Autorretratos contemporaneos
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Texto sobre autoretratos contemporâneos e intervenção em imagens

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Autorretratos contemporaneos Autorretratos contemporaneos Document Transcript

  • 3784 AUTORRETRATOS CONTEMPORÂNEOS: REVELANDO UMA “IDENTIDADE- IDEM” OU SUBVERTENDO A LÓGICA DO ESPELHO? Karine Gomes Perez – UFSMResumoO presente texto1 aborda o subgênero do autorretrato, a partir de suas características noRenascimento, estabelecendo-se um contraponto entre essas produções e as práticascontemporâneas, as quais levam a ideia de autorretrato aos seus limites. Além disso, o textomenciona autorretratos de artistas legitimados para fundamentar e discutir esse tipo deprodução. Por último, são tecidas considerações acerca da prática artística pessoal,resultante de pesquisa realizada no Programa de Pós-graduação em Artes Visuais – UFSM,a qual envolve a produção da série “(Re)Configurações do eu”, cuja proposta consiste eminvestigar o processo artístico de criação de autorretratos fotográficos, analisando aspossibilidades de (re)configurações identitárias nele envolvidas.Palavras-chave: autorretrato; arte contemporânea; (re)configurações do eu.ResumenEl texto trata sobre el autorretrato, comenzando por sus características en el Renascimientoy estableciendo un contrapunto entre estas producciones con las del arte contemporáneo.Por último, son hechas consideracion acerca de la práctica artística personal, cuyapropuesta consiste en investigar el proceso de creación de autorretratos fotográficos,analizando las posibilidades de (re)configuraciones identitárias implicadas en el proceso.Palabras clave: autorretrato; arte contemporáneo; (re)configuraciones del yo.IntroduçãoAutorretratar-se é um ato referente à produção da imagem do artista realizada porele próprio. Se observarmos obras do Renascimento ao Neoclassicismo,percebemos que o foco de interesse, em grande parte dos autorretratos, centra-sena semelhança física do autor, principalmente nos aspectos do rosto. Por isso,nesse caso, metaforicamente, o ato de autorretratar-se pode ser comparado a umespelho fidedigno, ao refletir as peculiaridades e a “identidade-idem2” do retratado.Mas, essa coincidência entre autorretrato, “identidade-idem” e espelho continuaregendo a produção contemporânea de autorretratos ou acaba por ser subvertida?Se a segunda hipótese for aceita, as produções contemporâneas, que tomam oautor como referente, continuariam a ser denominadas “autorretratos”? Como a série“(Re)Configurações do eu”, realizada por mim, aproxima-se da ideia de autorretrato?
  • 3785Breve percurso do autorretrato na arte: relações com o espelho e a identidadeNa tentativa de responder às perguntas lançadas, é preciso rememorar que osubgênero do autorretrato apresenta uma tradição no percurso da História da ArteOcidental, obtendo notoriedade a partir do Renascimento, mesmo que, desde abaixa Idade Média, artistas já houvessem incluído suas imagens em cenasreligiosas. A consolidação do autorretrato no âmbito artístico, a partir doRenascimento, pode ter acontecido em decorrência do afastamento entre a atividadeartística e os preceitos religiosos, valorizados no período medieval; assim, o serhumano e a noção de indivíduo tornam-se focos crescentes das preocupaçõessociais e do imaginário dos artistas. Por esse motivo, desde então, o retrato e oautorretrato passaram a ser amplamente produzidos pictoricamente de maneirarealista ou idealizada, inclusive porque o advento da fotografia não havia ocorrido.No Renascimento, a difusão de retratos e autorretratos supriu os anseios da corte eda burguesia urbana. Tais necessidades consistiam, segundo Botti (2005), emlançar suas imagens como um símbolo de poder, já que a confecção de um retratocustava um valor alto. Por isso, os artistas eram contratados para pintar as pessoasilustres de sua época, sendo o autorretrato produzido nos momentos em que oartista não tivesse modelos para retratar, com a finalidade de mostrar sua habilidadeartística aos possíveis clientes. Além disso, o ato de retratar-se concede ao artista,antes mero artesão, certo status social, já que passa a figurar ao lado de pessoasimportantes, a partir do momento em que ambos são retratados por meio da pintura.Destarte, percebe-se que, desde o contexto histórico Renascentista, o autorretratooperava como uma espécie de espelho, pois buscava refletir a identidade física doartista, assim como a sua visão da arte e do contexto no qual se inscrevia. Oautorretrato tinha por objetivo mostrar as particularidades do artista, afirmando eidentificando sua fisionomia em diversas configurações; é repleto de um sentimentode cumplicidade com o objeto fotografado.Essa característica motivou muitos artistas, sendo perceptível na obra do holandêsRembrandt (1606-1669), que realizou uma ampla gama de autorretratos. Suasproduções envolviam a pintura, o desenho e a gravura, meios através dos quaisretratou-se em diversos momentos da vida (figura 01), procurando apreender asexpressões fisionômicas, quem sabe como forma de afirmar-se enquanto sujeito.
