Sexo e destino

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Sexo e destino

  1. 1. Francisco Cândido Xavier e Waldo VieiraSexo e Destino 12o livro da Coleção “A Vida no Mundo Espiritual” Ditado pelo Espírito André LuizFEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA DEPARTAMENTO EDITORIAL Rua Souza Valente, 17 20941-040 - Rio - RJ - Brasil http://www.febnet.org.br/
  2. 2. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 2 Coleção “A Vida no Mundo Espiritual” 01 - Nosso Lar 02 - Os Mensageiros 03 - Missionários da Luz 04 - Obreiros da Vida Eterna 05 - No Mundo Maior 06 - Libertação 07 - Entre a Terra e o Céu 08 - Nos Domínios da Mediunidade 09 - Ação e Reação 10 - Evolução em Dois Mundos 11 - Mecanismos da Mediunidade 12 - Sexo e Destino 13 - E a Vida Continua...
  3. 3. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 3 ÍndicePrece no Limiar....................................................................5Sexo e Destino ......................................................................7Primeira Parte - Médium: Waldo Vieira...........................8 Capítulo 1 ................................................................................. 9 Capítulo 2 ............................................................................... 16 Capítulo 3 ............................................................................... 22 Capítulo 4 ............................................................................... 29 Capítulo 5 ............................................................................... 37 Capítulo 6 ............................................................................... 46 Capítulo 7 ............................................................................... 57 Capítulo 8 ............................................................................... 75 Capítulo 9 ............................................................................... 95 Capítulo 10 ........................................................................... 108 Capítulo 11 ........................................................................... 117 Capítulo 12 ........................................................................... 124 Capítulo 13 ........................................................................... 141 Capítulo 14 ........................................................................... 153Segunda Parte - Médium: Francisco Cândido Xavier..170 Capítulo 1 ............................................................................. 171 Capítulo 2 ............................................................................. 181 Capítulo 3 ............................................................................. 189 Capítulo 4 ............................................................................. 201 Capítulo 5 ............................................................................. 212 Capítulo 6 ............................................................................. 224 Capítulo 7 ............................................................................. 233
  4. 4. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 4 Capítulo 8 ............................................................................. 247 Capítulo 9 ............................................................................. 262 Capítulo 10 ........................................................................... 276 Capítulo 11 ........................................................................... 286 Capítulo 12 ........................................................................... 308 Capítulo 13 ........................................................................... 325 Capítulo 14 ........................................................................... 347
  5. 5. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 5 Prece no Limiar Pai de Infinita Bondade! Este é um livro em que permitiste ao nosso André Luis traçar,em lances palpitantes da existência, alguns conceitos da Espiritu-alidade Superior, em torno de sexo e destino – fotografia verbalde nossas realidades amargas que entremeaste de esperançaseternas. Entregando-o aos companheiros reencarnados no mundo,queremos recordar Jesus – o Enviado de Tua Ilimitada Miseri-córdia – naquele dia de sol em Jerusalém... Na praça repleta de acusadores, escribas e fariseus apresen-taram-lhe sofredora mulher que diziam haver apanhado emtransgressão, ao mesmo tempo que o inquiriam, experimentando-lhe a conduta: – Mestre, esta mulher foi encontrada em adultério... A leimanda apedrejar. Tu, porém, que dizes? O Mestre contemplou demoradamente os zeladores de Moi-sés, e, porque nada mais adiantaria explicar-lhes ao cérebroembotado de preconceitos, disse-lhes, alongando a palavra atodos os moralistas dos séculos porvindouros: – Quem estiver sem pecado, atire a primeira pedra!... Jerusalém, agora, é o mundo! Na praça extensa das convenções humanas, empenha-se omaterialismo na dissolução dos valores morais, com escárniomanifesto à dignidade humana, enquanto religiões veneráveisdigladiam com a Natureza, tentando, em vão, bloquear a vida,qual se quisessem ilaquear a si próprias. Ao tremendo conflitodessas forças gigantescas que lutam pelo domínio moral da Ter-ra, enviaste a Doutrina Espírita, em nome do Evangelho do Cris-
  6. 6. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 6to, para asserenar os corações e comunicar-lhes que o amor é aessência do Universo; que as criaturas te nasceram do hálitodivino para se amarem umas às outras; que o sexo é legado su-blime e que o lar é refúgio santificante, esclarecendo, porém, queo amor e o sexo plasmam responsabilidades naturais na consci-ência de cada um e que ninguém lesa alguém nos tesouros afeti-vos, sem dolorosas reparações. Este volume pretende afirmar, ainda, que, se não podes sub-trair os culpados às conseqüências do erro em que se tornaramincursos, não permites que os vencidos sejam desamparados,desde que te aceitem a luz retificadora para o caminho. Mostraque, em tua bênção, os delinqüentes de ontem, hoje redimidos, setransfiguram em teus mensageiros de redenção para aquelesmesmos que lhes caíram, outrora, nas ciladas sombrias. Abençoa, pois, o presente relato estuante de verdade e espe-rança, e, ao confiá-lo aos nossos irmãos do mundo, deixa possa-mos lembrar-lhes que a existência física, seja na infância ou namocidade, na madureza ou na velhice, é sempre dom inefável quenos cabe honorificar e que, mesmo detendo um corpo carnalrastejante ou disforme, mutilado ou enfermiço, devemos repetirdiante da tua Sabedoria Incomensurável: – Obrigado, meu Deus! EMMANUEL Uberaba, 4 de julho de 1963. (Página recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier.)
  7. 7. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 7 Sexo e Destino Sexo e destino, amor e consciência, liberdade e compromisso,culpa e resgate, lar e reencarnação constituem os temas destelivro, nascido na forja da realidade cotidiana. Entretanto, leitor amigo, após a oração do benfeitor, que sepronunciou no limiar, nada mais nos compete que não seja entre-gar-te a narrativa que a Divina Providência nos permitiu alinha-var, não pelo exclusivo propósito de desnudar a verdade, mas simno objetivo de aprender com a biblioteca da experiência. Cremos seja desnecessário esclarecer que os nomes dos pro-tagonistas desta história real foram substituídos por óbvias razõese que a presente biografia de grupo não pertence a outras criaturassenão a eles mesmos que no-la permitiram redigir, para a nossaedificação, depois de naturalmente consultados. Solicitamos, ainda, permissão para dizer-te que não foi retira-do um só til das verdades que a entretecem – verdades da verdade,que, fremindo de capítulo a capítulo, carreia consigo, em passa-gens numerosas, a luz de nossas esperanças e o amargo sabor denossas lágrimas. ANDRÉ LUIZ Uberaba, 4 de julho de 1963. (Página recebida pelo médium Waldo Vieira.)
  8. 8. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 8 Primeira Parte Médium: Waldo Vieira
  9. 9. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 9 Capítulo 1 Qual acontece entre os homens, no Mundo Espiritual que osrodeia, sofrimento e expectação esmerilam a alma, disciplinando,aperfeiçoando, reconstruindo... Enquanto envergamos a veste física, habitualmente imagina-mos o paraíso das religiões encravado para lá da morte. Sonhamoso apaziguamento integral dos sentidos, o acesso à alegria inefávelque anestesie toda lembrança convertida em chaga mental. Noentanto, atravessada a fronteira de cinza, eis-nos erguidos à res-ponsabilidade inevitável, ante o reencontro da própria consciên-cia. Uma vida humana, a continuar-se naturalmente no Além, as-sume, assim, a forma de partida, em dois tempos distintos. Dife-rem campos e vestimentas; entretanto, a luta da personalidade, deum renascimento a outro na Terra, afigura-se laborioso prélio emduas fases. Anverso e reverso da experiência. O berço inicia, otúmulo desdobra. Com raríssimas exceções na regra, somente areencarnação consegue transfigurar-nos de modo fundamental. Deixamos no esquife o casulo mirrado e transportamos co-nosco, na mesma ficha de identificação pessoal, para outras esfe-ras, os ingredientes espirituais que cultivamos e atraímos. Inteligências em evolução na eternidade do espaço e do tem-po, os Espíritos domiciliados na Moradia Terrestre, em abando-nando o invólucro de matéria mais densa, assemelham-se, figura-damente, aos insetos. Larvas existem que se retiram do ovo erevelam-se na condição de parasitas, enquanto que outras se trans-formam, de imediato, em falenas de prodigiosa beleza, ganhandoaltura. Encontramos criaturas que se afastam do estojo carnal, en-trando em largos processos obsessivos, nos quais se movimentam
  10. 10. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 10à custa de forças alheias, ao lado de outras que, de pronto, seelevam, aprimoradas e belas, a planos superiores da evolução. Eentre as que se agarram profundamente às sensações da naturezafísica e as que conquistam a sublime ascensão para estágios edifi-cantes, no Grande Além, surge a gama infinita das posições emque se graduam. Emergindo na Espiritualidade, após a desencarnação, sofre-mos, a princípio, o desencanto de todos os que esperavam pelocéu teológico, fácil de granjear. A verdade aparece por alavanca renovadora. Padecendo ainda espessa amnésia, relativamente ao passadoremoto, que descansa nos porões da memória, somos então de-frontados por velhos preconceitos que se nos entrechocam noíntimo, tombando despedaçados. Suspiramos pela inércia que nãoexiste. Exigimos resposta afirmativa aos absurdos da fé conven-cionalista e dogmática que reclama a integração com Deus para sisó, excluindo, pretensiosamente, da Paternidade Divina, os quenão lhe comunguem a visão acanhada. De semelhantes conflitos, por vezes terríveis e extenuantes,nos recessos da mente, muitos de nós saímos abatidos ou revolta-dos para extensas incursões no vampirismo ou no desespero; amaior parte dos desencarnados, porém, a pouco e pouco se aco-moda às circunstâncias, aceitando a continuidade do trabalho nareeducação própria, com os resultados da existência aparentemen-te encerrada no mundo, à espera da reencarnação que possibiliterenovação e recomeço... ----------
  11. 11. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 11 Essas ponderações afogueavam-me o pensamento, reparandoa tristeza e o cansaço do meu amigo Pedro Neves, devotado servi-dor do Ministério do Auxílio.1 Partilhando expedições arrojadas e valorosas em atividadebenemérita, ainda não lhe víramos hesitações quaisquer. Veteranode empreendimentos socorristas, jamais entremostrara desânimoou fraqueza, por mais opressivo se lhe evidenciasse o peso decompromissos e obrigações. Advogado que fora, na existência última, caracterizava-se porextrema lucidez, no exame dos problemas que as eventualidadesdo caminho apresentassem. Sempre denodado e humilde; agora, porém, enunciava sensí-veis alterações de comportamento. Soubera-o com breves encargos, na esfera física, para aten-der, de modo mais direto, a necessidades de ordem familiar, cujaextensão e natureza não me houvera sido possível perceber. Desde então, mostrava-se arredio e desencantado, copiando ofeitio de companheiros recém-chegados da Terra. Isolava-se emfunda reflexão. Fugia à conversação fraterna. Queixava-se dissoou daquilo. E vez por outra, em serviço, denotava lágrimas quenão chegavam a cair. Ninguém ousava sondar-lhe o sofrimento, tal a fibra moralem que se lhe exprimiam as atitudes. Provocando, porém, algumas horas de desafogo, num bancode jardim, busquei habilmente lançá-lo à extroversão, alegandodificuldades que me preocupavam. Referi-me aos descendentesque deixara no mundo e às inquietações que me causavam.1 Organização de “Nosso Lar”. (Nota do Autor espiritual)
