Machado romanini-semio da comu
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Machado romanini-semio da comu Document Transcript

  • 1. CULTURA E COMUNICAÇÃOSemiótica da comunicação: da semiose danatureza à culturaRESUMO KEYWORDS A crise paradigmática por que passa a comunicação Semiosisexige uma revisão ontológica que inclua a discussão Ontologic diagramsobre as condições de possibilidade do fenômeno Modellizationcomunicacional. Neste artigo argumentamos que asemiótica oferece um arcabouço conceitual que permiteestudar a comunicação a partir de ações qualitativas. A Irene Machadosemiose ou ação do signo é definida como um processo Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação dafundamental que, a partir da percepção, estrutura USP/SP/BRdiagramas ontológicos dinâmicos que modelizam o irenemac@uol.com.brmundo das espécies, criando cognição e cultura. Opropósito da semiótica da comunicação é entender Vinícius Romaninicomo sistemas modelizantes evoluem ontogênica Professor da Escola de Comunicações e Artes da USP/SP/BRe filogenicamente, produzindo, no caso da cultura viniroma@gmail.comhumana, meios de comunicação cada vez mais variadose tecnologicamente avançados.PALAVRAS-CHAVE As Ciências da Comunicação atravessam uma crise Semiose teórica que nasceu junto com a própria tentativa de Diagrama ontológico delimitar seu campo disciplinar, seu objeto específico Modelização e seus métodos de pesquisa. Pode-se discutir se há muitas ou poucas teorias da comunicação, mas todos os envolvidos nos debates concordam que as teorias Semiotics of communication: from semiosis of atuais são insuficientes. O fenômeno da comunicaçãonature to culture é muito mais complexo e, ao mesmo tempo, muito mais fundamental em nossas vidas, e no mundo àABSTRACT nossa volta, do que as teorias desenvolvidas até agora The paradigmatic crisis that communication is going conseguiram compreender e explicar. A crise é, portanto,through requires an ontological review that includes paradigmática, no sentido de que suas raízes estãothe debate about the conditions of possibility of the fincadas na maneira como as teorias disponíveis hojecommunicational phenomenon. In this article we nos permitem perceber a comunicação e criar hipóteses,argue that semiosis offers a conceptual framework that modelos explicativos, críticas e propostas para a soluçãoallows for the study of communication as qualitative dos problemas levantados.action. Semiosis or the action of the sign is definedas a fundamental process that, based on perception,structures dynamic ontological diagrams that model O beco em que nos metemosthe world of species, creating cognition and culture. Em crises paradigmáticas assim, o bom senso nosThe purpose of semiotics of communication is to ensina que é preciso combater o mal pela raiz, ou seja,understand how modeling systems evolve ontologically buscar o problema no terreno das premissas básicas,and philogenically, producing, in case of human culture, postulados e axiomas que dão sustentação e alimentomeans of communication more and more varied and ao tronco das Ciências da Comunicação, bem como àstechnologically advanced. várias ramificações que dele nascem e florescem. Na raiz de toda teoria está a ontologia1 de seu objeto. A que Revista FAMECOS • Porto Alegre • v. 17 n. 2 • p. 89 - 97 • maio/agosto • 2010 89
  • 2. Irene Machado e Vinícius Romanini nos referimos quando falamos, escrevemos e discutimos a comunicação? O que é, enfim, comunicação? Se da comunicação entregaram- quisermos exercitar um olhar enraizado sobre o se a uma corrida infrutífera fenômeno da Comunicação, devemos fugir da armadilha desses impedimentos colocados para afastar qualquer e insustentável para tentar empreendimento mais conseqüente sobre a ontologia explicar os efeitos sociais da comunicação e nos dispor a cavoucar a terra onde estão fincadas as raízes de seus problemas. Devemos, do aparecimento das novas portanto, não temer sujar as nossas mãos. mídias. As condições de possibilidade Infrutífera porque nenhuma explicação pode ser Talvez a principal marca da filosofia moderna, a dada sem que se entenda o que fundamenta o processo; qual devemos muito à contribuição