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Os poderes perdidos

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Uma história de um semideus como você nunca viu antes.

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  • 1. 1
  • 2. 2
  • 3. 3
  • 4. um Ganho um relógio barato do meu irmão SABE, quando você tem doze anos, você espera que sua vida siga um ritmocomo ir à escola, sair com a família, jogar videogames, ler livros, jogar bola... essascoisas. Mas acredite, nem todo mundo vive assim. Meu nome é Erick, Erick Griffin. Sou de uma família normal e não muitorica do Rio Grande do Sul. Moro em Porto Alegre em um apartamento pequenocom minha mãe. Pai? Assunto complicado, minha mãe sempre diz que ele nosabandonou quando eu era pequeno o que me faz sentir muita, muita raiva dele.Tios? Avós? Amigos? Bem meus tios (por parte de mãe, nunca conheci os parentesdo meu pai, minha mãe disse que ele era filho único e que seus pais haviammorrido) não gostam de mim. Eu e minha mãe somos o lado pobre da família.Minha avó é legal comigo (a única) e com minha mãe, ela está sempre querendoajudar, mas minha mãe nunca aceita, ela sempre diz que é melhor assim comovivemos. Como vivemos? Bem, levamos uma vida normal. Minha mãe trabalha em umapastelaria como garçonete, o salário não é bom, mas é o suficiente para nossustentar e pagar as contas da casa. Levamos a vida numa rotina. Levantamosjuntos, ela vai para o trabalho e eu para escola, chegando na escola eu estudo edepois almoço e então volto para casa. Enquanto minha mãe não chega eu dou umaarrumada na casa (o que não demora muito já que só tem quatro peças: meu quarto,quarto da minha mãe, banheiro e a cozinha e a sala são juntas) depois olho TV, ouleio um pouco os livros que ganho da vovó (livros de historias antigas, a maioriasobre mitos). 4
  • 5. Minha vida “mais ou menos” começou a mudar naquela noite de terça-feira.O dia seguinte ia ser o ultimo dia de aula na A.P.P.A (quer dizer EscolaPreparatória Para Adolescentes), que eu chamo de A.P.P.D (Escola PreparatóriaPara Delinquentes), por que é só isso que você encontra lá. Estava lendo um livroque vovó me deu antes de dormir, o livro se chamava contos antigos e eu estava naparte de mitologia grega. Nessa parte explicava um pouco sobre os deuses quedominavam o Olimpo e tal. Já tinha decorado isso, mas continuava lendo porqueachava interessante. – Erick – minha mãe me disse entrando no meu quarto. Seus cabelos loirosescuros na altura do ombro um pouco emaranhados, olhos azuis, com sua camisetada pastelaria (compre o de frango e ganhe o de carne, escrito ao centro e compasteis por toda ela), calça jeans e de chinelo de dedos. – Está na hora de ir dormir.Amanhã temos um longo dia em. O que eu mais gostava em minha mãe é que mesmo com as coisas indo mal,ela nunca desanimava, sempre com um sorriso no rosto e me animando. Esse mêsela teve dificuldade com as contas da casa, então eu fui fazer um “bico” nomercadinho da esquina. O dono é legal, conhece a gente, então às vezes quandoprecisamos, ele me deixa ficar de empacotador e me dá uns trocados. Não é muitacoisa, mas já ajuda. – Não estou com sono mãe. – Deite, você vai ver, vai ficar com sono logo. Não contrariei. Escovei os dentes, abracei minha mãe e fui dormir. Demoreium pouco para pegar no sono, mas quando dormi tive um sonho estranho. Estava de pé em uma sala com muitas armaduras antigas (gregas ou romanas,tem figuras assim nos livros da vovó), espadas, escudos de diferentes tamanhos.Alguns escudos eram quadrados de madeira com desenhos de águias, espadascruzadas e fogo. Outros eram redondos de bronze ou couro com desenhosabstratos. No fim da sala estava um homem sentado em uma cadeira. Cabelos curtos,como os de um militar, pretos, olhos castanhos claros, pele clara, e uma leve barbamal aparada. Usava roupas semelhantes às de acampar, uma camiseta preta, calçajeans e botas. Ele sorria com o canto da boca para mim. – Olá irmão? Como vai? – ele perguntou. Apenas depois que ele falou quepercebi a lança enorme em suas mãos. Sua voz era um tanto rouca e suave – Desculpe, acho que você se enganou, eu sou filho único. Depois que eu disse isso fui perceber o quão estúpido e ignorante isso soava. – Até onde eu sei – me corrigi, afinal meu pai não me mandou noticias, masacho que aquele cara tinha idade para ser meu pai, aparentava ter seus o que? Vintee sete, vinte e oito anos? Teria que ter sido pai bem cedo, admito. Ele riu, seus dentes eram brancos como a neve e seu sorriso tranquilizador. – Você tem mais irmãos do que pensa. – Serio? Tipo, quantos? – Não sei ao certo, mas mais de cinco. Seu pai tem muitos filhos. 5
  • 6. Comecei a pensar quantos anos meu pai tinha. Eu sempre o imaginava comominha mãe o descrevia, bem parecido comigo (cabelos loiros, olhos azuis cor docéu lá com seus vinte e sete anos quando me abandonou, mas pelo jeito havia algumengano nessa historia...) – Eu sou Erick. – disse estendendo a mão para o homem, ele apertourespondendo: – Me chamo Marte. Sabe por que eu te trouxe aqui Erick? Estava tão ocupado pensando na idade de meu pai que não havia percebidoque estava longe de casa sozinho com um cara esquisito. Por mais que eu quisesse,eu não conseguia sentir medo dele. – Não. Por que me trouxe aqui? – Você vai encarar muitos desafios criança. Você tem um futuro nebuloso ecom muitos perigos. Seu futuro porem é importante, muito importante, para sersincero, queria que um de meus filhos ocupasse seu lugar. Fala serio, o cara estava pirado. Futuro nebuloso, futuro importante (filhos?caramba era tio e nem sabia). – Como é que é? – Você enfrentará muitos monstros garoto. E temo que a força do nosso painão sege o suficiente para te proteger até os dezesseis anos. – O que quer dizer, eu vou morrer? – Espero que não herói, você é importante. Você ainda não sabe do que écapaz. Enfim, eu te trouxe aqui para te ensinar a lutar. – Ensinar a lutar? Ele assentiu. – Você precisará de toda a ajuda que conseguir, pois seus inimigos são muitopoderosos. Venha, pegue uma espada, vamos treinar um pouco. Ele saiu e eu o acompanhei. Ele me deu uma espada, pesada para burro, edepois procurava o escudo certo em meio a vários na mesa. Ela analisava cada umcuidadosamente, como se estivesse procurando o perfeito na grande mesa no meioda sala. Ele pegou um escudo na mão. Era redondo de bronze e liso, apenas comum grande Alfa circulado no meio. – Um presente – ele anunciou – as imagens de suas aventuras ficarãogravadas conforme elas forem acontecendo. – Minhas... aventuras? – Sim, você vivenciará muitas. E precisará estar pronto para elas, por isso vimtreinar você. – Como posso confiar em você? – Vai ter que confiar maninho. Se não tiver minha ajuda, dificilmente vaiconseguir outro deu... outra pessoa para te ajudar. – Quando... hã, vai começar minhas aventuras? – Temo que esta semana rapaz. Ele se virou para mim e pude ver sua lança com clareza. Sua lança era feita decouro no cabo e tinha uma faixa vermelha enrolada em espiral por todo o 6
  • 7. comprimento que resultava em cerca de um metro e largura de vinte e cinco cm. Aponta era sombria. Tinha forma de um bico de um de foguete porem um tantoafiada. Ali, perto da ponta, havia o desenho de um javali de olhos vermelhos. De repente sua lança começou a se transformar até virar uma espada parecidacom a minha. Ele me atacou, e eu levei um corte no braço. Ele sorriu. – Viu porque precisa de minha ajuda? – Escute – eu disse tocando o ferimento – eu queria saber mais sobre o nossopai. O sorriso desapareceu de seu rosto. Ele ficou com a expressão fria e seria. Eleacariciou a lamina da espada e desviou o olhar para o chão. Ele pareceu pensar umpouco sobre assunto. – Vamos fazer um acordo, se você colaborar e se sair bem hoje, eu te contoalguma coisa sobre nosso pai, tudo bem? – Está bem, mas, se eu sobreviver a você, posso saber tudo sobre ele? – Ainda é cedo garoto, cedo demais, mas te concederei uma pergunta. Fiquei pensando em qual pergunta eu faria. Quem ele é? Não, muitoestranho, e ele podia me responder comé uma pessoa. Onde ele mora? Não iriavisitar ele mesmo. O que ele faz? É... podia ser, eu nunca soube nada sobre aprofissão do meu pai. – Pronto para começar? – ele disse com a espada em mãos. Os aspectos eramidênticos aos da lança só que menores (o desenho do javali continuava na lamina daespada, o cabo de couro, e a faixa vermelha enrolada no cabo) – Temos muitotrabalho. Eu assenti. Ele veio para cima de mim, eu desviei (para o lado errado) e eleme acertou no ombro direito. – Você precisa olhar alem do que vê em uma luta. – Como assim? – estava espantado, eu estava com dois cortes, mas eles sequerdoíam. Eles não sangravam, não ardiam, era como se eu não estivesse ferido. Olheipara meu braço e dei um pulo para traz, pois o machucado estava cicatrizando, sóhavia um leve resquício do ferimento que já estava sumindo. – Eu não... memachuquei. – Você não se machuca a menos que eu queira. Mas como eu dizia, você temque ver alem da luta. Você nasceu com um dom para lutar, mas não é o suficientesem treinamento. Você já se sentiu como se às vezes não conseguisse ficar paradoalguma vez? Ou como se tudo estivesse passando mais devagar e você não estivesseno mesmo ritmo que todos? Eu assenti. Senti isso muitas vezes. Parecia que tudo era devagar e que isso meangustiava, o tempo não se alterava, mas eu parecia a mil por hora. – Então, esses são seus instintos. Você tem isso por que é um modo de semanter vivo em uma guerra. Se você conseguir usar esse seu “poder” você podelutar melhor. Tente. – Como faço isso? 7
  • 8. – Concentre-se, defenda-se. Você é capaz de se defender. Ele veio me atacar, tentei me concentrar e consegui. Por uma fração desegundo eu consegui ver o seu próximo movimento. Quero dizer, não verclaramente, mas o seu movimento para a direita. Coloquei o escudo na frente, eletrocou de lado e eu bloqueei novamente e o golpeei tão rapidamente em seu braçoque ele não pôde desviar. O mais estranho é que minha espada sequer o feriu. Foicomo se eu batesse com ferro em ferro. Me afastei de olhos arregalados e boquiaberto. Ele parecia normal (tirando ofato de ser completamente misterioso, vim me visitar do nada dizendo que é meuirmão e saber lutar como um profissional falando das minhas aventuras futuras)não de ferro. – Eu não machuco você e você não me machuca, justo? Assenti, mas anda assim achei estranho. – Tudo bem, mas – tentei procurar a palavra certa – você é de ferro? – Fico vulnerável quando quero. Vamos continuar o treinamento irmão,daqui a pouco você vai acordar e... Caramba, me distraí tanto com os assuntos, lutas e tal que nem percebi queestava sonhando. Agora tudo fazia sentido, um louco que lutava, falava coisas semsentido, de certo eu estava misturando com os livros que li antes de dormir. – Isso é real ou é um sonho? – perguntei – Você está sonhando, mas é real. – Ah, claro – murmurei – ótimo, entendi tudo agora. Ele atacou de novo, mais rápido desta vez, mas me concentrei e desvieinovamente, e o ataquei, ele desviou facilmente dizendo: – Não está com a espada certa garoto, quando estiver vai ser melhor. Ele continuou me ensinando táticas de guerra por horas, como ondeposicionar o escudo no inicio da luta, ataques novos, como desarmar oponentes, ospontos em que se deve golpear quando estiver lutando para desmaiar, paralisarinstantaneamente e até matar. *** Ele se sentou, não parecia cansado ao contrario de mim que estavaencharcado de suor, exausto, com as pernas bambas, as mãos tremulas, e a cabeçagirando. Ele me mostrou outra cadeira ao seu lado e eu sentei largando o escudo e aespada no chão e me avançando na garrafa da água que ele me deu. Houve uns minutos de silencio enquanto apreciava o campo e as armas eolhava minha perna arranhada que ainda não havia cicatrizado. – Então, – eu disse enfim – como me saí? – Para um primeiro dia bem, muito bem. Vou treina-lo todas as noites queeu puder. Aquilo não foi uma pergunta, mas respondi assim mesmo. – Por mim tudo bem, até que foi legal. Bem, já que você disse que eu fuibem... 8
  • 9. – Estava esquecendo de uma coisa – ele disse rapidamente com intenção clarade me interromper – esse escudo, seja lá como você vai chama-lo, ele é seu. – Meu? Mas tipo, como eu vou andar pela casa ou pela rua com um negociodeste tamanho? – Deseje, deseje que ele encolha. – Como assim? Ele vai encolher? – Erick me diga, você tem relógio? – Não, mas... – Gostaria de ter? Um modelo barato não muito chamativo. – É... ta – Então, pegue o escudo – eu obedeci – Você está vendo este símbolo nocentro dele? Assenti – O Alfa? A primeira letra do alfabeto grego. – Sim, muito bem, encoste sua mão nela e imagine um relógio, simples. Fiz o que ele me falou, imaginei um relógio normal que vi na vitrine de umaloja não devia custar mais de vinte reais e o escudo magicamente se transformounele. Fiquei surpreso, mas não muito (afinal era sonho mesmo). – E como faço para ele virar escudo de novo? – Coloque os dedos sobre os botões de Alfa e deseje que ele vire. – Simples assim? – Simples assim. Que horas são? – Seis horas da manhã. – Está na minha hora irmão. Tchau Erick, nos veremos amanhã à noite emseus sonhos. Vê se dorme cedo para podermos ter mais tempo. – Tchau Marte. – Treine e ganhe a guerra! Um trovão rugiu nos céus, um raio caiu perto de nós, a imagem de Martedesapareceu de vez e eu acordei assustado na minha cama. Foi um sonho, pensei,então olhei minha perna e ela ainda estava cicatrizando. Quase caí da cama, o ferimento ia se fechando lentamente até cicatrizar porcompleto. Foi um sonho, comecei a repetir para mim mesmo tentando meconvencer. Olhei minha mão, nela estava um relógio barato igual ao que vi nosonho. Não, isso não foi sonho, foi real. 9
  • 10. Dois Uso uma espada mágica DEPOIS DA noite estranha, acho que meu dia não podia ser mais anormal.E eu estava certo. Fui para aula e foi tudo normal, nada de estranho (a mesmagalera apanhando no recreio, os mesmos valentões batendo e os mesmos professoresfingindo que não veem nada). Meu dia, então, foi completamente normal tirando pela noite. Fui ler oslivros da vovó um pouco, mas fui dormir cedo, queria ver Marte de novo eperguntar sobre meu pai. Não demorou muito para que eu dormisse, pois andeicom sono o dia inteiro porque me cansei em meu sonho anterior. Estava no mesmolugar de sempre, o campo, as armaduras, tudo menos o Marte. – Oi Marte – eu chamei procurando por ele – você está aí? Sou eu Erick. Silencio, não havia ninguém. Comecei a sentir uma presença atrás de mim,apertei os botões do meu relógio e quis que ele se transformasse e ele setransformou em Alfa ligeiramente em minha mão (sim, estava tentando achar umnome para o escudo e acho que Alfa foi o melhor que pude pensar). Virei para trása tempo de bloquear o ataque de alguém, primeiro achei que era Marte, depois vique não. O cara era super estranho. Tinha uns dois metros de altura e usava umsobretudo preto, coturno, luvas, óculos escuros, chapéu e tinha a pele marrommadeira. Em suas mãos estava um porrete de espinhos. Corri desesperadamente pelo campo procurando uma espada e peguei aprimeira que encontrei, esta era mais pesada ainda que a peguei na noite anteriormas não podia me dar o luxo de escolher. Estava escuro exceto pela luz da lua e poralgumas lâmpadas que haviam no local. As “prateleiras” com armaduras faziamcirculo me deixando sem escolha a não ser lutar, que para mim era sinônimo demorrer. 10
  • 11. O bicho veio para cima de mim, me lembrei do que Marte dissera ontemsobre me concentrar e desviar. Fiz isso, desviei para o lado e desferi um golpecontra seu calcanhar e dele começou a sair fumaça. Eu posso feri-lo e ele pode meferir, que ótimo! Ele me deu um tapa e eu caí. Ele levantou o porrete e eu pude verexatamente para onde tinha que sair. Rolei para o lado e levantei a tempo de cortarseu braço estranho do punho ao cotovelo de onde começou a sair mais fumaças quese dissipavam logo a cima, de modo que não formava uma “nuvem” como se fosseuma fogueira. Ele urrou de dor, acho, e tentou me acertar. Eu desviei de novo como se jásoubesse lutar a anos, me sentia bem, me sentia como se tivesse sido feito para lutaraté levar um soco na barriga e cair de cara no chão. Deixei minha espada cairquando apanhei e o “esquisito” a chutou para longe me deixando apenas com Alfa.Foi aí que o momento mais esquisito da noite aconteceu, estiquei a mão para aespada desejando que ela viesse para a minha mão e ela veio. Não havia tempo parapensar em como fiz aquilo, apenas corri em direção ao oponente e o feri no peito,desviei de seu golpe, passei por baixo do seu braço e feri suas costas. Ele estavasentado no chão com uma das mãos no peito e a outra tentando pegar o porrete. – Melhor não – eu disse confiante com a espada em seu pescoço. Esperavaque ele fosse me bater enquanto eu fazia cena, mas ele apenas ficou me olhando erosnando. Do fundo do campo, atrás de uma prateleira saiu um homem batendopalmas. Marte. – Isso foi incrível irmão! Eu achei que ia ter que me meter, mandar ele pararou coisa do tipo, mas pelo que vejo você aprendeu rápido! Isso é ótimo! Nuncatinha visto ninguém alem de mim derrotar um ogro da caverna com tanta facilidade. – Ogro o que? – É um ogro que eu criei em uma caverna para treinar. Esse aí é filhote, masos maiores são bem mais fortes, embora acho que não sege problema para você. – Ah, obrigado Marte. – eu disse enquanto transformava Alfa de volta em umrelógio e largava a espada na prateleira de onde tirei – Eu, bem – começou a me darum mal estar – eu vou sentar um pouco. Sentei em uma cadeira próximo a Marte e tomei um pouco de água. – Não se preocupe Erick – ele disse ainda orgulhoso – é assim mesmo, atéseu corpo se acostumar. – A levar socos na barriga? – Não, a lutar usando os poderes. – Ah, aquela espada é... mágica? – Não irmão. Você é, você pode fazer isso. Você herdou os poderes dopapai. – Que poderes? – Harg maninho, sabendo lutar desse jeito como ensinei, quem precisa depoderes?! – Sobre o nosso pai, o que ele faz? 11
  • 12. – Cuida do mundo. Ah, meu pai cuida do mundo, que legal! Vou levar ele na escola no dia daprofissão. Que idiota, como ele ia cuidar do mundo? – Você vai conhecê-lo quando chegar a hora certa. Só ele pode te dizerquando é. Vamos treinar? – Vamos, mas como eu faço aquilo com a espada? Ele tentou me explicar dizendo que era só eu querer, mas disse que meucorpo não estava preparado ainda e muitas coisas sem sentido que não conseguientender. Eu e ele lutamos um pouco e depois a imagem dele começou a tremeluzir. – Está na minha hora irmão. Você começará a colocar a prova seutreinamento daqui a alguns dias. Eu não entendia bem o que ele queria dizer com colocar o treinamento aprova, mas acho que deve ser mais um ogro da caverna ou coisa assim que ele vaime dar para treinar. *** Sexta feira chegou, eu todos os dias treinando a noite com Marte eaprendendo coisas de guerra. Na noite passada ele me ensinou aonde deve atingirum ogro adulto para desarma-lo (é na parte de baixo de seu punho, porque láficavam as correntes e a pele estava machucada), ensinou táticas como se sua espadafor menor que a do oponente tente sempre ficar mais perto, essas coisas. Era noite, minha mãe e eu estávamos jantando (pastéis que ela ganha dapastelaria quando sobra no dia). Eu comentei com ela que estava com sono e logoiria dormir. Ela estava me achando estranho nos últimos dias. Eu não gostava de irdormir cedo, mas andava indo cada dia mais cedo pra cama. – É que eu ando cansado – eu disse – e gosto de dormir. – Você está de férias Erick, não precisa ir se não quiser. Não tem mais aula,pode dormir até que hora que quiser. – Eu sei, mas estou realmente com sono. Fiquei tentado a contar tudo a ela. Sempre contei tudo para minha mãe, masaquilo era loucura e a deixaria preocupada então achei melhor mentir, dizer que eracansaço mesmo. Ultimamente à tarde eu andava brincando com Alfa e uma espátulada minha mãe (a espátula era a espada) refazendo os golpes que Marte me ensinara. – Vamos conversar um pouco – ela disse – Eu estava pensando, podíamos irna sua avó este final de semana, o que você acha? Eu adoro ir na minha avó, quando ela vai para o sitio é mais legal ainda.Gosto de brincar com os animais, andar a cavalo, e lá eu podia brincar com meuprimo David a vontade sem o pai dele se implicar. Nossa ia ser tão legal, ia podermostrar ao David o Alfa, os golpes, a gente podia brincar de corrida com cavalos,jogar juntos... – Eu ia adorar, ela está no sitio? – Está, o David está junto com ela. Eu andei pensando se você não querpassar a semana lá com eles. 12
  • 13. Ia ser muito legal, mas deixar minha mãe sozinha não era bom. Ela não gostade ficar sozinha e estava me propondo para ir. Fiquei pensando um pouco. – Mas e você? Vai ficar sozinha? – Sou grande Erick, sei me cuidar. – Não tem problema então, se eu quiser ficar lá? – Não. Prepare suas malas, vamos amanhã pela manhã. Fui para meu quarto preparar as malas, ia ser super legal, minha vó, eu eDavid, ela sempre dava livros para nós dois. Nunca entendi porque só pra a gente,no natal os outros ganhavam roupas, brinquedos, nós dois sempre ganhamos livrose jogos como mytomania e outros do tipo. Alfa ficou em meu braço, afinal precisava dele a noite para treinar com Marte.Coloquei meus assessórios de toalete, roupas de banho (no sitio da minha vó tempiscina, embora eu não goste muito de água. Quase sempre quase me afogo ou coisaassim). Coloquei uns livros que vovó me deu para ler na viagem ou coisa assim. Deitei, querendo dormir o mais rápido possível para falar com Marte. Dormie apareci no mesmo lugar de sempre, ele me esperava com um sorriso no rosto. – Pronto para mais um dia de treinamento? – Sim, acho que sim. E aí vamos aprender o que hoje? – Primeiro uma pergunta, Erick. Se eu me rebelasse e lutasse contra você.Vamos dizer, eu seria poderoso, poderia te reduzir a pó se quisesse, o que vocêfaria? Não entendi o motivo da pergunta. Ele estava pensando em se rebelar? Ele iame reduzir a pó? Dei de ombros. – Eu te enfrentaria. – seria a única opção já que correr eu não poderia cogitarse não ia virar pó instantaneamente. Ele riu como se aquilo o animasse. – Ótimo, você é corajoso e ousado e é isso que mais gosto em você irmão.Vamos lá. Treinamos táticas de guerra e lutamos um contra o outro algumas vezes. Umadelas eu ganhei, então ele disse que ia aumentar o nível de dificuldade e eu perdi asoutras duas seguidas. – Você tem um gênero forte. – ele disse enquanto bebíamos água – É umgrande líder, difícil de dobrar e autoritário. – E isso é bom? – Oh céus, Erick, claro que é! Você é um líder nato, espero ver vocêliderando exércitos um dia. Bem, tenho que ir – ele parou como se sentisse umpressentimento ruim – na ida, quando você estiver indo para a sua vó, ele vai... elevai te achar. A imagem tremeluzia, eu não o enxergava direito. – O que? Do que você está falando? – Aceite a minha benção. Aceite e você lutará melhor. Aceita? Fiquei confuso, por um momento não sabia o que responder. Quer dizer eunão sabia de nada, nada fazia sentido, mas senti que tinha que ser rápido e resolviaceitar. 13
  • 14. – Eu, Marte, deus da guerra dou minha benção a Erick Griffin, em suaconsciência. Eu Marte divido parte de meu poder com esse mortal. Que a guerraviva em Griffin como vive em mim! – ele gritou e desapareceu Um trovão rugiu nos céus, um raio deve ter caído perto de mim, mas nemsenti. Eu estava me sentindo ótimo. Por um momento pude ver uma fraca luzdourada entrando em mim. Comecei a me sentir forte, como se sentisse que a lutaestava em mim. Olhei para meu punho. Lá estava uma marca que eu nunca tive. Uma marcade duas espadas cruzadas na parte de baixo do meu punho estava lá, como se eutivesse feito uma tatuagem. Acordei em minha cama. Sentei e olhei as horas eram cinco horas da manhã.Marte foi mais cedo hoje. Olhei meu punho, a marca estava lá. Resolvi levantar. Oque mais me intrigava era a frase que ele disse: “na ida, quando você estiver indopara a sua vó, ele vai... ele vai te achar”. Conferi minha mala, estava tudo lá. ConferiAlfa, em meu pulso. Conferi as horas: seis horas, minha mãe levantou, entramos nocarro e saímos. Comecei a pensar no que ia acontecer. Ele vai te achar, quem? Quem serápoderia estar interessado em mim assim. Só sei que isso não parecia nada bom. 14
  • 15. Três Viro biscoito canino O QUE EU mais gosto na minha cidade é o transito. Sempre engarrafado,ou com acidentes, ou com greves e coisas do tipo. Eu estava nervoso afinal alguémia me achar nesse caminho hoje, e ainda tentava assimilar aquilo que aconteceu nanoite passada com Marte. Tenho que parar de pensar nisso, isso só me deixa pior. Comecei então a brincar com Alfa. Olhar os botões, e trocar ele de formaescondido da minha mãe. Comecei a ficar com frio, estava só com a camiseta pretada escola, calça jeans e tênis porque era verão e no sitio geralmente é mais quente doque na cidade. Revirei a mochila procurando um casaco mas não achei, talvez eutivesse esquecido de colocar roupas de inverno. – Seu irmão andou te visitando, não foi? – minha mãe indagou como setivesse certeza disso. Fiquei sem palavras, ela não sabia dele, eu acho. Quer dizer, ela conhecia odeus da guerra (como Marte se intitulou naquela noite). – Eu imaginei que ele viria ver você um dia. Mas isso me deixa com medoErick. Ele sempre te protegeu e disse que ia ajudar, mas estamos bem. – Você conhece Marte? Vi o rosto de minha mãe pelo espelho retrovisor do carro e a expressão erade quem é Marte?. Ela pensou um pouco, talvez lembrando da historia, oulembrando do nome, não sei. – Marte... – sua voz falhou – Ele sempre te protegeu Erick. Você sabeporque tem uma vida tranquila? Eu lembro quando você comentou sobre aquelesenhor de um olho só que te seguiu até parada quando vinha da escola... – Um ciclope – eu interrompi – ... Ele poderia ter seguido você para dentro do bairro, ou invadido nossacasa, mas ele não pode porque Marte nos protege. Ele não deixa que os mausentrem para dentro de nosso bairro para proteger você. – Por isso não visitamos muito a vovó? Porque é arriscado sair. – Sim, exatamente. 15
  • 16. – Mas como Marte pode ter esse poder de proteger o bairro? – É seu pai. Ele era diferente de todos, Erick. Ele era simpático, formal, eleparecia... poderoso. – minha mãe virou-se ligeiramente para mim e sorriu – Ele eracomo você... Eu olhei para frente e tinha um cachorro na frente do carro, o cão era enormee negro. Seus olhos eram vermelho sangue e ele tinha... três cabeças? Sim. – Mãe! – eu gritei. Ela freou o carro o máximo que pôde, mas o carro bateu no cão. A estradaestava deserta, só o nosso carro e o cachorro estranho. Ele vai te achar, Martedissera. Será que ele estava falando desses cachorros monstros? Desci do carro olhando Alfa em meu punho. O cachorro estava bem, mas ocarro estava amassado na frente. O cachorro de três cabeças é de ferro! Ele olhoupara mim e rosnou, voltei correndo para dentro do carro. – Aqui dentro somos alvos fáceis filho – minha mãe disse. – temos quecorrer! Já estávamos perto de uma floresta, perto do sitio da vovó. Olhei pela janela.O cão começou a crescer até ficar com uns quatro metros de altura. Joguei minhamochila nas costas, minha mãe e eu saímos correndo na hora certa, demos doispassos e o Cérbero pegou parte do nosso carro com a boca. Nos enfiamos no meio das arvores, quis que Marte tivesse me dado umaespada também, assim seria mais fácil de enfrentar um cão gigante de três cabeças.Comecei a seguir uma trilha que dava perto do sitio da minha vó, esperando que ocão não nos achasse. – Erick, temos que chegar no sitio da sua avó, lá é seguro, temos... Uma sombra abaixo dos meus pés me fez olhar para cima, um pedaço donosso carro (grande o suficiente para matar a mim e a minha mãe) estava vindo nanossa direção por cima de nossas cabeças. Gritei para minha mãe se abaixar e elaabaixou, o carro passou por cima da gente e caiu em frente a nossos pés. Corremospara a direita, mas o Cérbero estava na nossa frente. Ativei Alfa e minha mãe ficousurpresa. O cão deu uma patada no meu escudo fazendo três arranhões que logosumiram. – Aí do meio – eu gritei – a da direita te chamou de feia. Por um momento eu acho que as duas cabeças iam brigar, mas a da esquerdapuxou a orelha delas e trouxe-as para a realidade. Uma delas me jogou paracima, enquanto eu caía pude ver outra pegando minha mãe pela blusa. Encostei emAlfa, caí no chão e desmaiei. Geralmente eu não tenho pesadelos, coisa que começou a mudar depoisdaquele dia... Eu estava em um lugar escuro, rodeado de fogo escuro. Era um belolugar, admito. Feito de mármore preto no chão com desenhos de morte (é, essesdesenhos não eram bonitos) e de tortura que acho melhor eu não descrever, asparedes pareciam ser feitas da mesma coisa mas pareciam se mexer conforme ovento frio escoava na sala. Quatro estatuas de um homem, um homem de cabeloscurtos e escuros com barba até um pouco abaixo do queixo, ele usava uma 16
  • 17. armadura de guerra escura com detalhes de fogo por toda ela, segurava em sua mãouma espada comprida com uma caveira grande no cabo, e em sua outra mão umelmo. O elmo era diferente, não era um elmo comum como os que vi nos treinoscom Marte, ele era como uma coroa, só que preto, e parecia mais poderoso do queum simples elmo, mesmo sendo estatua. Ouvi vozes e resolvi segui-las, passei por uma porta e dei direto a uma sala detrono. Um trono alto, muito alto como se alguém de uns três metros de alturasentasse ali estava no fundo da sala. Um homem igual a estatua estava de pé. Usavauma túnica vermelho sangue (o mais bizarro é que parecia sangue mesmo, a roupameio que se mexia involuntariamente), sandálias, tinha a pele pálida, era meiomagro, cabelos pretos curtos e ondulados, barba escura até pouco abaixo do queixoe os olhos que expressavam medo e terror, não que ele estivesse com medo, mas queme deixou com medo e terror. Seus olhos eram negros (todo negro, sem partebranca) como as sombras, não consegui olhar nos olhos dele por muito tempo,aquilo me torturava. – Você sabe o que está me pedindo? – o homem gritou para a outra pessoa.A outra pessoa era baixa, porte atlético, de um jovem talvez, usava uma capa preta eum capuz e estava de costas para mim então não pude ver seu rosto. – Já tentamosisso muitas vezes e fracassamos... – Eu sei pai, mas dessa vez tenho uma coisa que não tínhamos antes – disse aoutra pessoa. A voz mudava o tom varias vezes me impedindo de identificar ououvir claramente. – Uma nova peça no jogo. A pessoa se moveu até a mesa. Havia uma mesa no centro da sala, uma mesade concreto alta com umas peças no centro. Eram estatuetas de deuses gregos,monstros e pessoas. O estranho colocou uma nova peça na mesa, uma estatueta malfeita de um menino com um raio na mão. – Acha que o filho de Zeus pode nos ajudar? – indagou o homem – Acha queele vai concordar em nos ajudar? – Se ele não souber para quem estiver lutando, não vai questionar. E temosseu motivo para continuar, pegamos a mãe dele, ele vai lutar. – Talvez tenha razão, talvez ele colabore conosco. Não é fácil encontrar ummestiço treinado por um deus por aí. Quanto ao elmo, tenho que pensar... – Pai, – o garoto insistiu – eu tenho que ir, tenho que estar de espião econfrontar os guardiões, mas sem o elmo fica difícil escapar. O homem bufou, ele pareceu me perceber na sala, encarou o lugar onde euestava. Não me mexi, talvez fosse pior se me mexesse. E mesmo que eu quisesseparecia que ele tinha me petrificado. – Vou empresta-lo a você, mas terei que omitir a legião, sabe como eles sãoignorantes. Terei que agilizar dessa vez, os deuses estão desconfiando, temo quePoseidon tenha desconfiado depois da ultima vez que seu filho escapou do forte. –ele fitou o filho(a) com raiva e terror – Você não pode deixar que o filho de Zeusescape, se ele chegar ao Olimpo, isso vai ser terrível! Eles podem anular ojuramento! 17
  • 18. – Ele não fugirá, enquanto sua mãe estiver presa ele vai permanecer conosco. Um frio se apossou de mim, e tive a sensação de que “o garoto” de quemfalavam era eu. – Você deve ir, leve o elmo e tome cuidado, espero que tenhamos êxito destavez. – o homem disse e a outra pessoa desapareceu em sombras. Trimmmmmmmmmmmmmmm. Um sinal, como um sinal de escola tocou eeu acordei, estava deitado em uma sala escura e pequena. Dois beliches haviam nela,eu estava na parte de cima do da direita com uma dor de cabeça horrível. Por ummomento pensei que acordaria na escola, talvez eu estivesse dormindo na aula etudo fosse um pesadelo, mas infelizmente não estava. No beliche ao lado, na cama de baixo estava um garoto, de uns treze,quatorze anos talvez. Cabelo curto e castanho claro cortados em forma decogumelo, olhos verdes amarelados, vestia um casaco azul por cima de uma blusabranca, calça jeans e parecia estar tão perdido quanto eu. – Sabe onde estamos – eu e ele falamos juntos em uníssono – não. –respondemos juntos de novo. Uma pessoa levantou, estava abaixo de mim no mesmo beliche. Uma garotaque devia ter entre doze e treze anos de cabelos castanhos claros ondulados, olhosverdes, pele clara. Usava uma blusa rosa, calça jeans e tênis e estava com cara dequem se perdeu. – Vocês dois sabem...? – ela começou a perguntar – Não, nenhum de nós sabe que lugar é esse. – respondi Alguém bateu na porta, na verdade era mais como se estivesse esmurrando aporta. A pessoa nem esperou nós abrirmos e já foi entrando com cara de raiva pura.Um cara moreno e forte com uma barbicha e cabelos curtos militares, pretos. Eleestava com uma couraça e segurava um pedaço de madeira como se quisesse nosespancar. A sua parte de baixo porem era meio perturbadora, em sua cinturacomeçava a ter pelos e seus pés eram de... bode. Pernas peludas e cascos sujos delama. – Uou! – eu disse, e vi na expressão dele que perdi um bom momento de ficarcalado. – O que foi? Nunca viu um fauno antes? – ele rosnou – Para ser sincero não. Olhei para os outros, eles estavam tão assustados, surpresos e espantadosquanto eu. – Novatos! – ele resmungou – Sempre incrédulos e céticos! – ele respiroufundo, tomando fôlego como se dissesse tenho que se gentil, então vou meapresentar – Eu sou Aron, o treinador histórico, o que treinou grandes heróis... – Esse aí não é Quíron? – a menina disse – Não, menininha simpática – o fauno falou entre dentes – Quíron treinouos heróis mais famosos, mas eu treinei muitos também. Conhecem aquele garotoque matou um cão infernal? 18
