Gêneros textuais e ensino de língua materna
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  • 1. GÊNEROS TEXTUAIS E ENSINO DE LÍNGUA MATERNA Faraco (2000) afirma que podemos encontrar em Bakhtin os pressupostosnecessários para o ensino de Língua Portuguesa nas escolas, também porque esse autoratribui um novo enfoque para a relação homem/linguagem/sociedade, enfim entender amudança de concepção de linguagem que seja voltado para o fenômeno de interlocuçãoviva. “A língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta”(BAKHTIN, 1986), ou seja, a linguagem é como um intercâmbio entre os sujeitoshistoricamente estabelecidos. Entendemos, a partir de Bakhtin, que a linguagem deveser entendida como um produto de interação do sujeito com o mundo e com os outros. A concepção de linguagem de Bakhtin fundamenta uma proposta lingüísticapedagógica interacional, portanto, dá um suporte inicial necessário para uma mudançaqualitativa no ensino tradicional da língua. A língua é viva, produzida historicamente, e ao mesmo tempo, produtora dahistória humana. Para Bakhtin, a língua materializa-se nas diversas enunciações, emdiferentes situações sociais, através dos gêneros discursivos. O “querer dizer do locutorse realiza acima de tudo na escolha de um gênero discursivo”. (BAKHTIN, 1992,p.301). O ensino de diversos gêneros que socialmente circulam entre nós, além deampliar sobremaneira a competência lingüística e discursiva dos alunos, apontainúmeras formas concretas de participação social. Um processo de ensino-aprendizagem que priorize o trabalho com os diferentesgêneros do discurso, prepara o aluno para as diferentes práticas lingüísticas, e tambémamplia sua compreensão da realidade, apontando-lhe formas concretas de participaçãosocial como cidadão. Quando um aluno aprende a produzir, por exemplo, uma carta do leitor para serenviada a um jornal ou revista, toma consciência de que pode como cidadão, manifestarseus pontos de vista, opinar e interferir nos acontecimentos do mundo concreto. A escola deve trabalhar com os mais diversos gêneros que circulam socialmentecomo, por exemplo, no jornalismo: a notícia, o editorial, a reportagem, o artigo deopinião, a carta do leitor, etc., para que os alunos sejam preparados para as situações deinteração existentes na sociedade em que vivem e, assim possam agir de forma crítica econsciente em relação a assuntos e situações do dia-a-dia. Os gêneros devem serperiodicamente retomados e seu estudo aprofundado e ampliado, de acordo com a série,
  • 2. com o grau de maturidade dos alunos, com suas habilidades lingüísticas e com a áreatemática de seu interesse. Segundo Faraco e Castro (2000), o professor deve incentivar o aluno a refletirsobre as diferenças existentes entre os gêneros, assim como o papel desses no processosocial de interação verbal a que ele poderá ser exposto, fora do ambiente escolar. É possível que até algum aluno, ao se apropriar dos procedimentos queenvolvem a produção de crônica, não apresente tanta habilidade quanto outro aluno,mas ele poderá, por exemplo, produzir textos publicitários muito criativos ou ser umótimo argumentador em debates públicos em textos argumentativos escritos. Por isso,em relação à avaliação das produções textuais dos gêneros, devemos abandonar oscritérios quase exclusivamente literários ou gramaticais e deslocar seu foco para outroponto: o bom texto não é aquele que apresenta, ou só apresenta características literárias,mas aquele que é adequado à situação comunicacional para tanto, aspectos como aadequação ao conteúdo, da estrutura e da linguagem como um todo e o cumprimento dafinalidade que motivou a produção. Bezerra (2005) afirma que em qualquer contexto social ou cultural que envolva aleitura e /ou escrita é um evento de letramento, o que implica a existência de inúmerosgêneros textuais, culturalmente determinados, de acordo com as diferentes instituições eusados em situações comunicativas reais. Os estudos sobre letramento investigam aspráticas sociais que envolvem a escrita, seus usos, funções e efeitos sobre o indivíduo ea sociedade como um todo. Rossi (2003) afirma que a produção escrita implica em atividades de leitura paraque os alunos se apropriem das características dos gêneros que produzirão. Por isso, aautora sugere que antes de iniciar um trabalho pedagógico de produção escrita degêneros o professor deve propor aos alunos um trabalho didático de leitura, para ocorrera apropriação do gênero a ser produzido. Marcuschi (2005) relata que a escrita é usada em contextos sociais básicos davida cotidiana, como por exemplo, o trabalho, a escola, o dia-a-dia, a família, a vidaburocrática, atividade intelectual, em paralelo direto com a oralidade. Em cada umdesses contextos, as ênfases e os objetivos da escrita são variados e diversos, fazendosurgir gêneros textuais e formas comunicativas. O ensino de língua deve oferecer incentivos e meios para que os alunos leiam,desenvolvam a competência de compreender e produzir textos nas mais diversas
  • 3. situações de interação. Enfim, o texto é produto de uma determinada visão de mundo,de uma integração, de um momento de produção histórica e socialmente marcado. A leitura da literatura de ficção de não-ficção, de jornais, revistas, enfim devários gêneros que circulam na sociedade é uma forma de oferecer condições para queos alunos ampliem seus conhecimentos e assim possam desenvolver o raciocínio, osenso crítico, a compreensão do real, a curiosidade intelectual, que são essenciais para aconstituição de uma sociedade mais politizada. A partir destas reflexões, o que se pretende é que o ensino de língua materna setorne mais concreto, que o espaço de sala de aula seja um ambiente de interlocução vivaentre alunos e professores.Em vista estas considerações, escolhemos para aprofundamento, neste artigo, dentre osmuitos gêneros textuais existentes em nossa sociedade, o gênero cartas do leitor.CARTAS DO LEITOR Bezerra (2005) afirma que o gênero cartas do leitor são uma espécie desubgênero carta. Isto porque as cartas têm em comum a estrutura básica, (como porexemplo, o núcleo da carta). No entanto, as cartas são variadas em suas formas derealização, em seus objetivos, intenções, propósitos (carta pedido, carta resposta, cartapessoal, carta ao leitor...). As cartas do leitor diferenciam-se um pouco das cartas tradicionais porabordarem diretamente o assunto a ser discutido, por serem curtas e não apresentarem assaudações (prezado senhor, querido amigo), nem as despedidas tradicionais (um grandeabraço). Nos jornais e revistas, há um espaço próprio destinado para que as cartas dosleitores sejam publicadas. Quando uma carta é enviada para a publicação, o leitorprecisa identificar-se colocando nome completo, o nº. de identidade e endereço e éresponsabilizado pelo que escreve. Nem todas as cartas são publicadas, pois passam poruma seleção e podem ser resumidas ou parafraseadas. Cada jornal ou revista seguecritérios próprios de publicação. O propósito comunicativo de uma revista ou jornal pode variar. Os temas podemser diferentes, assim como um mesmo assunto pode ser abordado de formas variadas.Cada um tem um público alvo (homem, mulher, jovem, criança). Estes fatoresinfluenciam os leitores frente às reportagens, notícias, em outras pedem conselhos,
  • 4. orientações, sobre assuntos relacionados à adolescência: gravidez e relacionamentospessoais.A publicação das cartas segue normas, que variam de acordo com cada revista ou jornal,como por exemplo, as que são enviadas à Revista Veja devem trazer assinatura, oendereço, o número da identidade e o telefone do autor. A seleção das cartas parte dealguns critérios como clareza, conteúdo, que são adotados pela direção da revista.Também, não há espaço para a publicação de todas as cartas recebidas. Assim, são lidas,analisadas e somente publicadas as selecionadas pelo editor da seção Cartas e peladireção da Veja. Além disso, os objetivos das revistas ou jornais devem ser observados. Não seescreve para uma revista de informação como a Veja da mesma forma que se escrevepara a revista Capricho, como podemos verificar nas seguintes cartas publicadas emjulho de 2008: Galeraa, Capricho, eu gostariaa de pedir novamente que vocês façam uma matéria sobre a luta livre (WWE). Sou fanática e gostaria de saber mais, muito mais desse esporte. Obrigadaa, Bzo Laizinha Hardy Laizinha Hardy Campinas-SPFÁBULAS As fábulas pertencem ao grupo de histórias criadas pela tradição oral,juntamente com os contos de fadas, as lendas e os mitos. Elas são um tipo de narrativaque se caracterizam pela estrutura simples, são pequenas histórias que têm a intenção detransmitir “lição de moral”, ou seja, refletir sobre concepções de viver. Esta moral dafábula não constitui uma conclusão definitiva. Portanto a moral pode variar de acordocom quem lê a história. A origem da fábula é oriental e muitas foram encontradas no Egito antigo e naÍndia, mas ficaram conhecidas no Ocidente graças, principalmente, a fontes gregas, emespecial a de Esopo, escravo grego que teria vivido no século V a.C. Esopo criavahistórias baseadas em animais para mostrar como devemos agir com sabedoria. Suasfábulas foram reescritas em versos por Fedro, escravo romano, e no século XVII d.C.por Jean de La Fontaine, um poeta francês. La Fontaine criava suas histórias com umúnico objetivo: tornar os animais os principais agentes da educação dos homens. Para
  • 5. isso, os animais foram colocados em situações que serviam de exemplos para todos, ouseja, tornaram-se símbolos. No Brasil, o grande responsável por reavivar as antigas fábulas foi MonteiroLobato, que ao final de suas narrativas oportuniza às crianças opinarem sobre apossibilidade de alteração da história ou da moral sugerida, e criticarem as atitudes queconsideram errôneas e moralistas ou seja, embora mantenha a idéia de que a fábulatenha uma moral, Lobato sugere que o leitor deva tirar sua própria conclusão.ESTRUTURA DA FÁBULA• Histórias curtas: há um só conflito, isso resulta numa narrativa resumida;• Diálogo: no que se refere à linguagem, a fábula é objetiva gerando poucas descrições emuitos diálogos;• Personagens: os animais são usados como personagens que representam virtudes,defeitos e características dos seres humanos. São utilizados de forma simbólica paracriticar ou exaltar esses comportamentos;• Moral: a moral escrita no final da fábula reproduz um provérbio, um dito popular,cujos temas principais são lealdade, generosidade e as virtudes do trabalho.A CABRA E O ASNO Uma cabra e um asno comiam ao mesmo tempo no estábulo. A cabra começou ainvejar o asno porque acreditava que ele estava melhor alimentado, e lhe disse: - Tua vida é um tormento inacabável. Finge um ataque e deixa-te cair num fossopara que te dêem umas férias. Aceitou o asno o conselho, e deixando-se cair, machucou todo o corpo. Vendo-o o amo, chamou o veterinário e lhe pediu um remédio para o pobre.Prescreveu o curandeiro que necessitava uma infusão com o pulmão de uma cabra, poisera muito eficiente para devolver o vigor. Para isso então degolaram a cabra e assimcuraram o asno.Moral da História:Em todo plano de maldade, a vítima principal sempre é seu próprio criadorEsopoA CERVA NA GRUTA DO LEÃO
  • 6. Uma cerva que fugia de uns caçadores, chegou a uma gruta onde não sabia quemorava o leão. Entrando nela para se esconder, caiu nas garras do leão. Vendo-se semremédio, perdida, exclamou: - Infeliz de mim! Fugindo dos homens, caí nas garras de um feroz animal.Moral da História:Se tratas de sair de um problema, busca uma saída que não seja cair em outro.EsopoA CERVA TORTA Uma cerva a qual faltava um olho, passeava à beira-mar, voltando seu olhointacto em direção à terra para observar a possível chegada de caçadores, e dando aomar o lado que faltava o olho, pois dali não esperava nenhum perigo. Mas resultou queuma gente navegava por este lugar, e ao ver a cerva, abateram-na com seus dardos. E acerva agonizando, disse para si: - Pobre de mim! Vigiava a terra, que acreditava cheia de perigos, e o mar, queconsiderava um refúgio, me foi muito mais funesto.Moral da História:Nunca excedas a valoração das coisas. Procura ver sempre suas vantagens.EsopoA FORMIGA Diz uma lenda que a formiga atual era em outros tempos um homem que,consagrado aos trabalhos de agricultura, não se contentava com o produto de seupróprio esforço, senão que olhava com inveja o produto alheio e roubava os frutos deseus vizinhos.Indignado Zeus pela avareza deste homem, transformou-o em formiga. Porém ainda que tenha mudado de forma, não mudou seu caráter, pois até hojepercorre os campos e recolhe o trigo e a cevada alheios e os guarda para seu uso.Moral da História:Ainda que aos malvados se lhes castigue severamente, dificilmente mudarão suanatureza.EsopoA FORMIGA E A POMBA
  • 7. Uma formiga foi à margem do rio para beber água, e, sendo arrastada pela fortecorrenteza, estava prestes a se afogar. Uma pomba que estava numa árvore sobre a água, arrancou uma folha, e adeixou cair na correnteza perto dela. A formiga, subiu na folha, e flutuou em segurançaaté a margem. Pouco tempo depois, um caçador de pássaros, veio por baixo da árvore, e sepreparava para colocar varas com visgo perto da pomba que repousava nos galhosalheia ao perigo. A formiga, percebendo sua intenção, deu-lhe uma ferroada no pé. Elerepentinamente deixou cair sua armadilha, e isso deu chance para que a pomba voassepara longe a salvo.Moral da História:O grato de coração sempre encontrará oportunidades para mostrar sua gratidão.----------------------------------------------------------------------------------------------------------Como sugestão de tema para carta de reclamação, vejam essa proposta da UFES(Universidade Federal do Espírito Santo). Se desejarem, enviem suas cartas para mimque eu terei prazer em corrigi-las e comentá-las.O brasileiro tem feito inúmeras reclamações relacionadas à prestação de serviços,tanto públicos como privados. Redija uma carta ao departamento de vendas de umaempresa de plano de saúde ou de telefonia, apresentando seu pedido de desligamentoem decorrência de sua insatisfação com os serviços prestados.Sugestões:1. Procure detalhar com objetividade e precisão quais foram os eventos que geraram suainsatisfação com os serviços prestados (convenhamos: não é preciso muita imaginaçãopara pensar em, pelo menos, meia dúzia de possibilidades); portanto, evite fazer alusõesgenéricas sobre a incompetência, por exemplo, da empresa prestadora de serviços;2. O pedido de desligamento precisa ser acompanhado de um tom firme, mas educado.Não é xingando o responsável pelo setor de vendas que você irá justificar seu pedido,certo?3. A interlocução e a criação das imagens de emissor e receptor também fazem parte daconstrução desse tipo de carta. Você pode, por exemplo, chamar a atenção do receptor