  • 3786 Figura 01: Rembrandt, Autorretrato, 1669. Fonte: http://manuel.cerezo.name/archives/2006_08.htmlOs modos de produção artística do autorretrato começam a se transformar, demaneira mais visível, a partir das modificações sociais e tecnológicas ocorridas nasegunda metade do século XIX, responsáveis pelo advento fotográfico, o qualalterou o modo com que o sujeito visualiza o mundo e a si mesmo. A fotografiapossui capacidade de reproduzir com suposta exatidão o que é visto pelo olho.Dessa forma, libera a pintura do compromisso mimético com a realidade,possibilitando ao artista operar alterações na imagem produzida de si mesmo e dosoutros. A fotografia, então, abre novos caminhos à pintura, cujo resultado consistenas vanguardas modernas, representadas por artistas de variadas nacionalidades,os quais, em sua grande maioria, produziram, além de outros tipos de trabalhos,autorretratos. Tais artistas desenvolveram deformações e ênfases formais queafastavam o autorretrato da realidade física, mas serviam para demonstrar aexpressividade e a singularidade do artista, valorizados na arte moderna.Autorretrato e arte contemporâneaDiferentemente do autorretrato produzido ao longo da história, os artistascontemporâneos atribuem-lhe novos conceitos, construindo-o não mais com aintenção de copiar a aparência física de seu autor, mas como forma de questionar aidentidade ou de produzir estranhamento no artista e/ou no público.Segundo Freud (1996), pensamos que algo é estranho por não ser conhecido efamiliar, todavia, nem todo o desconhecido causa-nos desconforto. Para ele, o
  • 3787estranho é algo que nos remete ao conhecido e familiar, mas permanece oculto e,de repente, vem à luz. Quando acontece em nossas vidas algo que parece confirmaras velhas e rejeitadas crenças, sentimos a sensação de estranhamento; contudo,para ele, a ficção oferece mais oportunidades para criar essa sensação do que avida real. Por isso, a arte, como forma de ficção, e o autorretrato, como uma dasmaneiras de lidar com o familiar na arte contemporânea, acabam por englobar seuaparente oposto: o estranhamento, em razão de o artista visualizar seu própriocorpo, tão familiar, transmutado em imagem bidimensional. Além disso, essasensação de estranhamento, contida em grande parte dos autorretratoscontemporâneos, pode ocorrer porque, neles, o artista revela de si apenas ooportuno, até mesmo forjando outra identidade ou assumindo várias.Uma artista que assume várias identidades em seus autorretratos, os quais causamestranhamento, é Cindy Sherman, em virtude de se relacionarem com a questão daficção/encenação. Ela fotografa-se desde os anos de 1970, encenandopersonagens, conforme constata-se na figura 03, na qual ela se fotografou emestúdio com o uso de roupas, acessórios, peruca e maquiagem. O cenárioapresentado no plano de fundo foi fotografado separadamente e inseridoposteriormente em seu autorretrato, apontando para a falta de veracidade eartificialidade da imagem fotográfica.Figura 03: Cindy Sherman, Untitled #466, 2008. Fonte: http://www.culturaitalia.it/pico/modules/event/it/event_1408.html
  • 3788Com base em produções desse gênero, é possível concordar com Canton (2001), aqual afirma que os artistas atuais utilizam o autorretrato na produção de sentido de sie na subversão de sua tradição, recriando-o. Para a autora, se o autorretratoreivindicar identidade, produzirá estranhamento, comparável à sensação de olhar orosto familiar no espelho e não o reconhecer.Talvez, por esse motivo, a ideia de autorretrato, entendido como sinônimo deveracidade, seja questionada por muitos artistas, pois, nem mesmo se pensarmosque o autorretrato é produzido com base na imagem do artista refletida em espelhos,nos depararemos com uma imagem verossímil do retratado. Tal afirmativa écoerente com as concepções de Fabris (2004), a qual menciona que o espelhoparece revelar ao indivíduo sua própria identidade, mas, ao mesmo tempo,confronta-o