  • 19. Fizemos que não com a cabeça e ele resmungou algo sobre jovens chatos quenão conhecem nada. – Vou parar de explicar isso, vocês não vão entender – o entender soou maiscomo um conhecer – venham para fora, tenho que mostra-los porque estão aqui, oque tem que fazer e blá, blá, blá. Saímos do quarto minúsculo e lá nos esperava um campo. Um campo bonitocom flores, arvores, um riacho correndo firme a direita. O dia estava lindo, o solbrilhava por trás das arvores, poucas nuvens no céu extremamente azul e um ventoagradável que passava pelo local aliviando o calor. Era um belo lugar, admito. Emcircunstancias diferentes eu teria adorado fazer um piquenique ali, ou brincar commeu primo, mas agora estava realmente preocupado com o que havia acontecidocom minha mãe, ou onde eu estava e o que teria que fazer. Comecei a notar outras pessoas, a maioria crianças, saindo de outros quartos,que vistos de fora eram cabanas pequenas. Havia duas fileiras delas, mas apenasquatro estavam inteiras, as outras estavam destruídas. O Aron nos levou até ocentro do campo e se virou para um outro cara. Esse outro cara tinha cabelosmarrons na altura do ombro , barba comprida e a parte de baixo era de cavalo.Achei que estava ficando louco. Sátiros e centauros, estava maluco, mas só acheiisso porque não sabia o que estava por vir. – Bem, crianças, – começou Aron – vocês agora são prisioneiros. – todos nóscomeçamos a murmurar – É, isso aí, prisioneiros, vão fazer o que eu mandar, nãotem saída, não tem escolha e não tem reclamação. Agora vocês vão trabalhar... – Calma Aron – disse o centauro se aproximando. Sua voz era muito suave etranquila – ele está nervoso, estamos aqui a muito tempo. Vocês serão treinadospara... ajudar eu e Aron a pegar uma coisa. Aron largou o pedaço de pau e pegou uma flauta resmungando, comosempre. Quíron se posicionou no meio do circulo formado pelos jovens que saíramdessas cabanas. Deviam ser umas quinze pessoas fora Aron e Quíron. A musica queAron tocava na flauta era calma e me deixou com sono, lutei para ficar de pé. – Uma vez – Quíron começou – três irmãos passeavam em uma praia escura.– sua voz calma começou a me tontear, e eu comecei a ver... ver o que ele contava –Eles tiveram uma infância difícil e haviam fugido de casa naquela noite. Vi três jovens andando em uma praia escura. Não podia ver seus rostosclaramente. Era como uma escadinha, um mais alto, outro mais ou menos e outromais baixo. Eles andavam um ao lado do outro, o mais alto parecia maispreocupado, mas o menor que dava as ordens. – Eles estavam dividindo as coisas quando acharam algo mágico – Quíroncontinuou, sua voz estava mais baixa dentro da historia, mas ainda sim conseguiaouvir – eles acharam algo que mudariam suas vidas. Um dos meninos (o do meio) pegou uma caixa no chão, ele a abriu e dentrohavia quatro cristais brilhantes em forma de losango. Um era azul marinho e estavano canto, o outro era marrom madeira, o outro era vermelho alaranjado e o ultimoera azul claro da cor dos céus mas pude notar relâmpagos dentro dele. 19
  • 20. – Os jovens sabiam – Quíron continuou – que o que encontraram tinha osmaiores poderes do mundo. Eles decidiram então que o mais velho ficaria com ofogo, o do meio com as águas e o mais novo com o céu. Cada um pegou um, como Quíron citou, mas o marrom ainda estava lá enenhum deles se apossou. Minhas pernas estavam tremulas, a cabeça ainda doía e osono aumentava por causa da musica que estava cada vez mais alta e clara na minhamente. Claro, já havia lido muitas vezes sobre a musica hipnotizadora dosfaunos/sátiros. – A terra sobrou, eles eram três e o quarto elemento sobrou. Eles decidiramentão dividir o poder do ultimo. A terra estava em parte para os três. Eles erampoderosos, mas precisavam proteger os cristais, os poderes eram cobiçados, elesprecisavam de seres fortes o suficientes para proteger os cristais daquele que comintenções impuras que desejasse aquele poder. Cada um deles convocou umguardião para proteger seu poder, e é por isso que vocês estão aqui. Saí do transe que eu havia entrado, ainda com sono, as pernas moles, a cabeçadoendo, quase desmaiei, mas me apoiei em um menino que estava ao meu lado.Olhei em volta, não foram todos que sofreram igual a mim, na verdade acho que sóeu, a garota do beliche e mais um que ficamos abalados (embora eu tenha sido oúnico que perdeu o equilibre), não sei se os outros tinham visto o que eu vi, mas seique isso foi cansativo. Todos começaram a reclamar sobre o assunto. – Você quer que a gente proteja esses poderes? – um reclamou – Por que a gente terá que fazer isso? – indagou o outro – Nós... – a menina do beliche disse, sua falhou, ela tomou fôlego econtinuou – nós teremos que busca-los não é? Fez-se silencio, todos a olhavam e pensavam. Se existissem esses poderescomo a historia relatou, fazia sentido que alguém quisesse pegá-lo, mas não faziasentido porque essa pessoa raptou crianças. E ainda sim, como a menina do belichepodia saber disso? – Sim – Aron disse ainda com a flauta na mão – vocês estão aqui porque ochefe quer os cristais. Ele deseja os poderes e vocês talvez possam pegá-los. – Por que ele mesmo não pega? – o meu companheiro de quarto falou – Por que ele não pode – disse Quíron, com calma – a lenda diz que aquelede coração impuro não pode pegar o poder. Por isso temos vocês. – E por que faríamos isso? – um outro menino perguntou Me lembrei do sonho que tive, a minha mãe estava presa, talvez não só aminha, talvez a de todos que estavam ali. Esse era o motivo, eles iam nos fazer pegaros poderes em troca de nossas famílias. – Nossas famílias – eu e a garota do beliche murmuramos juntos. Nós nos olhamos, por um momento tive a sensação que ela também haviatido sonhos sobre o assunto. Fiquei feliz por não ser o único anormal e esquisito domundo. Aron preparou a flauta e eu vi minha mãe, ela estava meio transparente o queme causou uma dor no peito. Ela não podia estar morta, se estivesse eu não teria 20
  • 21. por que lutar aqui. Mas ela também não estava completamente bem. Parecia umaaura espectral presa, estava adormecida em um lugar escuro cujo eu não pudeidentificar, mas se parecia muito com o lugar dos meus sonhos. 21
  • 22. Quatro Apanho para uma garotinha EU ESTAVA abalado e não parecia o único, acho que todos viram o queeu vi desta vez. Estávamos todos espantados e pálidos e nós não sabíamos o quedizer até Quíron começar. – Eu estou aqui a muito tempo, treino jovens e mais jovens para a capturados poderes e sempre tenho que fazer isso de novo... – Sabem por que? – interrompeu Aron – Porque todos eles morrem! Elesnunca voltam vivos! E vocês não vão ter um destino diferente, adolescentes fracos! – E o que acontece com a família de quem morreu? – eu perguntei – Morrem junto! – disse Aron impaciente como se isso fosse obvio – Eu nãoaguento mais treinar crianças! – Aron, acalme-se. – disse Quíron Eles já estão aí? Ah sim, vejo que estão. Disse uma voz na minha cabeça, umavoz conhecida... a voz do homem do meu sonho, o que conversava com ofilho. Vocês serão classificados em equipes conforme a cabana em que estavam, asda direita são um e dois, as da esquerda três e quatro. Falta alguma coisa? Ah sim,Aron cuida da um e dois e Quíron da três e quatro. Que maravilha ia ter queaguentar Aron. Minha cabana era a dois então ia ter que aguenta-lo. Quíron fez um sinal para nos dividirmos e vi que não era só eu que tinhaouvido isso, todo mundo tinha escutado. Nos separamos, cada qual para o ladocorrespondente do instrutor. Que comece o treinamento. Vocês vão sair amanhã, vão trazer o cristal daterra a mim e veremos como vão se sair. Aron olhou para nós com desprezo, depoisdisse: – Alguém ai sabe lutar? Eu e a menina do beliche (preciso aprender o nome dela, “menina dobeliche” fica estranho) levantamos a mão. – Sabem manusear uma espada? Assentimos e ele pareceu surpreso. Ele nos levou até um canto da florestaonde havia uns escudos e umas espadas. Na hora me lembrei de Alfa, olhei meupulso e estava sem relógio. Havia perdido ele talvez, ou tivessem me confiscado.Apalpei o bolso da calça e tinha um volume lá, peguei e era Alfa, ainda bem. 22
  • 23. Coloquei ele no pulso sem Aron e a garota ver e depois os segui até a mesa com osescudos e espadas. – Mostrem – disse Aron. – O que? – eu perguntei, por um momento achei que ele estava falando deAlfa, mas como falou no plural... – Falaram que sabiam lutar, mostrem. Provem, lutem. – ele murmuroualguma coisa como crianças burras. Eu e ela trocamos olhares que diziam ele é louco. A menina se dirigiu até amesa com as espadas e notou uma diferente das outras. A espada era de aço ouprata não sei, era brilhosa, tinha alguma coisa escrita mas não consegui ler. Entreseu cabo e sua lamina tinha três laminas pequenas, ao final da terceira um desenhode uma águia se formava (a primeira e a segunda eram as asas e a terceira formava acauda). Seu cabo era de couro com tiras de prata e na ponta do cabo havia doisraios desenhados como pequenas estatuetas. – Se eu fosse você não tentaria essa aí menina. – Aron advertiu – Muitos játentaram e todos sempre se decepcionaram. – Como assim? – ela perguntou – Tente levantá-la e verá. Ninguém conseguiu em cinco anos... – Você está aqui a cinco anos? – indaguei surpreso. Quando Quíron disseque estavam ali a muito tempo, achei que era uns dois ou três meses mas não cincoanos. – Sim, e ninguém nunca conseguiu levantá-la ou usá-la. Acho que ela podeestar aqui a espera de alguém em especial. Tente, pode ser você. – ele dissedescrente Ela encostou na espada e recuou ligeiramente segurando a mão que haviatocado o objeto. – Me queimou! – Isso sempre acontece. – disse Aron decepcionado – Você menino, tentepegar. Me aproximei com cuidado e encostei na espada, nada me aconteceu.Levantei ela e era perfeita! Nem leve demais e nem pesada demais como as quetinha no acampamento do Marte. Senti como se ela se conectasse comigo, umacarga elétrica passou de mim para ela e vice e versa. – Você... conseguiu – ele soltou um rosnado meio parecido com um sorriso oque me deixou surpreso –Isso é um sinal. Bem, vamos lá, pegue uma espada e umescudo, garota. E você, rapaz, trate de arranjar um escudo. Ah, qual os nomes devocês? – Erick – Selina – Tudo bem, Erick e Selina. Arranjem armas, eu já volto. Vou chamarQuíron. 23
  • 24. Ele saiu saltitando em seus cascos imundos floresta afora nos deixandosozinhos. Selina me encarava com o canto do olho enquanto olhava as espadas eparecia esconder alguma coisa. – Então – eu disse – nenhum desses escudos parecem bons, não acha? – Os escudos são bons, não gostei das espadas. – ela tirou uma corujinha deprata do bolso – Sei que você tem uma arma, vamos fazer um trato: não contosobre a sua e você não fala sobre a minha, ok? – Trato feito. Transformei Alfa e ela abriu a asa direita da corujinha que se transformou emuma espada de tamanho médio em suas mãos. A espada tinha uma coruja no cabo,na verdade era como se houvesse uma coruja espelhada e era um tanto aterrorizante.Devia ser feita da mesma coisa que a minha, talvez, aço ou prata quem sabe. – Titânio primordial – ela disse como se estivesse lendo minha mente – é aúnica lamina mortal para monstros, dizem que pode ferir até mesmo imortais. – Você já passou por isso antes? – Não exatamente, já lutei pela minha vida antes, Erick. Mas não temostempo para isso agora. Aron saiu da floresta com Quíron. Eles olharam e fizeram sinal paracomeçarmos a lutar. Selina havia dito que já havia lutado por sua vida antes, issonão soava como que ela ia ser um adversário fácil. Ela pegou um escudo da mesa eperguntou se eu estava pronto, assenti e ela me atacou. Com os poderes que recebi de Marte eu parecia saber tudo, onde ela iagolpear, como bloquear, tudo. Bloqueei seu golpe que teria me atingido no ombro econtrataquei no mesmo lugar. Ela defendeu, sorriu de modo travesso, me atacou eeu defendi de novo, mas não era isso que ela estava fazendo, enquanto defendi ogolpe ela me deu uma escudada na barriga e eu caí. Aron e Quíron observavam sempiscar a luta. Eu me levantei e ataquei, ela defendeu mas eu fui mais rápido desferindo umgolpe contra seu braço direito. Ela me chutou e depois me cortou o braço direitotambém. Começamos a lutar empatados, defendendo todos os golpes até que euconsegui desarma-la e coloquei a espada em seu pescoço. Achei que havia vencidoaté ela bater em minha espada com o escudo com tanta força que tirou-a de mim eme bateu com o escudo na cabeça. Ela se virou e correu atrás de sua espada e eu atrás da minha. Quando estavaalcançando a minha uma lamina passou de raspão em meu braço e prendeu minhablusa na arvore (ela havia jogado uma espada comum em meu braço). Selina veiocaminhando com sua espada em mãos e antes que eu pudesse levantar Alfa parabater ela colocou a espada em meu peito e segurou meu braço. – Você luta bem Erick, – ela disse – mas é impulsivo e previsível, se tivesseum plano ganharia com certeza. Aron veio batendo palmas com um enorme sorriso no rosto como se aquilotivesse salvado seu dia. 24
  • 25. – Muito bom! – ele exclamou – Acho que vocês dois tem chance desobreviver. – Chance? – eu disse enquanto tirava a espada da blusa – Ah, obrigado,melhorou o dia. – O que vamos enfrentar? – Selina perguntou – Não tenho permissão para dizer, mas vocês dois são incríveis! Quemtreinou vocês? Nós dois fizemos silencio, ele pareceu notar algo estranho, então insistiu. – Quem treinou vocês? Falem. – Meu irmão – eu disse – Minha prima – respondeu Selina. – Vocês não precisam de treinamento. Estão prontos para a batalha, notreinamento a gente ensina muito menos do que vocês sabem. Vocês podem nosajudar a treinar, ou ajudar a encontrar os cristais ou guardiões. – Fico com a segunda opção – Selina disse – Prefiro a primeira – eu disse – Tudo bem, podem fazer cada um o que quiser. Ou podem fazer os dois asduas coisas. Ele nos conduziu até a salinha dos beliches e nos entregou papeis, um bolodeles, folhas antigas ou pergaminhos. Aron disse que devíamos organizar edescobrir os guardiões conforme aqueles papeis. Eu odiei, gosto de estar em açãonão de ficar parado. – Fogo, quem pode estar para o fogo? – eu disse – Um dragão talvez – Selina disse – Não há muitos animais, são só dragão,fênix... acho que é isso. – Olha aqui, tem uma coisa sobre... línguas de fogo, acho que é isso. – Deixa eu ver – ela disse pegando o papel – ta escrito, ilhas de fogo. Olhando de longe parecia que estava escrito em outra língua, as línguas defogo pareciam mais com Νησιά της φωτιάς. Pisquei e olhei de novo e as letrasestranhas ainda estavam lá. – Que língua é essa? – perguntei espantado – Isso é... latim? – Grego antigo, – ela respondeu – ilhas de fogo. Separa ali naquele canto oque tiver a ver com fogo. Alguém bateu na porta. Falamos para entrar e ele entrou. Um menino decabelos pretos, olhos negros, uma pinta na bochecha, devia ter seus quinze,dezesseis anos mas era de porte atlético. Usava armadura de couro e a espada nabainha. – Licença – ele disse entrando – é aqui que as pessoas descobrem sobre osguardiões? – Bem vindo ao clube. – eu disse – Estamos tentando desvendar o fogoprimeiro. – Na verdade não – Selina disse – estamos lendo os pergaminhos eorganizando qual é qual. Testamos o fogo por que as opções são poucas. 25
  • 26. – Ah, tudo bem, vamos ver se eu sei alguma coisa. Não sou muito inteligente,mas não custa tentar. – Já sabe lutar? – eu perguntei a ele – Já, minha família é meio que “bem de vida” – ele fez aspas com os dedos –então eu fazia aulas de esgrima no tempo livre. Talvez por isso que raptaram, talvezqueiram resgate. E vocês, também são ricos? Eu e Selina fizemos que não com a cabeça. – Eu sou de uma família pobre do sul. Não tenho muito a oferecer – eu disse– o resgate seria baixo. – a não ser que minha avó pagasse, mas não quis entrar emdetalhes. – Eu não tenho muito dinheiro, nada a oferecer a eles. Afinal, nem sei o quequerem comigo. – Selina disse – Bom, temos que continuar, temos muito trabalho. – Tem razão – o rapaz disse – ah, ia me esquecendo, sou Bruno. – Erick – Selina Ele se sentou ao meu lado e começou a analisar os papeis. Ele fez uma caracomo se aquilo fosse fácil, muito fácil. – Aqui, os olhos de pedra, górgonas! – Selina exclamou como se fosse obvio,já havia lido essa muitas vezes mas não associei uma coisa com outra – Como nãovi isso antes, pedras, terra, claro! – Você é bem inteligente – Bruno disse a ela – para a sua idade, muitointeligente. Talvez por isso tenham escolhido você. Não achei aquilo nada de mais, afinal ela já tinha lutado pela vida, devia saberde algumas coisas. – Obrigada, ah, olhe aqui o repouso da... – ela pareceu ter dificuldade de ler– coruja? –É, coruja – eu confirmei – alguma floresta ou coisa assim? Tipo, é lá que ascorujas repousam não? – É – Bruno concordou – mas não deve ser tão assim. A gorgona não estavaescrito, tipo, gorgona. Quero dizer a coruja pode ter um sentido figurado, símbolo,código, marca... – Parthenon! – eu exclamei – A primeira coisa não é gorgona? A Medusa eAtena tiveram um desentendimento e... – me interrompi, Selina me encarava ecomecei a pensar que podia ter dito algo errado. – Você não é tão burro quanto eu pensava Erick. – ela disse – Tem razão, fazsentido. – Muito obrigado pela parte que me toca. – Ei, isso foi um elogio! – Ah claro, você é muito gentil. – Ah, fala menos e trabalha mais. – ela disse – Estou trabalhando se você não percebeu. – resmunguei – Não, eu não percebi 26
  • 27. – Ei – Bruno disse – vocês já se conhecem não é? – eu e Selina fizemos quenão com a cabeça – Serio, eu achei que se conheciam, vocês parecem que seconhecem e que não são bons amigos... – Graças aos deuses eu não conheço ele – ela bufou – Ah, cala a boca. – Você é tão idiota. – Você é tão chata. – Insuportável – Ah, eu...? – Chega – disse Bruno calmamente pondo a mão no meu ombro – acalmem-se, não briguem. Temos a Medusa no Parthenon as ilhas de fogo, precisamos demais dois, os guardiões do ar e água. Começamos a trabalhar de novo. O motivo da briga era meio besta, mas dealgum modo estava com raiva como se a conhecesse e não gostasse. Alguma coisaassim. Aron abriu a porta com cara de decepção de novo. Ele nos encarou com carabrava e depois tentou aliviar a rispidez na face, mas não funcionou. – Venham, vamos começar um jogo. Um jogo comum no acampamento... –Aron se interrompeu como se aquela palavra o trouxesse lembranças ruins, ou boas– Ah, acharam alguma coisa? Nós assentimos. – Ah, ótimo, anotem e me entreguem a noite no jantar. – Aron – Bruno disse – Não tem como trocar de equipe? É que eu mefamiliarizei com eles e minha equipe não é tão... – Me desculpe garoto, mas não posso desfalcar uma equipe, essa equipe jáestá espetacular – ele encarou a mim e a Selina – se eu tirar você de sua equipetodos eles vão morrer! Eles não aguentarão sem um líder bom de espada ouinteligente, eles vão fracassar e morrer. Sinto muito amigo, mas não posso desfalcaruma equipe. – Então vamos salvar vidas – Selina disse se levantando – me troque deequipe, coloque-me em outra, me deixe trocar para as outras. – Não, trocar duas pessoas é demais, não posso fazer isso, ia dar muitabagunça. – Eu disse para me trocar, sou uma pessoa, como assim duas? – O que? Nem pensar, eu preciso de vocês dois trabalhando juntos – eleapontou para mim e eu me levantei – O que? Não vou trabalhar com ela. – Isso não é uma opção, é uma ordem! – Aron disse com autoridade – Se euseparar vocês dois não teremos chance, vocês precisam ficar juntos. Venham, vamosjogar a coroa de louros. 27
  • 28. CincoVencemos um jogo SAÍMOS para o campo e todos estavam lá, o menino da nossa cabana veiocorrendo na nossa direção sorrindo com armadura de couro, arco e aljavapendurado nas costas. – Gente olha só, vocês tem que ver, eu sempre fui bom de mira mas nuncatinha usado um arco-e-flecha antes. Eu acertei todos, achei alguma coisa em que soubom de verdade. – Que bom cara – eu disse – hã, qual é o seu nome? – Pedro, você é Erick não é? E você Selina? – Sim, mas como sabe? – Selina perguntou – Ah o Aron falou de vocês, que vocês lutavam bem e que você era... comoele falou? Estratégica e lutava mais ou menos e o Erick era... um ótimo gladiadormas burro, sem ofensas cara, Aron que disse. – Olha, eu e Aron concordamos em alguma coisa. – Selina disse Pedro e Bruno tentaram não sorrir, mas riram igual. Estava pensando emalguma coisa boa para dizer, mas não achava nada, não era bom com palavras. – Eu sou o forte, bom gladiador – comecei – poderoso, consegui a espada evocê é inteligente e o que mesmo? Eles riram novamente, parecia aqueles colegas de escola que ficam falandobriga, briga, briga antes de uma discussão. Aquele argumento parecia ter me dado avitoria, mas ela sempre tinha uma resposta na ponta da língua. – Inteligente e experiente, mas não importa, foi o suficiente para te vencernão foi? Depois de dizer isso ela saiu. Bruno colocou a mão no meu ombro. – Um dia você consegue. – Depois saiu rindo. Pedro estava rindo ao meulado, ele me olhou, me estudou e depois disse: – Vocês se conhecem não é? Você e Selina. – Não, você é a segunda pessoa a me dizer isso. Conheci ela agora. – Para mim parece que vocês dois se conhecem e que não são amigos. – Silencio – Aron pediu, ou melhor, ordenou – Vamos jogar um jogocomum. Vocês tem que capturar a bandeira do inimigo e levar até a sua cabana.Quem conseguir mais bandeiras ganha um premio, não é uma coroa de louros, masé algo que vai ajudar vocês nas batalhas. 28
  • 29. – O que é? – Bruno perguntou – Qual é o premio? – Surpresa, mas é um bom premio. Acreditem vale a pena ganhar. Eu não seiquem vai ganhar – ele encarou a mim, Pedro e Selina que estávamos juntos em umcanto – mas boa sorte a todos. Ah, uma coisa, vocês vão ser separados por cores, aum é azul, dois vermelho, três verde e quatro amarelo. Tem camisetas para vocês ali,coloquem vai ficar melhor de identificar os parceiros e os inimigos. Lembrem-se:cada cabana é uma equipe e as equipes devem ser unidas – ele deu uma ultimaencarada em nós e se virou para pegar as bandeiras – Aqui, cada uma com a corcorrespondente, peguem e escondam. Vão! Eu, Selina e Pedro colocamos as camisetas vermelhas, as armaduras de couro,pegamos as espadas (arcos), escudos (aljava) e a bandeira e fomos floresta adentrocomo as outras equipes fizeram. – Então sabe-tudo, – eu disse – qual o plano? – Pedro: vá para alto da arvore e deixe a bandeira aqui no chão. Tomadinha:fica aqui e cuida da nossa bandeira e eu vou pegar as outras bandeiras. – O que? – eu reclamei – Você acha que eu vou ficar aqui parado? – Eu sei onde estão as outras bandeiras, Tomadinha! – Ah é? Como você sabe onde elas estão? Não entendi a reação dela, ela encostou em uma arvore e segurou minha mão.Tive uma visão como aquelas que tive quando Aron tocava a flauta, só que maislenta e com cor amarela por causa do sol. Vi Bruno correndo com a bandeira verdeno meio da mata e colocando ela no centro de um riacho, ele deu ordens para seusamigos protegerem ela. Selina soltou minha mão e quase desmaiei. Não estavaacostumado com isso e como ela conseguia fazer isso? Pedro me segurou e aencarou com cara de o que você fez com ele? – Como você... – eu disse tomando fôlego e tentando me endireitar, tenteificar de pé mas ia cair de novo se ela não tivesse me segurado – faz isso? – O que as arvores veem, viram, escutam ou escutaram eu consigo saber. – Por que? – Ai, uma longa historia. Você se acostuma com o tempo, eu ficava assim noinicio mas agora já acostumei. Só não sei como achar o rio. O vento soprando na minha direção, comecei a melhorar instantaneamente eme situei completamente. Sabia para onde era o rio, as cabanas, os campos deflores.... – O rio é ali, para o leste – eu disse – não sei como sei, mas só sei que sei Depois de dizer isso vi que era muito idiota, mas era tarde demais. – Você tem certeza? – ela perguntou, o que me surpreendeu pois achei queela ia zombar da quantidade de sei que eu disse – Sim, eu tenho certeza. Não sei porque mas eu sei que é para lá. Ela olhou para Pedro, ele sorriu e assentiu. – Tudo bem Pedro? – ela perguntou – Não tem problema se formos nósdois? 29
  • 30. – Não tem problema, quero um presente então... – ele deu de ombros – Voutentar defender a bandeira. Boa sorte e não morram. – Não vou dar esse gostinho para ela – eu disse e eles riram. Deu um barulho de um berrante e a gente soube que era para começar. Eu eSelina resolvemos ir atrás da bandeira do time três, já que foi a que vimos antes enão sabíamos se teríamos tempo para ter outra visão. Eu a levei até o rio, ela bolouuma coisa de ela distrair o guarda enquanto eu pegava a bandeira que funcionou.Levamos a bandeira verde até a nossa cabana com facilidade e Selina teve uma ideiaque era melhor do que eu achava. – Ei Tomadinha, eu tive ideia. – ela disse – Vou te mostrar mais umabandeira, você vai atrás enquanto eu fico aqui e tomo a de quem passar, está bem? – Ah, ta, eu acho que consigo achar mais uma. Ela encostou em outra arvore e segurou minha mão novamente. Vi umaspessoas tentando pegar a nossa bandeira, mas Pedro se saiu muito bem. Ele atiravaflechas nos braços das pessoas prendendo-as nas arvores e protegendo a bandeira.Depois a visão mudou e vi uma bandeira azul pendurada em uma arvore grande queeu sabia que ficava ao centro da floresta. Selina tirou a mão da arvore e me segurou.Quase desmaiei umas duas vezes enquanto ela me segurava e reclamava que eu erapesado com armadura. Depois que me recuperei fui atrás da bandeira na arvore. Estava fácil para falar a verdade, nenhuma pessoa guardando a bandeiraapenas um oponente. Um garoto alto de uns dezesseis anos, seu rosto estavaencoberto por um elmo, sua camiseta verde por baixo da armadura de couro, calçajeans e botas. – E aí Erick, infelizmente teremos que nos enfrentar. Era Bruno, ele saiu correndo e eu também até a arvore. Ele começou a escalare eu também, ele estava na frente até eu puxar seu pé e ele quase cair, então eupeguei a bandeira. Pulei da arvore e rolei pro lado a tempo de não ser atingido porBruno que pulou atrás de mim. Corri desesperadamente com ele atrás em direção ascabanas, quando estava passando por uma poça de lama Bruno pulou em cima demim e eu caí na lama. Ele desembainhou a espada. Era uma espada semelhante a deesgrima, cabo redondo e ponta fina, mas mesmo assim não parecia nem um poucoagradável ser atingido por uma daquelas em qualquer parte do corpo que seja. Eleveio pra cima de mim, eu estava sem escudo porque segurava na mão direita aespada e na esquerda a bandeira. – Ei, não pode deixar essa passar? – eu disse enquanto defendia seu golpecom minha espada. – Desculpe Erick, mas quero esse presente. Ele lutava muito bem, diria que era profissional. Consegui defender muitosdos seus golpes mas levei um corte na bochecha. Corri de novo e estava vendo aminha cabana quando fui atingido por um escudo voador nas costas. – Foi mal Erick – ele disse pegando a bandeira – não leve para o lado pessoal. Ele se virou e a bandeira voou longe. Selina estava com duas espadas nasmãos, idênticas. 30
  • 31. – Estamos empatados, Erick pega a bandeira, se pegarmos ganhamos. Ela atacou Bruno, os dois lutavam bem, mas acho que Selina perdia essa, iaser legal assistir, mas não tinha tempo. Me levantei e fui em direção a bandeira masestava longe, Bruno empurrou Selina e correu na direção do objeto que definiria aequipe vencedora. Estiquei a mão e a bandeira veio até mim, corri em direção acabana, mas lá me esperavam alguns guerreiros amarelos e verdes. Todos vieram para cima de mim, não tinha como proteger a bandeira detodos eles, nem como abrir caminho. Alguém atrás de mim gritou joga pra cá e eujoguei, Selina vinha correndo empurrando a maioria das pessoas. Ela pegou abandeira e o foco da metade das pessoas foram nela. Eu lutava contra a outrametade que ainda me atormentava. – Pega – Selina gritou e agarrei a bandeira ainda no ar. Estávamos a uns dois metros da entrada da nossa cabana, ficávamos jogandoa bandeira de um para o outro para despistar os outros quando a coisa apertava elutávamos em sinfonia como se lutássemos juntos a anos. Talvez estivesseentendendo o que Aron queria dizer que não podia nos separar, eu sabia quando elaia precisar de ajuda, quando me abaixar para ela golpear alguém que tentava mebater pelas costas. Eu estava com a bandeira a uns trinta centímetros da entrada dacabana, a trinta centímetros da vitoria, quando alguém me derrubou, era um dosazuis, a pessoa estava pegando a bandeira quando uma flecha passou de raspão nobraço dela e ela soltou a espada. Pedro havia chegado sujo de lama e estava com oarco em mãos. Passei a bandeira para Selina, mas Bruno ficou entre ela e a porta. Ela meolhou com o canto do olho e murmurou desculpe. De primeira não entendi, até elame puxar e me empurrar por cima Bruno, ele caiu, mas eu consegui ficar de pétempo suficiente para ser puxado para dentro da cabana. Os outros guerreirosfizeram cara de raiva, decepção, frustração, menos Bruno. Ele sorria para nós, eu eSelina atirados no chão da cabana, ela com a bandeira nas mãos. – Me deixem passar. – Aron dizia – Olha, o que temos aqui? Uma equipevencedora? Quantas bandeiras? – Duas – eu disse – verde e azul. Me levantei e estendi a mão para Selina levantar. Ela levantou comdificuldade e então percebi um grande corte em seu braço direito. O pior é queestava roxo na volta. – O que houve com seu braço? – eu perguntei – Não sei. Está doendo. Alguém me acertou pelas costas quando estávamosperto de ganhar, senti isso. – Deixa eu ver – Quíron disse se aproximando – espada envenenada, alguémaqui está com espada envenenada. É proibido usar veneno na espada aqui, quemusou errou o corte, ninguém usa espada envenenada para acertar o braço de alguém.Quem usou estava em busca de morte. 31
  • 32. Seis Marte perde o controle O ASSUNTO assustou a todos, tiveram sussurros e alvoroços, algunsacharam que era eu quando estávamos perto da porta ou entrando. Quíron trouxealgumas plantas medicinais e colocou no braço dela, a ferida ainda estava bemexposta e “feia”. Estava escurecendo, Pedro e eu estávamos na cabana esperando ainspeção. Aron ia passar de cabana em cabana a procura da espada envenenadaenquanto Selina ficava em uma sala ao oeste que eles disseram que era uma alahospitalar. – Nossa – Pedro disse quebrando o silencio – alguém aqui quer matar aSelina, por que será? – Eu não sei, ela é chatinha, mas não chega a esse ponto de matar. Bom,podemos descartar eu, você e Bruno. – Eu não gosto dele. – Por que? – Ah, não sei dizer. Ele é meio exibido e não me parece boa gente. Ele queriatomar meu lugar na equipe – Como sabe? – Ele me falou. Quero dizer não com essas palavras, ele disse eu queria ficarna sua equipe – Pedro disse imitando a voz de Bruno de um jeito engraçado que mefez rir – eles são legais, brigam bastante mas são legais. – Ele me pareceu um cara legal. Acho que ele pode ser nosso amigo, nossoaliado. – É, talvez sege implicância minha mesmo. – Com licença – Aron disse abrindo a porta – vou pegar as espadas e flechasde vocês e levar para analisar. É hora do jantar venham, vou levar vocês. Ele nos conduziu até um tipo de templo. O lugar estava meio destruído, masainda dava para ficar debaixo dele. Devia ter sido um lugar bonito, piso brilhoso,paredes bem arquitetadas (as que sobraram) e colunas bem elaboradas. Havia umasquatro mesas ali, o suficiente para nós, cada uma com comidas diferentes. Tinha carne, refrigerante, arroz, feijão, batata, alface... estava no paraíso poisestava com muita fome. Peguei um prato e me servi, provavelmente uma serra decomida mas já que estava com fome e a pessoa que me prendia estava com a minhamãe, acho que falir o cara não era uma má opção. Foi anunciado que cada cabana 32
  • 33. devia se posicionar em uma mesa, sem trocas, mas é claro que houve trocas. Brunoveio para nossa mesa, alguns azuis para a amarela e assim foi... Pouco antes de eu começar a comer Selina veio com o braço enfaixado doombro ao cotovelo. Ela se serviu e sentou com a gente. – Como está? – eu perguntei – Ainda dói? – Não, Quíron é bom com plantas medicinais. E aí, perdi alguma coisa? – Não – Bruno respondeu – Quíron apenas recolheu as armas de todo omundo para analisar. Olha se isso não era apavorante o bastante agora ficou. – Se está para você, – Pedro disse – imagina para ela que foi o alvo. Selina pensou um pouco enquanto mexia na comida. Ela parecia pensar seme dizia algo ou não porque as vezes ela olhava com o canto do olho para mim. – Algum palpite – eu disse a Selina – sobre quem fez isso? – Não tem que ter palpite – Pedro disse – agora que eles vão olhar aslaminas vão descobrir na hora. – É mais complexo do que isso, – Selina disse me olhando com o canto doolho – a pessoa que fez isso é esperta, muito esperta, ela não faria nada assim tãofácil de descobrir e se descobrirem alguém logo aposto que é truque. A pessoa queestá fazendo isso é um traidor – ele olhou diretamente para mim – ele pode seesconder de nós. De alguma maneira ela tinha tido o mesmo sonho que eu e sabia que eu tive.Com esse comentário tudo começou a se encaixar, o traidor era o filho daquelehomem que estava comandando tudo, ele tinha um elmo que podia fazer ele ficarinvisível. Ele tinha o elmo da escuridão, a terceira arma mais poderosa da mitologiagrega, ele tinha o elmo de Hades. Eu ia dizer alguma coisa inteligente como não deve ser tão difícil achar umfilho de Hades por aí, mas Selina me lançou um olhar “cala a boca” e eu não faleinada. – O que foi? – Bruno disse – Vocês sabem de alguma coisa não é? – É – Pedro disse – vocês estão se olhando... estranho – É que... bem, nós – eu comecei, eles eram meus amigos eu devia contar aeles – Nós temos um palpite – Selina interrompeu – um azul, ele vem meobservando a um tempo e acho que possa ser ele. Ele estava atrás de nós dois naluta. Qualquer que sege a coisa que eu ia falar antes, tenho certeza que isso saiumais convincente. Não devia contar a eles sobre o sonho, isso eu entendi, mas nãosabia por que. Nós comemos em silencio. Ninguém falou mais nada sobre oassunto, Bruno e Pedro olhavam constantemente para mim e para Selina como setentassem descobrir o que escondíamos. Aron nos mandou ir dormir porqueamanhã teríamos que acordar muito cedo para buscar o cristal da terra. Eu e Selinaficamos na mesa por ultimo para falar com Aron, cobrar ele do presente que nosdevia. Pedro estava tão cansado que foi dormir, disse para a gente contar para eleamanhã. 33
