No. 4 • October 2009   A arquitetura do desejo:
                                       gramáticas espaciais e
            ...
Sexualidades is a publication of the Latin American Regional Editorial Board of the                                       ...
A arquitetura do desejo:
gramáticas espaciais e socializações lésbicas



Andrea Lacombe
Universidade Federal do Rio de Ja...
Resumo
Este artigo descreverá os usos do espaço dos bailes da Mary no clube Olímpico localizado no bairro de
Copacabana, R...
E
         ste artigo descreverá os usos do espaço nos bailes da Mary no clube Olímpico no bairro carioca de
         Copa...
S E X U A L I D A D E S

  LGBT e na guia gls do Rio de            ocorreu a profunda mudança                      um luga...
Janeiro) são pioneiros no tratamento       aniversário no salão do Clube Olímpico           que está contra a parede direi...
S E X U A L I D A D E S

  banheiros estão sempre limpos, com       sentadas sozinhas. A conformação         idéia de ter ...
os bailes da Mary, ele riu e me disse             por mês, momento em que o espaço                  churrascos no Méier), ...
S E X U A L I D A D E S

       As mesas da primeira fila à        completa de maquiagem, e casais      certas hierarquias...
lugar de maior exposição, não requer       pessoas ocupam vai mudando na                    sedimenta a maneira pela qual ...
S E X U A L I D A D E S

  considerada como a passagem não        “grandes e velhas amigas”)              no interior de u...
Acredito que os recintos           conversas com as freqüentadoras,                nível econômico, cor e atributos
onde s...
S E X U A L I D A D E S

  particularizar as normas e valores que   público. Justamente essa alteridade          um ponto ...
pessoas homossexuais e baseia-se no “reconhecimento dado por um           força. A posição em que as pessoas se situam uma...
S E X U A L I D A D E S

  em Porto Alegre. Dissertação de Mestrado em                Elias, Norbert e John Scotson. 2000....
Ingold, Tim. 2000. “People like us”: The concept of the          Scott, Joan W 2000. La experiencia como prueba.
anatomica...
The architecture of desire:
Spatial grammars of lesbian socializations



Andrea Lacombe
Universidade Federal do Rio de Ja...
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Sexualidades No. 4[1]
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Sexualidades No. 4[1]

1,647

Published on

Una serie monográfica
sobre sexualidades
latinoamericanas y caribeñas

Published in: Education, Technology
0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total Views
1,647
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0
Actions
Shares
0
Downloads
23
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Transcript of "Sexualidades No. 4[1]"

  1. 1. No. 4 • October 2009 A arquitetura do desejo: gramáticas espaciais e socializações lésbicas The architecture of desire: Spatial grammars of lesbian socializations La arquitectura del deseo: gramáticas del espacio y socializaciones lésbicas ANDREA LACOMBE A Working Paper Series on Latin American and Caribbean Sexualities Una serie monográfica sobre sexualidades latinoamericanas y caribeñas Uma série monográfica sobre sexualidades latino-americanas e caribenhas
  2. 2. Sexualidades is a publication of the Latin American Regional Editorial Board of the EDITORES/EDITORS International Resource Network, a global community of teachers and researchers sharing Eliane Borges Berutti Departamento de Letras knowledge about sexualities. The International Resource Network is funded by the Ford Anglo-Germânicas Foundation and based at the Center for Lesbian and Gay Studies of the Graduate Center of Universidade do Estadodo Rio de the City University of New York. Janeiro, Brasil Rafael de la Dehesa For further information about Sexualidades, contact the editors at sexualidades@hotmail.com Department of Sociology, Anthropology, or by mail or fax at: International Resource Network; Center for Lesbian and Gay Studies; and Social Work Graduate Center, City University of New York; 365 Fifth Ave., Room 7.115; New York, NY City University of New York- College of Staten Island, USA 10016; Fax (212) 817-1567 María Mercedes Gómez Department of Sociology and Criminology St. Mary’s University, Canada COMITÉ EDITORIAL/COMMISSÃO EDITORIAL/EDITORIAL BOARD Violeta Barrientos Silva Programa de Estudios de Género Universidad Nacional Mayor de San Marcos, Perú Jasmín Blessing Center for Lesbianand Gay Studies, City University of New York, USA Mauro Cabral Centro de Investigacionesde la Facultad de Filosofíay Humanidades Universidad Nacionalde Córdoba, Argentina Gabriela Cano Facultad de Filosofía Universidad Autónoma Metropolitana-Iztapalapa, México © 2009 Sergio Carrara Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos ISSN 1938-6419 Universidade do Estadodo Rio de Janeiro, Brasil Ebén Diaz Red de Diversidad Sexual GLBTTTI, Nicaragua. www.IRNweb.org Camila Esguerra Muella Departamento de Antropología Universidad Nacional de Colombia, Colombia Jacqueline Jiménez Polanco Department of Social Sciences City University of New York- Bronx Community College, USA Denilson Lopes Escola de Comunicação Universidade Federaldo Rio de Janeiro, Brasil Rita María Pereira Ramírez - Cuba Jurista, investigadora, y documentarista Habana, Cuba Andrés Ignacio Rivera Duarte Organización de Transexualespor la Dignidad de la Diversidad, Chile Angie Rueda Castilla, Mexico Frente Ciudadano Pro Derechos de Transgéneros y Transexuales, México Marcela Sánchez Proyecto Colombia Diversa, Colombia Diego Sempol - Uruguay Área Académica QuieerMontevideo, Uruguay Departamento de Ciencias Sociales, Universidad Nacional de GeneralSarmiento, Argentina Horacio Sívori Centro Latino-Americano em Sexualidadee Direitos Humanos Universidade do Estadodo Rio de Janeiro, Brasil Bruno Souza Leal Faculdade de Comunicação Universidade Federal de MinasGerais, Brasil Juan Marco Vaggione Consejo de Investigaciones Científicas y Técnicas de Argentina (CONICET) Facultad de Derecho y Ciencias Sociales, Universidad Nacional de Córdoba, Argentina
  3. 3. A arquitetura do desejo: gramáticas espaciais e socializações lésbicas Andrea Lacombe Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil
  4. 4. Resumo Este artigo descreverá os usos do espaço dos bailes da Mary no clube Olímpico localizado no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro. Neste baile, creio ser possível reconstruir as gramáticas de socialização de mulheres lésbicas no contexto de um espaço de divertimento. A importância de analisar a espacialidade e a arquitetura do lugar relaciona-se à noção de “construção do espaço” em um movimento dialético com as gramáticas de socialização: os “quem” e os “como” também dependem dos “onde”. Os “onde”, por sua vez, abrigam um público que carrega de determinados sentidos os espaços a partir dos usos que deles faz. Palavras-chave Socialização lésbica, espaço público, identidade, Brasil Sobre a autora Andrea Lacombe, mestre em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal de Rio de Janeiro (PPGAS/MN/UFRJ) e doutoranda pelo mesmo Programa. Bacharel em Comunicação Social pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Áreas de atuação: estudos queer, gênero, sexualidade, antropologia do corpo. Temas de pesquisa: socializações lésbicas, corpo, masculinidades.