  12. 12. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 12 Pressentia-lhe na tristeza a presença de lutas domésticas a lhetorturarem a alma, quais ulcerações em recidiva, e não me enga-nei. O amigo absorveu a isca afetiva e desenovelou os sentimen-tos. A principio, falou vagamente das apreensões que lhe assoma-vam ao espírito agoniado. Aspirava a esquecer, alhear-se; noentanto... a retaguarda familiar no mundo lhe infligia dolorosasreminiscências difíceis de extirpar. – É a esposa quem o aflige, assim tanto? – aventurei, procu-rando localizar o carnicão da mágoa que lhe abria as comportasdo pranto silencioso. Pedro fitou-me com a postura dolorida de um cão batido erespondeu: – Há momentos, André, nos quais será preciso biografar-nos,ainda que superficialmente, para vascolejar o pretérito e extrairdele a verdade, somente a verdade... Meditou, algo sufocado por instantes, e prosseguiu: – Não sou homem que me deixe governar por sentimentalis-mos, embora aprecie as emoções pelo justo valor. Além disso, aexperiência, desde muito, me ensinou a raciocinar. Há quarentaanos moro aqui e, há quase quarenta anos, a esposa compeliu-mea absoluto desinteresse do coração. Deixei-a quando a mocidadedas energias físicas lhe estuava no sangue e Enedina, compreensi-velmente, não pôde sustentar-se a distância das exigências femi-ninas. E prosseguiu esclarecendo que ela se associara a outro ho-mem, num segundo casamento, entregando-lhe seus três filhos porenteados. Esse novo marido, entretanto, arredou-a completamentede sua convivência espiritual. Homem ambicioso, senhoreou oscabedais que ele ajuntara, logrando multiplicá-los imensamente, à
  13. 13. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 13força de astúcia em arrojadas empresas comerciais. E agiu comtanta leviandade que a esposa, dantes simples, se apaixonou pelascomodidades demasiadas, gastando o tempo terrestre em prodiga-lidades e tafulices, até que se rojou às derradeiras viciações nosdesvarios do sexo. Observando o esposo em aventuras galantes,de modo permanente, na posição de cavalheiro rico e desocupado,quis desforrar-se, estabelecendo para si mesma desordenado cultoao prazer, mal sabendo que apenas se transviava, em lamentáveisdesequilíbrios. – E meus dois filhos, Jorge e Ernesto, ludibriados pelo fascí-nio do ouro com que o padrasto lhes comprava a subserviência,enlouqueceram no mesmo delírio do dinheiro fácil e se animaliza-ram a tal ponto que nem de leve guardam qualquer traço de minhamemória, não obstante serem atualmente negociantes abastados,em idade madura... – A esposa, no entanto, ainda se encontra no mundo físico? –arrisquei, cortando a pausa longa, para que a explicação não es-morecesse. – Minha pobre Enedina voltou, há dez anos, abandonando ocorpo pela imposição da icterícia, que lhe apareceu por verdugoinvisível, evocado pelas bebidas alcoólicas. Fitando-a, edemacia-da, vencida, ensaiei alarmado todos os processos de socorro àminha disposição... Atemorizava-me a perspectiva de vê-la escra-vizada às forças aviltantes a que se jungira sem perceber; ansiavaretê-la no corpo de carne, como quem resguarda uma criançainconsciente em disfarçado refúgio. Entretanto, ai de mim! Colhi-da por entidades infelizes, às quais se consorciou levianamente,em vão procurei estender-lhe algum consolo, porquanto ela mes-ma, depois de desencarnada, se compraz na viciação, tentando afuga impossível de si própria. Não há outro recurso senão esperar,esperar... – E os filhos?
  14. 14. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 14 – Jorge e Ernesto, hipnotizados pela riqueza material, paramim fizeram-se inabordáveis. Mentalmente, não me registram alembrança. Intentando captar-lhes cooperação e simpatia, o pa-drasto chegou a insinuar que não seriam meus filhos e sim delepróprio, através de união com minha esposa. ao tempo de minhaexperiência terrestre, o que Enedina, infelizmente, não desmen-tiu... O companheiro esboçou um sorriso amarelo e considerou: – Imagine! Na carne, o medo é comum, à frente dos desen-carnados e, em meu caso, fui eu quem se afastou do ambientedoméstico, sob sensações de insopitável horror... Ainda assim, abondade de Deus não me arrojou à solidão, em se tratando daternura familiar. Tenho uma filha de quem jamais me separeipelos laços do espírito... Beatriz, que deixei na flor da meninice,suportou pacientemente as afrontas e conservou-se fiel ao meunome. Somos, assim, duas almas, na mesma faixa de entendimen-to... Pedro enxugou os olhos e acrescentou: – Agora, com quase meio século de existência entre os ho-mens, presa embora ao carinho que consagra ao esposo e ao filhoúnico, prepara-se Beatriz para o regresso... Minha filha vem atra-vessando os derradeiros dias terrenos, com o corpo torturado pelocâncer... – Mas, atormenta-se você por isso? A idéia do reencontro pa-cífico não será, antes, motivo para alegrar-se? – E os problemas, meu amigo? Os problemas do grupo con-sangüíneo? Por muitos anos, estive à margem de todas as tricas donavio familiar... Fizera-me ao oceano largo da vida... Agora, poramor à filha inesquecível, sou compelido a topar, com espírito decaridade, a irreflexão e o descaramento. Estou inapto, desambien-tado... Desde que me postei à cabeceira da doente querida, vejo-
  15. 15. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 15me na condição do aluno debilitado pela expectativa de errosconstantes.. Dispunha-se Neves a prosseguir, mas urgente chamado deserviço nos impeliu à separação e, conquanto diligenciando acal-má-lo, despedi-me, sob o compromisso de irmanar-me a ele, nastarefas de assistência à enferma, de modo mais intenso, a partir dodia seguinte.
  16. 16. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 16 Capítulo 2 Repousava Dona Beatriz no leito bem-posto, patenteando e-norme cansaço. A doença, decerto, consumia-lhe a forma física, desde muito,porquanto aos quarenta e sete anos de idade mostrava o rostosingularmente engelhado e o corpo leve. Refletia, ensimesmada, tristonha... Fácil de se lhe ver a preo-cupação, ante a crise iminente. Idéias a lhe fluírem, vivas e no-bres, indicavam que se habituara à certeza da desencarnaçãopróxima. Notava-se-lhe fixada no pensamento a convicção doviajante que atingira o término de espinhosa trilha, da qual, porfim, lhe competia sair. Conquanto tranqüila, inquietava-se pelos vínculos que aprendiam no mundo. Apesar disso, visualizava as portas do Além,plasmando formosos quadros íntimos, como quem sonha à luz davigília, e recordava Neves, o pai que perdera na infância, qual sevisse prestes a recuperá-lo, em definitivo, tal a extensão do amorque os acolchetava um ao outro. Observávamos, porém, sem dificuldade, que a alma afetuosada enferma se dividia mais fortemente, na Terra, entre o esposo eo filho, dos quais se reconhecia em gradativo processo de inevitá-vel separação. No aposento acolhedor, que alguns adereços ataviavam, tudotransparecia limpeza, reconforto, assistência, carinho. Ante o leito, encontramos sisudo enfermeiro desencarnadoque Neves abraçou, demonstrando guardá-lo à conta de imensaestima. E apresentou-nos:
  17. 17. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 17 – Amaro, temos aqui André Luiz, amigo e médico que, dora-vante, nos partilhará os serviços. Saudamo-nos cordialmente. Neves inquiriu, atencioso: – O irmão Félix veio hoje? – Sim, como sempre. Informei-me, então, de que o irmão Félix, desde muitos anos,era o superintendente de importante casa socorrista, ligada aoMinistério da Regeneração, em Nosso Lar2. Famoso pela bondadee paciência, era conhecido como sendo um apóstolo da abnegaçãoe do bom-senso. Não dispúnhamos, entretanto, de qualquer tempo para consi-derações pessoais. Dona Beatriz experimentava dores agudas e o companheiromostrou o propósito de aliviá-la, através do passe confortativo,enquanto a senhora se via aparentemente a sós. Em grande pros-tração física, revelava profunda sensibilidade mediúnica. Oh! os sublimes pensamentos do leito de dor!... De olhos cer-rados, a doente, embora não assinalasse a presença paterna, lem-brava a ternura do genitor, que lhe parecia distante e inacessívelno tempo. Identificava-se, de novo, com a ingenuidade infantil...Na acústica da memória, ouvia as canções do lar, voltava, encan-tada, às horas da meninice... Reconstituindo na imaginação asrelíquias do berço, sentia-se no regaço paternal, à maneira da avede regresso à penugem do ninho! Dona Beatriz chorava. Lágrimas de enternecimento inexpri-mível perolavam-lhe a face. E sem que a boca enunciasse o menor2 Organizações no Plano dos Espíritos. (Nota do Autor Espiritual)
  18. 18. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 18movimento, clamava intimamente com toda a alma: “pai, meupai!...” Meditai, vós que, no mundo, admitis para os desencarnados aindiferença da cinza! Para lá dos túmulos, amor e saudade muitasvezes se transformam, no vaso do coração, em pranto comburen-te! Neves cambaleou, agoniado... Enlacei-o, contudo, a pedir-lhecoragem. A ventania da angústia, porém, sobre o ânimo do com-panheiro atribulado, perdurou apenas alguns momentos. Refeito, arecompor o semblante que o sofrimento transfigurara, espalmou adestra na fronte da filha e orou, suplicando o amparo da BondadeDivina. Chispas de luz, quais minúsculas flamas azulíneas, evolavam-lhe do tórax, a se projetarem naquele corpo fatigado, revestindo-ode energias calmantes. Emocionado, observei que Dona Beatriz se acomodava a sua-ve torpor. E antes que pudesse enunciar qualquer impressão, umajovem, figurando-se nas vinte primaveras da experiência física,entrou cautelosamente no quarto. Renteou conosco, sem perceber-nos, de leve, e tomou o pulso da enferma, verificando-lhe ascondições. A recém-chegada esboçou o gesto de quem reconhecia tudoem ordem. Encaminhou-se, logo após, na direção de pequeninoarmário próximo e, munindo-se dos recursos necessários, voltou àcabeceira da dona da casa, aplicando-lhe injeção anestesiante. Dona Beatriz não mostrou a mínima reação, continuando adescansar, sem dormir. O concurso magnético de minutos antes insensibilizara-lhe oscentros nervosos. Perfeitamente tranqüila, a moça, na qual observávamos a po-sição da enfermeira improvisada, retirou-se para um dos ângulos
  19. 19. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 19do aposento, a largar-se em acolhedora poltrona de vime. Emseguida, descerrou um dos segmentos da janela quadripartida,atraindo a corrente de ar fresco que nos bafejou sem alarde. Respirando à saciedade, a jovem, com grande surpresa paramim, acendeu um cigarro e passou a fumar distraidamente, dandoa idéia de quem diligenciava fugir de si mesma. Neves fitou-a, deitando-lhe significativo olhar em que semesclavam piedade e revolta e, indicando-a, discreto, informou-me: – Trata-se de Marina, contadora de meu genro, que se dedicaao comércio de imóveis... Agora, a pedido dele, desempenhafunções de assistente... Evidente sarcasmo transparecia-lhe da palavra reticenciosa. – Imagine! – voltou a dizer – fumar aqui. numa câmara dedor, onde a morte está sendo esperada!... Contemplei Marina, cujos olhos denotavam recôndita inquie-tude. Manifestando ainda alguns laivos de respeitosa estima paracom a nobre senhora estirada no leito, soprava, para além dajanela, as baforadas cinzentas que lhe escapavam da boca. Repartindo a própria atenção entre ela e Amaro, o nosso ami-go da esfera espiritual, Neves, conquanto mudo e constrangido,parecia querer falar à vontade e desinibir-se. Tentei, porém, adquirir mais amplo conhecimento da posição. Aproximei-me reverentemente da jovem, no propósito desondá-la em silêncio e colher-lhe as vibrações mais intimas; con-tudo, recuei assustado. Estranhas formas-pensamentos, retratando-lhe os hábitos eanseios, em contradição com os nossos propósitos de socorrer a
  20. 20. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 20doente, fizeram-me para logo sentir que Marina se achava ali, acontragosto. A sua mente vagueava longe... Quadros vivos de esfuziante agitação ressumavam-lhe na ca-beça... De olhar parado, escutava, adentro de si própria, a músicabrejeira da noite festiva, que atravessara na véspera, e experimen-tava ainda na garganta a impressão do gim que sorvera, abundan-te. Apesar de surgir-nos, superficialmente, à guisa de meninacrescida, sob o turbilhão de névoa fumarenta, exibia telas mentaiscomplexas, a lhe relampaguearem na aura imprecisa. Trazido pelas circunstâncias a colaborar na solução de umprocesso assistencial, sem qualquer intuito menos digno, passei aestudar-lhe o comportamento isolado. A Medicina terrestre, nofuturo, para atender com eficácia, ao doente, examinar-lhe-á, comminúcias, a feição espiritual de todas as peças humanas que lhearticulam a equipe. Respeitoso, iniciei os apontamentos de ampla anamnese psi-cológica. Marina apresentou, a princípio, a figura de um homem ama-durecido, cunhada por sua própria imaginação, a repetir-se-lhe,muitas vezes, acima da fronte. Ela e ele, juntos... Percebia-se-lhes, de pronto, a intimidade,adivinhava-se-lhes o romance... Fisicamente, semelhavam pai efilha; entretanto, pelas atitudes sentimentais, não conseguiamdisfarçar a estuante paixão um pelo outro. Nos painéis sutis quesurgiam e se desfaziam, alternadamente, mostravam-se ambosextasiados, ébrios de prazer, fosse aboletados no automóvel deluxo ou enlaçados na areia morna das praias, conchegados sob aproteção de arvoredo tranqüilo ou sorridentes em tumultuadosabrigos de encantamento noturno... Deslumbrantes paisagens deCopacabana ao Leblon desfilavam por admirável fundo pictórico.
