As chuvas de verão chegam com novas e ou velhas tragédias
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Entrevista sobre os recentes episódios de deslizamentos de encostas atingindo várias cidades brasileiras com o início das chuvas de verão.

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As chuvas de verão chegam com novas e ou velhas tragédias As chuvas de verão chegam com novas e ou velhas tragédias Document Transcript

  • As chuvas de verão chegam com novas e ou velhas tragédias Antonio Fernando Navarro1 1. O que o senhor acha dessa conjugação de fenômenos naturais como: chuvas, deslizamentos e tragédias decorrentes, a cada nova estação de verão?Resposta: Não podem existir conjugações ou associações de eventos, a menos que haja falta de açõesconcretas.Uma das características de um risco, para que seja objeto de seguro, segundo Joseph Hemard, na publicaçãoTheorie et pratique des assurances terrestres editada em 1924, é que os eventos encadeados sejam futuros,possíveis, independentes da vontade das partes, capazes de causar perdas e ou danos e que esses sejammensuráveis, para que possam ser seguráveis e, com isso, aqueles que contrataram apólices de segurosespecíficas possam ser corretamente indenizados. Se um risco é matematizável pode-se ter o valor domesmo. Não se deve confundir o valor do risco com o valor do bem e isso é cada vez mais comum. Quandoum bem é perdido, como um todo, o valor do risco é o mesmo que o valor do bem. Sob algumascircunstâncias um evento aleatório pode atingir parte do valor do bem. Assim, o risco, ou parte do bemexposta ao prejuízo, tem um valor distinto do valor do bem. O conceito fica mais fácil de ser entendidoquando se amplia o bem, como por exemplo, uma fábrica. Se ela não for atingida integralmente pelo risco, osvalores entre o bem e a parte atingida são distintos.Ocorre que o risco como um todo prescinde dessas características. Se essas não se dão simultaneamenterompe-se uma das características da cobertura e, em assim o sendo, o segurado perde direito à indenização.Entre essas características a mais relevante é a da voluntariedade. Segurado e segurador não podemcontribuir para a ocorrência do evento ou sinistro.Em se tratando das chuvas de verão, que associadas à maior intensidade de fatores climáticos como El Niñoe La Niña, que potencializam a ocorrência de tempestades e de elevados níveis de pluviosidade outempestades, essas são eventos futuros. Porém, a ausência de medidas de prevenção ou de correção dosproblemas possibilitam que os sinistros ocorram seguidamente e sob a forma de “deja vu”. 2. O senhor poderia explicar melhor a relação entre o seguro e os problemas existentes que geram seguidos sinistros?Resposta: Certamente. Imagine você que um segurado resida em um edifício onde a garagem é subterrânea.Historicamente a rua onde se situa o prédio alaga com facilidade pelo fato de os bueiros da rua não daremvazão ao volume de águas. O síndico, sabedor dessa situação deve providenciar meios para que a garagemnão fique alagada a cada chuva. Se nada fizer, estará contribuindo para novas ocorrências de sinistros, já que1 Antonio Fernando Navarro é Físico, Matemático, Engenheiro Civil, Engenheiro de Segurança do Trabalho, Mestre emSaúde e Meio Ambiente, professor da Universidade Federal Fluminense – UFF, tendo atuado como Gerente de Riscosem atividades industriais por mais de 30 anos.