com a evidência de que a unidade do “eu” é ilusória. Em razão dessaevidência, frente ao espelho, é criada no sujeito uma cisão entre o indivíduo refletidona superfície especular e o sujeito que percebe essa imagem. Assim, para Fabris, oespelho coloca em crise a crença numa identidade unitária e transforma-se numobjeto de conhecimento, fazendo com que o sujeito seja capaz de pensar sobre arelação existente entre seu “eu” e a própria imagem refletida.Essa situação ocorre, inclusive, porque nosso rosto, assim como as identidades,está em constante estado de mutação, seja em decorrência da idade, das emoçõesou das variações luminosas às quais nossos traços ficam expostos. Nesse sentido,Manguel (2001) aponta que cada célula do corpo humano renasce em ciclos de seteanos, colocando-nos na condição de estarmos sempre em processo de tornarmo-nos alguém. Para o autor, quando pensamos ter captado nossas feições numreflexo, elas já se transformam em outra coisa que empurra o “eu” para o futuro.De tal modo, o espelho revela a aparência do “eu” como algo diferente e externo. Elefunciona como um “duplo” do sujeito ao repetir e duplicar sua imagem no momentode refleti-la; todavia, não é produtor de uma réplica perfeita do sujeito que se olha,por mostrar somente seu efeito luminoso espelhado numa superfície: a produçãoefêmera da aparência de si mesmo, podendo constituir-se como “outro” de “si”. Esse“outro” refletido num espelho origina-se a partir de um indivíduo, mas não adquireautonomia em relação ao sujeito que fundamentou a sua gênese, pois o reflexo nãopode manter-se enquanto imagem sem a presença do sujeito que o fundou.
  • 3789Fabris (2004, p. 168), ao discorrer sobre esse outro refletido no espelho, comenta: “ooutro não é apenas o que se afirma como diferente do eu, exterior a ele. O outro fazparte do eu que se coloca diante do espelho e que, por esse gesto, descobre serimpossível uma visão direta da própria identidade (exterior)”. Portanto, tal como osreflexos gerados em espelhos, o que se pode chamar de autorretrato é “um outro”,pois a imagem de si, presente nessas produções, não apresenta exatidão emrelação ao sujeito externo ao espelho, que é transitório.Esse processo também pode ocorrer porque um sujeito, como parte do mundotridimensional, ao transmutar-se em imagem na superfície plana do espaçobidimensional, acaba colocando em cheque a ideia do autorretrato como cópia erepetição incansável da imagem do artista. Conforme Aumont (2006), o duplo 3perfeito não existe, por haver, entre duas fotocópias do mesmo documento,diferenças que permitem distingui-las, embora pequenas. Isso aponta para acapacidade de a imagem criar ilusão, sem o objetivo de gerar réplicas, mas imagensduplicadoras das “aparências”. Assim, permanece uma impossibilidade de analogiacompleta entre o autorretrato e a figura do artista.Talvez por isso, para Canton (2001), o autorretrato contemporâneo não se construacomo mera representação narcísica de seu autor. Quando a autora expõe esseafastamento do narcisismo no autorretrato contemporâneo, mesmo sabendo-se queé impossível generalizar nossas considerações acerca dele, em razão dadiversidade das produções artísticas atuais, é possível concordarmos, em parte,com ela, pois o termo narcisismo, advindo do campo psíquico e embasado no mitogrego de Narciso, possui diversas interpretações.De acordo com o sentido proposto por Lasch (1983), o narcisista é alguém quebusca viver o presente, concentrando-se no seu próprio bem-estar eautossatisfação. Ele tenta fugir do anonimato que permeia a vida cotidiana,sonhando com a fama. Trata-se de uma pessoa com repúdio ao espírito lúdico, oqual pressupõe certo distanciamento do “eu”, que vai de encontro ao seuegocentrismo. Portanto, o indivíduo narcisista permanece centrado somente em seureflexo, como um prisioneiro da paixão por si, ato capaz de levá-lo metaforicamenteà morte, já que considera seu “eu” como única realidade existente.