dos alemães, tenha insustentável porque a velocidade com que a tecnologia sido a de introduzir discussão sobre as condições gerais se renova é imensamente maior do que a capacidade de que possibilitam um fenômeno. Eles nos ensinaram se teorizar a respeito. Essas escolhas epistemológicas a abandonar a ilusória busca das causas primeiras, limitadas levaram as teorias da comunicação tradicionais dos fatos historicamente bem situados, dos pontos na a uma espiral de progressiva irrelevância diante dos linha do tempo, das invenções e ações heróicas, para desafios modernos2. mergulhar na muito mais sutil rede das possibilidades Enquanto a comunicação real se torna cada vez que fundamentam a emergência de um fenômeno. mais ampla e ubíqua, seguindo a tendência natural dos Essa lição foi desdenhada pelo positivismo, que fenômenos de se generalizarem, o estudo sobre ela tem optou por um cientificismo objetivista e materialista e, se tornado cada vez mais estrito. O campo científico conseqüentemente, por uma ontologia rasa dos objetos. da comunicação comunica-se cada vez menos com Por conta desse viés, as teorias da comunicação ainda os demais, e o resultado é que boa parte do trabalho buscam fatos históricos, sociais e tecnológicos para teórico hoje é o de comentar as próprias teorias. Cercada vincular o aparecimento das ciências da comunicação e delimitada, a comunicação olha para o seu próprio a pessoas, invenções e técnicas. Fala-se da invenção da umbigo. prensa, do telégrafo, da fotografia, do rádio, do cinema, da televisão, da internet, dos telefones celulares, do Um verdadeiro combate Youtube, do Twitter, na esperança de se encontrar as causas ao positivismo, em suas das mudanças sociais produzidas por equipamentos, sistemas e dispositivos que conectam o mundo e várias manifestações e redimensionam nossos conceitos de tempo e espaço por disfarces, precisa passar pela meio do fluxo contínuo de informações digitais. valorização da metafísica das Em vez de rever suas condições de possibilidade e assunções básicas e procurar pela ontologia do fenômeno. os fundamentos que Esses dois aspectos conduzem sustentam todo e qualquer a uma visão de comunicação tipo de comunicação, para como um processo dinâmico então pesquisar o que define natural que une seres vivos e diferencia a comunicação ao ambiente por meio de simbólica humana, as teorias fluxos de informação e ações qualificadas.90 Revista FAMECOS • Porto Alegre • v. 17 n. 2 • p. 89 - 97 • maio/agosto • 2010
  • 3. Semiótica da comunicação: da semiose da natureza à cultura Dinâmica e limites das transmissões quantitativa. Aqui, informação é mensagem qualificada Uma das orientações que unificou estudos em que emerge da diversidade e a luta pela informaçãodiferentes áreas das ciências do homem e da vida define o sentido da vida. Sem dúvida, diversidade implicafoi a compreensão dos processos de comunicação quantidade. Qualidade emerge da distinção produtora decomo ações transformadoras das interações sociais ou sentido. Porque é um dado perturbador do paradigmabiológicas. O salto significativo no conhecimento dessas quantitativo, exige uma mudança na rota do raciocínio.ações foi dado ao se descobrir o papel que a informaçãodesempenha, indistintamente, nessas transformações. A ação qualificada e os diagramas ontológicos Sabemos que a possibilidade de definir unidades demedida, encontrar equações diferenciais e descrever aevolução de um fenômeno ou sistema permitiu capítulos A hipótese a ser examinadaimportantes da história da ciência: da astronomia àgenética. Logo, a descoberta de equações que permitam neste ensaio é a de que acálculos matemáticos e lógicos é um marcador distintivo geometria do espaço-tempo edo conhecimento. Nos estudos das transmissões, nãofoi diferente. A descoberta do matemático Claude os fluxos de informação que aShannon sobre a informação como medida, ainda que atravessam dão origem a umprobabilística, abriu portas do conhecimento unificandoe distinguindo processos de transmissão da informação arranjo de relações na formaentre pessoas, máquinas, organismos e processos. de diagramas ontológicos. Os estudos de comunicação e linguagem não ficaramimunes à descoberta