  5. 5. E ste artigo descreverá os usos do espaço nos bailes da Mary no clube Olímpico no bairro carioca de Copacabana, um evento através do qual é possível reconstruir as gramáticas de socialização de mulheres lésbicas no contexto de um espaço de divertimento1. A importância de analisar a espacialidade e a arquitetura do lugar relaciona-se à noção de “construção do espaço” em um movimento dialético com as gramáticas de socialização: os “quem” e os “como” também dependem dos “onde”. Os “onde”, por sua vez, abrigam um público que carrega de determinados sentidos os espaços a partir dos usos que deles faz. A intenção é costurar as características físicas, isto é, o modo pelo qual os recintos estão distribuídos e conformados, às especificidades de socialização das freqüentadoras. O espaço será analisado a partir do valor simbólico atribuído pelas pessoas que freqüentam este estabelecimento dançante de divertimento noturno. Em última análise, visa perceber o que o espaço faz com as pessoas e o que as pessoas fazem com o espaço2. Os usos do espaço como variáveis relação entre os indivíduos e as a diferentes ópticas sobre o espaço de socialização conformam marcas experiências que estes têm no (Amster 2008: 177). A demarcação para enxergar particularismos que espaço que habitam. Rodmam do espaço supõe uma “reconceituação estruturam a trama do que chamo propõe um estudo multilocalizado histórica, demográfica, geográfica “socializações lésbicas”. A organização no qual o lugar terá um duplo e poética dos lugares sob a lupa espacial dos lugares guarda relação sentido: “como uma construção de uma mudança do que significa com os modos em que são usados antropológica para um ‘cenário’ ou a centro e margem nas urbanizações” culturalmente. Os lugares não localização de conceitos e como uma (Chisolm 2005: 10). Nas palavras de são meros reservatórios inertes; experiência socialmente construída e Rooke (2007: 233), “um apelo para são politizados, culturalmente ‘espacializada’” (642). imaginar a cidade de uma maneira relativizados, historicamente Falar em espaço e em lugar que compasse os espaços urbanos construídos e percebidos a partir supõe lidar com duas concepções vividos, percebidos e concebidos e a de diferentes lugares em relação ao diferentes no que diz respeito ao locus espacialidade das vidas queers”. agenciamento que os atores fazem social 3. Especificamente, o estudo deles, ou seja, de acordo com as de topografias sexuais, entendida - Andrea, você que está procurando possibilidades de ação que supõe o neste sentido como a análise dos lugares pra fazer campo, conhece os uso desses lugares. espaços onde se desenvolvem rotinas bailes no Olímpico?, pergunta-me O espaço possui uma polifonia sexuais ou de sedução, serve-se uma amiga em uma festa. de vozes que responde a uma da distinção relativa entre “local” - No Olímpico? aquele clube espacialidade que na antropologia (place), localização “cujo potencial em Copa, perto do corte [do tem sido representada e questionada significativo ainda tem que ser Cantagalo]?, pergunto curiosa. na fase da escrita etnográfica. Neste totalmente desenvolvido”, e “espaço” -Sim, aquele clube, ‘cê’ conhece? Lá sentido os lugares além de habitar (space), que “emerge quando sobre o tem uns bailes de sapata velha uma nas narrativas dos nativos e dos local são impostas práticas, quando vez por mês, primeira sexta do mês, antropólogos são narrativas per formas de atividade humana impõem acho. Vai lá, talvez seja interessante se; falam a respeito das culturas significados a uma localização dada retratar as “velinhas cocoon”. que os habitam. Rodman (1992) e transformam o terreno ‘neutro’ em - Você já foi? usa as ferramentas da geografia de paisagem (landscape), isto é, em um - Não, mas umas amigas da Vidalian que conceitualizam as particular ‘modo de ver’ ” (Leap 1999: Angélica [amiga dela] já foram. tensões existentes entre a influência 7). Esta distribuição não responde, - é que o ser humano exerce sobre o claro, - a um arranjo estático, mas é Cheguei aos Bailes da Mary meio ambiente e, reciprocamente, “continuamente construída, negociada seguindo a indicação de umas amigas o impacto que o meio tem sobre e contestada” (6). A multiplicidade de cariocas que conhecem outras que já os indivíduos, sugerindo que espaços dá lugar à multiplicidade de ouviram falar deles. Fiz uma pesquisa essa tensão é compatível com a vozes (Massey 2005: 28), mas também rápida em websites para o público A arquitetura do desejo: gramáticas espaciais e socializações lésbicas • 3
  6. 6. S E X U A L I D A D E S LGBT e na guia gls do Rio de ocorreu a profunda mudança um lugar feérico, com uma vida Janeiro e não consegui referência qualitativa na demanda por bens noturna intensa que apresentava alguma sobre o baile4. Parti então, e serviços das classes média e alta. várias opções e alternativas para em uma sexta-feira5, rumo ao Para essas classes, Copacabana gostos os mais variados. tal baile no Clube Olímpico surgiu como símbolo da (Velho 2006: 242). localizado na rua Pompeu modernidade e da funcionalidade Loureiro, à procura do que as à altura dos valores burgueses e da A partir da década de 1970, minhas amigas denominaram prosperidade deste segmento da o auge do bairro começou a como o baile do cocoon6. sociedade” (Lemos 2008: 54). diminuir e a quantidade de O Olímpico pode ser definido Mesmo assim, nas décadas população também: dos 250.000 como um pequeno clube de subseqüentes o bairro foi habitantes dos anos 70 desce para bairro com piscina, sinuca, vários adquirindo uma dupla face que 214.000 - no censo de 1980 - e salões, sala de jogos e espaço ainda o caracteriza: esta busca pela chega aos 160.000, do registro modernidade “democratiza” o bairro do ano 2000 (Velho 1999: 15). de brinquedos para crianças. que vê mudar seu visual senhorial Entretanto, dois dados que O clube é distribuído em três com a construção de edifícios de aparecem no artigo de Velho andares, mais a área aberta que, apartamentos – novidade no Rio (2006) são relevantes para a além da piscina e do playground, de Janeiro – que abrigam uma presente pesquisa: Copacabana possui churrasqueiras e um população de baixa renda atraída pela foi um importante centro de outro bar onde ocasionalmente busca de status e a um estilo moderno socialização gay, como é relatado há música ao vivo. Está rodeado de vida, pessoas “que sacrificam o por Guimarães (2004) e o fato de, de prédios de apartamentos, aos espaço residencial para poderem viver atualmente, ser o bairro carioca lados e na calçada da frente, em no bairro que tem transporte, atende com maior proporção de idosos uma das chamadas áreas nobres ao consumo e produz, de acordo do Brasil. Estas duas características de Copacabana. Mesmo tendo serão levadas em conta na hora de residido nas imediações do clube, com as representações dominantes, prestígio social” (Velho 2006: 243). analisar os bailes da Mary. nunca pensei que neste lugar Na academia brasileira os pudesse ocorrer, uma vez por Entre ambos os extremos existe uma classe média formada por trabalhos referidos especificamente mês há cinco anos, ou seja, com a temáticas lésbicas são escassos. regularidade e periodicidade, uma comerciantes, funcionários públicos e profissionais: Em Ciências Sociais, as dissertações festa na qual centenas de mulheres de Jaqueline Munis (que aborda fossem à procura de parceria, O crescimento do consumo a homossexualidade feminina a namoro ou diversão com outras e a mobilidade social geram partir do modo como ela se põe amigas que também, como elas, novas aspirações e expectativas na linguagem no Rio de Janeiro), gostam de mulher. de estilos de