BASES SÓCIO-FILOSÓFICAS DA EDUCAÇÃO FÍSICA

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Discussão das condições históricas e das grandes correntes do pensamento social que tornaram
possível o surgimento da Sociologia como ciência. Debate das polêmicas que constituem o campo de
reflexão desta Unidade Educacional (objeto e método). Visão geral e crítica das grandes correntes
sociológicas e de seus respectivos conceitos, relacionando-as com o mundo de trabalho, a sociedade,
o ser humano e a cultura corporal enquanto objeto de estudo da Educação Física.

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BASES SÓCIO-FILOSÓFICAS DA EDUCAÇÃO FÍSICA

  1. 1. FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE ESTADUAL VALE DO ACARAÚ Reconhecida pela Portaria nº. 821/MEC – D.O.U. de 01.06.94 CAMPUS AVANÇADO DE QUIXERAMOBIM CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA Prof.: Antonio Martins de Almeida Filho BASES SÓCIO-FILOSÓFICAS DA EDUCAÇÃO FÍSICA QUIXERAMOBIM – CEARÁ ABRIL E MAIO – 2011
  2. 2. 2 FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE ESTADUAL VALE DO ACARAÚ Reconhecida pela Portaria nº. 821/MEC – D.O.U. de 01.06.94 CAMPUS AVANÇADO DE QUIXERAMOBIM CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA Prof.: Antonio Martins de Almeida Filho EMENTA DA DISCIPLINA Professor: Antônio Martins de Almeida Filho Disciplina: BASES SÓCIO-FILOSÓFICAS DA EDUCAÇÃO FÍSICA Campus Avançado de Quixeramobim Período de oferta: abril e maio de 2011 Turma - 260130 DISCIPLINA CARGA CRÉDITOS PRÉ-REQUISITO HORÁRIABASES SÓCIO-FILOSÓFICAS 60 04 - DA EDUCAÇÃO FÍSICAProfessor: Antônio Martins de Almeida FilhoEmentaDiscussão das condições históricas e das grandes correntes do pensamento social que tornarampossível o surgimento da Sociologia como ciência. Debate das polêmicas que constituem o campo dereflexão desta Unidade Educacional (objeto e método). Visão geral e crítica das grandes correntessociológicas e de seus respectivos conceitos, relacionando-as com o mundo de trabalho, a sociedade,o ser humano e a cultura corporal enquanto objeto de estudo da Educação Física.Objetivos1 GERAL:Consolidar um “quadro histórico-epistemológico” sobre a “atividade física/Educação Física” no Brasilque possibilite sínteses provisórias sobre a gênese da Educação Física, o que ela vem sendo eperspectivas futuras, tendo como referência o “olhar” sobre seu objeto de estudo.2 ESPECÍFICOS: • Promover a reflexão histórica das bases sócio-filosóficas da atividade física. • Analisar as principais correntes das ciências sociais: Positivismo, Historicismo e Materialismo Histórico-dialético. • Promover o estudo das bases da Educação Física enquanto campo acadêmico. • Realizar a análise do(s) objeto(s) de estudo que se propõem singularizar a Educação Física enquanto campo acadêmico. • Promover a reflexão e investigação de como se constrói a identidade da Educação Física da região.
  3. 3. 3Conteúdo Programático Positivismo, Historicismo e o Materialismo Histórico-dialético. Bases sócio-filosóficas da atividade física. A crise de identidade da Educação Física em sua função social – década de 1980. A transformação da crise de identidade da Educação Física em sua função social para a crise de identidade epistemológica – década de 1990. Perspectivas de campos acadêmicos na Educação Física.MetodologiaA unidade pedagógica terá 30 h/a professor presencial e 15 h/a de atividades com orientação. Aprimeira terá caráter de produção teórica-reflexiva utilizando-se de procedimentos metodológicos taiscomo exposições dialogadas, estudos dirigidos, discussões a partir de estudos teóricos, reflexõesacerca da prática pedagógica, leituras individuais e em grupos, debates, produções escritas. Osegundo terá caráter de investigação prática e se utilizando-se de procedimentos metodológicos taiscomo relatórios, entrevistas e investigação de problemáticas. Ao término da unidade ocorrerá o festivalda docência onde os grupos apresentarão a consolidação do conhecimento construído na unidade.RecursosData show, retroprojetor, transparências, textos, painéis, quadro, pincéis, apagador e giz.AvaliaçãoA avaliação será construída através das observações realizadas durante as aulas consolidadas em ummemorial da unidade construído pelo professor considerando-se a participação, a evolução daaprendizagem, a responsabilidade e o compromisso do aluno. A cada unidade haverá umaconsolidação de notas individuais que inclui auto avaliação, produção textual individual, docência emgrupo ou individual sobre o conteúdo.Bibliografia_____________. A construção do campo acadêmico “Educação Física” no período de 1960 até nossosdias: onde ficou a Educação Física?, in: Anais do IV Encontro Nacional de História do Esporte, Lazer eEducação Física. Belo Horizonte, MG, 22 a 26 de outubro de 1996._____________. Educação Física & Ciência: cenas de um casamento (in) feliz. Ijuí, Unijuí, 1999.ALEXANDRE, Júlio César da Costa. Epistemologia e Educação Física: significado e importância(artigo).BOTTOMORE. Introdução à Sociologia. Rio de Janeiro, Zahar, 1977.BRACHT, Valter. Educação Física e Aprendizagem Social. Porto alegre, Magister, 1992.
  4. 4. 4CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 13ª. Edição. Editora Ática. São Paulo – SP, 2004.COSTA, Cristina. Sociologia – Introdução à Ciência da Sociedade. 2ª. Edição. Editora Moderna . SãoPaulo – SP, 2002.CRISÓRIO, Ricardo & Valter Bracht (coords.). A Educação Física no Brasil e na Argentina: Identidade,Desafios e Perspectivas. Campinas, SP, Autores Associados, 2003.HELAL, Ronald. O que é Sociologia do Esporte, São Paulo, Editora Brasiliense, 1990.HOKHEIMER, Max e Adorno, Theodor (Org.). Temas Básicos da Sociologia. São Paulo, Cultrix, 1977.LAPLANTINE, François. O Campo e a Abordagem Antropológica, In: Laplantine, F. AprenderAntropologia (1987). São Paulo, Brasiliense, 1988.LARAIA, Roque de Barros. Como opera a cultura, In: Laraia, Roque de Barros. Cultura: Um ConceitoAntropológico. Rio de Janeiro, Zahar, 1986.LÁZARO, André. Metamorfoses do Corpo, In: Lázaro, André. Amor do Mito ao Mercado. São Paulo,Vozes, 1997.LIMA, Homero Luis Alves de. Tendências Epistemológicas em torno do “movimento humano” e suasimplicações para o campo acadêmico da Educação Física. (artigo).LINO, Castellani, Filho. Educação Física Escolar: temos o que ensinar? Ou considerações acerca doconhecimento (re) conhecido pela Educação Física Escolar, in: Política Educacional e Educação Física.Campinas, SP, Autores Associados, 1998.LOWY, Michael. Ideologia e Ciências Sociais: elementos para uma análise marxista. São PAULO.Cortez, 1985.PONCE, Aníbal. Educação e Luta de Classes. Rio de Janeiro, Ed. Cortez, Autores Associados, 1989.
  5. 5. 5 UNIDADE I POSITIVISMO, HISTORICISMO E O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO TEXTO 01 1. A CORRENTE FILOSÓFICA DENOMINADA DE POSITIVISMO AUGUSTO COMTE Positivismo é um conceito utópico que possui distintos significados, englobando tantoperspectivas filosóficas e científicas do século XIX quanto outras do século XX. Desde o seu início, comAugusto Comte (1798-1857) na primeira metade do século XIX, até o presente século XXI, o sentido dapalavra mudou radicalmente, incorporando diferentes sentidos, muito deles opostos ou contraditóriosentre si. Nesse sentido, há correntes de outras disciplinas que se consideram "positivistas" semguardar nenhuma relação com a obra de Comte. Exemplos paradigmáticos disso são o PositivismoJurídico, do austríaco Hans Kelsen, e o Positivismo Lógico (ou Círculo de Viena), de Rudolph Carnap,Otto Neurath e seus associados. Para Comte, o Positivismo é uma doutrina filosófica, sociológica e política. Surgiu comodesenvolvimento sociológico do Iluminismo, das crises social e moral do fim da Idade Média e donascimento da sociedade industrial - processos que tiveram como grande marco a Revolução Francesa(1789-1799). Em linhas gerais, ele propõe à existência humana valores completamente humanos,afastando radicalmente a teologia e a metafísica (embora incorporando-as em uma filosofia da história).Assim, o Positivismo associa uma interpretação das ciências e uma classificação do conhecimento auma ética humana radical, desenvolvida na segunda fase da carreira de Comte. 1.1 Método do Positivismo de Augusto Comte O método geral do positivismo de Auguste Comte consiste na observação dos fenômenos,opondo-se ao racionalismo e ao idealismo, através da promoção do primado da experiência sensível,única capaz de produzir a partir dos dados concretos (positivos) a verdadeira ciência (na concepçãopositivista), sem qualquer atributo teológico ou metafísico, subordinando a imaginação e à observação,tomando como base apenas o mundo físico ou material. O Positivismo nega à ciência qualquerpossibilidade de investigar a causa dos fenômenos naturais e sociais, considerando este tipo depesquisa inútil e inacessível, voltando-se para a descoberta e o estudo das leis (relações constantesentre os fenômenos observáveis). Em sua obra Apelo aos conservadores (1855), Comte definiu apalavra "positivo" com sete acepções: real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático. O Positivismo defende a idéia de que o conhecimento científico é a única forma deconhecimento verdadeiro. Assim sendo, desconsideram-se todas as outras formas do conhecimentohumano que não possam ser comprovadas cientificamente. Tudo aquilo que não puder ser provado
  6. 6. 6pela ciência é considerado como pertencente ao domínio teológico-metafísico caracterizado porcrendices e vãs superstições. Para os Positivistas o progresso da humanidade depende única eexclusivamente dos avanços científicos, único meio capaz de transformar a sociedade e o planetaTerra no paraíso que as gerações anteriores colocavam no mundo além-túmulo. O Positivismo é uma reação radical ao Transcendentalismo idealista alemão e ao Romantismo,no qual os afetos das individuais, coletivos e a subjetividade são completamente ignoradas, limitando aexperiência humana ao mundo sensível e ao conhecimento aos fatos observáveis. Substitui-se aTeologia e a Metafísica pelo Culto à Ciência, o Mundo Espiritual pelo Mundo Humano, o Espírito pelaMatéria, a fé pela razão. A idéia-chave do Positivismo Comtiano é a Lei dos Três Estados, de acordo com a qual ohomem passou e passa por três estágios em suas concepções, isto é, na forma de conceber as suasidéias e a realidade, quais sejam: 1. Teológico: o ser humano explica a realidade apelando para entidades supranaturais (os deuses"), buscando responder a questões como "de onde viemos?" e "para onde vamos?"; além disso, busca-se o absoluto; 2. Metafísico: é uma espécie de meio-termo entre a teologia e a positividade. No lugar dos deuses há entidades abstratas para explicar a realidade: "o Éter", "o Povo", "o Mercado financeiro", etc. Continua-se a procurar responder a questões como "de onde viemos?" e "para onde vamos?" e procurando o absoluto é a busca da razão e destino das coisas. é o meio termo entre teológico e metafísico. 3. Positivo: etapa final e definitiva, não se busca mais o "porquê" das coisas, mas sim o "como", através da descoberta e do estudo das leis naturais, ou seja, relações constantes de sucessão ou de coexistência. A imaginação subordina-se à observação e busca-se apenas pelo observável e concreto. Na obra "Discurso sobre o espírito positivo" (1848), Comte explicitou que o espírito positivo émaior e mais importante que a mera cientificidade, na medida em que esta abrange apenas questõesintelectuais e aquele compreende, além da inteligência, também os sentimentos (ou, em termoscontemporâneos, a subjetividade em sentido amplo) e as ações práticas. Auguste Comte - através da obra Sistema de Política Positiva (1851-1854) - institui a Religiãoda Humanidade. Após a elaboração de sua filosofia, Comte concluiu que deveria criar uma novareligião: afinal, para ele, as religiões do passado eram apenas formas provisórias da única e verdadeirareligião : a religião positiva. Segundo os positivistas, as religiões não se caracterizam pelo sobrenatural,pelos "deuses", mas sim pela busca da unidade moral humana. Daí a necessidade do surgimento deuma nova Religião que apresenta um novo conceito do Ser Supremo, a Religião da Humanidade.Comte foi profundamente influenciado a tal pela figura de sua amada Clotilde de Vaux. Segundo os Positivistas, a Teologia e a Metafísica, nunca inspiraram uma religiãoverdadeiramente racional, cuja instituição estaria reservada ao advento do espírito positivo.Estabelecendo a unidade espiritual através da ciência, a Religião da Humanidade possui comoprincipal objetivo a Regeneração Social e Moral.