de Shannon, particularmente osestudos sobre transmissões orientados pela interação O diagrama ontológico é a condição de possibilidadeentre emissor / receptor a partir do código comum da comunicação porque articula a rede de relaçõesa ambos. Antropólogos, sociólogos, lingüistas e que emerge da percepção estética (espaço-temporal),comunicólogos desenvolveram formulações teóricas a funcionando como uma interface entre a espéciepartir do modelo matemático que consagrou o diagrama cognoscente e o fluxo de informação que a une aobipolar da comunicação, hoje um clássico dos estudos mundo. Eliminam-se, dessa forma, as dicotomiassobre as transmissões. interno-externo, emissor-receptor, sujeito-objeto, em A partir da consideração das quantidades foi possível prol de uma visão sistêmica baseada na continuidade dosdesenvolver estudos comparativos que chamaram a processos de informação e significação.atenção para a exuberância dos efeitos, sobretudo quando Admitimos aqui que diagramas ontológicos sãodimensionam sentidos. Além disso, a diversificação dos estruturas reais e semioticamente ativas. Comecemosmeios abriu caminho para se dimensionar a dinâmica com um exemplo do mundo dito físico. Imaginemosdas transmissões e das mensagens. Porque o sistema de ser possível tomar dois elétrons, cada qual numatransmissão da informação é potencialmente dinâmico, extremidade do Universo. Ainda que estejam separadosas mensagens possibilitam, igualmente, confrontos por cerca de 14 bilhões de anos-luz, fazem parte de umadiversificados que projetam diferentes efeitos. Os mesma geometria espaço-temporal. Se pudéssemosestudos sobre as sociabilidades e sobre o discurso fazer desaparecer um deles como num passe de mágica,levaram os estudos sobre os efeitos de sentido às últimas o outro seria imediatamente afetado porque ambosconseqüências. compartilham a mesma geometria espaço-temporal. Há, contudo, um dado perturbador neste quadro Mais: devido à dinâmica que rege a evolução dosaparentemente tão bem amarrado: a transformação processos baseados em ressonâncias, a falta de um sóda informação em mensagem e a ulterior produção de elétron teria um efeito cumulativo que, ao longo dosentido pode ser um ato plural que não cabe no modelo tempo, alteraria o curso dos eventos em todo o universo.linear da teoria matemática da comunicação. Isso quer Isso se deve à hipersensibilidade e às condições iniciaisdizer que o sentido e mesmo os efeitos de sentido que marcam os sistemas dinâmicos caóticos (Ruelle,não podem ser considerados apenas em sua natureza 1990). Esse exemplo extremo mostra que tudo se conecta com todo o resto num nível fundamental da realidade. Revista FAMECOS • Porto Alegre • v. 17 n. 2 • p. 89 - 97 • maio/agosto • 2010 91
  • 4. Irene Machado e Vinícius Romanini Trata-se, pois, do diagrama ontológico que entende por teremos diferentes operações transformadoras. Na comunicação a mutualidade das relações em processos escalada evolutiva, convencionou-se denominar ontogênese interativos, e não o determinismo linear. a transformação das espécies num único sistema e Não devemos pensar, porém, que diagramas filogênese a transformação espécies em diferentes meios. ontológicos se referem apenas a uma realidade espaço- A percepção para a comunicação que possibilitou o temporal exterior à mente. Ao contrário, eles dissolvem surgimento da linguagem implica combinação de ambas as noções de interior e exterior em prol da continuidade as operações. Tanto o aparelhamento para a fala, quanto a dos fluxos de informação. Isso porque o espaço-tempo interação ambiental pela palavra, gestos, signos, resultam é também relativo à nossa capacidade perceptiva. de transformações onto e filogenéticas. No mundo das Aparelhos perceptivos com diferentes modos de capturar coisas vivas, as trocas interativas se organizam segundo e interpretar informação têm diferentes experiências as espécies diferenciadas. estéticas. Uma rocha se relaciona com o espaço-tempo O homem desenvolveu-se prioritariamente em torno de forma muito diferente de uma planta, e esta de um do signo verbal, subordinando a ele diferentes classes de inseto, e este de um peixe, e este de um mamífero. signos da