vida. De início, Luis Otávio Rodrigues Aquino Copacabana, por sua são principalmente famílias (sobre os processos de construção, parte, está localizada na zona de camadas médias que têm manutenção e manipulação sul do Rio de Janeiro e, com como projeto mudar-se para de identidades lésbicas entre aproximadamente 160.000 Copacabana. Vêm de outras mulheres migrantes em Porto habitantes, é o bairro com maior partes da cidade, da própria Alegre) – ambas de 1992 – e a de densidade populacional da Zona Sul, do Centro, da Zona Tâmara Teixeira de Carvalho (uma cidade7. Este bairro, que começou Norte e depois mesmo dos pesquisa de campo realizada em como uma estação de veraneio subúrbios. Boa parte dos novos Belo Horizonte com mulheres que no inicio do século XX, teve seu moradores origina-se de outros mantêm relações com mulheres, crescimento a partir dos anos estados, além dos estrangeiros mas já tiveram histórias amorosas 20, depois da abertura do túnel que, desde o princípio, viam em e conjugais com homens), de do Leme, logo conhecido como Copacabana um bairro de sua 1995, e o artigo “Ser ou estar “Túnel Novo”. Entretanto, sua predileção [..] Acrescente-se a estes homossexual” de Maria Luiza explosão demográfica deu-se a partir o pessoal do corpo diplomático Heilborn de 1996 (que analisa dos anos 30 “com o surgimento do e os representantes de grandes a elaboração de identidades vigoroso processo de industrialização empresas internacionais. A famosa sexuais de mulheres homossexuais durante a era Vargas, quando “princesinha do mar” tornou-se de camada médias do Rio de 4 • Number 4
  7. 7. Janeiro) são pioneiros no tratamento aniversário no salão do Clube Olímpico que está contra a parede direita fica desta temática. Já neste século e a convocatória teve tal repercussão paralela à pista, já que na parede há um houve um incremento importante que as amigas a animaram para repetir banco atrelado, tão longo quanto a pista, de pesquisas, não só em relação à o sucesso periodicamente. “Eu tocava substituindo as cadeiras. Algumas das quantidade como a diversificação violão num bar de Botafogo, o Tamino. mesas – basicamente aquelas que estão sobre o escopo, atrelando a temática Aí lotava de mulher entendida8. à direita e à esquerda do salão contra a da homossexualidade feminina a Esse pessoal foi virando amiga, uma pista – têm um papel colado com nome estudos sobre sexualidade, política conhece alguém e leva porque é feminino, indicando a reserva feita por e saúde (Almeida 2005, Facchini bom e assim... vai se formando uma alguma freguesa. As paredes possuem 2005, Facchini e Barbosa 2006), galera, entende. Essa galera foi ao meu um revestimento de vidro preto com análises históricos (Nogueira 2005) aniversário e aí começou a freqüentar desenhos de palmeiras, samambaias e e socialidades e conjugalidades (Menirz 2005, Souza 2005, as festas. Todo mundo gostou e eu pássaros que lhes outorgavam um ar Lacombe 2006, Medeiros 2006). repeti”, me explica Mary. selvático apesar da baixa temperatura Outrossim, algumas pesquisas sobre Subo de elevador até o terceiro do lugar que, mesmo no inverno, conta sexualidade e gênero incluem o andar que abriga somente o salão com um ar condicionado fortíssimo que tratamento da homossexualidade onde os bailes são realizados. congela até os tutanos. feminina dentro do seu universo de Assim que desço, à minha direita, Na iluminação, uma “bola de análise. Entre os principais, Aguião está o caixa: um box, metade de espelhos” de proporções consideráveis (2007); Fígari (2007); Fry e Mac madeira e metade de vidro, no qual reflete no lugar a luz advinda de Rae (1985) e Heilborn (2004). uma mulher muito gentil me dá um laser verde e spots vermelhos, as boas-vindas, cobra o ingresso azuis e verdes que se movimentam e entrega a cartela que marca a no compasso da música. Ao mesmo Night Face, Face consumação de bebidas e comidas. tempo, a luz negra dá um efeito to Face ou “os O preço da entrada tem variado particular com seu característico tom bailes da Mary” ao longo do período da pesquisa violáceo e nos momentos de maior de campo. Assim que comecei, agito o flash desmancha os corpos Na porta do clube Olímpico custava R$ 18,00 na bilheteria em movimento. Algumas vezes, a não existe cartaz ou qualquer tipo de e R$ 15,00, se comprado com decoração se completa com balões sinalização que indique a existência antecedência9. Na parede oposta um de diferentes cores indicando algum de um baile, menos ainda destinado grande espelho retangular de dois aniversário que se comemora no lugar. a um público gls. “O baile gls? ah! é, o metros de largura por um metro de Os garçons e as garçonetes circulam baile da Mary, é no salão; pode ir, já altura serve para retocar o penteado e sem parar entre as mesas, dando conta começou” me diz o porteiro do clube, dar uma última olhada no visual antes dos pedidos de bebida e comida. No me convidando a entrar. Um corredor de passar no salão. À esquerda do lado oposto à porta de entrada ao salão, de aproximadamente 50 metros com caixa, duas grandes portas de madeira há uma porta de vaivém que conduz um toldo de acrílico me conduz da e um segurança que abre a porta e aos banheiros e à cozinha. Essa área porta de grades pretas até o edifício. entrega uma filipeta promovendo a tem uma iluminação diferente, branca, Subo alguns degraus e entro no prédio festa seguinte antecedem o salão e, clara, não possui ar-condicionado e que tem um grande salão no térreo portanto, o baile. Entrar naquele salão está inundada pelo cheiro de óleo de à esquerda, logo depois da entrada, parece uma volta ao passado: a pista soja que usam na cozinha para fritar alugado no momento a uma igreja de dança retangular ocupa o centro os petiscos oferecidos no cardápio. A pentecostal, mas que já foi o lugar dos do espaço e está circundada por três palavra “MULHER”, impressa em bailes da Mary logo que começaram. filas de mesas à direita, uma à esquerda um papel A4 branco horizontal com À direita, um hall de paredes laranja e um espaço mais amplo na frente e uma seta para a esquerda, colado na conduz ao elevador e às escadas de atrás, também com mesas, mas em um parede entre o banheiro destinado mármore branco. Este evento, que já nível elevado. As mesas são quadradas de aos homens e destinado às mulheres, tem cinco anos de existência, começou madeira com quatro cadeiras cada uma indica a divisão genérica dos banheiros em uma festa de aniversário. Mary, a e estão colocadas em pares de forma que é mantida sem controvérsias pelas perpendicular à pista. Somente a fileira pessoas que freqüentam o lugar. Os organizadora, decidiu comemorar seu A arquitetura do desejo: gramáticas espaciais e socializações lésbicas • 5