  • 8. (interlocutor) sobre sua frustração em relação à empresa, pois esperava, por seu renome,que ela oferecesse serviços de melhor qualidade.CARTA DE RECLAMAÇÃOÀ:Nome da EmpresaNo que diz respeito ao pedido nº (informar), realizado em (informar a data), venhomanifestar meu descontentamento, pois a entrega estava prevista para, no máximo, até odia (informar).Ou seja, já se passaram (xxx) dias no prazo limite de entrega e até o momento nãorecebi as mercadorias adquiridas ou qualquer explicação consistente sobre o ocorrido.Dessa forma, caso o pedido não seja entregue até o dia (informar), a compra deve serconsiderada cancelada, ficando, desde já, solicitada a restituição dos valores pagos.ou utilizar o parágrafo abaixoDessa forma, venho solicitar o cancelamento imediato do pedido, pois já desisti dacompra em função do descumprimento do prazo de entrega, de modo que requeiro arestituição dos valores pagos.Aguardo resposta.A PRODUÇÃO DE CARTAS DE RECLAMAÇÃO: SEMELHANÇAS ENTRETEXTOS DE ADULTOS E CRIANÇASSILVA, Leila Nascimento da∗ – UFPEGT-10: Alfabetização, Leitura e EscritaAgência Financiadora: CAPES De acordo com os estudos realizados por Schneuwly e Dolz (2004), o gênerotextual “carta de reclamação” estaria dentro da ordem do argumentar, uma vez que omesmo apresenta uma predominância de seqüências tipológicas argumentativas. Estes
  • 9. textos teriam como função primordial convencer o leitor de algo. São exemplos, ascartas ao leitor, os textos de opinião, as resenhas críticas e as dissertações. No texto predominantemente argumentativo, a presença de um diálogo émarcante, visto que a relação escritor/leitor é muito próxima e dependente. Para lançarmão de um argumento, se faz necessário refletir sobre o que os possíveis interlocutorespodem pensar a respeito da situação de produção e do texto criado. Essa habilidade delidar com diferentes leitores só pode ser adquirida pelas crianças no ato das produçõesorais e escritas, em situações semelhantes às que acontecem fora da escola. Além desse pensar sobre o destinatário do texto a ser escrito, uma questãoprimeira emerge: a relevância do ato de argumentar naquela determinada situação. Paraque haja a necessidade de argumentar é preciso que exista um assunto que dê margens aum debate, proposições que justifiquem e/ou refutem a declaração, enfim, alguémapresentando resistências. Apesar dessa predominância argumentativa, pode-se lançar mão, em seu corpo,de outras seqüências tipológicas, o que faria a carta de reclamação ser chamada de textoheterogêneo (Bronckart, 1999). No levantamento bibliográfico, fomos à procura de materiais que trouxesseminformações mais específicas sobre esse gênero. No entanto, detectamos uma escassezde publicações, apenas uma foi encontrada (Wilson, 2001). Foi possível encontrarmosum número maior de estudos sobre outros subgêneros da carta, como carta de pedido deconselho (Cristóvão, Durão, Nascimento e Santos, 2006) e carta à redação (Melo,1999). Então, diante dessa constatação, buscaremos apresentar não só de Wilson, mastambém o estudo de Melo que trás contribuições para um melhor entendimento doreferido gênero textual. A pesquisa de Wilson (2001) teve como objetivo maior refletir sobre aproblemática que envolve a categorização dos gêneros do discurso, especialmente, noque diz respeito ao gênero textual carta. Em particular se deteve na carta de reclamaçãoe algumas questões se fizeram presentes: Como distinguir tipologicamente uma carta dereclamação de uma carta pessoal ou de um pedido se não forem estabelecidosparâmetros flexíveis? Como enquadrar cartas de reclamação em que são empregadasdiferentes estruturas discursivas? O corpus de análise foi de cartas de reclamação escritas por proprietários deimóveis residenciais de classe média e média alta de um importante centro urbano do
  • 10. país, dirigidas a uma empresa do ramo da construção civil. Nestas cartas era observada,especificamente, a dimensão afetiva e como esses reclamantes atuam diante de umasituação de confronto. Para uma abordagem mais completa, as cartas de reclamação foram interpretadasem sua natureza tipológica, atentando, assim, para aspectos importantes de suaconstituição.Um deles é o nível das estruturas discursivas e dos recursos lingüísticos típicos de cadanível. Foi constatado, entre outras coisas, que ao expor um problema referente a umdano material, o reclamante lança mão da estrutura narrativa para relatar o problema ouda estrutura descritiva para informar minuciosamente o tipo de dano material ocorrido.Wilson salienta, no entanto, que o emprego de tais estruturas concorre para dar aimpressão de que a função referencial ocupa o plano principal, quando, na verdade, ofoco, o conteúdo informacional dessas cartas é uma reclamação. A reclamação, por sua vez, como ato e objeto, traduz uma informação queenvolve a expressão de um estado psicológico, em geral de insatisfação. Por isso, não hácomo não se referir à função expressiva que nelas aparece, nem deixar de chamar aatenção para o fato de que estruturas expressivas se superpõem ou se entrecruzam àsestruturas narrativa e descritiva e também às expositivo-argumentativas. Na verdade, aautora do estudo quer ressaltar que a afetividade também está presente na carta dereclamação e deve ser objeto de investigação. A partir dessa observação, uma outra conclusão foi tirada: a certeza de que paracompreender a reclamação se faz necessário um rastreamento das suas condições deprodução, uma vez que o querer-dizer do locutor se realiza acima de tudo na escolha deum gênero do discurso que, por sua vez, apresenta uma relação imediata com arealidade existente, além de ser constituído como uma resposta a enunciados anterioresdentro de uma dada esfera comunicativa e social. Ou seja, não é possível, ao analisarcartas de reclamação, se prender apenas ao material lingüístico, exposto como resultadofinal. As decisões que tomamos na hora da escrita (Uso uma linguagem mais formal?Qual palavra é a mais apropriada neste caso? Como denuncio sem ser grosseira?)dependem da nossa intenção com aquele texto, das nossas condições de produção . Tudo isso pôde ser visto nas cartas. Wilson, por exemplo, percebeu que emmuitas delas o escritor utiliza o pedido como força ilocucionária para atenuar o grau deofensa latente na reclamação. Desta forma, evitando afirmativa do tipo “venho aqui para
  • 11. fazer uma reclamação”, o autor da carta acaba empregando mais freqüentemente aforma verbal “solicitar” ou o seu correlato “pedir”. Isso demonstra que selecionamos aspalavras segundo as especificidades do gênero e, sobretudo, pela nossa intenção. Em seu corpus, a estudiosa também observou uma composição mista em funçãodo significado afetivo construído na interação cliente/empresa. Ou seja, foi possívelencontrar cartas de reclamação que ora foram escritas de forma não-ofensiva, buscandonão romper definitivamente com os laços de camaradagem e reciprocidade (afetopositivo) e ora foram produzidas em tom de ameaça velada em virtude de atitudevitimizada para envolver (negativamente) o reclamado, colocando-o na condição deculpado. Wilson chama a atenção para esse jogo distanciamento/alinhamento afetivo. Poisele faz emergir um sentimento de ambivalência, produzindo um efeito misto: uma cartade cunho pessoal em que o locutor age às vezes como pessoa e outras vezes comoconsumidor, misturando as relações formais às mais informais. Como resultado disso,os (as) reclamantes acabam empregando em seus textos modos de organização maisfixos e padronizados em meio a outras formas socialmente pouco recomendáveis ouaprovadas em contextos de natureza semi-institucional. Embora algumas cartas apresentem organizações não recomendáveis, estas nãodeixam de ser cartas de reclamação. Apesar da existência de formas padronizadas etípicas já disponíveis, a constituição dos gêneros de discurso vão se ajustando às novas ediferentes realidades. Ratificamos, portanto, o posicionamento de Wilson: não há comoestudar tal gênero sem essa flexibilidade e sem uma análise das condições de produção,pois são elas que podem nos ajudar a entender o porquê de tal reclamação e porque talforma de escrita foi escolhida. Outro estudo que traz importantes descobertas, embora não tenha o gênero“carta de reclamação” como objeto de análise especificamente, é a pesquisa de Melo(1999) sobre carta à redação. A pesquisadora, assim como Wilson, levanta umadiscussão sobre o discurso pessoal e impessoal nas cartas. Ela analisou 293 cartaspublicadas nos jornais O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, O Globo e Jornal doBrasil, que traziam comentários sobre as seguintes reportagens: a greve dos petroleiros(esfera pública), a agressão à imagem de Nossa Senhora Aparecida pelo bispo SérgioVon Helde e sobre a possível homossexualidade de Zumbi dos Palmares (ambas daesfera privada).
  • 12. A hipótese levantada neste estudo é a de que cada tipo de discurso apresentamarcas textuais próprias, ou seja, discursos que abordam temas de caráter público têmcaracterísticas "x", diferenciando-se de discursos que abordam temas de caráter privadoque, por sua vez, têm características textuais "y". Melo, então, buscou verificar se issorealmente ocorre e como as características se materializam nas cartas. Em seus resultados, a estudiosa pôde ver sua hipótese comprovada. Percebeuque, de fato, quando se trata de assuntos da esfera privada, não se convence o outroexclusivamente através da argumentação lógica: (...) o debate não se centra na objetividade dos argumentos, não importa se aorigem do debate é objetiva ou racional; busca-se, isto sim, a simpatia, a boa vontade dointerlocutor. Assim, com relação aos temas religiosidade e sexualidade, as opções dossujeitos não são consideradas mutáveis com base em argumentos: ou é fé ou épreferência (pp. 39). As pessoas que escreveram sobre “homossexualidade de Zumbi” e “chute nasanta” parecem supor não poder mudar a opinião do outro. Diante disso, investem bemmais em marcar sua própria posição. O resultado dessa posição é o uso freqüente doemprego de pronomes e verbos em primeira pessoa para marcar a subjetividade nodiscurso. Já com relação aos temas da esfera pública, constatou-se que os escritores dascartas buscavam, sim, a adesão do outro à sua causa. Supostamente, com argumentosobjetivos. Para conseguir este efeito de persuasão, usaram uma estratégia argumentativaque imaginavam eficaz, cujo efeito é de "objetividade": imprimiram ao texto um tomimpessoal, esconderam-se atrás de uma suposta voz coletiva, dissimulando o caráterautoritário/pessoal do seu discurso, utilizando-se para isso de expressões como: "fala-se", "comenta-se", "todos dizem que", etc. (Melo, pp. 39) Como se pode perceber háestruturas discursivas diferenciadas quando se trata de assuntos da esfera pública eprivada nas cartas. Acreditamos que esse mesmo movimento discursivo ocorra emcartas de reclamação propriamente. Possivelmente, as que envolvem temáticas da esferapública apresentem características textuais distintas das cartas relacionadas à esferaprivada. No caso do nosso estudo, o tema da produção foi da esfera pública (reclamaçõessobre a escola na qual se estuda), de modo geral, buscamos investigar se os textos dosnossos alunos são semelhantes às cartas de reclamação de circulação social efetiva, ou
  • 13. seja, averiguar se a estrutura e estratégias usuais das cartas de circulação sãoencontradas nas cartas das crianças. Mais especificamente, era nossa intenção identificaros componentes e modelos textuais mais encontrados em Cartas de Reclamação escritaspor adultos fora da escola. Em seguida, verificar se tais componentes também estavampresentes nas cartas das crianças; e por fim, identificar se os modelos textuais maisadotados pelos adultos também foram os mais adotados pelas crianças.METODOLOGIA Participaram da pesquisa alunos de seis turmas (duas turmas de 2ª séries, duas de4ª e duas de 6ª) que estudam na Rede Pública de Ensino. De cada série selecionamosapenas 20 textos, totalizando, assim, 60 cartas. Excluímos da amostra todos os textosnão atenderam ao comando da atividade solicitada ou foram escritos de forma nãoconvencional e ilegível. Mesmo com tais critérios tivemos um número maior de textos,então, optamos ainda por realizar um sorteio. As cartas coletadas foram escritas ao final de uma seqüência de atividades queexplorava o gênero “Carta de Reclamação”. A intenção com tais momentos era a deativar os conhecimentos prévios das crianças e contribuir para construção derepresentações/conhecimentos sobre tal gêneros e também outros tipos de cartas. Primeiro aconteceu uma conversa com toda a turma sobre a escola e seusproblemas. Em seguida, os alunos leram e analisaram cartas variadas (carta de amor,carta de reclamação, carta à redação,). Criado o contexto de produção, os alunospartiram para conhecer melhor a carta de reclamação. Analisaram coletivamente e coma ajuda da professora uma carta de reclamação, depois analisaram outras cartas empequenos grupos. Após todo esse processo, foram convidados a produzirem uma carta dereclamação para o (a) diretor(a) da escola. Para traçar o paralelo com os textos das crianças, selecionamos 20 (vinte) cartasde reclamação de circulação social. Estes textos foram retirados de várias fontes(sindicatos, cartas publicadas em sites de denúncia, cartas escritas por pessoas de nossocirculo social).RESULTADOS
  • 14. As cartas de reclamação de circulação extra-escolar As observações feitas das cartas de reclamação de circulação social trouxeraminformações bastante relevantes sobre como, possivelmente, se caracterizaria tal gênero. Também nos ajudou a perceber como comumente é construída sua cadeiaargumentativa. Foi possível identificar sete componentes textuais que configurariam uma cartade reclamação. São eles: 1) indicação do objeto alvo de reclamação; 2) justificativa paraconvencimento de que o objeto pode ser (merece ser) alvo de reclamação 3) indicaçãode sugestões de providências a serem tomadas; 4) justificativa para convencimento deque a sugestão é adequada; 5) Indicação das causas do objeto alvo da reclamação; 6)Contraargumentação relativa ao objeto alvo de reclamação; 7) Contra-argumentaçãorelativa às sugestões. Nestas cartas de circulação, os componentes 1 (indicação do objeto alvo dereclamação) e 2 (justificativa da reclamação) foram os que mais apareceram. Estavampresentes em todos os 20 textos analisados. Desta forma, para reconhecermos que umacarta é uma carta de reclamação precisamos identificar a indicação do objeto alvo dadenúncia e o movimento de justificação da relevância de tal indicação. Em seguida, encontramos um amplo uso do componente 3, a indicação desugestões tendo em vista a resolução do problema, que teve 12 aparições (60%). Talcomponente esteve muito presente nos textos analisados, constituindo uma estratégia demostrar para a parte que está recebendo a queixa de que era possível resolver oproblema descrito (ex: “Reparar ou substituir o frigorífico no prazo de 10 dias”). O movimento de justificar a(s) sugestão(ões) dada(s) na tentativa de convencer oleitor da sua adequação e pertinência (componente 4) também foi utilizado em váriascartas - 8 das 20 cartas (40%). Do mesmo modo, encontramos em 8 cartas a tentativa deapontar e explicar as possíveis causas para o problema em foco ter acontecido -componente 5 - (ex: provável causa para o desgaste do calçamento - “(ele) suportadiariamente o peso dos ônibus e carros”). Outros movimentos, no entanto, tiveram baixa incidência. Foi o caso dacontraargumentação relativa ao objeto alvo de reclamação (componente 6) e dacontraargumentação relativa às sugestões (componente 7); ambas tiveram apenas 3aparições (15%).