  • 3790Tal centralização do indivíduo em torno de si relaciona-se com o autorretrato, àmedida que aconteça, por parte do artista, uma busca por sua semelhança física naconstrução do autorretrato. Isso difere, de certo modo, do ocorrido com grande parteda produção contemporânea de autorretratos, pois, a partir do momento em que oartista oculta sua aparência física ou forja outras identidades, ele distancia-se, quemsabe, da vaidade, da ilusão das aparências e da superficialidade.Muitos artistas contemporâneos trabalham suas próprias imagens, mas geralmentenão se seduzem por elas como o narcisista, deixando de permanecer somentecentrados nas aparências que demonstram a paixão por si. Nesse sentido, muitasvezes, a imagem produzida não revela a identidade do sujeito retratado. Essa nãoidentificação pode ocorrer de variadas maneiras: uma delas é denominada porFabris (2004) de “autorretrato acéfalo”, produção na qual os artistas discutem anoção de identidade a partir da ocultação daquilo que é mais próprio de todo retrato,o rosto. Sem a presença do rosto, o espectador não consegue reconhecer o primeirosinal de uma identidade individual, conforme evidenciado na obra do artista norte-americano John Coplans (figura 04), em que autorretrata elementos fragmentadosde seu corpo envelhecido.Figura 04: John Coplans, Self-Portrait: Frieze, No. 4, 1994. Fonte: http://veronicaxlok.wordpress.com/mpm-33-b/Grande parte dos autorretratos contemporâneos tenta subverter a representação dorosto, talvez por ser a parte do corpo mais associada a traços psicológicos e definidacomo lugar do narcisismo, na qual converge a visão que se tem de si e a que se
  • 3791deseja oferecer às outras pessoas. Logo, presume-se que a não identificação daaparência física do sujeito torna-se aspecto motivador para a construção de umautorretrato, pois permite ao artista reconfigurar-se nessas imagens.Em face dessa perspectiva, a incapacidade de identificação com a imagemproduzida coloca o artista numa situação de alteridade. Assim sendo, na produçãocontemporânea de autorretratos, muitos artistas tratam da relação entre o “eu” e o“outro”, não centrando-se somente em seus traços fisionômicos e em aspectosautobiográficos que aprisionam o autor à sua própria vida.Além disso, muitos artistas não têm a atitude narcisista de repudiar o lúdico,inserindo-o nos autorretratos e apreciando o distanciamento do “eu” que elepossibilita. Canton (2004), ao abordar práticas contemporâneas de autorretratos,salienta a inclinação dos artistas para “brincarem” com a própria imagem. Dessaforma, o artista projeta-se no autorretrato com liberdade para fazê-lo como desejar.No entanto, pode-se questionar se o autorretrato contemporâneo afasta-seinteiramente do narcisismo, haja vista que, embora não procure espelhar afisionomia do autor, o ato de retratar-se é uma decisão do artista. Ademais, quandoo artista expõe o trabalho, colocando-o em confronto com o olhar de outras pessoas,não está manifestando a vontade de inserção no mundo instituído da arte?