  • 34. – Então Aron – eu disse – e o nosso presente? – Ah claro – ele disse – eu estava me esquecendo. São cavalos. – Como cavalos vão ajudar contra a gorgona? – Selina disse – Eles vão virarpedras! – Ah sim, vocês erraram, quero dizer, ela se despediu dhsbfhs – ele arranjouuma enrolada no final – Não é gorgona amanhã é um outro monstro que não tenhopermissão para dizer. Agora vão dormir, amanhã terão muito trabalho. Obedecemos. Perto da porta da cabana Selina me segurou antes que euentrasse. – Preciso falar com você. – Ah ta, lá dentro você fala, to com frio. – Você não entendeu, é só com você. Fomos para perto de uma outra cabana, uma destruída, aos pedaços. – É sobre aquele assunto da espada envenenada. – ela disse – Eu sei tudo sobre isso, e porque Pedro não pode saber? – Alguém tentou te matar hoje, sabia? – Não diga! Quer a lista em ordem alfabética ou cronológica? – Ah cala a boca, eu estou falando serio! Quando eu levei a espadada nobraço foi quando estávamos a uns dois metros da entrada. Você estava com abandeira e eu vim atrás de você... foi aí que fui apunhalada. – E...? – Pelos céus Erick você é muito burro! Eu entrei na frente sem querer.Quíron falou que quem envenenou a espada estava atrás de morte. Alguém ia teapunhalar pelas costas! – E você me salvou sem querer? – Claro! – Quem pode ser? – Qualquer um, por isso não queria falar na frente do Pedro. Ele é legal masnão pode confiar em ninguém. – Tem razão, ainda mais que ele não estava lá na hora. Ele apareceu apenasdepois com o arco. Você sonhou também não é? Na noite passada, você viu o queeu vi não foi? – Acho que sim, eu vi um filho de Hades pedindo o elmo emprestado. Vocêviu isso também? Assenti. Por que será que só nós dois sonhamos? Por que os outros nãosonham também? Ela pegou meu braço e olhou a marca que Marte me deu. – Ah, por isso você é tão ignorante. – O que? – Tem a benção de Ares, por isso não nos damos bem. – Você tem a benção de quem? Ela esticou o braço para mim deixando a vista uma marca também. Umacoruja. A marca de Atena. – Ah, sabe-tudo. 34
  • 35. – Não comente isso para ninguém, ninguém deve saber. Você é a segundapessoa que sabe. – Espera, você não mostra isso aí para ninguém, mas mostra para mim? – Eu não sei porque, mas confio em você cabeça de vento. Vamos dormir,amanhã o dia promete. Deitei sem sono. Não sei o que viria dessa vez, não sei se viria Marte ou otraidor, mas com certeza viria alguma coisa. Dormi em fim e apareci em lugardiferente. O lugar era magnífico. Feito de pedras brancas e colunas de mármore e, éclaro, o lugar era enorme. Havia doze tronos espalhados formando um U. Ostronos eram feito cada um de uma coisa. O primeiro da ponta da direita era feito deum metal acinzentado, tinha um desenho de um urso na ponta do encosto e davadireto para a lua. O próximo era feito de um metal avermelhado e brilhoso. Havia desenhos deguerra, uma lança sangrenta e um javali no encosto e nos braços do trono. O outroparecia ser feito da mesma coisa que o local (pedras brancas e mármore) com umacoruja no topo do encosto. O quarto era feito de um metal brilhoso, muito brilhoso e dourado, talvezfosse ouro, com um arco-e-flecha no topo do encosto. O quinto era feito de pedrascom videiras e uvas crescendo por ele. No topo havia um tigre e uma garrafa devinho. O sexto era feito de ouro, era o maior e o mais majestoso de todos. Tinhadesenhos de grifos, raios, e águias por todo ele. Em seu encosto (no topo) havia odesenho de uma águia envolvida por dois raios cruzados. O sétimo era majestosotambém, nem tanto quanto o sexto, mas era majestoso, feito de prata com umaromã no topo. O oitavo era feito de ferro e tinha umas ferramentas no topo. O nono tinhaum caduceu no topo. O décimo era feito de conchas marinhas e tinha um enormetridente no topo do encosto. O décimo primeiro era rosa e tinha uma pomba noencosto. O décimo segundo e ultimo era feito tipo de arvores e tinha no encosto umacevada. O local estava vazio, mas ficou assim por pouco tempo. Logo chegaram asdoze pessoas e sentaram cada um em seu trono. A maioria estava usando túnicas,mas havia uns que usavam armadura de guerra e um deles eu reconheci: era o Marte. – A grande reunião chegou! – anunciou o homem do trono majestoso comautoridade. Seus cabelos eram curtos e brancos e sua barba igual. Seus olhos eramazuis da cor do céu, usava uma túnica branca e sandálias – Teremos que decidir ofuturo do mundo. – Irmão, – o homem do trono de conchas disse. Usava uma armadura queparecia ter sido feita do mar, sandálias, cabelos castanhos e grisalhos e olhos azuisda cor da água – creio que somos capazes de evitar uma guerra. Apenas devemosnos manter atentos a qualquer rebelião e impedi-la. 35
  • 36. – Poseidon – o homem de cabelos brancos, que pelo que percebi liderava,disse – se não formos capazes de evitar uma rebelião ou mesmo não percebê-la, asconsequências serão graves, muito graves. – Com sua permissão Zeus. – uma mulher disse. Sua aparência era de uns 24anos, cabelos castanhos avermelhados, usava armadura grega e levantava de seutrono como todos que falaram fizeram – Acredito que uma guerra deve ser evitada.O poder do senhor é muito cobiçado por todos. Levanto a questão aqui de umahipótese de um traidor entre nós, talvez um amante da guerra que queira promove-la. Marte levantou de seu trono com javalis e lanças tão rapidamente que chegueia me assustar. Por baixo do elmo pude ver seus olhos ardendo em chamas. – Como ousa me acusar de traição? – ele perguntou aos berros para a mulher – Acalme-se Ares! – Zeus rugiu – Eu não lhe acusei irmão, mas se a carapuça serviu... Marte pegou sua lança e foi enfurecido para cima da mulher, tiveram quesegurá-lo. Eu também fiquei com raiva dela, ela estava acusando meu irmão detraição! – Ares mantenha a calma! – Zeus rugiu novamente – Se perder o controlemais uma vez vou expulsá-lo da reunião. – ele se virou para a mulher que falavaantes – Atena, continue, qual a sua sugestão? – Um juramento. Sabemos que se a guerra acontecer será provocada por umdos três grandes... – As profecias nem sempre são claras – interrompeu Poseidon – A batalha épica por um dos três grandes será travada – Atena continuou –,parece bem claro para mim. – As palavras da profecia geralmente são mistérios – disse um homemlevantando. Seus cabelos castanhos arrepiados, olhos amarelados, dentes brancosque chagavam a brilhar. Usava roupas da atualidade: calças jeans, tênis e uma blusabranca escrito eu amo o Apolo em amarelo. Estava com arco e aljava nas costas;parecia um galã de filmes americanos. – Mas desta vez pareceu bem claro. Sabemosquem são os três grandes e suspeitamos de quem pode se rebelar. – Por isso sugiro que os três grandes façam um juramento – Atena continuou– um juramento que evite a guerra e a volta dos titãs. Sugiro que os irmãos sedesfaçam temporariamente de seus poderes até termos certeza que não há chancesde Olimpo ser destruído. – Protesto! – Poseidon gritou – Se os deuses se desfizerem de seus poderescomo vamos combater os inimigos em uma guerra? – Se vocês se desfizerem de seus poderes então não haverá guerra. – Você não pode decidir o futuro do Olimpo! Você não pode obrigar osdeuses a fazerem o que você quiser! – Poseidon estava descontrolado e gritava – Silencio! – Zeus berrou – Temos que considerar a proposta de Atena. – eladeu um sorriso maldoso para Poseidon e ele só olhava com raiva – Faremos umavotação, amanhã a meia noite todos tragam respostas sobre o assunto. Amanhã à 36
  • 37. meia noite teremos a resposta se o juramento será feito ou não. Mais algum assuntoa tratar? – Irmão, – Poseidon disse – uma linha da profecia ainda me atormenta. Opríncipe mestiço é a decisão pelo Olimpo tomará, e o deus dos mares vaidestronar. Um de seus filhos irá me destronar, não podemos fazer nada para evitar?Como eliminar as crias semideusas. – Como você mesmo disse Poseidon, – Atena disse – o príncipe mestiço é oúnico que salvará. Não podemos exterminar nossas chances de sobreviver a umaguerra. – Atena tem razão, – Zeus concordou – se um de meus filhos pode nos salvarfuturamente não posso mata-lo. Não deixarei ele te destronar irmão. Mais algumassunto? Houve silencio, ninguém falou nada. Atena olhava com o canto do olho paraMarte e ele bufava de raiva enquanto tomava um calmante medeia (no vidro dizia:acalma até cães infernais famintos!). – Reunião encerrada. – anunciou Zeus – Hermes, leve a mensagem a Hadesda proposta de Atena, quero que ele venha votar aqui amanhã. A visão começou a enfraquecer e o sonho mudou. Apareci novamente naquelelugar escuro, na sala do trono. O homem e o traidor conversavam. O traidor usava amesma capa preta e estava de costas me impedindo novamente de ver seu rosto. – E então – o homem disse – acha que ele sabe de alguma coisa? – Acho que não, – a voz da pessoa estava equalizada – ele conseguiu levantara espada hoje. – Omega? – Sim. Estou próximo a ele, ele é um bom lutador. Vai nos ajudar a pegar oscristais e depois o matamos, assim conseguimos a confiança de Poseidon. – Claro, se Poseidon estiver do nosso lado teremos as chances dobradas.Quanto ao garoto, quanto antes conseguir mata-lo melhor. – Conto com a ajuda de Poseidon. No cristal da água ele pode nos ajudarfazendo seu monstro perseguir o garoto... – Senhor Hades – um espírito entrou pela porta. – O barqueiro anunciouque o senhor tem visita, seu irmão veio vê-lo. – Mande-o entrar. Vá filho e tome cuidado. – Não se preocupe pai. Ele nunca desconfiará de mim, o que me preocupasão seus amigos. Eles podem desconfiar de mim se já não desconfiam. – Livre-se deles, mate todos se for necessário, mas o menino não podesobreviver. A imagem se desfez em sombras e eu acordei com Selina me sacudindo ePedro de olhos arregalados ao meu lado. 37
  • 38. Sete Ganho um belo par de chifres ESTAVA com a cabeça parecendo que ia explodir e sentia meu rostoqueimar. A visão tinha me atormentado. Estava próximo a mim, eu nunca iadesconfiar. Quando acordei a primeira pessoa que vi foi Selina, ela estava mesacudindo e gritando acorda e me deu um frio na barriga. Ela estava próxima amim, ganhando minha confiança e se não fosse o sonho nunca iria desconfiar dela. – Ah, graças aos deuses você acordou – ela disse me soltando. – Cara você nos assustou – Pedro disse, ele estava com expressão deassustado. – O que foi? – eu perguntei assustado – O que houve comigo? – Você começou a falar um monte de coisas – Pedro disse – em sei lá quelíngua. – Você começou a falar em grego antigo, a gritar na verdade. – Selinaexplicou – Depois eu tentei te acordar, estamos tentando te acordar há mais decinco minutos. – Ela te sacudia, eu te bati – isso explica meu rosto queimando –, mas vocênão acordava. Teve um pesadelo? – Mais ou menos – eu respondi, ainda pensava na possibilidade de Selina sertraidora o que me incomodava. Se ela fosse, talvez Aron também fosse, afinal elenão deixou a gente trocar de equipe. Mas porque Aron trairia? Ele queria serlibertado, sair dali; talvez ele não soubesse que Selina era traidora e achasse que elafosse uma pessoa de bem que podia me ajudar – na verdade foi um sonho revelador,acho que foi bom, me abriu os olhos. Eu a encarava e ela franziu as sobrancelhas. – Eu não acredito que você... – ela se interrompeu, Pedro a olhou – Eu o que? – ele disse Ela bufou. – Não é você, é o cabeça de vento. Ele está desconfiando de mim agora. – O que? Como você...? – eu comecei – Ah, fala serio! Você me encarou e disse: acho que me abriu os olhos. – eletentou me imitar de forma ridícula, fez voz de retardada! 38
  • 39. – É, talvez seja você, pode ser qualquer um não é mesmo? – Uau! – Pedro exclamou – Calma. Me expliquem primeiro, o que estáacontecendo? – Sabemos que há um traidor. – eu disse – Eu tive uns sonhos que merevelaram algumas coisas... – Ah é? – Selina interrompeu – O que por exemplo? O que você alucinouque me viu como traidora? – Não é da sua conta – Claro que é! Você me acusa de traição sem provas e diz que não é da minhaconta! – Sei o suficiente para te acusar – Ta bom. – Pedro berrou – Os dois vão me explicar agora o que estáacontecendo. Erick, explica para nós o que você viu. Contei parte do sonho do mundo inferior para eles, omiti a parte que falavano irmão de Hades e a parte que falava nos amigos mortos e a confiança dePoseidon. – Espera aí – Selina começou – ta me dizendo que só porque você ouviu queo traidor está próximo a você sou eu? É isso? – Sim, eu não ia desconfiar de você se não tivesse sonhado, e foi isso que eledisse. – Como pode ter certeza que sou eu? – Como posso ter certeza de que não é você? – Se fosse eu você nunca ia desconfiar! – É um motivo convincente – Pedro disse ainda meio perdido – e Erick, sedesconfiar de alguém não o encare. – Não sei mais em quem confiar – eu disse triste. Não sabia com quemcontar, a única pessoa com quem eu podia falar era com Selina e Marte mas agorajá não sabia mais. – Pode ser qualquer um, pode ser você – eu apontei para Pedro –ou até mesmo você – apontei para Selina –, mas de qualquer forma, ainda são meusamigos. – Se você ficar junto do traidor – Selina disse mais calma – vai ser perigoso,mas se você se isolar vai ser pior ainda. – Eu tive uma ideia, você pode fazer aquelas coisas que você faz com asarvores e tentar ver se elas viram quem estava com a espada envenenada. – Como você faz aquilo? – Pedro perguntou a Selina – Eu não sei, – ela disse, mas me pareceu que ela sabia ou pelo menos tinhaum palpite – já tentei fazer isso Erick, a visão delas foram bloqueadas pelas pessoas,elas estavam na frente. Mas eu vi uma coisa que quero te mostrar... O sinal bateu, como um sino escolar. Aron bateu na nossa porta e mandounós irmos pegar as armaduras, espadas, escudos e tudo mais para lutar. Pegueiminha espada e consegui ler o nome escrito em grego na sua lamina: Omega. Fiqueicom Alfa em forma de relógio porque pesava menos. Tomamos café da manhã (um 39
  • 40. sanduiche e sucos de caixinha), colocamos a armadura e fomos até os estábulos,para onde Aron nos levou. – Aqui, os presentes – ele apontou para três cavalos, dois brancos e ummalhado de branco com marrom. Eles eram lindos, pelos brilhosos, crina penteadae já estavam selados. O malhado deu três passos para frente na minha direção eabaixou a cabeça perto da minha mão. Eu o acariciei e ele se afastou novamente, asvezes a sua imagem ficava turva e eu não conseguia vê-lo claramente – Vejo que orebelde escolheu você. Bom dia parceiro, uma voz falou na minha cabeça e não era a voz do Hades,era uma voz mais fina e engraçada, tentei não demonstrar que a ouvi mas acho queera impossível. Aqui, sou eu, na sua frente, parceiro. Eu olhei para frente e só estavao cavalo malhado me olhando fixamente. É sou eu mesmo, nunca viu um cavalofalar não? – Para ser sincero não – murmurei – O que? – Selina perguntou – Ah, nada, eu estava falando, que lindo esse garanhão. Se o cavalo podia falar comigo pela mente, talvez eu também pudesse falarcom ele. Ei, ta me ouvindo cavalo? Claro, eu não sou surdo! Que maravilha, agoraeu estava falando com cavalos, estava ficando completamente louco. – Aí estão, – Aron disse – montem neles, e venham para cá para o campoprincipal, temos uma longa jornada pela frente crianças idiotas – ele não podiaterminar a frase sem um insulto. Eu montei no cavalo, ele tinha uma mancha marrom no focinho que envolviaseus olhos, seu pelo era brilhoso e ele estava limpo e escovado. Meus amigosfizeram a mesma coisa, Selina parecia nervosa. – O que foi? – eu perguntei a ela – Você tem medo de cavalos? – Não, é que – ela titubeou – bem, cavalos não gostam de mim, sabe, eles sãomeio que crias de Poseidon e eles... me perseguem de vez enquanto. – Porque Poseidon e Atena não se dão. – É, isso. Aí as vezes ele me segue. – Cadê o Pedro e o Aron? – Já saíram. Nós fomos atrás deles. O campo estava cheio de pessoas armadas comespadas, escudos, arcos, aljavas, facas, adagas e outras armas. Quíron estavaconduzindo todos e Aron me chamou em um canto. – Ei, garoto. Tome cuidado, a espada que você possui é muito valiosa, sóvocê pode pegá-la, mas não mostre ela para ninguém entendeu? – Por que? – Ela está aqui a muito tempo, a mais tempo que eu, e tem uma grandehistoria. Ela apareceu aqui em um relâmpago, o símbolo do senhor do Olimpo querdizer que só um descendente dele pode levanta-la. O traidor não pode descobrirque você a pegou. – Ele já sabe, ele sabe que estou aqui, ele está próximo a mim. 40
  • 41. – Andou sonhando, não é? É importante que sonhe, muito importante, vocêtem que saber da verdade, tem que saber que tudo isso é uma farsa e que tudo issoé... – Aron – Pedro veio correndo – Quíron mandou te chamar, ele disse que nãotem mais tempo, se não vamos perder o sei lá o que. – Ah, claro, vamos Erick. Temos muito trabalho. Chegando no meio do campo tinha um grande circulo em espiral azulescuro. Eu olhei em volta e todos pareciam estar tão confusos quanto eu sobre oassunto. – Vocês estão diante de um portal. – anunciou Quíron – O cristal da terrafoi escondido em um lugar mágico que não tem como encontrar se não for por umportal. Vocês passarão por ele e sairão em terras mágicas. – Ele olhou o relógio emmeu braço e olhou as horas. – Temos cinco minutos. Vão, passem. Todos nós ficamos com medo mas acabamos passando pelo portal. Assimque passei saí em um deserto, um deserto quente e não havia ninguém lá alem denós. Quíron começou a nos guiar areia adentro e o seguimos, Pedro estava ao meulado e começamos a conversar. – Como era sua vida antes daqui? – eu perguntei a ele – Ah, normal. Vivia em uma casa mais ou menos em São Paulo, minha mãetrabalhava em uma empresa de eletrônicos. Eu e meu irmão estudávamos em umaescola que dava aula de manhã e de tarde, assim não ficávamos sozinhos. E você? – Normal também, eu e minha mãe moramos em um apartamento pequenono Rio Grande do Sul. Ela trabalha em uma pastelaria e eu estudava de manhã eficava sozinho em casa a tarde. Estão com sua mãe e seu irmão? – É, eles pegaram eles. Sabe Erick, eu fico com medo. A vida deles está emminhas mãos, mas e se... e se eu morrer? Eu nunca lutei bem nem nada do tipo, eunão tenho chances. Eu acho que vou ter que dar adeus a minha família. – Não fale assim. Eu também não sou lá essas coisas, tem que pensarpositivo, você não vai morrer. Nenhum de nós vai. – Para você falar é fácil. Você sabe lutar, tem uma espada boa, tem osinstrutores, e eu? Eu não tenho nada a meu favor, estou sozinho. Parei para tentar me colocar no lugar dele. Realmente era difícil, ele não teveMarte para treina-lo e nem tinha uma espada significativa ou sonhos com o queestava acontecendo. – Ei, vamos fazer um trato. Vamos cuidar um do outro, não pode deixar ooutro morrer, ok? – Ok. – ele riu – Nessa eu levo vantagem. Mas fala aí, qual é a de você eSelina? Vocês dois sabem de alguma coisa a mais, não sabem? Titubeei um pouco. Pensei, ela havia dito para eu não contar nada a ninguéme Aron me advertiu sobre isso também, ma Pedro era um cara legal. – Eu não sei porque – eu disse enfim – mas nós sonhamos com algumascoisas. – contei a ele sobre meu primeiro sonho com o traidor e recontei o segundo– Você não tem esse tipo de sonho também? 41
  • 42. Ele fez que não com a cabeça – Olha, isso é estranho, por que será que vocês veem essas coisas? Porque eles são especiais, meu cavalo disse. Perguntei para ele como assimmentalmente, mas ele disse que não sabia, ele disse que só sabia disso. – Para mim – Pedro disse – Selina esconde alguma coisa. Não sei o que, masela sabe alguma coisa alem do que nós sabemos. – Será? – Eu acho que sim. – Mas porque ela não contaria? – Não sei, pergunte isso a ela não a mim. Todos pararam em frente a três portais que estavam posicionados um ao ladodo outro. Quíron se virou para nós. – Vocês deram azar. O monstro que enfrentarão estava banido nasprofundezas do tártaro até pouco tempo após ser morto, mas ele já cumpriu suapena e foi liberado para proteger o cristal da terra. Como comentei antes esta ilha émágica, ela não possui saída a não ser pelos portais e como esse monstro é bom emlugares fechados, creio que vocês tenham mais chances se tiverem saídas. O monstroé uma mistura bem elaborada de humano, já tem alguma ideia de que monstro é? – O Minotauro – disse Bruno – fruto da raiva dos deuses e da ignorância dosmortais. – Aprisionado pelo rei no labirinto de Creta – continuou Selina – E morto por Teseu. – eu disse – Espera, ele era para estar morto! – Os monstros não morrem completamente. Eles ficam no tártaro até serecuperarem. Por isso ele está de volta, e enfrentará vocês para proteger os poderesda terra. Há portais espalhados pelo mundo todo nesse momento. Eles mudam decurso de cinco em cinco segundos para que vocês tenham chances de correr porlugares diferentes. Ao final, quando o guardião for morto, o portal vai os enviarpara o acampamento em que ficamos. Os portais tendem a ir ao mesmo lugar masem pontos diferentes para impedir que vocês se separem ou fujam. Não seesqueçam que o Minotauro, por ter origens humanas, é inteligente e pensa, e com otempo foi aprimorando sua inteligência. Houve um barulho embaixo da terra e o local inteiro tremeu, todos nósentramos em pânico. Aron e Quíron sairão correndo em direção ao quarto portalque os levaram ao acampamento onde a gente fica e depois sumiu. Mais umestranho barulho surgiu por debaixo da terra, parecia um rugido ou coisa parecida,mas era completamente apavorante. Do nada uma mão gigante de couro rompeu aareia saindo da terra e todos nós começamos a correr desesperadamente em direçãoaos portais. Eu sou muito curioso, quis ver o monstro emergir da areia então fiqueiparado na frente do portal do meio olhando. Metade do corpo do monstro jáestava para fora e poucos segundos depois seu corpo inteiro. Tinha uns cincometros de altura, todo de couro de animal e pelo, seu corpo tinha formato humano 42
  • 43. só que era coberto de pelo e couro cinza chumbo, sua cabeça era de touro, com doisenormes chifres. Ele terminou de levantar e só aí fui perceber o risco que corria. Passei correndo pelo portal que estava na frente e rezando para que omonstro fosse devagar e passasse pelo portal depois dos cinco segundos. Apareci emcima de um prédio em uma cidade dando tudo de mim no cavalo para que elecorresse bastante. Por uma fração de segundo fiquei aliviado até o braço doguardião aparecer atrás de um dos prédios do condomínio em que eu estava. Eleapareceu por inteiro destruindo todos os prédios que ele passava rapidamente comsocos e cabeçadas atrás de mim e meu prédio era o próximo, estava chegando aofim dele quando ele começou a desmoronar atrás de mim. Olhei para frente e davadireto para a rua, meu prédio era o ultimo do condomínio. Eu tinha duas opções de morrer: ou me atirando em uma queda de uns dezmetros de altura ou sendo engolido por um monstro de cinco metros de altura e, éclaro, que eu escolhi a primeira opção. Eu e meu cavalo pulamos em direção amorte, fechei os olhos para não ver o chão e comecei a ouvir barulho de trotesequinos. Abri os olhos novamente e meu cavalo e eu estávamos em uma floresta,olhei para trás e vi um portal. Graças aos deuses! Ia comaçar a me animar quando oMinotauro surgiu novamente atrás de mim e três cavalos ao meu lado, em cimadeles estavam Pedro, Selina e Bruno. – Santa Atena – Selina murmurou observando o monstro que nos seguia – Ele está me seguindo, se não tivermos como matá-lo temos que atrasa-lo –eu disse. – Acho que posso atrasa-lo, mas não por muito tempo. – É perigoso chegar perto dele. – Eu não vou chegar perto dele. Mas não sei se tenho força o suficiente. – O que vai fazer? – Bruno perguntou – Fale que eu faço, eu acho que possome aproximar e sou maior. – Vocês não entendem, tem que ser eu. O monstro estava cada vez mais perto de nós, mais uns três minutos até elenos alcançar e seria nosso fim. Estávamos no meio das arvores, Pedro atirava flechasnele sempre que podia, mas as que acertava pareciam não fazer nem cócegas nomonstro gingante. O gigante estava muito perto, ele esticou a mão para pegar um denós mas os galhos de uma arvore o seguraram, as raízes de outra se enrolou em seuspés e outras tentaram imobilizar o tronco, mas o monstro lutava contra as arvorescom muita força. Olhei para Selina, ela parecia se concentrar, mas estava fraca. Correndo a velocidade máxima dos cavalos demos de cara com um monte dearvores fechando o caminho, eu podia ver o portal do outro lado, mas não tinhacomo passar. Olhei para trás e vi o Minotauro se soltando das plantas, as plantaslutavam para prende-lo mas não o segurariam por muito tempo. Selina esticou amão para frente e as arvores abriram caminho e depois o fecharam de novo. Passamos pelo portal e aparecemos em uma praia. Tinha poucas pessoas nabeira do mar, o vento e a brisa do mar soando pelo local. – Um, dois, três, quatro e cinco. Estamos salvos! – Eu desabafei 43
  • 44. Desci do meu cavalo e os outros fizeram o mesmo. Fui até Selina. Ela estavapálida, fraca, tremula e não conseguia se equilibrar direito. Ela se apoiou em mim. – Caramba aquilo foi incrível! – Bruno disse – Eu ousei demais – ela disse – eu nunca tinha tentado fazer tantas coisas,controlar tantas de uma vez. – ela foi cair mas eu segurei. – Aquilo foi muito legal – Bruno disse sorrindo – Como você consegue...? Ele não terminou de falar porque ouvimos um rugido vindo a nossa frente. – Os portais tendem a sair no mesmo lugar só que em pontos diferentes –lembrou Pedro – ele vai sair aqui. Temos que ir. – Consegue ir? – perguntei a Selina Ela assentiu, montamos nos cavalos e antes que pudéssemos virar meia volta eir o monstro apareceu na nossa frente. Os cavalos levantaram relinchando e sódepois correram. Olhei em volta, algumas dunas, uns morros de areia, grandesplacas de ferro enterradas no chão dizendo: mar bravo e centenas de banhistas. Aspessoas pareceram nem se abalar. – Tive uma ideia, mas preciso da ajuda de vocês. – eu disse – Ele está perto,quando ele se aproximar mais vocês freiam os cavalos está bem? Eles assentiram, quando o monstro estava chegando perto nós freamos oscavalos e passamos por baixo das pernas dele. Corri em direção a um morro deareia. Não sei o que eles estavam fazendo, mas acho que Selina entendeu porque elafalou algo para Pedro e ele começou a disparar flechas no monstro chamando aatenção, ela e Bruno saíram cavalgando por baixo das pernas do monstro e deramum corte em cada um dos calcanhares do bicho fazendo ele se ajoelhar. Do alto domorro eu pulei em direção ao monstro, caí em seu ombro desferindo golpes em seubraço, ele tentou me pegar mas eu escorreguei pelo seu braço o cortando por todo obraço de onde começou a sair fumaça. Levei um tapa que me jogou para cima equando estava caindo desejei que o vento me colocasse de pé e isso aconteceu.Assobiei para ele e ele se virou, ele tentou me acertar mas eu desviei para o lado,mas caí, o soco foi forte demais. Ele levantou a mão para me esmagar, fechei osolhos quando ouvi: – Ei bicho feio – Bruno gritou – Vem aqui se você tem coragem. O monstro se virou. Ele urrou e depois foi contra Bruno, não vi o queaconteceu pois estava muito ocupado recuperando os sentidos e levantando. Só ouviSelina gritar e uma flecha passar por cima do ombro do Minotauro. Corri porbaixo das pernas dele cravando a espada no ferimento feito pelos dois. Quando saído outro lado vi Bruno atirado num canto, Pedro em cima do cavalo atirandoflechas, mas Selina não estava lá. Olhei para o monstro e ele estava com ela em umadas mãos. – Solte ela! – eu gritei O monstro soltou um berro que eu pude jurar que foi um como quiser. Ele asoltou, Bruno saiu correndo, talvez na intenção de segurá-la, mas não chegou atempo, ela caiu nas pedras. Não queria sequer olhar para aquele lado, ela quase 44
  • 45. morreu antes para nos salvar e agora eu tinha deixado ela morrer. Que grande amigoeu sou! Fiquei triste e com raiva. O sangue ferveu em minhas veias, hoje foi ela,amanhã era eu. Bruno correu até as pedras, Pedro ficou paralisado, não se mexia,não fazia nada. Era só eu, só eu e o Minotauro e eu iria vingar Selina. TransformeiAlfa e desejei que os ventos ficassem a meu favor e eles ficaram, não entendi porquemas estava poderoso, me sentia capaz de derrotar um monstro de cinco metros maisque nunca na vida. Avancei para cima dele. Ele estava com expressão que eu acho que era de riso,ele tentou me pegar mas eu desviei e cortei seu braço, ele tentou me pegar de novo eeu pulei para cima da mão dele, subi até o ombro e cravei a espada. Ele veio com aoutra mão para me apanhar mas eu cortei ela e cortei seu rosto perto do nariz. Fuiaí que cometi o erro, ele se enfureceu e me jogou no chão novamente, ele veio meapunhalar com um poste e eu lembrei do que fiz com a bandeira naquele dia. Marte me disse que era só eu querer, olhei para uma grande placa de ferro,estiquei a mão e desejei que ela viesse. Em cheio, ela veio direto na cabeça domonstro me dando chances de levantar novamente e pegar Omega. – Você acha que é assim? – Bruno berrou – Você não vai mais levar nenhumamigo meu! Ele escalou as pernas do monstro ajoelhado até suas costas e fincou suaespada. O monstro urrou e começou a se balançar até derrubar Bruno de suascostas, ele arrancou a espada dele e jogou para trás, a espada passou zunindo nomeu ouvido. Foi aqui que fiquei com mais raiva, uma pessoa morta é uma coisa,agora duas? Não, não podia deixar isso acontecer. Taquei Alfa na cabeça doMinotauro, ele se virou e veio para cima de mim. Estava esperando o momentocerto, o momento certo para mata-lo, apertei minha espada com toda minha força,o guardião veio me atacar, e eu com toda a força correndo em seu encontro, cravei aespada em seu peito. A espada se enterrou toda. O Minotauro foi caindo para trás e a espada foisaindo de seu peito com um tipo de liquido preto nela. O bicho ainda tentou mepegar, eu não tinha mais forças, não tinha mais energia. Para me salvar uma flechaatravessou o braço dele, caí de joelho na areia e desmaiei. 45
  • 46. Oito Conheço meu pai EU ANDAVA acostumado com pesadelos ou visões ultimamente, entãonada do que vi quando estava desmaiado me abalou muito. Apareci em um campo, estava de noite, a lua cheia brilhando no céu escurocom poucas estrelas, o vento frio passava como navalha pelas minhas costas. Estavaem frente a uma floresta com poucas arvores e um homem escorado em um muroafiando a lamina da espada contra a parede. Sua imagem estava tremula e eu não ovia com clareza por causa da escuridão. – Ah, Erick! Que bom que você veio! – a voz era conhecida, era a voz deMarte. – Marte! – eu me afastei, o que andei vendo sobre ele ultimamente eraperturbador. – Eu... eu não sei como vim, na verdade você veio. – Cara, quem está com você é muito poderoso – ele dizia atropelando aspalavras, ele parecia descontrolado, fiquei com medo de ele perder o controle comofez no Olimpo e me matar –, foi muito difícil para mim quebrar as barreiras parafalar com você. – Ei, mas você é Ares, o deus da guerra, como pode ser difícil? – Quem está com você é mais poderoso até que eu, irmão. – Se você é Ares e é meu irmão, então quer dizer que eu sou filho... – Sim – a imagem dele desapareceu por uns dois segundos e depoisreapareceu atrás de mim – Você é um semideus. Por isso está aí, por isso todosestão. Eu não tenho muito tempo, escute, tome cuidado com o traidor. – Você sabe quem é? Pode me dizer? – Eu não sei, essa barreira de poderes me impede de ver, mas mesmo que eusoubesse não poderia dizer, estou proibido de interferir em seu futuro irmão. Umacoisa, não confie na cria de Atena, ela pode querer me prejudicar através de você. Ele desapareceu como uma imagem holográfica, o comentário final dele melembrou do dia terrível que eu passei. A morte de uma amiga, o ferimento deoutros. Em quem eu poderia confiar agora? Marte, ou Ares, não poderia mais mever, Selina havia morrido, Pedro... não sei, mas ele não parece um cara bom para darconselhos. Quanto ao fato de eu ser semideus, acho que no fundo eu já sabia, querodizer, isso explicava o que eu fiz com a bandeira, com a espada e com a placa demetal, explicava o fato de minha mãe dizer que meu pai nos abandonou, explicava ofato de Marte dizer que nosso pai cuidava do mundo e explicava o fato da minha 46
  • 47. família não me querer por perto, afinal eu devia ser um ima de monstros ambulantequando não estava sob a proteção de Marte. Fiquei por mais uns dois minutos escorado na arvore pensando em tudo,depois apareci no Olimpo novamente. O lugar magnífico era aconchegante, o ventopassava levemente por mim, o ar da noite estava bom e o céu minado de estrelascom uma meia-lua no canto. Todos os deuses estavam reunidos cada um em seutrono, e haviam colocado uma cadeira de madeira preta e velha no canto da direita. Zeus, meu pai (pai de Ares na mitologia então é meu pai também. Como édeus do ar, explica como movi a bandeira, a espada e a placa de metal apenas com amente), se levantou. Ele vestia a mesma túnica branca, uma coroa de louros nacabeça e um raio majestoso nas mãos. – Que comece a votação! – ele berrou. Eu senti raiva, muita raiva. Minhaopinião sobre ele não havia mudado porque ele é um deus, para mim ele continuasendo um canalha, sem compromisso e cafajeste. Só que agora ele é um deuscanalha, sem compromisso e cafajeste. – Todos sabem que estamos aqui para votarsobre a proposta de Atena. Ela sugere que, para evitar a profecia, os três grandes sedesfaçam temporariamente de seus poderes. Vamos começar a votação, deve serdito se vota contra ou a favor e porque. Aquilo me lembrou um paredão do big brother, vota em quem e porque. – Hades, o trouxemos aqui porque o assunto se trata principalmente de mimvocê e Poseidon. Diga seu voto. Hades se levantou. Usava roupas vermelho sangue, sandálias, uma coroa negracomo a escuridão e um cinto de caveira. – Zeus, meu irmão, meu voto é contra. Acho que esta não é a melhor maneirade evitar uma guerra. Se a interpretação da profecia estiver errada e a guerraacontecer de outros meios, como poderemos nos defender dos ataques inimigos? O Olimpo ficou em silencio, todos pareciam pensar a respeito. A voz deHades saiu tão suave e convincente que todos os deuses e deusas pensaram na ideia. – Poseidon – Zeus disse enfim –, vote – Concordo com o nosso irmão, creio que a profecia pode estar sendointerpretada errada. Os votos foram seguindo, alguns contra e outros a favor. Marte votou contra,acho que para contrariar Atena, porque ele parecia sem opinião sobre o assunto.Estava empatado quando chegou na vez de meu pai. Ele franziu as sobrancelhas,mordeu o lábio e pensou por alguns instantes, ele encarou o mundo lá fora como seo imaginasse sendo um cenário de guerra. – Eu voto a favor da proposta. – ele disse enfim, houve revoltas, algunsdeuses quiseram se levantar mas ele bateu com o raio no chão e todos ficaramquietos – A profecia é muito perigosa, estamos falando de umasegunda titanomaquia, lamento que a prevenção seja por medidas drásticas, mas éuma situação de emergência. – Como vamos nos desfazer dos poderes? – indagou Poseidon – Nãopodemos joga-los fora. 47
