a lei na Oceania, esse é o trabalho doMinistério do Amor.2.2 O Grande Irmão – O amado opressorNesse capítulo faremos uma análise acerca dos aparelhos de controle usados peloPartido, os quais seguem os princípios do IngSoc, e de que maneira esses instrumentos sãocapazes de modificar/deturpar a realidade de modo a promover uma massa mesmificada,incapaz de rebelar-se organizadamente. Esses organismos buscam, também, varrer para oinfinito do esquecimento qualquer tentativa individual de rebelião através de uma conversãogenuína e verdadeira à “causa” do Partido. Deve ser esclarecido, mais adiante, que o Partido éuma organização, em certa proporção, sem faces e sem nomes por trás. A personificação dosgovernantes, manipuladores sem face, como aponta Orwell através do narrador do romance, éo Grande Irmão, ícone máximo da opressão em nome do amor, do autoritarismo em nome dosocialismo, da mentira em nome da verdade. É do Grande Irmão que a análise agora se ocupa.A importância do Grande Irmão é inegável, afinal “ele é imortal”. O Grande Irmão é osalvador de toda a Oceania e sua benevolência para com os camaradas infinita. O GrandeIrmão é severo e tem mãos de ferro para lidar com os inimigos do povo da Oceania. O GrandeIrmão é amado, pois é o líder supremo e de suas ordens apenas justiça pode ser retirada,apenas a verdade vem acompanhada.A configuração política do Partido é bastante interessante no que concerne a algunsconceitos alheios ao romance. Enquanto que o status de líder nas sociedades que conhecemosrealça em cores bem pomposas o fascínio exercido pelo poder, com o IngSoc o anonimato doslíderes é a garantia maior de seu sucesso. A divisão entre Partido Interno e Partido Externoesclarece bem quem controla, quem é controlado e quem não é controlado porque não fazdiferença se é ou não. Contudo, o que importa mais primariamente nesse momento são osmandatários anônimos, mais precisamente a sua personificação, o Big Brother.Usar uma única figura, a qual ninguém jamais viu nem jamais verá pessoalmentecomo líder máximo da Oceania é um modo de convergir, como é convergido, todo amor eadmiração, alienada, diga-se de passagem, das pessoas para um único ponto, de modo que aconcentração aumenta, exponencialmente, a genuinidade desses sentimentos. Já foimencionado nesse trabalho que todo o discurso do Grande Irmão, do líder totalitário, é
  38. 38. 37astutamente elaborado e apoiado pelo Duplipensar de modo que qualquer atrocidade contra opovo pareça ser por seu próprio benefício.Winston sabe, como mais ninguém no romance parece realmente saber12, que o que oGrande Irmão diz e faz não tem nenhuma relação com a realidade. Ele sabe que o amordeclarado pelo líder da Oceania por seu povo não existe, embora não tenha, em toda anarrativa, a certeza de se o Grande Irmão é real ou não. Esse fato nos impõe em umaencruzilhada que divide o caminho para o mesmo destino em duas distintas estradas. Naprimeira, temos um Grande Irmão protetor, o salvador da revolução, aquele que trouxe paratodos uma vida melhor; na segunda estrada temos um discurso falacioso, engolido graças alavagem cerebral coletiva promovida pelo Duplipensar, discernido por Winston.Nessa dualidade pode-se estabelecer o termo amado opressor para designar o GrandeIrmão, e apontando como principal função o desvio da atenção do povo sobre os“manipuladores sem face” do Partido Interno para um líder infalível, inatingível e invencível,capaz de confortar com amor incondicional, mas com a mão pesada para castigar os inimigosda revolução.Definir o Grande Irmão com esse termo importa no entendimento da obra, pois retrataquanto de Grande Irmão alguns déspotas tiveram em suas atuações políticas em países ondese instalou alguma forma de poder totalitário. O entendimento mais claro dessa proposta deanálise pode ser esclarecido facilmente ao se observar os Dois Minutos de Ódio, ondeEmmanuel Goldstein é mostrado como o maior inimigo do povo, um dissidente que tomouparte na revolução quase que no nível do Grande Irmão. A narrativa segue descrevendo comoGoldstein era visto pelo povo da Oceania:Como de costume, a face de Emmanuel Goldstein, o Inimigo do Povo, apareceu natela. Houveram assobios aqui e ali em meio a audiência. [...] Goldstein era orenegado e desertor que havia sido, muito tempo atrás (quanto tempo, ninguémlembrava