  • 15. Essa baixa incidência, no entanto, não pode ser interpretada como indício de quetais componentes são irrelevantes. Eles são fundamentais em situações em que as partesenvolvidas já estejam em processo de negociação e não haja um consenso sobre quem éo culpado ou, então, em situações em que a parte que sofre a queixa queira adotar umprocedimento não interessante para o reclamante. Um exemplo de contra-argumentaçãorelativa ao objeto estava presente numa carta em que se reclamava de avarias sofridasnuma mala (“Os objetos que sofreram estragos são relativamente fáceis de seremsubstituídos” – “Porém o fato que desapontou foi a maneira relapsa com que o diretorfoi tratado quando reclamou verbalmente no balcão de informações da companhia”). Defendemos, portanto, que, dependendo do contexto, diferentes estratégias deconstrução da cadeia argumentativa podem ser encontradas. As análises das cartas decirculação social também nos mostraram que quanto maior for o uso desses diversoscomponentes, maiores são as chances de o texto ter uma cadeia argumentativaapropriada para as finalidades previstas. Mesmo com tais dados, reconhecemos que umacarta pode ser consistente sem ter todos esses componentes textuais, pois, conforme opróprio Bakthin (1997) coloca, os gêneros são relativamente flexíveis. Após essa análise dos componentes textuais presentes nas cartas extra-escolares,montamos categorias que nos permitiram enxergar melhor como estas cartas dereclamação se caracterizavam. Diferenciamos as cartas pela presença ou não doscomponentes. Tais categorias, portanto, se configuram como modelos textuais.Chegamos a encontrar 3 modelos adotados pelos escritores dos textos.Modelo 1 - Indica e argumenta a respeito do objeto da reclamaçãoNeste modelo percebemos um cuidado em defender a relevância do que está sendoreclamado, mas sem dar sugestões para a resolução do problema denunciado. Cerca de30% das cartas foram escritas assim.Exemplo: Eu, XX, sou Cliente desta empresa desde maio/2006. Foi instalado na minhamoto o rastreador da YY. Durante este curto período em que utilizei seus serviços foramfeitas manutenções no equipamento e a última manutenção feita foi no dia 11/11/06 as14:00 horas, pelo Técnico da empresa, Sr. ZZ. Ocorre, que poucas horas após a
  • 16. liberação do equipamento e minha moto pelo técnico da YY, fui roubado a mão armadae minha moto foi levada. Imediatamente liguei para vocês e pedi que fosse feito o rastreamento/bloqueiode minha nenhuma notícia me foi dada sobre o bloqueio e rastreamento da minha moto. A Empresa não efetuou o rastreamento nem o bloqueio. Até o momento vocês não me deram nenhum retorno sobre o ocorrido, falandosomente que não houve o rastreamento nem o bloqueio. Instalei o equipamentojustamente para me assegurar em caso de roubo, fui roubado e a empresa não cumpriusua função. Ora, a função da empresa é justamente rastrear e bloquear a minha moto. Fiz ocontrato com vocês por ser reconhecida no mercado, porém quando precisei o serviçonão foi efetuado. Paguei pelo serviço que não foi prestado e fiquei no prejuízo tanto damoto, como pelo serviço. Como vemos, o objeto alvo da reclamação foi o descumprimento pela empresade suas funções. O reclamante justifica a relevância de sua reclamação dizendo quecontratou a empresa, mas o serviço não foi feito.Modelo 2 - Indica e argumenta a respeito do objeto da reclamação, indica sugestõesAo contrário das cartas do grupo anterior, nestas, além de indicar e argumentar sobre oobjeto a ser reclamado há também uma indicação de providências a serem tomadas, masnão se argumenta em favor dessa sugestão. 25% das cartas foram escritas dentro destemodelo.Exemplo: Lamentamos informar que em vôo realizado por essa Companhia, no trechoMaceió/ São Paulo no dia 21/01/05, detectamos que a mala de viagem pertencente anosso Diretor-Presidente, Dr. YY sofreu sérias avarias, o que terminou por danificarpermanentemente alguns de seus mais estimados pertences. Estamos cientes de que osobjetos que sofreram estragos são relativamente fáceis de serem substituídos, porém, ofato que nos desapontou de maneira significativa foi a maneira relapsa com que nossoilustre Diretor foi tratado quando de sua reclamação verbal junto ao balcão deinformações da Companhia. E, sendo assim, informamos que entraremos com pedido de reembolso junto ao
  • 17. Departamento Financeiro de sua empresa para podermos recuperar, pelo menos,o prejuízo material, porque quesito confiança, a relação entre nossa empresa e a XXsofreu um considerável abalo. Vemos que o escritor reclama de objetos quebrados durante uma viagem etambém da forma como foi tratado o dono da mala ao reclamar. Argumenta que emboratais objetos sejam relativamente fáceis de serem substituídos, o caso mereça atenção esugere reembolso, mas sem argumentar a favor dessa sugestão.Modelo 3 - Indica e argumenta sobre o objeto de reclamação, indica e argumenta sobreas sugestões Foi o modelo mais adotado. Trata-se de cartas que não só indicam e argumentamem favor do objeto alvo da denúncia, como também apresentam sugestões eargumentam a seu favor. Cerca de 45% das cartas de reclamação de circulação socialanalisadas podem ser consideradas como pertencente a este grupo. Na carta abaixo, o autor reclama da não entrega de um colchão e de um fone deouvido. Inicialmente gostaria de deixar claro que o atendimento de vocês é precário.Estou desde dia 08/12/06 para receber um colchão que me foi entregue rasgado. Apósuma semana foi retirado apenas o BOX rasgado e depois de 10 dias fui avisado que nãohavia mais o produto para me atender. Para eu receber o crédito vocês enrolaram mais10 dias para retirar o colchão e me dar o crédito integral. Após isso fiz nova compra e estou esperando entregar até hoje. Coloquei o fonede ouvido na compra para completar o valor e vocês novamente não tem a mercadoriapara me entregar. Até quando vocês vão tratar os clientes dessa forma? Porque o fone deouvido continua disponível no site? Que site tabajara é esse? Quero uma solução para isso hoje, caso contrário vou entrar no PROCON comuma reclamação, afinal das contas está tudo pago e vocês que estão causandoproblemas. Estou de saco cheio. Não há um similar para o fone de ouvido, sendo assimconforme código do consumidor, vocês são obrigados a me oferecer um produto deigual ou superior qualidade.-------------------------------------------------------------------------------------------A técnica da notícia
  • 18. Dentre todos os gêneros jornalísticos, a notícia é o que mais usufrui da aura deimparcialidade que leva o leitor a aceitar, a priori, aquele relato dos fatos comoverdadeiro e isento. É principalmente em torno dela que foi construído o mito daobjetividade, responsável pela enorme acolhida e o potencial de convencimento que ojornalismo tem.Para gozar de uma aura de objetividade, para alimentar esse mito, o jornalismoestabeleceu uma espécie de acordo com o indivíduo e as coletividades, acordo esse quevem sustentando em grande parte a aceitação do jornalismo nas sociedadescontemporâneas. Sua parte no trato é produzir notícias sem distorções ou mentiras emrelação aos fatos concretos. Nomes, datas e eventos veiculados na notícia podem sercomprovados até mesmo pela comparação de diferentes jornais, pois todos trazem maisou menos as mesmas informações. Para Adriano Duarte Rodrigues, há um acordo tácito entre público e veículo: Lemos a notícia acreditando que os profissionais não irão transgredir esse“acordo de cavalheiros” entre jornalistas e leitores pelo respeito dessa fronteira quetorna possível a leitura de notícias enquanto índices do real.5 Por ser considerada a matéria-prima do jornalismo6 contemporâneo, a notícia éproduzida segundo técnicas específicas que foram adotadas, em seu conjunto, de formaquase unânime pela grande imprensa. Essas técnicas dizem respeito à apuração eseleção dos fatos, escolha do vocabulário, ordenação de informações, tratamento dasfontes etc. Mas o que é notícia? De forma simplista, pode-se dizer que é o anúncio de umfato novo, o anúncio da novidade. Nem mesmo para os jornalistas parece fácil a tarefade defini-la de modo mais satisfatório. Alguns autores tentaram explicá-la por seuconteúdo, mas a diversidade dos temas e enfoques em milhões de jornais do mundointeiro leva à conclusão de que qualquer fato novo, qualquer fenômeno recém-percebidopode virar notícia, desde que seja capaz de gerar interesse. Isso inclui não só eventosnaturalmente considerados como importantes por serem capazes de provocarconseqüências políticas e econômicas, a exemplo de uma decisão governamental, mastambém ocorrências banais, como uma briga de condôminos por causa da presença decachorros no edifício. Para Nilson Lage, a diferença entre a notícia e outros formatos de texto não estáno seu conteúdo ou na natureza das informações, mas na forma em que ela é redigida.Notícia, segundo ele7, é o fato redigido a partir do dado mais importante ou capaz de
  • 19. gerar maior interesse, seguindo- se as demais informações em ordem decrescente deimportância. Para Lage, notícia é qualquer informação redigida em forma de notícia, o queequivale a dizer, do mais para o menos importante. Em seu livro mais recente, Lage8 observa que a linguagem jornalística étransnacional: as técnicas básicas servem para redatores em diversos idiomas e culturas.Tanto nos jornais russos como nos norte-americanos, franceses e brasileiros, observa-sea ordenação dos fatos por sua importância, o uso da terceira pessoa9, preferência porverbos no pretérito perfeito10 e a exclusão de adjetivos11 que não sejam absolutamentenecessários, entre outras “regras”. Também é teoricamente consensual (embora não oseja na prática) que a notícia (salvo matérias especiais, assinadas, cuja apresentaçãográfica identifique aquela cobertura como excepcional) deve apresentar ao leitor umrelato objetivo e distante dos fatos, isento de avaliações pessoais ou julgamentos tantoexplícitos quanto implícitos. Na notícia, de acordo com a técnica predominante nagrande imprensa, só quem opina é a fonte e o texto precisa deixar bem claro de quem éa opinião, para que aquele juízo de valor não seja entendido pelo leitor como umainterferência indevida do repórter ou do veículo. Diz ainda a técnica que toda notícia polêmica tem dois lados e ambos precisamser ouvidos. Se alguém faz uma denúncia, a notícia tem que registrar também o que dizo acusado; se uma pessoa reclama é preciso dar voz também a quem seria o alvo daqueixa; se há uma greve, a notícia tem que incluir tanto a posição do sindicato quanto ada empresa. Caso um dos lados não queira se manifestar ou não tenha sido encontrado,essa informação tem que ser passada ao leitor a fim de certificar a isenção da matéria. A estas somam-se também técnicas específicas de apuração dos fatos, como aseleção de fontes segundo o grau de confiabilidade12, o cruzamento de informações13 eos limites técnicos e éticos para o uso de declarações em off 14, ou seja, sem que aidentidade da fonte seja revelada.----------------------------------------------------------------------------------------------------------A coletânea de textos a seguir aborda a temática O destino dos resíduos urbanosatualmente nas cidades. Tendo-a como apoio, redija os gêneros textuais solicitados. Lixo urbano Jairo Augusto Nogueira Pinheiro Desde o surgimento dos primeiros centros urbanos, a produção de lixo seapresenta como um problema de difícil solução. A partir da Revolução Industrial, com a
  • 20. intensificação da migração dos trabalhadores do campo para a cidade, aumentaram asdificuldades referentes à produção de resíduos sólidos de diferentes naturezas(domésticos, industriais, serviços de saúde, etc.). (...) Os excedentes vão se acumulando cada vez em maior escala, colocando aquestão do lixo urbano como uma das mais sérias a ser enfrentada atualmente. Com aelevação da população e, principalmente, com o estímulo dado ao consumismo, oproblema tende a se agravar. (...) A grande preocupação em torno do destino do lixo se dá principalmente em faceda sua característica de inesgotabilidade, comprometimento de grandes áreas e pela suacomplexidade estrutural, devido à grande variedade de materiais, desde substânciasinertes a substâncias altamente tóxicas. A heterogeneidade é uma das característicasprincipais dos resíduos sólidos urbanos, que apresentam uma composição qualitativa equantitativa muito variada. Essas variações ocorrem geralmente em função do nível devida e educação da população, do clima, dos modos de consumo, das mudançastecnológicas, etc. (...) A partir da Revolução Industrial, as fábricas começaram a produzir objetos deconsumo em larga escala e a introduzir novas embalagens no mercado, aumentandoconsideravelmente o volume e a diversidade de resíduos gerados nas áreas urbanas. Ohomem passou a viver então a era dos descartáveis, em que a maior parte dos produtos –desde guardanapos de papel e latas de refrigerante, até computadores – são utilizados ejogados fora com enorme rapidez. Ao mesmo tempo, o crescimento acelerado dasmetrópoles fez com que as áreas disponíveis para colocar o lixo se tornassem escassas.A sujeira acumulada no ambiente aumentou a poluição do solo e das águas e piorou ascondições de saúde das populações em todo o mundo, especialmente nas regiões menosdesenvolvidas. Até hoje, no Brasil, a maior parte dos resíduos recolhidos nos centros urbanos ésimplesmente jogada sem qualquer cuidado em depósitos existentes nas periferias dascidades. O lixo urbano é, portanto, um dos maiores problemas da atualidade, pois osmoldes de consumo adotados pela maioria das sociedades modernas estão provocandoum aumento contínuo e exagerado na quantidade de lixo produzido.