  7. 7. 7 Assim como o catolicismo está fundamentado na filosofia escolástica de São Tomás de Aquino,a Religião da Humanidade está fundamentada na filosofia positivista de Auguste Comte. A Religião da Humanidade possui como Ser Supremo a Humanidade Personificada, tida comoDeusa pelos positivistas. Ela representa o conjunto de seres convergente de todas as gerações,passadas, presentes e futuras que contribuíram, que contribuem e que contribuirão para odesenvolvimento e aperfeiçoamento humano. A Ciência Clássica se constitui no dogma da Religião da Humanidade. Também existemtemplos e capelas onde são celebrados cultos elaborados à Humanidade (chamada Grão-Ser pelospositivistas). A religião positivista caracteriza-se pelo uso de símbolos, sinais, estandartes, vesteslitúrgicas, dias de santos (grandes tipos humanos), sacramentos, comemorações cívicas e pelo uso deum calendário próprio, o Calendário Positivista (um calendário lunar composto por 13 meses de 28dias). O lema da religião positivista é : "O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso porfim". Seu regime é: "Viver às Claras" e "Viver para Outrem". Auguste Comte foi o criador da palavra "altruísmo", palavra que segundo o fundador, resume oideal de sua Nova Religião. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Positivismo Acesso em 18 deabril de 2011. TEXTO 02 1. A CORRENTE FILOSÓFICA DENOMINADA DE HISTORICISMO ERNST TROELTSCH Historicismo (ou ainda historismo) designa, em termos gerais, uma forma de abordagem dosfenômenos e das culturas humanas. De acordo com Ernst Troeltsch, o termo remete a uma"Historicização fundamental de todo o pensamento acerca dos seres humanos, sua cultura e seusvalores". O Historicismo constitui, assim, a base de uma visão de mundo tipicamente moderna eocidental. Esta fundamenta-se na noção de que as configurações do mundo humano, num dadomomento presente, sempre são o resultado de processos históricos de formação, os quais sãopassíveis de ser mentalmente reconstruídos e, portanto, compreendidos. A perspectiva historicista surgiu no espaço acadêmico da Europa ocidental na segunda metadedo século XVIII. Ao longo do século XIX e até as primeiras décadas do século XX, o Historicismoobteve um forte impacto social, sobretudo na Alemanha.
  8. 8. 8 O posicionamento historicista proposto por Hegel sugere que não há um critério objetivo paradeterminar a melhor teoria de análise de um determinado objeto de estudo. De acordo com esse viés, aciência, filosofia ou quaisquer outras disciplinas, estão fadadas à sua historicidade. Desde a década de 1990, alguns pensadores pós-modernos têm utilizado o termo Historicismopara descrever a visão de uma verdade absoluta, principalmente sobre questões filosóficas quepersistiram ao longo dos séculos. O termo "novo Historicismo" é também empregado para a vertente do pensamento literário queinterpreta os poemas, as peças de teatro e as demais produção desta área como a expressão desuper-estruturas da sociedade. Stephen Greenblatt é o nome mais proeminente desse pensamento.Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Historicismo. Acesso em 18 de abril de 2011. TEXTO 03 1. A CORRENTE FILOSÓFICA DENOMINADA DE MATERIALISMO HISTÓRICO- DIALÉTICO KARL MARX No século XIX, houve a efetivação da sociedade burguesa e a implantação do capitalismoindustrial, que trouxe a implantação de um novo modelo de sociedade, que desde o seu surgimento jáé criticada pelas suas contradições internas e principalmente pelas desigualdades sociais que trazconsigo. Na linha destas críticas e do estudo da sociedade capitalista destacam-se dois pensadores:Karl Marx e Friedrich Engels. Ambos elaboram uma nova concepção filosófica do mundo, o“materialismo histórico e dialético”, e ao fazerem a crítica da sociedade em que vivem, apresentampropostas para sua transformação: o socialismo científico. Seu método de explicação da sociedade,aplicado à história é o “materialismo histórico e dialético”. 3.1 O que afirma o Materialismo? “As relações sociais são inteiramente interligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forçasprodutivas, os homens modificam o seu modo de produção, a maneira de ganhar a vida, modificamtodas as relações sociais. O moinho a braço vos dará a sociedade com o suserano; o moinho a vapor,a sociedade com o capitalismo industrial.” Afirma que o modo pelo qual a produção material de umasociedade é realizada constitui o fator determinante da organização política e das representações
  9. 9. 9intelectuais de uma época. Assim, a base material ou econômica constitui a "infra-estrutura" dasociedade, que exerce influência direta na "super-estrutura", ou seja, nas instituições jurídicas, políticas(as leis, o Estado) e ideológicas (as artes, a religião, a moral) da época. Segundo Marx, a base materialé formada por forças produtivas (que são as ferramentas, as máquinas, as técnicas, tudo aquilo quepermite a produção) e por relações de produção (relações entre os que são proprietários dos meios deprodução, as terras, as matérias primas, as máquinas e aqueles que possuem apenas a força detrabalho. 3.2 O que afirma a Dialética? A dialética marxista postula que as leis do pensamento correspondem às leis da realidade. Adialética não é só pensamento: é pensamento e realidade a um só tempo. Mas, a matéria e seuconteúdo histórico ditam a dialética do marxismo: a realidade é contraditória com o pensamentodialético. A contradição dialética não é apenas contradição externa, mas unidade das contradições,identidade: "a dialética é ciência que mostra como as contradições podem ser concretamente idênticas,como passam uma na outra, mostrando também porque a razão não deve tomar essas contradiçõescomo coisas mortas, petrificadas, mas como coisas vivas, móveis, lutando uma contra a outra em eatravés de sua luta." (Henri Lefebvre, Lógica formal/ Lógica dialética, trad. Carlos N. Coutinho, 1979, p.192). Os momentos contraditórios são situados na história com sua parcela de verdade, mas tambémde erro; não se misturam, mas o conteúdo, considerado como unilateral é recaptado e elevado a nívelsuperior. A dinâmica HIPÓTESE+DESENVOLVIMENTO+TESE+ANTITESE+DIALÉTICA=SÍNTESE, queexpressa a contundência deste ensinamento, afirmando que tudo é fruto da luta de idéias e forças, quena sua oposição geram a realidade concreta, que uma vez sendo síntese da disputa, torna-senovamente tese, que já carrega consigo o seu oposto da sua antítese, que numa nova luta de um cicloinfinito gerará o novo. A nova síntese. A hipótese fundamental da dialética é de que não existe nadaeterno, fixo, pois tudo está em perpétua transformação, em movimento, tudo está sujeito ao contextohistórico do dinâmico e da transformação. Outro elemento é a idéia de totalidade, a percepção darealidade social como um todo que está relacionado entre si. Há também as contradições internas darealidade, em relação ao valor e não valor, lucro ou não lucro, a mais valia, por exemplos, dentro daProdução, seja essa positiva ou negativa. Marx utilizou o método dialético para explicar as mudanças importantes ocorridas na história dahumanidade através dos tempos. Ao estudar determinado fato histórico, ele procurava seus elementoscontraditórios, buscando encontrar aquele elemento responsável pela sua transformação num novofato, dando continuidade ao processo histórico. No Prefácio do livro "Contribuição à crítica da economiapolítica", Marx identificou na História, de maneira geral, os seguintes estágios de desenvolvimento dasforças produtivas, ou modos de produção: comunismo primitivo, o asiático, o escravista (da Grécia e deRoma), o feudal e o burguês. Ou seja, dividiu a história em períodos conforme a organização dotrabalho humano e quem se beneficiasse dele. Marx desenvolveu uma concepção materialista da História, afirmando que o modo pelo qual aprodução material de uma sociedade é realizada constitui o fator determinante da organização políticae das representações intelectuais de uma época. Se a realidade não é estática, mas dialética e está emtransformação pelas suas contradições internas. Assim, a base material ou econômica constitui a"infra-estrutura" da sociedade, que exerce influência direta na "superestrutura", ou seja, nas instituiçõesjurídicas, políticas (as leis, o Estado) e ideológicas (as artes, a religião, a moral) da época. No processohistórico, essas contradições são geradas pelas lutas entre as diferentes classes sociais. Ao chamar a
  10. 10. 10atenção para a sociedade como um todo, para sua organização em classes, para o condicionamentodos indivíduos à classe a que pertencem, esses autores também exercem uma influência decisiva nasformas posteriores de se escrever a história. A evolução de um modo de produção para o outro ocorreua partir do desenvolvimento das forças produtivas e da luta entre as classes sociais predominantes emcada período. Assim, o movimento da História possui uma base material, econômica e obedece a ummovimento dialético. E conforme muda esta relação, mudam-se por conseguinte as leis, a cultura, aliteratura, a educação, as artes... Propõem uma disputa que não mais seja baseada em coletividade, mas sim nos indivíduos enos interesses que têm. Bem como a relação destas faz gerar de forma dialética a destruição dosatuais modelos de sociedade, de produção, de pensamento, e de poder econômico e político. Fazer-nos pensar em como estas relações fazem com que pequenos homens possam ser consideradosgrandes objetos da história, ao invés de se tornarem meros seres alienados e guiados pelasconsciências dominantes contrário. Disponível em:http://pt.wikipedia.org/wiki/Materialismo_dial%C3%A9tico#O_que_afirma_o_Materialismo.3F. Acessoem 17 de abril de 2011.