  • 48. – Pensei em uma forma – Atena disse – de aprisionar os poderes, em umaforma simples e deixa-los no mundo mortal, em algum lugar que eles não osencontrem. – Se deixarmos no mundo mortal eles vão ser roubados. – Esconda eles em algum lugar mágico ou os proteja de algum modo.Coloque um guardião, um monstro que nenhum mortal seja capaz de derrotar. – É, de fato, – meu pai disse – uma boa ideia, esconder em ilhas mágicas ecolocar guardiões para ninguém jamais possa pegá-lo. Vamos aprisionar nossospoderes em pedras e guarda-los bem, onde ninguém possa pegá-los. O juramento. – Repitam – Atena disse – Eu juro pelo rio Estige – os três falaram juntos (o rio Estige é poderoso, sevocê faz um juramento em nome dele, não pode quebra-lo) – Aprisionar meus poderes – Atena dizia e eles repetiam – em formassimples, juro que só o resgatarei depois de 100 anos, juro que nunca ousarei pegaros poderes de meus irmãos. Um relâmpago rugiu nos céus. Uma luz começou a sair dos três irmãos, umaluz azul de Poseidon, uma luz vermelha de Hades e uma luz azul céu de Zeus. Emfrente aos deuses os quatro cristais flutuavam, idênticos aos que vi no dia quecheguei ao estranho acampamento. – A partir de agora – Zeus anunciou – os poderes estarão escondidos eaprisionados, a profecia deve ser evitada por estes cem anos. Houve uns sorrisos, uns protestos, mas Zeus bateu seu raio mais uma vez nochão, pediu silencio e dispensou os outros deuses. Acordei com dor de cabeça na ala hospitalar do acampamento que andavaficando nos últimos dias. Bruno estava ao meu lado me olhando firme com os olhoscinzas chumbo. Quando acordei me peguei gemendo comida. – Aí, Erick! – ele bufou como se fosse um alivio me ver acordado – Cara, euachei que você não fosse mais acordar. – Por quanto tempo eu...? – A dois dias. Você estava meio que vegetativo, comia pouco, mas nãoacordava nem nada do tipo. – E o Minotauro? Ele morreu? E o cristal? – Ele está morto, o cristal estava em um de seus... cascos de touro. Você omatou! – ele me deu alguma coisa enrolada em um pano, desenrolei e era a pontado chifre do monstro – A ponta do chifre, difícil de cortar. Deve ficar com você,você lutou muito bem naquele dia. – Bem, eu o acertei no peito. – No coração Erick. O coração é o lugar mais difícil de se acertar em umaluta, ele está sempre protegido. Depois que você apagou, ele se dissolveu emfumaça. – E... – eu titubeei, era difícil para mim falar em morte – E Selina, ela...? 48
  • 49. – Com o tempo temos que aprender a superar a perda de alguns amigos. – eledisse colocando a mão em meu ombro. Eu estava confuso, triste, culpado, mas nãosabia direito o que fazer. – Mas felizmente não perdemos alguns amigos. Ele puxou a cortina que dividia a minha cama a da do lado e lá estava Selinacom o braço enfaixado, camiseta vermelha, calças jeans, cabelos presos em umatrança, sentada, olhando os remédios. – Não vou te dar esse gostinho tão cedo, cabeça de vento! – ela dissesorrindo. – Mas como você...? Ah, você... você está viva! – Pois é, eu meio que nasci de novo a dois dias. Caí nas pedras que estavamcobertas de areia, talvez por isso não tenha morrido. Mas eu é que não voureclamar! – Puxa eu achei que você tinha morrido. – Eu vou chamar o Aron e dizer para ele que você acordou – Bruno disse –Selina, da o remédio para ele. Ela assentiu, pegou um vidro escrito: revigorante Medeia, anima até morto-vivo! – Eu já disse que odeio esses negócios da Medeia? Ei, eu não preciso tomarisso, preciso? – Na verdade sim, mas não parece bom. – ela serviu um copo da água e medeu o comprimido verde que cheirava a hortelã com melancia podre – É melhorvocê beber. Relutantemente eu bebi, o gosto era de mais ou menos de melancia podre.Aquilo desceu queimando na minha garganta, quis vomitar mas não consegui. – Tem gosto de que? – Selina perguntou com uma careta – Melancia podre – Já comeu melancia podre? – Não, mas é esse o gosto. Selina olhou para o chifre do Minotauro em cima da minha cama, pegou elena mão com cuidado e depois o largou de novo em cima da cama. – Fiquei sabendo que você matou o monstro. – É, mais ou menos. – Solte ela, quando eu estava a 4 metros do chão foi o máximo que você pôdepensar? – Ah, você poderia ter dito obrigado por me salvar. – E então – ela olhou em volta para ter certeza de que estávamos sozinhos –você sonhou mais alguma coisa? Quero dizer, deve ter sido bastante, afinal dois diasdormindo. Fiquei meio com medo. O traidor não havia se revelado e eu sequer tinhaalgum palpite sobre ele. Não confie na cria de Atena, Marte dissera, mas Selina eraminha única amiga naquele lugar, se alguém ali pudesse escapar ou liberar todo omundo, esse alguém era ela. Quando ia começar a contar Aron entrou na sala com 49
  • 50. cara de preocupação. Os cabelos pretos emaranhados e a barbicha para o lado, osolhos escuros estavam apreensivos e ele olhava para mim fixamente. – Garoto, achei que você não ia mais acordar. Que bom que está vivo, vamosjantar. A comida está servida, adolescentes chatos! Saímos e fomos para o templo meio-destruído. A comida estava boa, eu nãoestava com muita fome e ainda pensava em meus sonhos. Se aquilo realmente fossereal, talvez os cristais não fossem apenas poderes dos elementos, talvez possa ser ospoderes dos deuses. E Marte, o jeito como ele agiu no Olimpo, parecia sanguinárioe violento, talvez aquele fosse o jeito normal dele e ele fingia para mim. E aindatinha o traidor, eu não o vi nestes dias que passei desmaiado, mas creio que elecontinue agindo e eu precisava desmascará-lo rápido antes que fosse tarde demais eeu estivesse morto. Pensei em Selina, como ela podia ter sobrevivido? Talvez elafosse a traidora, talvez ela tenha usado o elmo da escuridão para escapar, ou pelofato de ser filha de Hades ela não morresse. Mas Hades é o deus dos mortos, nãoexplica o fato de ela controlar as arvores. Pedro, arqueiro, não estava na hora dabandeira, eu contei a ele sobre os sonhos, parecia o mais apavorado de todos, talvezfosse esta a jogada dele, parecer o bobo, o por fora, tentou incriminar Selina... Era dia nosso de lavar a louça, mas Aron dispensou a mim e a Selina porqueela estava com o braço quebrado e eu estava com tonturas e estava realmente fraco,então Pedro e os azuis foram lavar a louça e nós e os outros fomos dispensadospara fazermos o que quiséssemos. Era umas nove horas da noite, a noite estavarefrescante, a lua crescente no centro do céu, as estrelas brilhando intensamente naescuridão da floresta. Selina estava ao meu lado, estávamos indo para a cabana, não havíamosconversado durante o jantar, apenas ficamos conversando com Pedro e Bruno queficaram falando de que Aron tropeçou no próprio casco enquanto nós estávamosdesmaiados. Chegamos na cabana, estava mais frio lá dentro. Eu sentei no beliche, aparte de baixo do de Pedro onde eu andava dormindo nos últimos dias. Ficamosem silencio, Selina olhava inquietamente para sua miniatura de coruja como setentasse decifrar algum código no objeto. – Presente de Atena? – eu perguntei quebrando o silencio – A coruja, épresente de Atena? Ela me fitou como se eu fosse mais um enigma que ela quisesse desvendarmas não conseguisse, depois assentiu devagar e voltou a olhar para a coruja. – Presente de Ares? O escudo. Aquilo soou mais como um afirmação, como se ela soubesse a muito tempo.Ela parecia estar mudada, diferente, fisicamente não, mas alguma coisa aincomodava profundamente. – O que foi? – eu perguntei – No que está pensando? – Eu... eu não entendo, não entendo o que estou fazendo aqui. – Você é filha de Atena... – Filha não! Atena não tem filhos, ela caracterizada por ter se comprometidoa nunca se casar. 50
  • 51. – Ta e essa marca em seu braço? – Ela fez comigo o que Ares fez com você. Eu sou inteligente sim, mas nãoentendo porque me querem aqui, eles tem os planos, eu não tenho função específicaaqui, e minhas visões foram bloqueadas. – Você quer dizer que você não sonha mais? Ela fez que não com a cabeça. Ela me disse isso em um tom confiante, masme pareceu que não era só isso que a incomodava, havia mais alguma coisa. – Estão com a sua mãe? – perguntei um pouco sem graça, quer dizer, eu nãogosto muito de falar em família. – Não, minha mãe... estão com meu pai, ele está preso e eu.... eu não sei sevou conseguir salvá-lo. Há alguns anos antes quando... – ela se interrompeu comose aquilo fosse uma má lembrança – Você continua sonhando? Assenti, contei os meus últimos sonhos tirando a visita de Ma... de Ares. Elame olhava apreensivamente enquanto eu contava sobre a proposta de Atena. Eladisse para eu pular os detalhes do Olimpo, talvez ela já soubesse? Talvez ela játivesse sonhado com isso, não sei. Terminei de contar, ela pensou um pouco, comose pensasse se falava alguma coisa ou não. – Você sabe, não é? - ela perguntou – Sim, por isso estou aqui. – Você é raro, na verdade nós dois somos. – Por que? – Bem, é difícil de se achar algum mestiço que tenha a benção de um deus,nós dois temos. E ainda, você é filho de Zeus, por isso está aqui... – ela arregalou osolhos e abriu a boca – Oh céus! Como pude ser tão burra! – O que foi? Ela se levantou e começou a andar na cabana de um lado para o outro. Falavaalgumas coisas em grego que entendi como: como não percebi isso antes? ou opacto de edifício. – O que é o pacto de edifício? – Sacrifício, pacto de sacrifício. O que me contou, o pacto que fizeram sobreos poderes. – Eu ainda não entendi – Os deuses não podem pegar os poderes uns dos outros, é um juramentoantigo para prevenir rebeliões entre eles... – E Hades quer estes poderes... - continuei – Mas não consegue pegar – Então ele raptou treinadores e semideuses para enfrentar os guardiões epegar os poderes - comecei a entender – Porque se a gente pegar os cristais eles vão passar a ser nossos... – E de nós ele pode roubar os cristais! – Mas ele teme a gente de algum modo. - ela franziu a sobrancelha – Ele teme que a gente consiga fugir, que a gente avise ao Olimpo sobre arebelião. 51
  • 52. – Se Hades conseguir os poderes dos quatro elementos... – Ele será invencível e dominará o Olimpo. - conclui – Se ele destruir o Olimpo, os deuses cairão. O Olimpo é a fonte de poderesdos deuses. – Agora tudo se encaixou! – Mas o traidor ainda me intriga, eu tenho meus palpites, pelo que viultimamente. - ela disse – O que você viu? – Venha, tem uma arvore que viu algumas coisas aqui, não sei a quantotempo atrás, mas está ligado ao traidor. Nós saímos e fomos até perto de uma arvore que dava para o campo debatalha. Era apenas nós ali, não havia mais ninguém fora da cabana, estava um tantoescuro tirando a iluminação da fogueira que ficava no meio do acampamento. Selina respirou fundo, segurou minha mão e encostou na arvore. Apareci em umtipo de acampamento de verão acho. Muitas crianças brincando de pega-pega,esconde-esconde, jogando basquete, futebol, vôlei. Ninguém parecia me notar, eufalava mas ninguém escutava. Caminhei até perto de dois meninos que lutavam comespadinhas de madeira, lembrei de mim e de meu primo brincando no sitio, maseles pareciam profissionais. Estavam com elmos então eu não podia ver seus rostos. Um dos garotos desarmou o outro. – Ei irmão, você piorou um pouco nos últimos dias – o que desarmou ooutro disse, sua voz saiu equalizada embora fosse uma criança, como se tivessemtentado esconder as lembranças. – Acho que você que melhorou. – a voz do outro era clara, de uma criançade uns treze anos por aí A visão ficou turva. Não conseguia ver claramente como se uma nevoa meimpedisse de enxergar. A imagem começou a se afastar mas voltou de novo maisclaramente. Tive a impressão que o tempo passou na visão, o mesmo garoto estavalá, mas mais velho um pouco. Eu não pude ouvir com clareza o que dizia, mas eraalgo como: você só pode estar brincando. A imagem avançou novamente. O lugarestava em chamas, cabanas sendo destruídas por ogros, ciclopes perseguindo jovensem armaduras gregas, um lindo templo sendo esmagado por touros de bronzegigantes. Os jovens tentavam lutar, gritavam desesperadamente mas continuavam semachucando, o menino que vi de cabelos pretos estava em uma luta contra outrogaroto, o mesmo de antes, mas desta vez parecia ser real. As espadas eram reais, de titânio primordial, e eles tentavam se atingir emlocais mortais como pescoço, barriga, no coração e tal. A imagem começou aescurecer novamente, a se dissolver, mas voltou de novo com mais força. Os garotosbrigavam para valer, estavam quase se matando de verdade. – Como você pode ter nos traído deste jeito? – berrou o garoto de olhosverdes 52
  • 53. – Você não entende? Você se contenta com migalhas! Você se contenta comeles te maltratando e te humilhando! Como você pode aguentar isso? - retrucou ooutro que estava com elmo e de costas. A voz do segundo garoto ainda era equalizada. A visão começou a ficar maisfraca bem na hora que o traidor ia tirar o elmo. Senti que a visão estava tentandovoltar, mas se dissolveu e eu voltei ao mundo real. Selina soltou da arvore e ficoucompletamente mole. Eu continuava tonto, mas não havia ficado tão mal quanto elapor ter essa visão, ela caiu por cima de mim e consegui me manter de pé e segurá-la. – As lembranças... – ela resmungou tentando levantar a cabeça, mas nãoconseguiu – Elas foram apagadas, tentaram apaga-las, é difícil quebrar as barreiras, édifícil forçar as arvores a me mostrarem. Quem bloqueou as lembranças é muitopoderoso e muito forte. Ela se equilibrou em mim e fomos novamente para a cabana. Uma coisa euconsegui saber: o traidor esteve aqui antes, aqui era um acampamento feliz, mas otraidor o devastou e o destruiu. E, de alguma maneira, ele sabia que tentaríamosdescobrir. 53
  • 54. Nove Tenho uma visão comprometedora Dias se passaram, eu ainda me recuperava e ficamos treinando enquanto, nãotinha nada para fazer a não ser dar 5 voltas no acampamento todos os dias, 2 vezesao dia, treinar a defesa, o ataque, a mira, tudo isso com Aron e Quíron nos guiando.Imaginei como tudo estaria agora se o demônio Junior não tivesse estragado tudo.O campo devia continuar lindo como estava na visão antes do ataque dos monstros,as cabanas deviam estar construídas e com muitos semideuses felizes passando asférias de verão. Os campos deviam estar intactos com cheiro das arvores e daplantação de uvas, hortelãs, e abacaxis que ainda haviam resquícios que euidentifiquei agora. Eu não tive a oportunidade de explorar mais os local porqueAron deixou as regras claras, seus limites são os bosques, temos guardas por todo operímetro! Não sabia quais eram os guardas mas também não quis arriscar. O Aron erachato, não deixava a gente fazer muito coisa, não deixava visitar os rios ou oscampos do local, não deixava a gente se misturar muito com as outras equipes, nofundo eu acho que ele e Quíron fazem meio que uma competição, quero dizer,minha turma é melhor que a sua. Mas por mais que o sátiro fosse chato eu gostavadele, ele cuidava da gente as vezes, vinha ver como eu estava enquanto fiquei doente.Para falar a verdade ele estava sendo o mais perto de um pai que eu já tive. Pelasminhas contas fazia uma semana que eu estava preso. Uma semana sem minha mãe.Pensei nela, será que ela estava bem? Será que estava morta? Não, disse a mimmesmo, pense positivo, você vai sair vivo dessa. Pensei em minha avó e meu primo,o que será que eles estavam pensando? Quero dizer, a uma semana atrás eu e minhamãe devíamos ter chegado lá e agora desaparecemos. Havia alguma coisa perto dacasa da minha avó, minha mãe me mandou ir para lá quando fomos atacados peloCérbero. Agora fazia sentido minha avó me dar livros sobre mitologia de presente,ela estava me preparando. Mas se só eu e David ganhávamos livros, quer dizer que ele também... de qualdeus será que ele é filho? Será que ele já sabe? Será que ele já veio para cá? Minhaavó sempre disse que éramos especiais, mas eu não pensava que fosse deste jeito. 54
  • 55. Comecei a pensar quem protegia ele, Mar... Ares me protegia, era meu irmão (e ashistorias dele geralmente não são muito boas), mas quem protegia David? Qual dosmeus tios é o parente verdadeiro? Já que ele é um semideus um dos pais dele temque ser... “falso”. Mas por mais que David fosse meu amigo, ele sempre foi meiobobo. Um garoto gordinho, um ano mais velho que eu, cabelos loiros meio ruivos,muitas acnes no rosto, altura media. Ele não parecia o tipo de gente que você vêcom armas em punho e desafiando monstros. Ele é bem medroso para falar averdade, tem medo de tudo. Quanto a Ares, bem os mitos o retratam diferente decomo ele apareceu para mim, bem diferente. Nos mitos o Ares é um deussanguinário, impaciente, egocêntrico, estressado e raivoso, por isso ele sempre perdepara Atena (que também é uma deusa da guerra, mas ela é da guerra estratégica eAres é da devastação sanguinária, para resumir), mas o que me assustou foi que Aresme pareceu exatamente assim no Olimpo quando perdeu o controle e quis brigarcom Atena. *** Nesses últimos dias eu andava livre dos pesadelos, mas não sei se isso erabom ou ruim, afinal eu não via mais o traidor e não tinha mais pistas. Desejei verMarte antes de dormir, talvez se eu falasse a ele que o culpado fosse Hades e ele eos outros deuses conseguissem detê-lo e salvar a mim, minha mãe e meus amigos.Mas quando dormi apareci em lugar diferente, uma caverna. Estava completamenteescuro, eu não enxergava nada além do fogo, das tochas e dos olhos de quem eu via.Do nada, umas 10 tochas se ascenderam a minha volta e vi uma cena que... bem, meatormentou um pouco e me deixou com vergonha até mesmo sendo visão: estava eu,Pedro, David e Selina na caverna, mas o constrangedor é que... bem, eu eela estávamos de mãos dadas, mas aposto que deve ter tido um bom motivo, como...sei lá, um bom motivo! Bom continuando, um enorme monstro apareceu as nossascostas e depois abriu seus olhos extremamente laranjas. Eu me vendo, me virorapidamente, empurro eles para trás e transformo Alfa rapidamente, bem a tempode me defender de uma rajada de fogo. Logo depois os outros chegam, Bruno e osverdes, os amarelos e o resto dos azuis (um dos azuis era David que já estavaconosco). Todos eles são cercados de fogo e, quando estou prestes a ver elesmorrerem o cenário muda e apareço no mundo inferior. O submundo não mudounada desde a minha ultima visão. Hades e seu filho conversavam, como sempre emmeus sonhos. – Pai – disse o traidor – o garoto não desconfia de mim. Se desconfiavaantes, agora tenho certeza que conquistei a confiança dele. – Quanto a seus outros amigos? O traidor ajeita o capuz negro em sua cabeça, depois estrala os dedos etenho que certeza que se pudesse ver seu rosto ele estaria sádico e sorrindo commaldade. 55
  • 56. – Eles estão me ajudando sem saber, estão confundindo o príncipe. Ele devemorrer amanhã, quando sairmos a procura do cristal da água. 56
  • 57. Dez Quase sou esfaqueado FUI ATÉ O campo principal. Meus amigos e todos os outros estavam lápegando as armas. Não falaram nada, mas eu sabia que era o cristal da água queiríamos atrás, porque a alguns dias atrás eu ouvi o traidor dizer, em sonho, quecontava com a ajuda de Poseidon para me matar, e ontem ele disse que hoje eraminha morte. Então tudo se encaixou. Aron nos advertiu de que não seria bom colocar as armaduras agora, talveznós fossemos cair na água, e a armadura pesaria muito e talvez pudéssemos nosafogar. Principalmente eu que sempre me afogo, e só agora sabia o motivo.Poseidon comentou sobre uma profecia no Olimpo. Comentou algo sobre umpríncipe mestiço, um filho de Zeus, e o traidor disse isso ontem, me chamou depríncipe. Na profecia citada por Poseidon, o príncipe mestiço o destronaria, entãoele queria me matar. – Eu odeio água – Selina murmurou. É verdade, Poseidon também não gostade Atena, ele deve ter perseguido ela também. – Eu também não – murmurei de volta Ela sorriu, não sei porque, mas ela sorriu. Aron estava de mal humor (comosempre) e não explicou nada, apenas mandou nós passarmos por um portal. Naverdade ele nos empurrou porque empacamos na frente do portal olhando a cena. Era um oceano, nada alem de água cercava um pequeno barco. O mar estavaagitado e chovia muito, raios fracos e trovoes extremamente barulhentos dava paraouvir apenas de ficar na frente do portal. Aron me deu um chute (o que foiestranho já que ele tem cascos) e eu caí para dentro do barco. O barco estavaimundo. Garrafas quebradas, barris de rum espalhados pelo meio do navio, osmastros estavam apoiados a duas caixas de ferro para não caírem. O volante do navio estava metade comido por cupins, o convés estava cheiode musgos e algas marinhas. O cheiro mar encobria um pouco o cheiro de peixepodre, mas o barco parecia que havia sido retirado de baixo da água a pouco tempoe alguém tentasse remenda-lo. Corri para dentro da parte de baixo do barco. Lá conseguia ser pior, imundo,pratos com comidas podres cheio de mosquitos e moscas, teias de aranha enormesnas entradas das portas, mesas comidas de cupins, peixes pequenos e mortos no 57
  • 58. chão. Havia uns quartos com beliches espalhados lá em baixo, a maioria das pessoasforam se deitar, afinal tínhamos acabado de levantar. Não quis arriscar dormir em um navio. Desde que pisei no barco comecei ame sentir mal, estava sob o domínio de um inimigo, não queria arriscar dormir eficar indefeso. Selina pareceu querer a mesma coisa, ela se recusou a dormir emboraficasse bocejando o tempo todo. Aron ficou na chuva conduzindo o barco, outros mestiços que não quiseramdormir (acho que um ou dois no máximo) foram ficar no beliche, estavamcansados. Na verdade eles andavam meio que com medo da gente, não semisturavam muito, ficavam sempre afastados. Selina sentou á mesa, antes ela olhou para ver se não havia nenhuma aranhana mesa ou na cadeira. Ela disse que ela tinha fobia de aranhas desde pequena. Eucomecei a analisar as coisas que ficavam em cima das prateleiras com lampiões.Haviam alguns pergaminhos que estavam tão velhos que não deu para ler, outrosestavam molhados, havia também uma caixa molhada, eu abri e tinha umas cartas.Um baralho antigo mas seco. – Sabe jogar pife? – perguntei a Selina – Sim, por que? – ela respondeu enquanto bocejava – Eu achei cartas, um baralho. Eu peguei as cartas e sentei á mesa. Começamos a jogar pife e conversar.Estava frio, estávamos de armaduras e espadas embainhadas, de frente um pro outroe bocejando de cinco em cinco minutos jogávamos sem prestar muita atenção. – O que você quer ser quando crescer? – perguntei para puxar assunto – Eu? Viva – ela disse e sorriu, sorri também. A possibilidade de ficar viva atécrescer e cursar uma faculdade não parecia possível – Eu também, mas se você conseguir sobreviver, que profissão quer seguir? – Ah, sei lá. Quero trabalhar em alguma coisa que eu entenda, bióloga talvez.Não marinha, claro. – É, interessante, assim você poderia ficar perto das arvores e plantas. – E você? – Ah... acho que quero ser... na verdade eu não sei. Primeiro tenho que pensarem sair daqui... acho que talvez vamos ser liberados daqui a alguns dias, eu sonhei... – Bati! Ah, desculpa, continue. Contei o sonho para ela enquanto dava as cartas. Enquanto contava, confessoque fiquei com ciúmes, Atena foi até um acampamento e pediu ajuda a um filho deum de seus maiores inimigos para resgatar a gente (claro que a preocupação delanão era eu, era Selina) e Ares sequer comunicou um filho dele para me ajudar. – Temos que nos manter o máximo de tempo no acampamento porque... – Bati! – ... se nós sairmos de lá, Dean e os outros não vão nos achar. – Espera, conhece ele? 58
  • 59. – É, bem... mais ou menos. É que antes de eu vir para cá, eu e minha irmãconhecemos algumas pessoas, mas isso foi a muito tempo, antes de Atena, antes detudo. O barco quase virou, nós dois caímos com as cadeiras um por cima do outroenquanto o barco tombava e eu senti que havíamos chegado ao nosso destino. Masestava errado porque Aron gritou lá de fora: – Sem pânico, foi só um... iceberg. – Só porque eu estava quase batendo – resmunguei – Mas eu estava com o seu nove de ouro – Mas eu tinha comprado o nove de paus. Ah, eu não quero mais jogar. Oque aconteceu com você e sua irmã afinal? – Bem, – levantamos as cadeiras e sentamos de novo um de frente para ooutro – o meu pai era mortal... – Você e sua irmã são mestiças? – Claro que não! Ela e mortal, olho de vidro, mas mortal. – Olho de que? – Olho de vidro Erick, são as pessoas que podem ver alem do que vemos. Sãomortais que enxergam mais que mestiços, eles enxergam a verdadeira forma dequalquer um, sendo deus, monstro disfarçado pela visão mortal, qualquer um. – E sua irmã é assim. É raro achar pessoas assim? – Não sei, talvez, no inicio que nos perseguiam por causa dela até Atena meescolher. – ela sussurrou a parte de Atena, ainda era um segredo, só eu e outraspoucas pessoas sabiam disso – Nosso pai e minha madrasta, mãe da Clara,morreram em um acidente de carro e... os parentes da minha madrasta eles... ficaramcom clara, mas não quiseram ficar comigo. – ela tentou disfarçar a tristeza no rosto,mas não conseguiu. Eu conseguia entende-la, sabia como era duro você ser rejeitadopela própria família. – Então eu tive que fugir, achar um lugar para mim, e conhecialguns mestiços no caminho, Dean foi um deles. – Nossa, que... que tristeza, meus pêsames. – Ah, tudo bem, já faz quatro anos. E você, como era sua vida antes de virpra cá? Contei sobre minha vida, contei sobre a proteção de Marte e sobre meuprimo. Descrevi ele a ela e perguntei se ela tinha algum palpite de quem ele poderiaser filho. – Talvez se eu o visse pessoalmente – ela respondeu ainda triste, acho quelembrar do passado era ruim para ela – A aparência indica um pouco Apolo, masnão acho que seja. Pedro entrou na sala que estávamos e olhou para as cartas no chão, ele pareciaconfuso e perdido. Usava a camiseta vermelha da equipe e armadura por cima, masparecia diferente. – Vocês não estão com sono? – Não – respondi e bocejei – Ah, é que eu não quero dormir. Eu to falandoalto demais? 59
  • 60. – Não, é que eu... estou me sentindo estranho. – Pedro – Selina disse calmamente – deixa eu ver seu braço. – O que? Por que? – Só deixe-me ver. Ele ia esticar o braço, mas parou instantaneamente. Seus olhos se amarelaramcompletamente e ele puxou sua faca e veio devagar na direção minha e de Selina.Nós dois levantamos correndo e fomos nos afastando conforme ele vinha. – Pedro – eu gaguejei – cara, nós somos amigos lembra. Selina levou a mão no bolso e pegou a coruja, mas Pedro com uma velocidadeincrível tomou a coruja dela e jogou minha espada longe, ele queimou a mão a tocarna Omega mas não pareceu ligar para o ferimento. Continuamos recuando atéencostar na parede. Ele levantou a vaca de caça de trinta centímetros. Selina segurou minha mão. Em circunstancias diferentes eu teria ficadoenvergonhado, mas segurou na minha mão como se pedisse ajuda. Eu queria ajudar,mas não sabia o que fazer. Pensei gritar, mas Pedro me olhava com os olhosextremamente amarelos que diziam: se gritar eu mato os dois. Ele baixou a facarapidamente, mas conseguimos pular para o lado. Achei que ele fosse nos perseguir ou nos esfaquear enquanto levantávamos,mas o que ele fez realmente me surpreendeu. Ele estava completamente em transeescrevendo com a faca em uma prateleira de madeira. Eu e Selina nos entreolhamos.Eu peguei minha espada e ela resgatou a coruja. Paramos ao lado da porta olhando ele escrever. Apenas seu braço se mexia, oresto do corpo estava imóvel, completamente imóvel. De repente Pedro largou afaca no chão e caiu no chão. Fui correndo ver o que havia acontecido com ele, ele jáhavia acordado, como... como se alguma coisa o tivesse possuído e o largadonaquele instante. – Cara, – ele disse – que dor de cabeça! Por que você está tão pálido? – E-Erick – Selina gaguejou – Olhe isso. Me aproximei da mesa, havia muitas palavras, palavras em grego antigo quecomeçaram a se transformar em palavras em português. – As quatro relíquias juntas estarão, caso contrario dez dos treze cairão. Osquatro únicos juntos os poderes devem resgatar e no prazo da morte as relíquiastende aos donos se juntar. – repeti – Isso é...? – Sim – Selina respondeu tremula –, isso é uma profecia. 60
  • 61. Onze Vejo um amigo morrer EU ESTAVA ASSUSTADO. Ultimamente eu andava vendo coisas bemestranhas, mas ver um amigo ser possuído e escrever em uma profecia em umaprateleira de madeira semipodre era novo para mim. Enfaixamos a mão queimada de Pedro, depois que ele “voltou ao normal” elesentiu o ferimento que Omega causara. – O que eu... – ele franziu a testa – O que eu fiz? – Você escreveu na mesa. – eu disse inutilmente – Você escreveu umaprofecia na mesa. Você se lembra de alguma coisa? Porque parecia que não era você. – Eu lembro que... eu lembro de ver vocês dois de mãos dadas com medo –ele disse meio sem graça – Você veio nos esfaquear, estava com medo, queria ajuda – Selina seadiantou dizendo rapidamente. Provavelmente eu estava corado, mas diante dasituação acho que tínhamos problemas maiores. – É, você ia nos matar – eu concordei – Ok – Pedro disse –, mas por que eu ia esfaquear vocês? – Não sei – eu disse –, você meio que se possuiu ou coisa do tipo. Pegouuma faca para nós. – Pedro – Selina disse – você foi possuído por um espírito do oráculo. Issoacontece as vezes com os... com os filhos de Apolo. – É, eu... – ele olhou para o chão – eu acho que já sabia. Mas porque esseespírito me possuiu? – Apolo é o deus das profecias, certo? – eu disse – Deve ser por isso. – Mas para isso ter acontecido ele tem que já ter sido assumido, – Selinadisse – para que os poderes dele tenham sido liberados, para que ele possa ter sidousado pelo oráculo. – O oráculo? – Pedro perguntou – Oráculo não é aquele negocio que os carasconsultavam para saber o futuro? 61
  • 62. – Mais ou menos, geralmente o espírito habitava o corpo de uma jovemmoça, mas ele deve estar solto, ele foi enviado para nos dar o recado, ele veio nosdar a profecia através de você. – As quatro relíquias – eu disse – são os cristais não são? – Eu acho que sim – Selina respondeu –, mas os quatro únicos, você devesaber que um deles é o traidor não é? – Sei. E o prazo da morte? Aron invadiu a sala, Selina sentou na prateleira discretamente em cima daprofecia para esconde-la. Eu tentei agir normalmente, mas não sou muito bom ator. – Estamos chegando – ele disse friamente e só aí fui notar um corte perto doolho, ou o corte não estava lá ontem – Preparem-se, vai ser difícil, principalmentepara vocês dois – ele apontou para mim e para Selina. Ajeitamos as armaduras de bronze. Braceletes pesados, couraças um tantoilustradas com desenhos de espadas, botas de couro com um espaço para guardaruma faca e sua sola tinha um tipo de dentes para caminhar na lama (imaginei sealguém pisasse no meu pé com aquilo, não seria nem um pouco bom), o cinto coma bainha de couro para carregar a espada e o elmo com a viseira em forma T (osolhos, nariz e boca). Nosso elmo tinha uma pena vermelha no topo, para identificarquem é de nossa equipe se estivéssemos vendo de cima. Transformei Alfa. Pensei se ele seria útil contra serpentes, mas aí lembrei doarranhão que ele levou do Cérbero e em seguida se recuperou, talvez ele fosseindestrutível, rezei para que fosse. Pensei no que aconteceria se ele caísse na água emuma luta, ele voltou no dia que fui capturado, ou não retiraram ele de mim, entãonão tinha certeza se ele voltaria magicamente para mim ou se perderia nasprofundezas do oceano. Reparei no meu escudo com mais atenção, e havia um desenho alem do Alfagrande e circulado no centro. Era uma imagem pequena nas linhas da ponta. Odesenho retratava um menino, um menino enfiando uma espada no peito de ummonstro, o Minotauro. As imagens de suas aventuras ficarão gravadas nele, Martedisse uma vez e era real, literalmente, as imagens iam se formando conforme eu iapassando pelas coisas. Imaginei quantas imagens ficariam gravadas no escudo,quantas aventuras eu ia conseguir sobreviver. – Aí, – Pedro disse se aproximando de mim. Ele estava com a armaduracompleta exceto pelo elmo que carregava nas mãos. – aquela coisa de... serassumido, você sabe exatamente o que aquilo quer dizer? – Não – admiti –, não exatamente, acho que pode ser uma marca, algumamarca tipo sol, arco e flecha. Recebeu alguma coisa assim? – É, mais ou menos – ele esticou o braço e havia uma marca no pulso. Umarco e flecha e um rato desenhados em preto levemente – Recebi isso ontem anoite. Antes de dormir, uma imagem apareceu para mim. Um homem, disse queestava não hora, que... – ele se interrompeu, pareceu triste. Não quis força-lo, seu pai havia falado com ele apenas ontem a noite. Elepassou quatorze anos sem se manifestar e de repente aparece em uma visão não 62
  • 63. falando muita coisa. Apenas assenti relutante, coloquei o elmo e saí para o convésdo navio sujo. Não havíamos passado muito tempo no navio, uma hora, duas talvez, mas osol estava se pondo. Não sabia em que lugar eu estava, mas devia ser em algumlugar que devia ser umas seis horas da tarde. O vento estava ainda mais frio eagressivo jogando gotículas de água em meus braços desprotegidos, a água passavacomo navalha em minha pele. Comecei a olhar para o mar, ondas violentas pareciam ter piorado por causada tempestade, ondas de três metros de altura levantavam a nossa frente. Em umadas ondas pude ver um rosto, o rosto de um homem. – Você é meu, garoto – uma voz profunda e grave disse – Você ousa entrarem meus domínios e ainda quer sair vivo? – depois dessa frase percebi que era só euque estava ouvindo. A “pessoa” gargalhou maleficamente – Você está abusando dasorte, mestiço! A onda quebrou e o rosto se desfez. Empalideci. Poseidon estava presente, emais do que nunca queria minha morte. Um rugido muito forte surgiu de baixod’água, tão forte que fez o barco tremer. Me aproximei da ponta do convés e vi umasombra preta gigante passando por baixo do navio. Umas dez pessoas seaproximaram da ponta do navio para olhar, quando viram a sombra se afastaramrapidamente. – Fiquem longe das bordas! – Aron gritou – Não cheguem na beira do barco! Corri para o meio do navio, mas era tarde demais. Alguma coisa bateu comtanta força por baixo na parte esquerda que ela levantou, fazendo o navio inteirotombar quase que completamente. Enquanto caía consegui me agarrar com uma dasmãos a uma placa de metal que calçava um dos mastros do convés. Pessoas iamcaindo ao meu lado, a maioria conseguia se segurar em placas de ferro, pedaços demadeira, nas bordas do navio, mas um garoto passou por mim e se segurou em umarede fina presa a um pedaço de madeira do chão do navio que estava levantado. Era um azul. Ele estava completamente apavorado e desesperado, chorando ecom as mãos presas firmemente na redinha que começava a se rasgar. – Segura na minha mão – gritei para ele sobre o barulho da chuva e do mar O garoto esticou a mão tremula e seus dedos quase encostaram nos meus.Estava a uns cinco centímetros de conseguir segurá-lo quando o barco tombou maisainda para o lado. A rede do menino rasgou e ele começou a cair gritando na água,mas aí o mais chocante do dia aconteceu: pouco antes de atingir a água, umaserpente enorme subiu engolindo o garoto inteiramente enquanto ele caía. Eu não sabia o que fazer. Consegui ouvir uma risada vindo dos mares comose aquilo divertisse Poseidon, como se ele estivesse adorando aquele massacre. Osangue ferveu nas minhas veias. Quanto custou a vida daquele garoto? Uma risadamaligna e o divertimento de um velho sanguinário? Não, isso não ia ficar assim, euia fazer Poseidon pagar... Ei, a parte que ainda tinha consciência do meu cérebrodisse, ele é um deus. Mesmo assim, pelo menos a morte daquela serpente, avingança, eu fazia questão de realizar. 63