  • 21. (Texto adaptado de http://www.webartigos.com/articles/10684/1/Lixo-Urbano/pagina1.html)Destinação correta dos resíduos sólidos urbanos requer inicialmente investimentosda ordem de R$ 1,3 bilhãoMônica Pinto O Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil é um estudo realizado pelaAssociação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais – Abrelpe– desde 2003. Em sua segunda edição, com dados referentes ao ano de 2004, ele mostraque a questão do lixo no país demanda não só vontade política para fazer andarem osprojetos, para levar ao povo procedimentos de asseio basilares. Mais que isso, todo esse processo requer investimentos vultuosos, da ordem deR$ 1,3 bilhão na fase pré-operacional e R$ 80 milhões/mês na fase operacional. (...) O Brasil tem hoje 237 cidades, em todas as regiões, com coleta seletiva de lixo.Parece pouco diante do universo de 5.560 sob a bandeira verde-amarela, mas a curva éascendente e os números otimistas. Ainda mais se observados os estímulos àreciclagem, que invariavelmente caminham junto com a coleta seletiva. Os dados maissignificativos quanto à reciclagem podem ser sintetizados a seguir:• a taxa de recuperação de papéis recicláveis evoluiu de 30,7%, em 1980, para 43,9%,em 2002;• a reciclagem de plásticos pós-consumo é da ordem de 17,5, sendo que, na Grande SãoPaulo, o índice é de 15,8% e, no Rio Grande do Sul, é da ordem de 27,6%;• a reciclagem de embalagens PET cresceu de 16,25%, em 1994, para 35%, em 2002;• a reciclagem das embalagens de vidro cresceu de 42% para 45% entre 2001 e 2003;• o índice de reciclagem de latas de aço para bebidas evolui de 43%, em 2001, para75%, em 2003.Você sabe a diferença entre lixão, aterro controlado e aterro sanitário? Um lixão é uma área de disposição final de resíduos sólidos sem nenhumapreparação anterior do solo. Não tem sistema de tratamento de fluentes líquidos – ochorume (líquido preto que escorre do lixo). Este penetra pela terra levando substâncias
  • 22. contaminantes para o solo e para o lençol freático. (...) No lixão, o lixo fica exposto semnenhum procedimento que evite as consequências ambientais e sociais negativas. Já o aterro controlado (...) é uma célula adjacente ao lixão (...) que recebeucobertura de argila, grama (idealmente selado com manta impermeável para proteger apilha de água de chuva), captação de chorume e gás. (...) Tem também recirculação dochorume que é coletado e levado para cima da pilha do lixo, diminuindo a sua absorçãopela terra ou eventualmente outro tipo de tratamento. (...) Aterro sanitário (...) tem o terreno preparado previamente com o nivelamentode terra e com o selamento da base com argila e mantas de PVC extremamenteresistente. Com essa impermeabilização do solo, o lençol freático não será contaminadopelo chorume. (...) A operação do aterro sanitário, assim como a do aterro controlado, prevê acobertura diária do lixo, não ocorrendo a proliferação de vetores, mau cheiro e poluiçãovisual.(Texto adaptado de http://www.lixo.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=144&Itemid=251)GÊNERO TEXTUAL 1Redija uma notícia, com até 15 linhas, aos leitores do Jornal da Cidade, apresentandoinformações sobre o destino dos resíduos urbanos nas cidades brasileiras.GÊNERO TEXTUAL 2
  • 23. Redija, em 15 linhas, uma resposta interpretativa, que indique quais são as formas detratamento dos resíduos urbanos no Brasil, definindo aquela(s) que melhor atenda(m) ascidades atualmenteOs textos desta prova abordam assuntos que dizem respeito à nossa vida, tais comoleitura, literatura, cidadania, livros, imaginação, criatividade, memórias de infância,lugares imaginários, entre outros. Os temas de redação apresentados a seguir, como étradição no Concurso Vestibular da PUCRS, têm relação com alguns desses assuntos.Leia as propostas e as orientações com atenção, escolha uma delas e elabore seu texto.GÊNERO TEXTUAL 3Mesmo que não sejamos adeptos da geoficção, somos capazes de criar lugaresimaginários. Podemos, por exemplo, imaginar como seria a cidade, a região ou o paísideal para viver, a partir daquilo que mais valorizamos.Produza um texto narrativo, em até 30 linhas, que apresente o lugar que, para você, seriaideal para viver, defendendo os princípios que você valoriza e que orientariam a criaçãodesse lugar.Não esqueça: seu texto poderá utilizar a primeira pessoa e apresentar trechosdescritivos, mas o que deve predominar são seus argumentos em defesa das qualidadesque importam para você.TEMA 2
  • 24. Crianças pequenas costumam ter imaginação muito fértil. Com o passar dos anos,geralmente vai-se reduzindo essa abertura para a fantasia, essa criatividade tãoacentuada nos primeiros anos de vida, e que nos permite criar mundos imaginários,seres superpoderosos, amigos invisíveis.Entretanto, a criatividade é um importante atributo em todos os campos humanos, dopessoal ao profissional.Profissionais criativos, atualizados, abertos a inovações são pessoas que provavelmentenão deixaram morrer a fantasia, direcionando seu foco e adequando-a a diferentessituações.Se você escolher este tema, deverá escrever sobre a importância da criatividade na vidaprofissional, apresentando exemplos ou situações em que ela seja um fator decisivo parao sucesso.TEMA 3A escola tem sido bastante criticada por não estimular a formação de um alunoreflexivo, questionador, que perceba a importância de desenvolver referenciais que lhepossibilitem constituir-se como cidadão atuante na sociedade e no meio profissional.A partir de sua experiência de vida e do que você tem observado e aprendido, reflita:Que características deve ter a escola e tudo que nela se inclui – professores, alunos, pais,direção, recursos – para ser realmente efetiva?Para desenvolver seu texto, você pode focalizar um ou dois desses componentes douniverso escolar, discorrendo sobre o seu papel e a contribuição que ele(s) pode(m)trazer para a melhoria dessa instituição.
  • 25. -------------------------------------------------------------------------------------------Resumo Ler não é apenas passar os olhos no texto. É preciso saber tirar dele o que é maisimportante, facilitando o trabalho da memória. Saber resumir as idéias expressas em umtexto não é difícil. Resumir um texto é reproduzir com poucas palavras aquilo que oautor disse. Para se realizar um bom resumo, são necessárias algumas recomendações: 1. Ler todo o texto para descobrir do que se trata. 2. Reler uma ou mais vezes, sublinhando frases ou palavras importantes. Isto ajuda a identificar. 3. Distinguir os exemplos ou detalhes das idéias principais. 4. Observar as palavras que fazem a ligação entre as diferentes idéias do texto, também chamadas de conectivos: "por causa de", "assim sendo", "além do mais", "pois", "em decorrência de", "por outro lado", "da mesma forma". 5. Fazer o resumo de cada parágrafo, porque cada um encerra uma idéia diferente. 6. Ler os parágrafos resumidos e observar se há uma estrutura coerente, isto é, se todas as partes estão bem encadeadas e se formam um todo. 7. Num resumo, não se devem comentar as idéias do autor. Deve-se registrar apenas o que ele escreveu, sem usar expressões como "segundo o autor", "o autor afirmou que".
  • 26. 8. O tamanho do resumo pode variar conforme o tipo de assunto abordado. É recomendável que nunca ultrapasse vinte por cento da extensão do texto original. 9. Nos resumos de livros, não devem aparecer diálogos, descrições detalhadas, cenas ou personagens secundárias. Somente as personagens, os ambientes e as ações mais importantes devem ser registrados.RESUMO Tenho notado nos alunos universitários uma dificuldade incrível em sintetizarideias, isto é, em fazer resumos. O fato é que esse tipo de atividade raramente éexplicada na escola, quando muito solicitada, por isso os alunos chegam à faculdadesem a menor noção sobre como extrair as idéias principais de um texto. Antes de mais nada, vale dizer que um resumo nada mais é do que um textoreduzido a seus tópicos principais, sem a presença de comentários ou julgamentos. Umresumo não é uma crítica, assim como a resenha o é; o objetivo do resumo é informarsobre o que é mais importante em determinado texto. Para Platão e Fiorin (1995), resumir um texto significa condensá-lo a suaestrutura essencial sem perder de vista três elementos: 1. as partes essenciais do texto; 2. a progressão em que elas aparecem no texto; 3. a correlação entre cada uma das partes. Se o texto que estamos resumindo for do tipo narrativo, devemos prestar atençãoaos elementos de causa e sequências de tempo; se for descritivo, nos aspectos visuais eespaciais; caso o texto for dissertativo, é bom cuidar da organização e construção dasidéias.Existem, segundo van Dijk & Kintsch (apud FONTANA, 1995, p.89), basicamente 3técnicas que podem ser úteis ao escrevermos uma síntese. São elas o apagamento, ageneralização e a construção.
  • 27. Apagamento Como no nome já diz, o apagamento consiste em apagar, em cortar as partes quesão desnecessárias. Geralmente essas partes são os adjetivos e os advérbios, ou frasesequivalentes a eles. Vamos ver um exemplo. O velho jardineiro trabalhava muito bem. Ele arrumava muitos jardinsdiariamente.Sendo essa a frase a ser resumida através do apagamento, poderia ficar assim: O jardineiro trabalhava bem. Cortamos os adjetivo “velho” e o advérbio “muito” na primeira frase eeliminamos a segunda. Ora, se o jardineiro trabalhava bem, é porque arrumava jardins; asegunda informação é redundante.Generalização A generalização é uma estratégia que consiste em reduzir os elementos da fraseatravés do critério semântico, ou seja, do significado. Exemplo:Pedro comeu picanha, costela, alcatra e coração no almoço.As palavras em destaque são carnes. Então, o resumo da frase fica:Pedro comeu carne no almoço.Construção A técnica da construção consiste em substituir uma sequência de fatos ouproposições por uma única, que possa ser presumida a partir delas, também baseando-seno significado. Exemplo: Maria comprou farinha, ovos e leite. Foi para casa, ligou a batedeira, misturou osingredientes e colocou-os no forno.
  • 28. Todas essas ações praticadas por Maria nos remetem a uma síntese:Maria fez um bolo. Além dessas três, ainda existe uma quarta dica que pode ajudar muito a resumirum texto. É a técnica de sublinhar. Enquanto você estiver lendo o texto, sublinhe as palavras ou frases que fazemmais sentido, que expressam ideias que tenham mais importância. Depois, junte seussublinhados, formando um texto a partir deles e aplique as três primeiras técnicas.Fontes:Prática Textual: atividades de leitura e escrita / Vanilda Salton Köche, Odete BenettiBoff, Cinara Ferreira Pavani. — Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.Definindo conceitos – o que é um conto?Conto é uma narrativa curta e que se diferencia dos romances não apenas pelo tamanho,mas também pela sua estrutura: há poucas personagens, nunca analisadasprofundamente; há acontecimentos breves, sem grandes complicações de enredo; e háapenas um clímax, no qual a tensão da história atinge seu auge.No conto, tempo e espaço são elementos secundários, podendo até não existir. Alémdisso, os próprios acontecimentos podem ser dispensáveis. Há, por exemplo, contos deMachado de Assis ou Tchekov nos quais, simplesmente, não tem nada que acontece. Oessencial está no ar, na atmosfera, na forma de narrar, no estilo. • Leia uma definição BEM mais extensa e detalhada de conto, na Wikipedia.Grandes escritores de contos do século XIXO século XIX foi o que teve o maior número de mestres na arte de escrever contos. Foinesse período que surgiram os contos clássicos mais lidos até hoje, como O Gato Preto,de Allan Poe; O Alienista, de Machado de Assis; Bola de Sebo, de Guy de Maupassant;entre outros.