  11. 11. 11 UNIDADE II TEXTO 01 1. INTRODUÇÃO ÀS BASES SÓCIO-FILOSÓFICAS DA EDUCAÇÃO FÍSICA 1.1 Educação? Educações? Seja bem-vindo(a) à disciplina Bases Sócio-Filosóficas da Educação Física. Esta disciplinaintegra a base curricular e teórica do Curso de Habilitação em Educação Física da universidadeEstadual Vale do Acaraú – UVA, através do Instituto Dom José de Educação e Cultura, CampusAvançado da Cidade de Quixeramobim – Ceará. Esta apostila elaborada pelo professor Antônio Martins de Almeida Filho compreenderá umasérie de reflexões em torno de questionamentos acerca da educação universal e principalmente daeducação brasileira. Abordará conteúdos relevantes pra a formação profissional e, ao mesmo tempo,será ponte para o estudo de outras disciplinas contidas no currículo acadêmico, em especial para aformação dos novos educadores físicos e áreas afins, propiciando uma ampla compreensão,preparação humana e acadêmica dos futuros profissionais integrantes desta Universidade.Identificaremos e analisaremos os fundamentos teóricos, históricos, sociais, filosóficos e as políticaspublicas voltada para a educação, com foco na educação física escolar. Alguns de vocês já são professores, educadores físicos e outros estão se preparando paraisso. Todos juntos vão construir e reconstruir conceitos, atitudes, habilidades e valores imprescindíveisà atuação como profissionais de educação, conscientes de seu papel pedagógico, político e social. Diante das considerações anteriores vamos iniciar o aprofundamento dos conteúdosprogramáticos propostos para esta disciplina. Aprender e ensinar - Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos algumacoisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre. (PAULO FREIRE. Pedagogiada Autonomia. P. 34. 1998). Segundo Ghiraldelli Jr. (2003, p. 1), “a palavra educação foi derivada, de duas palavras dolatim: educere, que significa “conduzir de fora”, “dirigir exteriormente”, e educare que significa“sustentar, alimentar, criar”. Ninguém escapa da educação. Em casa, na rua, na igreja ou na escola, todos nós envolvemospedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, para aprender e ensinar. Para saber, para fazerou para conviver com uma ou com várias: Educação? Educações? Presente em todos os espaços, de diferentes formas, nos diferentes contextos, a educaçãoinvade nossas vidas. Nessa perspectiva, sempre achamos que temos alguma coisa a dizer sobreeducação. Assim, iniciamos nossa reflexão com o que alguns índios, certa vez, escreveram: Há muitos anos, nos Estados Unidos, os estados da Virgínia e Maryland assinaram um tratadode paz com os índios das Seis Nações. Sabendo que as promessas e os símbolos da educaçãosempre foram muito adequados em momentos solenes como aquele, logo depois dos termos dotratado serem assinados, os governantes americanos mandaram cartas aos índios convidando-os para
  12. 12. 12que enviassem alguns dos seus jovens às escolas dos brancos. Os chefes indígenas responderamagradecendo e recusando. Veja, abaixo, alguns trechos da justificativa. ... Nós estamos convencidos, portanto, que os senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo o coração. Mas daqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que a vossa idéia de educação não é a mesma que a nossa. ... Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formandos nas escolas do Norte e aprenderam toda a vossa ciência. Mas, quando eles voltaram para nós, eles eram maus corredores, ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam a nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou como conselheiros. Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceitá-la, para mostrar a nossa gratidão, oferecemos aos nobres senhores que nos enviem alguns dos seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos, deles, homens.(BRANDÃO, 1998, p.18-19) Essa carta acabou conhecida porque, alguns anos mais tarde, Benjamim Franklin adotou ocostume de divulgá-la. A carta dos índios que vocês acabaram de ler apresenta algumas das questõesimportantes que vêm sendo objeto de estudo, reflexão e discussão de pesquisadores/as eeducadores/as. Benjamin Franklin (1706-1790) Franklin tornou-se o primeiro Postmaster General (ministrodos correios) dos Estados Unidos da América. Foi um jornalista, editor, autor, filantropo, abolicionista,funcionário público, cientista, diplomata e inventor estadunidense, que foi também um dos líderes daRevolução Americana, e é muito conhecido pelas suas muitas citações e pelas experiências com aeletricidade. Um homem religioso, calvinista, é ao mesmo tempo uma figura representativa doIluminismo. 1.2 Será que há uma forma única, um único modelo de educação? Acreditamos que não. Aprende-se e ensina-se em todos os lugares. Nesse sentido, a escolanão é o único espaço educacional; o ensino escolar não é a sua única prática e o professor não é oúnico praticante. Parafraseando (MCLUHAN, 1964), estamos vendo que chegará o dia – e talvez este já sejauma realidade – em que nossas crianças aprenderão muito mais e com maior rapidez em contato como mundo exterior do que no recinto da escola. Isso nós já podemos observar no cotidiano. Uma vez quejá assistimos a jovens e adultos que nos perguntam: Por que retornar à escola e deter minhaeducação? Este questionamento é feito por jovens que interrompem prematuramente seus estudos.Parece uma pergunta arrogante, mas como nos diz o autor acerta no alvo: o meio urbano poderosoexplode de energia e de uma massa de informações diversas, insistentes, irreversíveis. A Educação, entendida como construção coletiva de produção do conhecimento, da açãosocial, busca intencional de sentidos e significados, diálogo e interação, perpassa todas as práticassociais.
  13. 13. 13 Em casa, na rua, na igreja, no sindicato, no clube, de um modo ou de muitos, todos nósenvolvemos pedaços da vida com ela: para fazer, para saber, para ensinar, para ser ou conviver. Mas aeducação (o processo educativo) carece de definições quanto às suas finalidades e caminhos usadosna sua concretização, conforme as opções que se façam quanto ao tipo de homem/mulher – ser que sequer formar, que tipo de sociedade se deseja e se quer construir. Nesse sentido, a educação, conceitualmente e na prática, passa a sofrer as diversasinfluências das diferentes forças sociais e políticas que a percebem como objeto de poder e dasIdeologias. Passa então a ser um instrumento fundamental no campo das disputas políticas e dasintenções ideológicas. Ideologia - De acordo com os escritos de Karl Marx, é aquele sistema ordenado de normas ede regras (com base no qual as leis jurídicas são feitas) que obriga os homens a comportarem-sesegundo as vontades “do sistema”, mas como se estivessem se comportando segundo a sua própriavontade. Ou seja, o homem está sendo manobrado e explorado e na se percebe como tal, aceitapassivamente sem nenhum questionamento. 1.3 E por que essa disputa ideológica e sócio-política acontece? Porque, quando homens e mulheres têm acesso à educação, a um “tipo” de educação e aoconhecimento podem desvendar os motivos das desigualdades. Bem informados, podemos reivindicare exigir nossos direitos em todos os espaços sociais: na família, na escola, no mercado, no ônibus, nosserviços de saúde. Enfim, em todos os espaços sociais nos quais estamos inseridos. Podemos ainda mais, quando qualificarmos melhor nossa participação nos espaços sociais dedecisão: conselhos escolares, associação de moradores, sindicatos, partidos políticos, igreja etc. Asocialização deste conhecimento e deste saber não interessa à classe dirigente que nós tenhamosacesso. Isso pode se tornar perigoso, libertar o homem de sua própria consciência é dá-lo ferramentaspara que ele venha a ser ativo e participativo. Esse conhecimento não interessa a todos, afinal, quandonão sabemos, podemos ser manipulados. O saber liberta o homem da ignorância e uma vez libertodesta ignorância o homem é levado a questionar, a participar, a reivindicar. É esse entendimento quevamos aprofundar ao longo da leitura dos diferentes conceitos e do contexto histórico em que foramelaborados. As diferentes concepções e teorias, ao longo da história, têm focado a Educação com ênfase,ora no conhecimento, ora nos métodos de ensino, ora no aluno, ora no educador, ora em ambos.Essas diferentes formas de “pensar” trouxeram e trazem conseqüências diversas em cada momentohistórico, para os grupos hegemônicos de cada sociedade e todas se revestem de umaintencionalidade, de objetivos, que exercem forte influência sobre nosso jeito de fazer Educação e nomodo como nos organizamos socialmente. Você perceberá que o Conceito de Educação não é consenso, ao contrário, abrange umadiversidade significativa de concepções e correntes de pensamento, que estão relacionadasdiretamente ao período histórico, ao movimento social, econômico, cultural, político nacional einternacional. Quer conhecer o que alguns pensadores e educadores dizem sobre o que é educação e qual oseu papel social, político e cultural?