  21. 21. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 21 A moça entrefechava as pálpebras para senhorear, com maissegurança, as reminiscências que lhe empolgavam os sentidos,para, logo após, mentalizar, surpreendentemente, outro homem,tão jovem quanto ela mesma, evidenciando-se-nos entregue àscenas de um filme interior, diferente... Formava novo tipo depalco para exibir a lembrança das próprias aventuras, no qual sedestacava igualmente ao pé do rapaz, como se estivesse afeiçoadaaos mesmos sítios, desfrutando companhias diversas... Ela e eletambém juntos, no mesmo carro entrevisto ou na condição depedestres felizes, saboreando refrescos ou repousando em anima-dos entendimentos nos jardins públicos, sugerindo o encontro decrianças enamoradas, a entretecerem aspirações e sonhos.. Naqueles rápidos minutos de fixação espiritual, em que se ex-teriorizava tal qual era, Marina revelava a personalidade dúpliceda mulher dividida entre o carinho de dois homens, jugulada porpensamentos de medo e inquietude, ansiedade e arrependimento. Neves, que de algum modo me partilhava a inspeção, quebroua calma reinante, enunciando, abatido: – Está vendo? Julga que é fácil para mim, pai da doente, su-portar aqui semelhante criatura? Tratei de consolá-lo e, por solicitação dele próprio, passamosa pequeno salão de leitura, contíguo ao aposento da enferma, afim de que pudéssemos refletir e conversar.
  22. 22. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 22 Capítulo 3 Na peça isolada, o amigo cravou os olhos lúcidos nos meus eobtemperou: – Após a desencarnação, achamo-nos na segunda fase da pró-pria existência e ninguém, na Terra, imagina as novas condiçõesque nos tomam de assalto... De começo, renovamos a vida...Equipes salvadoras, apoio na prece, estudo das vibrações, escolada caridade. Ensaiamos, felizes, o culto dos grandes sentimentoshumanos... Depois, quando trazidos, de retorno, ao trabalho maisíntimo, na arena doméstica, que supúnhamos varrida para sempreda memória, como na situação especial de meu caso, a didática éoutra... É preciso espremer o sangue do coração para confirmar oque ensinamos com a cabeça... Avalie que me encontro nestacasa, em serviço, apenas há vinte dias e já recebi tantas punhala-das na alma, que, não fossem as necessidades de minha filha, teriafugido, incontinenti... Sem minhas observações pessoais, não teriaadmitido tanta leviandade em meu genro... Bilontra, fanfarrãodespudorado. – Sim, sim... – tentei cortar as doloridas alegações. Comentei, breve, a excelência do olvido de todo mal, argu-mentei quanto ao merecimento do auxílio silencioso, através daoração. Neves sorriu, meio desconsolado, e ajuntou: – Compreendo que você se reporta à vantagem do pensamen-to positivo na fixação do bem e creia que, de minha parte, fareiquanto puder para não esquecê-lo. Agora, porém, tolere, porfavor, as minhas considerações talvez descabidas. .. A Medicina éciência luminosa, recheada de raciocínios puros; no entanto,muitas vezes é obrigada a descer da alta cultura para dissecar oscadáveres...
  23. 23. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 23 Endereçou-me o olhar de alguém que anseia derramar-se nou-tro alguém e continuou: – Saiba você que na quinta noite de minha permanência aqui,notando Beatriz em aguda crise de sofrimento, diligenciei buscarmeu genro para assisti-la em pessoa... E sabe onde o encontrei?Nada de escritório, segundo a falsa informação que deixara emcasa. Indignado, fui surpreendê-lo numa furna penumbrosa, emplena madrugada, junto da menina que você acaba de conhecer.Os dois unidos, qual marido e mulher. Champanha correndo emúsica lasciva. Entidades perturbadoras e perturbadas, jungidasao corpo dos bailarinos, enquanto outras iam e vinham, a se incli-narem sobre taças, cujo conteúdo lábios entediados não haviamconseguido sorver totalmente. Em recanto multicolorido, ondealgumas jovens exibiam formas semi-nuas em coleios esquisitos,vampiros articulavam trejeitos, completando, em sentido menosdigno, os quadros que o mau-gosto humano pretendia apresentar,em nome da arte. Tudo rasteiro, impróprio, inconveniente... Fis-guei meu genro e a colaboradora, nos braços um do outro, recor-dei minha filha doente e revoltei-me. Súbito desespero apossou-sede mim. Oscilou minha razão escurecida, pois cheguei a justificar,de relance, a deplorável atitude dos companheiros desencarnadosque se transformam em vingadores intransigentes. O “homemvelho” que eu fora e o “homem renovado” que aspiro a ser digla-diavam em minhas fibras recônditas... Estacou numa pausa, rearticulando os pensamentos, e conti-nuou: – Tinha visto, apavorado, em outro tempo, aqueles que se a-nimalizavam, depois da morte, nos lares que lhes haviam sidoreduto à felicidade, a se precipitarem, violentos, sobre os entesamados que lhes desertavam da afeição... Funcionara, entusias-mado, em diversas comissões socorristas, procurando esclarecê-los e modificá-los para o bem, a fazer-lhes sentir que as lutas
  24. 24. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 24morais, depois da desencarnação, se erigiriam igualmente empenosa herança para todos aqueles com os quais se desarmoniza-vam; advertia-os de que o túmulo esperava também quantos, naTerra, lhes sonegavam lealdade e ternura... E, bastas vezes, logra-va acalmá-los para a retirada benéfica. Mas ali.. Imprudentementeagastado contra a insensibilidade do homem que me desposara afilha querida, vi-me chamado a praticar os bons conselhos quehavia administrado... O amigo fez ligeiro intervalo, enxugou as lágrimas que lhecorriam no rosto, ao evocar a própria inconformação, e completoua frase, aditando: – Mas não pude. Tomado de cólera incoercível, avancei, qualfera desacorrentada, e, irrefletidamente, esmurrei-lhe a face. Eledeixou-se cair nos ombros da companheira, acusando agoniadaindisposição, como se estivesse sob o impacto de súbita lipotimi-a... Dispunha-me, em seguida, a torcer-lhe o corpo, em meusbraços rijos; entretanto, não consegui. Uma senhora desencarnada,de semblante nobre e calmo, aproximou, desarmando-me o ínti-mo. Não entremostrava sinais exteriores de elevação. Patenteava-se, aliás, tão profundamente humana, quanto nós mesmos. Dife-renciava-se apenas através de minúsculo distintivo luminoso, quelhe brilhava palidamente no peito, qual jóia rara a emitir discretaradiação. Afagou-me, de leve, a cabeça e induziu-me à serenida-de. Envergonhado, fitei-a, constrangido. A dama inesperada nãome censurou, nem fez qualquer alusão ao meu gesto infeliz. Aorevés, falou-me com bondade, quanto à filha doente. Demonstravaconhecer Beatriz, tanto quanto eu próprio. E acabou convidando-me a sair do recinto, para acompanhá-la até ao quarto da enferma.Atendi sem relutância. E porque a gentil interventora, no trajeto,somente se reportasse aos méritos da compreensão e da tolerância,sem qualquer referência aos desvarios da casa que vínhamos dedeixar, procurei reprimir-me, para cogitar, exclusivamente, de
  25. 25. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 25socorro à filha em dificuldade. A mensageira anônima recolocou-me no lar, despedindo-se, delicada; e depois disso não mais a vi,pelo que, ainda agora, me lembro dela, positivamente intrigado... Ensaiava alguma observação reconfortante, rememorandominhas experiências, quando Neves, interpretando-me os pensa-mentos, obtemperou depois de longa pausa: – Você, André, nunca se viu defrontado por acontecimentosassim desagradáveis? Recordei, emocionadamente, as primeiras impressões que mehaviam transtornado a sensibilidade, após a desencarnação. Re-constituí na memória todas as telas em que me surpreendera desa-nimado, excitado, dilacerado, vencido... As transformações domésticas, os empeços familiares, os im-positivos da luta humana e as sugestões da natureza física que mehaviam alterado a esposa e os filhos, na Terra, quando se reco-nheceram sem a minha presença direta, retornaram-me ao cora-ção. Senti-me mais estreitamente ligado ao meu interlocutor,assimilando-lhe o torturado influxo mental, e comentei: – Sim, meu amigo, atravessada a grande barreira, os meusproblemas, a princípio, foram enormes... Entretanto, não foi possível desabafar-me. Cavalheiro maduroe simpático penetrou o recinto, compreensivelmente sem perce-ber-nos. Neves, contrafeito, indicou-o, explicando-me: – É Nemésio, meu genro... O recém-chegado mirou-se, atenciosamente, em espelho pró-ximo, repassou lenço alvo sobre a testa suarenta e, quando reajus-tava a gravata bem-posta, escutou prolongado suspiro. Lançou-se,incontinenti, para a câmara contígua e seguimo-lo.