visualidade, da espacialidade, da sonoridade, da Cada um dos objetos, indivíduos ou espécies que cinética. Há, contudo, classes de signos em outros reinos participam do diagrama ontológico pode ser descrito do bios5. Quer dizer, as interações nos ambientes, as como um sistema3 que tem certa permeabilidade para trocas entre espécies, distinguem diferentes ontologias. a informação que chega do ambiente, interpretando e Este é o domínio de estudo da ontogênese: o domínio da reagindo da maneira que a sua constituição possibilita. conceptualização dos fenômenos, das relações. Contudo, Cada um desses sistemas desenvolve, portanto, uma no interior de cada espécie, as transformações operam ontologia geométrica, ou diagrama ontológico, de diferentes possibilidades semióticas, respeitando-se suas forma a configurar a rede de relações que se desenvolve propriedades específicas. Este é o domínio da filogênese: no ambiente, bem como as relações internas que o domínio das variedades no contexto das invariantes. o estruturam. Dessa forma, sistemas conseguem Talvez seja hora de abrir para a análise de um processo permanecer e evoluir explorando as informações que específico. capturam por meio de sua percepção da realidade.4 A concepção de que a palavra define o domínio do A partir desse foco nas condições de possibilidade da humano no reino biológico sem dúvida alguma configura comunicação, chega-se naturalmente à compreensão de o homem como a ontogênese da linguagem verbal. Esta que comunicação não é simplesmente a transmissão de é uma invariante do sistema da comunicação na ampla sinais, mas compartilhamento de sentido entre indivíduos esfera do bios. Contudo, a expansão das possibilidades ou espécies que compartilham diagramas ontológicos comunicativas para fora do domínio verbal evidencia semelhantes. No caso das espécies vivas, isso tem relação a dinâmica da filogênese a que a linguagem verbal se direta com a evolução biológica (sobre a evolução submete graças às interações ambientais, particularmente na comunicação ver, dentre outros, Hauser, 1997; aquelas que dizem respeito ao ambiente cultural Maturana, 2001). Os seres humanos, como primatas, circunscrito pela condição antropológica. Ontogênese possuem aparelhos perceptivos muito semelhantes ao e filogênese são processos da dinâmica evolutiva que dos chimpanzés, o que permite um grau de comunicação não se confundem nem se separam; implicam-se e bastante importante entre essas duas espécies. Também impregnam-se mutuamente. temos conformidade expressiva de percepção com O ponto de vista da ontologia dos fenômenos mamíferos como cavalos, gatos e cachorros, o que facilita comunicativos exige um corajoso esforço inter e nossa comunicação com indivíduos dessas espécies. Na transdisciplinar para buscar na física, na biologia e medida em que aumenta a diferenciação entre nosso na teoria dos sistemas os conceitos necessários para aparelho perceptivo e o de outras espécies, diminuem as compreendermos o novo enraizamento das teorias da condições de possibilidades comunicativas. comunicação. Enraizamento que, na verdade, já levou à constituição de um campo de conhecimento: a semiótica. Ontogenia e filogenia em comunicação A semiótica estuda a semiose, ou ação do signo, na São os aparelhos perceptivos os agentes sua maior abstração possível. Ela se interessa por transformadores da informação em construção de sentido, compreender uma gama vasta de fenômenos, como os ou mensagem. Dependendo das condições de percepção, mecanismos que regulam ações como reações imediatas92 Revista FAMECOS • Porto Alegre • v. 17 n. 2 • p. 89 - 97 • maio/agosto • 2010