  14. 14. 14 Então preste atenção às idéias, que lhe apresentaremos logo a seguir, que foram ou sãofundamentos para as práticas pedagógicas, que veremos mais profundamente em outros trechos donosso percurso. Vamos iniciar conhecendo o pensamento de Émile Durkheim, para quem a Educação éessencialmente o processo pelo qual aprendemos a ser membros da sociedade. Educação ésocialização! É uma ilusão acreditar que podemos educar nossos filhos como queremos. E, afirma queexistem certos costumes, regras que precisam e devem ser obrigatoriamente transmitido no processoeducacional, gostemos ou não deles. Émile Durkheim (1858 - 1917), sociólogo francês, positivista, viveu em um rico e conturbadomomento histórico: de um lado, a Revolução Francesa, e de outro, a Revolução Industrial. “Bebeu” nafonte do pensamento de Auguste Comte (1798 - 1857), pai do Positivismo e filho do Iluminismo queenfatizava a razão e a ciência como formas de explicar o universo. Para Durkheim, a tarefa daeducação era buscar “soluções” para a crise da burguesia do final de século XIX, que lutava paracontinuar como detentora do poder político e econômico. Seu pensamento refletia diferentes “educações”. Cada casta, classes ou grupo social deveriater sua própria educação para adequar cada um a seus meios específicos de vida, ou seja, aquelesque nascessem pobres deveriam adaptar-se à sua realidade, e aqueles que nascessem ricos deveriamadaptar-se à sua condição e, assim, cada um desempenharia o seu papel social de forma harmoniosa.Suas idéias influenciaram grandemente as correntes pedagógicas até os dias atuais. Outro importante pensador, Karl Marx, dizia que a educação é diretamente relacionada aosinteresses de classe. “Conforme o conteúdo de classe ao qual estiver exposta, ela pode ser umaeducação para a alienação ou para a emancipação”. Karl Marx (1818 - 1883), intelectual alemão, é considerado um dos fundadores da Sociologia,mas, que contribuiu com várias outras áreas: filosofia, economia, história. Elaborou, em parceria comFriedrich Engels (1820-1895) também filósofo alemão, a Doutrina dos teóricos do Socialismo Científicoou Marxismo e escrevem juntos o Manifesto Comunista, “historicamente um dos tratados políticos demaior influência mundial, publicado pela primeira vez em 21/02/1848, em que os autores partem deuma análise histórica, distinguindo as várias formas de opressão social durante os séculos e situa naburguesia moderna como nova classe opressora, que super-valoriza a liberdade econômica emdetrimento das relações pessoais e sociais, assim tratando o operário como uma simples peça detrabalho que o deixa completamente desmotivado e contribuindo para a sua miserabilidade ecoisificação. O professor Tosi Rodrigues (2002) coloca que Marx, a partir de seus estudos sobre asconseqüências da Revolução Industrial, na vida dos trabalhadores ingleses, concluiu que o tipo deeducação dado às crianças operárias era tão precário que só poderia servir para perpetuar as relaçõesde opressão às quais as crianças e seus pais estavam sujeitos. Segundo relato citado por Marx, em seu livro sobre a realidade de uma das escolas que visitou,“a sala de aula tinha 15 pés de comprimento por 10 pés de largura e continha 75 crianças quegrunhiam algo ininteligível (...) Além disso, o mobiliário escolar era pobre, faltavam livros e material deensino e uma atmosfera viciada e fétida exercia efeito deprimente sobre as infelizes crianças. Estiveem muitas dessas escolas e nelas vi filas inteiras de crianças que não faziam absolutamente nada, e a
  15. 15. 15isso se dá o atestado de freqüência escolar; e a esses meninos figuram na categoria de instruídos denossas estatísticas oficiais” (O Capital, 1968, Vol. 1, Livro 1). Os estudos de Marx tiveram e têm uma forte influência nas idéias pedagógicas no mundo eaqui no Brasil. Dessa corrente de pensamento sociológico, decorre as chamadas pedagogias críticas,que estudaremos mais adiante. Seguindo a coerência em nossa linha de raciocínio encontramos na França o pensamento deDurkheim, depois, na Alemanha onde encontramos Marx. Agora, seguindo a coerência cronológica dahistória, vamos conhecer outro importante pensador na Suíça e, logo em seguida, voltaremos ao Brasil. Jean-Jaques Rousseau afirmava que “nascemos fracos, precisamos de força; nascemosdesprovidos de tudo, temos necessidade de assistência; nascemos estúpidos, precisamos de juízo.Tudo que não temos ao nascer e de que precisamos, quando adultos, nos é transmitido pelaeducação”. Seria, para ele, a educação responsável pela formação do cidadão em todos os sentidos.Pois acreditava que o homem nasce bom, mas a sociedade o perverte. Jean-Jaques Rousseau (1712 - 1978), filósofo e escritor suíço, foi uma das principaisinspirações ideológicas da segunda fase da Revolução Francesa: inspirou fortemente osrevolucionários, que defendiam o princípio da soberania popular e da igualdade de direitos. Apontava adesigualdade e a injustiça como frutos da competição e da hierarquia mal constituída. Segundo suasidéias, o grande objetivo do governo deveria ser assegurar liberdade, igualdade e justiça para todos,independentemente da vontade da maioria. Estudioso da filosofia da educação enalteceu a “educaçãonatural”, defendendo um acordo livre entre o mestre e o aluno. Seu trabalho se tornou a diretriz dascorrentes pedagógicas nos séculos seguintes. Lançou sua filosofia, não somente através de escritosfilosóficos formais, mas também de romances, cartas e de sua autobiografia. Após conhecer os principais acontecimentos sócio-filosóficos que nortearam as correntes econcepções de pensamentos do mundo vamos conhecer as influências destes pensamentos no Brasil. 1.4 Influências destes pensamentos filosóficos no Brasil Vamos conhecer os liberais e suas idéias sobre a educação, que eram defendidas com umgrande otimismo pedagógico: eles queriam reconstruir a sociedade por meio da educação (GADOTTI,1993). Vocês já ouviram falar dos liberais? Se não, prestem atenção. Era um grupo de intelectuaisprofundamente enraizados na classe burguesa, que defendiam e justificavam o modelo econômico daépoca, que privilegiavam alguns, em detrimento da maioria. Defendiam, apenas, alterações no comoensinar, e não, no modelo de educação excludente. Para os Liberais, o homem é produto do meio; ele e sua consciência se formam em suasrelações acidentais, que podem e devem ser controladas pela educação, a qual deve trabalhar para amanutenção da ordem vigente, atuando diretamente com o sistema produtivo. O objetivo primeiro daeducação é produzir indivíduos competentes para o mercado de trabalho, transmitindo eficientementeinformações precisas, objetivas e rápidas. (LÍBANEO, 1989).
  16. 16. 16 Parafraseando Paulo Freire, a educação é o fator mais importante para se alcançar afelicidade. O autor destacava ainda em seus escritos a educação como ação de conhecimento, comoato político, como direito de cidadania e, nesse sentido, o conhecimento, como construção social. Aindasegundo o autor, ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, as pessoas se educam entresi, mediatizadas pelo mundo. (2002 p.68). Paulo Freire: Biografia resumida - O caminho de um Educador. Nasceu em Recife em 1921 efaleceu em 1997. É considerado um dos grandes educadores da atualidade e respeitadomundialmente. Publicou várias obras que foram traduzidas e comentadas em vários países. Suasprimeiras experiências educacionais foram realizadas em 1962 em Angicos, no Rio Grande do Norte,onde 300 trabalhadores rurais se alfabetizaram em 45 dias. Participou ativamente do MCP (Movimentode Cultura Popular) do Recife. Suas atividades são interrompidas com o golpe militar de 1964, que determinou sua prisão.Exila-se por 14 anos no Chile e posteriormente vive como cidadão do mundo. Com sua participação, oChile, recebe uma distinção da UNESCO, por ser um dos países que mais contribuíram à época, paraa superação do analfabetismo. Em 1970, junto a outros brasileiros exilados, em Genebra, Suíça, cria oIDAC (Instituto de Ação Cultural), que assessora diversos movimentos populares, em vários locais domundo. Retornando do exílio, Paulo Freire continua com suas atividades de escritor e debatedor,assume cargos em universidades e ocupa, ainda, o cargo de Secretário Municipal de Educação daPrefeitura de São Paulo, na gestão da Prefeita Luisa Erundina. Algumas de suas principais obras: Educação como Prática de Liberdade, Pedagogia doOprimido, Cartas à Guiné Bissau, Vivendo e Aprendendo, A importância do ato de ler, Pedagogia daAutonomia. Freire (1997), também nos ensina que a educação não é neutra, ao contrário, é um dosinstrumentos capazes de: garantir aos cidadãos o atendimento às necessidades que permitem o seudesenvolvimento integral, que possibilita a integração entre o pensar e o agir, porque quando o pensaré privado de realidade e o agir, de sentido, ambos ficam sem significado. Caso contrário, podemosreproduzir uma educação que se coloca como mera transmissora de informações descontextualizadashistoricamente, sem autor, sem intencionalidade “clara” e privada de sentido, a que o autor denominoude educação bancária. Minha presença no mundo não é a de quem nele se adapta, mas de quem nelese insere. É a posição de quem luta para não ser apenas objeto, mas sujeito também da história.(FREIRE, 1983, p. 57). Sendo assim, educar é construir, é libertar o homem do determinismo, passando a reconhecero seu papel na História e onde a questão da identidade cultural, tanto em sua dimensão individual,como em relação à classe dos educandos é essencial à prática pedagógica libertadora. Sem respeitar essa identidade, sem autonomia, sem levar em conta as experiências vividaspelos educandos antes de chegarem à escola, o processo será inoperante, somente meras palavrasdespidas de significação real. Temos que lutar por uma educação dialógica, pois só assim se podeestabelecer a verdadeira comunicação da aprendizagem entre seres constituídos de alma, prazer,sentimentos. Em seus escritos, Freire destaca o ser humano como um ser autônomo, livre, criativo, ativo,capaz de significar e ressignificar suas ações. Essa autonomia está presente na definição de vocação
  17. 17. 17ontológica de ‘ser mais’ que está associada à capacidade de transformar o mundo. É exatamente aíque o homem se diferencia do animal. Afinal, animal não tem história. 1.5 Educação? Educações? Educar? Vamos conhecer uma pequena parte do relatório da UNESCO de 1996, sobre educação, eseguir, conhecendo Educação/Educações. Segundo Moran, (2000, p. 3), educar: É colaborar para que professores e alunos – nas escolas e organizações – transformem suas vidas em processos permanentes de aprendizagem. É ajudar os alunos na construção de sua identidade, do seu caminho pessoal e profissional – do seu projeto de vida, no desenvolvimento das habilidades de compreensão, emoção, comunicação que lhes permitam encontrar seus espaços pessoais, sociais e profissionais e tornarem-se cidadão realizados e produtivos. No relatório da UNESCO, organizado e escrito pelo francês Jacques Delors, intitulado:Educação um tesouro a descobrir, de 1996, a Educação precisa de uma concepção mais ampla, ouseja: Uma concepção ampliada de educação deveria fazer com que todos pudessem descobrir,reanimar e fortalecer o seu potencial criativo – revelar o tesouro escondido em cada um de nós. Issosupõe que se ultrapasse a visão puramente instrumental da educação considerada a via obrigatóriapara obter certos resultados (saber-fazer, aquisição de capacidades diversas, fins de ordemeconômica), e se passe a considerá-la em toda a sua plenitude: realização da pessoa que, na suatotalidade, aprende a ser (DELORS, 2003, p. 90). As diferentes concepções de educação têm reflexos profundos em nosso cotidiano. Como vocêdeve ter percebido, todos nós temos memória, uns mais, outros menos, da infinidade de informaçõesque recebemos ao longo de nossas vidas como estudantes. Muitos de nós estudamos em escolas que reproduziam informações e conhecimentos, e nósnão sabíamos para que serviriam, nem imaginávamos quem produziu esse conhecimento, nem em quecontexto histórico. Não víamos sentido para os conteúdos, que eram apenas para ser decorados e paraque respondêssemos questões dos questionários, das provas, que depois esquecíamos – a “educaçãobancária”. Não queremos dizer com isso que informação/ conhecimento não é importante, ao contrário,têm importância e significam poder. A esse respeito, o cientista político, americano Emir Sader, indagou em sua palestra proferidano Fórum Mundial da Educação (2003): “se o conhecimento não serve para inserir os homens de formaconsciente na sociedade, para que serve então”? (...) “o excesso de informação existente hojedisseminada, porém descontextualizada e sem história, sem o conhecimento de quem a produziu, vembanalizando o processo educacional e fragmentando o saber, colaborando para a produção de umnovo tipo de analfabetismo”.