(Re)Configurações do eu: autorretratos fotográficosA série (Re)configurações do eu é produto de uma investigação prático-teóricadesenvolvida por mim no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais,Mestrado, da UFSM, fomentada pela CAPES (2008-2010). Trata-se de uma série deautorretratos produzidos a partir de dois tipos de imagens diferentes: fotografias 3x4de documentos (trabalhadas com a técnica da pintura-encáustica e, posteriormente,digitalizadas) e fotografias encenadas em meu ambiente doméstico, manipuladasem conjunto através de tratamento digital, resultando em trípticos e polípticos.O interesse em trabalhar com a ideia de autorretrato começou a permear minhaprodução artística desde uma proposta de aula, realizada durante intercâmbio naEscuela Nacional de Bellas Artes, em Montevideo, Uruguay, em 2004. Nessaocasião, desenvolvi experimentações, retrabalhando fotocópias ampliadas de minhaprópria fotografia de documento de identidade através de sua transferência ao
  • 3792suporte MDF (Placa de Fibra de Madeira de Média Densidade) e da técnica depintura-encáustica. Desse modo, ao investigar o autorretrato em minha pesquisa demestrado, busco aprofundar a prática artística iniciada no momento do intercâmbio.Outro motivo, pelo qual desenvolvi autorretratos, foi a possibilidade de modificar equestionar o significado inicial de minhas imagens fotográficas de documentos,deslocando-as para a prática da arte. Tal prática pode transformar o sentido e afunção delas, as quais deixam de destinar-se à identificação fisionômica doretratado. Soma-se a isso a relação estabelecida entre o autorretrato e as novaspercepções identitárias, provocadas pela encenação realizada frente à câmera, quepermite vivenciar novas experiências cotidianas pessoais, tanto ao posar para asfotografias quanto ao manipulá-las, vendo-me convertida em imagem.Ao longo do processo artístico de instauração desses autorretratos, percebi arecorrência de alguns procedimentos repetidos em minha prática. Por isso, aospoucos, tornei consciente essa persistência, que a princípio não era intencional. Umexemplo desses procedimentos é o ato de usar véus na cabeça e vestir roupas deoutras pessoas durante a tomada fotográfica, pois as imagens produzidas semesses elementos não me causavam interesse visual para trabalhá-las.Na produção dos primeiros autorretratos, instigou-me trabalhar o rosto, manuseandoalguns de seus elementos. Posteriormente, comecei a agrupar imagens produzidaspor tratamento pictórico/digital com fotografias de detalhes da encáustica, semalterações digitais, impressas em tamanhos maiores do que os das pinturasoriginais, jogando com a escala inicial das fotografias 3x4. Tal procedimento levou-me a produzir um grupo de trabalhos, nos quais passei a usar detalhes aindamenores das encáusticas feitas a partir de fragmentos das fotografias 3x4 dedocumentos, que, ao serem fotografados e ampliados, ganham novas proporções.Esses fragmentos empregados consistem em algumas partes do corpo,principalmente olhos, como exemplifica a figura 06.Apesar de, em minha produção, as imagens de olhos terem como contexto deorigem as digitalizações de encáustica, criadas a partir de fotografias 3x4 dedocumentos, elas tornam-se autônomas em relação à imagem da qual tiveramproveniência, recombinando-se com outras que formam o todo de uma nova