claramente), tinha sido um dos líderes do Partido, quase no nível doGrande Irmão, e então se envolveu em atividades antirrevolucionárias, foicondenado à morte e misteriosamente escapou e desapareceu. [...] Ele era o principaltraidor, o primeiro profanador da pureza do Partido. Todos os crimes subsequentescontra o Partido, todas as traições, atos de sabotagem, heresias, desvios, brotavamdiretamente de seus ensinamentos. (ORWELL, 1984, p.11) (Tradução nossa)1312Por conta do Duplipensar, nem mesmo O’Brien, conversando abertamente com Winston sobre asdiscrepâncias entre discurso e prática do Partido é capaz de enxergar verdadeiramente que a vida na Oceania nãoé como deveria ser, que as coisas deveriam ser melhores, a comida mais farta, a água mais quente, os corposmais opulentos...13As usual, the face of Emmanuel Goldstein, the Enemy of the People, had flashed onto the screen. There werehisses here and there among the audience. […] Goldstein was the renegade and backslider who once, long ago(how long ago, nobody quite remembered), had been one of the leading figures of the Party, almost on the levelwith the Big Brother himself, and then had engaged in counter-revolutionary activities, had been condemned todeath and had mysteriously escaped and disappeared. […] He was the primal traitor, the earliest defiler of the
  39. 39. 38Durante os dois Minutos de Ódio o que se sucede é Goldstein falando toda sorte de“leviandades” à respeito do Partido, acusando o Grande Irmão, dizendo que a revolução foratraída, que o Partido é ditador, etc. O leitor sabe que o que Goldstein fala é a verdade,Winston, em determinado momento vai descobrir que Goldstein fala a verdade, no entanto, ahisteria coletiva provocada pelo momento leva até mesmo a Winston, um dissidente, a odiar ovelho com “voz de ovelha” na tela.Criar um inimigo central interessa totalmente ao Partido pois todo o ódio pode serfacilmente direcionado àquele que todos os crimes comete. O Inimigo do Povo, o Inimigo doGrande Irmão. Da mesma maneira como Goldstein é alvo de todas as acusações, de toda fúriae ódio, seu opositor, àquele que defende o povo dessa figura malévola é o merecedor maior detodas as honras, de toda devoção e de todo o amor. Na prática o Partido fala a verdade,falando mal de si mesmo, mente ao mostrar-se, personificado no Grande Irmão, como osalvador de tudo e de todos. Com os princípios do Duplipensar todo esse processo ocorre demaneira intrínseca dentro da cabeça de cada um dos membros do Partido, cuja sanidade estásalvaguardada e cujo amor pelo Grande Irmão seja de coração e alma.A centralização de todas as ações e discursos do Partido para o nome do Grande Irmãocria então dois fatores muito interessantes para a casta dominante do Partido Interno: primeiroestes se mantêm no anonimato, podendo então desfrutar do prazer sem jamais levantaremsuspeitas sobre si; segundo, facilita o trânsito dos sentimentos de amor e devoção a uma únicafigura imortal, acolhedora e firme. Os Dois Minutos de Ódio, nesse sentido, servem parareafirmar, a cada vez que Goldstein acusa de crimes o Grande Irmão, a inocência ebenevolência do último, e a seguridade que somente o Partido pode promover, por ser imortale infalível. A esse aspecto pode se consultar no romance:O ódio tinha atingido o seu clímax. A voz de Goldstein tinha se tornado umverdadeiro berro de ovelha, e por um instante a face se tornou a de uma ovelha.Então a face de ovelha transformou-se na figura de um soldado Eurasiano queparecia avançar, enorme e terrível, com sua metralhadora rugindo, e aparentandosair da superfície da tela, [...] a figura hostil se transformou na face do GrandeIrmão, cabelos pretos, bigode preto, cheio de poder e misteriosamente calmo, e tãovasto que quase tomou toda a tela. [...] Então a face do Grande Irmão foi sumindo datela, e no lugar os três slogans do Partido apareceram em caixa alta: GUERRA ÉPAZ, LIBERDADE É ESCRAVIDÃO, INGNORÂNCIA É FORÇA. [...] Mas aface do Grande Irmão pareceu persistir por vários segundo na tela [...] Nessemomento todo o grupo de pessoas começaram a entoar um canto profundo lento eritmado de “B-B!....B-B! [...] Por cerca de trinta segundos mantiveram o canto. [...]Party’s purity. All subsequent crimes against the Party, all treacheries, acts of sabotage, heresies, deviations,sprang directly out of his teaching.