  18. 18. 18 UNIDADE III TEXTO 01 - A FILOSOFIA EM BUSCA DE RESPOSTAS Certamente você deve estar-se perguntando por que estudar fundamentos sócio-filosóficos daeducação para compreender as Políticas públicas em Educação e Educação Física? Qual osignificado? Para saber mais sobre essa questão vamos fazer um estudo breve que nos ajudará a entendero significado dessas palavras e a importância de estudá-las para sua formação, enquanto um futuroprofissional da área de Educação Física. • Fundamentos - Vamos juntos tentar entender o que são fundamentos? De forma geral, e aqui em especial, fundamentos são os princípios básicos, nosso porto seguro, aquilo que nos dará base para entender o que vem a seguir, ou seja, alicerce para o entendimento de outras disciplinas e a nossa postura enquanto futuro profissional. • Sócio - nesse caso, remete-nos à sociologia, ciência que se dedica a estudar a sociedade e suas transformações ao longo da história, e as transformações pelas quais temos passado. Afinal, estamos vivendo uma verdadeira revolução educacional, com o apoio significativo das novas tecnologias. • Filosófico - é a junção de duas palavras gregas: filos/amante + sofia/sabedoria = amor pela sabedoria. Na prática pedagógica, representa aquele olhar indagador e crítico sobre a realidade, na busca de respostas sobre os porquês dos fenômenos, nesse caso, relacionados à educação. • Em síntese, Fundamentos Sócio-Filosófico é a base para o entendimento da educação na sociedade, de forma crítica, construída através da reflexão, da pesquisa, da observação. • Políticas Públicas em Educação e Educação Física são definidas como o conjunto de ações desencadeadas pelo Estado, no caso brasileiro, nas escalas federal, estadual e municipal, com vistas ao bem coletivo. Elas podem ser desenvolvidas em parcerias com organizações não governamentais e, como se verifica mais recentemente, com a iniciativa privada. E por que estudar os fundamentos de áreas pedagógicas? Porque as demais ciências daeducação e em especial a pedagogia são como bússolas que auxiliam o professor a agir diante dagrande diversidade que caracteriza o povo brasileiro. Diante dessa afirmativa e estando o Curso deEducação Física ligado à área da Educação somos desafiados a conhecer a Pedagogia enquantoCiência da Educação. Nossa cultura é muito rica e diversa, nosso povo – crianças, jovens, adultos – faz a diferençaem cada comunidade, município, estado ou região. É muita diversidade para uma única açãopedagógica. Como trabalhar com essa diversidade? Como devemos ser educadores reflexivos e críticos?
  19. 19. 19 2.1 O Filósofo e o Filosofar O verdadeiro filósofo é, antes de tudo, um observador atento da realidade, um pensadordedicado e que tenta, pelo seu próprio esforço, desvendar o Universo que o cerca. E o que é filosofar? É pensar livremente, é não se deixar guiar por ideologias, religiões, crenças, pelas opiniões dosoutros, sem reflexão. É colocar tudo como objeto a ser refletido, perguntar sobre tudo, por exemplo:Quais os motivos que guiaram as diferentes escolhas humanas ao longo da história? Por que agimosassim, e não, de outro jeito? Para o professor/educador, é fundamental filosofar sobre sua prática, pensar sobre o seu fazerpedagógico diário, buscar respostas para as dificuldades e para as conquistas do dia-a-dia. Assim, oeducador ao superar as dificuldades, socializa as conquistas e contribui com a comunidade onde estáatuando. Embora a Filosofia, em geral, não seja produzida para resultados concretos e imediatos, crerque ela não tenha aplicação prática não é correto. A forma de compreender o mundo é que determina omodo como se produzem as coisas, investiga-se a natureza, propõem-se as leis. Ética, Política, Moral,Esporte, Arte, Ciência, Religião, tudo tem a ver com Filosofia. O pensamento humano não apenas influenciou e influencia o mundo, na verdade, é ele que odetermina. Todos os movimentos sociais, econômicos, políticos, religiosos da história têm origem nopensamento humano, na Filosofia. Aquele que se dedica à Filosofia não se abstém da realidade, não é um alienado. É aquele queprocura compreender a realidade e busca dar o primeiro passo para interagir com ela, ou mesmoalterá-la, da melhor forma possível. Saberemos mais sobre Filosofia e as principais correntes filosóficas. Elas nos ajudarão aentender melhor onde estão ancoradas algumas práticas pedagógicas, que estudaremos mais adiante. Bem, recapitulando, Filosofia é uma palavra grega “philosophia” – sophia, que significasabedoria; philo significa amor, ou amizade. Então, literalmente, um filósofo é um amigo ou amante desophia, alguém que admira e busca a sabedoria. Logo, todos somos filósofos, podemos e devemosfilosofar. Mas, o que são filosofia e filosofar? • O termo philosofia foi empregado, pela primeira vez, pelo famoso filósofo grego PITÁGORAS, por volta do século V a.C, ao responder a um de seus discípulos que ele não era um “Sábio”, mas apenas alguém que amava a Sabedoria. Filosofia é, então, a busca pelo conhecimento último e primordial, a Sabedoria Total. Embora, de um modo ou de outro, o Ser Humano sempre tenha exercido seus dons filosóficos,a Filosofia Ocidental, como um campo de conhecimento coeso e estabelecido, surge, na Grécia Antiga,com a figura de TALES de MILETO, que foi o primeiro a buscar uma explicação para os fenômenos danatureza usando a Razão e a Lógica, e não, os Mitos como eram de costume. • Mito é uma narrativa tradicional com caráter explicativo e/ou simbólico, profundamente relacionado com uma dada cultura e/ou religião. O mito procura explicar os principais acontecimentos da vida, os fenômenos naturais, as origens do Mundo e do Homem por meio
  20. 20. 20 de deuses, semi-deuses e heróis (todas elas são criaturas sobrenaturais). Pode-se dizer que o mito é uma primeira tentativa de explicar a realidade. • Razão é a faculdade de raciocinar, de apreender, de compreender, de ponderar, de julgar...Disponível em: http://pt.wikipedia. org/wiki/Raz%C3%A3o. Acesso em: 28 julho de 2010. • Lógica é o ramo da Filosofia que cuida das regras do bem pensar, ou do pensar correto, sendo, portanto, um instrumento do pensar. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/ L%C3%B3gica Acesso em: 28 julho de 2010. Mas você sabe que, como o resto das coisas da vida, nem tudo foi flores na constituição dahistória da Filosofia, assim como na Religião. Ela também já teve sua morte decretada. No entanto, a Filosofia Ocidental perdura há mais de2.500 anos, tendo sido a “Mãe” de quase todas as Ciências: Psicologia, Antropologia, História, Física,Astronomia e, praticamente, todas as outras que derivam direta ou indiretamente da Filosofia.Entretanto, as “filhas” ciências se ocupam de objetos de estudo específicos, e a “Mãe” se ocupa do“Todo”, da totalidade do real. Nada escapa à investigação filosófica. A amplitude de seu objeto de estudo é tão vasta quefoge à compreensão de muitas pessoas, que chegam a pensar ser a Filosofia uma atividade inútil.Além disso, seu significado também é muito distorcido no conhecimento popular que, muitas vezes, areduz a qualquer conjunto simplório de idéias específicas, as “filosofias de vida” ou, basicamente, a umexercício poético. Entretanto, como sendo praticamente o ponto de partida de todo o conhecimento humanoorganizado, a Filosofia estuda tudo o que pode, estimulando e produzindo os mais vastos campos dosaber. Mas, diferente da Ciência, a Filosofia não é empírica, ou seja, não faz experiências, mesmoporque geralmente, seus objetos de estudo não são acessíveis ao Empirismo. • A RAZÃO e a INTUIÇÃO são as principais ferramentas da Filosofia, que tem como fundamento a contemplação, o deslumbramento pela realidade, a vontade de conhecer e, como método primordial, a rigorosidade do raciocínio, para atingir a estruturação do pensamento e a organização do saber. Vamos conhecer um dos principais textos da Filosofia, escrito por Platão, no século IV a.C.: OMito da Caverna ou Alegoria da Caverna. O Mito da Caverna de autoria de Platão e escrito no livro VII do República é, talvez, uma dasmais poderosas metáforas imaginadas pela filosofia. O autor descreve a situação geral em que seencontra a humanidade. Para o filósofo, todos nós estamos condenados a ver sombras a nossa frentee tomá-las como verdadeiras. Uma critica poderosa à condição dos homens, escrita há quase 2500anos atrás, inspirou e ainda inspira inúmeras reflexões por todos que o lêem. Trecho de: O Mito da Caverna Extraído de A República, de Platão(1987) Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, sereshumanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são
  21. 21. 21forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas à frente, não podendo girar a cabeçanem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, demodo que se possa, na semi-obscuridade, enxergar o que se passa no interior. A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ele e os prisioneiros -no exterior, portanto - há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como sefosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa mureta-palco, homens transportamestatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas. Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam naparede, no fundo da caverna, as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver aspróprias estatuetas, nem os homens que as transportam. Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginavam que as sombras vistas são aspróprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens(estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna. Também não podemsaber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda a luminosidadepossível é a que reina na caverna. Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse osprisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria osoutros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos deimobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminhoascendente, nele adentraria. Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol,e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade, veria os homensque transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindoque, durante toda a sua vida, não vira senão sombra de imagens (as sombras das estatuetasprojetadas no fundo da caverna) e que somente agora está contemplando a própria realidade. Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pelaescuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los. Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariamem suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-loespancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair dacaverna, certamente acabariam por matá-lo. Mas, quem sabe alguns poderiam ouvi-lo e, contra avontade dos demais, também decidissem sair da caverna rumo à realidade. Após a leitura, escreva umdepoimento articulando-o com o que você estudou sobre educação / escola / aprendizagem. Disponívelem:http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=796 Acesso em: 28 de julho de 2010. 2.2 As Correntes Filosóficas Vamos agora estudar as principais correntes filosóficas. Nos grandes períodos da história:Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna e Contemporânea, viveu-se à influência de váriospensadores. Na Antiguidade, destacam-se os filósofos gregos Sócrates, Platão e Aristóteles. Oprimeiro, no estudo da ética; o segundo preconiza o idealismo; e o último, o realismo.