  • 3793imagem, composta por peças separadas articuladas entre si. Dessa forma, osfragmentos do corpo juntam-se para atribuir novos sentidos às imagens. Figura 06: Autorretrato IX. Encáustica e fotografia digital impressas sobre lona, 68x95cm, 2009.O ato de fragmentar uma imagem, segundo Calabrese (1987), é divisório, umaespécie de recorte, de isolamento de uma porção que não necessita da presença docontexto do qual se originou para existir; constitui-se numa interrupção isolada dotodo de que fazia parte. Para o autor, o fragmento exprime intervalo e anula oprincípio de ordem; participa de um espírito de nosso tempo: o declínio da totalidadee da inteireza. Talvez por isso, tive o interesse de trabalhá-lo nos autorretratos: poroperar com uma noção de identidade do sujeito inconclusa.Na produção desses autorretratos, também passaram a instigar-me fotografias cujacomposição “corta” partes definidoras do rosto, como, por exemplo, os olhos,ocultando traços fisionômicos. Assim, alguns trabalhos produzidos na série“(Re)Configurações do eu” podem relacionar-se com o conceito de autorretratoacéfalo, proposto por Fabris (2004), em razão das ocultações que foram orientandomeu interesse durante o processo de trabalho. Contudo, não extirpo a cabeça naimagem de modo tão radical como John Coplans. Ele se autorretrata por meio deoutras partes do corpo, apresentadas de modo fragmentado; eu corto a cabeça até aaltura dos olhos, restando visíveis algumas partes do rosto, conforme a figura 07.Em meus autorretratos, o interesse por essa fragmentação na região dos olhos,pode ocorrer em razão de serem o órgão corporal responsável por identificar
  • 3794visualmente o mundo. Mas, ao mesmo tempo, são percebidos por outros olhos, quebuscam identificar o sujeito através da expressão transmitida por seu olhar. Logo,esse órgão corporal identifica o sujeito em um duplo sentido: olha e é olhado. Figura 07: Autorretrato XII. Encáustica e fotografia digital impressas sobre lona, 63x120cm, 2009.Didi-Huberman (1998) aponta esse paradoxo, pois, em sua concepção, o ato de versó manifesta-se ao abrir-se em dois: o que vemos vive em nossos olhos pelo quenos olha. Nada se esgota no que é visto, nesse sentido, a expressão tautológica “oque vemos é o que vemos” não tem relevância. Para o autor, olhar é sempreinquietar o ver; é uma operação fendida, agitada, aberta, envolvendo o que olha e oque é olhado. Por isso, o visto evoca outras questões, as quais nos invadem edesassossegam, sendo algo não decifrável, mas que se revisita e reinventa.Com base nessas concepções acerca do olhar, como a imagem não se esgota noque é visto, minha identidade enquanto sujeito contemporâneo também não se limitaao que minha aparência mostra. Talvez, por isso, nesses autorretratos, os olhosdeixam de ser parte de um corpo único, o qual aparece, em alguns momentos,dividido e fragmentado. Assim, não posso ser identificada através dos olhos, emvirtude de aparecerem descontextualizados na imagem, por serem extirpados erecolocados em dimensões e locais não correspondentes aos de origem.Mesmo valendo-me de detalhes e fragmentos do rosto, também me interessei pelodesenvolvimento de imagens de corpo inteiro, embora vestido e ocultado por véus.Desse modo, mostra-se uma figura central e outras duas que, a princípio, eram amesma. Porém, é efetuado seu “rebatimento horizontal”, por meio de laboratóriodigital, que a torna repetida, dando ênfase à imagem central (figura 08).