  8. 8. S E X U A L I D A D E S banheiros estão sempre limpos, com sentadas sozinhas. A conformação idéia de ter uma festa desse tipo papel higiênico em cada cubículo das mesas pode variar de um casal periodicamente. Deste modo, e papel toalha e sabonete nas pias ou duas amigas a grupos de seis ou uma mudança ocasionada por seu que são periodicamente secadas pelo oito pessoas, juntando duas mesas. aniversário não precisou de mais pessoal de limpeza; a luz branca e As estéticas também são variadas explicações. Entretanto, as outras forte permanente talvez colabore a e estruturam um leque que vai do duas foram acompanhadas de “manter a ordem” do seu uso. feminino ao masculino com várias explicações econômicas: o ingresso nuances no caminho. para o bar era de R$10,00, em “Manter a ordem” não faz só A música escutada costuma se lugar dos R$ 15,00 ou R$ 18,00 do referência ao fato de não aparecer dividir em blocos: a noite começa salão, a cerveja é de garrafa e está como um espaço de encontro ou com boleros e música melódica, passa quase ao mesmo preço que a lata pegação10, mas também ao que para pagode, forró, samba, música no salão (entre R$3,00 e R$ 4,00). Beatriz Preciado denomina como das décadas setenta e oitenta, tanto Por sua vez, as festas no bar têm “cabines de vigilância de gênero”: nacional quanto internacional, música um ingrediente diferente: música No século XX, os banheiros pop dos anos 90, MPB (música ao vivo, já que se intercalam o DJ se convertem em verdadeiras popular brasileira) e novamente para com a própria Mary que toca o células públicas de inspeção onde encerrar, forró e bolero. A seqüência violão e canta sambas e algumas avaliar a adequação de cada musical é praticamente igual em cada músicas da MPB. A primeira corpo em relação aos códigos da baile, com pouquíssimas variações festa, aniversário da Mary, foi masculinidade e da feminidade dentro de cada um desses blocos, um sucesso de público, mas nas vigente. Na porta de cada embora sempre conservando a ordem seguintes o público voltou a cabine e como signo único da deles, sobretudo o momento do bloco minguar com ausências notáveis central, formado por músicas remix de freqüentadores assíduos. interpelação do gênero: masculino dos anos setenta (tais como “YMCA”, Por esta razão Mary mudou de ou feminino, H ou M, Cavalheiro “I Will Survive”, “I Am What I Am”, opinião e voltou para o local ou Dama, mocassim ou salto “Aleluhia” e “Macho Man”. Esse anterior. O público participante alto, bigode ou florzinha... Ir momento é o clímax da noite. aumentou novamente, tendo ao banheiro mais para refazer voltado a cair no final do ano de o gênero do que para se desfazer 2007. Com as reiteradas lamúrias da urina ou da merda. Os signos Variáveis de câmbio: da Mary no microfone em relação de interpelação na porta não o bar do Luiz à “infidelidade” da freguesia, o perguntam se vamos cagar ou público aumentou novamente nas mijar; eles não estão interessados Quase um ano depois festas seguintes de 2008. na cor ou no tamanho da merda. de iniciado o trabalho de campo, É só o gênero que conta o público que freqüentava os bailes Minha primeira visita ao bar se (Preciado 2004: 67). no salão começou a diminuir. deu por um acaso. Tinha errado o Preocupada com a pouca afluência, local do baile e, em vez de subir O público participante do Mary decidiu tentar uma mudança até o salão, entrei no bar que, neste baile é formado basicamente por de estratégia mais radical nos bailes: momento, tinha um karaokê. mulheres de uma faixa etária que trocá-los de sexta para sábado e Como o público do bar estava vai dos 35 aos 70 anos, alguns do salão para o bar do segundo formado por mulheres de uma homens, e algumas mulheres andar onde ela toca violão aos média de 45 anos, durante um mais jovens11. Pressupondo um domingos. As festas de maio, bom tempo continuei pensando “clássico” baile gls, eu esperava setembro e outubro de 2007 foram que esse fosse, efetivamente, o encontrar (como quase sempre no bar. Houve justificativas para baile. Passei quase uma hora acontece) muito “G” e nada essa mudança: a primeira festa no ouvindo as freguesas cantar e de “L”. Percepção errada, pois bar foi o dia do seu aniversário, comecei a desconfiar se realmente nas festas com maior afluência em fins de maio. É importante era a festa que estava procurando, de público contabilizei umas lembrar que as festas começaram há porque na verdade a quantidade trezentas mulheres e escassos cinco anos quando ela comemorou de gente era bem menor do que quatro ou cinco homens. seu aniversário no clube e as as minhas amigas tinham falado. Geralmente, não há pessoas amigas se entusiasmaram com a Perguntei ao garçom se esses eram 6 • Number 4
  9. 9. os bailes da Mary, ele riu e me disse por mês, momento em que o espaço churrascos no Méier), e tudo “com que tinha errado o andar, e que a causa é utilizado para tal fim. Poderia dizer total privacidade”. Os bailes da Mary da minha confusão poderia se dever ao que este lugar, comportando-se como pertencem a esta rede de festas e de fato de que o público do bar era o mesmo espaço lésbico, é um híbrido em relação encontros cuja circulação é restrita do salão, já que aos domingos a Mary à divisão entre público e privado. e semi-privada, à qual só é possível acostumava tocar violão nesse lugar12. Mesmo se pensado como público, acessar através de conhecid@s. o local resguarda a privacidade de Os eventos lúdicos que mencionei O bar do Luiz, nome do certas práticas que fora desse contexto anteriormente são pontos nodais e, administrador, tem uma estrutura adquirem um caráter abjeto, mas em certo sentido, tangenciais, cujo retangular que, se descontado o espaço que dentro são centrais na dinâmica referencial maior é a pessoa que que ocupa o balcão, fica como um social. É um espaço público que uma os organiza que sempre pertence L invertido: na parte mais curta – vez por mês contém e resguarda a à rede e geralmente é membro porém mais larga – está o ingresso, privacidade da alteridade, espaço no antigo, o que lhe outorga certa uma área vazia e um pequeno palco autoridade, legitimando a onde a Mary canta, o DJ executa sua qual as manifestações de afeto entre música e também, nos demais dias, proposta. Esta modalidade cria duas pessoas do mesmo sexo estão abriga o karaokê. As dimensões do uma trama de contatos que tem protegidas dos olhares dos outros, lugar são reduzidas: se comparadas às uma característica importante: a os heteros. Tais espaços podem ser do salão, diria que a proporção deve referencialidade. Como mencionado considerados como homonormados, ser de 4x1. Diferentemente do salão, anteriormente, as pessoas entram onde a heterosexualidade perde seu a iluminação é forte e mesmo com na rede por indicação de alguém lugar normativo, pelo menos no umas luzes improvisadas na parte que que as introduz e serve de aval e que respeita à escolha da parceira. funciona como pista, a exposição das referência para o grupo. Deste modo, Os bailes da Mary apagam sua pessoas que dançam é maior (e as que volto a uma das características das particularidade gls para qualquer não, também). O resto está cheio de heterotopias foucaultianas (1994): pessoa que não esteja “por dentro” mesas quadradas de madeira e cadeiras supõem um sistema de abertura da situação, que não pertença à e digo cheio porque a quantidade é tal e encerramento que ao mesmo rede através da qual se pode acessar tempo as isola e as faz permeáveis. que às vezes fica difícil se movimentar os bailes. Quando falo em “acesso”, Elas constroem um diferencial entre elas13. As mesas que têm mais esclareço seu duplo significado espacial em relação aos outros espaços que espaço umas entre as outras são as que e simbólico: para poder chegar até desestabiliza as referências espaciais em estão no braço curto do L, em frente à pista e as localizadas no vértice do salão. o salão do terceiro andar do Clube torno das práticas sociais e discursivas Estas, aliás, dão de cara à pista e são as mais Olímpico é necessário ter acesso a que se sucedem dentro do recinto próximas ao palco onde Mary canta, e, uma rede que informe as coordenadas com respeito àquelas que os mesmos portanto, as mais solicitadas e disputadas do baile. Não existem restrições na sujeitos estabelecem fora. pelas freguesas. Assim como no salão, os entrada, quer dizer, qualquer pessoa banheiros ficam fora do recinto, desta vez que gostar pode ingressar no salão antes da porta de entrada, e contam com e participar da festa; entretanto, Reservando as as mesmas características de iluminação, para saber da existência do evento mesas limpeza