  • 5. Semiótica da comunicação: da semiose da natureza à culturaa estímulos, percepção, ostenção, representação, tomadas os processos de representação. Modelização é umde decisão, formação de conceitos, compartilhamento de conceito semiótico para compreender semiose quandoidéias, produção de argumentos, retórica, persuasão etc. uma determinada ação semiótica gera uma operaçãoNa verdade, onde houver assimilação e interpretação de que possa significar um modelo. O processo deinformação, haverá ação do signo, o que faz da semiose modelização foi forjado no contexto da comunicaçãoum fenômeno constitutivo e constituinte da realidade. de mediação homem-máquina para explicitar comoO que é, então, a Semiótica da Comunicação? os códigos culturais, tecnológicos e cognitivos geram Semiótica da Comunicação constitui uma abordagem linguagens e como cada uma, no limite de suasque entende a comunicação como um problema possibilidades, significam. O processo modelizante visasemiótico, ou seja, como processo interativo num a valorizar a dimensão significante da informação. Cadauniverso composto por sistemas e subsistemas abertos sistema modelizante, por sua vez, atua num campo deorganizados por meio de fluxos de informação, em que a possibilidades condizentes com sua lógica interna. (veração dos signos, ou semiose, é o fenômeno fundamental. Lotman, 1978; Machado, 2003; Merrell, 1990)Se a possibilidade de comunicação é um componente Isto posto, podemos apresentar aquela que seontológico da realidade, entre os seres vivos ela deixa de configura desdobramento vigoroso de nossa hipótese:ser possibilidade para se tornar manifesta: a comunicação a semiose como ação geradora do bios na evolução.é um comportamento interativo que surge como Semiose não é, pois, privilégio do humano nem tem suapropensão6 das espécies para a interação no ambiente origem em algum estágio específico e determinado dana busca por condições de sobrevivência e contínua evolução das espécies na Terra. Ela é, antes, o fenômenoevolução. Do ponto de vista semiótico, a propensão que permite a própria evolução das espécies, desde suaspara a interação no ambiente é um ato de conhecimento funções básicas até o aparecimento de propriedadesdo mundo que precede a transmissão da informação complexas como a inteligência e o raciocínio abstrato.em mensagens codificadas. Trata-se, pois, da operação De acordo como nosso ponto de vista, a semiose é ade design diagramática em prol da constituição de uma ação integradora que permite interação em diferentesontologia das relações primordiais em espaços semióticos. escalas do inanimado ao animado. Alcançamos, assim,Compreender o design de relações que constroem atos a semiosfera integradora das diferentes esferas de vidacognitivos e os oferece sob forma de diagramas é tarefa no planeta.elementar da ontologia que fundamenta a investigaçãosemiótica sobre comunicação. Semiose ou a ação simbólica das relações Porque foi definido como princípio gerador das O que deve buscar o olhar do semioticista dapossibilidades comunicativas e também do conhecimento, comunicação?o diagrama ontológico torna-se, igualmente, fundamentoda abordagem semiótica da comunicação. Trata-sede valorizar modelos de comunicação anteriores, até Quando se procura exercitarmesmo, à própria constituição da linguagem. Isto o olhar semiótico sobre oporque, no quadro evolutivo, a linguagem emergeno conjunto das transformações filogenéticas e vai mundo, o passo fundamentaldefinir uma vocação da espécie humana, que, por seu é o de identificar os processosturno, define sua condição antropológica. Ainda quelinguagem, no contexto humano, organize o processo de mediação, de interface,de transformação da informação em mensagem, não que dão sustentação a todaé a linguagem que define a ontologia da comunicação,mas sim o design de diagramas interativos. Daí ser a a complexidade atual dossemiose o objeto primordial do estudo da semiótica da fenômenos comunicativos, docomunicação. Nas espécies vivas, semiose se manifesta como ato gesto à gestão.de conhecimento do mundo e, portanto, um processode modelização que se inicia na percepção e atravessa Revista FAMECOS • Porto Alegre • v. 17 n. 2 • p. 89 - 97 • maio/agosto • 2010 93