  • 3795Figura 08: Autorretrato XVI. Encáustica e fotografia digital impressas sobre lona envolta em tule 122x185cm, 2010.O fato de meu corpo encontrar-se encoberto com vestimentas de outras pessoas evéus acarreta um “ocultamento” da identidade, não sendo um comportamentocomum nas fotografias de estúdio, pois as pessoas, normalmente, posam com suasmelhores roupas. No entanto, nas imagens por mim produzidas, utilizo roupasemprestadas com algum significado especial para seus donos, ficando,frequentemente, grandes ou apertadas em mim. Tais roupas não revelam quem sou,e a fotografia só registra a aparência sob a forma de disfarce. Por isso, consideroque as encenações, as vestimentas e as manipulações digitais apontam para aquestão da ficção e do artifício, suscitada pela fotografia.Kossoy (2002) explica que a imagem fotográfica, apesar de atuar constantementecomo documento, contém em si ficções, em razão de construir outras realidades.Além disso, o caráter ficcional e encenado da fotografia, proveniente das poses eações apresentadas pelo sujeito ao ser fotografado, põe em questão a veracidadegeralmente atribuída a ela. De tal modo, acredito que em meus autorretratos essecaráter ficcional da fotografia acarreta relações com questões identitárias, devido àpossibilidade de ocultar e multiplicar minha identidade nas imagens.Nesses autorretratos, ao mesmo tempo em que as imagens são parte do eu,igualmente não o são. A relação entre o “eu” e esse outro, constituída pela imagembidimensional, abre espaço para diversas possibilidades de “eus” produzidos nosautorretratos fotográficos, podendo indicar, por consequência, um “nós” formado poridentidades fictícias que provocam um estranhamento e uma disposição lúdica e
  • 3796momentânea de ser outra pessoa. Portanto, procuro estabelecer, nas imagensproduzidas, uma relação não de identidade comigo (no sentido de idêntico), mas dediferença e alteridade, já que figuro uma reinvenção de mim enquanto outra pessoana intimidade do lar, tendo apenas a máquina fotográfica como testemunha.Esses autorretratos, por serem ações registradas a partir da fotografia, como bemaponta Barthes (1984) acerca do meio fotográfico, presumem sempre um momentopassado, que envolve a apreensão de instantes fragmentados, interagindo com otempo presente. Por apresentarem relação com o passado da captura fotográfica,meus autorretratos indicam onde já estive, o que fui e já não sou, refletindo apenasinstantes de mim. Assim, eles não podem ser considerados imagens identificadoras,pois o eu apreendido encontra-se paralisado, em oposição às identidades, que,conforme Hall (2006) e Bauman (2005), estão em constante formação.Considerações finaisAo retomar as perguntas lançadas na introdução do presente texto, concluo que acoincidência entre autorretrato, “identidade-idem” e espelho deixou de ser motivo deapreensão para grande parte das produções contemporâneas do autorretrato. Oartista não se preocupa com a revelação de sua identidade física, utilizando-se dediversos artifícios, como comprovam as encenações de Cindy Sherman ou asfragmentações do corpo de John Coplans.Na série de autorretratos “(Re)Configurações do eu”, busco problematizar osubgênero do autorretrato. Desse modo, a ideia de autorretrato utilizada não é arenascentista, na qual o sujeito era representado de modo realista, revelando aaparência física de seu autor, mesmo que idealizada. Em sentido contrário,interesso-me em realizar autorretratos para provocarem uma (re)configuraçãocorporal e identitária do “eu”, através de ocultações e multiplicações da imagem.A “identidade-idem”, em meus autorretratos, foi subvertida em virtude decontaminações na fotografia e do uso de roupas alheias e véus. Logo, a concepçãode identidade trabalhada nessa pesquisa não é aquela no sentido de “mesmidade”,mas identidades múltiplas, cambiantes, contraditórias, instáveis, fragmentadas efluidas. Consequentemente, alguns autorretratos, em vez de revelarem identidade,geram mais um estranhamento acerca de mim, permitindo a descoberta de outros