e “ordem” que os do salão. é necessário conhecer alguém que faça parte de uma rede maior de Quando telefono à Mary para conhecimentos. Uma vez informada, lhe avisar que já fizera o depósito do O ovo ou a a pessoa tem outro tipo de vantagens: valor do ingresso ela me pergunta se g a l i n h a : redes de adquirir o ingresso antecipadamente quero que guarde uma mesa para mim socialização - e com desconto, portanto - através ou se prefiro estar em alguma com de um depósito na conta bancária da as freqüentadoras que acostumo me Uma variável a ser considerada Mary, reservar uma mesa ou entrar sentar. Pergunto para ela se as pessoas na análise é a especificidade do no circuito das festas anunciadas pedem uma mesa em particular ou espaço descrito. Os bailes da Mary durante o baile e nos e-mails que ela se ela vai reservando qualquer uma. são realizados no salão de um clube de envia para sua mala direta (outros Mary me conta que as freguesas mais bairro auto-definido como familiar, encontros tais como “arraiás GLS em antigas “já têm suas mesas”; então, ela que ganha o rótulo de gls uma vez Saquarema”, “festa de halloween”, conserva essas preferências. A arquitetura do desejo: gramáticas espaciais e socializações lésbicas • 7
  10. 10. S E X U A L I D A D E S As mesas da primeira fila à completa de maquiagem, e casais certas hierarquias e divisões entre direita são as mais solicitadas pelas cuja expressão de gênero reproduz os grupos que às vezes podem ser freguesas mais antigas, aquelas que o par masculino-feminino. hostis ou segregacionistas e outras começaram a freqüentar os bailes Por sua vez o grupo “C” está acarretam uma divisão de interesses por serem amigas da Mary (Figura conformado por mulheres mais que supõem uma invisibilidade de 1). É nessa fila no meio e em frente jovens (entre 30 e 45 anos), grupos entre si ou, pelo contrário, à pista que está a mesa da Mary, que adotam uma estética que a visibilidade da diferença que fácil de distinguir pela onipresente podemos denominar como continua na pista. Usando a divisão garrafa de whisky Johnny Walker “unissex”: calça jeans, camisas de Elias e Scotson (2000) entre Red Label. Nessa mesa sentam-se as ou camisetas baby-look com estabelecidos e outsiders, posso dizer sobrinhas dela quando vão, algumas inscrições, pouco ou nada de que o grupo “A” se comporta como amigas mais íntimas e Nora (a caixa) maquiagem e com cabelos às o núcleo sendo, alternadamente, o depois que termina seus afazeres vezes curtos, às vezes compridos. “E” e o “B” os outsiders. O grupo “A” ou em alguns momentos que sai Finalmente, o grupo “E” está estabelece critérios estéticos e define para dançar, deixando o caixa em formado por clientes mais novas aspectos morais dominantes no mãos de alguém de confiança. Às com diferentes idades e estéticas lugar como fidelidade, feminidade, vezes, Mary não tem mesa, então que não pertencem ainda a cortesia, educação e moderação: no guarda o whisky do lado do DJ. algum grupo dos mais antigos. consumo de bebidas, nos modos de A distribuição das mesas marca Existem duas conformações dançar, na paquera (“ficar dando um diferencial relacionado com a espaço-grupais mais o “D”, dos em cima de todo mundo”, contrário idade, a antiguidade no lugar e a homens, e o que denominei como a “dançar com todo mundo, mas estética que compõem a geografia “X” por ser um espaço um pouco não se meter com ninguém” e do lugar. Podemos contabilizar “coringa” ocupado em diversas nas vestimentas decorosas ou seis grandes grupos em relação a indecorosas). Longe da pista e mais ocasiões pelos diferentes grupos. estas variáveis. O grupo “A” está perto da porta da entrada funciona Essas duas formações são ecléticas constituído por mulheres mais como uma espécie de margem; perto e, portanto, não guardam um velhas de uma faixa etária entre 45 da pista e longe da porta da entrada, correlato tão forte com as outras e 70 anos, com uma estética que como centro, em uma metáfora na hora da análise. poderia se considerar feminina: saia espacial da rede de mulheres que Como é possível observar na freqüenta os bailes. até o joelho ou calça formal, blusa, figura 1, o grupo que denominei meias de nylon, sapatos de salto As posições dentro do lugar, por “A” fica no extremo contrário do (embora não muito alto), agasalho sua vez, também guardam relação grupo “E”, em frente ao grupo “B” de lã com botões nacarados, unhas com a economia de sedução que se e em frente e ao lado do grupo curtas – porém, cuidadosamente desenha no salão. Sentar perto da “C”. Esta configuração explicita pista permite olhar e ser olhada, é o feitas e pintadas –, óculos de grau, cabelo curto pintado e maquiagem, Figura 1 e casais cuja expressão de gênero reproduz a estética feminina que acabo de descrever. O grupo “B” também está composto por mulheres da mesma faixa etária, mas dessa vez com uma estética que pode ser chamada de masculina: calça social de homem preta, cinto de couro com fivela de metal estilo “rodeio”, colete ou paletó no mesmo tom, camisa branca e sapatos de homem, acompanhadas de cabelo curto grisalho, unhas curtas sem pintar e a ausência 8 • Number 4
  11. 11. lugar de maior exposição, não requer pessoas ocupam vai mudando na sedimenta a maneira pela qual elas maior distanciamento das mesas na medida em que se aproximam dos se fazem óbvias ... O efeito disso hora de dançar e tem a vantagem de grupos mais antigos já conformados, naquelas que não podem, ou não ter os pertences perto - basicamente mudando assim seu status para querem, ser ordenadas significa a bebida que não é levada para a dentro da rede. Deste modo, o que estão presas nas diferenças e pista, mas consumida nas mesas. grupo “E” não possui características sutilmente excluídas da produção da Sentar contra a parede é ficar fora específicas no tocante à idade, estilo embodificação da identidade lésbica”. do foco, porém com a possibilidade de vestimenta ou expressão de Esta distribuição e classificação de observar a ação a partir de um gênero, já que o que une as pessoas continuam no bar do Luiz onde a terreno tangencial sem ser olhada o que o conformam é simplesmente lógica permanece a mesma, mas, por tempo todo, com as costas sob controle, o fato de serem novas no lugar. causa das características físicas do poderíamos dizer. As pessoas que estão Existem vozes múltiplas, mas sua lugar, inverte-se a ordem em relação nesta posição precisam se deslocar participação no espaço é hierárquica, à porta de entrada. Como relatei para chegar à pista, o que tem como vantagem poder analisar a situação no representando as desigualdades anteriormente, a estrutura do bar em caminho e cruzar olhares com quem relativas às moralidades hegemônicas forma de L obriga a improvisar a pista está sentada à frente e que pode ser seu do lugar. Segundo as palavras de na entrada do recinto e colocar um objeto de interesse. Butler (2003: 39), os corpos que excesso de mesas no espaço restante. materializam a norma são aqueles Aliás, o palco que fica no vértice do L Na economia da sedução que se constrói nos bailes, o grupo “A” que alcançam a categoria de corpos perto da pista é o espaço central, uma está no centro, porém com uma que importam, mas precisam vez que as mesas por perto são as mais atitude mais passiva, enquanto que daqueles outros que não conseguem solicitadas. Portanto, os grupos “A” e os grupo “B” e “E” estão nas margens materializar a norma como apoio “C” ocupam estas mesas em frente à e com uma atitude mais ativa, mais exterior ou “fronteira”, marca do pista e aquelas ao lado do palco. Os proposital, que parte do fato de ter excluído e não legitimado, corpos grupos “B” e “E” ficam com as