  • 64. O monstro endireitou o barco o empurrando para a esquerda, me levantei epude observar melhor a fera. A parte que estava visível acima do mar devia ter unscinco metros, era da altura dos mastros podres do navio. O corpo todo escamadoem um verde azulado escuro e espinhos em suas costas, sua cabeça era do mesmojeito com dois enormes olhos cinzentos um de cada lado da cabeça. Tinha pequenasnarinas (que deviam ser quase do meu tamanho, mas em relação ao monstro erampequenas), uma enorme boca com uns cento e poucos dentes brilhantes e umalíngua de um metro e meio para fora. A parte da frente da fera era branca e nalateral havia umas vinte guelras abrindo e fechando de cinco em cinco segundos. Todos correram para a parte de baixo do navio, Aron na frente. Ele entroucorrendo e fechou a porta, não deixou ninguém entrar para fugir. Muito corajosoda parte dele se trancar em um lugar mais ou menos seguro. Estávamos sem saída,água cercava todo o perimeto, tínhamos apenas espadas e escudos que contraaquelas feras gigantes não eram muita coisa... sim, feras gigantes, apareceram maisduas nos cantos do barco. Todos entraram em pânico, começaram a correr e gritar por todo o navio.Minha vontade era de fazer o mesmo, mas dentro de mim eu sabia que era matar oumorrer. Corri para trás de uma das placas de ferro, achei que tinha tido a ideiabrilhante mas já tinha três pessoas lá. Selina, Pedro e Bruno estavam encolhidosembaixo das armaduras apertando as armas e conversando rapidamente. – Escuta, – Bruno disse – temos que ir rápido, atacar no corpo. Estudei emuma escola na Europa, estudei sobre isso, não isso exatamente, mas sobre cobras. – Bruno, não é a mesma coisa. – Selina dizia exasperada – As escolas podemte ensinar coisas, mas isso aqui é real, r-e-a-l, as escamas não são tão fáceis deacertar. – Eu só sei que não temos tempo para testar – eu disse, e só aí que eles meviram – Acho que temos que atingir na cabeça, tipo, na cabeça é sempre certo deque machuque, não é? – Sim – Selina respondeu virando para mim – é isto que estou tentandodizer. – Mas como vamos acertar a cabeça dessa coisa? – Pedro indagou – Nãotemos tempo para... Uma sombra se formou acima de nós, olhamos juntos para o alto e a serpentemaior, a que havia engolido o menino minutos antes, ela estava pronta para dar obote e só tivemos tempo para saltar para o lado antes que ela abocanhasse ondeestávamos em poucos segundos. Como eu já esperava, a cobra me perseguiu. Ela tentou abocanhar onde euestava mas pulei para o lado e levantei a tempo de golpea-la no pescoço o quepareceu não surtir efeito. Meu golpe sequer fez um arranhão nas duras escamas daserpente. Corri para o mastro da ponta do convés, de lá podia enxergar adevastação. As três serpentes causavam o caos, jovens gritando e correndo, algunsusavam escudos na intenção de se defender de algumas mordidas, outros estavamescondidos atrás das placas enormes de metal que sustentavam os mastros. 64
  • 65. Enquanto as serpentes estavam ocupadas com meus amigos eu tive uma ideia.No alto do mastro, para segurar a bandeira, havia uma ponta grande de metal ondea bandeira estava amarrada para não correr o risco de a madeira apodrecer e tudocair por completo. A ideia era louca e arriscada, mas era a única que eu tinha, e euprecisava de meus amigos para isso. Conto com a ajuda de Poseidon para derrota-lo, dissera o traidor em meu sonho, era um deles com certeza, mas no momento eutinha problemas maiores. Saltei do mastro e saí correndo em direção a eles gritando as ordens. – Quando eu der o sinal, eu quero que empurrem as placas de metal. Eu demorei demais para falar, a serpente me achou. Ela tentou me abocanharalgumas vezes mas eu consegui desviar até ela me dar uma cabeçada. Levantei comdificuldade, a fera me fitou com seus olhos acinzentados e depois sibilou com sualíngua de um metro e meio e esse foi o seu erro, mais rápido do que ela desferi umgolpe com Omega em sua língua e arranquei uma boa parte dela fora. Aquilo foi sem duvida muito nojento e só serviu para deixar o monstro maiszangado. Sei que não estava em condições de ficar fazendo piadinhas, mas era maisforte que eu. – Está vendo tio? – eu disse mentalmente – O senhor fala demais para o meugosto. O mar começou a se agitar com mais força e cambalear o barco de um ladopara o outro sem parar. Ele devia estar se esforçando para isso, afinal ele ainda haviaseus poderes, mas era pouco, porque a maioria ainda estava preso no cristal. Entãopor mais que eu corresse perigo com o mar, não era tanto quanto se ele tivesse ospoderes completos. A cobra sibilou (o que foi estranho já que ela estava sem mais da metade dalíngua), seus olhos expressavam a raiva que sentia. Ela abocanhou as madeiraspróximas a mim e coloquei meu plano em ação. Corri o mais rápido que pude em direção ao mastro do convés e comecei aescala-lo. Sei que devia ter ficado com medo, a madeira estava em condiçõesprecárias, mas a altura me revigorava, me deixava melhor e mais forte. Estava quaseno topo do mastro quando a sibilante me achou. Ela veio na minha direção meperseguindo, mas eu já sabia e já esperava e contava com isso para o plano dar certo. Ela veio me atacar mas eu pulei para a parte de cima do mastro ficandocompletamente na ponta (a ponta na verdade era um tipo de lança, mas estava naponta da parte de madeira que dava seguimento ao outro, como uma tabuacolocada pala passagem). A serpente me olhou e sem titubear veio me atacar, puleipara o lado naquela tabua de passagem e me equilibrei transformando alfa em umrelógio novamente, afinal estava no alto, o que eu não precisava era de mais peso. A cobra mordeu parte da madeira do mastro que, para minha surpresa, não sedesfez ou desmoronou. Outra fera surgiu na minha frente abocanhando a madeiraem frente a minha, mas por sorte ainda estava perto do mastro do convés e conseguipular de volta. A cobra sem língua havia saído dali, mas a outra ainda me perseguia. 65
  • 66. Ela se afastou e se preparou para dar o bote. Arreganhou a boca com mais decem dentes e a língua de um metro meio e ainda cuspiu em mim. – Agora! – gritei sobre o barulho da tempestade aos meus amigos, pulandodo mastro. Caí e machuquei o braço na madeira molhada, mas pude ver a serpente cair.Pedro e Bruno deram encontroes fortes e precisos na placa de metal que se arrastoupela madeira molhada até a beira desestabilizando o mastro e o fazendo cair. Porsorte o plano deu certo, o mastro começou a tombar tão rápido na direção daserpente que ainda dava o bote no nada e a lança gigante cravou em sua boca debaixo para cima imobilizando o monstro completamente. Ela tentou se livrar da lança lançando um urro de dor mas logo depois sedesmanchou em fumaça e o mastro tombou completamente na água. A ideia tinhafuncionado perfeitamente, Selina me olhou impressionada com aquela cara de comonão pensei nisso antes?. Mas ainda havia um problema. Só havia mais um mastro, porem duasserpentes e minha fase de ideias brilhantes havia passado, então procurei alguém quetalvez soubesse de alguma coisa do tipo. – Ei, como vamos matar as duas? – perguntei a Selina que se escondia atrásde uma placa de metal – O único ponto fraco delas parece ser na boca ou na cabeça. Uma delas nósvamos ter que matar na mão, se é que você me entende. Assenti, íamos ter que matar uma delas no mano a mano, sem a ajuda daspilastras gigantes. – E o cristal – perguntei –, se conseguimos acha-lo, fica mais fácil de derrotara terceira. – Oh céus Erick, o que deu em você hoje?! – O que? – É brilhante, temos que encontrar antes de... abaixa! Me abaixei bem na hora que o bicho se lançou de boca aberta na altura denossas cabeças. Corremos cada um para um lado, não vi mais os outros, talveztivessem arrombado a porta, ou ido ao outro lado pelas tabuas lá em cima, só seique não estavam lá. Apenas eu, Selina, Pedro, Bruno e mais uma menina que eu nãoreconheci. Tinha um novo plano: achar o cristal que estava, provavelmente, com umadas cobras e destruir a outra com os poderes marinhos. Comecei a analisar as cobrasenquanto elas abocanhavam a esmo o navio inteiro que começava a querer afundar.O rosto do deus dos mares reapareceu em uma onda, gargalhando com sua voz máem minha mente. – O que me diz agora, príncipe? – ele disse a ultima palavra com desdém –Vai cair em meus domínios. – ele gargalhou novamente – Como vai querer morrer?Me enfrentando? Porque seria ótimo acabar com você em uma batalha! – Não – disse mentalmente –, minha mãe me ensinou a não bater nos maisvelhos. 66
  • 67. O mar embraveceu de novo, mas eu não estava nem aí, tinha problemasmaiores como derrotar duas serpentes marinhas e manter o barco sobre a água.Corri ao mastro que havia sobrado e comecei a escala-lo, o que não foi fácil com aserpente sem língua me perseguindo. Algumas vezes ela largou do meu pé e foi atrásde Pedro que disparava flechas de sua aljava encostado na placa de metal, esperandoo sinal. Bruno estava com ele, mas só observava as duas lutas. Selina estava contra a outra fera, corria, se abaixava e na maioria das vezesanalisava o monstro quando tinha tempo. Voltei a atenção para minha luta, estavaperto da ponta e notei que ainda havia parte da tabua de ligação (o resto haviacaído com a outro mastro), mas nada me ocorreu alem do natural. O que acabou com o meu plano foi a serpente ser mais esperta do que euesperava, enquanto eu me preocupava com o cristal e o procurava ela arrancou aponta de metal do mastro e a jogou na água acabando com as minhas esperanças.Pude ouvir a risada de Poseidon nas águas novamente, mas se ele achou que eu iadesistir ou morrer, ele estava muito enganado. 67
  • 68. Doze O traidor se revela EU NÃO TINHA mais nenhum plano. Estava surpreso comigo mesmo,havia tido duas ideias que nem Selina não tinha pensado, mas acho que meumomento Einstein havia acabado. Ainda havia as duas serpentes e o cristal paraachar. Eu achava que os poderes estavam na maior, a mais forte, a sem língua. Nãohavia nada a recorrer alem da minha espada, Omega, então resolvi usa-la (já que eraminha única opção). Ainda equilibrado em cima da mastro ao lado das redes desejei ter algumacoisa, alguma arma a mais, mas estava na água, era tudo de Poseidon, a chuva, o maro trovão... opa, espera, o trovão não, o trovão é do meu pa... é de Zeus, e talvez eupudesse controla-lo. Tentei me concentrar no raio, mas era impossível com uma cobra de seismetros tentando me morder de dez em dez segundos. Bem, eu disse mentalmente(caramba eu estava falando com um raio?), seria muito bom se você me ajudassesabe, tipo acabando com uma das serpentes. Os céus se nublaram mais um pouco eum raio caiu em minha espada. Não sei se o raio havia ouvido ou se eu falasse comele, mas caiu na minha espada. O choque foi passando por Omega até mim, senti aeletricidade passar pelo meu corpo, meus cabelos molhados se eriçaram, e eu mesenti instantaneamente ótimo. Poderoso, bem, capaz. Agi como um profissional treinado por uns dez anos para matar serpentesmarinhas gigantes e ferozes. Encarei o monstro, ela rosnou e me atacou, pulei e caiem cima de sua cabeça cravando Omega na parte acima da narina entre os olhos. Afera gritou de forma estranha e começou a se balançar de um lado para o outro semparar, tive que me segurar firme em Omega para não cair. Tirei a espada de seurosto e caí em suas costas (quase fui cortado por um dos espinhos, só não fuifatiado porque os “dentes” da minha bota se grudaram neles antes de eu cair), e vialguma coisa diferente em meio aos espinhos enormes, uma coisa azul brilhante. Ocristal. Tentei me aproximar mas o monstro mergulhou na água e só tive tempo decravar Omega em meio a suas escamas e me segurar novamente. Abri os olhosembaixo da água o que não fui muito inteligente de minha parte já que estava nomar e a água é salgada. Por um momento tive medo que o bicho não retornasse asuperfície, que eu morresse ali afogado, mas aí alguma coisa o fez voltar, uma 68
  • 69. pessoa com uma lança cutucando o bicho nas escamas. Assim que a fera subiu,tomei fôlego e corri por meio de suas costas atrás do cristal, mas foi mais difícil doque pensei. Ela começou a se mover e quase caí. – Erick! – Selina gritou Me virei e vi a outra serpente se lançando na minha direção com a enormeboca aberta. E então outra coisa estranha aconteceu, desejei ter uma arma maior,uma lança e Omega se transformou quase que imediatamente em uma lança. Osdetalhes eram idênticos aos da espada (as mesmas laminas formando a águia, só queo cabo era de couro com tiras de prata), tentei acertar o monstro na parte de baixoda boca, mas não deu certo (não totalmente) e fui lançado para o mar. Comecei afundando, o mar fazia força para me engolir e eu força para voltara superfície. Não sabia nadar muito bem, então mais me batia o que me fazia subirmas não o suficiente. Comecei a soltar bolhas pelo nariz e a não conseguir maisrespirar quando alguém me puxou para fora a tempo. Respirei com dificuldade,cuspi a água e sentei no barco olhando para Pedro todo molhado. – Valeu – eu disse – Eu tava me afogando. – Eu vi, mas olha só, como você fez aquilo? Hoje é o dia das esquisitices. Procurei a bainha vazia. Omega havia ficado na serpente, pendurada. Brunotentava pegar o cristal, estava em cima do mastro e tentando loucamente pular nacobra que, na maioria das vezes, não deixava abocanhando o local onde ele estava. – Precisamos de um plano. – Pedro afirmou. Ele tinha razão, precisávamos dealgum plano certeiro para pegar o poder. – Mas primeiro precisa da sua... lança. Terminando a frase ele puxou uma flecha, encaixou no arco, mirou e soltou.A flecha foi certeiramente na ponta da lança, deu um estrondo e Omega caiu emcima da placa de metal. Olhei para Pedro assustado, como ele havia feito aquilo? – Flechas explosivas – ele disse – Agora precisamos de um plano. – O barco está afundando, temos que ser rápidos, muito rápidos. – Pedroassentiu analisando o navio que começava a afundar. – Tive uma ideia, me dacobertura. Corri em direção ao mastro que já estava quase podre, peguei Omega nocaminho, escalei a madeira, e cheguei ao topo sem ser incomodado. Meu plano eraum tanto perigoso, não, um tanto não, era completamente perigoso, consistiabasicamente em eu ter 10% de sorte e matar o bicho no mano a mano. Olhei parabaixo, só via Selina brigando com a cobra menor, Pedro atirando flechas-bombas nasem língua e Bruno esperando meu sinal ao lado da placa de metal. Eu ainda estava no topo do mastro esperando a sem língua vir, mas na realquem veio foi a outra. Ela tentou me abocanhar umas 10 vezes mas eu conseguidesviar no mastro podre. Olhei para baixo para dar o sinal a Bruno mas ele haviasaído de lá, estava tirando Pedro da água, acho que ele machucou a perna porquemancava e fazia cara de muita dor. Mas a serpente ainda me importunava, aindatentava me abocanhar e eu ainda tinha que matá-la, uma outra ideia me ocorreu,mas eu ainda tinha que me arriscar, tinha acabar com isso antes que Poseidon 69
  • 70. conseguisse me derrubar na água de novo porque não sabia se ia conseguir lutarcontra ele de novo. – Ei sua coisa feia! – provoquei – Garanto que consegue ser mais feia doque... sua irmã muda! Ela veio atrás de mim e eu me esquivei para cima, chegando completamentena ponta do mastro que estava quase se rompendo e tombando. Provoquei a cobramais uma vez e ela atacou, mas ficou presa com os dentes na ponta do mastro e estafoi minha deixa. Pulei agarrado no pedaço de madeira podre e fiz um giro completobem na hora que ela conseguiu se soltar e o mastro começou a tombar, mas destavez estava preparado. Quando cheguei ao lado do mastro que estava quando puleigirando ela abriu a boca para dar o bote, mas, em uma velocidade incrível, meagarrei a madeira com o braço esquerdo, fiz um raio cair em cima de Omega e,juntamente com a cobra, me aproximei dela cravando minha lança com tudo napare superior de sua boca. Graças aos deuses meu plano funcionou. A corrente elétrica da minha lançacomeçou a passar para o corpo escamoso e imobilizou o monstro completamenteaté os raios atingirem a água. Continuei com minha lança fincada e esperando obicho se desfazer em fumaça o que não demorou muito. Soltei do mastro, fraco, ecaí de cara na madeira, na verdade com o rosto na água. Levantei a cabeça ligeiro e ametade do convés já afundava. Eu tinha que agir rápido, muito rápido. Reuni meusamigos atrás da placa de metal. – Selina, você distrai o bicho. Pedro, atira flechas explosivas nela se ela seaproximar demais de Selina – ordenei – E Bruno, você vai me ajudar a subirnaquela coisa. Todos obedeceram. Bruno saiu comigo em direção a placa de ferro e meajudou a vira-la e a subir nela, era o ponto mais alto que tinha para chamar aatenção. – Qual o plano Erick? – ele perguntou – Improvisar! Preciso subir naquela coisa. O que eu não contava era com a inteligencia do animal. Enquanto eufalava ela passou muito rápido por baixo do barco e o virou completamente prabaixo dágua. Aquilo me irritou, Poseidon usava aquele monstro como seuinstrumento de morte. – Não, Griffin, não adianta lutar – Poseidon disse – Você é meu agora,você vai morrer como muitos morreram, vai sofrer como poucos sofreram,porque ninguém desafia o Lord dos Mares! Muahahahahaha! Abri os olhos em baixo dágua porque achei que seria o melhor, e foi,porque bem na hora em que a cobra ia me matar com uma mordida certeira, medebati para cima e me agarrei a seu couro com Omega fincada entre suasescamas. Ela subiu para a superfície e minha mão chegou a encostar no cristal, masela mergulhou de novo e só tive tempo de tomar fôlego. Não vou negar que nãofiquei com medo, estava louco de medo, morrendo de medo, mas se sou bom emuma coisa é em não demonstrar isso, então permaneci sério. Ela subiu de novo, com 70
  • 71. toda a força para uns 3 metros acima quando consegui agarrar o cristal em suascostas. Caí na água, caí nos domínios do meu inimigo. Não, caí nos meus domínios. Eu não vou negar que o poder é bom. Eu me sentia bem, eu comecei arespirar abaixo do mar, a me sentir melhor do que qualquer umque pisasse nessas águas, eu me sentia mais poderoso até mesmo que o Lord dosmares, eu podia sentir qualquer alga que passasse em onda por mim. Eu me sentiacomo um deus. Virei o barco de volta a superfície, juntei meus amigos nos cantos eos calcei no barco, e eu mesmo subi apenas com uma onda que me colocou de pé namadeira molhada. Bem tio, eu acho que você está em meus domínios agora. – Não, Griffin, você pode ter pego os poderes agora, mas nunca, nunca vaichegar aos meus pés – Poseidon fez seu rosto na água – Nunca vai chegar aos pésdo Lord dos ma... Com um aceno desfiz seu rosto marinho e pude ouvir seus gritos ecoarempelas rochas: Griffin! Olhei em volta no navio. Selina estava apoiada na madeiratossindo, Pedro se pôs de pé com dificuldade e Bruno o ajudava enquanto tossiatambém. Estávamos todos encharcados, todos molhados, mas isso não era maisproblema. Desejei que a água das roupas deles saíssem por completo e ela saiu (aminha eu acho que não era só água do mar). Fui até Selina que parecia ser a pior. – Você está bem? – Ele não... – ela tossiu novamente – ele não me deixou sair, sair da água. Eu a ofereci a mão e ela pegou e se levantou com dificuldade, muitadificuldade. Me aproximei dos outros – Cara, deixa eu experimentar isso – Pedro disse – Pode curar minhaperna, me deixa experimentar isso. Dá o cristal, na boa. – Hum, não... leva a mal, é que... bem eu... não posso – Me deixa usar, só para curar a perna, érápido príncipe, é rápido! Me dá o cristal agora! Eu e Selina trocamos olhares nervosos. Ele queria o cristal, desesperadamente,estava ficando nervoso, estava ficando bravo e... me chamou de príncipe exatamenteo mesmo apelido que o traidor me chamou na noite passada. Paralisei, agora tinhacerteza de quem era o traidor. 71
  • 72. Treze Meu amado tio mata mais um MEU SANGUE fervia ao descobrir a verdade. Meu sangue fervia aosaber que era ele o tempo todo, sempre o quieto, sempre o bobo, o por fora, sempreo que menos parecia ser. Fizemos até um trato, de um proteger o outro e agora, oque ele mais queria era a minha morte. Eu poderia enfiar a espada nele ali mesmo,na mesma hora, acabar com isso, acabar com tudo. Mas e se minha mãe morresse lácom Hades? Era um grande risco. E, eu havia esquecido da serpente que ainda nãoestava morta, mas esse era o menor dos problemas. Senti o monstro nadar no mar abaixo de mim e a forcei a sair para fora.Estiquei a mão para frente e ordenei que o mar fizesse uma mão gigante de água, e,é claro, ele obedeceu agarrando a serpente em uma mão marinha gigante. O bicho sedebatia e tentava se soltar, mas eu era mais forte, então fiz um tridente de água fria,quase gelo, em minhas mãos, e fiz um raio eletricuta-lo (o que não foi muitointeligente porque quase matei meus amigos e o x9). – Isso é o que acontece com quem trai o mais novo deus dos mares –Gritei e joguei o tridente na cobra que, antes mesmo de cair na água, explodiu emuma nuvem de fumaça e raios. Pedro ainda me olhava, Bruno parecia perdido mas ainda dava apoio ao x9,Selina praticamente se escondia atrás mim, mas tentava manter a postura decoragem o que não estava funcionando. Pedro alegou que queria o cristal pelaperna, não por isso, eu posso curá-lo. – Eu posso curar sua perna – eu disse a Pedro – e não preciso do cristal. – Não, não pode – Selina disse – Ele foi mordido, arranhado, é veneno,não está quebrada. Quiron pode cura-lo. Mas como vamos voltar pra lá? Comovamos voltar? Bem na hora Quiron abriu um portal pra dentro do barco e veio direto emminha direção. Ele coçou a sobrancelha e me encarou firme enquanto Aron e umoutro menino ajudavam Pedro a passar. Bruno foi pelo portal mas Selina hesitou,ela parou umas duas vezes em frente a foto do acampamento pelo portal. Elaresolve não ir. – O cristal, Erick – disse Quíron – você o pegou e agora deve alcançá-lo amim. 72
  • 73. – Quíron, o traidor foi revelado, eu sei quem ele é, podemos pegar ele derefém agora e... – comecei mas fui interrompido – O cristal Erick, me dá o cristal. O chefe o quer Erick, você tem queentregá-lo a ele ou todos nós morremos – ele disse e aí notei nele um corte, umacicatriz, igual a de Aron mas que também não estava no dia anterior. Hades haviabatido neles, deve ter dado uma surra neles e um sermão dizendo pra não deixar eupegar os poderes, mas agora era tarde, eu já estava com eles. Ainda não sabia o quefazer, olhei de relance para Selina que estava atrás de Quiron e ela balançou acabeça em concordância e tristeza. Entreguei o cristal para Quíron em relutância,mas continuei desconfiando dele. Por que ele não prendia Pedro agora e forçavaHades a soltar todos ou seu filho morreria? Talvez ele não morresse, mas assim,como eu poderia matá-lo? Quíron praticamente me jogou para o acampamento, bem, eu sempresoube que ele não gostava muito de mim, mas o modo como ele agiu, ou ele estavamorrendo de medo, ou ele é traidor também. Fui direto para a ala hospitalar parame examinarem, Bruno e Selina fizeram o mesmo e alguns azuis também. Para meudesagrado Pedro estava lá, mas para meu alívio ele estava desacordado. Depois deme examinarem Aron e Quiron me liberaram para minha cabana, e, assim que eu eSelina colocamos os pés nela eles a trancaram e trancaram também a ala hospitalarassim que saímos. – O que vamos fazer? – perguntei a ela – Vamos matá-lo, vamos prendê-lo, vamos sequestrá-lo, vamos torturá-lo? – Não! Não podemos fazer isso! Temos que tramar alguma coisa, temosque fingir que não sabemos de nada – Como assim fingir que não sabemos de nada? É bem mais fácil eu enfiarminha espada no peito dele! – E depois? Hades te mata, ou Poseidon, ou os monstros dos dois! Semcontar nas nossas famílias, se você quer se matar e matar sua família vai em frente,mas não me mete nessa. – Eu tive uma ideia! – eu exclamei em um grito – Vai chover! – ela murmurou – Ah, cala a boca e escuta. Eu vou montar guarda a noite, em frente a alahospitalar e daí vamos ver ele sair! – Fala um pouco mais alto Erick, meu irmão não está ouvindo direito ládo submundo. – Ah, que sege, eu vou fazer isso, e pegar ele no pulo! – É, talvez dê certo porque como Quíron não acha que é ele, eleprovavelmente não vai montar guarda. – Como sabe que Quíron não acha que é Pedro? – perguntei, bem maisbaixo agora – Ele não se manifestou, não disse nada. Ele ia falar se soubesse. *** 73
  • 74. O tempo passou, era noite, eu e Selina ficamos brigan... conversando otempo todo sobre os treinadores. Ela dizia que Quíron era mais legal e eu dizia queAron era mais legal. Essa discussão durou bastante, até o Hades equalizado chamara gente para fora. Eu e Selina saímos até o campo, e lá estavam nós, Pedro demuletas e perna enfaixada, Bruno, e alguns azuis. Os únicos sobreviventes domassacre das serpentes. – Como vocês devem ter notado, as equipes se reduziram drasticamente eem números muito, muito pequenos. Ficamos com apenas 1 na equipe verde, 2 naazul, nenhum na amarela e.. olha que notícia espantosa! Os três queridos guerreirosvermelhos! Parece que vocês são duros de matar não é mesmo? Bem, continuando,eu tomei providências de arranjar mais jovens, mais guerreiros. Acho que vai serbom vocês conhecerem seus novos colegas de cabana. Assim que meu querido e amado tio terminou de falar, vários jovens comcamisetas de identificação (por cor, 1 azul, 3 amarelos e 2 verdes) vinham correndodesesperados como se fugissem de alguma coisa na floresta. Assim que nos virameles pararam, descansaram e nos olharam algumas vezes. Havia entre eles umdesajeitado, um gordinho ruivo que estava praticamente de língua de fora e camisetaazul. Só tem 1 desajeitado e burro o suficiente para ficar desse jeito: meu primo,David. Depois vi um rosto que me pareceu familiar. Um garoto de cabelos bempretos, olhos azuis escuros e brilhos. Ele estava com a camiseta amarela, cabelospara cima e uma cicatriz longa na bochecha. Eu não conseguia me recordar de ondeeu o conhecia o rapaz de quinze, dezesseis anos, mas eu só sabia que eu o conhecia. – Aí estão os novos integrantes de suas equipes, os novos servos daescuridão! Agora vocês... Minha atenção se desviou completamente ao rapaz de olhos azuis. Elearregalou os olhos, seu olhos começaram a expressar raiva e seu rosto ficouvermelho. Ele começou a correr em nossa direção gritando: – Seu desgraçado! Você vai pagar! Você acabou com a minha vida e coma de todos os outros, seu traidor! Ele estava a 1 metro de nós (eu, Selina, Pedro e Bruno que estávamos umao lado do outro). O garoto pegou a espada de Selina da bainha e pulou girandocomo se fosse golpear-nos e matar-nos, mas antes que pudéssemos fazer qualquercoisa, um buraco negro se abriu no chão e uma mão de sombra raquítica eesquelética agarrou o pé do menino e o puxou com uma força descomunal paradentro do buraco que se fechou rapidamente sobrando apenas a espada de Selinaem cima da terra fissurada. 74
  • 75. Quatorze Viro presidiário TUDO O QUE aconteceu foi muito rápido, em questão de segundos omenino estava morto embaixo daquela terra. Em questão e segundos eu quase perdia vida. Mas agora pelo menos eu sabia quem era o garoto. Ele era o da visão, o daárvore que Selina me mostrou. Aquele do acampamento que lutava com o amigo edepois com o inimigo, ele lutava contra o traidor, e, agora que ficou frente a frentecom ele, tentou matá-lo. Eu comecei a sentir raiva de Hades, afinal, se ele nãoestivesse se metido o traidor estaria morto e eu estaria com a consciência limpa, eunão iria ter feito nada! Mas é claro, Hades tinha que proteger o filhinho dele. – Tivemos um pequeno probleminha, mas isso é só... um pequeno problema,nada a mais, todos... vão para suas cabanas, vão conversar! – disse Hades um poucoconfuso Eu estava confuso. Nada fazia sentido, seu só pensava em como matar otraidor sem matar, quero dizer, provocar a morte talvez, sem que ninguémdescobrisse. Uma coisa eu descobri: o traidor pode morrer, porque se não, porqueHades teria que salvá-lo? – Ra, Erick – David disse de olhos arregalados e ainda tomava fôlego –,você está aí! Ainda bem que eu te achei! – Espera, você sabia que eu estava aqui? – É... mais ou menos, quer dizer, tipo, sim. – Como? Por que não me soltou? Por que não avisou sobre tudo? Por quevocê não fez nada? – eu comecei a despejar indignado. Ele sabia de tudo, e aindaveio pra cá atrás de mim? Porque ele não avisou o Olimpo? – Cala a boca tomadinha! – Selina interrompeu rápido – Quer que seu tiomate a gente? 75
  • 76. – Tomadinha? – questionei – É, cabeça de vento não estava te insultando o suficiente. Ah, oi menino doacampamento. – Menino do acampamento? – É, o acampamento para mestiços, o A.M.G, vai dizer que você conhece? Eu me virei para David. Ele ia a um acampamento para mestiços, um lugarseguro, um lugar legal, um lugar que, pelo que vi na visão, era livre de monstros e deperigos, e ele sequer havia me falado! – Acampamento? Nossa que grande primo você é. Selina tentou segurar o riso. – Espera, vocês são primos? Você é primo do olho de vidro? – Olho de que? –Ah, Erick, ele é olho de vidro, ele pode ver mais que nós, ele não éconfundido pela visão mortal. – Olho de vidro, David! – eu disse virado pra ele – Acampamento, olho devidro, mais algum segredinho que queira me contar? – Hm, não, é, eu... acho que você sabe né, tipo, você já sabe quem é seu pai,né? – Sim – Ei, menino do acampamento, você viu o jeito que o Dean morreu? Ele foiatacar o traidor daqui, espera... tinha um tabu no acampamento, ninguém podiafalar no que aconteceu anterior a 1 ano. – Só pode ter sido a guerra, a luta que vimos na arvore naquele dia – eu disse– Espera, conheciam ele? – Ele quem? – Indagou Pedro as nossas costas. Eu levei um susto com ele,ele sempre foi magrinho, alto, nada assustador mas agora depois que eu fiqueisabendo que ele era filho de Hades, tudo havia mudado, ele parecia sempresombrio. 76
  • 77. – O David – Selina disse calmamente, sinceramente eu não sei como elaconsegue fingir tão bem –, o paspalho do Griffin ta surpreso porque eu e o primodele estudamos juntos. – Ah, legal. Mas vocês viram aquele garoto, viram tudo o que aconteceu? – Vimos, mas ainda não sabemos pra quem ele puxou a espada. Ah, eu estoucom frio, vocês não estão meninos? Quando ia dizer não o olhar de concorda Erick de David e Selina meatingiram e aí entendi o plano. – É, está ficando frio mesmo. Vamos pra cabana é mais quente. – Hm, eu não posso ir – Pedro disse triste – Quíron me mandou ficar na alahospitalar até amanhã, mas vão me visitar lá qualquer hora. – Pode deixar – concordamos e saímos correndo pra dentro da cabana. Eu eDavid nos sentamos na parte de baixo do meu beliche e Selina na parte de baixo dodela. – Então, como conheciam esse garoto? – perguntei curioso – Ele era do acampamento, líder na verdade – David explicou – Ele foi líder algumas vezes, muitas vezes e fazia isso bem, mas ele não falamuito com as pessoas, só com a namorada dele, uma menina de Afrodite, e estavasempre de mal humor. – Selina continuou – Agora sabemos porque, ele foi traído, e pelo jeito pelo melhor amigo dele,que é Pedro, ou melhor, era. – É estranho, eu não vejo nada no filho de Apolo, eu deveria sentir, deveriaver alguma coisa, não sei. – Ele ainda não foi assumido, isso poderia dificultar pra você ver algumacoisa – É, talvez. – Bem, eu vou continuar com meu plano, vou ficar escondido perto da alahospitalar, quando ele sair eu vou atrás dele e vou dar um jeito nele. – Ãã, Erick, só uma coisa – Selina disse um pouco preocupada – Deansempre foi o melhor lutador do A.M.G, de todos os tempos... 77
  • 78. – Nunca ninguém jamais conseguiu vencê-lo – David continuou – A não ser o traidor – ela finalizou – ele luta muito bem, ele luta melhorque você. – Eu vou conseguir ganhar dele! – eu levantei – O meu futuro dependedisso! – Eu acho que não é uma boa ideia, ele é muito forte, muito esperto, e muitoestratégico – ela retrucou e se levantou Não sei como a briga começou, mas a raiva entre a gente era natural, nãoconseguíamos controlar então... – Você ta me subestimando! Acha que não sou capaz de derrubá-lo? – Nossa, quando eu começo a querer te ajudar, olha como você me trata? – Ajudar? Você ta me chamando de fraco, isso é ajudar? – Quer saber, eu não queria dizer, mas você é fraco sim! – ela disse comraiva – Se eu fosse fraco eu não tinha derrotado aquelas cobras, e muito menossalvo sua vida quando estava morrendo nas mãos do Minotauro! – Salvo minha vida? Eu caí de cabeça nas pedras! E só aconteceu isso porqueestava fraca, porque tive que dominar umas 500 arvores pra você correr, porque,não se esqueça, quando eu estava em boas condições, te dei a maior surra. – Você fica se vangloriando porque me venceu numa batalha, na minhaprimeira, quero ver agora com experiência – provoquei –, aposto como perderia nosprimeiros 5 minutos! – Se você quer apanhar de novo... – ela abriu as asas da corujinha que setransformou em 2 espadas médias idênticas – Então vamos. Desembainhei Omega e transformei alfa. – Vamos ver quem é o fraco agora. – Ei! – Aron gritou e só ai notamos ele abrindo a porta e David atrás dele.Só podia ter sido ele mesmo, só podia ter sido ele a nos entregar – Parem com isso,vocês são uma equipe! 78
  • 79. – Não mais! – Selina exclamou e transformou sua coruja de novo – Eu vousubstituir o menino que morreu na amarela. – Não, eu quero vocês dois na verde! – Aron exclamou – Escuta, então ela fica e eu vou para amarela. – eu disse – Não! – Ele berrou com autoridade – Vocês vão ficar juntos, por bem oupor mal. – Ei, calma Aron – eu disse – podemos lutar juntos nas batalhas, mas nãoprecisamos ficar na mesma equipe. – É, me deixa ir – Selina suplicou – Vocês vão ficar juntos aqui? – o treinador perguntou – Não – eu e ela dissemos juntos – Então vai ser por mal – rapidamente ele pegou alguma coisa da mão deDavid, prendeu na minha mão e depois na de Selina. Depois de alguns segundos fuinotar que era uma algema. Eu e Selina nos olhamos, nenhum de nós pensou que opor mal, seria tão por mal assim. Não tínhamos como nos soltar. – Aron espera. Volta aqui, espera! – gritamos mas ele apenas balançou achave e a guardou em meio a seus pelos emaranhados de bode. 79