  • conhece os riscos e nada faz para evita-los, e, em sendo assim, termina por contribuir para que as ocorrênciasse sucedam. O síndico, por sua vez, pode alegar que caberia à Prefeitura, sabedora da situação, providenciarum sistema de drenagem de águas mais eficiente, o que também é verdade. 3. Pelo que o senhor diz, ou assistem-se os danos se manifestando seguidamente, ou podem ser tomadas ações concretas?Resposta: Sua pergunta é interessante e talvez a resposta não seja breve. A ciência tem o conhecimentodesses eventos climáticos e da periodicidade com que ocorrem. A conjugação desses fenômenos climáticos,um em cada hemisfério (El Niño no sul e La Niña no norte) produzem tragédias com elevadas perdas. Outraquestão é que as cidades estão cada vez mais impermeabilizadas fazendo com que a velocidade das águasque escorrem com as chuvas seja aumentada, da mesma maneira que os volumes de água passam a sermaiores, na medida em que é pequena a quantidade de água absorvida pelo solo. Isso somente para analisar aquestão dos alagamentos de garagens subterrâneas.As cidades devem estar preparadas, não só para esses eventos, mas sim de meios para que a população nãofique órfã dos serviços públicos. A falta de investimentos corretos possibilita que se assistam as ruas comcarros e pessoas sendo carregadas pelas chuvas, encostas deslizando, barracos nos morros desabando, enfim,observa-se o caos instaurado cada vez que um evento natural ocorra.Para que as cidades estejam preparadas para todas essas questões foi determinado, através dos PlanosDiretores Urbanos (Estatuto da Cidade), Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001, a obrigatoriedade de osmunicípios com mais de 20.000 habitantes terem estruturados e aprovados, até 30 de junho de 2008, seusPlanos Diretores. Extraindo-se da Lei os principais aspectos, relacionados à responsabilidade dosgovernantes, observa-se:Art. 40. O plano diretor, aprovado por lei municipal, é o instrumento básico da política de desenvolvimento eexpansão urbana.§ 1º O plano diretor é parte integrante do processo de planejamento municipal, devendo o plano plurianual,as diretrizes orçamentárias e o orçamento anual incorporar as diretrizes e as prioridades nele contidas.§ 2º O plano diretor deverá englobar o território do Município como um todo.Art. 41. O plano diretor é obrigatório para cidades:I – com mais de vinte mil habitantes;...V – inseridas na área de influência de empreendimentos ou atividades com significativo impacto ambientalde âmbito regional ou nacional.Art. 42. O plano diretor deverá conter no mínimo:I – a delimitação das áreas urbanas onde poderá ser aplicado o parcelamento, edificação ou utilizaçãocompulsórios, considerando a existência de infra-estrutura e de demanda para utilização, na forma do art. 5ºdesta Lei;...
  • Art. 42-A. Os municípios que possuam áreas de expansão urbana deverão elaborar Plano de ExpansãoUrbana no qual constarão, no mínimo: (Incluído pela Medida Provisória nº547, de 2011)...II - delimitação dos trechos com restrições à urbanização e dos trechos sujeitos a controle especial em funçãode ameaça de desastres naturais; (Incluído pela Medida Provisória nº547, de 2011)...Art. 50. Os Municípios que estejam enquadrados na obrigação prevista nos incisos I e II do caput do art. 41desta Lei e que não tenham plano diretor aprovado na data de entrada em vigor desta Lei deverão aprová-loaté 30 de junho de 2008. (Redação dada pela Lei nº11.673, 2008) VigênciaArt. 52. Sem prejuízo da punição de outros agentes públicos envolvidos e da aplicação de outras sançõescabíveis, o Prefeito incorre em improbidade administrativa, nos termos da Lei nº 8.429, de 2 de junhode 1992, quando:VII – deixar de tomar as providências necessárias para garantir a observância do disposto no § 30 do art. 40 eno art. 50 desta Lei; O Planejamento e a Gestão Ambiental das cidades devem sempre ser associados às questões queenvolvem o Ser Humano e o Meio Ambiente, conjugando-as à legislação específica disciplinadora. A nãoobservação das condições necessárias à ocupação racional do solo, a falta de estruturação de PlanosDiretores Urbanísticos, que atendam às realidades das cidades, a existência de lacunas nos planejamentosurbanos atuais, que possibilitam a implantação de assentamentos com riscos desnecessários a seusmoradores, e a falta de percepção dos riscos ambientais pela população, termina por conduzir, dentre outrosa:a) riscos à população;b) aspectos sócio-econômicos desfavoráveis;c) degradação do meio ambiente.