mesas que tomar a atitude de ir para um que não importam ou não “pesam”14. restantes. Esta distribuição faz com lugar onde as outras já estão. Entre Assim, a localização dos diferentes que as pessoas que não reservaram estes grupos, então, existe uma relação corpos dentro do recinto estabelece mesa tenham que atravessar o recinto complementar que, de uma maneira pautas sobre aqueles que são centrais e para sentarem-se no final, de onde gestáltica, compõe a trama espacial aqueles que são periféricos em relação não conseguem ver o que acontece agindo como figura e fundo, pontos de aos critérios de subjetivação que na pista e vice-versa, provocando luz e de opacidade no lugar. imperam e importam no lugar. uma exclusão das pessoas que ficam No entanto, o grupo “C” acopla- Como disse antes, a estética nas mesas dos fundos. A distribuição se aos critérios do grupo “A” e guarda constitui um critério de seleção na dificulta também a circulação e, com uma atitude semelhante quanto aos hora de sedução ou, nas palavras de isso, a possibilidade do intercâmbio usos e formas de apropriação do Bourdieu (1988: 48), um princípio de olhares e o reconhecimento do de pertinência que estrutura um estilo “material”, ou seja, as possíveis espaço, sendo em algum ponto par de como modo de representação que, paqueras. Outra situação que esta “A”. Contudo, no que diz respeito à por sua vez, expressa o modo de espacialidade gera é o isolamento economia da sedução, estruturando-se percepção e de pensamento próprio dos grupos; mesmo estando a uma para dentro e não para fora do grupo, de um grupo particular. Não só é distância muito próxima - ou talvez estas mulheres dirigem seus olhares necessário reconhecer ou decodificar pelo fato da mesma ser muito para si, ou esporadicamente, para o um estilo, como também investi-lo, pequena - os grupos que podem estar grupo “E”, ou seja, para aquelas novas embodificando15 as marcas que esse formados por mais de uma mesa participantes que permanecem na interagem para dentro do mesmo e liminar tanto do salão, como do jogo código “significa”. Não estar investida não entre os grupos, o que é flagrante de sedução, estando sujeitas à análise dessas marcas tem como correlato a com o tipo de iluminação do lugar. das demais participantes do baile. invisibilidade das mulheres. De acordo Nas palavras de Hall16 (1977), Neste sentido, é necessário com as palavras de Rooke (2007: poderia se dizer que a diminuição da deixar claro que, por sua 264): “a visibilidade de certos tipos de distância entre os grupos pode ser liminaridade, o espaço que estas identidades lésbicas contemporâneas A arquitetura do desejo: gramáticas espaciais e socializações lésbicas • 9
  12. 12. S E X U A L I D A D E S considerada como a passagem não “grandes e velhas amigas”) no interior de um conjunto de intencionada da “distância social” justamente pela distribuição das relações que definem emplacements para uma outra esfera mais íntima, mesas e o tamanho do lugar. irredutíveis uns aos outros e o que implica na perda de certa Estas pessoas normalmente com uma impossibilidade de liberdade na interação entre grupos, têm sua mesa reservada no salão, superposição. [...] Poderíamos, prevalecendo assim a preferência portanto poderiam ter pedido sem dúvida, começar a descrição para agir intra-grupo. Quando as uma em especial para a Mary, desses diferentes emplacements, na pessoas são impelidas a ficarem a mas, ainda assim, desistiram. procura do conjunto de relações uma distância pouco confortável Uma variável de explicação através do qual defini-lo”. Dentre ou indesejada, a tendência, talvez seja que esta mudança da estes espaços, ele distingue um segundo Hall, é de se afastar para distribuição espacial do estar no modelo que tem a propriedade reacomodar o corpo dentro do baile acompanha uma tensão entre de “estar relacionado com todos próprio espaço. Se não for possível os indivíduos e as experiências que os outros emplacements, mas de se deslocar, existem outros modos estes têm do espaço que habitam modo tal a suspender, neutralizar de estabelecer essa distância. (Rodman 1992). Mudar de espaço ou inverter o conjunto de relações No caso do Bar do Luiz, (do salão para o bar) implica por eles designadas, refletidas ou esse ato implica em não redefinir os modos de estar-no- reflexionadas” (755). Por sua vez, cruzar olhares, dar as costas baile, reconfigurar a demarcação esta modelização divide-se em e se fechar dentro do próprio espacial e com isso a estrutura três tipos : utopias, heterotopias grupo, construir uma espécie de gestáltica onde figura e fundo e espelhos. As utopias são espaços “carapaça” com os corpos das equivalem a centro e margem. essencialmente irreais, quer integrantes, como se estivessem Enfim, reconceitualizar as posições dizer, emplacements sem um criando com as bolhas pessoais hierárquicas dos usos do espaço. lugar real, mas que mantêm uma uma bolha grupal, fronteira e relação de analogia inversa ou limite com as outras pessoas do A multiplicidade direta com os espaços reais da lugar. Esta situação, por um sociedade. As heterotopias, por lado, reforça a desigualdade, sua parte, são emplacements reais já que as pessoas novas ficam Uma das particularidades e efetivamente localizáveis, mas ao fundo do salão e, como já fundamentais das casas de que cumprem uma função de mencionado, nas margens da divertimento noturno orientadas “contre-emplacements”, uma sorte de rede de socialização e, por para o denominado público gls utopias efetivamente realizadas que outro, dificulta a ampliação é o fato de acolher pessoas de representam, contestam e invertem da rede devido a tendência diferentes camadas sociais, idades, os lugares comuns da sociedade. das pessoas a ficarem dentro cores e estéticas cuja característica Finalmente, entre as utopias e do grupo. Ambas as situações de comunhão inicial é a orientação as heterotopias configuram-se os desestimularam o público, sexual. Em um mesmo recinto espelhos, uma espécie de experiência que começou a minguar convergem corpos que imprimem mista: utopia – desde que é um rapidamente, e motivaram diferentes performances de gênero. lugar sem lugar que permite Mary a voltar para o salão. Esta heterogeneidade reflete-se enxergar os espaços de ausência e A respeito disso devo dizer que também na arquitetura dos lugares invisibilidade – e heterotopia – na nos três bailes realizados no bar e se explicita nas apropriações medida em que o espelho é real houve ausências importantes, territoriais que @s freqüentador@s e me devolve a imagem do lugar basicamente das freguesas mais fazem deles. que ocupo e também aquela do antigas e com uma performance Na conferência Des espaces lugar que não ocupo mostrando de gênero mais masculinizada, autres, Michel Foucault (1994) a ausência do meu reflexo (756). das caracterizadas dentro do considera que estamos em Metaforicamente, estes três tipos de grupo “A” que propositalmente uma época na qual o espaço se espaços podem ser utilizados para decidiram não comparecer apresenta na forma de relações categorizar as relações, os grupos e (nem sequer no aniversário da de emplacement17: “Vivemos os lugares do trabalho de campo. Mary da qual se consideram 10 • Number 4