  40. 40. 39Parcialmente isso era uma espécie de hino à sabedoria e majestade do Grande Irmão,mas ainda mais, era um ato de auto hipnose, um afogamento deliberado daconsciência por meio de um barulho rítmico. As entranhas de Winston pareceramgelar. Nos Dois Minutos de Ódio ele não podia evitar compartilhar o delírio geral,mas esse canto sub-humano de “B-B!...B-B!” sempre o enchia de horror.(ORWELL, 1984, p.15-16) (Tradução nossa)14Esse trecho da narrativa afirma como o Partido pode controlar os sentimentos daspessoas. Toda a traição de Goldstein contra a prosperidade e paz da Oceania é convertida emobjeto de ódio e medo para os cidadãos, que se entregam então a uma histeria completa, ondenada mais importa a não ser a ação de detestar e profanar profundamente o “inimigo” na tela.Quando o terror e o ódio chegam ao clímax, então aparece o “salvador”, O Grande Irmão, oPartido em Pessoa, e então tudo fica bem novamente, pois o peito protetor e amável dohomem atrás do bigode é o refúgio para todos os problemas, e o único objeto de adoração,confiança amor e respeito. Tudo está bem com o Grande Irmão.Nessa análise se vê uma personificação de uma força totalitária, o Grande Irmão, aforça totalitária que essa figura representa oprime, impõe sofrimento e medo àqueles sob suaguarda, e tudo isso o faz em nome do bem estar dos oprimidos. O amado opressor não é umdevaneio da literatura, nem de Orwell, é uma realidade retratada de maneira vívida econtundente em 1984.14The Hate rose to its clímax. The voice of Goldstein had become an actual sheep’s bleat, and for an instant theface changed into that of a sheep. Then the sheep-face melted into the figure of an Eurasian soldier who seemedto be advancing, huge and terrible, his submachine gun roaring, and seeming to spring out of the surface of thescreen, […] the hostile figure melted into the face of Big Brother, black haired, black-moustachio’d, full ofpower and mysterious calm, and so vast that it almost filled up the screen. […] Then the face of Big Brotherfaded away again, and instead the three slogans of the Party stood out in bold capitals: WAR IS PEACE,FREEDOM IS SLAVERY, IGNORANCE IS STRENGTH. But the face of Big Brother seemed to persist forseveral seconds on the screen, […] At this moment the entire group of people broke into a deep, slow,rhythmical chant of “B-B!....B-B!” […] For perhaps as much as thirty seconds they kept it up. […] Partly it wasa sort of hymn to the wisdom and majesty of Big Brother, but still more it was an act of self-hypnosis, adeliberate drowning of consciousness by means of rhythmic noise. Winston’s entrails seemed to grow cold. Inthe Two Minutes Hate he could not help sharing the general delirium, but the sub-human chanting of “B-B….B-B” always filled him with horror.

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