  26. 26. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 26 Marina veio recebê-lo com amável sorriso, conduzindo-o àcabeceira da senhora, que passou a fitá-lo entre confortada eabatida. Dona Beatriz estendeu a mão descarnada que o marido bei-jou. Trocando com ela enternecido olhar, acomodou-se Nemésiorente aos travesseiros, a endereçar-lhe perguntas carinhosas, aomesmo tempo que lhe alisava a descuidada cabeleira. A doente pronunciou algumas palavras breves, diligenciandoagradá-lo, e ajuntou: – Nemésio, você me perdoará se volto ao caso de Olímpia...A pobre criatura perdeu a casa quase que totalmente... É necessá-rio que você lhe garanta abrigo seguro... Penso nela com os filhosao desamparo. Tire-me dessa aflição... O interpelado mostrou profunda emotividade e respondeu,cortês: – Beatriz, não há dúvida alguma. Já enviei um amigo, cons-trutor experiente, ao local. Não se preocupe, tudo faremos semqualquer sacrifício. Questão de tempo... – Receio partir de uma hora para outra... – Partir para onde? Nemésio acariciou-lhe a fronte descolorida, sacou um sorrisoamargo e prosseguiu: – Enquanto você estiver em tratamento, nossas viagens estãosustadas. Não é hora de São Lourenço... – Minha estação curativa será outra. – Não me fale em pessimismo... Ora, ora... Onde a primaverade nossa casa? Você anda esquecida de que nos ensinou a colocaralegria em tudo? Largue os ares sombrios... Ainda ontem, ouvinosso médico. Você entrará em convalescença, já, já... Amanhãtomarei providências definitivas para que o barraco seja levanta-
  27. 27. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 27do. Você estará restabelecida em breve e ambos iremos ao primei-ro café em casa de nossa Olímpia... Dona Beatriz, ante o carinho dele, pareceu reanimar-se. En-treabriu-se-lhe a boca num largo sorriso, que se me afigurou umaflor de esperança num cacto de sofrimento. Aqueles olhos imensamente lúcidos derramaram duas lágri-mas de felicidade que o esposo enxugou com gracioso gesto. Naface amarelada, lampejaram raios de confiança. Experimentando-se mentalmente renovada, a enferma acredi-tou no reerguimento do corpo físico e ansiou viver, viver pormuito tempo ainda no aconchego familiar. Manifestando o próprioreconforto, solicitou de Marina uma chávena de leite. A enfermeira atendeu, comovida. E, enquanto a doente sorviao líqüido, gole a gole, refleti na bondade daquele homem que apalavra do companheiro me apresentara noutras cores. O pensamento de Nemésio revelara-se-nos, até ali, claro e pu-ro. Trazia Dona Beatriz no cérebro, nos olhos, nos ouvidos, nocoração. Dispensava-lhe a compreensão de um amigo, a ternurade um pai. Neves endereçava-me estranho olhar, qual se estivesse, tantoquanto eu, defrontado por indizível assombro. Alguns momentos escoaram-se, rápidos. Quando a enferma devolveu a xícara, outro quadro se nosdesdobrou à visão. Nemésio levantara-se rente ao leito e, por trás da cabeceira al-teada, estendeu a Marina, que se mantinha do lado oposto, a mãogrossa e hirsuta a que ela entregou a destra alva e leve. O marido passou, então, a falar brandas palavras para a espo-sa satisfeita, afagando, simultaneamente, os róseos dedos dajovem que, pouco a pouco, se desinibia, através do olhar brejeiro.
  28. 28. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 28 Contemplei Nemésio, admirado. Alteravam-se-lhe agora ospensamentos, que me pareceram, então, incompatíveis com asensação de respeitabilidade que ele nos inspirava. Voltei-me, instintivamente, para Neves e ele, indicando-me asduas mãos que se acariciavam, uma à outra, exclamou para mim: – Este homem é um enigma.
  29. 29. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 29 Capítulo 4 Acomodados, de novo, no aposento próximo, buscava soer-guer o ânimo de Neves, positivamente desapontado. Arrojara-se o companheiro ao clima da dignidade ofendida,dando a impressão de que a família encarnada ainda lhe pertencia.Exprobrava a conduta do genro. Exalçava os merecimentos dafilha. Aludia ao passado, quando ele próprio vencera lances difí-ceis na luta sentimental. Desculpava-se. Ouvia-lhe, condoído, os apontamentos, a refletir, de minhaparte, quanto à dificuldade com que somos todos nós defrontadospara dissipar a ilusão da posse sobre os outros. Não fosse a obri-gação de respeitar-lhe os sentimentos e, certo, me exorbitaria, alimesmo, em comprida tirada filosófica, recomendando o despren-dimento: contudo, logrei apenas confortá-lo: – Não se aflija. Desde muito aprendi que para as pessoas de-sencarnadas, quase sempre, as portas do lar se fecham no mundo,quando a morte lhes cerra os olhos. Entretanto, não pude prosseguir. À guisa de duas crianças enlevadas e jubilosas, Nemésio eMarina penetraram a câmara, fugindo claramente à presença daenferma. Guardavam no semblante a expressão dos namorados felizes,quando alimentam o clássico “enfim sós”, trancando-se contentes. Dispus-me, instintivamente, a sair, mas Neves sustou-me oimpulso de retirada, convidando-me, aturdido: – Fique, fique... Não louvo a indiscrição; no entanto, estou,ao lado de minha filha, em sentido direto, simplesmente há algunsdias e devo saber o que ocorre, para ser útil...
  30. 30. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 30 A esse tempo, Nemésio enlaçara a enfermeira, qual se voltas-se, de improviso, aos arrebatamentos da juventude. Amimava-lheas mãos miúdas e os cabelos sedosos, reportando-se ao futuro.Justificava-se, copiando as preocupações de um adolescente,interessado em vacinar a escolhida contra o ciúme. Deveriam serbons para Beatriz, às portas do fim, e agradecer ao destino que oslivrava dos aborrecimentos e percalços de um desquite, mesmoamigável... Ouvira o médico, na véspera, informando-se de que adoente não conseguiria viver mais que algumas semanas. E sorria,qual menino travesso, explicando que não admitia a sobrevivênciada alma; no entanto, a seu ver, se houvesse vida além da morte,não desejava que a esposa partisse, nutrindo por eles ressentimen-tos quaisquer. Apaixonado, procurava convencer-se de que se viacorrespondido, cravando a atenção nos olhos enigmáticos dacompanheira, a quem se reconhecia imanizado por intensa atra-ção. Marina retribuía, como quem se deixava querer bem; no en-tanto, apresentava o fenômeno singular da emoção jungida a ele eo pensamento voltado ao outro, empenhando-se, por todos osmeios, a encontrar nesse outro o incentivo necessário a essa mes-ma emoção. Nemésio comentava os próprios empeços, sensibilizado. Confessava-lhe devoção inexcedível. Não a queria de ânimoinquieto. De futuro, abandonaria os negócios. Viveriam felizes, nacasinha de São Conrado, que transformaria em bangalô confortá-vel, entre o verde do mar e o verde da terra. Mandaria aprestar areconstrução em estilo novo, a fim de que a moradia os recebesse,no momento oportuno. Que ela confiasse. Aguardaria apenas amodificação do próprio estado social para conferir-lhe o título deesposa, esposa para sempre. Isso tudo era dito num jogo de manifestações carinhosas emque a sinceridade prevalecia num lado e o cálculo no outro.
  31. 31. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 31 Assinalei, porém, estranha ocorrência. Ele e ela comunicavam-se, entre si, as mais ternas expansõesde encantamento recíproco, sem ser dissoluto, e pareciam aderir,automaticamente, às impressões que esboçávamos, de vez queacompanhávamos os mínimos gestos dos dois, com aguçadaobservação, prejulgando-lhes os desígnios com o fundo de nossaspróprias experiências inferiores já superadas. Semelhantes registros que formulamos, com absoluta impar-cialidade, são dignos de nota, porquanto, atento qual me achavaao estudo, vimo-nos obrigados a reconhecer que a nossa expecta-tiva maliciosa, aliada ao espírito de censura, estabelecia correntesmentais estimulantes da turvação psíquica de que ambos se viamacometidos, correntes essas que, partindo de nós na direção deles,como que lhes agravava o apetite sensual. O marido de Beatriz acentuava, em transportes de felicidadejuvenil, embora a voz ciciante, o anseio com que lhe aguardava ocarinho permanente no refúgio caseiro. De inopinado, porém, a jovem prorrompeu em pranto copio-so. O companheiro beijou-lhe a face, aspirando a aliviar-lhe atensão convulsiva. De nosso lado, entretanto, reparávamos que Marina se fixava,cada vez mais, no moço cuja figura se lhe engastava à imagina-ção. Escabroso, sem dúvida, o conflito de que se verificava possu-ída, à vista da sinceridade inequívoca de todas as promessas quelhe eram endereçadas. Olvidando os compromissos abraçados, perante a esposa, quelhe requisitava, naquela hora, mais amplas evidências de fidelida-de e ternura, bandeara-se o chefe da casa, apaixonadamente, paraela, entregando-se-lhe sem reservas. Inteligente bastante para
  32. 32. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 32entender quanto se lhe debilitara o raciocínio de homem circuns-pecto, a menina identificava a fase perigosa da partida infeliz aque se lançara e aturdia-se, ali, confundida entre aflições e remor-sos a lhe arpoarem o coração. Compelidos pelas circunstâncias à penetração dos assuntosem exame, assinalávamos as telas mentais da moça, a se lhe der-ramarem do íntimo, irradiando-lhe a história. Fizera-se querida pelo maduro genro de Neves, sem dedicar-lhe outros sentimentos que não fossem reconhecimento e admira-ção... Todavia, agora que os acontecimentos lhe impeliam a almana direção de laços mais profundos, tremia pelas indébitas con-cessões que lhe havia feito. Remoia-lhe no espírito as recônditasreminiscências de sua aventura afetiva, recapitulando todos ossucessos pelos quais havia atraído o protetor experiente aos seusmétodos sutis de sedução, para concluir, assustada, que amava atéà loucura aquele rapaz franzino, que se lhe destacava do pensa-mento, através de cativantes apelos da memória. Dentro dela, embatia-se guerra terrível de emoções e sensa-ções. Nemésio consolava-a, formulando frases de paternal solicitu-de. E, ao responder-lhe às reiteradas perguntas, quanto ao chorointempestivo, a jovem adotou largo processo de perfeita dissimu-lação, invocando problemas domésticos para articular evasivascom que encobria a realidade. Tentando esquivar-se de si mesma, reportou-se a supostas a-gruras do lar. Salientou exigências maternas, falou em dificulda-des financeiras, alegou fantásticas humilhações que colhia notrato da irmã adotiva, mencionou incompreensões do genitor, emrixas constantes nos círculos da família... O interlocutor reconfortou-a. Que não se amofinasse. Não es-taria a sós. Partilhar-lhe-ia todos os impedimentos e dissabores,
  33. 33. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 33fossem quais fossem. Tivesse paciência. O desenlace de Beatriz,indicado para breves dias, ser-lhes-ia o marco fundamental daventura definitiva. Exprimia-se Nemésio em tom de súplica. E talvez percebendoque apenas à força de palavras não conseguiria subtraí-la aossoluços, arrancou de pasta próxima um livro de cheques, colocan-do-lhe expressivo concurso amoedado nas mãos que o lençomolhado umedecera. A moça pareceu mais comovida, exibindo no rosto a apreen-são de quem se recriminava sem qualquer justificativa de consci-ência, ao passo que ele a enlaçava, afetuoso. No silêncio quesobreveio, voltei-me para Neves, mas não consegui pronunciarpalavra. Não obstante desencarnado, o amigo se me afigurava agoraum homem positivamente vulgar da Terra, que a revolta azedava.Sobrecenho crispado alterava-lhe a feição no desequilíbrio vibra-tório que precede as grandes crises de violência. Receava se lhe transfigurasse a calamidade emotiva em a-gressão, mas sucedeu o imprevisto. A súbitas, venerando amigo espiritual penetrou a câmara. Arrebatadora expressão de simpatia marcava-lhe a presença.Radioso halo circundava-lhe a cabeça; no entanto, não era a luzsuave a se lhe extravasar docemente da aura de sabedoria que meimpressionava e sim a substância invisível de amor que lhe ema-nava da individualidade sublime. Fitei-lhe os olhos, de relance, com a idéia enternecedora dequem revia um companheiro, longamente esperado por aflitivassaudades acumuladas no coração. Fluidos calmantes banhavam-me todo, qual se fosse visitadono âmago do ser por inexplicáveis radiações de envolvente alegri-a.