  • 80. Quinze Sou nocauteado COMO SE NÃO bastasse estar preso com uma pessoa chata que acabou debrigar comigo, ainda fiquei sem ter como utilizar meu escudo... – Eu tive uma ideia – disse a Selina que parecia estar bem mais nervosa ecom raiva do que eu. – Eu posso transformar meu escudo, ele pode quebrar aalgema. – Ou minha mão! – ela exclamou – Você está louco, vem comigo. Ela me puxou pela mão e saiu rápido andando duro cabana afora. Eu saítropicando atrás e só depois de uns 3 passos consegui me equilibrar. – Calma! – eu disse – Eu posso tirar isso. É só cortar com a espada. – Como? Ta brincando, né tomadinha? – ela disse – Não, olha só. – Eu peguei Omega e pedi que ela esticasse o braço, elaesticou mas me encarava com os olhos arregalados e espantados como se eu fossematá-la a qualquer momento. Eu medi, medi, medi de novo e quando estava prestesa descer a espada quando Selina me interrompeu – Não! Para com isso! – Você prefere ficar acorrentada comigo? – Não! Mas você vai tirar meu braço fora! Vamos procurar alguém deconfiança! – Confiança? – eu disse – Eu to acorrentado junto e não sou de confiança? – Cala a boca e me segue! – ela disse e saiu andando – Não, não, eu vou ir pro outro lado Ela deixou escapar um leve riso. Me segue? 80
  • 81. – Onde você está indo? – perguntei – Em qualquer lugar que tenha um bom espadachim. Vamos atrás de Bruno. Não demorou muito até ele abrir a porta e rir 5 minutos da nossa caraenquanto a gente mandava ele calar a boca e dizia que foi culpa de Aron e que nãofizemos nada. Pedimos a ele que quebrasse a corrente. Ele tentou espada de esgrima,espada de lamina dourada, espada de titânio primordial, mas nada quebrou aquilo. – Pega a minha espada – eu disse – Está louco, eu não quero me eletrecutar! – ele afirmou – Mas aí, vocêsficam tão bonitinhos juntos – ele disse e riu histericamente com seus amigos verdese David que estava junto. – Cala a boca! Aron me prendeu aqui, eu preferia estar morta! – Selinaafirmou – Queria ver se fosse você que estivesse preso com ela e eu tivesse fazendopiada. – Foi engraçado – David disse – Ah, cale a boca – eu e Selina dissemos juntinhos Saímos dali entupidos de raiva e fomos atrás de algum arqueiro cabanas afora, mas quando estávamos quase chegando nos azuis (a primeira em que íamosprocurar) Selina parou de repente como se tivesse visto um fantasma. – O que foi? – David perguntou – Nada, eu só... me ocorreu que... deixa pra lá. *** Pelos meus cálculos nós procuramos um arqueiro até lá pelas 10h da noite eem toda cabana que passávamos eram zombados e havia as piadinhas quandocontávamos a história. Mas nossa busca não durou muito tempo porque quandocomeçamos já era isso aí de horário. Tentamos também a cozinha, passamos olho,manteiga, mas nada deslizou nossa mão o suficiente. Então fomos falar com Aron. – Escuta Aron, nos arrependemos, não vamos mais querer trocar de equipe,por favor solte a gente – implora Selina 81
  • 82. – Vamos fazer assim – ele começou – vocês vão ficar o dobro do que eudisser, ok? 1 dia assim – Então são 2 – eu disse – Agora são 4 – disse Aron – Que é... – antes de eu terminar Selina tampou rapidamente minha bocacom a mão e parecia que ia explodir, seu rosto estava completamente vermelho. – Tudo bem Aron, entendemos. Vem, tomadinha Ela me puxou arrastado para nossa cabana onde sentou e me empurrou prao beliche ao lado. – Tudo culpa sua! – ela afirmou – Minha? – indaguei, até parece que eu tinha brigado sozinho – 1 dia assim – ela disse – agora são 2, blablabla – ela fez uma imitaçãoridícula da minha voz – E só paramos em 4 porque calei sua boca! – Ok, ok – eu disse, afinal estava mesmo sem argumentos sobre o assunto –Espera, eu tenho que ir no banheiro. – E agora? – ela disse e caminhamos até a porta do banheiro – Sei lá, fica de costas. – Erick, tem um espelho – ela disse devagar e ironicamente apontando parao enorme espelho que ficava de frente pra porta. – Tenta ir, eu puxo o braço omáximo que posso e você faz o mesmo. – O que? – Só obedece Fomos puxando um pra cada lado e o metal foi se esticando como umaborracha até dentro do banheiro. Fechei a porta e usei o banheiro, quando abri aalgema nos puxou tão rápido que quase quebrei a mão. Selina fez o mesmoenquanto eu esperava lá fora. Depois ficamos parados lá dentro, procurando meuprimo, mas ele já tinha saído. Bum, houve um barulho alto na porta e corremospara abrir mas estava trancada. Bum, lá se foram as janelas. – O que está acontecendo? – perguntei 82
  • 83. – Eu não sei. Arromba! Forcei a porta varias vezes, mas nada adiantava – Não da, estão segurando. As janelas Antes mesmo que pudéssemos correr até as janelas uma nuvem de fumaçacomeçou a surgir do fundo da cabana, uma fumaça verde, que só me fez ficar tonto. – Tranca a respiração – Selina disse rápido Eu obedeci, mas em questão de minutos, antes de chegar a janela, caídesmaiado. 83
  • 84. Dezesseis Atena reúne uma equipe de resgate ÓTIMO, AGORA estava desmaiado, por uma fumaça! Covardia da partede Hades, eu não tinha como lutar contra aquilo, e era exatamente a intenção delecom isso. E, desse jeito, não podia esperar coisa diferente. Sonhos. A minha antiga prisão, sob a luz do luar. Cerca de quatro meninos e 6meninas estavam sentados, escorados nas cabanas e suados. Mas uma das garotasparecia inquieta, ela andava de um lado para o outro praguejando entre os dentes. – Não está errado! Eu tenho certeza de que era aqui! – ela para embaixo daluz de um dos postes inteiros e consigo ver seu rosto. Cabelos extremamente pretose lisos desciam até o meio de suas costas onde paravam em cima de um desenho emsua armadura de couro. Olhos róseos e orientais e boca da mesma cor queexpressavam extremo pavor e desespero. Ela é bonita e encantadora, chego aentristecer com sua frustração como se aquilo me atingisse. – O endereço está certo!Eu tenho certeza! – Calma, Nak. Você deve ter se enganado – diz um menino alto e forte decabelos militares – Ele está bem, está vivo. – Não, Jake, ela disse que era aqui! – pondera ela e lagrimas escorrem de seusolhos. – Ela pode ter se enganado. Ou eles fugiram. – Ei, maninha, está tudo bem – disse um garoto que estava completamenteno escuro, impedindo–me de ver seu rosto. 84
  • 85. – E se... Argh! Eu não quero nem pensar. Onde eles estão? – grita a meninaaos céus – Você me disse que estariam aqui! Você mentiu. – Eles estavam aqui – a voz calma de Atena assusta a todos que não haviamnotado sua presença atrás deles, ou ela simplesmente não estava lá. – Trocaram oacampamento de lugar, saíram daqui. Não sei como, mas eles descobriram queestávamos a caminho. – Pra onde eles foram? – interroga Nak – Por favor. – Desculpe querida, mas, como sabe, a lei feita por Lord. Zeus designa queos deuses não devem interferir na vida dos demais habitantes do mundo. Já fizdemais lhes dizendo o local que estamos agora, mas não posso ajudar. Ela cobre o rosto com o capuz preto e caminha sumindo na noite deixandoapenas o eco de seus passos na escuridão. – O que faremos agora? Para onde vamos? – disse Jake – Eu não sei – respondi Nak – Não tenho nenhum palpite. Quandoconseguimos, quando finalmente conseguimos reconstruir o acampamento, quandoíamos ter paz ele desaparece, e agora, tem mais de 70% chances de estar morto! – Vamos ficar aqui – decide Jake – Vamos esperar qualquer coisa. A visão se desfaz e acordo com Selina me puxando pela algema, tentando mearrastar piso a fora. Ela está virada para porta. Cabelos presos em uma trança para adireita e a mesma camiseta vermelha com os jeans azuis claros de ontem. Minhacabeça dói, meus olhos ardem e meu corpo está dividido igualmente entre:músculos rígidos e músculos moles. – Wow, dá pra parar com isso – disse a ela. Ela para e se senta ao meu ladodizendo que chegou a pensar que eu estava morto, porque tentou me acordar detodas as maneiras possíveis e eu continuei desacordado. Levantei. Me sentei no chão mesmo já que não tinha nada lá dentro. Olheiem volta, não se parecia com uma cabana, muito menos com uma casa, está abertoem cima, de modo que sei que ninguém deve, de fato, dormir ali. – Onde estamos? – perguntei – Não sei, você não me deixou ver. – Eu tava ocupado demais tendo umas visões – disse 85
  • 86. – Que tipo de visões? – Não quero falar sobre isso agora. Onde está Pedro? – Não sei, ele não amanheceu aqui. O que é melhor para nós. – ela fez umabreve pausa – Talvez ainda esteja mantendo o disfarce da perna machucada. – É, talvez. Depois recuperar metade do meu animo e disposição usual, levantei ecaminhei até a porta. O que vejo me assusta. Não sei o que eu esperava. Umgramado verde e brilhante, talvez. Ou um campo florido, bosques. Eu esperava detudo menos a entrada de uma caverna. Olhei para trás, o local onde eu acordei nãopassava de um tipo de ruína. A caverna é simplesmente enorme, alta excessivamentee larga da mesma maneira. Cheguei a me perguntar o porque de tanto espaço, já queparecia completamente abandonado e vazio. – Onde acha que os outros estão? – perguntei – Entraram? – sugeriu ela. Resolvemos primeiro olhar em volta. Caminheiem volta da ruína onde estávamos, mas nada me chamou a atenção. Andamos atédar de cara com uma montanha, nenhuma saída, nada alem da caverna. Logo quepus os pés dentro do local já me percorre um calafrio da cabeça aos pés. As paredesúmidas e extremamente escuras. Griffin ecoa uma voz suave e rígida por toda aimensidão do local. Parei de imediato e olhei em volta, procurando a fonte da voz,mas, como imaginei nada aconteceu. Era apenas a morte clamando meu nome. – Oque foi? – Nada, eu só... deixa pra lá. Conforme adentramos na caverna esta se tornava mais escura o que nos fezter a necessidade de algum tipo de luz. Eu tirei Omega da bainha, ela brilhou emmeio a escuridão e pesou mais do que o normal em meu braço ainda rígido e quaseimóvel. Selina e eu nos assustamos frequentemente com insetos ou até mesmosalguns morcegos que abato facilmente com minha lamina. Tudo está indo bem aténos depararmos com 2 pessoas correndo, sangue saindo de ferimentos e uma delaschega a mancar. Selina as avista primeiro, o que é bom, já que me impede deesfaqueá-los. Nos aproximamos dizendo que está tudo bem, mas eles hesitam emparar. O primeiro jovem para e puxa o segundo – que descubro ser A segunda –dizendo que está tudo bem. 86
  • 87. – Oh, puxa – Selina exclamou olhando o braço da garota azul que ilumineicom Omega. – O que te fez isso? – Não sabemos – David tentou explicar – Apenas caminhávamos pelacaverna, a única saída que tivemos do canto em que acordamos. – Está me dizendo que estamos sendo atacados pela escuridão? – pergunteiagradecendo mentalmente por ter Omega comigo. – Não tínhamos nenhuma luz – resmungou a garota – Corremos no escuroe fomos atacados. – Quanto ao outro azul? – Selina perguntou e David balançou a cabeça emdiscordância levemente. – Precisamos limpar os ferimentos – ela puxou a manga dagarota até a brecha da ombreira de couro. O ferimento era feio, como se tivessemarrancado um pedaço de carne dela. David forneceu um pedaço do tecido azul desua camiseta para estancar o sangue. Selina amarrou o tecido com força em volta dobraço e aconselhou a menina a não mover o braço bruscamente. Ela realizou umtipo de primeiro socorro, mas parecia desconfortável, como sempre, ela tentoumanter a postura de corajosa, sem demonstrar fraquezas. Os outros pareceram atéacreditar mas para mim, ela estava muito nervosa. – Precisamos de mais luz, suaespada não vai ser o suficiente para quatro pessoas. – Tente a sua – disse a ela, afinal, a coruja dela também é mágica, de formaque acredito que possa “brilhar como a minha”, mas a luz produzida pela espadadela não é o suficiente, mas mesmo assim, passamos ela a David que vai ficar com aretaguarda. Eu assumiria esse posto, mas Selina vai ficar na dianteira e não posso meafastar dela. Literalmente. Seguimos viagem, em alguns momentos Selina parava de repente e meperguntei se ela estava escutando a mesma voz que ouvi mais cedo, mas preferiacreditar que estava apenas analisando o lugar. O fato de ter David na retaguardanão foi uma boa ideia, já que ele é o mais medroso do grupo que não tira os olhosde nós, e o trabalho dele seria cuidar de qualquer coisa que fosse nos atingir pelascostas. Me aproximei de Selina levemente e quase a matei de susto quandosussurrei: – Preciso ir para a retaguarda. Ela me olhou e depois olhou para a algema. A ideia de ficar sozinho naretaguarda não me agradou, mas a ideia de ficar desprotegido com o primo 87
  • 88. medroso – mais uma pessoa da família que deveria proteger – na retaguarda não énada melhor. – Não é uma boa ideia, Erick. Não sabemos o que tem por vir ainda. – Se formos para a retaguarda, te conto minha visão. – Azuis tomem a dianteira. Sigam em frente até o fim da linha. Caminhamos, eu e Selina, um de costas para o outro, revezando nas olhadaspara trás. Vou contando pra ela a visão, tudo. Detalhe por detalhe. Quando chegueina aparição de Atena, senti uma ponta de inveja. Atena reuniu uma equipe deresgate, por mim é que não era. Era por Selina. Ares com sua penca de filhos nãomexeu um pauzinho sequer para me salvar. – Isso é estranho – ela diz – A menina que você viu provavelmente eraNakamura. Isso se encaixa. Lembra do Dean? O menino da arvore. Ele eranamorado dela, ela é filha de Afrodite. Ele era filho de Poseidon. Ela estavaprocurando por ele. Coitada! – E quanto aos outros? – Eu não sei, provavelmente eles foram escolhidos por ela para sair pramissão. Geralmente são só 3, no máximo 5 pessoas. mas uma missão importantecomo essa, que consiste em salvar o Príncipe Mestiço das garras de Hades, ditadapela própria deusa da sabedoria abriria com certeza uma exceção. Nos viramos, agora eu estou de costas para os outros enquanto Selina cuidada frente, afastada, mas melhor que David com certeza. – É, mas você sabe que Atena não entrou nessa por mim. Ela sequer aparecepara mim ou algo assim. – Nossa, Príncipe, que egoísmo! Você já tem Lord. Zeus e o deus da guerra,podia deixar Atena pra mim! Eu me permiti rir, o que fez David e a Azul virarem para nós com olharesperdidos. Logo depois de não falarmos nada, eles retomaram a posição e seguiramcaminho. – Isso me incomoda – digo – O que? – questionou Selina. Nós viramos ficando ela de costas e eu defrente – A piada? 88
  • 89. – Não, é bom rir um pouco. – umedeci os lábios. Eu não falei sobre issocom ninguém desde que fiquei sabendo. Sequer me permiti pensar sobre o assunto,mas não poderia adiar muito mais que isso. E Selina é uma pessoa que possoconfiar. – O negocio de eu ser o príncipe. – Por que? – Por que? Eu sou perseguido por isso! – Todos os mestiços são perseguidos, Griffin. Uns mais outros menos – nósviramos de novo – A vida normal não é uma opção. – Mas e depois. Quando isso acabar, posso voltar a ser normal. – Você nunca vai voltar a ser normal. Depois que você é um semideus, nadapode trazer sua vida de volta. Aquilo me silenciou. Por um momento eu comparei nossas vidas. Meu painão está nem aí pra mim, a mãe dela também não. Minha mãe junto comigosempre. O pai dela não. Eu nunca tive um padrasto, ela teve e a mulher morreu porsua causa. Eu vivi a vida inteira no apartamento, ela fugindo de monstros. A ultimafrase dela ainda ficou na minha cabeça. Ela é um exemplo vivo. Depois de sersemideusa ela nunca terá de volta sua madrasta, que morreu em função disso. No inicio, eu estava gostando disso. De ser um mestiço. De poder termesmo as aventuras que lia nos livros de mitologia. Mas agora, sei que não é assim.Que é muito pior do que eu pensava. – Olhem isso – disse David com a voz tremula. – Para onde vamos? Três caminhos. Três tuneis. Grandes. Olhei para cima por acaso e vi asescritas, em grego antigo. Levantei Omega para ver melhor, e até mesmo ler. – Aquele que ousa o senhor dos mortos desafiar... – estreito os olhos, mascontinua difícil de ler – A morte espera você nos ombros dos aspar... – meinterrompo porque ia dizer aspargos. – Aquele que o senhor dos mortos desafia, perde a vida aos poucos e aalegria. O ultimo a morrer e o primeiro a gritar, na lava de perda dos amigos sofrerá– Selina fala, como se fosse tudo muito fácil. Griffin ecoa em minha cabeça de novo, seguido de uma risada. A visão. O aviso. O sussurro. A risada. 89
  • 90. Tudo significa uma coisa: se Hades não me matar hoje, ele vai acabar comtodos os outros. 90
  • 91. Dezessete MINHA ESPADA CAI NO ABISMO MEDO. Simplesmente medo. A arma mais poderosa de Hades. Nuncaescrita ou relatada em qualquer livro, mas que eu tive de descobrir sozinho. Medo.O que eu estava sentindo naquele momento. Olhei para Selina, mas ela apenas meolhou de volta, sem nenhuma fala, nada. Eu queria poder falar com meu primoagora. Queria que ele me explicasse algumas coisas ou me aconselhasse, porque ele émedroso, sim, mas sabe dar conselhos. Só que agora não era o momento, e aindaque fosse, queria falar com ele sozinho, não algemado a outra pessoa... – Então? – a Azul perguntou – Para onde vamos? – Provavelmente só 1 deles é certo, os outros vai nos matar. – disse David. – Um sorteio? – sugeri – Vamos decidir nossa vida em um sorteio? – Selina reclamou – Vamosanalisar, ver os pros e os contras de cada um. Primeiro, estamos atrás dos poderesHades, certo? – A não ser que vocês conheçam outro deus dos mortos sedento pelo meusangue – disse – Espera... – a Azul disse – Você é o príncipe? Ela disse isso meio com desdém. Provavelmente esperava alguém maisexperiente, mais velho. – Infelizmente, sim. – eu disse e ela me encarou surpresa. – Prazer. – faleitentando amenizar a situação, mas não funcionou. 91
  • 92. – Estou perdida! – ela disse – Você sequer pode usar as 2 mãos! Fiquei envergonhado, de certa forma. Eu devia ser uma figura de guerra.Um... Ares da vida, sei lá. Por um momento desejei não ser tão novo e nem tão...fraco? Desabilidoso? Não, não é essa a palavra. A palavra é vulnerável. O climaficou tenso, eu desviava o olhar para baixo enquanto a menina praticamentedespedia-se da vida. – Hã... vamos continuar? – Selina sugeriu. Me deu vontade de abraçá-la pormudar de assunto – Bem, analisando os tuneis. Um é mais largo, então tende a sermais curto. O dois é mais estreito e ao julgar pelas paredes áridas e feitas por umaproporção ligeiramente contraria ao da estrutura original, eu diria que ele é,basicamente, a metade de um ligeiro retângulo de dez metros cúbicos. Selina nos olha e analisa nossos rostos. Todos os 3 ainda tentando absorveras palavras super inteligentes e completamente sem sentido pra nós. – Traduz – eu disse – Vai acabar na metade em uma brecha estreita que vai nos impedir decontinuar ou até mesmo de voltar. – Ahhh – todos nós dizemos. – E o terceiro? – perguntei – Tem uma luz no final. Provavelmente vai chegar a algum lugar lá fora. – Então? – a Azul perguntou – Acho que o 3 – David votou e nós concordamos. – Mas, provavelmente você está certo, David. 1 deles é certo, então seformos todos para 3 e ele for errado, ninguém terá chances. É melhor nossepararmos. – Ok, eu e Selina vamos para o 1 e... – David começou a falar – Eu tinhaesquecido. Eu e a azul para o um, então. – Vocês vão precisar de luz – eu disse e joguei meu relógio pra ele – Ficacom ele. Ele concorda e depois que Selina e eu ficamos esperando os dois entrarem(já que David reluta em ir na frente e resmunga algumas coisas). Entramos no 3ºtúnel. Andando um ao lado outro, tendo como foco a luz no final dele. A cadapasso que damos, Selina praticamente se esconde atrás de mim. 92
  • 93. – Você tem... medo do escuro? – perguntei, quebrando o silencio. – Não. Mas você viu as frases. Eu devo estar na lista dele agora. – De Hades? – perguntei e uma nuvem de sombras nos atingiu. Selinaagarrou meu braço. – Quer fazer o favor de não falar nomes? – ela brigou – É como se vocêestivesse o evocando. – Desculpe. Continuamos, em silencio, atentos a qualquer coisa que se movesse ou nãona escuridão. Caminhamos 1, 2 metros a frente, muito devagar e muitocautelosamente. Eu avisto a luz mais forte, mas não a frente, ao lado, nos lados.Cutuco Selina com o cotovelo e me aproximo da luz azul. Um círculo com algumaspontas ao redor, azul claro, brilhante, enterrado na caverna. Um diamante. – Não toque nisso! – Selina avisa segurando minha mão a dois centímetrosdo objeto. – Pode ser uma armadilha. Na mitologia romana, o equivalente romanodo deus dos mortos comanda as pedras preciosas porque elas ficam abaixo da terra.E tudo que fica abaixo da terra é de seu domínio. Continuamos, eu com a cabeça voltada para trás ainda pensando se voltavapara pegar o diamante ou não. Provavelmente eu poderia arrastar Selina até lá, pegara pedra e por dentro do bracelete, mas se fosse mesmo uma arm... interrompo meupensamento quando dou de cara com um estalactite gigante. Tipo, do topo do tetoquase o final do piso. – Ai – gemi e coloquei a mão na testa, mas assim que me movimentei o chãotremeu. – O que é isso? – eu e Selina falamos juntinhos. Só que eu apontando para apedra e para o chão, e ela pra luz forte que vinha de fundo do túnel. Em ummovimento rápido ela ilumina do seu lado, vê uma abertura mínima (talvez umcorredor). Ela olha de novo para o estalactite, para luz, para o túnel e só tem tempode dizer corre! Tudo foi em menos de 5 segundos. Me joguei para dentro do corredor juntocom Selina antes do fogo atingir o túnel inteiro. Cheguei a queimar a camisetaporque não deu tempo de puxar toda para o corredor. Estou olhando para aschamas incessantes quando algo puxa meu braço com força. 93
  • 94. – Corre Erick! Corre! – Selina estava gritando De inicio eu não entendi o porque, até meus olhos conseguirem ver oestalactite através das chamas. Solto, cravado no chão que era frágil o suficientepara se romper inteiro com o peso da pedra. Começo a correr tarde demais, estouapenas 1 passo a frente do desabamento do chão. O corredor não parece muitocurto e minha velocidade não parece muito boa, tanto que Selina está alguns passosna minha frente. Olhei para trás, meus pés ainda pisam em um pedaço falso dechão. É aí que o pânico me atinge. Começo a correr e a empurrar Selina na minhafrente, logo depois já estou alguns passos na frente dela. Mas o desabamentoconsegue ser ainda mais veloz. O corredor começa a se estreitar de forma que deixoOmega cair no buraco, mas ela parece estar caindo bem devagar (ou é fundodemais). Um pequeno buraquinho ainda está aberto – o suficiente para passar umapessoa – no final do túnel, então empurrei Selina para frente e fiz ela passar. Antesde passar estiquei a mão para o buraco e Omega veio até mim. Então passo peloburaco e já sou puxado túnel adentro. Achei que tinha acabado, mas o chão começa a cair novamente. Corro denovo, mas dessa vez tenho bastante vantagem. Mais ao longe, meus olhos avistaramduas pessoas andando devagarzinho com uma luz dourada e redonda iluminando afrente enquanto andavam. – Corre! – eu gritei – David corre! Ele se virou para mim com a sobrancelha ruiva franzida e meio boquiaberto. – Erick? – Corre! Eu e Selina estamos a alguns passos deles e começamos a empurrá-los túnel afora. Com força, com velocidade e, principalmente, com medo, corremos até o fimda linha. O túnel simplesmente acabou e nossos pés flutuaram por um segundoantes de começarmos a cair. Para nossa sorte, a altura era mediana de forma quecaímos sem nos machucar muito. Levanto a cabeça, esfrego os olhos e o galo na cabeça. Não enxergo nada.Tudo escuro. Nenhuma luz. Apenas Omega que está bem longe de mim. Alguémsegura minha mão como apoio. Tento enxergar, mas continuo “cego”. 94
  • 95. Uma. Duas. Duas luzes vermelhas fortes estão atrás de mim. Me viro atempo de evitar a terceira. Com o braço direito abraço algum corpo ao meu lado eme jogo no chão com ele antes das chamas atingirem nossas cabeças. 95
  • 96. Dezoito Ganho um novo amigo A MAIORIA do seus amigos não te agradeceriam por quase quebrar o narizdeles mas quando você salvou eles de serem cremados vivos eles acabamdemonstrando um tipo de gratidão. O corpo que joguei no chão era o de Selina –era meio obvio já que estava com o braço direito algemado ao dela –, e machuqueiseu rosto. Causei cortes, sangue saiu de seu nariz, mas ela me agradeceu assimmesmo. Conseguimos correr para trás de uma pedra antes da cobra que cospe fogoatacar de novo. – Ah, cara, o que eles veem nas cobras? – eu reclamei. – Eu não sei – ela disse, limpando o sangue do nariz com a camiseta. – Você ta legal? – Já passei por coisas piores – ela disse sem convicção. – Ótimo, e agora? Aprendeu alguma coisa sobre cobras alucinógenas quecospem fogo? – Não, eu desconheço essa criatura. Pode ter sido criada pelo próprioHades. De qualquer maneira, aqui não vai ser seguro por muito tempo. Desnecessário falar, o fogo ainda se espalhou pelos lados da pedra que nãoera muito grande. Então nós quase viramos uma pessoa só de tanta distancia quetentamos tomar do fogo de ambos os lados. Tento olhar em volta procurar algumasaída, mas nada me ocorre. No topo avisto uma luz, que não sei se é uma saída ouum diamante. Rezo para ser uma saída. Mas mesmo que fosse, era alto demais, eesta parte da caverna é em forma de funil. No topo, tem uma saída, mas é estreita.Grande o suficiente para passar umas 5 pessoas mas nada comparado ao enormesolo. 96
  • 97. A cobra estava posicionada no centro, e pela luz que vinha do meio, onde ocorpo se alongava, eu diria que havia chamas. Hades não é o deus do fogo, masusou o elemento para seu aliado, e, de certa forma, esse é o elemento maispertencente a ele nas histórias. Bom, isso não importava pra mim naquele momento. – Precisamos desatar isso – eu disse olhando a algema. Outro disparo de fogo, nós nos encolhemos e vemos a pedra se esfarelarpouco a pouco. A pedra estava diminuindo, eu morrendo de medo, e Selina maispreocupada com o nariz do que o resto. Tento olhar em volta. não tenho muito oque fazer aqui. Meu plano era o seguinte, sair daqui, bloquear o fogo com Alfa ecorrer até a ponta, de lá eu dava um jeito. Toco o pulso vazio e me lembro que Alfanão está mais lá. Bom, pelo menos ele estava sendo útil, vislumbro meu primo atrásde outra pedra, segurando o escudo com força enquanto... rezava? Provavelmente. – É o seguinte, a mordida desse bicho deve soltar a gente. – eu disse – O que? – Se ele morder a algema a gente se solta. – Não, eu não vou... – outra rajada de fogo passou pelos lados da pedra. –Escuta, pode ser que dê certo. Se conseguirmos esticar a corrente o suficiente paraatravessar a pedra dos dois lados e se conseguirmos fazer esse bicho morder... podedar certo. – Ta, mas precisamos de uma distração – outra rajada de fogo, agora tiroumais farelos da pedra. – Rápido. Pensei em gritar para David, mas ele estava muito longe e nunca ia escutar emesmo que escutasse, nunca ia aceitar servir de isca. Os outros eu não vi, masprovavelmente estavam escondidos. Combino com Selina de sair da pedra.Corremos, corremos e os outros também (o que revela uma coisa: todas as pedrasestavam se desfazendo). O fogo começa a nos cercar, mas sem nos acertar, passa pornosso lado, forma um circulo mantendo todo mundo dentro. A visão. A visão queeu tive em sonho. Quanto tempo eu tinha de vida? Uns 30 segundos, talvez? Mais? Menos?Isso era meu tempo máximo. Uma sombra passa pelos meus olhos a esquerda, masnão sei o que é. Provavelmente é a sombra da serpente. Olho em volta, a maioriafechou os olhos, meu primo continua murmurando alguma coisa. Pelos deuses, eraa primeira vez que... deuses... Deuses! Eu nunca havia pedido nada aos deuses, mas, 97
  • 98. de certa forma, eu estava “fazendo um favor a eles”, então eles também podiam mefazer um favor. – Ã... pessoal do Olimpo... – eu disse mentalmente – Não seria mal umamãozinha agora. – Assovie – uma voz grossa disse leve em minha mente e não era a voz deHades. Não entendi no que um assovio podia me ajudar, mas eu não ia contrariar.Assoviei. O monstro se preparava para dar o bote. Fechei os olhos esperando amorte quando ouvi um barulho, um relincho. Abri os olhos e lá estava ele. Crinabranca ao vento, o pelo escovado e em boas condições, perto de suas patas maisuma parte de pelo se abria cobrindo o casco, a característica mancha marrom nofocinho, e, a grande surpresa, as duas enormes asas brancas. Agora estava explicado o por que de eu poder conversar com ele. Umpegaso. Um ser... ã... alado. E isso podia fazer eu falar com ele por causa do meuestranho parentesco. Eu acho. – Chamou, parceiro? – ele disse pousando em cima da cabeça da cobra – Preciso de uma ajudinha. Desnecessário falar, todos correram. Eu e Selina fomos até a pedra, mas elaestava longe. Olhei meu querido pegaso correndo pelas paredes redondas da cavernaenquanto o fogo quase alcançava suas patas. Corri mais um pouco e olhei de novo.A cobra havia o deixado de mão e já tinha voltado pro seu principal alvo: eu. Meu primeiro reflexo foi entrar pelo lado mais longe da pedra, já Selina seatirou para o mais próximo dela e se escondeu, o que fez a corrente se esticar e dar avolta na pedra. Não foi proposital, mas conseguimos. A cobra-infernal abocanhou apedra e levou muitos fragmentos, com eles a corrente. Sinto mais leve o braçodireito, vejo que se rompeu completamente a corrente que me prendia em uma luzdourada. – É incrível como a morte persegue as pessoas, não é mesmo? – Hades fala edepois riu levemente Agora, naquele momento eu estava mais do que nunca determinado a mataraquela serpente enorme. Esperei ela se distrair com alguma coisa e comecei a correraté o meu... parceiro, mas o caminho era longo e a distração pouco suficiente. Me 98
  • 99. atiro no chão e desvio da primeira rajada. Meu pé prende em uma pedra. Tentopuxar a perna, mas está grudada mesmo. Uma luz forte e alaranjada atinge meusolhos e eu sei que é o fogo prestes a sair da boca do bichinho infernal. Tãoinvoluntário quanto inútil, levei a mão a frente dos olhos por causa da luz. Uns 5 ou 10 segundos se passaram. Eu com os olhos fechados e imaginandoonde estaria quando os abrisse. No mundo inferior? Campos de Asfódelos?Campos de punição? Tomo coragem e abro os olhos. Tudo o que vejo são aschamas, a pouca distancia de mim e forçando pra me queimar. Foi como se...existisse um campo de força que impedisse o fogo de chegar em mim. 99
  • 100. Dezenove Mergulho para a morte FOI A PRIMEIRA vantagem em ser filho de Zeus que notei desde que medescobri semideus. A cobra não havia parado de cuspir fogo e eu, exausto e tonto.Rastejei até meu mais novo parceiro e o montei. Eu ainda estava tonto, como setivesse quase desmaiando, mas me mantive firme. Voando conseguimos nos aproximar do animal, e eu estava certo. Havia umcirculo de fogo embaixo, onde o corpo do animal deveria estar, então eu só via aparte de cima: O enorme pescoço e a cabeça gigante com olhos vermelhos e dentesafiados. – Hey bicho feio – eu chamei O monstro se virou cuspindo fogo, mas meu pegaso era mais rápido econseguiu desviar. A cobra tentou atacar de novo, mas ainda sou mais rápido, edessa vez consegui desferir um golpe com Omega, ceifando o pescoço da aberração. – Wow, era só isso? – disse Algo chama me atenção. Selina. Ela está gritando algo pra mim, com certezadeve ser algum estimulo ou um agradecimento por eu ter matado a fera entãoapenas sorrio de volta. – Segura! – disse meu pegaso na minha cabeça e mergulhou em direção aofogo. Não entendi nada até ver as duas cobras enormes lá. Elas cuspiram fogojuntas e só me salvei porque meu pegaso mergulhou em direção ao fogo... Aicaramba ele mergulhou em direção ao fogo! – Sobe, sobe, sobe! – eu dizia 100
  • 101. Pã! Ele subiu no ultimo momento me livrando de ser cremado vivo. SegureiOmega com força. Se matei uma, mato duas, não é mesmo? Não, não é. Mas eu iame esforçar. Subi com o pegaso, agarrado em sua crina. Agora seria mais fácil,porque os arqueiros disparavam flechas, o que me dava medo de eles acertarem emmim alguma, ainda mais as de fogo, ou as explosivas (principalmente as explosivas). Me aproximo de uma cobra que está distraída e ceifo sua cabeça, a outra vempra atacar, mas meu pegaso desvia e corto seu pescoço. Achei que havia acabadoquando mais 2 apareceram na minha frente, corto suas cabeças. Outras duas atrás.Decepei-as também, mais 4 na frente e mais 4 atrás. Olho para baixo, Selina pôs as mãos na cabeça ainda gritava pra mim, deforma que talvez fosse melhor escutá-la. Digo ao pegaso para descer e ele tenta,driblando aquele monte de cabeças, mas uma consegue nos acertar, não com osdentes mas com uma cabeçada que me faz voar do pegaso em direção as pedras.Pedras. Melhor elas do que o fogo. A queda era de uns 10 metros. 9. 8. 7. 6. 5. 5, o numero que me fez rever opavor. A 5 metros do chão, pude ver que não era nas pedras que eu ia cair, e sim nofogo. Pânico. Eu não tinha o que fazer a não ser me irritar com Hades rindo emminha mente. Não, eu não podia morrer. Mas senti que estava. Eu não ouvia maisnada, nem a risada, nem os gritos, nem o barulho das pedras. Eu só ouvia a batidado meu coração... talvez a ultima batida. Começo a gritar apavorado. Não, eu não ia desistir. Omega virou uma lançaem minha mão, estiquei-a pra frente e ela raspou em uma pedra. Até cravou, maslogo se soltou. 3 metros. 2. 1. Fecho os olhos e não faço mais força, jogo as mãospara cima e... sinto alguém agarrá-las. Abro os olhos. Meu anjo da guarda! Bruno. – Segura firme. Segura firme. – ele disse, segurando minha mão com suasduas. Jogo os pés pra frente tentando alcançar as pedras e escalar, mas estou longe.Não ouso olhar para baixo, só iria me dar mais pânico, se é que é possível. Masouso olhar para o corpo dos animais... não, do animal, só tem um corpo. Umcorpo, 8 cabeças... Oh, céus! Eu cortei a cabeça de uma hidra! Eu só piorei as coisas.Mas ainda tinha problemas maiores. Uma cabeça, uma cabeça vindo na direção deBruno. Era o fim. Ele a olhou e mesmo assim não me soltou, não correu. Ela estáperto, com a boca aberta pronta pra nos engolir quando de repente bum! Umescudo dourado a luz do fogo atinge bem em seus olhos. O animal rosna e se vira. 101