  • 3797“eus”, ou seja, alteridades. Isso porque, nesse processo, a autoidentidade é ocultadae multiplicada, gerando uma infinidade de “eus” nos autorretratos produzidos.Meus autorretratos são, portanto, matéria-prima para metamorfose do eu convertidoem imagem. Neles, os procedimentos de ocultação acarretam desidentificaçõesfisionômicas e corporais, pois a identidade do eu restante nas imagens consiste emconstruções forjadas, cambiantes, ficcionais e encenadas. Igualmente, provocamreconfigurações identitárias, já que o uso do véu, ao atribuir anonimato ao corpo,revela algumas de suas ondulações e sinuosidades. Assim, o tipo de autorretratoque se relaciona com a prática realizada, é o que, apesar de parecer buscar umaafirmação identitária do artista, abre-se ao exterior, desvencilhando-se depreocupações puramente pessoais. O resquício narcísico presente nos autorretratoscontemporâneos pode não ser o que suplanta outras questões, mas umaautoexposição que parte do particular, mas é subjacente a outras questões. Sãoautorretratos que agregam um conteúdo crítico-reflexivo acerca da arte, do artista eda sociedade, não havendo uma coincidência absoluta entre a imagem produzida ea aparência real do artista.Ao finalizar a pesquisa, percebo que os rostos das fotografias de documentosdesapareceram gradativamente da composição das últimas produções, emboraestejam presentes na imagem. Esse fato não integrava os objetivos destainvestigação, a qual pretendia explorar tanto o caráter padronizado contido nasposes das fotografias 3x4 de documentos quanto a atitude ficcional e de encenaçãolatente na pose. Esta última acabou sendo o foco na produção das imagens, o que,de alguma forma, mostra-se coerente com a proposta da pesquisa, pois foi possívelsubverter a atitude padronizada assumida nas fotografias 3x4. Destarte, parti dosdocumentos com um “eu” datado para atingir uma produção de múltiplos “eus”.Mesmo diante dessa falta de coincidência entre a imagem do eu e a produzida emautorretratos, acredito ser possível, ainda, denominar tanto a minha prática quanto ade outros artistas contemporâneos de autorretratos. Entendo que elas podem sercompreendidas desse modo se considerarmos que o conceito de autorretrato temsido ampliado em consonância com as mudanças ocorridas no discurso, referente àconcepção de sujeito contemporâneo, detentor de identidades fragmentadas emúltiplas, as quais levam a noção de autorretrato às últimas consequências.
  • 37981 Este artigo envolve fragmentos da dissertação de mestrado intitulada “(Re)Configurações do eu: a produção deautorretratos fotográficos como ficção/encenação”, defendida pela autora em março de 2010, no Programa dePós-Graduação em Artes Visuais, UFSM, sob orientação da Profª. Drª. Luciana Hartmann.2 A “identidade-idem” é compreendida por Ricoeur (1991) como sinônimo de “mesmidade”, ou seja, umaidentidade absoluta, simultânea e igual. Trata-se da identidade de um indivíduo idêntico a si mesmo, imutável.3 Para Aumont (2006), o duplo consiste numa réplica exata de um objeto.ReferênciasAUMONT, Jacques. A imagem. 11 ed. Campinas: Papirus, 2006.BARTHES, Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1984.BAUMAN, Zygmunt. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: JorgeZahar, 2005.BOTTI, Mariana Meloni Vieira. Espelho, espelho meu? Auto-retratos fotográficos deartistas brasileiras na contemporaneidade. 2005, 172f. Dissertação (Mestrado em Multimeiosdo Instituto de Artes) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2005.CALABRESE, Omar. Pormenor e fragmento. In: A idade neobarroca. Lisboa: Edições 70,1987.CANTON, Kátia. Novíssima arte brasileira: um guia de tendências. São Paulo: Iluminuras,2001.DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Ed.34, 1998.FABRIS, Annateresa. Identidades virtuais: uma leitura do retrato fotográfico. BeloHorizonte: UFMG, 2004.FREUD, Sigmund. O estranho. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas deSigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. v. 17, 1996.HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. 3.ed. São Paulo: AteliêEditorial, 2002.LASCH, Christopher. A cultura do narcisismo: a vida americana numa era de esperançasem declínio. Rio de Janeiro: Imago, 1983.MANGUEL, Alberto. Lendo imagens: uma história de amor e ódio. São Paulo: Companhiadas Letras, 2001.RICOEUR, Paul. O si-mesmo como um outro. Campinas: Papirus, 1991.
  • 3799Karine PerezÉ Professora Substituta do Departamento de Artes Visuais da Universidade Federal deSanta Maria. Artista e Mestre em Artes Visuais pelo PPGART/UFSM (bolsista CAPES 2008-2010). Bacharel e Licenciada em Desenho e Plástica pela mesma Instituição. Realizouestudos na Escuela Nacional de Bellas Artes, IENBA – UDELAR, em Montevideo – UY(2004). Participa do Grupo de Pesquisa Arte e tecnologia/CNPQ e do LABart, da UFSM.