  34. 34. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 34 Onde teria conhecido, nas trilhas do destino, aquele amigoque se me impôs ao sentimento qual irmão de velhos tempos?Debalde vascolejei a memória naqueles segundos inolvidáveis. Num átimo, vi-me recambiado às sensações puras da infância.O emissário, que estacara à frente de nós, não me fazia retomarsimplesmente a segurança a que me habituara, quando menino,ante os braços paternos, mas também ao carinho de minha mãe,que nunca se me apartara do pensamento. Oh! Deus, em que forja da vida se constituem esses elos daalma? em que raízes de júbilo e sofrimento, através das reencar-nações numerosas de trabalho e esperança, dívidas e resgates, secompõe a seiva divina do amor que aproxima os seres e lhestransfunde os sentimentos numa só vibração de confiança recípro-ca? Levantei meus olhos de novo para o benfeitor que se avizi-nhava e fui compelido a sofrear a própria emotividade a fim denão retê-lo instintivamente em arremessos de regozijo. Erguemo-nos de chofre. Após cumprimentá-lo, disse Neves, então desanuviado, a a-presentar-me quase sorrindo: – André, abrace o irmão Félix... Adiantou-se, porém, o recém-chegado, ofertando-me um a-braço e proferindo saudação calorosa, com o evidente propósitode frustrar quaisquer elogios no nascedouro. – Grande contentamento o de vê-lo – disse, benevolente. – Deus o abençoe, meu amigo... A comoção, entretanto, imobilizava-me. Não logrei arrancardo coração à boca as expressões com que anelava pintar o meuenlevo, mas osculei-lhe a destra com a simplicidade de uma cri-
  35. 35. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 35ança, rogando-lhe mentalmente receber as lágrimas que me caíamda alma, por mudo agradecimento. Ocorreu, em seguida, algo de inusitado. Nemésio e Marina transferiram-se, de repente, a novo campode espírito. Confirmei a impressão de que a nossa curiosidade enfermiçae a revolta que dominava Neves até então haviam funcionado alipor estímulos ao magnetismo animal a que se ajustavam os doisenamorados, que nem de leve desconfiavam da minuciosa obser-vação a que se viam sujeitos, porquanto bastou que o irmão Félixlhes dirigisse compassivo olhar para que se modificassem, incon-tinenti. A visão de Beatriz enferma cortou-lhes o espaço mental, àfeição de um raio. Esmoreceram-se-lhes os estos de paixão. As-semelhavam-se ambos a um par de crianças, atraídas uma para aoutra, cujo pensamento se transfigura, de improviso, ante a pre-sença materna. E não era só isso. Não podia auscultar o mundo íntimo deNeves; contudo, de minha parte, súbita compreensão me inundoua alma. E se eu estivesse no lugar de Nemésio? Estaria agindo me-lhor? – Silenciosas indagações se me incrustavam na consciência,impelindo-me o espírito a raciocinar em nível mais alto. Fitei o atribulado chefe da casa, possuído de novos sentimen-tos, percebendo nele um verdadeiro irmão que me cabia entendere respeitar. Embora confessando a mim mesmo, com indisfarçável re-morso, a impropriedade da atitude que assumira, momentos antes,prossegui estudando a metamorfose espiritual que se processava.
  36. 36. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 36 Marina passou a revelar benéfica reação, como se estivesseadmiravelmente conduzida em ocorrência mediúnica, de antemãopreparada. Recompôs-se, do ponto de vista emotivo, patenteandointegral desinteresse por qualquer forma de entretenimento físico,e falou, com delicadeza, da necessidade de voltar aos cuidadosque a doente exigia. Nemésio, a refletir-lhe a renovada posiçãointerior, não ofereceu qualquer embargo, acomodando-se empoltrona próxima, enquanto a jovem se retirava, tranqüila. Reparei que Neves ansiava conversar, desabafar-se; no entan-to, o benfeitor, que nos granjeara os corações, apontou o esposode Dona Beatriz e convidou: – Meus amigos, nosso Nemésio está seriamente enfermo, semque ainda o saiba. Ignoro se já lhe notaram a deficiência orgâni-ca... Procuremos socorrê-lo.
  37. 37. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 37 Capítulo 5 Imperfeitamente refeitos do assombro que semelhante atitudenos causava, passamos a colaborar com o irmão Félix, na aplica-ção de recursos, a beneficio do amigo que, embora nos desconhe-cesse a presença, se mantinha agora em aturada reflexão. Ao contacto das mãos do benfeitor que mobilizava, proficien-te, a energia magnética, Nemésio expunha as deficiências docampo circulatório. O coração, consideravelmente aumentado, denotava falhasameaçadoras com endurecimento das artérias. O examinando, rebuçado por fora, era enfermo grave por den-tro. Entretanto, a característica mais constrangedora que apresen-tava surgia na arteriosclerose cerebral, cujo desenvolvimentoconseguíamos claramente positivar, manejando diminutos apare-lhos de auscultação. Comprovando longa experiência médica, o irmão Félix apon-tou-nos determinada região, em que notei a circulação do sanguereduzida, e informou: – Nosso amigo permanece sob o perigo de coágulos bloquea-dores e, além disso, é de temer-se a ruptura de algum vaso emqualquer acidente mais importante da hipertensão. Como se nos percebesse a movimentação e nos registrasse osapontamentos, o genro de Neves, na cadeira estofada a que serecolhera, instintivamente respondia ao inquérito afetuoso a quelhe submetíamos a memória, elucidando-nos todas as dúvidas,através de reações mentais específicas. Acreditava-se afundado naimaginação, ignorando que se nos revelava, por inteiro, na feiçãode um doente voltado para os esclarecimentos da anamnese. Re-memorou as tonturas ligeiras que vinha experimentando amiúde.Vasculhava a lembrança, atendendo-nos às perguntas. Alinhava
  38. 38. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 38acontecimentos passados, fixava pormenores. Reconstituiu, quan-to possível, as fases do desconforto a que se vira atirado, subita-mente, com a perda dos sentidos que sofrera, no escritório, diasantes. Sentira-se desamparado, de chofre. Ausente. O pensamentoesvaíra-se-lhe da cabeça, como se expulso por martelada interior.Pavoroso delíquio que se lhe representara infindável, quandoperdurara simplesmente por segundos. Retomara a noção de simesmo, atarantado, abatido. Curtira apreensões, ensimesmado,por muitos dias. Para desafrontar-se, expusera a ocorrência perante velho ami-go, na antevéspera, já que não sabia como destrinçar o fenômeno. A tela rearticulada por ele, na imaginação, salientava-se tãonítida que lográvamos contemplá-los juntos, Nemésio e o compa-nheiro que lhe tomara confidências, como se estivessem filmados. O marido de Beatriz, inconscientemente, configurava infor-mes precisos, acerca do desmaio experimentado, das inquietaçõesconseqüentes, da entrevista que provocara com o colega de negó-cios e do entendimento cordial havido entre ambos. Consignamos os avisos que o interlocutor lhe transmitira. Não lhe cabia adiar providências. Devia procurar um médico,analisar as próprias condições, definir os sintomas. Traçou adver-tências. Verificava-se-lhe facilmente a fadiga. No Rio, obteriamelhoras em alguma clínica de repouso. Umas férias não lhefariam mal. Qualquer síncope, a seu ver, equivalia a puxão decampainha, no apartamento da vida. Sério vaticínio, enfermidadeà porta. Nemésio, calado, sem perceber que se comunicava conosco,repetia espiritualmente as alegações que formulara. Difícil a consulta. Responsabilidades em penca, o tempo es-casso. Acompanhava a esposa, na travessia das horas derradeiras,em doloroso término de existência e não encontrava meios de
  39. 39. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 39cuidar de si. Não discutia a oportunidade das admoestações, masadmitia-se obrigado a transferir o tratamento para quando pudes-se. No entanto, no âmago do pensamento, por noticiário vivo se-cretamente arquivado no cofre da alma, desvelava, para nós,motivos outros que não tivera coragem de expender. Enternecido ao toque de amor fraterno do benfeitor que oauscultava, liberou, em silêncio, as mais fundas preocupações. Semelhava-se a menino peralta, quando espontâneo e obedi-ente no clima dos pais. Aclarou, positivo, a razão da fuga a qualquer assunto relacio-nado com a provável submissão a preceitos médicos. Receavaconhecer o próprio estado orgânico. Amava, novamente, crendo-se de regresso às primaveras do corpo físico. Identificava-seespiritualmente jovem, feliz. Qualificava a afeição de Marinacomo sendo o reencontro da mocidade que ficara para trás. Alinhavando recordações e meditações, exibia, diante de nós,a trama dos acontecimentos que lhe sedimentavam as noçõesprecárias da vida, possibilitando-nos retratar-lhe a realidade psi-cológica. Beatriz, a companheira em vésperas de desencarnação, erigia-se-lhe, agora, no ânimo, em forma de relíquia que situaria, reve-rentemente, em breve, no museu das lembranças mais caras.Imperturbavelmente correta e simples, transformara-lhe a volúpiaem admiração e a chama juvenil em calor de amizade serena.Estranho ao benefício da rotina construtiva, colocara a esposa nolugar da genitora que a morte levara. Disputava-lhe, por instinto,o sorriso benevolente e a bênção da aprovação. Queria-lhe a pre-sença, como quem se acostuma ao serviço de um traste precioso.Harmonizava-se consigo próprio, ao chegar, suarento, em casa,descansando a cabeça fatigada em seu olhar.