  • 29. FasesHá várias fases do conto. Tais fases nada têm a ver com aquelas estudadas por VladimirPropp no livro "A morfologia do conto maravilhoso", no qual, para descrever o conto,Propp o "desmonta" e o "classifica" em unidades estruturais – constantes, variantes,sistemas, fontes, funções, assuntos, etc. Além disso, ele fala de uma "primeira fase"(religiosa) e uma "segunda fase" (da história do conto). Aqui, quando falamos em fases,temos a intenção de apenas darmos um "passeio" pela linha evolutiva do gênero.[editar] Fase oralLogicamente a primeira fase é a "oral", a qual não é impossivel precisar o seu início: oconto se origina num tempo em que nem sequer existia a escrita; as histórias eramnarradas oralmente ao redor das fogueiras das habitações dos povos primitivos –geralmente à noite. Por isso o suspense, o fantástico, que o caracterizou[editar] Fase escritaA primeira fase escrita é provavelmente aquela em que os egípcios registraram O livrodo mágico (cerca de 4000 a.C.). Daí vamos passando pela Bíblia – veja-se como ahistória de Caim e Abel (2000 a.C.) tem a precisa estrutura de um conto. O antigo enovo testamento trazem muitas outras histórias com a estrutura do conto, como osepisódios de José e seus irmãos, de Sansão, de Ruth, de Suzana, de Judith, Salomé; asparábolas: o Bom Samaritano, o Filho Pródigo, a Figueira Estéril, a do Semeador, entreoutras.Geoffrey Chaucer.
  • 30. No século VI a.C. temos a Ilíada e a Odisséia, de Homero e na literatura Hindu há oPantchatantra (século II a.C?). De um modo geral, Luciano de Samosata (125-192) éconsiderado o primeiro grande nome da história do conto. Ele escreveu "O cínico", "Oasno" etc. Da mesma época é Lucio Apuleyo (125-180), que escreveu "O asno de ouro".Outro nome importante é o de Caio Petrônio (século I), autor de Satiricon, livro quecontinua sendo reeditado até hoje. As "Mil e uma Noites" aparecem na Pérsia no séculoX da era cristã.A segunda fase escrita começa por volta do século XIV, quando registram-se asprimeiras preocupações estéticas. Giovanni Boccaccio (1313-1375) aparece com seuDecameron, que se tornou um clássico e lançou as bases do conto tal como oconhecemos hoje, além de ter influenciado, Charles Perrault, La Fontaine, entre outros.Miguel de Cervantes (1547-1616) escreve as "Novelas Exemplares". Francisco Gómezde Quevedo y Villegas (1580-1645) traz "Os sonhos", satirizando a sociedade da época.Os "Contos da Cantuária", de Chaucer (1340?-1400) são publicados por volta de 1700.Perrault (1628-1703) publica "O barba azul", "O gato de botas", "Cinderela", "Osoldadinho de chumbo" etc. Jean de La Fontaine (1621-1695) é o contador de fábulaspor excelência: "A cigarra e a formiga", "A tartaruga e a lebre", "Aquelas BolasCabeludas", "A raposa e as uvas" etc.No século XVIII o mestre foi Voltairetaynata (1694-1778). Ele escreveu obrasimportantes como Zadig e Cândido.Chegando ao século XIX o conto "decola" através da imprensa escrita, toma força e semoderniza. Washington Irving (1783-1859) é o primeiro contista norte-americano deimportância. Os irmãos Grimm (Jacob, 1785-1863 e Wilhelm, 1786-1859) publicam"Branca de Neve", "Rapunzel", "O Gato de Botas", "A Bela Adormecida", "O PequenoPolegar", "Chapeuzinho Vermelho" etc. Os Grimm recontam contos que já haviam sidocontados por Perrault, por exemplo. Eles foram tão importantes para o gênero queAndré Jolles diz que "o conto só adotou verdadeiramente o sentido de forma literáriadeterminada, no momento em que os irmãos Grimm deram a uma coletânea denarrativas o título de Contos para crianças e famílias", ("O conto" em formas simples).O século XIX foi pródigo em mestres: Nathaniel Hawthorne (1804-1864), Poe,Maupassant (1850-1893), Flaubert (1821-1880), Leo Tolstoy (1828-1910), MaryShelley (1797–1851), Tchekhov, Machado de Assis (1839-1908), Conan Doyle (1859-1930), Balzac, Stendhal, Eça de Queirós, Aluízio Azevedo.
  • 31. Não podemos esquecer de nomes como: Hoffman (um dos pais do conto fantástico, queviria influenciar Poe, Machado de Assis, Álvares de Azevedo e outros), Sade, Adalbertvon Chamisso, Nerval, Gogol, Dickens, Turguenev, Stevenson, Kipling, entre outros.[editar] CríticasMesmo com tanta história para "contar", o conto continua sendo alvo de preconceitos,chegando ao ponto de algumas editoras terem como política não publicar o gênero. Éuma questão de mercado? O conto não vende? E, se não vende, quais os motivos? Suaexcessiva banalização através de revistas e jornais? Ou a falsa idéia de que seria umaliteratura fácil, secundária, menor? Veja o que pensa Mempo Giardinelli: "Sustentosempre que o conto é o gênero literário mais moderno e que maior vitalidade possui,pela simples razão que as pessoas jamais deixarão de contar o que se passa, nem deinteressar-se pelo que lhes contam bem contado". "Comecei escrevendo contos, mas mevi forçado a mudar de rumo por pedidos de editores que queriam romances. Mas, cadavez que me vejo livre dessas pressões editoriais, volto ao conto… porque, em literatura, [carece de fontes?]o que me deixa realmente satisfeito é escrever um conto" (René AvilésFabila em Assim se escreve um conto). Maupassant dizia que escrever contos era maisdifícil do que escrever romances. Ele escreveu cerca de 300 contos e, segundo se diz,ficou rico com eles. Machado de Assis também não achava fácil escrever contos: "Égênero difícil, a despeito de sua aparente facilidade", (citado por Nádia Battella Gotlibem Teoria do Conto). Faulkner (1897-1962) pensava da mesma maneira: "…quandoseriamente explorada, a história curta é a mais difícil e a mais disciplinada forma deescrever prosa… Num romance, pode o escritor ser mais descuidado e deixar escórias esuperfluidades, que seriam descartáveis. Mas num conto… quase todas as palavrasdevem estar em seus lugares exatos", (citado por R. Magalhães Júnior em A arte doconto).Numa entrevista ao jornal Folha de S. Paulo (de 4 de fevereiro de 1996, página 5-11),Moacyr Scliar (1937), mais conhecido como romancista do que como contista, revelasua preferência pelo conto: "Eu valorizo mais o conto como forma literária. Em termosde criação, o conto exige muito mais do que o romance… Eu me lembro de váriosromances em que pulei pedaços, trechos muito chatos. Já o conto não tem meio termo,ou é bom ou é ruim. É um desafio fantástico. As limitações do conto estão associadas aofato de ser um gênero curto, que as pessoas ligam a uma idéia de facilidade; é por isso
  • 32. que todo escritor começa contista". "Penso que, não por casualidade, a nossa época(anos 80) é a época do conto, do romance breve", diz Italo Calvino (1923-1985) em Porque ler os clássicos. Num artigo sobre Borges (1899-1986), Calvino disse que lendoBorges veio-lhe muitas vezes a tentação de formular uma poética do escrever breve,louvando suas vantagens em relação ao escrever longo. "A última grande invenção deum gênero literário a que assistimos foi levada a efeito por um mestre da escrita breve,Jorge Luis Borges, que se inventou a si mesmo como narrador, um ovo de Colombo quelhe permitiu superar o bloqueio que lhe impedia, por volta dos 40 anos, passar da prosaensaística à prosa narrativa." (Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio)."No decurso de uma vida devotada principalmente aos livros, tenho lido poucosromances e, na maioria dos casos, apenas o senso do dever me deu forças para abrircaminho até a última página. Ao mesmo tempo, sempre fui um leitor e releitor decontos… A impressão de que grandes romances como Dom Quixote e HuckleberryFinn são virtualmente amorfos, serviu para reforçar meu gosto pela forma do conto,cujos elementos indispensáveis são economia e um começo, meio e fim claramentedeterminados. Como escritor, todavia, pensei durante anos que o conto estava acima demeus poderes e foi só depois de uma longa e indireta série de tímidas experiênciasnarrativas que tomei assento para escrever estórias propriamente ditas." (Jorge LuisBorges, Elogio da sombra/Perfis - Um ensaio autobiográfico).[editar] InfluênciaEstá evidente a identificação do conto com a "falta" de tempo dos habitantes dosgrandes centros urbanos, com a industrialização. Afinal, foi graças à imprensa escrita,que o gênero se popularizou no Brasil, no século XIX: os grandes jornais sempre davamespaço ao conto. Antônio Hohlfeldt em "Conto brasileiro contemporâneo" diz que"pode-se verificar que, na evolução do conto, há uma relação entre a revoluçãotecnológica e a técnica do conto".Na introdução de Maravilhas do conto universal, Edgard Cavalheiro diz: "A autonomiado conto, seu êxito social, o experimentalismo exercido sobre ele, deram ao gênerogrande realce na literatura, destaque esse favorecido pela facilidade de circulação emdiferentes órgãos da imprensa periódica. Creio que o sucesso do conto nos últimostempos (anos 60 e 70) deve ser atribuído, em parte, à expansão da imprensa".
  • 33. Além de criar o mercado de consumo e a necessidade de alfabetização em massa, aindustrialização também criou a necessidade de informações sintéticas. No séculopassado essas informações vinham do jornalismo e do livro; neste século vêm docinema, rádio e televisão. Assim, no seu início, o conto pegou uma carona na imprensaescrita; agora não tem mais esse espaço. Será que o conto se adaptará às novastecnologias? TV, Internet etc? De qualquer forma, no Brasil, o conto surgiu mesmo foiatravés da imprensa em meados do século XIX. Por isso, naquela época, quase todos oscontistas eram jornalistas. E não foi só no Brasil que isso ocorreu.Essa tecnologia é, também, em parte, "culpada" pelo preconceito em relação ao gênero."A linha normativa gera uma série de manuais que prescrevem como escrever contos. Ea revista popular propicia uma comercialização gradativa do gênero. Tais fatos são tidoscomo responsáveis pela degradação técnica e pela formação de estereótipos de contosque, na era industrializada do capitalismo americano, passa a ser arte padronizada,impessoal, uniformizada, de produção veloz e barata. Tais preocupações provocam, porsua vez, um movimento de diferenciação entre o conto comercial e o conto literário. Daítalvez tenha surgido o preconceito contra o conto…" (Nádia Battella Gotlib, op. cit.).Esse fenômeno também foi notado no Brasil no início dos anos 70. As influênciasexercidas pela imprensa escrita, revistas, TVs, levaram o conto a um ponto depraticamente perder sua "identidade": sendo "quase tudo", passou a ser quase "nada".Na década de 20 temos os modernistas e o conto agora é essencialmenteurbano/suburbano. Eles propuseram a renovação das formas, a ruptura com a linguagemtradicional, a renovação dos meios de expressão etc. Procura-se evitar rebuscamentos nalinguagem, a narrativa é mais objetiva, a frase torna-se mais curta e a comunicação maisbreve.Nesta mesma linha, Poe, que também foi o primeiro teórico do gênero, diz: "Temosnecessidade de uma literatura curta, concentrada, penetrante, concisa, ao invés deextensa, verbosa, pormenorizada… É um sinal dos tempos… A indicação de uma épocana qual o homem é forçado a escolher o curto, o condensado, o resumido, em lugar dovolumoso" (citado por Edgard Cavalheiro na introdução de Maravilhas do contouniversal).[editar] Extensão
  • 34. Segundo outras definições, o conto não deve ocupar mais de 7.500 palavras. Atualmenteentende-se que pode variar entre um mínimo de 1.000 e um máximo de 20.000 palavras.Mas toda e qualquer limitação de um mínimo ou máximo de palavras é descartada eignorada por escritores e leitores.O romance "Vidas secas" (de Graciliano Ramos), "A festa" (de Ivan Ângelo) e algunsromances de Bernardo Guimarães (1825-1884) e Autran Dourado, podem ser lidoscomo uma série de contos. Também "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e "QuincasBorba" (de Machado de Assis), "O Processo" (de Franz Kafka), são constituídos porpequenos contos. São os chamados "romances desmontáveis". Assis Brasil vai maislonge ao afirmar que "Grande Sertão: veredas" (de Guimarães Rosa), é um contoalongado, pois o escritor tê-lo-ia como narrativa curta. O "Grande Sertão", comosabemos, tem mais de 500 páginas. Todas essas colocações demonstram como é difícildefinir o conto; mesmo assim, quem o conhece, não o confunde com outro gênero.Neste século podemos incluir entre os grandes: O. Henry, Anatole France, VirginiaWoolf, Katherine Mansfield, Kafka, James Joyce, William Faulkner, ErnestHemingway, Máximo Gorki, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Aníbal Machado,Alcântara Machado, Guimarães Rosa,Isaac Bashevis Singer,Nelson Rodrigues, DaltonTrevisan, Rubem Fonseca, Osman Lins, Clarice Lispector, Jorge Luís Borges, LimaBarreto.Outros nomes importantes do conto no Brasil: Julieta Godoy Ladeira, Otto LaraResende, Manoel Lobato, Sérgio Sant’Anna, Moreira Campos, Ricardo Ramos,Edilberto Coutinho, Breno Accioly, Murilo Rubião, Moacyr Scliar, Péricles Prade,Guido Wilmar Sassi, Samuel Rawet, Domingos Pellegrini Jr, José J. Veiga, Luiz Vilela,Sergio Faraco, Victor Giudice, Lygia Fagundes Telles, entre outros. Em Portugaldestaca-se, entre outros, Eça de Queirós.Para um escritor que faz da sua escrita, arte, a trama/o enredo não têm muitaimportância; o que mais importa é como (forma) contar e não o que (conteúdo) contar.Borges dizia que contamos sempre a mesma fábula. Julio Cortázar (1914-1984) diz quenão há temas bons nem temas ruins; há somente um tratamento bom ou ruim paradeterminado tema. ("Alguns aspectos do conto", in Valise de cronópio). Claro que háque ter cuidado com o excesso de formalismos para não virar personagem daquelapiada: um escritor passou a vida toda trabalhando as formas para criar um estilo perfeitopara impressionar o mundo; quando conseguiu alcançá-lo, descobriu que não tinha nadapara dizer com ele.