  • 102. – Rápido. Vem. – David disse pegando meu outro braço. Juntos, ele eBruno me içaram. – Onde está...? – Ali – Bruno apontou. Selina contra uma cabeça, luta boa de se ver, mas elanão duraria muito tempo. O bicho tentou abocanhá-la mas não conseguiu porqueela rolou para o lado e desferiu um golpe certeiro no olho do animal. Ele urrou etentou golpeá-la de novo, mas ela conseguiu esquivar. Oh oh. Outra cabeça vindona direção dela, pelas costas, com a boca aberta e fogo pronto. Disparo em corrida,mas sei que não vou chegar a tempo. Então descubro que não sou só eu que tenhoamigos. A azul vem... voando e da um belo chute no nariz da cabeça. Sim, ela estavavoando com um... sapato voador? Era o que parecia. Puxei Selina para o meu lado, Bruno pegou a azul e a trouxe também. Penseique a hidra viria em nossa direção, mas na verdade ela tinha outras distrações, comoos outros. Eu queria salvá-los, mas sei que não conseguiria, então simplesmenteevito olhar. Selina me olha fixamente com ódio puro. – Ta, como Hercules matou essa coisa? – perguntei – Ele colocou fogo logo depois de cortar as cabeças, para que elas nãocrescessem mais. Mas é inútil, eu já tentei – Selina afirmou. – Então o que vamos fazer? – David perguntou – Matar 8 vai ser difícil – Bruno afirmou – Impossível – corrigiu a azul – Se fosse só 1, era bem mais fácil – Selina me disse brava – Eu não sabia, ok? – Você acha que é só empunhar uma espada e vai resolver o problema! – Você poderia ter avisado! – eu disse bravo – Cala a boca você já estragou demais as coisas por aqui. – Eu? Então porque não resolve isso, senhorita perfeição! – Eu resolveria se você não tivesse chamado 300 cabeças da aberração. Seuburro! 102
  • 103. – Eu sou burro? Você é... A rainha da idiotice! – Rainha da idiotice? Quantos anos você tem, 5? – 3, eu tenho 3! – Parem! – Bruno gritou – Eu vou ter que jogar uma coisa na cabeça devocês para entenderem que tem que trabalhar juntos? E sem brigas? – Jogar na cabeça... – Selina disse e seus olhos se iluminaram... ela me olhou – Acha que tem no teto? – perguntei – É claro que tem! Olha a estrutura disso! – ela afirmou – O que tem no teto? – David perguntou – Qual é o plano? – Bruno perguntou – Precisamos de uma saída primeiro. – Selina disse – Precisamos de umaarqueiro, rápido. Olho em volta, as 8 cabeças estão tentando matar os outros 7 que seescondiam. Um deles tinha que ser arqueiro... E sim, era! Avistei um arco, segui amão da pessoa, o braço e... Não! Ele não! Pedro segurava o arco com força, e tinhaapenas mais 2 flechas em sua aljava. – Precisamos do Pedro. – eu disse – David e Bruno, peguem ele. Digam a ele para abrir uma saída. Onde tivermais água nas paredes. Erick eu e Lívia vamos matar o monstro. – Mas vai... – David começou – Custe o que custar. Abram a saída. – Selina disse firme Os dois saem correndo. Olho para Selina. – Pedro tem 2 flechas explosivas na aljava, uma abre a saída, a outra quebraas pedras. – eu disse – Ele vai precisar das 2 para a saída. As pedras é com a gente. – Selinarespondeu – Que olhos de águia. – Lívia afirmou – Literalmente 103
  • 104. – Onde está seu escudo? – Selina perguntou – Ali – apontei para o chão. Peguei-o na mão. E peguei Omega também, emforma de lança. – Vamos precisar atirá-los. – Selina disse Bum. Um enorme estouro vindo da direita me fez olhar. Rochas caíram,pedras cederam, mas ainda não conseguiram fazer uma saída. Pedro encaixa a outraflecha no arco. Tinha que ser rápido. Peguei o escudo e o joguei para cima comtoda a força. Ele sumiu na escuridão. Cract, o barulho do impacto. Seguro Omegacom força e a jogo também. Mais um barulho, mas não o suficiente. Selina pragueja em grego antigo. Eu praguejo em grego antigo. Lívia nosolha como se ainda não compreendesse. Olho para cima, estreito os olhos.Estalactites balançam. Eles balançam rápido, bem rápido. Olho para onde jogueiOmega, um estalactite enorme balançando. Balançando. – Corre! – gritei. Peguei Selina pela mão e saí correndo igual a um louco para onde Pedro e osoutros estavam. Bum! A flecha explosiva de Pedro atinge a parede e abre um buraconela. Bum! O estalactite cai com o impacto. Não ouso olhar para trás, mas sei queas cabeças da hidra estão sendo fincadas com pontas gigantes. E também sei quealguns estalactites estão caindo no fogo, e que o fogo vai vim para cima de nóscomo uma onda. Tumulto, um tumulto correndo para a saída. Mesmo sendo apenas 12pessoas, o volume era grande. Consigo chegar a saída puxando Selina para fora,saímos pro lado e um pouco de magma ainda sai da caverna. Caímos no chão.Exaustos, cansados. Confusos e chamuscados. Mas vitoriosos. 104
  • 105. Vinte Me comunico com uma filha de Afrodite TODOS FICARAM felizes quando viram a nuvem de fumaça enorme quesaiu da caverna. Alguns vieram agradecer a gente, outros vieram cantando felizes,alguns olhavam em volta pensando em fugir. – Terra, fogo e água. – eu disse pra mim mesmo – Falta apenas 1 para eupoder ir pra casa – Nós irmos pra casa – David disse – Eles pegaram a vovó? Ele assentiu triste – Sim. Mais uma pessoa pra você ter que salvar. – Nós termos que salvar – eu disse dei um soco de leve em seu ombro.Embora ele fosse mais velho, era mais baixo, e sempre inseguro. Mas mesmo assim,ainda era meu melhor amigo. – Você fez um ótimo trabalho hoje. – Não, eu só joguei o escudo – ele disse, mas é claro que estava feliz com oelogio. – Eu nem sei o que querem comigo aqui. 105
  • 106. – Iam dar falta da gente. Você, a vovó. Seus pais ainda vão dar falta devocês. – Não vão, não. Eles acham que estou com a vovó, nem vão ligar. Aindabem que ninguém se feriu. – Ah, não. – O que foi? – Meu parceiro... Hey, você está bem? – O que? – David perguntou – Qual é, parceiro, ninguém derruba o alazão aqui tão fácil. – o pegaso disseem minha mente – Ainda não sei seu nome... – disse – O mandachuva, pegaso rei cara. Hercules. – Belo nome – observei – Até mais. – Com quem estava falando? – David perguntou – Você está bem? – Estou, eu só estava falando... com um amigo alado. O nome é Hercules,estou em dívida com ele. – Onde vamos agora? – David perguntou – Eu não sei... talvez devêssemos esperar. Mas, enquanto isso, me fale desseacampamento que você frequentava. *** Ficamos lá por mais ou menos uma hora. O suficiente para David me contarbastante dobre o tal acampamento. Ele me falou que lá é o lugar ideal para mestiçose Olhos-de-Vidro. Ele disse que lá tem um lugar para cada deus, uma casa pequena.A mais populosa nesse ano foi a de Hermes... Hermes gosta muito das pessoas aquem ele entrega as mensagens, suponho. O acampamento também tinha tarefasdiárias de treinamento, como arco e flecha, escalada, equilíbrio e a coroa de louros.Pela descrição dele era o paraíso, lá se tinha paz, amigos e tudo de bom... pelo 106
  • 107. menos tinha, agora com esse lance de guerra que está pra acontecer, provavelmentedeve ter abalado toda essa estrutura. Quando Aron e Quíron foram nos buscar, nos levaram para outro lugar. Umprédio. Sim, como apartamentos. Mais espaçosos e tudo mais, mas quandoolhávamos pela janela só víamos escuridão e vultos. Ninguém nunca ia conseguirescapar. A boa noticia era que tinha um chuveiro e a má era que Pedro voltou aficar com a gente. Era difícil pra mim olhar pra ele sem querer matá-lorepentinamente, mas eu havia recebido bons conselhos quanto a isso. Já era noitequando parei de andar de um lado pro outro no apartamento, uma coisa meincomodava: a profecia ainda não resolvida. As 4 relíquias juntas estarão, caso contrario 10 dos 13 cairão... Não faziasentido, não a segunda parte. As 4 relíquias, os cristais tem que estar juntos, casocontrario 10 dos 13... os deuses, 13 deuses contando com Hades. Agora porque10? Isso não fazia sentido... Depois de me cansar, me deitei e adormeci e o que euesperava dessa noite? Visões, pesadelos, coisas horríveis, mas apenas caí no sono. *** Acordei com o barulho da porta batendo. De um sobressalto eu pulei dacama. Havia esquecido que estava ali, provavelmente eu sonhei que estava em casa,mas pena que eu não me lembrava do sonho. Olhei em volta, ninguém nas camas, ascamas estavam desarrumadas e limpas, diferente de mim. Me levantei e me olhei noespelho. – Santo deus da guerra. – murmurei Eu estava... horrível. Sujo, mais magro, os cabelos pareciam eletrocutados.Em meu rosto tinha manchas de sujeira, manchas de sangue e manchas de coisasque sequer sabia o que era. Minhas roupas estavam chamuscadas, meus olhos comenormes olheiras e o corpo então... pura fuligem. Eu não havia me olhado noespelho desde que cheguei aqui. – Acho que um banho te faria bem – Selina disse pelas minhas costas, quasecaí de susto. Me virei. Ela estava... diferente. Os cabelos estavam molhados e soltos,ela estava limpa, roupas limpas também. Uma blusa branca com rosa, calça jeans eum tênis rosa. Ela estava... ah deixa pra lá. – Pra você fez – eu disse meio sem pensar 107
  • 108. – Com certeza, pra todo mundo deve fazer. Tem roupas limpas nosarmários. Deve ter o seu tamanho. – Que horas são? – perguntei – Agora? 12:30. Você dormiu ein? Quem dera eu pudesse ter tanta paz nosono. – E Pedro? – Saiu. Disse que a perna estava doendo e saiu. Melhor pra nós – ela deu deombros – Ah, tem comida na geladeira. – Que comida? – perguntei – E importa? – ela riu Eu fui até o armário, guarda-roupas. Tinha algumas roupas lá, uns casacos,ternos, vestidos. Passei a mão em uma camiseta azul marinho, calça jeans, tênisbrancos e meias pretas. Me perguntei se as roupas já estavam ali ou se foramcolocadas por algum servo de Hades. Me dirigi ao banheiro e comecei o banho.Esfreguei o rosto e tirei o sangue seco. Tirei as fuligens do cabelo e gastei quasetodo o xampu até tirar o fedor de peixe. Eu me sentia melhor. Renovado. Bem. Mevesti e ainda achei pasta de dentes, a qual eu usei para escovar os dentes com o dedo(é meio anti-higiênico, eu sei, mas é melhor do que usar escovas dentais de quemvocê nem conhece). Me olhei no espelho novamente depois de sair do banho.Agora sim. Os cabelos loiros estavam penteados, as roupas limpas, o rosto limpo eos olhos... bem, melhores. Fui até a geladeira. Tinha um hambúrguer e uma latinha de pepsi lá. Eramelhor que nos outros dias que eram só cereal e suquinho. Fui até a mesa e Selinaestava lá, lendo alguma coisa. Um livro, provavelmente achou na casa. – Patético – ela reclamou – Ridículo. – O que foi? – Esse livro. É ridículo. – ela fechou o livro, e se arrumou na cadeira – Euvou sair – Pra onde? – Tanto faz, estou cansada de ficar aqui – ela disse 108
  • 109. Eu queria pedir para ela me esperar, mas fiquei um pouco com vergonha eestava muito faminto para parar de comer. Terminei a refeição em silencio. Fiqueium tempo lá ainda, olhando pela janela, olhando a escuridão profunda. Eu nãoaguentaria ficar mais um minuto ali. Eu não sabia aonde eu ia ir, aí me lembrei queprecisava alertar alguém. Desci as escadas até onde me informei com Lívia era o lugar dos verdes. Batina porta e quem me atendeu foi a pessoa certa: Bruno. Só que atrás dele Pedrovinha vindo. – Eu já estava saindo – ele disse. Também estava limpo e arrumado, masainda caminhava com dificuldade. Depois que ele subiu as escadas Bruno se viroupra mim. – E então? Você está bem diferente, em? – ele disse – Quer entrar? – Ã... sim – eu passei pela porta. O apartamento deles não era tão bonito,era bem mais simples, mas ainda assim era aconchegante. Ele me mostra um sofá,nós nos sentamos um de frente para o outro. – Você está sozinho? – Tem uma no banheiro, mas ela está tomando banho, não se preocupe – elese ajeitou na poltrona. Seus cabelos pretos estavam arrepiados e os olhos castanhosestavam brilhantes, ele usava uma camiseta branca polo e calças jeans. – Olha, euacho que sei do que você quer falar... – É, eu acho que você sabe. – eu disse – Mas antes de tudo, eu queroagradecer a você por ontem, você me salvou. De verdade, eu ia estar morto agora. – É isso que os amigos fazem, não é? – Ele disse e forçou um sorriso. – É. Bem eu estou aqui para alertar você. Já tem um tempo que eu... descobrisobre Pedro. Ele... – baixei o to de voz – é filho de Hades. – Eu sei – ele disse triste – Mas não posso simplesmente mandar ele embora,ele pode me matar! – Eu sei... mas toma cuidado, ok? – eu disse e me dirigi até a saída. Eleapertou minha mão e notei algo estranho. Uma marca. – O que é isso? Você é filhode quem? Aquilo soou idiota e impulsivo. Eu sei o quanto é delicado falar da família,mas simplesmente saiu. Involuntariamente. É sério. 109
  • 110. – Ah – ele puxou o braço – Eu sou filho de Hefesto. Estranho, não é? Euachava que... ah sei lá, achava que não era Hefesto. – Ah, certo. Eu também, não achava que você era filho de Hefesto. – Você é filho de Ares? – ele perguntou – É... – toda a longa a história sobre Marte me veio em mente, e eu estavacom preguiça demais para contar. – Sim. – Legal. – ele disse e eu fui embora. Logo depois de subir as escadas do apartamento, eu sentei no sofá e minhacabeça começou a doer muito. Latejar de verdade. Levei a mão nela e de repente euestava vendo fog, fogo para todos os lados. Sacudo a cabeça, fecho e abro os olhosvarias vezes. Durou uns 5 minutos até passar. Quando volto a mim Selina e Davidestão abrindo a porta. – Como está Tomadinha? – Selina pergunta, de um modo frio. – Ótimo – meti – E vocês? – Bem – Selina respondeu ainda fria – Eu to legal – David disse feliz e então começou a andar na direção de umaparede. – A quanto tempo estão capturados. – Sei lá, uns 15 dias? – 17 dias, 12 horas e 30 minutos – Selina disse – Como você sabe disso? – perguntei – Eu sei das coisas, ta? Por que, David? – Então... hoje é dia 24 de dezembro. – David disse – Véspera de natal. – E daí? – perguntei – Daí – Selina disse –, que amanhã fecha os exatos 100 anos do Pacto deSacrifício. *** Estava anoitecendo e não me importava que horas eram, eu só queriadormir. Pedro chegou no apartamento minutos depois de David sair. Ele apenas se 110
  • 111. deitou e riu pra mim. Aquilo me enojava, eu poderia ter morrido diversas vezes porcausa dele, mas aquilo sequer o incomodava. Tive uma noite tranquila de sono,certo? Errado! O meu sonho não foi bem um pesadelo, mas também não foi agradável. Vinosso antigo acampamento, o antigo mais recente. Nak estava ajoelhada envolta deum menino moreno de olhos róseos. Ela chorou e colocou uma bandagem em cimada testa do garoto. Este estava desacordado, mas mesmo assim se contorceu umpouco. Olhei em volta. Os outros estavam dormindo, em seus sacos de dormir narua. Aquilo me comoveu, Nak e o garoto. Eu me aproximei deles e olhei o meninocom calma. Eu iria dizer alguma coisa, mas sei que seria inútil, ninguém me ouviriamesmo. – Ele vai ficar bem – eu disse alguns minutos depois. Nak se virou a procura do som. – Alguém está aqui? Ela me ouviu... Ela me ouviu! Senti meu corpo saindo do sonho, me sentivoltando a cama, deitado. – Socorro! Apartamentos, escuridão, cidade! – gritei e acordei sentado nacama suando frio. 111
  • 112. Vinte e um Vou para o templo nas nuvens MINHA CHANCE, minha única chance de informar onde estava, de dizeronde Nak e os outros deveriam ir, onde eles poderiam me libertar! Eu ponderei, mealto puni com xingamentos diversos e perdi o sono. Já era umas 9:30 da manhã e euestava inquieto. Limpei a geladeira. Deixei apenas um pouco de queijo e presuntopara meus amigos e desci todos os andares até o térreo. Ninguém me parou noscorredores, nem mesmo na saída. Andei um pouco por onde a escuridão nãoabrangia e dei de cara com Aron. – O que faz aí, adolescente impertinente? – ele perguntou para mim. – Nada, eu só... – Nem fale nada! Vá se vestir, ali a direita. E se arme também. – Era aprimeira vez que ele não xingava – Jovem insolente – ele murmurou. É, talvez euestivesse errado. Segui a direita. Armaduras de couro, bronze e pele estavam ali. Optei pelasde couro. Eram mais leves e senti que esta manhã eu precisaria correr muito. Eutinha um plano. Arriscado, muito arriscado, mas era um bom plano. Depois de por a couraça de couro, os braceletes, as botas – essas tambémtinham uns espinhos – e pegar o elmo – que por sinal era bem melhor e se encaixodireitinho em minha cabeça – eu fui até a prateleira com as espadas. Olho elas. Sãomuitas. Me encanto em uma espada de ouro com a haste do cabo curvada parabaixo, mas esta é muito grande e para concluir meu plano eu precisaria develocidade, precisaria correr. Pego uma outra dourada, tem um brilho forte, e é bem 112
  • 113. clara. Não diria que ela era de ouro, era um dourado da luz do sol. Ela se encaixabem em minha bainha. Eu havia perdido Alfa e Omega, mas foi por uma boa causa. Pensei em pegaroutro escudo, mas lembrei que esse não se transformaria em um relógio, como Alfafazia magicamente. Peguei algumas facas. Coloquei uma em cada bota, uma em cadabracelete e ainda enfiei uma no cinto de munição. Coloquei nele também outrascoisas como um punhado de corda. Não sei pra que precisaria, mas precisaria.Coloquei também um arco nas costas – nunca fui bom em arquearia, mas talvezprecisasse. Eu estava preparado. Meu plano era simples. Pegar os poderes do meu pai efugir para o Olimpo. Como eu chegaria no Olimpo? Onde fica o Olimpo? Esperavaapenas que Hercules soubesse me responder. Consequências? Morte, perda da mãe,do primo, da avó e dos amigos. Agora e se eu não fizer isso? Hades vai provocaruma guerra do cão que provavelmente vai matar todo mundo. O trecho da profeciavem a minha mente: As 4 relíquias juntas estarão. As 4... eu só vou levar uma... deveservir para alguma coisa. Deve não, tem que servir. *** Não demorou até todos se arrumarem. Eu, armado até os dentes e inquieto.O vento estava gélido, cogelando meus ossos, mesmo a camiseta sendo de mangacomprida e a armadura e os braceletes esquentando bastante, ainda estava frio.Quíron passa por mim, enquanto respiro fundo. – Deixe-me ver – ele pega a espada de minha bainha e a analisa. A sensaçãode ter que olhar para cima cada vez que ele esta perto de mim não é boa. Ele deveter uns dois metros mais ou menos. – Titânio primordial revestido com os metaisda ilha do sol... Boa escolha – ele disse e sorriu pra mim. Forço um sorriso. Não foi minha primeira escolha, nem a segunda. Tenhouma tendência forte para armaduras pesadas, mas hoje consegui manter o foco.Aron da a ordem de nos agruparmos com nossos parceiros. Selina e Pedro estão aomeu lado. Olho para ela. Vestiu a armadura de pele e trançou os cabelos para olado. Sorrio para ela. – Pronta para o fim? – perguntei baixinho. – Você nem imagina o quanto – ela respondeu com um sorriso maligno norosto. 113
  • 114. Aron abre uma frasco com um conteúdo sólido azul dentro e o joga no ar.Vejo em câmera lenta a areia azul se agrupando em forma circular e girandoformando o portal. Antes de passar, peço a meu parceiro, Hercules, para ficarpreparado ao meu chamado, depois volto minha visão para o portal. O lugar ondesairei é lindo. Ruínas. Pedras brancas de formas arredondadas contornavammontanhas que faziam desenhos a paisagem. Eu não via nenhum campo, apenasrochas. O sol brilhava e o céu azul estava com algumas nuvens estrategicamenteespalhadas para o dia ficar perfeito. “Bom, não é um lugar ruim para morrer”,pensei. Atravessei o portal. O local era ainda mais bonito de perto, estava quente eaconchegante. E só tinha um fator paranormal na paisagem: as nuvens abaixo demeus pés. A pedra por onde eu andava era praticamente uma ponte, só que natural.Ela estava íngreme de forma que continuávamos subindo. Selina olhavaconstantemente fixo para frente e dava os passos com muito medo. Eu a ofereciajuda, mas ela apenas resmungou algumas coisas. Eu estava ótimo, estava em casa.Provavelmente ninguém sobreviveria a tantos pés de altura, mas somos semideuses eo lugar pode ser mágico também. Depois de mais ou menos meia hora de subidapude avistar um templo. Enorme. Esbelto. Dourado a luz do sol e em formaretangular. Não era nada parecido com o Parthenon. Talvez até mais belo. Não demorou muito até entrarmos no templo. E este era incrível. Havia umaestatua de meu pai com um raio majestoso na mão e na outra o famoso escudoAégis – aquele que contem a “imagem” da cabeça da Medusa –, mais adiante haviaescombros, poeiras e outra forma incrível. Era como um grifo das historias antigos,mas diferentes. Tinha todo o corpo de um enorme leão branco, com os dentesafiados e os olhos fechados, e as enormes asas albinas de uma águia. – Uau – eu disse e fui com a mão na pata da estatua. Tirei um pouco depoeira e a pata enrijeceu. Levantei a cabeça. O animal abrira os olhos azuis tantoquanto os meus. A grossa camada de poeira e areia que cobriam o bicho começou ase quebrar e tive menos de dois segundos para me atirar no chão antes que oenorme grifo desce o bote. 114
  • 115. Vinte e um Meu amigo sai de férias adiantadas O SUSTO que eu levei foi grande. O servo de Zeus passou por cima deminha cabeça e partiu direto pra cima dos outros. Ele abocanhava um, arranhavaoutro, e muitas vezes até empurrava eles para fora do templo. Uma das meninas –uma verde eu acho – caiu para fora. Eu corri até ela, tentei segurar sua mão, masnão consegui... de novo. A segunda pessoa que deixei escapar, que não conseguisalvar desde que vim pra cá. Volto para dentro com raiva. O animal é um servo domeu pai, mas achei estranha a possibilidade de eu poder falar com ele. Não custavatentar, afinal, não sei que chances teria e também quanto tempo eu teria. Até o fimdo dia talvez. – Ei, cara... quer dizer senhor – eu comecei – Vamos conversar em paz... De repente ele pulou em cima de mim e cerrou os dentes perto da minhacabeça. Por acaso você sabe como é ficar um cavalo enorme e gordo em cima devocê? Não? Que ótimo, não é nada bom. Por um momento eu achei que ele fosseme matar. Desviar o olhar seria rendição e encarar seria desafio. Eu o encaro, vejo omeu reflexo em seus olhos. O elmo voou de minha cabeça, mas creio que ele nãofosse útil agora. – Só não o mato em nome de MeLord – rosna ele e voa em direção aosoutros. Ele pega uma garota pela perna, eu não a conheço, mas mesmo assim. – Espere! – eu gritei – Acalme-se. – Você está me fazendo perder tempo, garoto – ele rosnou aindaencurralando os meninos – Estou trabalhando. Vá embora antes que eu o matetambém. Só aí eu vi os esqueletos no meio do templo. Estavam todos caveiras, apenascom as armaduras e algumas espadas e escudos jogadas de lado. 115
  • 116. – Eu tenho uma mensagem. De Ze... De LordZeus. – Menti. Espero que elenão tenha um senso que diferencie a mentira da verdade. Ele parou de rosnar e sevirou para mim. – Eu venho como mensageiro. Esses são meus amigos – digo essaparte em alto e bom som – Eles vão largar as armas e nós vamos conversar. – largoa espada dourada no chão. Os outros seguem meu exemplo. – Por que Hermes não vieste trazer esta mensagem? – O Grifo disse – Meu pai não confia no deus – disse sem pensar – Ele não tem sidoprofissional com as entregas. E além do mais, é melhor um filho dele falar comvocê. – Prossiga – ele disse – Meu pai... – eu comecei – Acha que você têm feito um ótimo trabalho, noentanto, há muitos anos que você está aqui. E já está na hora de descansar. Umoutro... guardião está para vir e ele deve assumir o seu lugar aqui, mas não seassuste. Encare como... Ã... férias. – Férias? Hoje? – ele disse incrédulo. Meu estomago se revirou, e se ele nãoacreditasse? Meu argumento era idiota, mas era o único que tinha. – Sim, sim. O contrato de trabalho dos 100 anos espira hoje. Entende? – Talvez eu goste dessas férias. – Ah, claro. Você vai adorar, vai ser bom. Pode ver os amigos... – eu disse –A família. – Ótimo. Mande cumprimentos ao Lord por mim. – Só mais uma coisa – eu disse – O cristal. Tenho de devolvê-lo a ele. O animal me deixa se aproximar e retirar o cristal de seu pelos na cabeça. Seeu achei que os poderes de Pedro fossem bons, é porque eu nunca tinha tidocontato com os do meu pai. Relâmpagos surgiram nos céus. No mármore antigovejo meu reflexo: os cabelos se arrepiaram novamente, os olhos passaram a ser umazul brilhante e pareciam sempre eletrificados. Senti como se o mundo estivesse ameu alcance. Senti como se eu pudesse fazer qualquer coisa. Eu me senti como umverdadeiro rei do Pedro. Me lembro de meu plano. O grifo já voou, peguei a espada dourada no chãoe coloquei a na bainha. Olhei para Pedro, depois para Selina. Os dois se entre 116
  • 117. olharam logo depois de mim. Em um movimento rápido eles cataram as espadas edispararam em minha direção. Eu corri pelas ruínas do outro lado do templo. 117
  • 118. Vinte e dois Sou acusado de traição COMO FILHO DE ZEUS, eu saí saltando perante as pedras e correndo atoda velocidade, enquanto Selina e Pedro corriam com cuidado, um tentandoultrapassar o outro. Corri mais um pouco e olhei para trás. Selina estava a frente dePedro que corria desesperadamente. Volto a visão para frente e consigo pular noultimo segundo; o chão acabou. Pulei e consegui cair em um gramado que estavabem distante das pedras. Selina se apavorou, arregalou os olhos e logo os fechouantes de pular. Ela quase caiu, mas eu a puxei para o gramado a ajudando a subir. – Vamos sa... – Não completei a frase. Ela puxou uma das asas da sua corujade prata e esta se transformou em uma de suas laminas fascinantes. Ela cortou meubraço. Me afastei surpreso e então tive que desviar de seus golpes contra a minhacabeça. – O que está fazendo? – Ah, não me venha com essas conversas, traidor! – Ela disse com raiva. Ficamos nos encarando por um tempo. Poucos segundos, mas se percebemuito em um olhar. Ela me olhava com ódio, decepção, tristeza e até mesmo umpouco de... duvida. – Erick! – Pedro gritou e uma de suas flechas quase atingiu o corpo deSelina e quase atingiu a minha mão. Não entendi direito. Selina me atacou e mechamou de traidor. Pedro atirou uma flecha em direção a nós. Quem ele queriaacertar? A mim, ou a Selina? Bem, eu não que ia ficar para descobrir. Depois de verPedro pular para o gramado e encarar Selina com os mesmos olhos que ela meencarou, eu corro para a floresta. As arvores arranharam meu rosto e o chão de terra um tanto molhado edesnivelado me fez tropeçar e cair. Não senti a queda, talvez por causa dos poderes.Talvez eu não sentisse mais dores por eles. Rezei para estar certo quando uma 118
  • 119. flecha caiu fincada na terra ao lado do meu rosto e em seguida escutei os passos dePedro e Selina correndo até mim; com raiva e querendo me matar. – Ela é traidora, acabe com ela – Pedro gritava Me levantei e logo escorreguei novamente em um barranco de terra. Roleialgum metros e machuquei o braço em um galho, mas antes mesmo de eu me porde pé ele já havia curado. Assoviei um coro para chamar meu pegaso. Seria um tã dãdã tã dã em assovio. Ele não respondeu. Eu praguejei. Onde diabos ele estariaagora que eu mais precisava? Virei para correr quando as raízes de uma arvore seenrolaram em meus braços e depois em minhas pernas e começaram a ir em direçãoao meu pescoço. – Muito obrigada – Selina disse pegando o cristal e saindo de pertocorrendo pela direita. Uma flecha cortou uma das raízes. Não foi proposital pelacara que Pedro me olhou. – Eu vou atrás dela – ele disse como uma explicação. Com a mão livre eu me livrei do resto das raízes e saí em disparada atrásdeles. Não demorou muito para eu alcançá-los. Pedro atirava flechasconstantemente contra Selina que corria e desviava delas. Uma das flechas passoude raspão em seu pé. Ela caiu no chão e se virou com os olhos... extremamente azuise elétricos. Ela esticou a mão para Pedro e eu fechei os olhos. Ele não foi atingido(e nesse momento nem sei mais se isso é bom ou ruim), mas a arvore ao lado delequase caiu com o impacto e o estrondo foi horrível. Selina voltou a correr, semolhar para trás. Eu e Pedro a perseguimos até ela se encurralar entre pedras. Nós lutamos.Nós dois. Ela desferiu golpes contra meu corpo. Eu desviei e investi contra seusbraços e acertei um golpe. Certeiro! Bem no compartimento do cristal! Os poderescaíram no chão, nós dois o olhamos, mas Pedro nos impediu chegando e pisandoem cima do cristal. – Já chega – ele disse. Estava com um corte feio na testa e me perguntei senão foi Selina que o machucou. Pedro pôs a sua... espada? Sim, era a primeira vezque o via com uma, no peito de Selina, que pôs uma de suas laminas de coruja emmeu pescoço. Eu ponho a espada dourada contra o peito de Pedro. – O que? Vocêestá louco? Ela é a traidora, não percebe? 119
  • 120. – Cale a boca, idiota – Selina protestou – O principezinho é que nosenganou! – Eu? – disse assustado – Eu sou o principal alvo do demoniozinho aqui –pressionei mais minha espada contra o peito de Pedro e ele fez o mesmo que eu emSelina. – Como eu posso ser o traidor, vocês sabem que tenho a marca de Ares e jáprovei que sou filho de Zeus. Como eu poderia? – Não venha com essa. – Selina disse com raiva – Eu confiei em você, sabia?E eu não posso ser a traidora, em todas as visões sempre foi um homem! E aindatenho as duas marcas para comprovar isso! – Tem a de Atena, pode ser falsa – disse Pedro pra ela. Nos estávamos comoum triangulo. Um com a espada no outro. – Você por acaso está duvidando da minha inteligência? – Selina disse comos olhos raivosos que apenas agora estão voltando ao verde musgo de sempre. – Eu sou filho de Apolo, eu fui possuído pelo tal espírito e ainda sei muitobem usar um arco! – Pedro justificou – Você me chamou de príncipe! Você tentou dar uma de coitadinho sempre,mas na verdade era você que estava nos traindo o tempo todo – Eu gritei – Você até que finge bem, tomadinha – Selina disse e baixou a lamina até oponto onde senti meu coração parar de bater. – Eu teria acreditado em você se nãotivessem me aberto os olhos. – Cale a boca traidora – Pedro gritou – Quem te abriu os olhos? – disse tremulo. – Ora, o único amigo que tive pelo jeito! Mas não te interessa! – Espera... – Pedro começou – Também me abriram os olhos. – Eu... – eu disse – Quem disse a vocês? – Bruno – Selina disse – Ele disse que Erick era o traidor, ele me convenceudisso. – Bruno disse que você era traidora – Pedro falou confuso – Ele disse que jádesconfiava de você. 120
  • 121. – Ele também me disse que você era traidor, Pedro. – abaixo a espada. Meusangue ferve. Flashs e lembranças me vem a mente fazendo com que tudo façasentido – E isso só quer dizer uma coisa: Bruno é filho de Hades. 121
  • 122. Vinte e três Faço um home run no rio de janeiro O MEU REFLEXO foi tão rápido quanto a lamina negra da espada deBruno. Ele saiu da floresta com a espada sombria empunhada com força em direçãoa nossas cabeças. Meu sangue ferveu. Eu nunca havia desconfiado dele! Ele meenganou! Ele enganou a todos! Ele colocou um contra o outro, e se não fosse porsorte teríamos nos matado, por nada. Me virei novamente e me levantei. Meus olhos percorreram o perímetroautomaticamente atrás do cristal. Ele estava bem na ponta de uma arvore. Mas avisão que me chamou mais a atenção foi a espada negra e sombria de Brunoapertada contra o pescoço de Pedro. O meu amigo largou o arco no chão e pôs asmãos para cima. Seus olhos estavam arregalados e ele estava completamentepetrificado. Levei a mão em direção a minha bainha, mas Bruno apenas balançou acabeça em negativa sadicamente com os olhos bem abertos e a boca levementeaberta. – Vá e frente, e eu corto a garganta dele! – ele disse. Ele estava diferente.Parecia mais forte, sua postura estava completamente diferente... de fraco eoprimido a líder e intimidador. Seu rosto estava normal, tirando pela fisionomiasádica e os olhos. Os olhos estavam castanhos, como sempre mas alguma outracoisa brilhava por trás deles. Os olhos. Minha avó sempre diz que vemos quemsomos pelos olhos. Olho para Selina, ela está agachada com as mãos para cima selevantando devagar. Sigo seu exemplo. – Bem quietinhos. Argh, eu não aguentavamais isso aqui – Bruno reclamou. Com uma mão apenas ele retirou dois vidros deseus olhos. Lentes. Ele é tão... esperto (a palavra dói em minha mente, mas é averdade) que colocou lentes para não ser denunciado pelos olhos. Os olhos. Negros 122
  • 123. como a noite que causam a mesma impressão dos de Hades, seu pai: se você olharpor muito tempo, vai se perder na escuridão sem fim para sempre. De pé, eu tento pensar em alguma coisa, mas nada me vem em mente. Oúnico plano que eu tinha era pegar o cristal do Céus e combater Bruno, ou levar aoOlimpo. Mas eu não havia como ter acesso a estes poderes, a não ser que... – Por que está fazendo isso? Por que está se revoltando? – eu disse. Olheicom o canto do olho para o cristal e tentei me concentrar. Eu não poderia fechar osolhos, ou sequer manter os olhos fixos nele, mas eu tinha que tentar me concentrar,e em algum momento, eu teria de conseguir – Não vale a pena. – É claro que vale a pena, Griffin. – ele disse. O mais incrível nele era quemesmo tendo a atenção voltada a mim, sua espada continuava do mesmo jeito,como se o braço e a mão não fizesse parte do corpo e tivesse vida própria, cortandoa garganta de Pedro se ele se movesse – Se eu não fosse matá-lo, eu não perderiameu tempo. Mas um verdadeiro Rei tem que treinar o seu discurso não é mesmo? –ele riu e, sem olhar para o lado, fez um corte na camiseta de Pedro, do inicio dotórax ao meio do peito, perfurando um pouco de sua pele. Olhei para o lado, Selinaengoliu em seco e levantou as mãos novamente. – Os deuses já estão a tempo demais. O mundo precisa de melhoras!Modelar tudo a nossa imagem. O plano já está feito. Meu pai vai subir no trono, eeu vou ficar com todo o reino dos mortos. Por que eu não trocaria a vida idiotaonde tenho que servir a esses hipócritas inúteis por uma vida de rei em um impérioonde eu vou comandar tudo? Só se eu fosse um verdadeiro idiota. E ainda, osdeuses nunca se importaram conosco. – Claro que se importaram! Ares se importou comigo, assim como Atenacom Selina e Hefesto com você! – eu disse Ele riu debochadamente. – Você acha mesmo que eles se importaram? Isso não passa de um jogo praeles, Griffin! Nós somos apenas mais uma peça! E eles são os caras que fazem asapostas. Pena que Ares e Atena apostaram no time perdedor. – ele disse em um tomtristemente debochado – Agora, seus pupilozinhos vão morrer indefesos,coitadinhos. – Eu não teria tanta certeza disso – disse. Gritei rápido e consegui puxar ocristal para minha mão. Estiquei a mão para frente e uma corrente de vento se jogou 123