  • 6. Irene Machado e Vinícius Romanini Se até agora reconhecemos os processos a interação, para a luta, para a preservação da vida. Este de modelização da experiência e, portanto, de raciocínio é uma outra forma de dizer que contexto e fundamentação da percepção e de geração do próprio cultura implicam-se mutuamente no mundo das espécies diagrama ontológico, agora é hora de explicitar o caráter vivas. das ações no contexto do mundo vivo, seus processos Eis aqui a base de uma nova revolução copernicana, de luta, de jogos de interesses, de conflito e diversidade desta vez contestando que a visão antropocêntrica de de relações. que apenas a espécie humana possui cultura. O fato Antes de mais nada, é preciso ressaltar que a de a cultura humana florescer hoje principalmente no semiótica da comunicação não aceita o incognoscível da universo simbólico e nas relações de virtualidade espaço- coisa em si nem o status apriorístico das categorias. Ao temporal não implica que só possa existir cultura na contrário, propõe a emergência filogenética de sistemas semiosfera do humano. A etologia e a antropologia não modelizantes capazes de produzir redes simbólicas. estão tão distantes como costumava supor há algumas Essas redes são formadas por associações de semelhança décadas. Os sistemas modelados pelas línguas precisam (metáforas) e de contigüidade (metonímias), bem como se compreendidos, portanto, no interior de ambientes por padrões gerais que conectam ambas num modelo mais amplos, que são os sistemas culturais que florescem totalizador das experiências acumuladas. Assim, sistemas nutridos pelos insumos que recebem na ecologia das semióticos emergem no contexto filogenético da relações. Chegamos, aqui, à raiz do problema que a evolução das espécies. A tendência geral desses sistemas semiótica da comunicação quer investigar: os processos para produzir padrões propicia o surgimento de ações de modelização dos ecossistemas culturais no amplo simbólicas, e é a organização dessas ações simbólicas, movimento de configuração do bios. Quer dizer, em sua codificadoras de disposições comportamentais, que dá camada mais complexa da rede de relações semióticas que origem aos sistemas e às linguagens da cultura – humana evoluem enquanto se reinterpretam, inter-relacionam e e não-humana. se mesclam continuamente, produzindo mentalidades Os sistemas da cultura são, portanto, modelos vivas. ativos de mundo, ou seja, modelos capazes de, como explica o lingüista e semioticista Thomas Sebeok (1996, p. 132), “construir um programa para a conduta do Umwelt: a modelização do mundo vivo na indivíduo, da coletividade, da máquina, etc, uma vez semiosfera que define a escolha de regras e motivações que lhe dão Ao reconhecer que somos parte de um bios muito suporte”. Para ele, a formação das línguas naturais não mais amplo e diversificado que o homem e que, portanto, é um pressuposto da cultura humana mas, antes, uma o antropo não é ser primordial, adentramos no caminho propensão da espécie que tende naturalmente a explorar que leva à qualificação de diferentes percepções de que as condições de possibilidade comunicativas que a o entorno de uma espécie é, sobretudo, aquilo que o seu natureza lhe oferece: “a língua não evoluiu para favorecer mundo interior projeta. No contexto, porém, diferentes as exigências comunicativas da humanidade. Evoluiu [...] subjetividades distinguem os atos elementares de signos como um sofisticado mecanismo de modelização, de específicos na semiose que anima a vida na semiosfera, acordo com a Umweltlehre de Uexküll” (Sebeok, 1996, p. projetando diferentes modelos de significação do mundo. 127-128). Se a cultura é um fluxo e tudo o que nela ocorre sempre Com isso se quer dizer o seguinte: a língua, em tem um precedente, nenhuma ação na semiosfera pode sua evolução, desempenha muito mais um papel de ser considerada isoladamente. A semiose resulta, por modelização do que de instrumento de comunicação. conseguinte, de modelizações que Iúri Lótman atribui a A língua é o resultado de uma evolução filogenética da funcionamentos de inteligência, isto é, à faculdade de que espécie humana. Já a semiose diversificada dos signos são dotados os sistemas para a produção da informação espaciais, cinéticos, sonoros, etc. se coloca na base da que garante a permanência da vida. Este mecanismo própria ontogenia humana, bem como de tudo o que o de inteligência constitui o universo da mente (Lótman, homem, a exemplo de outras espécies, produziu como 1990), atributo do sistema e não da espécie humana. cultura. No contexto dos sistemas culturais, a capacidade Considerando a semiosfera como o continuum modelizadora reveste-se do caráter sistêmico e evolutivo semiótico que modeliza ações e comportamentos para que se manifesta no mundo vivo como capacidade para gerar Umwelt, conquistaremos seu conceito mais caro: a94 Revista FAMECOS • Porto Alegre • v. 17 n. 2 • p. 89 - 97 • maio/agosto • 2010