  40. 40. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 40 Entretanto, Nemésio, de formação materialista e de índoleutilitária, conquanto generoso, desconhecia que as almas nobrescolhem no amor esponsalício da Terra o fruto da alegria sublime,cuja polpa o tempo sazona e torna mais doce, eliminando os ca-prichos transitoriamente necessários da casca. Insistia na conservação de todos os impulsos emotivos da ju-ventude corpórea. Andava em dia com todas as teorias da libido. Vez por outra, demandava cidades próximas, em noitadas bo-êmias, asseverando, de retorno, aos amigos que assim procediapara desenferrujar o coração. Dessas escapadas, voltava trazendoà esposa corbelhas de alto preço que Beatriz acolhia, enlevada. Nodecurso de algumas semanas, mostrava-se para ela mais compre-ensivo e mais terno. Reconduzido, porém, mais dilatadamente,aos freios do hábito, não sabia consagrar-se às construções espiri-tuais que só a disciplina favorece e garante. Varava, de novo, asfronteiras que os compromissos morais estabeleciam, à maneirade animal arrombando cerca. Em determinadas ocasiões, acontecia fixar a esposa, invaria-velmente abnegada e fiel, perguntando à própria alma o que suce-deria se ela adotasse conduta igual à dele, e aterrava-se. Isso nunca, pensava. Se Beatriz pusesse, ainda que de leve, ovoto feminino em outro homem, era capaz de matá-la. Não hesita-ria. Nesses momentos, impressões contraditórias agitavam-lhe oespírito limitado. Não se interessava absolutamente pela mulher,mas não toleraria concorrência à posse daquela a quem confiara oseu nome. Inquietava-se, imaginava coisas, mas recompunha-se, tranqüi-lo, recordando a esquisita conceituação de velho amigo que con-sumira a existência alcoolizado entre os despojos endinheiradosde parentes ricos, e que lhe tisnara os sonhos do lar, quando me-
  41. 41. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 41nino, a repetir-lhe, freqüentemente: “Nemésio, mulher é chinelano pé do homem. Quando não presta mais, é preciso arranjaroutra.” Compreensível que, regando a raiz do caráter com as águasturvas de semelhante filosofia, atingisse o genro de Neves o mar-co dos sessenta anos com os sentimentos deteriorados, no tocanteao respeito que um homem deve a si mesmo. Por todos esses motivos, na quadra difícil e obscura que atra-vessava, reaprendera os cuidados da preservação individual. Readquirira o gosto de vestir-se com distinção, selecionandofigurinos e alfaiates. Refinara a sensibilidade masculina, afeiçoa-ra-se aos programas radiofônicos de ginástica, no que, aliás, lo-grara despojar-se da adiposidade oscilante. Disputava o ingressoem agremiações festivas para atualizar a linguagem e requintar oporte. Não lhe importavam as tochas brancas que lhe esmaltavam deprata a cabeleira densa. Elegia nos perfumes raros e nas gravatascoloridas motivos de leveza e elegância sempre novos. Pagara habilmente instruções e pareceres de improvisadosprofessores em renovação da personalidade e embelezara-se,vaidoso, lembrando antigo edifício sob nova decoração. Evidentemente, não – raciocinava, apreensivo –, não se resig-naria a qualquer terapêutica que não fosse a de se lhe acentuardisposições ao prazer. Recusaria, peremptório, toda medida ende-reçada a suposto reajustamento orgânico, já que se supunha per-feitamente idôneo para comandar as próprias sensações. Euforia,o problema. Providência medicamentosa, apenas a que lhe arejas-se o espírito, rejuvenescendo-lhe as forças. O irmão Félix voltou a dizer-nos: – Nemésio demonstra enorme esgotamento, à vista dos hábi-tos demolidores a que se rendeu. A inquietação emotiva descon-
  42. 42. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 42trola-lhe os nervos e os falsos afrodisíacos usados solapam-lhe asenergias, sem que ele mesmo perceba. Diante da afirmativa, o esposo de Beatriz fixou agoniado vin-co mental, entremostrando haver assimilado, mecanicamente, oimpacto do grave enunciado. – E se piorasse? – considerou de si para si. A figura de Marina repontou-lhe da alma. Nemésio divagou, cismarento. Concordaria, sim, em recuperar a saúde, mas somente de-pois... Depois que retivesse a jovem no lar, entregue a ele, emdefinitivo, pelos laços do matrimônio. Enquanto não a recolhesse,nos braços, sob regime de compromisso legal, não aceitaria prote-ção médica. Cabia-lhe sustentar-se capaz e moço aos olhos dela.Fugiria deliberadamente de conselhos ou disciplinas tendentes adesviá-lo da ronda de passeios, excursões, entretenimentos ebebedices que, na posição de homem enamorado, acreditavadever-lhe. O irmão Félix não contrapôs qualquer argumentação. Ao re-vés, administrou-lhe recursos magnéticos em toda a provínciacerebral, dispensando-lhe assistência. Ao término da longa operação socorrista, Neves, taciturno,não encobria o próprio desapontamento. A desaprovação esgui-chava-lhe da cabeça, plasmando pensamentos de censura, que,não obstante respeitosa, nos alcançavam em cheio, por chuva devibrações negativas. Talvez, por isso, o benfeitor sugeriu ao dono da casa abando-nar o recinto, solicitação muda que Nemésio atendeu, de pronto,já que se munira das escoras que o amigo espiritual espontanea-mente lhe oferecia. Os três, a sós, tornamos à conversação.
  43. 43. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 43 Félix, sorrindo, afagou de leve os ombros do meu companhei-ro e ponderou: – Entendo, Neves, entendo você... Encorajado pela inflexão de carinho com que semelhantes pa-lavras eram ditas, o sogro de Nemésio desafogou-se: – Quem entende menos sou eu. Não admito tanto resguardopara um cachorro de má qualidade. Um homem igual a este, queme desrespeita a confiança paterna! Quem não lhe vê no espírito apoligamia declarada? Um sessentão desavergonhado que enxova-lha a presença da esposa agonizante! Ah! Beatriz, minha pobreBeatriz, por que te uniste a um cavalo? Dementara-se Neves, diante de nós. Retrocedera mentalmenteao círculo acanhado da família humana e chorava, transtornado,sem que lhe pudéssemos cercear a emoção. – Faço força – gemia acabrunhado –, mas não agüento. Deque me vale trabalhar odiando? Nemésio é um mascarado! Tenhoestudado a ciência de perdoar e servir, tenho aconselhado serviçoe perdão aos outros, mas agora... Divididos por simples parede,vejo o sofrimento e o vício debaixo do mesmo teto. De um lado,minha filha conformada, aguardando a morte; de outro, meu genroe essa mulher que me insulta a família. Deus do céu! que me foireservado? Andarei auxiliando uma filha doente ou sendo chama-do à tolerância? Mas, como suportar um homem desses? Não adiantou um aceno à prudência, na pausa curta. – Antigamente – tartamudeou ele, desesperado – acreditavaque o inferno, depois da morte, fosse pular em vão num cárcere defogo; hoje aprendo que o inferno é voltar à Terra e estar com osparentes que já deixamos... Isso é a purgação de nossos peca-dos!... Félix aproximou-se e ponderou, segurando-lhe afetuosamenteas mãos:
  44. 44. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 44 – Calma, Neves. Sempre surge para todos nós o dia de provaraquilo que somos naquilo que ensinamos. Além disso, Nemésiodeve ser entendido... – Entendido? – entaramelou-se o interlocutor – não chegaráter visto? E acrescentou, quase irônico: – Sabe o senhor qual é o rapaz que vem ocupando o pensa-mento dessa moça? – Sei, mas deixa-me explicar – clareou Félix com brandura. –Principiemos por aceitar Nemésio na posição em que se encontra.Como exigir da criança experiência da madureza ou pedir raciocí-nio certo ao alienado mental? Sabemos que crescimento do corponão expressa altura de espírito. Nemésio é aluno da vida, qual nósmesmos, sem o benefício da lição em que estamos sendo instruí-dos. Que seria de nós, na situação dele, sem a visão que atualmen-te nos favorece? Provavelmente, cairíamos em condições piores... – Quer dizer que devo aprová-lo? – Ninguém aplaude a enfermidade, nem louva o desequilí-brio; no entanto, seria crueldade recusar simpatia e medicação aodoente. Consideremos que Nemésio não é um companheiro des-prezível. Emaranhou-se em sugestões perigosas, mas não fugiu daesposa a quem presta assistência; mostra-se engodado por extra-vagâncias emotivas de caráter deprimente que lhe dilapidam asforças; contudo, não esqueceu a solidariedade, resolvendo ofere-cer casa própria e gratuita à senhora que lhe presta serviços remu-nerados; acredita-se dono de juvenilidade física absolutamenteirrisória, quando, na realidade, carrega um corpo em prematurodesgaste; dedica-se apaixonadamente a uma jovem que o menos-caba, conquanto lhe consagre apreço respeitoso... Não bastariamestas razões para merecer benevolência e carinho? Quem de nóscom a possibilidade de auxiliar? Ele que anda cego ou nós que
  45. 45. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 45discernimos? Não posso enaltecer-lhe as manobras lamentáveis,na esfera do sentimento; entretanto, sou obrigado a confessar queele, na ficha de analfabeto das verdades da alma, ainda não tom-bou de todo... Com significativo tom de voz, o instrutor acentuou: – Neves, Neves! A sublimação progressiva do sexo, em cadaum de nós, é fornalha candente de sacrifícios continuados. Nãonos cabe condenar alguém por faltas em que talvez possamosincidir ou nas quais tenhamos sido passíveis de culpa em outrasocasiões. Compreendamos para que sejamos compreendidos. Neves silenciou, decerto controlado pela influência do amigovenerável, e, quando consegui fitá-lo, depois de alguns momentosde expectativa, percebi que se pusera, humildemente, em oração.
  46. 46. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 46 Capítulo 6 De volta ao aposento da enferma, certificamo-nos de queNemésio e Marina haviam saído. A camareira da casa velava. Neves, desenxabido, absteve-se de qualquer comentário. Re-traíra-se no claro propósito de sopitar impulsos menos construti-vos. Recompondo-se, momentos antes, rogara do irmão Félix lhedesculpasse o ataque de cólera em que extravasara rebeldia edesespero. Descera à inconveniência, acusava-se, humilde. Fora descari-doso, insensato, penitenciava-se com tristeza. O irmão Félix, combastante autoridade, se quisesse, poderia demiti-lo do piedosomister que invocara, com o objetivo de proteger a filha; entretan-to, pedia tolerância. O coração paternal, no instante crítico, não sevira preparado, de modo a escalar o nível do desprendimentopreciso, declarava com amargura e desapontamento. Félix, porém, abraçara-o com intimidade e, sorridente, ponde-rou que a edificação espiritual, em muitas circunstâncias, incluiexplosões do sentimento, com trovões de revolta e aguaceiros depranto, que acabam descongestionando as vias da emoção. Que Neves esquecesse e recomeçasse. Para isso, contava comos talentos da oportunidade, do tempo. Obviamente, por isso, osogro de Nemésio ali se achava agora, diante de nós, transforma-do e solícito. Por indicação do paciente amigo que nos orientava, formulouuma prece, enquanto ministrávamos socorro magnético à doente. Beatriz gemia; no entanto, Félix esmerou-se para que se ali-viasse e dormisse, providenciando, ainda, para que não se retiras-se do corpo, sob a hipnose habitual do sono. Não lhe convinha,
  47. 47. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 47por enquanto, esclareceu ele, afastar-se do veículo fatigado. Emvirtude dos órgãos profundamente enfraquecidos, desfrutariapenetrante lucidez espiritual e não seria prudente arremessá-la, dechofre, a impressões demasiado ativas da esfera diferente para aqual se transferiria, muito em breve. Aconselhável seria a mudança progressiva. Graduação de luz,intensificando-se, a pouco e pouco. Largamos a filha de Neves em repouso nutriente e restaura-dor, e demandamos a rua. Acompanhando Félix, cujo semblante passou a denotar fundapreocupação, alcançamos espaçoso apartamento do Flamengo,onde conheceríamos, de perto, os familiares de Marina. A noite avançava. Transpassando estreito corredor, pisamos o recinto domésti-co, surpreendendo, no limiar, dois homens desencarnados, a deba-terem, com descuidada chocarrice, escabrosos temas de vampi-rismo. Vale assinalar que, não obstante pudéssemos fiscalizar-lhesos movimentos e ouvir-lhes a loquacidade fescenina, nenhum dosdois lograva registrar-nos a presença. Prometiam arruaças. Argu-mentavam, desabridos. Malandros acalentados, mas perigosos, conquanto invisíveispara aqueles junto dos quais se erguiam por ameaça insuspeitada. Por semelhantes companhias, fácil apreciar os riscos a que seexpunham os moradores daquele ninho de cimento armado, aembutir-se na construção enorme, sem qualquer defesa de espíri-to. Entramos. Na sala principal, um cavalheiro de traços finos,em cuja maneira de escarrapachar-se se adivinhava, para logo, odono da casa, lia um jornal vespertino com atenção.