  • 35. [editar] Conteúdo e formaForma: expressão ou linguagem mais os elementos concretos e estruturados, como aspalavras e as frases. Conteúdo: é imaterial (fixado e carregado pela forma); são aspersonagens, suas ações, a história (ver Céu, inferno, Alfredo Bosi).Há contos de Machado de Assis, de Katherine Mansfield, de José J. Veiga, de Tchecov,de Clarice Lispector, por exemplo, que não são "contáveis", não há "nada" acontecendo.O essencial está no "ar", na atmosfera, na forma de narrar, no "estilo". No livro "Que é aliteratura?" de Jean-Paul Sartre diz que "ninguém é escritor por haver decidido dizercertas coisas, mas por haver decidido dizê-las de determinado modo. E o "estilo",decerto, é o que determina o valor da prosa".[editar] Necessidades básicasO conto necessita de tensão, ritmo, o imprevisto dentro dos parâmetros previstos,unidade, compactação, concisão, conflito, início, meio e fim; o passado e o futuro têmsignificado menor. O "flashback" pode acontecer, mas só se absolutamente necessário,mesmo assim da forma mais curta possível.[editar] Final enigmáticoO final enigmático prevaleceu até Maupassant (fim do século XIX) e era muitoimportante, pois trazia o desenlace surpreendente (o fechamento com "chave de ouro",como se dizia). Hoje em dia tem pouca importância; alguns críticos e escritores acham-no perfeitamente dispensável, sinônimo de anacronismo. Mesmo assim não há comonegar que o final no conto é sempre mais carregado de tensão do que no romance ou nanovela e que um bom final é fundamental no gênero. "Eu diria que o que opera no contodesde o começo é a noção de fim. Tudo chama, tudo convoca a um final" (AntonioSkármeta, Assim se escreve um conto).Neste gênero, como afirmou Tchecov, é melhor não dizer o suficiente do que dizerdemais. Para não dizer demais é melhor, então, "sugerir" como se tivesse de haver umcerto "silêncio" entremeando o texto, sustentando a intriga, mantendo a tensão. Não é oque acontece no conto "A missa do galo", de Machado de Assis? Especialmente nosdiálogos; não exatamente pelo que estes dizem, mas pelo que deixam de dizer. RicardoPiglia, comentando alguns contos de Hemingway (1898-1961), diz que o mais
  • 36. importante nunca se conta: "O conto se constrói para fazer aparecer artificialmente algoque estava oculto. Reproduz a busca sempre renovada de uma experiência única que nospermite ver, sob a superfície opaca da vida, uma verdade secreta" (O laboratório doescritor). Piglia diz que conta uma história como se tivesse contando outra. Como se oescritor estivesse narrando uma história "visível", disfarçando, escondendo uma históriasecreta. "Narrar é como jogar pôquer: todo segredo consiste em fingir que se mentequando se está dizendo a verdade." (Prisão perpétua). É como se o contista pegasse namão do leitor é desse a entender que o levaria para um lugar, mas Rebeca , no fim, leva-o para outro. Talvez por isso, D.H. Lawrence tenha dito que o leitor deve confiar noconto, não no contista. O contista é o terrorista que se finge de diplomata, como dizAlfredo Bosi sobre Machado de Assis (op. cit.).Segundo Cristina Perí-Rossi, o escritor contemporâneo de contos não narra somentepelo prazer de encadear fatos de uma maneira mais ou menos casual, senão para revelaro que há por trás deles (citada por Mempo Giardinelli, op. cit). Desse ponto de vista asurpresa se produz quando, no fim, a história secreta vem à superfície.No conto a trama é linear, objetiva, pois o conto, ao começar, já está quase no fim e épreciso que o leitor "veja" claramente os acontecimentos. Se no romance oespaço/tempo é móvel, no conto a linearidade é a sua forma narrativa por excelência."A intriga completa consiste na passagem de um equilíbrio a outro. A narrativa ideal, ameu ver, começa por uma situação estável que será perturbada por alguma força,resultando num desequilíbrio. Aí entra em ação outra força, inversa, restabelecendo oequilíbrio; sendo este equilíbrio parecido com o primeiro, mas nunca idêntico." (GomJabbar em Hardcore, baseado em Tzvetan Todorov).Em outras palavras: no geral o conto "se apresenta" com "uma ordem". O conflito trazuma "desordem" e a solução desse conflito (favorável ou não) faz retornar à "ordem" –agora com ganhos e perdas, portanto essa ordem difere da primeira. "O conto é umproblema e uma solução", diz Enrique Aderson Imbert.[editar] DiálogosOs diálogos são de suma importância; sem eles não há discórdia, conflito, fundamentaisao gênero. A melhor forma de se informar é através dos diálogos; mesmo no conto emque o ingrediente narrativo seja importante. "A função do diálogo é expor." (HenryJames, 1843-1916).
  • 37. Em alguns escritores o diálogo é uma ferramenta absolutamente indispensável. CaioPorfírio Carneiro, por exemplo, chega ao ponto de escrever contos compostos apenaspor diálogos, sem que, em nenhum instante, apareça um narrador. Em 172 páginas deTrapiá, um clássico da década de 60, há apenas seis páginas sem diálogos. Vejamos ostipos de diálogos: 1. Direto: (discurso direto) as personagens conversam entre si; usam-se os travessões. Além de ser o mais conhecido é, também, predominante no conto. 2. Indireto: (discurso indireto) quando o escritor resume a fala da personagem em forma narrativa, sem destacá-la. Vamos dizer que a personagem conta como aconteceu o diálogo, quase que reproduzindo-o. Essas duas primeiras formas podem ser observadas no conto "A Missa do Galo", Machado de Assis. 3. Indireto livre (discurso indireto livre) é a fusão entre autor e personagem (primeira e terceira pessoa da narrativa); o narrador narra, mas no meio da narrativa surgem diálogos indiretos da personagem como que complementando o que disse o narrador.Veja-se o caso de "Vidas secas": em certas passagens não sabemos exatamente quemfala – é o narrador (terceira pessoa) ou a consciência de Fabiano (primeira pessoa)?Este tipo de discurso permite expor os pensamentos da personagem sem que o narradorperca seu poder de mediador. 1. Monólogo interior (ou fluxo de consciência) é o que se passa "dentro" do mundo psíquico da personagem; "falando" consigo mesma; veja algumas passagens de Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector. O livro A canção dos loureiros (1887), de Édouard Dujardin é o precursor moderno deste tipo de discurso da personagem. O Lazarillo de Tormes, de autor desconhecido, é considerado o verdadeiro precursor deste tipo de discurso. Em Ulisses, Joyce (inspirado em Dujardin) radicalizou no monólogo interior.[editar] Focos narrativos 1. Primeira pessoa: Personagem principal conta sua história; este narrador limita- se ao saber de si próprio, fala de sua própria vivência. Esta é uma narrativa típica do romance epistolar (século XVIII). 2. Terceira pessoa: O texto é narrado em 3ª pessoa e neste caso podemos ter:
  • 38. A) Narrador observador: o narrador limita-se a descrever o que está acontecendo,"falando" do exterior, não nos colocando dentro da cabeça da personagem; assim nãosabemos suas emoções, idéias, pensamentos. O narrador apenas descreve o que vê, nomais, especula.B) Narrador onisciente conta a história; o narrador tudo sabe sobre a vida daspersonagens, sobre seus destinos, idéias, pensamentos. Como se narrasse de dentro dacabeça delas.Relato de um Miserável1Wanderley. · Goiânia, GO23/4/2008 · 177 · 3 Me chamo Jahari e pretendo relatar aqui a vocês um pouco da minha deplorávelvida, ou existência. Meus pais morreram em uma invasão à aldeia em que vivíamos quando eu tinhaapenas 6 anos. Tenho infelizes lembranças daquele acontecido. Lembro-me dos meuspais gritando, berrando, urrando, suplicando por piedade, fato que se sucedera por umestrondo de tiro. Eu ficara ali, estático, naquele cubículo onde meus pais haviam meaconselhado esconder. Observara àquilo com um ar intrigante e inquieto, tentandoentender o que estava acontecendo, pois naquela época não tinha maturidade osuficiente para entender o que, de fato, significava a morte. Não tinha maturidade osuficiente para compreender que, a partir daquele momento, nunca mais os verianovamente.
  • 39. Aqueles gritos atormentam minha mente a todo instante até os dias atuais.Hoje completo 14 anos. Mas e daí? Quem se importa? Quem ao menos sabe disso? Bemqueria ganhar um pão de presente. Mas não tenho amigos a quem posso confiar talpedido. E mesmo se tivesse, não creio que se dariam ao trabalho de me arrumar algo tãovalioso. Até tento evitar de me lembrar de comida, ainda mais hoje que estou faminto,pois, sempre que o faço, meus olhos se enchem dágua e minha boca secaautomaticamente dá-se lugar a uma acelerada salivação. Faz pouco mais de quatro dias que não como nada. Juro que, neste instante, seriacapaz de comer até carne humana. Além da fome, o cansaço também me domina, pois há muito tempo sigo essaminha caminhada sem rumo sob o efeito desse maldito sol escaldante.Paro para descansar sempre quando a noite chega. Deito no chão e tento dormir, masmeu estômago ronca tão alto que não me permite fazê-lo muito bem. A jornada prossegue. O forte bodum que exalava do meu corpo começa a ficarinsuportável até mesmo para mim. Não consigo nem me lembrar de quando fora aúltima vez que tomara um banho decente. A água do meu cantil improvisado está acabando. A última vez que oreabastecera tinha sido na última aldeia que encontrara há exatos três dias. Infelizmente,a água, não tão pura, fora a única coisa que puderam me oferecer. Aquele povo, assimcomo eu, era completamente miserável. Optei por continuar minha jornada em busca deum lugar melhor. Pode tudo isso até soar exagero de minha parte, mas meu estado de pobreza érealmente crítico, lamentável, e, sinceramente, não sei até quando conseguireisobreviver. Minha desgraçada realidade se resume em uma nua e crua miséria. Vivoapenas alimentado por minhas expectativas e esperanças.Não consigo imaginar a catástrofe que fizera para ter sido tão castigado assim. Nãoconsigo achar um porquê para tudo isso estar acontecendo comigo. Não consigoentender por que EU fora escolhido e predestinado a sofrer tanto durante TODA minhaexistência. Me pergunto a todo momento: Por que EU? E, pode nem todo mundo concordar, mas tudo isso sempre me põe a refletir,questionar e duvidar sobre a existência de um Deus.