  • 7. Semiótica da comunicação: da semiose da natureza à culturaidéia de que nossa natureza é a cultura – formulação a Nesse sentido,que chega Kalevi Kull (1998) a partir do conjunto teóricoque fundamenta o campo aqui denominado semióticada comunicação, fruto dos trabalhos de Ch. S. Peirce, J. os meios de comunicaçãoUexküll, G. Bateson e I. Lótman. ocuparam a cena da cultura Para a semiótica da comunicação, portanto, oprimeiro passo para entender a cultura é naturalizá-la. não porque são veículos deSentindo-nos novamente em casa no universo (Wheeler, transmissão de informação,2003), podemos avaliar melhor a amplitude dos efeitosde nossas ações e exercitar uma razoabilidade que mas porque elaboramgaranta nossa permanência na ecologia geral das relações linguagem com códigosda natureza. Aqui não cabem a camisa-de-força estreita das culturais diferenciados: dodisciplinas acadêmicas, os métodos que asseguramresultados aceitos pelos pares, as hipóteses que anunciam alfabeto à tipografia; daos desfechos. Ao assumir a transdisciplinaridade, a fotografia à cinematografia;semiótica da comunicação não pretende oferecer umavisão totalizante desses processos mas, ao contrário, da discografia à videografiaassumir o ponto-cego intrínseco a toda observação do e aos códigos digitais emundo, pois é precisamente ali que se abrem as janelasda semiose. informáticos. A semiótica da comunicação desenvolve-se como As linguagens da comunicação, que traduzem asteoria crítica da cultura ao radicalizar e expor a verdadeira mensagens em tão variadas formações codificadas,raiz do problema da comunicação e de sua ontologia. Em se tornaram agentes de transformação da cultura – evez de se perder no comentário dos efeitos contingentes não apenas da cultura de massa. É de filogenia e deproduzidos pelos meios de comunicação, traz para o ontogenia que estamos falando. É o diagrama ontológicocentro do debate o contexto do desenvolvimento das que se espera alimentar, porque seu desenvolvimentoferramentas conceituais e do próprio aparelhamento corresponde ao aumento contínuo de informação ecognitivo sem os quais nenhum instrumento tecnológico, ao enriquecimento cultural que caracteriza a semioseseja a pedra ou o computador, seria possível. baseada em ações qualitativas. Os meios de comunicação de massa, que apresentamrecursos cada vez mais aprimorados e impensáveisde uma década para outra, não se desenvolveram à REFERÊNCIASmargem do processamento cognitivo do homem nanatureza e na cultura. Por mais que esta conexão esteja BUNGE, Mario. Dicionário de filosofia. São Paulo:radicalmente distante dos interesses do engenheiro, do Perspectiva, 2006.tecnólogo e do informata, arriscamos afirmar que elanão está ausente dos conhecimentos que as ciências da DARWIN, Charles. A origem das espécies. Rio de Janeiro:comunicação – numa esfera de interação transdisciplinar Ediouro, 2004.– já implementou. Diríamos que ela é o fundamento denossas ciências sociais aplicadas, onde “aplicado” não FRIEDEN, Bernard Roy; ROMANINI, Viníciusé mera demonstração de descobertas, mas exercício Eluding the demon - how extreme physical informationdialético de transformação da informação em mensagem. applies to semiosis and communication. Cognitio-Estudos,Aqui temos um argumento diferencial: a necessidade São Paulo, v. 5, p. 52-63, 2008.humana de produzir informações que signifiquem eque possam ser, indefinidamente, interpretadas. No HAUSER, Marc D. The Evolution of Communication.âmbito do humano não é de quantidade de informação Cambridge: The MIT Press, 1997.que estamos falando, mas da qualidade diferencial dasmensagens. Revista FAMECOS • Porto Alegre • v. 17 n. 2 • p. 89 - 97 • maio/agosto • 2010 95