  48. 48. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 48 Os atavios do ambiente, apesar de modestos, denunciavamapurado gosto feminino. O mobiliário antigo de linhas quaserudes suavizava-se ao efeito de ligeiros adornos. Tufos de cravos vermelhos, a se derramarem de vasos crista-linos, harmonizavam-se com as rosas da mesma cor, habilmentedesenhadas nas duas telas que pendiam das paredes, revestidas deamarelo dourado. Mas, destoante e agressiva, uma esguia garrafa,contendo uísque, empinava o gargalo sobre o crivo lirial quecompletava a elegância da mesa nobre, deitando emanações al-coólicas que se casavam ao hálito do amigo derramado no divã. Félix encarou-o, manifestando a expressão de quem se ator-mentava, piedosamente, ao vê-lo, e no-lo indicou: – Temos aqui o irmão Cláudio Nogueira, pai de Marina etronco do lar. Fisguei-o, de relance. Figurou-se-me o hospedeiro involuntá-rio um desses homens maduros que se demoram na quadra dosquarenta e cinco janeiros, esgrimindo bravura contra os desbaratesdo tempo. Rosto primorosamente tratado, em que as linhas firmesrepeliam a notícia vaga das rugas, cabelos penteados com distin-ção, unhas polidas, pijama impecável. Os grandes olhos escuros emóveis pareciam imanizados às letras, pesquisando motivos paratrazer um sorriso irônico aos lábios finos. Entre os dedos da mãoque descansava à beira do sofá, o cigarro fumegante, quase renteao tripé anão, sobre o qual um cinzeiro repleto era silenciosaadvertência contra o abuso da nicotina. Detínhamo-nos, curiosos, na inspeção, quando sobreveio oinopinado. Diante de nós, ambos os desencarnados infelizes, que surpre-endêramos à entrada, surgiram de repente, abordaram Cláudio eagiram sem-cerimônia. Um deles tateou-lhe um dos ombros egritou, insolente:
  49. 49. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 49 – Beber, meu caro, quero beber! A voz escarnecedora agredia-nos a sensibilidade auditiva.Cláudio, porém, não lhe pescava o mínimo som. Mantinha-seatento à leitura. Inalterável. Contudo, se não possuía tímpanosfísicos para qualificar a petição, trazia na cabeça a caixa acústicada mente sintonizada com o apelante. O assessor inconveniente repetiu a solicitação, algumas ve-zes, na atitude do hipnotizador que insufla o próprio desejo, reas-severando uma ordem. O resultado não se fez demorar. Vimos o paciente desviar-sedo artigo político em que se entranhava. Ele próprio não explica-ria o súbito desinteresse de que se notava acometido pelo editorialque lhe apresara a atenção. Beber! Beber!... Cláudio abrigou a sugestão, convicto de que se inclinava paraum trago de uísque exclusivamente por si. O pensamento se lhe transmudou, rápido, como a usina cujacorrente se desloca de uma direção para outra, por efeito da novatomada de força. Beber, beber!... e a sede de aguardente se lhe articulou na i-déia, ganhando forma. A mucosa pituitária se lhe aguçou, comoque mais fortemente impregnada do cheiro acre que vagueava noar. O assistente malicioso coçou-lhe brandamente os gorgomilos.O pai de Marina sentiu-se apoquentado. Indefinível secura cons-tringia-lhe o laringe. Ansiava tranqüilizar-se. O amigo sagaz percebeu-lhe a adesão tácita e colou-se a ele.De começo, a carícia leve; depois da carícia agasalhada, o abraçoenvolvente; e depois do abraço de profundidade, a associaçãorecíproca. Integraram-se ambos em exótico sucesso de enxertia fluídica.
  50. 50. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 50 Em várias ocasiões, estudara a passagem do Espírito exone-rado do envoltório carnal pela matéria espessa. Eu mesmo, quan-do me afazia, de novo, ao clima da Espiritualidade, após a desen-carnação última, analisava impressões ao transpor, maquinalmen-te, obstáculos e barreiras terrestres, recolhendo, nos exercíciosfeitos, a sensação de quem rompe nuvens de gases condensados. Ali, no entanto, produzia-se algo semelhante ao encaixe per-feito. Cláudio-homem absorvia o desencarnado, à guisa de sapatoque se ajusta ao pé. Fundiram-se os dois, como se morassemeventualmente num só corpo. Altura idêntica. Volume igual.Movimentos sincrônicos. Identificação positiva. Levantaram-se a um tempo e giraram integralmente incorpo-rados um ao outro, na área estreita, arrebatando o delgado frasco. Não conseguiria especificar, de minha parte, a quem atribuiro impulso inicial de semelhante gesto, se a Cláudio que admitia ainstigação ou se ao obsessor que a propunha. A talagada rolou através da garganta, que se exprimia por du-alidade singular. Ambos os dipsômanos estalaram a língua deprazer, em ação simultânea. Desmanchou-se a parelha e Cláudio, desembaraçado, se dis-punha a sentar, quando o outro colega, que se mantinha a distân-cia, investiu sobre ele e protestou: “eu também, eu também que-ro!” Reavivou-se-lhe no ânimo a sugestão que esmorecia.. Absolutamente passivo diante da incitação que o assaltava,reconstituiu, mecanicamente, a impressão de insaciedade. Bastou isso e o vampiro, sorridente, apossou-se dele, repetin-do-se o fenômeno da conjugação completa.
  51. 51. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 51 Encarnado e desencarnado a se justaporem. Duas peças cons-cientes, reunidas em sistema irrepreensível de compensação mú-tua. Abeirei-me de Cláudio para avaliar, com imparcialidade, atéonde sofreria ele, mentalmente, aquele processo de fusão. Para logo convenci-me de que continuava livre, no íntimo.Não experimentava qualquer espécie de tortura, a fim de render-se. Hospedava o outro, simplesmente, aceitava-lhe a direção,entregava-se por deliberação própria. Nenhuma simbiose em quese destacasse por vítima. Associação implícita, mistura natural. Efetuava-se a ocorrência na base da percussão. Apelo e res-posta. Cordas afinadas no mesmo tom. O desencarnado alvitrava,o encarnado aplaudia. Num deles, o pedido; no outro, a conces-são. Condescendendo em ilaquear os próprios sentidos, Cláudioacreditou-se insatisfeito e retrocedeu, sorvendo mais um gole. Não me furtei à conta curiosa. Dois goles para três. Novamente desimpedido, o dono da casa estirou-se no divã eretomou o jornal. Os amigos desencarnados tornaram ao corredor de acesso,chasqueando, sarcásticos, e Neves, respeitoso, consultou sobreresponsabilidade. Como situar o problema? Se víramos Cláudio aparentementereduzido à condição de um fantoche, como proceder na aplicaçãoda justiça? Se ao invés de bebedice, estivéssemos diante de umcaso criminal? Se a garrafa de uísque fosse arma determinada,para insultar a vida de alguém, como decidir? A culpa seria deCláudio que se submetia ou dos obsessores que o comandavam? O irmão Félix aclarou, tranqüilo:
  52. 52. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 52 – Ora, Neves, você precisa compreender que nos achamos àfrente de pessoas bastante livres para decidir e suficientementelúcidas para raciocinar. No corpo físico ou agindo fora do corpofísico, o Espírito é senhor da constituição de seus atributos. Res-ponsabilidade não é título variável. Tanto vale numa esfera, quan-to em outras. Cláudio e os companheiros, na cena que acompa-nhamos, são três consciências na mesma faixa de escolha e mani-festações conseqüentes. Todos somos livres para sugerir ou assi-milar isso ou aquilo. Se você fosse instado a compartilhar umroubo, decerto recusaria. E, na hipótese de abraçar a calamidade,em são juízo, não conseguiria desculpar-se. Interrompeu-se o mentor, volvendo a refletir após momentorápido: – Hipnose é tema complexo, reclamando exames e reexamesde todos os ingredientes morais que lhe digam respeito. Alienaçãoda vontade tem limites. Chamamentos campeiam em todos oscaminhos. Experiências são lições e todos somos aprendizes.Aproveitar a convivência de um mestre ou seguir um malfeitor édeliberação nossa, cujos resultados colheremos. Verificando que o orientador se dava pressa em ultimar os es-clarecimentos sem mostrar o mínimo propósito de afastar as enti-dades vadias que pesavam no ambiente, Neves voltou à carga, nointuito louvável do aluno que aspira a complementar a lição. Pediu vênia para repisar o assunto na hora. Recordou que, sob o teto do genro, o irmão Félix se esmeravana defesa contra aquela casta de gente. Amaro, o enfermeiroprestimoso, fora situado junto de Beatriz principalmente paracorrer com intrometidos desencarnados. O aposento da filha tor-nara-se, por isso, um refúgio. Ali, no entanto... E perguntava pelo motivo da direção diversa.