  • 40. São várias perguntas sobre minha existência em si que definitivamente meintrigam. Minha mente está sempre em constante trabalho, apesar de meu lastimávelestado físico não deixar transparecer isso. Às vezes prefiria não ter nem nascido. Já pensei várias vezes em, simplesmente,desistir de continuar lutando, mas, apesar de tudo, tenho bastante fé de que, em breve,encontrarei uma pequena aldeia que tenha condição de me acolher, de me fornecerqualquer coisa conceituada comestível. Apesar de toda miséria, fome e carência de lar, família e amigos, ainda vivo,mas o faço com a plena consciência de que meu grande objetivo vital é, simplesmente...sobreviver. Espero que, no mundo afora, quem tem a oportunidade de fazer issointensamente, que o faça! E que se alegre por ter tudo que tem, porque existem pessoas,assim como eu, que não têm absolutamente nada. Mais do que uma dica, isso é um apelo.A SITUAÇÃO COMUNICATIVA DO GÊNERO RELATO DE EXPERIÊNCIADE ATUAÇÃO PROFISSIONALJocília Rodrigues da Silva (UFBP)Poliana Dayse Vasconcelos Leitão (UFPB) 1. INTRODUÇÃO Para transformar as atuais práticas de ensino-aprendizagem da língua materna faz-se necessário adotar a noção de gênero, visto que os gêneros textuais articulam aspráticas sociais e os objetos escolares, constituindo-se em instrumentos privilegiadospara o desenvolvimento das capacidades necessárias à compreensão/ produção oral eescrita dos mais variados textos existentes, pois, como afirmam muitos estudiosos,aprender a falar, ler e escrever é, principalmente, aprender a compreender e produzirenunciados através de gêneros. Entretanto, em virtude de o trabalho com esta noção serainda recente e estar se expandindo, verifica-se a necessidade de pesquisas voltadas paraa descrição dos gêneros e para a intervenção, com vistas ao desenvolvimento dashabilidades para apropriação de gêneros. Tendo em vista tal necessidade, pretendemos esboçar um modelo escolar de relatode experiência, que favoreça, sobretudo, a formação de professores. Nesse sentido, apesquisa sobre a descrição dos gêneros se torna imprescindível e anterior a qualquer
  • 41. projeto de intervenção didática, pois segundo Schneuwly & Dolz (1997), o gênerotrabalhado como objeto de ensino-aprendizagem é sempre uma variação do gênero dereferência. Com essa visão, o presente trabalho tem por objetivo reunir elementos para adescrição do gênero relato de experiência, observando o nível da situação de ação delinguagem, isto é, a situação comunicativa em que os textos pertencentes a esse gênerosão produzidos. O corpus deste trabalho está constituído de 15 relatos de experiência,sendo 05 relatos da revista Leitura: Teoria e Prática, 05 da revista Psicopedagogia e 05da revista Linha D’água. 2. SITUANDO O RELATO DE EXPERIÊNCIA NOS AGRUPAMENTOS DOS GÊNEROS De acordo Schneuwly (1998:04), o termo gênero, advindo da retórica e daliteratura, ganhou extensão na obra de Bakhtin (1979), que define gênero como sendotipos relativamente estáveis de enunciados elaborados em cada esfera de troca (lugarsocial dos interlocutores), os quais são caracterizados pelo conteúdo temático, estilo econstrução composicional, e escolhidos em função de uma situação definida por algunsparâmetros (finalidade, destinatários, conteúdo). Ou seja, os gêneros do discurso seriamformas de dizer sócio-historicamente cristalizadas provenientes das necessidadesproduzidas em diferentes lugares sociais da comunicação humana. Como afirmam Santos & Barbosa (1999: 04), a noção de gênero considera, alémdos elementos da ordem do social e do histórico, aspectos estruturais do texto, situaçãode produção e forma de dizer. Esta noção de gênero vem sendo adotada para o processode ensino/ aprendizagem de língua materna, favorecendo uma melhor produção ecompreensão de textos orais e escritos, através da seleção que oriente as propostascurriculares, definindo princípios, delimitando objetivos, conteúdos e atividades (Santos& Barbosa, op.cit. p. 05). Dolz & Schneuwly (1996), vislumbrando o processo ensino/aprendizagem,propuseram cinco agrupamentos de gêneros com base em três critérios: domínio socialda comunicação a que pertencem; capacidades de linguagem envolvidas na produção ecompreensão desses gêneros e sua tipologia geral. São eles: a) Agrupamento da ordem do narrar – envolve os gêneros cujo domínio é o da cultura literária ficcional, marcados pela manifestação estética e caracterizados pela mimesis da ação através da criação, da intriga no domínio do verossímil.. Exemplos: contos de fada, fábulas, lendas, narrativas de aventura, de enigma,
  • 42. ficção científica, crônica literária, romance, entre outros. b) Agrupamento da ordem do relatar – comporta os gêneros pertencentes ao domínio social da memorização e documentação das experiências humanas, situando-as no tempo. Exemplos: relato de experiências vividas, diários íntimos, diários de viagem, notícias, reportagens, crônicas jornalísticas, relatos históricos, biografias, autobiografias, testemunhos etc. c) Agrupamento da ordem do argumentar – inclui os gêneros relacionados ao domínio social da discussão de assuntos sociais controversos, objetivando um entendimento e um posicionamento frente a eles, exigindo para tanto, sustentação, refutação e negociação de tomadas de posição. Exemplos: textos de opinião, diálogos argumentativos, cartas de leitor, cartas de reclamação, cartas de solicitação, debates regrados, editoriais, requerimentos, ensaios argumentativos, resenhas críticas, artigos assinados, entre outros. d) Agrupamento da ordem do expor – engloba os gêneros relacionados ao domínio social de transmissão e construção de saberes, visando de forma sistemática possibilitar a apreensão dos conhecimentos científicos e afins, numa perspectiva menos assertiva e mais interpretativa, exigindo a apresentação textual de diferentes formas dos saberes. Exemplos: textos expositivos, conferências, seminários, resenha, artigos, tomadas de notas, resumos de textos expositivos e explicativos, relatos de experiência científica. e) Agrupamento da ordem do descrever ações – reúne os gêneros cujo domínio social é o das instruções e prescrições, revisando a regulação ou normatização de comportamentos. Exemplos: receitas, instruções de uso, instruções de montagens, bulas, regulamentos, regimentos, estatutos, constituições, regras de jogo. Neste enfoque, o relato de experiência de atuação profissional é entendido com umgênero de texto que pertence ao agrupamento dos gêneros da ordem do expor, cujodomínio social de comunicação é o da transmissão e construção de saberes. Nessesentido, quando informado teoricamente, o relato de experiência permite a apreensão deconteúdos numa perspectiva que envolve a interpretação ao lado da asserção,constituindo-se num instrumento relevante para registrar a produção do conhecimentosobre a construção do processo de ensino-aprendizagem em sala de aula. 2. 1. Situação de ação de linguagem (ou comunicativa). De acordo com Schneuwly (1998, apud Machado, 1999, p. 97), toda produção
  • 43. textual tem como base de orientação uma situação de ação de linguagem, que envolverepresentações do produtor sobre aspectos dos mundos físico e sócio-subjetivo. Essasrepresentações se manifestam em duas direções: a do contexto de produção, constituídopor oito tipos de representações: local, momento de produção, emissor, receptor,instituição onde se dá a interação, o papel social representado pelo emissor e receptor,objetivos que o enunciador quer atingir sobre o destinatário; e a do conteúdo temático,aquilo que é ou pode ser dito, através do gênero, marcado por uma construçãocomposicional, estilo. Considerando esta perspectiva, tentaremos descrever como se manifestam asrepresentações do contexto de produção em relatos de experiência de atuaçãoprofissional, publicados em periódicos. A observarmos os relatos de experiência deatuação profissional em três diferentes periódicos de divulgação científica, verificamosque o primeiro agente a influenciar a produção desse gênero é a instituição onde se dá ainteração, representada pela Associação de Leitura do Brasil (ALB) encarregada dapublicação da Revista Leitura: Teoria e Prática; Associação Brasileira dePsicopedagogia (ABP) responsável pela publicação da Revista Psicopedagogia, e aAssociação de Professores de Língua e Literatura (APLL) que publica a Revista LinhaD’água. É interessante ressaltar que o fato de as revistas estarem vinculadas aassociações revela que elas têm um posicionamento sócio-histórico e ideológicodeterminado e que seus informantes, bem como os assinantes aceitam esseposicionamento. Outro aspecto importante é que todas as revistas analisadas afirmamque os artigos assinados são de responsabilidade dos autores, mas se reservam o direitode publicar ou não as matérias enviadas. A partir, desta afirmação constata-se que oconselho editorial das revistas mantém controle sobre o que é publicado e, num tomsugestivo, direciona a leitura do leitor, uma vez que acredita conhecer o perfil de seusleitores-modelo, dessa forma, o como de ação adotado no e pelo discurso se constrói noconteúdo previsto. Levando em conta os leitores-modelo, constatamos nos periódicos analisados, trêstipos: 1) Na revista Leitura: Teoria e Prática, segundo Silva (1998), seu destinatário éum professor-leitor em formação que assume a postura reflexiva e crítica diante daleitura1[1]; 2) Na revista Linha D’água, o leitor é um professor de Língua e Literaturaem nível de 1º e 2º graus “interessado, à procura de questões que possam levá-lo a reversua prática ou um professor cansado e explorado, querendo respostas, caminhos claros1
  • 44. que facilitem sua tarefa tão pouco satisfatória quanto aos resultados educacionais efinanceiros. Em um ou outro caso, é um professor que ainda não perdeu o entusiasmo ese interessa por publicações de sua área e procurando respostas prontas questiona as queobteve e ao encontrar novas questões assume-as com rigor de certeza” (Mariano, 1988);3) Na revista Psicopedagogia, os destinatários são profissionais atuantes na área dePsicopedagogia e áreas afins (Fonoaudiologia, Psicologia, Pedagogia, Serviço Social),preocupados em definir as abordagens preventivas e terapêuticas de Psicopedagogia.(Noffs, 1998). Percebemos que ao controlar os artigos a serem publicados, a instituição atravésdo conselho editorial também seleciona os papéis de produtor, que se assemelham aoperfil de leitor-modelo esperado pela revista. Desse modo, vamos ter como emissor darevista Leitura: Teoria e Prática, alunos e/ou professores envolvidos com atividades emnível de 3º grau ou pós-graduação e bibliotecários, preocupados com o ensino-aprendizagem de leitura nos seus aspectos teóricos e práticos. Na revista Linha d’água,o emissor está representado por professores do 3º grau ou mestrandos, interessados emdivulgar seus trabalhos e contribuir para a melhoria das práticas de leitura e produção detextos no ensino de 1º e 2º graus. Na revista Psicopedagogia, o emissor é umprofissional graduado em Pedagogia, Fonoaudiologia, Psicologia, Serviço Social e áreaafins, com pós-graduação em nível de mestrado e/ou doutorado em Psicopedagogia,preocupados com os problemas de aprendizagem escolar. Tendo em vista os perfis de leitores e produtores, podemos constatar que asrevistas Leitura: Teoria e Prática e Linha d’água têm como finalidade estabelecer umdiálogo com o receptor, possibilitando-lhe o acesso a informações e experiências arespeito da leitura e produção de textos, a reflexão sobre sua própria prática e amudança de perspectiva. Além de se preocupar com a formação do professor-leitorreflexivo e crítico, a revista Psicopedagogia objetiva informar os profissionais dePsicopedagogia e áreas afins quanto às possíveis soluções para os problemas de ensino-aprendizagem de ordem patológica ou não. Em função dos objetivos traçados por cada revista, verificamos que estes refletemo discurso de transformação social, divulgado pelo momento sócio-histórico em quevivemos, assimilado no contexto educacional, através da teoria sócio-interacionista deVygotsky e da de leiturização de Foucambert, fundamentada nas idéias de Paulo Freire. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante da observação das direções que norteiam as representações dos gêneros
  • 45. textuais, o contexto de produção e o conteúdo temático, verificamos que, nos periódicosanalisados, os relatos de experiência refletem a representação que os periódicos têmacerca do mundo físico e sócio-subjetivo relacionado ao processo de ensino-aprendizagem. Conseqüentemente, no momento em que os produtores e leitores-modeloescolhem um determinado periódico como referencial para seu trabalho, assumem arepresentação nele apresentada. Assim sendo, constatamos, como afirma Schneuwly, que o relato de experiência,assim como toda produção textual, orienta-se por uma situação de ação de linguagemque está pautada num contexto sócio-histórico-ideológico determinado. Esse contexto érefletido na concepção teórico-metodológica divulgada pelo periódico, norteando osrelatos de experiência que, por sua vez, interferem na formação e atuação do professor. No caso dos periódicos analisados, estes divulgam o discurso de transformaçãosocial, mostrando que tal transformação depende do professor. Este deve assumir umapostura crítica e reflexiva sobre sua postura de ensino, reavaliando-a e modificando-a,implicando numa mudança de perspectiva.O artigo de opinião O artigo de opinião como o próprio nome já diz, é um texto em que o autorexpõe seu posicionamento diante de algum tema atual e de interesse de muitos. É um texto dissertativo que apresenta argumentos sobre o assunto abordado,portanto, o escritor além de expor seu ponto de vista, deve sustentá-lo através deinformações coerentes e admissíveis.Logo, as ideias defendidas no artigo de opinião são de total responsabilidade do autor, e,por este motivo, o mesmo deve ter cuidado com a veracidade dos elementosapresentados, além de assinar o texto no final. Contudo, em vestibulares, a assinatura é desnecessária, uma vez que podeidentificar a autoria e desclassificar o candidato. É muito comum artigos de opinião em jornais e revistas. Portanto, se você quiseraprofundar mais seus conhecimentos a respeito desse tipo de produção textual, é sóprocurá-lo nestes tipos de canais informativos. A leitura é breve e simples, pois sãotextos pequenos e a linguagem não é intelectualizada, uma vez que a intenção é atingirtodo tipo de leitor. Uma característica muito peculiar deste tipo de gênero textual é a persuasão, que
  • 46. consiste na tentativa do emissor de convencer o destinatário, neste caso, o leitor, aadotar a opinião apresentada. Por este motivo, é comum presenciarmos descriçõesdetalhadas, apelo emotivo, acusações, humor satírico, ironia e fontes de informaçõesprecisas.Como dito anteriormente, a linguagem é objetiva e aparecem repletas de sinais deexclamação e interrogação, os quais incitam à posição de reflexão favorável ao enfoquedo autor. Outros aspectos persuasivos são as orações no imperativo (seja, compre, ajude,favoreça, exija, etc.) e a utilização de conjunções que agem como elementosarticuladores (e, mas, contudo, porém, entretanto, uma vez que, de forma que, etc.) edão maior clareza às ideias. Geralmente, é escrito em primeira pessoa, já que trata-se de um texto commarcas pessoais e, portanto, com indícios claros de subjetividade, porém, pode surgirem terceira pessoa.Como fazer um artigo de opiniãoEssa semana meu amigo e companheiro de trabalho, Dado Moura, me passou um textomuito interessante de Stephen Kanitz* sobre como escrever artigos e convencer aspessoas com a sua opinião. Tendo em vista que muita gente acessa este blogpesquisando sobre jornalismo opinativo achei pertinente compartilhar este documentocom vocês também.Como afirma Kanitz, “o segredo de um bom artigo não é talento, mas dedicação,persistência e manter-se ligado a algumas regras simples”. Cada colunista tem os seuspadrões. Segue abaixo uma síntese das sete dicas deste grande escritor para argumentarbem:1. Sempre escreva tendo uma nítida imagem da pessoa para quem está escrevendo.Imagine alguém com 16 anos de idade ou um pai de família. A maioria escrevepensando em todo mundo, querendo explicar tudo a todos ao mesmo tempo. Ter umaimagem do leitor ajuda a lembrar que não dá para escrever para todos no mesmo artigo.Você vai ter que escolher o seu público alvo de cada vez, e escrever quantos artigosforem necessários para convencer todos os grupos.