  22. 22. 22 • Na Idade Média, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino são pensadores cristãos que ocupam papel de realce. Santo Agostinho é tido como filósofo da fé e São Tomás de Aquino, como embasador do catolicismo, afirma que o conhecimento tem primazia sobre a ação. • Na Idade Moderna, começa-se a negar a fé e a ampliar os caminhos da ciência. Projetam- se vários filósofos, como Descartes, no racionalismo, Bacon, no empirismo, Hegel, na dialética, Kant, na epistemologia, na metafísica e na antropologia e Comte, no positivismo. Na época contemporânea, acentua-se uma reação à Filosofia do século XIX, idealista e positivista, bem como a Filosofia moderna geral. Destacam-se: Kierkegaard, considerado o fundador do Existencialismo, Hidegeer, que analisou a existência humana e Husserl, que dá ênfase ao estudo dos fenômenos – a fenomenologia. 2.3 E a Filosofia Oriental? Ainda nessa rota, vamos entrar em um canal que nos leva até a filosofia oriental. Estamos prontos? Lá vamos nós! Embora não seja aceito como Filosofia pela maior parte dosacadêmicos, o pensamento produzido no Oriente, especificamente na China e na Índia por budistas ehinduístas, possui qualidades equivalentes à da Filosofia Ocidental. A questão é basicamente a definição do que vem a ser a Filosofia e suas característicasprincipais que, da maneira como é colocada pelos acadêmicos ocidentais, de fato exclui a FilosofiaOriental. Mas nada impede que se considere Filosofia num conceito mais amplo, como faremos aqui. A Filosofia Oriental é mais intuitiva que a Ocidental e menos racional, o que contribui parasua inclinação mística e hermética. No entanto, vemos os paralelos que ela possui, principalmente,com a Filosofia Antiga. Ambas surgiram por volta do século VI a.C, tratando de temas muito semelhantes, e há de seconsiderar que Grécia e Índia não são tão distantes uma da outra a ponto de inviabilizar um contato. Veja o mapa mundial. A maioria dos estudiosos considera que não há qualquer relação entreos pré-socráticos e os filósofos orientais. O que, na realidade, pouco importa nesse momento. O fato é que, assim como a Ciência, a Arte e a Mística, a Filosofia sempre existiu em formalatente no ser humano. Nós sempre pensamos. Logo, existimos.
  23. 23. 23 UNIDADE IV TEXTO 01 - OS CAMINHOS DA SOCIOLOGIA A Sociologia é a ciência que estuda o comportamento humano em função do meio e osprocessos que interligam o indivíduo em associações, grupos e instituições. Ou seja, a sociologia surgena história como o resultado da tentativa de compreender situações sociais novas, criadas pela, então,nascente sociedade capitalista. • Capitalismo – é comumente definido como um sistema de organização de sociedade baseado na propriedade privada dos meios de produção, na propriedade intelectual e na liberdade de contrato sobre estes bens, o chamado livre-mercado. • Karl Marx – observa o Capitalismo através da dinâmica da lutas de classes, incluindo aí a estrutura de estratificação de diferentes segmentos sociais, dando ênfase às relações entre proletariado (classe trabalhadora) e burguesia (classe dominante). Disponível em: http://www.renascebrasil.com.br/f_capitalismo2.htm. Acesso em: 28 de julho de 2010. Apesar do termo “sociologia” ter sido criado por Auguste Comte em 1837, que inicialmente adenominou de “física social”, existem controvérsias sobre quem é seu verdadeiramente e real fundador. Em geral, nessas escolhas, pesam motivos nacionais, cada qual tentando ver num inglês, numalemão ou num francês, o verdadeiro criador da sociologia. Raymond Aron (1992), por exemplo, apontaMontesquieu, enquanto Salvador Giner indica uma série de outros nomes (Saint-Simon, Proudhom,J.S.Mill, o já citado Comte e Marx). A maioria dos anglo-saxãos, defendem o nome de Herbert Spencer que consagrou o termo emcaráter definitivo com a obra -The Study of Sociology, 1880 -, enquanto os alemães asseveram que ofundador é Max Weber. Do rol dos fundadores intelectuais ainda constam nomes como: Jane Addams, CharlesH.Cooley, William E. DuBois, George H. Mead e Robert Merton. Vale ressaltar, que talvez a sociologiatardasse bem mais em surgir no cenário cultural e científico europeu caso não tivessem surgido asdoutrinas sociais de Jean-Jacques Rousseau - o grande revolucionário do Século das Luzes. • O Surgimento - Podemos entender a sociologia como uma das manifestações do pensamento moderno. É importante colocar que, a sociologia veio preencher a lacuna do saber social, surgindo após, a constituição das ciências naturais e de várias ciências sociais. Seu surgimento coincide com os últimos momentos da desagregação da sociedade feudal e da consolidação da civilização capitalista. • A criação da sociologia não é obra de um só filósofo ou cientista, mas o trabalho de vários pensadores empenhados em compreender as situações novas de existência que estavam em curso, quais sejam, as transformações econômicas, políticas e culturais verificadas no século XVII. • A Revolução Industrial, a Revolução Gloriosa Inglesa, a Independência dos EUA e a Revolução Francesa patrocinam a instalação definitiva da sociedade capitalista. Mas, somente
  24. 24. 24 por volta de 1830, um século depois, surge a palavra sociologia, fruto dos acontecimentos das duas revoluções citadas. • A Revolução Industrial, com a introdução da máquina a vapor e os aperfeiçoamentos dos métodos produtivos, determinou o triunfo da indústria capitalista, especialmente, pela concentração e controle de máquinas, terras e ferramentas onde a grande massa de trabalhadores, era obrigada a produzir. As máquinas não simplesmente destruíam os pequenos artesãos, mas os obrigava à forte disciplina nas fábricas, surge uma nova conduta e uma relação de trabalho até então desconhecidas. Este fenômeno, o da Revolução Industrial, determinou o aparecimento da chamada classetrabalhadora ou proletariado. Os seus efeitos catastróficos para a classe trabalhadora geraram, noprimeiro momento, sentimentos de revolta traduzidos externamente na forma de destruição demáquinas, sabotagens, explosão de oficinas, roubos e outros crimes, no segundo momento, deramlugar a busca pela organização, defendida pelos socialistas e comunistas, através da constituição deassociações livres e de sindicatos, que abriram espaço, com muita luta, para o diálogo de classesorganizadas, de um lado a classe trabalhadora – proletariado e de outro, a classe proprietária -burguesia, cientes de seus interesses e desejos. Indicação de Filme - Tempos Modernos Sinopse – O Filme dirigido e estrelado por Charles Chaplin e com Paulette Goddard no elenco.Foi lançado nos Estados Unidos em 1936 a partir do qual o seu sucesso espalhou-se pelo mundo. Umoperário de uma linha de montagem, que testou uma “máquina revolucionária” para evitar a hora doalmoço, é levado à loucura pela “monotonia frenética” do seu trabalho. Após um longo período em umsanatório ele fica curado de sua crise nervosa, mas desempregado. Ele deixa o hospital para começarsua nova vida, mas encontra uma crise generalizada e equivocadamente é preso como um agitadorcomunista, que liderava uma marcha de operários em protesto. Simultaneamente uma jovem roubacomida para salvar suas irmãs famintas, que ainda são bem garotas. Elas não têm mãe e o pai delasestá desempregado, mas o pior ainda está por vir, pois ele é morto em um conflito. A lei vai cuidar dasórfãs, mas enquanto as menores são levadas a jovem consegue escapar. Após assistirmos ao filme vamos continuar conhecendo os acontecimentos sociológicos. Estesimportantes acontecimentos e as transformações sociais verificadas foram as bases para anecessidade de investigação sociológica. Os pensadores ingleses que testemunhavam estas transformações e com elas sepreocupavam não eram homens de ciência ou sociólogos profissionais. Eram homens de atitude quedesejavam introduzir determinadas modificações na sociedade. Os precursores da sociologia se encontravam entre militantes políticos e entre as pessoas quese preocupavam e/ou vivenciavam os problemas sociais e desejavam conservar, modificarradicalmente ou reformar a sociedade de seu tempo. Estes pertenciam a diferentes correntesideológicas: conservadoras, liberais, socialistas/marxistas. Foi com o aparecimento das cidadesindustriais, das transformações tecnológicas, da organização do trabalho na fábrica, e da formação deuma estrutura social específica – a sociedade capitalista – que se impôs uma reflexão sobre asociedade, suas transformações, suas crises, e sobre seus antagonismos de classe.