  13. 13. Acredito que os recintos conversas com as freqüentadoras, nível econômico, cor e atributos onde se desenvolvem os bailes da a cor ou a raça não apareceram de gênero, a maior indiferença diz Mary podem ser caracterizados como marcadores de preferências, respeito a cor – 75,2% se disseram como heterotópicos. Os espaços nem como carga pejorativa ou de indiferentes” (Facchini 2008: 236). heterotópicos, diz Foucault, estão rejeição na hora de depositar o Neste mesmo sentido apontam os presentes em todas as sociedades olhar na procura de uma possível resultados da sua pesquisa de campo de modos particulares como uma parceira. Perante minha pergunta realizada na cidade de São Paulo onde espécie de contestação mítica e real sobre se já tiveram sexo casual ou “também foi evidente um silêncio em do espaço que habitamos. Assim, companheiras de cor diferente da torno à questão racial” (236). as heterotopias têm entre suas sua, muitas responderam que sim O meio termo do binário e estranharam a minha pergunta. é o foco; a hiperfeminidade ou características o poder de justapor “Branca, preta, azul ou vermelha, hipermasculinidade as pontas do em um só lugar vários espaços que, basta haver química”, “agora que leque ou as fronteiras da abjeção a princípio, poderiam ser pensados você pergunta... eu não acho tão cujo centro é a moderação tanto como incompatíveis entre si. Por importante esse assunto”, foram do masculino como do feminino: sua vez, são lugares que reúnem e algumas das respostas que recebi. acumulam gostos, temporalidades, nem machão nem mulherzinha, Entretanto, dentre aquelas que cavalheiro ou dama. Contudo, épocas diferentes, ganhando uma nunca tiveram a experiência, a “falta não estou dizendo que as variáveis sorte de atemporalidade per se que os de oportunidade” apareceu como a clássicas antes mencionadas não deixa hors du temps. As heterotopias explicação junto com a salvaguarda tenham ingerência nas gramáticas supõem também um sistema de de não ser por preconceito: “ainda das relações internas dos lugares, mas abertura e encerramento que as não fiquei com nenhuma [branca], sim que passam a um segundo plano isola e as faz permeáveis ao mesmo mas não é por preconceito, só não porque é a naturalização dos usos tempo. Aparentemente, são abertas se deu ainda a situação”. Só recebi o que prevalece. A desconstrução para qualquer um, mas guardam, uma resposta com um viés pejorativo desses usos é, portanto, a tarefa a escondem e excluem. Finalmente, cuja explicação se remetia a uma enfrentar para desvendar os pontos elas constroem um diferencial com questão “estética”: “uma vez conheci comuns entre @s freqüentador@s os outros espaços que desestabiliza uma morena linda, gente finíssima, dos lugares, já que, em palavras as relações espaciais em torno das simpática, de bom papo. Dançamos de Halberstam (2005: 8) é preciso práticas sociais e discursivas. a noite toda, nos beijamos, mas eu desnaturalizar os usos do espaço e o Como disse anteriormente, não consegui passar disso... eu não tempo que escurecem as construções pensar em uma boate gls é sei por quê; até agora me cobro, era das práticas espaciais. Esses usos, por pensar em um universo de minha pele tão branca sobre a dela... sua vez, serão um ponto de luz sobre entrecruzamentos múltiplos de não combinavam... nesse momento as práticas que compõem a trama de pessoas que, aparentemente só não consegui fazer mais nada, mas relações das socializações lésbicas. têm como característica comum acho que deveria ter continuado, As noites no Olímpico podem o fato de gostar de pessoas do realmente me arrependo”. ser consideradas, como a ponte na mesmo sexo18. Essa característica A este respeito, Facchini (2008) Zululândia19, uma situação social, isto faz com que outras marcas como faz referência à pesquisa quantitativa é um evento onde o encontro é o fator a classe e, sobretudo, a cor fiquem realizada na Parada do Orgulho central que une um grupo com um subsumidas na hora de interagir GLBT do Rio de Janeiro (Carrara e interesse comum que se constitui em dentro destes espaços, perdendo o Ramos 2005), onde “as mulheres que uma fonte de satisfação para todas as destaque que podem ter fora para se identificaram a partir de categorias pessoas presentes: o divertimento e a ser deslocadas pelas marcas de idade que remetem à homossexualidade, sedução (Gluckman 1987: 260). Esta e estética que se constituem à luz são muito mais flexíveis que os noção cunhada pelo antropólogo inglês do jogo do binário “masculino- homens que se identificam de modo Max Gluckman também permite feminino”. Pude observar casais semelhante no que diz respeito a dessencializar as identidades ao analisar heterocrômicos integrados em características esperadas de possíveis os sujeitos com base nas tomadas de grupos com casais monocrômicos parceiros/as do mesmo sexo. decisões e os interesses e estratégias que de brancas ou negras em todas Perguntadas sobre a preferência por colocam em jogo em circunstâncias as faixas etárias. Aliás, durante as parceiras a partir de idade, instrução, concretas, quer dizer, situar e A arquitetura do desejo: gramáticas espaciais e socializações lésbicas • 11
  14. 14. S E X U A L I D A D E S particularizar as normas e valores que público. Justamente essa alteridade um ponto fixo de fuga desarticula uma aparecem nessas decisões em lugar concepção ordenada, única e universal que se comporta como um nós dentro do espaço, possibilitando novamente a de cristalizá-las como permanentes. de determinados âmbitos socialmente aparição do lugar que, desta vez, traz um Acredito que existem traços que são pode ser lido como a metáfora de novo elemento: a reivindicação política comuns aos âmbitos noturnos de Asterión20: a monstruosidade se do local em relação ao universal como um divertimento gls que ultrapassam modo de dar voz aos grupos alternativos normaliza em espaços particulares, ou minoritários e de construir ciência as fronteiras da divisão social. São mas não deixa de fazer parte da (Haraway 1995). essas semelhanças que tento costurar abjeção e da alteridade fora deles. 4 Em relação aos grupos de ativismo, através da análise espacial do que No sentido inverso, se constitui a sigla utilizada atualmente no Brasil considero ser uma situação social é LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e em normalidade para dentro das transgêneros), “politicamente correta” já particular. fronteiras físicas desses âmbitos que inclui outras minorias além dos gays O geógrafo Denis Cosgrove públicos ao tempo que privados; e lésbicas, consideradas pelo ativismo (1989) considera que os espaços internacional como parte da causa pela heterotópicamente outros. defesa do reconhecimento dos direitos geográficos contêm um significado das diferenças sexuais. Na I Conferência simbólico, produto da apropriação Nacional LGBT, realizada em Brasília É verdade que não saio de minha que os sujeitos fazem deles. A partir em junho de 2008, a sigla tomou esta casa, mas também é verdade ordem, mudando de GLBT para LGBT, desta noção, propõe dois tipos de que suas portas (cujo número atendendo uma antiga demanda das paisagens geográficas – dominantes e é infinito) estão abertas dia e agrupações de lésbicas para visibilizar alternativas – que podem contribuir sua luta. A sigla gls é utilizada no Brasil para a presente análise. A paisagem noite aos homens e também aos para identificar lugares específicos de dominante projeta e comunica uma animais. Que entre quem quiser. socialização de Gays e Lésbicas; a letra imagem de seu mundo consoante Não encontrará aqui pompas S corresponde a “Simpatizantes”, como femininas nem o bizarro aparato um modo de expressar a abertura a com sua própria experiência que pessoas que não praticando atividades aparece como “reflexo verdadeiro dos palácios, mas sim a quietude homoeróticas, freqüentam aqueles da realidade de todos” (128). A e a solidão. Assim, encontrará espaços. Esta sigla também é utilizada paisagem alternativa é menos uma casa como não há outra na pelos gays e lésbicas como modo de face da Terra. autodefinição, portanto se configura aqui visível, às vezes imperceptível, mas como categoria nativa. carregada de signos para os grupos (Borges 1994: 569). n 5 Os bailes só acontecem na primeira que a constituem. Os bailes da Mary sexta-feira de cada mês. Em havendo alguma mudança na data, Mary, a se apagam por completo nas ruas organizadora do baile, avisa no final da de Copacabana, até no clube, aliás, festa anterior e/ou por email. 