  • 8. Irene Machado e Vinícius Romanini LOTMAN, Yuri. A estrutura do texto artístico. Lisboa: VERNADSKY, Wladimir. La Biosphère. Paris: Diderot, Estampa, 1978. 1997. LOTMAN, Yuri. The Universe of the Mind. A Semiotic VIEIRA, Jorge de Albuquerque. Antologia. Formas de Theory of Culture. Bloomington: Indiana University Press, conhecimento: arte e ciência, uma visão a partir da complexidade. 1990. Fortaleza: Expressão, 2008. KULL, Kalevi. Semiotic ecology: different natures in WHEELER, John Archibald. At Home in the Universe. the semiospheres. Sign Systems Studies, vol. 26. Tartu: Woodbury: American Institute of Physics, 2003. University of Tartu Press, 1998. NOTAS MACHADO, Irene. Circuitos dialógicos: para além da transmissão de mensagens. In: Semiótica da cultura e semiosfera. São Paulo: Fapesp/Annablume, 2007a. 1 Por ontologia entende-se o estudo dos aspectos genéricos da realidade como a existência, o tempo, o MACHADO, Irene. Em contexto, fora de contexto. acaso, a vida, a mente. Segundo Mario Bunge (2006, p. Experiências sistêmicas nos estudos da comunicação 267), “a ontologia geral estuda todos os seres existentes, como mente da cultura. Anais do XVI Encontro da Compós, enquanto cada ontologia especial estuda um gênero de Curitiba, 2007b. coisa ou processo – físico, químico, biológico social etc.”. Ver ainda Vieira (2008). MACHADO, Irene. Transmissão vs. autogeração: revendo modelos e problematizando teorias no estudo 2 Nossa revisão desses modelos foi examinada em estudos da comunicação. In: FERREIRA, Jairo (Org). Cenários, anteriores. Ver: Machado (2007a, 2007b, 2007c); Frieden teorias e epistemologias da comunicação. Rio de Janeiro: e Romanini (2008). E-papers, 2007c. 3 Sistema entendido como: “Objeto complexo do qual MATURANA, Humberto. Cognição, ciência e vida cotidiana. toda parte ou todo componente está relacionado no Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001. mínimo com outra componente.[...] A mais simples análise do conceito de um sistema envolve os conceitos MERRELL, Floyd & ANDERSON, Myrdene. Mundos de composição (C) ambiente (A), estrutura (E) e variáveis, modelizações semióticas. Face, São Paulo, v.3, mecanismo (M). A composição de um sistema é a n.1, 1990. coleção de suas partes. O ambiente de um sistema é a coleção de coisas que agem sobre os componentes do PEIRCE, Charles Sanders. Collected Papers. Vol. I a VIII. sistema, ou são objeto de sua ação. A estrutura de um Ed. Eletrônica. Charlotterville e Cambridege: Intelex sistema é a coleção de relações (em particular laços ou Co. & Harvard Univ. Press, 1992. elos) entre ao componentes do sistema, bem como entre estes e os itens ambientais. [...] Finalmente, o mecanismo PEIRCE, Charles Sanders. The Essential Peirce. (vol. 2 de um sistema é formado pelos processos internos que HOUSER, N. et al (Eds.). Bloomington: Indiana Univ. o fazem funcionar, isto é, mudar em alguns aspectos Press, 1992 e 1998. enquanto conservam outros” (Bunge, 2006, p. 358-359). RUELLE, David. Acaso e caos. São Paulo: UNESP, 1993. 4 O sistema de Grafos Existenciais, desenvolvido por Peirce, é um bom exemplo de diagrama ontológico no SEBEOK, Thomas. Comunicação. In: RECTOR, campo das ações simbólicas. O que propomos, aqui, é Mônica & NEIVA, Eduardo (Orgs.) Comunicação na era assumir a Umwelt como o própria folha de asserção onde pós-moderna. Petrópolis: Vozes, 1996. o jogo das relações lógicas de desenvolve. ULANOWICZ, Robert E. Ecology, the Subversive Science? Episteme, Porto Alegre, n. 11, p. 137-152, 2000. 5 Bios refere-se aqui a esfera da vida, a biosfera (no sentido de V. Vernádsky, 1997), e também a experiências96 Revista FAMECOS • Porto Alegre • v. 17 n. 2 • p. 89 - 97 • maio/agosto • 2010
  • 9. Semiótica da comunicação: da semiose da natureza à culturada descendência comum do mundo vivo (common descent causal onde a ação é ocorrência isolada num eixo dewith modification), de Ch. Darwin (2004). previsibilidade. A propensão é uma probabilidade a partir de relações que podem se encaminhar para fora6 Propensão é um conceito do universo filosófico do contexto de modo a evidenciar a contingência a quede Karl Popper (1990) que designa uma tendência está sujeita um sistema e, por conseguinte, as ações queque determinados eventos apresentam para ocorrer acontecem em contexto (Ulanowicz, 2000, p. 140-141).em contextos, quer dizer, fora de qualquer relação Revista FAMECOS • Porto Alegre • v. 17 n. 2 • p. 89 - 97 • maio/agosto • 2010 97