  25. 25. 25 O “progresso” das formas de pensar, a partir do uso da razão e da lógica, contribuiu paraafastar interpretações baseadas em suposições, superstições e crenças, representou uma mudança deparadigma e abriu espaço para a constituição de um novo saber sobre os fenômenos histórico-sociais.E, conseqüentemente, para a formulação de uma nova atitude intelectual diante dos fenômenos danatureza e da cultura. A lógica é uma ciência de índole matemática e fortemente ligada à Filosofia. Já que opensamento é a manifestação do conhecimento, e que o conhecimento busca a verdade, é precisoestabelecer algumas regras para que essa meta possa ser atingida. O principal organizador da lógicaclássica foi Aristóteles, com sua obra chamada Organon. Ele divide a lógica em formal e material.Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%B3gica Acesso em: 28 de julho de 2010. Esta postura influenciou os historiadores escoceses da época, como David Hume (1711- 1776)e Adam Ferguson (1723-1816), e seria posteriormente desenvolvida e amadurecida por Hegel e KarlMarx. Foi também dessa época a disposição de tratar a sociedade, a partir do estudo de seus grupose não dos indivíduos isolados. Frutifica o entendimento de que os homens e as mulheres produzem aolongo de suas vidas: conhecimentos, crenças, valores, linguagem, arte, música. Criamos, destruímos,inventamos, re-inventamos. Enfim, fazemos Cultura. Sendo assim, a sociologia se debruça sobre todosos aspectos da vida social e tem como preocupação estudar desde o funcionamento de macro-estruturas (o estado, a classe social) até o comportamento dos indivíduos. Ela, em parceria com a filosofia, dão fundamento para entendermos o que é educação, suahistória e suas mudanças ao longo do tempo. O pensamento de alguns sociólogos voltados para a educação - Vamos pensar o que serefletiu e reflete no pensar e no fazer dos educadores. Para Durkheim, o objeto da sociologia é o fato social. Sendo a educação considerada como ofato social, isto é, se impõe, coercitivamente, como uma norma jurídica ou como uma lei. A doutrinapedagógica se apóia na concepção do homem e de sociedade, onde o processo educacional emergeatravés da família, igreja, escola e comunidade. Para o autor as gerações adultas exercem uma fortepressão sobre os mais novos, que tem por objetivo suscitar e desenvolver na criança determinadosnúmeros de estados físicos, intelectuais e morais (DURKHEIM, 1973). Já para um divulgador da obra de Durkheim, Talcott Parsons (1965), sociólogo americano, aeducação é entendida como socialização. Nessa perspectiva, ela é o mecanismo básico de constituição dos sistemas sociais e demanutenção e perpetuação dos mesmos, em formas de sociedades, e destaca que sem a socialização,o sistema social é ineficaz de manter-se integrado, de preservar sua ordem, seu equilíbrio e conservarseus limites. • Parsons, afirma que é necessário uma complementação do sistema social e do sistema de personalidade. Ambos têm necessidades básicas que podem ser resolvidas de forma complementar. A criança aceita o marco normativo do sistema social em troca do amor e do carinho maternos. Este processo se desenvolve através de mediações primárias: os próprios pais, através da internalização de normas, inicia o processo de socialização primária. A criança
  26. 26. 26 não percebe que as necessidades do sistema social estão se tornando suas próprias necessidades. Dessa forma, para o autor, o indivíduo é funcional para o sistema social. De acordo comDurkheim e Parsons, a educação não é um elemento para a mudança social, mas sim , pelo contrario,é um elemento fundamental para a conservação e funcionamento do sistema social. Mas existem autores que têm pensamento oposto, entre eles, destacamos Dewey e Mannheim.O ponto de partida desses autores é que a educação constitui um mecanismo dinamizador dassociedades através de um indivíduo que promove mudanças. Para estes dois sociólogos, o processo educacional possibilita ao indivíduo atuar na sociedadesem reproduzir experiências anteriores, acriticamente. Pelo contrario, elas serão avaliadascriticamente, com o objetivo de modificar seu comportamento e desta maneira, produzir mudançassociais. Muito conhecida e difundida no Brasil a obra de Dewey, o autor defende ser impossível separara educação do mundo da vida. Suas idéias tiveram grande influência na nossa educação que veremosem aulas a seguir. “A educação não é preparação nem conformidade. Educação é vida, é viver, édesenvolver, é crescer” (DEWEY, 1971, p. 29). Para o autor, os indivíduos deveriam ter chances iguais.Em outras palavras, igualdade de oportunidades dentro dum universo social de diferenças individuais. Outro sociólogo, Mannheim, (1971, p. 34) define a educação como: O processo de socialização dos indivíduos para uma sociedade harmoniosa, democrática porem controlada, planejada, mantida pelos próprios indivíduos que a compõe. A pesquisa é uma das técnicas sociais necessárias para que se conheçam as constelações históricas especificas. O planejamento é a intervenção racional, controlada nessas constelações para corrigir suas distorções e seus defeitos. O instrumento que por excelência põe em pratica os planos desenvolvidos é a Educação. Você viu? Como estes autores têm diferentes idéias não é mesmo? Veja as diferenças separam os sociólogos que se ocuparam da questão educacional. Vocêreparou? Prestou atenção? Mas apesar das divergências, não podemos ignorar, que: Existe entre elas um ponto deencontro: a educação constitui um processo de transmissão cultural no sentido amplo do termo(valores, normas, atitudes, experiências, imagens, representações) cuja função principal é areprodução do sistema social. Isto é claro no pensamento durkheimiano, que podemos resumir como: longe de a educaçãoter por objeto único e principal o indivíduo e seus interesses, ela é antes de tudo o meio pelo qual asociedade renova perpetuamente as condições de sua própria existência. A sociedade só pode viver sedentre seus membros existe uma suficiente homogeneidade. A educação perpetua e reforça essahomogeneidade, fixando desde cedo na alma da criança as semelhanças essenciais que a vidacoletiva supõe (DURKHEIM, 1973).
  27. 27. 27 Também verificamos que tanto Durkheim, como seus seguidores, se esforçavam por assinalarque a importância do processo educacional se baseava no fato de que o mesmo tinha como funçãoprincipal a transmissão da cultura na sociedade. Esta cultura era assim apresentada como única,indivisa, propriedade de todos os membros que compõem o conjunto social. Entretanto, outros dois sociólogos Bourdieu e Passeron, também famosos pelos seus estudose sua preocupação com a questão educacional, tiveram pretensões de justamente demonstrar a nãoexistência de uma cultura única, mas que: Na realidade, devido ao fato de que elas correspondem a interesses materiais e simbólicos de grupos ou classes diferentemente situadas nas relações de força, esses agentes pedagógicos tendem sempre a reproduzir a estrutura de distribuição do capital cultural entre esses grupos ou classes, contribuído do mesmo modo para a reprodução da estrutura social: com efeito, as leis do mercado em que se forma o valor econômico ou simbólico, isto é, o valor enquanto capital cultural, dos arbítrios culturais reproduzidos pelas diferentes ações pedagógicas (indivíduos educados) constituem um dos mecanismos mais o menos determinantes segundo os tipos de formação social, pelos quais se acha assegurada a reprodução social, definida como reprodução das relações de força entre classes sociais (BOURDIEU e PASSERON, 1976, p. 218). Para os autores citados, sistema escolar reproduz, assim, em nível social, os diferentescapitais culturais das classes sociais e, por fim, as próprias classes sociais. Os mecanismos de reprodução encontram sua explicação ultima nas relações de poder,relações essas de domínio e subordinação que não podem ser explicadas por um simplesreconhecimento de consumos diferenciais. Nessa perspectiva, quando analisam a função ideológica do sistema escolar, uma de suaspreocupações é justamente a da possível autonomia que pode ser atribuída a ele, em relação àestrutura de classes. Com efeito, Bourdieu e Passeron se perguntam: Como levar em conta a autonomia relativa que a Escola deve à sua função específica, sem deixar escapar as funções de classes que ela desempenha, necessariamente, em uma sociedade dividida em classes? (BOURDIEU e PASSERON, 1976, p. 219). E os autores respondem: Se não é fácil perceber simultaneamente a autonomia relativa do sistema escolar, e sua dependência relativa à estrutura das relações de classe, é porque, entre outras razões, a percepção das funções de classe do sistema escolar está associada, na tradição teórica, a uma representação instrumentalista das relações entre a escola e as classes dominantes como se a comprovação da autonomia supusesse a ilusão de neutralidade do sistema de ensino. (BOURDIEU e PASSERON, 1976, p. 220). Concluímos, que existem pontos divergentes e pontos comuns entre as idéias dos autores queestudamos. Sejam elas no que diz respeito à concepção de educação, de sociedade, de escola.
  28. 28. 28 UNIDADE V TEXTO 01 - A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO ENQUANTO PRODUÇÃO HUMANA – DAEDUCAÇÃO UNIVERSAL À EDUCAÇÃO BRASILEIRA 1.1 A Educação Primitiva A educação entre os povos primitivos constitui a forma mais rudimentar do tradicionalismopedagógico. Entre os povos selvagens vamos encontrar as formas mais simples e elementares deeducação e facilmente se pode determinar a natureza geral, o fim, o método, a organização e oresultado da educação. Vamos encontrar nos povos situados no mais ínfimo grau da civilização, as formas mais puras,mais elevadas e mais espiritualizadas de religião, de moral e de educação. Já nos povos pigmeus,pertencentes às “culturas iniciais”, deparamos com uma educação intencional realizada pela família epela comunidade, visando ideais éticos e espirituais. Nas civilizações primitivas a família é que desempenha o papel primordial na formaçãoeducativa das novas gerações até a puberdade. Após a puberdade, a educação vai variar nas diversascivilizações. Nas civilizações totêmicas, a educação masculina assume um caráter antifamiliar, asmulheres são desprezadas. Nas civilizações matriarcais, a educação feminina é preponderante devidoà primazia da mulher. Nas civilizações pastoris, a família patriarcal conserva o seu privilégio educativo. O estudo da educação primitiva nos faz entrar em contato com a alma do homem primitivo econhecer a estrutura da sua personalidade. O homem primitivo não é um ser animalizado. Não há educação sistemática, nem instituiçõesescolares. A escola teria surgido pela primeira vez entre os Incas e os Astecas. Os povos possuemépocas próprias e lugares determinados para a realização da educação intencional. A época preferidaé a da puberdade dos educandos e quanto aos lugares há as chamadas casas dos homens dos povosprimitivos, os santuários do bosque ou os bosques sagrados. Há uma preocupação clara pela formaçãodas novas gerações, embora o objetivo imediato da educação seja a satisfação de necessidadesmateriais, relativas à alimentação, ao vestuário e ao abrigo. Daí a possibilidade de se caracterizarementre os povos primitivos, ainda que de forma rudimentar, as 3 formas fundamentais da educação: aeducação física, a educação intelectual e a educação moral. Educação física: os selvagens dão grande liberdade às crianças que se aproveitam para oexercício dos seus jogos naturais. O jogo e a imitação têm papel importante e considerável naeducação primitiva. As crianças de tribos guerreiras fazem espadas, arcos, escudos. Nas pacíficasimitam as atividades de tecelagem, construção de cabanas, confecção de vasos e adornos, trabalhosno capo, a caça, a pesca e a navegação. Educação intelectual: é prática e visa tornar a criança capaz de prover às suas necessidadesindividuais, mais tarde às da família e da comunidade. Esta educação começa cedo conforme o sexo ea maneira de viver da tribo. Os jovens aprendem a conhecer hábitos dos animais e peixes, aconfeccionar instrumentos de caça e de pesca, a manejar armas e construir embarcações, adesenvolver sua agilidade física, aperfeiçoar sua acuidade sensorial. Assim suas faculdadesintelectuais se tornam precisas, ágeis e eficazes. As mulheres são preparadas para o lar, criação dos