  • 47. 2. Há muitos escritores que escrevem para afagar os seus próprios egos e mostrar para opúblico quão inteligentes são. Querer se mostrar é sempre uma tentação, mas, tendouma nítida imagem para quem você está escrevendo, ajuda a manter o bom senso e ahumildade. Querer se exibir nem fica bem. Resumindo, não caia nessa tentação, leitoresodeiam ser chamados de burros. Leitores querem sair da leitura mais inteligentes do queantes, querem entender o que você quis dizer.3. Releia e rescreva os seus artigos quantas vezes forem necessárias. Ninguém temcoragem de cortar tudo o que tem de ser cortado numa única passada. Parece tudo tãoperfeito, tudo tão essencial. Por isto, os cortes são feitos aos poucos.4. Você normalmente quer convencer alguém que tem uma convicção contrária à sua.Se você quer mudar o mundo terá que começar convencendo os conservadores a mudar.Dezenas de jornalistas e colunistas desperdiçam as suas vidas ao serem tão sectários eideológicos que acabam sendo lidos somente pelos já convertidos. Não vão acabar nemmudando o bairro, somente semeando ódio e cizânia.5. Cada ideia tem de ser repetida duas ou mais vezes. Na primeira vez você explica deum jeito, na segunda você explica de outro. Informação é redundância. Você tem quedar mais informação do que o estritamente necessário.6. Se você quer convencer alguém de alguma coisa, o melhor é deixá-lo chegar àconclusão sozinho, em vez de você impor a sua. Se ele chegar à mesma conclusão, vocêterá um aliado. Se você apresentar a sua conclusão, terá um desconfiado. Então, osegredo é colocar os dados, formular a pergunta que o leitor deve responder, dar algunsargumentos importantes e parar por aí. Se o leitor for esperto, ele fará o passo seguinte,chegará à terrível conclusão por si só e se sentirá um gênio.7. É preciso ser conciso, direto e achar soluções mais curtas. Escreva um texto de quatropáginas, depois, reduza a duas e, mais adiante, a uma. Assim, você aprende a tirar as“linguiças” e redundâncias.Texto instrucional-os textos instrucionais são aqueles cuja função é instruir, ensinar, mostrar como algodeve ser feito.
  • 48. -eles descrevem etapas que devem ser seguidas. Dentro desta categoria, encontramosdesde as mais simples receitas culinárias até os complexos manuais de instrução paramontar o motor de um avião.-existem numerosas variedades de textos instrucionais: além de receitas e manuais,estão os regulamentos, estatutos, contratos, instruções de jogos etc.-referindo-nos especialmente às receitas culinárias e aos textos que trazem instruçõespara organizar um jogo, realizar um experimento, construir um artefato e concertar umobjeto, entre outros, distinguimos duas partes, uma, contém listas de elementos a seremutilizados, a outra, desenvolve as instruções.-as instruções configuram-se, habitualmente, com orações bimembres, com verbos nomodo imperativo (misture a farinha com o fermento), ou orações unimembres formadaspor construções com o verbo no infinitivo (misturar a farinha com o açúcar).-o estudo de textos normativos também pode ser associado ao estudo de sinalizaçõesnormalmente utilizadas com a mesma função, por exemplo, os sinais de trânsito e outrasplacas indicativas como: “proibido fumar”, “reservado a deficientes físicos”, etc.-todos eles, independente de sua complexidade, compartilham da função apelativa dalinguagem, à medida que prescrevem ações e empregam a trama descritiva pararepresentar o processo a ser seguido na tarefa empreendida.-em nosso cotidiano, deparamo-nos constantemente com textos instrucionais, que nosajudam a usar corretamente um processador de alimentos ou um computador; a fazeruma comida saborosa ou a seguir uma dieta para emagrecer.-é necessário atribuir um título como por ex. "Bolo de cenoura".Resposta de questão interpretativa/argumentativa- os gêneros têm como foco central responder uma pergunta marcada ou não marcada. Na resposta argumentativa, o candidato deve trazer argumentos extratextuais, jána resposta interpretativa é quase sempre indispensável o uso de comprovações, nãosendo permitido fazer interpretações literais.Escreva um texto NARRATIVO ou um texto DISSERTATIVO a respeito do seguintetema:QUANDO SE JUSTIFICA MENTIR?Para o texto NARRATIVO, atente para as seguintes instruções: redija a narrativa em 1.ªou 3.ª pessoa, de forma que o conflito seja desencadeado por uma MENTIRA; além doconflito, o texto deverá ter personagens e desfecho adequados ao tema.
  • 49. Para o texto DISSERTATIVO, você poderá se basear nos excertos a seguir, sem,contudo, poder copiar informações deles. Eleja uma tese e defenda-a com argumentosconvincentes.Excerto 1(...)Os pais ensinam os filhos desde cedo que mentir é muito feio. Que gente mentirosa émal vista pela sociedade.Mas vamos falar a verdade. O que mais existe no mundo é mentira (...)Mentir é considerado o quinto pecado capital, mas quem já não teve de lançar mãodesse recurso para se sair de uma situação complicada? Muita gente acredita que, se foruma mentirinha inofensiva que não prejudique ninguém, não faz mal. Mesmo que issofuncione algumas vezes, mais vale uma verdade dolorida do que uma mentira malcontada.(...)O Diário do Norte do Paraná, 1.º/04/2005.Excerto 2(...)A interpretação da mentira depende, portanto, do “código de ética” seguido pelomentiroso. Para o utilitarista, por exemplo, a mentira se justifica quando, através dela, seproduz maior felicidade. Esse é o caso do comentário que se faz ao moribundo (“comovocê está bem ...”) ou do consolo do dentista (“não vai doer nada ...”) ou da formalidadedos adversários quando se encontram em público (“que prazer em vê-lo ...”) ou mesmodo final da carta desaforada (“com a minha alta estima e elevada consideração ...”).(...)José PastoreFolha de S. Paulo, 20/05/1987.Disponívelhttp://www.josepastore.com.br/artigos/cotidiano/057.htm
  • 50. TEMAFreqüentemente nos deparamos com situações em que se verifica a desobediência às leisde trânsito, quer nas zonas urbanas, quer nas rurais ou nas estradas em geral. Isso temocasionado sérios problemas e conseqüências irreversíveis às pessoas, ao meio ambientee ao Estado. Sobre esse tema, escolha uma das tipologias abaixo para produzir suaredação.a) Texto DISSERTATIVO: apresente um problema criado pela desobediência às leis detrânsito e aspossíveis soluções para resolvê-lo;b) Texto NARRATIVO: apresente uma história em que a(s) personagem(ns)vivencie(m) um conflitogerado por um problema de desobediência às leis de trânsito, com sua resolução.Você pode usar exemplos de seu cotidiano, desde que não identifique pessoas com seusnomes verdadeiros.
  • 51. Leia o texto de parte da entrevista concedida pelo economista Erick Hanushek à revistaVeja, edição de 17 de setembro de 2008; esse texto pode fornecer subsídios aodesenvolvimento do tema de sua redação. Seus estudos recentes comprovam uma forte relação entre educação ecrescimento econômico. Com o Brasil nas últimas colocações em rankingsinternacionais de ensino, o que se pode dizer sobre a economia? Com esse desempenho, as chances de o Brasil crescer em ritmo chinês e setornar mais competitivo no cenário internacional são mínimas. Digo isso baseado nosnúmeros que reuni ao longo das últimas décadas. Eles mostram que avanços na sala deaula têm peso decisivo para a evolução dos indicadores econômicos de um país. Olhe ocaso brasileiro. Se as notas dos estudantes subissem apenas 15% nas avaliações, o Brasilsomaria, a cada ano, meio ponto porcentual às suas taxas de crescimento. Issosignificaria, hoje, avançar em um ritmo 10% maior. Vale observar que o que impulsionaa economia é a qualidade da educação, e não a quantidade de alunos na escola.
  • 52. O Brasil colocou 97% das crianças na sala de aula. Isso não tem impacto naeconomia? A massificação do ensino, por si só, tem pouco efeito – e a matemática não deixadúvida quanto a isso. Os dados mostram que a influência da educação passa a serdecisiva apenas quando ela é de bom nível. Aí, sim, consegue empurrar os indivíduos ea economia. A relação é simples. Países capazes de proporcionar bom ensino a muita genteao mesmo tempo elevam rapidamente o padrão de sua força de trabalho. Quando umapopulação atinge alta capacidade de raciocínio e síntese, torna-se naturalmente maisprodutiva e capaz de criar riquezas para o país. Nesse sentido, a posição do Brasil édesvantajosa. Faltam aos alunos habilidades cognitivas básicas, e isso funciona comoum freio de mão para o crescimento. Esse cenário, que já era preocupante décadas atrás,agora é ainda mais nocivo. Na comemoração de seus 40 anos, a mesma revista Veja promoveu o seminário“O Brasil que queremos ser”, no qual foi abordado, entre outros, o seguinte tema:“Educação com qualidade: os caminhos da produtividade e da prosperidade”.PROPOSTA 1Reportando-se a suas ideias e informações, desenvolva um artigo de opinião, discutidosobre o Brasil que queremos ser, com foco na relação entre educação,produtividade e prosperidade.PROPOSTA 2
  • 53. Produza um resumo, em até 10 linhas, sobre a temática: o Brasil que queremos ser,com foco na relação entre educação, produtividade e prosperidade.TEMAUma leitura mais profunda sobre a temática da mulher revela, muitas vezes, umaimagem deturpada, provocando uma indagação, uma reflexão sobre as marcas dofeminino, presentes nos textos a seguir, que servirão de ponto de partida para a suaprodução textual.I. Nem é preciso repetir as profundas alterações sofridas pelo papel feminino nodecorrer das últimas cinco décadas. [...]Uma das questões suscitadas pelas transformações dos costumes diz respeito àsarticulações entre o advento da puberdade e a aquisição do que se costuma chamar“identidade de gênero”.Atualmente é mais fácil verificar que as mudanças biológicas — obviamente manifestasde formas diferentes para o menino e para a menina — não têm gerado os efeitos deoutrora em seus comportamentos e, até mesmo, na aparência física. Garotas e rapazesconvivem em salas mistas, usam uniformes idênticos, praticam os mesmos esportes,preparam-se para as mesmas profissões. As fronteiras entre os respectivos papéis estãocada vez mais diluídas.Estas evidências comprovam a impossibilidade não apenas de atribuir a feminilidade oua masculinidade às diferenças anatômicas, como também de poder definir o tornar-sehomem ou tornar-se mulher apenas pela aprendizagem, ou aquisição, dos papéis degênero impostos pelo sistema social.NASCIMENTO, Angelina Bulcão. Quem tem medo da geração shopping? umaabordagem psicossocial. Salvador: Secretaria de Cultura e Turismo. EDUFBA, 1999. p.159-160.
  • 54. II. [...] A mulher sempre foi para o homem “o outro”, seu contrário e complemento. Seuma parte do nosso ser deseja fundir-se nela, outra, não menos imperiosamente, a separae exclui. A mulher é um objeto, alternadamente precioso ou nocivo, mas semprediferente.Ao transformá-la em objeto, em ser aparte e ao submetê-la a todas as deformações queseu interesse, sua vaidade, sua angústia e até mesmo seu amor lhe ditam, o homemtransforma-a em instrumento. Meio para obter o conhecimento e o prazer, via paraatingir a sobrevivência, a mulher é ídolo, deusa, mãe, feiticeira ou musa, conformeaponta Simone de Beauvoir, mas nunca pode ser ela mesma. Entre a mulher e nósinterpõe-se um fantasma: o de sua imagem, da imagem que fazemos dela e da qual elase reveste. Não podemos sequer tocá-la como carne que se ignora a si mesma, porqueentre nós e ela, desliza esta visão dócil e servil de um corpo que se entrega. E com amulher acontece o mesmo: não se sente nem se imagina, a não ser como objeto, como“outro”. Nunca é dona de si. Seu ser se divide entre o que é realmente e a imagem quefaz de si. Uma imagem que lhe foi impressa por família, classe, escola, amigas, religiãoe amante. Sua feminidade nunca se expressa, porque se manifesta por meio de formasinventadas pelo homem. [...]PAZ, Octavio. O labirinto da solidão e post scriptum. Tradução Eliane Zagury. Riode Janeiro:Paz e Terra, 1992. p. 177-178. (Clássicos Latino-Americanos).III.É TEMPO DE MULHERa mulher ainda desesperaà espera do primeiro beijoúmido de sime permissão de machoa mulher no entanto conspirana sua ira secular de silêncioem sua ilha de nãose arremessosexercitando batalhões oníricoso relógio com suas obrigações e rugas
  • 55. questiona eroshomoheteroo útero e seu mistériosapato de saltobatomrougee este inadiável instante etéreode saltar para dentro de sina conquista do espaço além da moda [...]CUTI. É tempo de mulher. In: QUILOMBHOJE (Org.). Cadernos negros: os melhorespoemas. São Paulo: Quilombhoje, 1998. p. 52-53.IV. COR DE ROSA CHOQUENas duas faces de EvaA bela e a feraUm certo sorrisoDe quem nada querSexo frágilNão foge à lutaE nem só de camaVive a mulherPor isso não provoqueÉ cor-de-rosa choqueNão provoqueÉ cor-de-rosa choqueMulher é bicho esquisitoTodo mês sangra
  • 56. Um sexto sentidoMaior que a razãoGata borralheiraVocê é princesaDondoca é uma espécieEm extinçãoPor isso não provoqueÉ cor de rosa choqueNão provoqueÉ cor de rosa choqueCARVALHO, Roberto de; LEE, Rita. Cor de rosa choque. Disponível em:<http://www.rita-lee.cor-derosa-choque.buscaletras.com.br/>. Acesso em: 10 jul. 2007.Elabore uma carta ao Editor, Pedro Câncio, da Revista Mulher, discutindo os aspectosdistintos do que é ser mulher e ser homem numa sociedade plural e capitalista como abrasileira. Assine como Valdete, com até 15 linhas.