  • 124. contra Bruno. Ela foi tão forte que ele voou até bater com as costas em uma arvore.O caule da arvore rachou de leve. Peguei minha espada e olhei para Bruno. Deitadono chão. Me aproximei dele. Ele riu histericamente e foi se levantando devagar atéestá todo de pé. Eu fiquei perplexo, ele deveria estar morto! – Vamos ver quem pode mais – ele abriu um sorriso. Seu olho direito ficouextremamente azul-marinho enquanto o esquerdo ficou extremamente vermelho,ardendo em chamas. Ele sacode as mãos e uma pequena chama se forma em seusdedos indicadores. Ele põe uma mão a frente da outra. Eu quase ri. O que umachama menor que a de um fósforo poderia fazer contra mim? Ele assoprou e só tivetempo de cruzar os braços a frente do fogo para segurar o fogo enorme vindo desuas mãos. O fogo força contra mim. Provavelmente agora ele nem precisa assoprarpara vim direto em minha cabeça. Depois que as chamas se cessam eu tento o empurrar com o ventonovamente mas uma parede de terra se ergue sempre a sua frente, como um escudogigante. Tento umas três vezes sem sucesso. Um nó se forma em minha garganta.Quais as minha chances? Eu tenho um poder e ele três. Plano B: correr para oOlimpo. Tentei contato com meu parceiro e ele me disse que estava avistando otemplo. Pedi para ele descer no templo, afinal não tinha tempo de explicar aondeficava o campo onde estávamos. – Vamos – Bruno me disse, agora seu olho esquerdo estava marrom e seuolho direito ardendo em chamas. – Me entregue o cristal e poupe tempo. – Não, obrigado. Eu prefiro morrer mais tarde. – Sabe, você daria um bom soldado. Talvez até mesmo um bom líder.Poderia ficar com um dos reinos que sobrarem, Ásia, quem sabe... Ainda tem tempode trocar de lado, Griffin. Pense em você, dominando um continente inteiro.Fazendo o que quiser sempre que quiser – Eu sabia que era errado, eu sabia, mas...não pude parar de pensar. O que os deuses fizeram por mim na verdade? Quandofoi que recebi alguma ajuda útil? E se Bruno estiver certo, e se não passa de umaaposta, um jogo? Bruno olha no relógio. Ele faz uma cara amarrada e diz: – Tempoacabou, Griffin. Uma pena você morrer tão jovem. Vocês também – ele se dirige aPedro e Selina que ficaram paralisados. Não os culpei, eles poderiam correr e seremmortos ou ajudar e serem mortos – Que desperdício de soldados. Eu o matariaagora mesmo, Griffin. Mas aí perderia a graça de ver sua cara de choro quando tudodesmoronar. 124
  • 125. Ele se vira e sai voando com sapatos voadores como os de Lívia. Penso emme atirar atrás dele, mas o que faria? Provavelmente morreria na queda dopenhasco. Também não podia ir ao Olimpo. Hey pai, o filho de Hades vai matartodo mundo, isso não é ótimo? Eu tinha que recuperar os poderes perdidos. – Erick – disse Lívia e os outros correndo até mim – Toma. Ela jogou um par de tênis de skate para mim, quase os deixei cair, masconsegui segurar. Coloquei-os no pé e o cadarço deles começou a se amarrarsozinho e, logo, suas asas cresceram. Olhei para Selina. – Vá para o Olimpo. Avise-os sobre uma possível guerra eminente. – Elaabriu a boca para perguntar mas eu interrompi – Hercules, o pegaso está no templo,ele vai te levar até lá. – São os Alados mais velozes que eu conheço – ela disse rindo – Mas vocêprecisa de treinamento e... Eu tomo distancia, vou até quase a outra ponta do penhasco. Olho paraDavid. Ele está um tanto nervoso. Uma mão tremula segura meu ombro. – Não morre, o.k? – Selina disse – Você também – concordei com a cabeça e comecei a correr. Correr.Correr. Até não haver mais chão no abismo. Poucos minutos antes, eu havia pensado que ia cair aqui e morrer. Mas agoraeu me lembrei bem de onde estou. Eu estou no meu lugar preferido: o céu. Eu estouno meu reino. E dessa vez, Bruno é que é o intruso. Lívia tinha razão. Os tênis eram bem rápidos, bem rápidos mesmo. Umanevoa começou a se formar em minha frente, densa. Olhei para cima e vi que o céuestava se preparando. Se preparando para uma chuva das grossas. Eu diria que umfuracão estava indo ao sul, mas não sabia ao certo e meu foco mudou quando oavistei com seu tênis Nike preto com asas. Olho para frente, ele estava indo paraum lugar estranho, uma caverna. Tentei alcançá-lo. Meus tênis são mais rápidos, éverdade, mas mesmo assim, ele entrou na caverna e eu o segui. Lá dentro era escuroe eu apenas continuei voando até sair do outro lado... Wow. Do outro lado saímosem uma cidade. Era grande, cheia de prédios comerciais enormes. Mantenha o focoGriffin, disse a mim mesmo. O procurei em meio as nuvens. Lá estava ele,sobrevoando um prédio... Ótimo, espero que ele não tenha problemas com osvidros... 125
  • 126. Me lancei sobre seu corpo com a espada em punho, nós rolamos no arcaindo em direção a janela direita de um prédio comercial. Bruno consegue meimobilizar. Ele põe a espada em meu pescoço e me empurra forte no ar contra aparede. Bum! Invadimos o escritório onde tinha uma apresentação. Todos sechocaram, obvio. Bum! Bruno arrebenta a parede do mesmo prédio comigo. Dessavez é uma sala de computadores, mas passamos tão rapidamente que não consigoreparar em nada. Me virei, colocando Bruno contra parede com toda a força eaumentando ainda mais a velocidade do vento contra ele. Arrebentei a ultimaparede com Bruno e o joguei no asfalto. Chegou a fazer um buraco, uma craterapequena. – Você não desiste, garoto? – Bruno disse se levantando, com um pouco dedificuldade – Olhe só para você. Você não tem nada de um lutador. – ele tira aespada da bainha. Posso vê-la claramente. Ela tem uns 90 cm a 1metro mais oumenos, sua lamina é escura e brilhosa e o cabo tem uma caveira prateada que, com aluz do sol, ficou um tanto vermelho. – Eu não preciso desses poderes para ganhar,Griffin. Acabou. E você não pode evitar, não pode evitar um apocalipse eminente,garoto. – Uma luta – desembainho a espada dourada – Uma ultima luta. Sempoderes. Limpa. Se eu ganhar, você devolve as famílias de todos que estavam presoscom seu pai. Se você ganhar, eu te dou o cristal e caio fora daqui. O que você acha,ein? – Você vai morrer – ele diz de sobrancelhas franzidas – Vamos, sempoderes, agora jure. – Eu? Não, não, você primeiro – eu disse. Ele estava falando de umjuramento pelo rio Estige. Um juramento pelo rio Estige não pode ser quebrado,caso contrario recebe punição... bom, ninguém sabe, ninguém nunca foi louco obastante para quebrar um. – Eu não tenho a nada perder se morrer. E alem do mais,se você vencer, vai atacar o Olimpo assim mesmo. – Tudo bem. Eu juro pelo Estige devolver as família de todas as pessoas quetrabalharam para meu pai no ano de 2012... Atiro uma rajada de vento que o joga contra um carro que chega a amassar alataria. Ele demora a se levantar, mas quando se levanta me manda direto para aparede com a água que tirou de um hidrante. Eu me aproximo, com a espada empunho. Ele pega a dele e nós lutamos. Eu começo com o ataque e ele desviasorrindo, como se fosse a coisa mais fácil do mundo e como se eu fosse o pior 126
  • 127. espadachim que ele já viu. Ele me corta em vários lugares em poucos segundos.Perna esquerda, joelho direito, bochecha, braços, mãos e o pior: testa. Este corte foiprofundo. Eu poderia estar lutando melhor se estivesse com Alfa e Omega, mas elesse foram no fogo. Eu estava quase lançando o vento nele de novo pois estava mecansando de apanhar. Era difícil de acertá-lo. Quando Selina comentou sobre ele serum bom espadachim, eu acreditei, serio, mas achava que ia conseguir pelo menosbater nele sem os poderes. Me lembrei de meu treinamento com Marte, ele sempree ensinou táticas de guerra... táticas de guerra... Me esquivei do próximo golpe que Bruno tentou acertar e fui atrás dele, baticomo cabo da espada em um ângulo correto em seu pescoço e o lado direito de seucorpo parou instantaneamente. Ele é destro, de forma que a espada ficou parada,mas não era ela que eu queria. Abri o compartimento no seu bracelete e lá estavaele: o cristal do fogo. Peguei-o na mão e me preparei para sair voando quando umbloco gigante de pedra me atingiu em cheio. – Belo truque, Griffin – Bruno disse e veio com toda a força voando emminha direção. Em pouco tempo, amasso um poste de metal e o puxo para mim.Seguro firme e espero o momento. Bum! Eu o atiro longe (tenho certeza que seriaum belo home run em um estádio) e voo. Não sei em que direção voar. Não faço amínima ideia de pra onde fica o Olimpo então simplesmente voo e acabo na praia,na areia. A areia se enrola em meus pés, e a água começa a subir até praticamentemetade do oceano estar vindo sobre mim. Não conseguiria segurar aquilo, nãoassim, o ar seria insuficiente e não penetraria na onda tão facilmente, mas eu haviaesquecido do fogo. Faço com as mãos duas bolas enormes de fogo e começo a jogaro fogo contra a água. Com certeza seria insuficiente, mas acho que Bruno não tinhamais todas as forças. Jogo uma corrente de ar para ele e ele bloqueia com um escudo de pedras.Ele grita para ter forças e faz uma cara de dor em meio ao grito, talvez estivessefraco com a tacada. Junto forças e vou para cima dele com a espada, dessa vezconsigo acertá-lo. Acerto-o com a lamina em um braço e puxo o cristal da água, emtroca, perco o do fogo novamente. Olhei o oceano e concentrei minhas forças emuma onda gigantesca. Bruno está respirando com dificuldades. Acertei-o mais umcorte, dessa vez no rosto. Joguei a água contra ele, ele tentou bloquear mas nãoconseguiu. Ele se debateu e o cristal da terra caiu sobre a areia, caminhei devagar atéele e o peguei, me sentindo mais poderoso ainda. Bruno rompe a barreira d’águacom fogo e cai no chão respirando com dificuldade. Olhei em volta. Tinha prédios,favelas, carros porem a praia estava deserta. 127
  • 128. Avistei um morro enorme, grande mesmo. Depois, uma estátua realmentegrande... Cristo Redentor, eu estava no Rio de Janeiro. Bruno me encara, eucaminho devagar até ele, com a espada em punho. Ele me olha e sorri, tentandoesconder careta. – Acha mesmo que acabou? – ele disse e pondo de pé e segurando o cristaldo fogo com tanta força que as suas juntas ficaram brancas – Um cristal já será obastante depois que seu pai já estiver caído. – Você acha que Hades consegue mesmo derrubar meu pai, assim tão fácil?– eu menti. Até mesmo eu gostaria de ver Zeus tomando uma surra, então... ele ridebochadamente com os dentes serrados e põe a mão na barriga. Eu o chutei deleve. – Hades? Não, não, ele ainda não está pronto. Mas ainda é esperto... olhevocê mesmo, Erick, e descubra. – ele apontou para o mar. Eu me virei. Um tipo defuracão estava se formando e as águas tremiam em forma desgovernada. – Poseidon... – murmurei e fui atingido por um chute na canela e logodepois o cristal do ar me é tirado da mão. Caído no chão levo dois chutes ao ladodo corpo e em seguida, Bruno parte voando. Sinto a dor agora, aguda e forte,provavelmente porque um dos poderes me foi tirado. O mais forte. Disparei atrás dele, uma das asas de meus tênis alados começou a parar debater, pode ter sido por causa do vento, embora eu duvide disso, ela começa a pegarfogo e se desfaz. Consigo alcançar terra firme. Bruno parou no topo do pão-de-açúcar, olhando para os céus e com as mãos na cintura. Parei atrás dele e prepareium bom ataque com terra quando um raio caiu ao meu lado. Pulei para o lado como susto e outros começaram a cair perto de mim. Puxei a espada e comecei a desviara maioria das cargas elétricas com a lamina dourada. Com o canto do olho, ainda viBruno se virar para mim com os olhos azuis. Ele falou alguma, algo que nãoconsegui ouvir, mas li em seus lábios: – Esse é bom, não acha? – Disse ele com o cristal do ar esticado pra mim.Ele carrega as forças para um raio enorme e forte, mas eu estou preparado e quandoele lança o relâmpago faço ricochetear na espada e ir com tudo em seu peito. Oestrondo me jogou para trás, mas também fez com que o cristal voasse da mão deBruno. Eu corro e o pego e logo em seguida. Bruno ainda tenta levantar, com a mãono peito. Ele não chegou a cair do pão de açúcar, mas ficou um tanto na beirada.Ele estava tremulo (porque estava molhado e o choque foi o dobro). Eu chego 128
  • 129. perto dele e o chuto no lado do corpo, ele deixa o cristal do fogo cair de sua mão.Eu o peguei com a mão e o guardei no compartimento. Estava me sentindo simplesmente incrível. Estava com todos os poderes dosdeuses. Eu poderia fazer qualquer coisa. Eu poderia derrubar o Olimpo, derrubarHades, eu poderia ser um rei. Não vou negar que a imagem de mim sentado em umtrono de ouro com armaduras e roupas elegantes não tenha me agradado. Eupoderia fazer melhor que os deuses, poderia impedir os assaltos, mortes,assassinatos e todos os outros crimes mais. Encaro o por do sol, a sombra chegandoao ponta do morro. Não, Griffin, disse a mim mesmo, não é esse o seu objetivo. – Então esse é o plano? – perguntei a ele – Uma luta entre Zeus e Poseidononde Poseidon ganharia? E depois? Hades ia matar Poseidon e todos os outros? Bruno engatinhou um pouco para longe de mim. Ele se esforçou para se porde pé e me olhou com os olhos negros, mas dessa vez eu não desviei o olhar. Oencarei com raiva. – Hades não vai cair, Griffin. E ele não será o único. Ele se atirou no abismo, sumindo assim que as sombras atingiram seu corpo. 129
  • 130. Vinte e quatro Visito a casa do meu pai EU DEVERIA ir para o Olimpo, mas sem as asas do meu tênis, não seicomo chegaria lá. Pensei isso até avistar o pegaso branco com a crina marrom. Elepousa no chão do pão de açúcar e Selina desse xingando todos os xingamentospossíveis. – Idiota, porque você fez isso? Você queria me matar? – ela pragueja maisem grego – Cavalo inútil. – Aí, não se critica o trabalho de um profissional, garota enxerida! Aíparceiro, porque você mandou essa carga... chata? – O que está acontecendo? – perguntei a Pedro que descia da sela com osolhos semisserrados – Ah, Erick! – Selina disse em tom de animação. Ela se movimentoudevagar, talvez pensando se me abraçava ou não, então apenas parou na minhafrente – Você esta vivo! – É, eu estou – disse, tolamente – O que aconteceu, por que estão brigando? – Seu pegaso louco! – Selina disse brava – Ele começou a mergulhar do nadae subir e eu quase caía toda a vez que fazia isso! – Imagine eu que estava na ponta – Pedro disse calmo – Mas você não morre de medo de altura! – Selina bufou Levanto a sobrancelha pra ela. Ela nunca admitiu pra mim que tinha medode altura, mas agora falou. Pela cara dela acho que saiu sem querer, não era aintenção dela expor os medos. Me voltei para Hercules. 130
  • 131. – Por que você estava fazendo aquilo? – perguntei a ele mentalmente – Eu não gosto dela. E foi divertido. – ele respondeu como se fosse obvio – Por causa do negocio de Atena? Você não deve ficar matando ospassageiros, parceiro, isso não é legal, nem um pouco. Ele relinchou e reclamou um pouco, mas depois ficou quieto logo emseguida. Selina me encarou por um momento, depois ela veio com a manga dacamiseta e a apertou contra minha testa fazendo uma careta. – Bela surra, você tomou ein? – Digamos que Bruno é bom com uma espada. Mas... eu não entendo. Osoutros ferimentos curaram, porque este ainda está doendo? – Como filho de Hades é possível que ele use uma espada... indestrutível –ela disse e continuou dando tapinhas de leve em minha testa cortada – Banhada norio Estige, para ser mais exata. – Indestrutível? Tipo Aquiles e o calcanhar de Aquiles? Ai! – É. Isso ta muito feio, Tomadinha. – Ã... – Pedro começou – Acho que não temos muito tempo. – ele apontoupara os céus. O furacão ficou pior e o mar também estava agitado, bem agitado.Formulei a palavra vamos na boca quando um raio caiu perto de nós. Quase caí porcima Selina. – Vamos logo. – Vocês querem acabar com a minha coluna? – Hercules reclamou – 3? Eusou um pegaso não um burro de carga. – Ah qual é? – eu disse a ele – O Pegaso Rei não consegue carregar trêspessoas? Duvido. Ele reclama novamente e nos deixa montar. Eu vou na frente, Selina logoatrás e Pedro na outra ponta. Hercules é grande até mesmo para um cavalo, o quenão nos deixa muito desconfortável. Ordenei Hercules para ir para o Olimpo e elepartiu me dizendo que estávamos perto. Começamos a ir em direção ao furacão queestava bem acima do Cristo Redentor. Olhei para cima e pude ver um raiocruzando de cima pra baixo, bem de cima da estátua. Lá está o Olimpo. 131
  • 132. O caminho é curto, já que estamos voando, mas na metade dele já estou comdor na barriga de tanto Selina a apertar cada vez que Hercules sobia um poucomais. Me virei para trás. – Que horas foi feito o pacto de sacrifício? – gritei para ser ouvido atravésdo vento. O céu está bem preto embora seja umas 2 horas e 30 da tarde mais oumenos – Não sei, lá por umas 3 horas, eu acho. – Selina disse de olhos fechados –Afinal, 3 é um numero sagrado. Depois disso levamos uns 5 ou 7 minutos até chegar ao Olimpo. A entradadele é incrível. Um enorme portão de uns 10 metros de altura e largura. O portão étodo dourado com um cadeado enorme de ouro preso no centro. Há também duasestatuas, uma de cada lado do portão. Não olhei bem, mas acho que era Hermes.Me concentrei no cadeado, o olhando e firme e bum! Ele explode e o portão abrecom a força. É, talvez eu estivesse mesmo gostando dos poderes do meu pai. Umagrande corrente de ar concentrada nos lugares certos pode fazer qualquer coisa e...Wow. Interrompi meu pensamento quando avistei as escadarias, mármore dourada,branco e de todas as cores conforme a luz (do próprio Olimpo) refletia no chão.Os degraus eram enormes como para gigantes e tinha muitos deles. Ao redor dasescadas, em cada andar via-se uma coisa diferente de cada lado. Plantação de uvascom milhares de sátiros comendo e festejando (imaginar Aron feliz foi confuso emminha mente), ninfas correndo e se transformando em tudo (arvores, rios e etc...),mulheres aparentemente normais andando de um lado para o outro enquantofestejavam felizes. Esse povo aqui em baixo parecia nem perceber o que estavaprestes a acontecer lá em cima... Quando Hercules esgotou suas forças, já estamos a alguns passos da entradagigante. Um arco com flores enormes está na volta da entrada com as floresformando a palavra PAZ no topo. Selina bufou com raiva. – Até parece que ela iria influenciar em alguma coisa. Pensei em perguntar a ela porque ela odiava tanto a sua mãe assim, mas acheique esse não era o lugar certo e nem a hora certa. Estávamos prestes a entrar noOlimpo e eu não sabia bem o que esperar. – Caramba, isso aqui é um espetáculo! – Pedro disse – É lindo, perfeito nãoacham? Eu daria um dedo pra morar aqui. 132
  • 133. – É, é lindo, mas temos que entrar, rápido – eu disse. Andamos alguns metros e percebi que estava a recém em um degrau, masainda bem era o ultimo. Ouço alguns ruídos e depois uns gritos. Gritos raivososterríveis. – Você está me acusando de traição? – uma voz familiar berrou. Ela eragrave e um tanto ameaçadora, um calafrio percorreu meu corpo quando a escutei.Poseidon. – Eu não acredito que me acusa de traição, irmão, sendo que você mesmopode ter muito bem passado a perna em nós. – Ora, Poseidon, não seja tolo! – essa voz era de meu pai – Por que eu fariaisso? – Por que você sempre teve inveja dos meus poderes! – Eu nunca precisaria desses poderes inúteis e fracos – berrou meu pai. Eu apressei o passo. Corri de verdade com Selina e Pedro atrás de mimcorrendo a mesma velocidade. Passamos pelo marco correndo a toda velocidade eparamos logo que entramos. Cheguei a soltar um suspiro. O mármore brancocobria toda a sala com os tronos depositados estrategicamente em todos os lugares.Mas algo me chamou mais a atenção. Nenhum dos deuses notaram nossa presença,todos estavam prestando atenção em Zeus e Poseidon, mas meus olhos encontraramos dele. Do meu pior inimigo, o cara que quer me matar. Hades. Ele ri com o cantoda boca pra mim e me encara. Poseidon está com os seus cabelos pretos, jovem ecom um corpo de um guerreiro. Meu pai também está diferente. Jovem, com oscabelos loiros e os olhos azuis. A única coisa, quase sem importância era que elestinham uns 5 ou 7 metros de altura. Uma armadura começa a crescer no corpo dePoseidon. Azul, como feita de conchas, com as ombreiras sobressaltadas e o elmocomo uma grande alga brilhante. Em meu pai começou a crescer uma dourada eeletrificada e seu elmo era grande como uma cabeça de leão. Eu gritei para pararem,mas nem ouviram. Meu pai puxou a espada em forma de raio da bainha e umescudo estranho surgiu em sua mão esquerda. Poseidon fez crescer um tridente deágua em sua mão, um de uns dois metros. Gritei novamente mas nada aconteceu.Eu precisava chamar a atenção. Concentro os poderes nas tochas espalhadas e estasexplodem em chamas causando um barulho estrondoso por todo o mármore quechegou a vibrar com o eco. 133
  • 134. – Quem ousa interromper uma reunião... – Zeus começou e para ao olharpara mim. Eu o encarei de volta. – O que quer... semideus? – Ele falou semideuscom cuidado. – Que parem com a guerra – respondi – Devíamos atira-lo do Olimpo agora mesmo! – Poseidon disse – Eleinterrompeu a reunião nos dando ordens. – Eu vim aqui para reestabelecer a paz – eu disse. Todos os deuses voltarama atenção para mim. Eu ia dizer que Hades pegou os poderes, que tudo era planodele, mas eu só tinha uma chance. Uma chance de falar. Se eles não acreditassem deprimeira, eu seria morto e não acreditariam. Eu já havia visto o quanto Hades éinfluente e no fundo eu sabia que ele iria convencê-los. Ele devia estar sepreparando pra invadir o Olimpo, preparando um exercito, mas estava ali. Eu nãopodia convencê-los de que ele era traidor. – Bruno, filho de Hades, roubou ospoderes perdidos. – Todos os deuses se entreolharam e murmuraram alguma coisa.Hades fez cara de surpresa e decepção profundo. Aquele filho da P... – Eu luteicontra ele e os recuperei – Abri as mãos e mostrei os 4 cristais nelas. Zeus abriu umsorriso. – Não precisam mais de guerra. – E então – Zeus disse, sentando-se em seu trono – Você o matou? – Não. Ele escapou. Zeus estica as mãos, e eu jogo o cristal do ar e da terra a ele. Não confio quePoseidon e Hades vão dividir igualmente de novo. Jogo os do mar para as mãos dePoseidon e os do fogo para a mão de Hades. Trovões, terremotos e barulhosestranhos rugiram fora do Olimpo. Zeus me encarou. – Muito bem, semideus – ele disse, sentado no trono com satisfação – Osdeuses reconhecem seu feito. – Eu não fiz sozinho – disse e olhei para Selina e Pedro. Selina estava com orosto vermelho de raiva e tinha uma fúria nos olhos que não havia visto nos olhosde ninguém ainda. Nem mesmo nos de Poseidon ao olhar para meu pai, ou Hadesquando olhava para mim ou até mesmo eu quando olhava para Bruno. Segui seuolhar e ele dava direto no trono de Demeter, sua mãe. – Eu tive ajuda. – Quais suas graças semideuses? – meu pai perguntou, se acomodando notrono e desfez sua armadura, transformando-a em uma túnica branca com uma faixavermelha 134
  • 135. – Erick – disse primeiro – filho de Zeus. Os deuses se entreolham quando eu pronuncio a palavra Zeus. Hámurmúrios, mas logo se calaram. Demeter sorri e aproxima a boca de um deus queeu acho ser Hermes. Ela fala algo (e aponta pra Selina) que consigo entender emseus lábios: minha filha. – Pedro – disse – filho de Apolo. – Selina – disse com raiva, quase engasgando-se com as próprias palavras –cria de Atena. Os deuses se entreolharam de novo e murmúrios mais altos surgiram. Osorriso no rosto de Demeter desapareceu enquanto Atena fez um leve movimentoconsentindo com a sua cabeça. Segurei a vontade de olhar pra Selina e ver o queestava acontecendo, mas deduzi que não é muito comum se apresentar sem dizer oseu pai/mãe olimpiano. – Muito bem – disse meu pai – Os deuses reconhecem o que fizeram pornós e lhe daremos o nosso agradecimento. E, claro, um modo de se locomoverem.Para onde vão? – eu não sei aonde Bruno vai largar as famílias, mas tenho certeza deque ele não vai demorar. Encarei Hades nos olhos, confiante, ele teria de e dizer. – Talvez devêssemos voltar a agradecê-los como era antes. – ele disse –Apenas com um aceno de cabeça. É o suficiente para eu saber aonde Bruno vai largar as famílias. E é osuficiente para eu saber que Hades pensa que eu talvez possa entregá-lo a eles, e queeles acreditem, mas não o faço. Ainda é perigoso. – Para o antigo acampamento grego. Ah, alguns amigos meus ficaram em seuesconderijo, talvez possa levá-los para lá também. Zeus franze a sobrancelha e me olha por um longo segundo. Depois se virapara Hermes. – Creio que saiba onde fica. Pode lhes conceder uma maneira rápida deviajar? Hermes faz que sim com a cabeça e coloca um frasco no chão. Os deuses não dizem obrigado, e eu não espero isso deles. Meu pai estala osdedos e uma mulher nos traz comidas em bandejas. De primeiro, eu hesitei em 135
  • 136. aceitar, mas logo depois peguei um pedaço. A porção era extremamente pequena,do tamanho de meia laranja na verdade e possuía uma tonalidade amarronzadaestranha. Eu a pus na boca; o gosto era agradável e senti como se os ferimentosestivessem se curando, mas eles não estavam. Não, nesse momento. A cara de paudeles me irritou. Eu quase morri pra pegar a droga dos cristais umas 4 ou 5 vezes(no mínimo) e eles me dão... comida? Que falta de consideração! No momento euestava arrependido de não ter pego aqueles cristais e posto a correr um por um de láde dentro. Marte me encarou, com um sorriso no rosto. Ele está diferente, está mais...feio. Os cabelos emaranhados e sujos igual ao rosto e com um narizdesproporcionalmente grande mas reconheço o seu sorriso, em qualquer rosto.Minha vó me disse uma vez que os deuses podem mudar a sua forma, mas nãousam muito isso, só os mais vaidosos. – Bom trabalho garoto – Marte disse em minha mente – Que bom que estávivo. Eu me virei, sem dizer nada e comecei a andar até o final do Olimpo, até omarco na porta. Agora eu estou com raiva. Eu não sei o que eu esperava, eu não seio que queria. Um obrigado não seria ruim, ou um que bom te conhecer em quase13 anos meu filho! Engulo com dificuldade as poucas e boas palavras que querofalar a meu pa... não, não vou chamá-lo de pai, se eu não mereço ser chamado defilho então ele não merece ser chamado de pai. Os ventos estão fortes contra minha armadura, que agora que a adrenalinapassou, parece pesar mais de 10 kg em meu corpo. Eu a arranco do corpo e jogopelo lado do Olimpo, e continuo andando, um pouco rápido demais. Selina pegameu braço. – Ei, mais devagar. O que você esperava deles? Que eles se ajoelhassem, elesnão são assim. – Você tem razão. E não vale a pena se sentir mal por causa deles. Ela sorri e continua andando, dessa vez a minha frente. Paro e olho para trás,o marco na porta ainda é o mesmo, mas as flores estão um tanto murchas agora.Bem, pelo menos Selina conseguiu irritar alguém. – É bom saber que você se importa com o Olimpo, príncipe. – disse meu paina minha mente – Que se importa comigo. 136
  • 137. – Nunca foi por você. Me virei novamente para as escadas. Sinto que o sangue do meu machucadona testa parou de escorrer, talvez até cicatrizar. Alcanço Pedro e Selina no caminho,as descendo. A raiva de Selina parece ter diminuído ao julgar pela nova cor em seurosto. Ela está rindo de alguma coisa que Pedro falou. – É serio, ele piscou pra mim – ele disse rindo ainda mais – Quem piscou? – eu comecei a rir também. – Apolo piscou pra ele – ela ri – Tinha que ser Apolo mesmo... Nós três rimos por um instante. Me lembro de todas as dicas para queBruno era o traidor, e só agora elas fazem sentido. O fogo, logo que vi que ele era“filho de Hefesto”. Hefesto é simbolizado pelo fogo, por isso tive essa visão. Avisão no fogo, quando estava sendo atacado pela hidra. Puxei-a da memória e achoque consegui ver a sombra melhor. Me pareceu alguém entrando na roda de fogo.O objetivo da hidra nunca foi matá-lo, e ele precisa se encarregar de que isso nãofosse transparecido a nós. Franzo as sobrancelhas – Você desconfiou dele – O que? – Selina disse – Você desconfiou de Bruno, quando ficamos algemados. – Ah – ela faz uma cara não muito boa – A sua espada nunca eletrocutouninguém, ela sempre causou queimaduras, mas Bruno tinha a benção de Hefesto, ofogo não o machucaria e a espada provavelmente ia dar choque nele. Mas como elepoderia saber disse se nunca a tocou? – Nossa, eu nunca ia pensar nisso – disse Pedro – De que importa? Eu não segui em frente com esse pensamento. Se estivesseseguido, talvez seria melhor agora. – Ele enganou a todos nós. – dou um sorriso travesso – Mas eu tambémenganei ele. – O que você fez? – Selina disse, quase rindo – Nada de mais, só fiz ele jurar pelo Estige que ia devolver nossas famílias. 137
  • 138. Ela cai na risada de satisfação (acho) e Pedro a segue. Ele se põe no meio eabraça nós dois, descendo as enormes escadas de mármore branco. Estamos rindo,felizes, a salvo. Dessa vez, tenho certeza que estou entre amigos. *** Depois de contar toda a historia da luta enquanto descíamos mais unsdegraus, nós usamos o frasco dado por Hermes. O pó se formou no ar e passamospelo portal azul que estava mais parecido com roxo hoje. Do outro ladoencontramos nada mais, nada a menos que o campo do antigo acampamento gregoe o resto da nossa equipe de caça aos poderes. David vem correndo falando ummonte de coisas as quais eu nem sei o que quer dizer. Ele me abraça e depois mesolta e continua falando. – ... Aí a gente apareceu aqui do nada, foi muito sinistro, muito estranhomesmo, cara, eu fiquei apavorado, porque eu pensei e se aconteceu alguma coisacom o Erick? Aí eu fu... – Calma, David, está tudo bem – Selina disse calmamente. – Haha, você também está viva, que ótimo, é bom ver... pessoas vivas. – Com certeza é – Pedro disse – Vocês conseguiram? Eles conseguiram? – Lívia vinha dizendo – Eu sabiaque iam conseguir! – Sinto muito ter... estragado os seus tênis voadores – eu disse – Você acha que eu ia querê-los de volta? – ela ri – Estou brincando, estoubrincando. A maioria das pessoas, até mesmo as que eu nunca havia falado antes, vemme cumprimentar, me dar os parabéns ou falar coisas sem sentido como o jeito queapareceram ali. Eu estou feliz, todos estão. Bem, pensei isso até ver Selina sentadano gramado passando os dedos contra a grama. Eu me sentei ao seu lado. – Qual é o problema? Acabou, podemos ir pra casa. – Esse é o problema, Tomadinha, eu não sei se eu estou... preparada para vê-lo de novo. – ela me olha com os olhos tristes – E se ele me rejeitar, ele se ele nãome quiser mais? – Não se preocupe com isso, seu pai vai aceitar você de volta. 138
  • 139. Ela suspira – Espero que esteja certo. Ouço gritos, mas os ignoro. As pessoas estão eufóricas e os gritos são deeuforia. Continuei ali parado ao lado de Selina olhando o campo a minha frente.Um lugar tão bonito me causou tanto desespero e alegria. Não sei se vou gostardele ou não. Alguém grita meu nome varias vezes, é David, e me forço a olhar paratrás e lá está ela. Com a mesma roupa que eu a vi da ultima vez: uma camisetavermelha, uma legue preta e o casaco marrom escuro por cima da blusa. Minha mãe.Eu coro e a abraço com força. Ela chora em mim, mas eu não derramo uma lagrima.Minha mãe diz que nunca fui muito de chorar, e vejo que isso é verdade agora. Nósficamos abraçados por mais de um minuto e então ela me solta e me abraça de novoe beija o rosto. – Pensei que não ia mais ver você! – ela disse – Eu também. Mas estamos aqui, não estamos? Nós rimos. David me empurra rindo e logo atrás dele está vovó. Corro e aabraço também, ela ri. Ela sempre me protegeu de uma forma ou outra, com oslivros, os ensinamentos e com os presentes de aniversário. Depois damos um abraçoem família, os 4. – Foi muito louco, eu fui raptado por Hades e aí ele nos obrigou a ir atrásde uns poderes que... – comecei – Calma, filho. Vamos ter muito tempo para conversar. Em casa. Por trás do ombro de minha mãe me assusto ao ver uma águia voando baixo.De primeira, achei que ela ia nos atacar mas então vejo que ela deixou uma caixinhapequena, de madeira, no chão. – Eu... já volto – disse e fui até a caixinha. Eu não tinha certeza de que erapara mim, mas no fundo eu pressentia que era. Peguei-a na mão e analisei. Haviaum bilhete em cima, com letras miúdas e gregas:Foi um desafio refazer essa lamina. E sinto dizer-lhe que ela pode não voltar a ser a mesma de antes devido ao material que tive de usar. Faça bom uso Príncipe. Ass: Hefesto 139
  • 140. Ao abrir a caixa, avistei metais brilhantes que quase me segaram a luz do solforte. Caminhei até a sombra. Dentro da caixa havia, naqueles moldes de espuma,um relógio levemente dourado com dois Alfas nos cantos, e um anel, em forma deáguia, metade prata e metade dourado. Sorrio. Talvez os deuses não sejam tão pães-duros assim. Coloco o anel no dedo da mão direita e ponho o relógio no pulsoesquerdo. É apenas um anel e um relógio, mas já me sinto armado. Uma visão me chama a atenção a minha esquerda. Uma menina, de cabeloscastanhos claro e olhos extremamente verdes que estão piscando para segurar aslagrimas. É inútil piscar, lagrimas já escorrem em seu rosto. Ela está abraçada emum homem de uns 38, 40 anos. Os dois choram e se abraçam com força. Eu tinhacerteza que o pai de Selina não ia afastá-la. Mais ao longe, vejo Pedro abraçado emsua mãe e seu irmão. E quanto mais eu olhar, mais vou ver famílias felizes juntas,abraçadas. Depois de alguns minutos, vou até Pedro para me desculpar e me despedirdele. Eu o devo muitas desculpas, acreditei que ele o traidor e o tratei mal todasessas semanas. Ele diz que não foi nada, que ele entende e que ia fazer o mesmocom Selina, que já estava vindo ao nosso encontro. – E então – perguntei – para onde vão agora que ficaram sabendo desse talacampamento? – Eu... – Selina sorriu ainda mais – Acho que já fiquei tempo demais longede casa. Pedro fica na duvida, mas acabamos todos nos decidindo ficar com asfamílias. Pedro pedi desculpas a Selina e ela o abraça. Geralmente acho que não édo costume das pessoas abraçarem as outras que conheceram a pouco tempo, masquando você passa uma experiência de vida ou morte com essa pessoa, isso se tornacompreensível. Pedro saiu falando umas coisas as quais nem prestei a atenção. Logoele voltou com um saquinho – na verdade era mais um pedaço de tecido –apontado pra nós. Ele desenrolou o tecido e lá havia... diamantes! Grandes, dotamanho de meias laranjas. Havia uns 10 lá dentro. – Toma – ele me deu um – E esse pra você – ele colocou outro nas mãos deSelina. – Onde conseguiu isso? – perguntei 140
  • 141. – Na caverna de Hades. Acho que da um pra cada um. – ele sai rindo com osaquinho – Acho que alguém deve desculpas a alguém – eu disse a Selina – Claro, estou ouvindo. – ela disse e nós dois rimos – Me desculpe,Tomadinha. Achei mesmo que você era x9. – É... mas... bem não vamos ter um meio de manter contato? – Você tem rede social? – ela perguntou e eu acenei com a cabeça – Então,eu te acho lá. – Internet não é perigosa para semideuses? – perguntei – Erick, você é um filho de Zeus com a benção de Ares que acabou de irritarHades e Poseidon, acha que é o facebook que vai te matar? Nós caímos na risada outra vez. Fazia sentido, na verdade. Eu a olhei poruns segundos e dessa vez sou eu que hesito em abraçá-la. Então apertamos as mãosmeio sem jeito. – A gente se vê? – ela perguntou – A gente se vê. E nos viramos, cada um para um lado. Caminhei até minha mãe, minha avó eDavid. Eles estavam sorrindo e me olhando o que me fez corar, não sei se estavamme olhando ou apenas olhando a paisagem mas corei de qualquer jeito. Vovó eDavid saíram na frente. Minha mãe passa o braço em volta da minha cintura. Ela éuma mulher alta, e ainda é uns 3 centímetros mais alta que eu. – Quem era aquela garota? – perguntou ela – O nome dela é Selina – respondi – Ela é uma amiga. – Ela é bonitinha – concordo com a cabeça sem perceber o que estoufazendo. Coro ainda mais. – Mãe! Ela cai na gargalhada e me aperta contra seu corpo – Vamos para casa. 141
  • 142. fim142