  29. 29. 29filhos e auxiliar o marido nas ocupações. Nos povos selvagens a memória se revela pronta, rica e fiel.Sua imaginação é exuberante e colorida. Sua inteligência é viva, engenhosa e inventiva. Educação moral: o senso moral dos selvagens se encontra mais ou menos obscurecido edesfigurado, mas sua alma guarda a marca indelével da lei natural. A sua consciência é lúcida. Elescompreendem o dever que possuem de transmitir aos descendentes preceitos morais e espirituais.Esses preceitos se referem ao respeito aos pais e aos velhos ao culto dos antepassados, aosentimento da honra, à fidelidade à palavra empenhada, à obediência às autoridades legítimas. Oacontecimento de maior importância na educação dos povos primitivos é a iniciação da puberdade, quese reveste de um caráter de formação moral. A iniciação representa a recepção solene dosadolescentes na comunidade dos adultos. Os jovens nesta cerimônia são separados da comunidade eenviados a uma residência especial onde permanecem sob a vigilância dos anciãos da tribo. Lá, sãorealizadas solenidades de caráter purificatório, depois ritos de iniciação. Recebem novo nome, sãosubmetidos a provas cruéis e brutais que servem para aferir a coragem e a resistência ao sofrimento.Recebem instruções relativas ao matrimônio, às tradições sagradas da tribo, aos limites do território, àfidelidade ao chefe da nação. Os jovens recebem conselhos sobre guerra, caça, pesca, artes manuais.Exortam-nos a combater com coragem, proteger os fracos e defender os humildes. As noções religiosas que os povos primitivos transmitem às novas gerações variam com o tipode civilização. Os pigmeus, por exemplo, possuem uma religião monotéica, constituída pela crença num Deusúnico, criador do céu e da terra, infinitamente bom e justo, ao qual terão de prestar contas dos seusatos. Os caracteres fundamentais das religiões professadas pelos povos primitivos são: crença numpoder supremo; crença em espíritos independentes; crença na alma humana, distinta do corpo eseparando-se do mesmo com a morte; crença num mundo do Além, mundo das almas e dos espíritos;sentido de puder, de justiça, de responsabilidade, de liberdade, de dever; reconhecimento daconsciência moral; noção do pecado com sanção aplicada pela autoridade do mundo invisível;organização do culto; oração, oferenda, sacrifícios, ritos, cerimônias; sacerdócio; distinção entre osagrado e o profano; organização da família, procurando conservar a pureza do sangue, impondo leis,fortalecendo-se por alianças e transmitindo suas tradições. 1.2 A Educação Hindu A Gramática foi a disciplina que serviu de base para a educação intelectual dos hindus, não ameramente alfabética, reduzida à leitura e à escrita, mas fonética, isto é, orientada para a análise dossons que constituem a linguagem. A veneração dos hindus pela linguagem dos Vedas, queconsideravam divina, fez com que os mesmos se esforçassem para conservar a pronúncia exata dosseus hinos e, para preservá-la guardavam listas de palavras antigas, com a respectiva pronúnciacorreta. E foi assim que teve origem a mais remota e perfeita gramática, que deu lugar à formação dagramática moderna que parte do estudo das raízes dos vocábulos e das leis fonéticas que presidem àsua composição e modificação. Faziam parte da educação intelectual dos hindus os provérbios e asfábulas. Os hindus cultivaram a Lógica, a Álgebra e a Astronomia. Recebemos deles o sistema métricoe o jogo do xadrez. As escolas elementares hindus eram numerosas, porém, não possuíam organização oficial. Osdiscípulos se reuniam em torno do mestre, ao ar livre, à sombra de uma árvore e, quando chovia, sobuma tenda. Aí aprendiam a escrever, primeiro sobre a areia e, em seguida, sobre folhas de palmeirasou de plátano. O ensino era realizado por memorização, os alunos repetiam em voz alta o que lhes era
  30. 30. 30ditado pelo mestre. Quando as classes eram numerosas, era comum empregar como auxiliares deensino o alunos mais adiantados. Daí a origem do ensino mútuo ou monitorial. O ensino era feito segundo certas fórmulas rituais. O mestre pertencia à casta dos brâmanes e era objeto de profunda veneração. Não recebiaremuneração dado o caráter espiritual da sua obra. Os alunos podiam oferecer presentes ao mestre. Oensino revestia-se de uma orientação essencialmente religiosa. Os alunos eram instruídos oralmente,para em seguida, estudarem nos livros sagrados; os Vedas ou o catecismo budista. A moral eraensinada por meio de provérbios e de fábulas. Outras matérias: leitura, escrita, aritmética. O ensino superior era limitado aos brâmanes e tinha por objetivo o estudo dos Vedas e dassuas ciências auxiliares. Para aprender cada um dos Vedas eram necessários 12 anos, e para osquatro, 48 anos. Os hindus não consideram a ciência como um valor em si mesma, mas sim como um meiopara conseguir a união com a divindade. O jovem devia aprender a sabedoria, o varão praticá-la e oancião olvidá-la. A vida intelectual do hindu começava nas intrincadas análises da gramática paraterminar na síntese suprema do misticismo. A educação elementar hindu era eivada de graves defeitos: rotina excessiva dos mestres,cultura exclusiva da memória, negligência na educação das mulheres e das crianças, preconceitoextremado contra a educação dos serviços e dos párias, desinteresse pela formação do caráter,preocupação exclusiva pelo cultivo da inteligência. 1.3 A Educação Chinesa O povo chinês possui um espírito positivo e prático, despido de qualquer idealismo. A China parece ter sido o primeiro país a considerar o ensino como função do Estado. Já sob oimperador Yu, foi destinada a manutenção do ensino parte dos fundos comunais. Em 1097 a.C., oimperador Tcheu mandou instalar escolas em todos os seus domínios. No período do antigo império asescolas foram consideradas como estabelecimentos do Estado e o ensino teve caráteracentuadamente político. Daí por diante, ficou livre a iniciativa particular, mas, desde 650, esta sofreu aintervenção do Estado que a regularizou por meio de um complicado sistema de exames. Estas provasconstituem a peça central da máquina educativa chinesa, pois era através das mesmas que serealizava a seleção de todos os funcionários e dignitários da China. Havia três exames de dificuldade crescente que conferiam os graus de “talento florido”,“homem promovido” e “completo erudito”, ou “apto para o cargo”. A aprovação nesses examesproporcionava recompensa sob a forma de adornos para o vestuário, sinais de distinção para aresidência, direito a lugar de honra nas festas, isenção de punição corporal etc. As provas dos examesconsistiam na redação de trabalhos em prosa e verso sobre temas tirados dos livros clássicos. A complexidade da escrita chinesa muito contribuiu para dificultar o ensino. Os caracteresgráficos da linguagem chinesa representam idéias e não sons. É uma escrita ideográfica e não fonéticacomo o ocidental. Os caracteres arcaicos só eram ensinados aos letrados, os símbolos ideográficosatingem o número de 25.000.
  31. 31. 31 A Gramática chinesa é de difícil aprendizagem, pois, os verbos não possuem tempo, voz emodo e os substantivos não têm gênero, número ou caso. A significação das palavras depende do tomda voz e da sua posição na frase. Há na escrita chinesa 6 tipos de caligrafia: o ornamental, o oficial, oliterário, o manual comum, o corrente e o angular. O uso de estilo literário só pode ser aprendido depoisde longos anos de rígida e mecânica imitação dos modelos clássicos. A Literatura chinesa é rica evariada sendo constituída de obras históricas, filosóficas, teatrais, poéticas, contos e romances. A educação chinesa deve ser estudada principalmente pelos ensinamentos negativos queoferece. Tudo o que é condenável em matéria de ensino foi cultivado pelos chineses: abuso excessivoda memória, desprezo pela formação da inteligência e do caráter, desinteresse pelas necessidadesreais da vida, passividade do educando. A China foi o país do Antigo Oriente que possui maior númerode escolas. Isso não impediu que a sua civilização se cristalizasse em formas rígidas e mumificadas. Oque nos mostra que o problema educacional de um povo pode ser considerado do ponto de vistaquantitativo. De nada vale abrirem-se muitas escolas, sem que as mesmas se encontrem preparadaspara o exercício integral da função educativa. O progresso educacional de um povo não resulta donúmero de suas escolas, mas sim do valor intelectual e moral dos seus mestres. A partir do século XX, a educação tradicionalista da China começou a sofrer a influência dasidéia educativas do Japão e do Ocidente, iniciada pelas missões cristãs. Em 1911, já se encontrava oensino chinês completamente transformado, com grande número de escolas do tipo ocidental ondelecionavam professores estrangeiros contratados. Ao mesmo tempo, milhares de estudantes chinesesseguiam para a França, Alemanha, Estados Unidos e Japão, a fim de aperfeiçoarem seus estudos. 1.4 A Educação Egípcia Um dos traços marcantes da cultura egípcia foi o seu realismo. Esse aspecto se evidenciaquando analisamos o espírito e a organização da educação dos egípcios. Como todos os sistemaspedagógicos orientais, a educação egípcia visou à transmissão às novas gerações de uma tradiçãorevelada, de um tesouro cultural, considerado como de origem divina. A formação religiosa e espiritual representou um dos objetivos primaciais da educação egípcia. A sociedade egípcia era dividida em numerosas classes, ainda que sem a fixidez e aimpenetrabilidade das castas hindus: sacerdotes, guerreiros, escribas, comerciantes, operários,camponeses. A classe sacerdotal era a mais elevada e tinha a seu cargo a direção intelectual, moral ereligiosa da nação, como “detentora que era das tradições, da literatura, da filosofia, das ciências,consideradas como patrimônio sagrado e inalienável, de que só a pessoas reais podiam de certo modocompartilhar”. Sucedia à casta sacerdotal, a classe guerreira, embora grande parte fosse constituída deestrangeiros mercenários. Os escribas eram letrados que tinham estudado e sabiam ler, escrever ecalcular. Desempenhavam cargos públicos, eram sustentados pelos faraós, recebiam doações deterras e gozavam de certos privilégios à maneira dos mandarins chineses. A mulher egípcia ocupava uma situação social superior à da mulher chinesa e hindu, embora apoligamia fosse praticada em todas as classes, com exceção da sacerdotal. Era considerada senhorado lar, possuía alguma educação e tinha papel saliente na formação das novas gerações. As criançaseram cercadas de todos os cuidados pela família e envolvidas numa atmosfera de carinho e de amor.Dado o espírito religioso da sociedade egípcia, eram habituadas à prática da piedade e da obediência.Para se tornarem sadias e resistentes de corpo e espírito, eram submetidas a um regime de vidasimples e sóbrio.

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