  53. 53. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 53 Félix expressou no olhar a surpresa do professor que não es-pera apontamento assim argucioso por parte do discípulo e expli-cou que a situação era diferente. A esposa de Nemésio mantinha o hábito da oração. Imuniza-va-se espiritualmente por si. Repelia, sem esforço, quaisquerformas-pensamentos de sentido aviltante que lhe fossem arremes-sadas. Além disso, estava enferma, em vésperas da desencarna-ção. Deixá-la à mercê de criaturas insanas seria crueldade. Garan-tias concedidas a ela erguiam-se justas. – Mas... e Cláudio? – insistiu Neves. – Não merecerá, porven-tura, fraterna demonstração de caridade, a fim de livrar-se de tãotemíveis obsessores? Félix sorriu francamente bem-humorado e explicou: – “Temíveis obsessores” é a definição que você dá. – E avan-çou: – Cláudio desfruta excelente saúde física. Cérebro claro,raciocínio seguro. É inteligente, maduro, experimentado. Nãocarrega inibições corpóreas que o recomendem a cuidados especi-ais. Sabe o que quer. Possui materialmente o que deseja. Perma-nece no tipo de vida que procura. É natural que esteja respirando ainfluência das companhias que julgue aceitáveis. Retém liberdadeampla e valiosos recursos de instrução e discernimento para jun-tar-se aos missionários do bem que operam entre os homens,assegurando edificação e felicidade a si mesmo. Se elege paracomensais da própria casa os companheiros que acabamos de ver,é assunto dele. Enquanto nos arrastávamos, tolhidos pela carne,não nos ocorreria a idéia de expulsar da residência alheia as pes-soas que não se harmonizassem conosco. Agora, vendo o mundo eas coisas do mundo, de mais alto, não será cabível modificarsemelhante modo de proceder. O tema desdobrava-se, assumindo aspectos novos. Curioso, interferi:
  54. 54. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 54 – Mas, irmão Félix, é importante convir que Cláudio, liberto,poderia ser mais digno... – Isso é perfeitamente lógico – confirmou. Ninguém nega. – E por que não dissipar de vez os laços que o prendem aosmalandros que o exploram? O alto raciocínio da Espiritualidade superior jorrou, pronto: – Cláudio certamente não lhes empresta o conceito de vaga-bundos. Para ele, são sócios estimáveis, amigos caros. Por outrolado, ainda não investigamos a causa da ligação entre eles paracunhar opiniões extremadas. As circunstâncias podem ser saudá-veis ou enfermiças como as pessoas e, para tratarmos um doentecom segurança, há que analisar as raízes do mal e confirmar ossintomas, aplicar medicação e estudar efeitos. Aqui, vemos umproblema pela rama. Quando terá nascido a comunhão do trio? Osvínculos serão de agora ou de existências passadas? Nada legiti-maria um ato de violência da nossa parte, com o intuito de separá-los, a titulo de socorro. Isso seria o mesmo que apartar os paisgenerosos dos filhos ingratos ou os cônjuges nobres dos espososou das esposas de condição inferior, sob o pretexto de assegurarlimpeza e bondade nos processos da evolução. A responsabilidadetem o tamanho do conhecimento. Não dispomos de meios preci-sos para impedir que um amigo se onere em dívidas escabrosas ouse despenque em desatinos deploráveis, conquanto nos seja lícitodispensar-lhe o auxílio possível, a fim de que se acautele contra operigo no tempo viável, sendo de notar-se que as autoridadessuperiores da Espiritualidade chegam a suscitar medidas especiaisque impõem aflições e dores de importância aparente a determi-nadas pessoas, com o objetivo de livrá-las da queda em desastresmorais iminentes, quando mereçam esse amparo de exceção. NaTerra, a exata justiça apenas cerceia as manifestações de alguém,quando esse alguém compromete o equilíbrio e a segurança dosoutros, na área de responsabilidade que a vida lhe demarca, dei-
  55. 55. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 55xando a cada um a regalia de agir como melhor lhe pareça. Adota-remos princípios que valham menos, perante as normas que afian-çam a harmonia entre os homens? Rematando as elucidações lapidares que entretecia, o irmãoFélix revestira-se de um halo brilhante. Enlevados, não encontrávamos em nós senão silêncio parasignificar-lhe admiração ante a sabedoria e a simplicidade. O instrutor fitava Cláudio com simpatia, dando a entenderque se dispunha a abraçá-lo paternalmente, e, receando talvez quea oportunidade escapasse, Neves, humilde e respeitoso, pediu selhe relevasse a insistência; entretanto, solicitava fosse aclarado,ainda, um ponto dos esclarecimentos em vista. Diante do mentor paciente, perguntou pelos promotores deguerra, entre os homens. Declarara Félix que a justiça tacitamentecerceia as ações dos que ameaçam a estabilidade coletiva. Comoentender a existência de governantes transitórios, erigindo-se naTerra em verdugos de nações? Félix sintetizou, reempregando algumas das palavras de quese utilizara: – Dissemos “cercear” no sentido de “corrigir”, “restringir”.Assinalamos igualmente que toda criatura vive na área de respon-sabilidade que a lei lhe delimita. Compreendendo-se que a res-ponsabilidade de alguém se enquadra ao tamanho do conhecimen-to superior que esse alguém já adquiriu, é fácil admitir que oscompromissos da consciência assumem as dimensões da autorida-de que lhe foi atribuída. Uma pessoa com grandes cabedais deautoridade pode elevar extensas comunidades às culminâncias doprogresso e do aprimoramento ou afundá-las em estagnação edecadência. Isso na medida exata das atitudes que tome para obem ou para o mal. Naturalmente, governantes e administradores,em qualquer tempo, respondem pelo que fazem. Cada qual dá
  56. 56. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 56conta dos recursos que lhe foram confiados e da região de influ-ência que recebeu, passando a colher, de modo automático, osbens ou os males que haja semeado. Víamos, porém, que Félix não desejava estender-se em maisamplas considerações filosóficas. Assentando no rosto a expressão de quem nos pedia transferirpara depois qualquer nova interrogação, acercou-se de Cláudio, aenvolvê-lo nas suaves irradiações do olhar brando e percuciente. Estabeleceu-se ligeira e doce expectativa. O benfeitor acusava-se emocionado. Parecia agora mental-mente distanciado no tempo. Acariciou a cabeleira daquele ho-mem, com quem Neves e eu, no fundo, não nos afináramos assimtanto, semelhando-se médico piedoso, encorajando um doentemenos simpático. Aquele momento de comoção, entretanto, foi rápido, quaseimperceptível, porque o irmão Félix retomou-nos a intimidade ecomentou, despretensioso: – Quem afirmará que Cláudio amanhã não será um homemrenovado para o bem, passando a educar os companheiros que odeprimem? Por que atrair contra nós a repulsão dos três, simples-mente porque se mostrem ignorantes e infelizes? E admitir-se-á,porventura, que não venhamos a necessitar uns dos outros? Exis-tem adubos que lançam emanações extremamente desagradáveis;no entanto, asseguram a fertilidade do solo, auxiliando a plantaque, a seu turno, se dispõe a auxiliar-nos. O benfeitor esboçou o gesto de quem encerrava a conversa-ção e lembrou-nos, gentil, o trabalho em andamento.
  57. 57. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 57 Capítulo 7 Entramos em aposento contíguo, onde encontramos jovemfranzina, em dorida atitude. Sentada num dos leitos que se estira-vam no quarto gracioso e limpo, refletia, torturada, permitindo-nos entrever-lhe o drama oculto. O irmão Félix apresentou-a. Tratava-se de Marita, que os donos da casa haviam perfilhadoao nascer, vinte anos antes. Bastou uma vista de olhos para que me condoesse ao contem-plá-la. Rosa humana, embora exalasse a fragrância da juventude,aquela moça, quase menina, de mãos enclavinhadas sob o queixo,matutando, parecia carregar o peso estafante de tribulações croni-cificadas e dolorosas. Figurava-se-lhe a cabeleira ondeada lindotoucado de veludo castanho sobre a cabeça. O rosto esculpido emlinhas raras, os olhos escuros contrastando com a brancura da tez,as mãos pequenas e as unhas róseas complementavam belo mane-quim de carne, apresentando por dentro uma criança assustada eferida. Tristeza maquilada. Aflição no disfarce de flor. Obedecendo a instruções de Félix, abordei-a, enternecido, ro-gando-lhe, mentalmente, algo esclarecesse, em torno de si própria. Desde o contacto com Nemésio, o benfeitor ensaiava-me,provavelmente sem querer, em novo gênero de anamnese: consul-tar o enfermo espiritual em pensamento, evidenciando a ternacompreensão que um pai deve aos filhos, a fim de pesquisar con-clusões para o trabalho assistencial. Compelido a operar individualmente, recompus emoções.
  58. 58. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 58 Recobrei os sentimentos paternais que me haviam animadoentre os homens e cravei o olhar indagador naquela criaturinhacismarenta, imaginando-a por filha de minha alma. Solicitei-lhe, sem palavras, confiasse em nós, desoprimindo-se. Relacionasse, por gentileza, as suas impressões mais recuadasno tempo. Desenovelasse o passado. Reconstituísse na lembrançatudo o que soubesse de si, nada escondesse. Propúnhamo-nos auxiliá-la. Não conseguiríamos, porém, agirao acaso. Era imprescindível que ela se nos revelasse, arrancandoà câmara da memória as cenas arquivadas desde a infância, ex-pondo-as na tela mental para que as analisássemos, imparcialmen-te, de maneira a conduzir as atividades socorristas que intentaría-mos desenvolver. Marita assimilou-nos o apelo, de imediato. Incapaz de expli-car a si mesma a razão pela qual se via instintivamente constran-gida a rememorar o pretérito, situou o impulso mental no pontoem que obtinha o fio inicial das suas recordações. Os quadros da meninice se lhe estamparam na aura, movi-mentados como num filme. Vimo-la pequenina, hesitante, nos passos primeiros. E, enquanto desfilavam os painéis ingênuos do que lhe haviaacontecido, logo após o soerguimento do berço, ela alinhavavaelucidações inarticuladas, respondendo-nos às perguntas. Sim – relembrava, supondo falar consigo –, não era filha dosNogueiras. Dona Márcia, a esposa de Cláudio, adotara-a. Nascerade jovem suicida. Aracélia, a mãezinha que não conhecera, foratomada a serviço do casal, por ocasião do matrimônio daquelesque o destino lhe impusera na condição de pais. Quando se enten-dera por gente grande, a genitora de Marina lhe dera a saber,através de informações pessoais, a breve história da mulher sim-ples e pobre que a trouxera ao mundo. Recém-chegada do interior,
  59. 59. Francisco Cândido Xavier - Sexo e Destino - pelo Espírito André Luiz 59procurando emprego humilde, Aracélia acolhera-se-lhe à moradia,encaminhada por senhora de suas relações. Era bonita, espontâ-nea. Brincava, gostava de festas. Findos os compromissos casei-ros, divertia-se. Pela ternura expansiva, granjeara amizades, pas-seava, dançava. Alegre e comunicativa, mas operosa e correta. Àsvezes, regressava, tarde da noite, ao aposento que a família lhedestinara; de manhãzinha, porém, estava no posto. Nunca sequeixava. Invariavelmente prestimosa, a desvelar-se do tanque àcozinha. À vista disso, embora os patrões não lhe estimassem ascompanhias pouco recomendáveis, não se sentiam com direito alançar-lhe reproches. Dona Márcia era habitualmente precisa nasreferências. Lembrava-se dela, enternecida. Por ocasião do nasci-mento de Marina, a filha única, fizeram-se mais amigas, maisíntimas. Aracélia desdobrara-se, junto dela, em carinho e dedica-ção. Contudo, justamente nessa época, verificara-se a grandemudança. A doméstica devotada engravidara-se, com muito pade-cimento físico. Por mais se esforçassem os donos da casa, instan-do a que se manifestasse quanto ao responsável pela situação,apenas chorava, abolindo qualquer possibilidade de se lhe tentarcasamento digno. Sabia-se que, freqüentando bailes a rodo, decer-to se precipitara em aventuras diversas. Compadecidos, os patrõesderam à jovem mãe solteira a mais ampla assistência, inclusiveinternando-a em estabelecimento adequado, para que a criançanascesse sob o amparo possível. Nesse tópico das amargosas reminiscências, a menina esta-cou, mentalmente, qual se estivesse cansada de pensar no mesmoassunto. Fora assim que ela, Marita, chegara ao mundo. Marejaram-se-lhe os olhos de lágrimas, estabelecendo con-fronto entre as provações da mãezinha e as dela própria; no entan-to, para não distrair a pesquisa em curso, sugeri-lhe continuasse. Dona Márcia contara-lhe – prosseguiu no solilóquio – que, re-tornando a casa, mostrara-se Aracélia irremediavelmente abatida.

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