6 e só fazem sentido para as pessoas 1 Este análise baseia-se no trabalho de Expressão que alude ao filme campo feito no Clube Olímpico entre americano Cocoon no qual um grupo que chegam até a porta do salão e se de idosos moradores de um asilo para a agosto de 2006 e maio de 2008 que reconhecem nas marcas estéticas das terceira idade descobre que, na piscina faz parte da etnografia para minha tese pessoas que estão comprando de doutorado no Programa de Pós- de uma casa das redondezas, existem uns a entrada. Graduação em Antropologia Social casulos extraterrestres com propriedades do Museu Nacional da Universidade revigorantes. A partir das visitas na O “outro” social transforma-se Federal de Rio de Janeiro (PPGAS/ piscina, eles voltam a dançar como se dentro do salão em “nós”, passando MN/UFRJ). Utilizarei o formato de fossem jovens de vinte anos. Como a itálico para termos e categorias nativas, média de idade das pessoas que assistem a alteridade para os heterossexuais. aos bailes da Mary é de 45 a 60 anos, palavras em outra lingua e para ressaltar Poderia dizer que os bailes da Mary quem me falou deste lugar usou essa o uso de algum termo. enquanto que espaço considerado 2 Para Blázquez (2004: 299) os usos que os expressão para fazer referência à idade gls são reservatórios da alteridade, participantes dos bailes de Cuarteto fazem das freqüentadoras. No entanto, tal do espaço “cumprem funções discursivas forma de referir-se aos bailes jamais foi espaço onde é possível vivenciar utilizada por suas freqüentadoras, seja fundamentais quando: indicam o tipo de a diferença como centro e não relação social, a experiência genérica dos como um auto-referencial, seja como como margem. Contudo, não são participantes e o nível de intimidade dos uma maneira depreciativa de se referir a sujeitos; oferecem pistas significativas algum grupo do lugar. lugares”democráticos”. Como analisei 7 Segundo dados do censo do ano 2000 acerca da atitude pessoal e da intenção anteriormente, a construção do outro comunicativa dos participantes; indicam a do IBGE, a população de Copacabana e se desloca para o interior do grupo posição do sujeito na hierarquia social”. Leme é de 161.168 habitantes. 8 A palavra entendida – ou entendido no total e constitui também fronteiras 3 No século XX, o desfecho do modelo caso dos homens – é usada como auto- entre os grupos que conformam o newtoniano na física e da perspectiva com denominação e auto-referencial entre 12 • Number 4
  15. 15. pessoas homossexuais e baseia-se no “reconhecimento dado por um força. A posição em que as pessoas se situam uma em relação à experiêncial compartilhado” (Lacombe 2006: 55). Este entendimento outra indica sua relação e como se sentem entre si; 3.) distância supõe, por sua vez, fazer parte de: “a perícia em reconhecer uma social: a diferença com a pessoal é que os indivíduos ficam fora entendida deriva da perícia em ser entendida colocando, seguindo do alcance da mão, quer dizer fora da possibilidade de dominação a Joan Scott (2000), a experiência como prova de conhecimento” física. O contato físico não é esperado nem procurado, sendo a (Lacombe 2006: 56). Entender se transforma em um modo de visão a encarregada de estabelecer o contato inicial seguida da cumplicidade, de compartilhar um segredo que, apesar de público, voz. É a distância da negociação e do isolamento em espaços onde não implica a ausência de intimidade. convivem vários indivíduos, como um escritório de trabalho, 9 É importante observar que para adquirir o ingresso antecipadamente por exemplo; 4.) distância pública, situada fora do círculo de é preciso fazer parte da rede de contatos da Mary, quer dizer recebendo envolvimento social; perdem-se os matizes de significação o e-mail de convite à festa onde aparecem os dados bancários para transmitidos pela voz normal, os detalhes da expressão facial e do fazer o depósito do valor da entrada, conhecer pessoas que já façam movimento, quer dizer parte da comunicação não verbal se desmancha parte desta rede e passem as dicas ou ter ido pelo menos uma vez e dificultando-se um compreensão mas cabal, basicamente dos gestos escutar quando o DJ anuncia a data da próxima festa e os preços e do rosto que precisam do corpo todo para exprimir as idéias. A para receber o convite da festa seguinte onde figura o telefone da importância de analisar estas distâncias reside em que as mudanças Mary. Logo voltarei a abordar esse assunto. espaciais comportam nuances na comunicação interpessoal que, por 10 Pegar é um termo usado na gíria carioca para se referir à ação sua vez, são reveladoras das intenções mútuas dos indivíduos. de aproximação de uma pessoa à outra com intenções sexuais. A 17 Decidi usar a palavra no original que, segundo o dicionário pegação, quer dizer a mis en scéne, faz alusão direta à procura de Trésor de língua francesa, significa: lugar escolhido especialmente um/a parceir@ sexual e à sua posterior consumação. para aí construir ou fazer alguma coisa em particular (Endroit choisi 11 A presença de homens não é fixa e quando aparecem não passam spécialement pour y construire ou plus généralement pour y faire de quatro ou cinco. Geralmente, são casais que fazem parte de quelque chose). Por extensão, lugar efetivamente ocupado por uma algum grupo de mulheres freqüentadoras do baile. Todos os que vi construção, uma coisa ou um conjunto de coisas. (Place effectivement durante meu trabalho de campo eram aparentemente gays. occupée par une construction, une chose, dans un ensemble). (http:// 12 Quando comecei a freqüentar os bailes, Mary me convidou para www.cnrtl.fr/definition/emplacement). Por sua vez, em espanhol que ir algum domingo, mas nunca fui e pouco tempo depois ela parou é a minha língua materna, a tradução seria emplazamiento com o de tocar nesses dias. mesmo significado do que o francês: Acción de emplazar (poner). 13 Contabilizei umas 90 mulheres em média, quantidade inferior Colocación, situación. Sitio donde está emplazado algo (María à do salão, mas suficiente para lotar o bar devido à diferença nas Moliner, diccionario de usos del español, edición electrónica). dimensões de ambos os espaços. 18 Não estou colocando dentro desta categoria as travestis ou transgêneros. 14 O título original do livro em inglês é Bodies that matter que 19 Na análise que o antropólogo Max Gluckman faz sobre a situação constrói um trocadilho entre “corpos que importam” e “corpos política da Zululândia, a inauguração de uma ponte é o evento que ele que pesam”, isto é, corpos que adquirem sua materialidade utiliza para descrever a interação social e política entre os diferentes incorporando as normas que os substancializam e subjetivam em atores que constituem o campo de poder no lugar. Desse modo, a detrimento daqueles que permanecem nas bordas da subjetivação partir de uma situação micro o autor consegue dar conta de uma e em tanto que abjetos não conseguem essa materialização que estrutura maior. importa na hora de se construir como sujeito. Infelizmente, este 20 Em referência ao conto de Jorge Luis Borges “La Casa de Asterión”. jogo de palavras perde-se nas traduções. 15 Utilizo este neologismo derivado do termo inglês embodiment – em contrapartida à palavra equivalente em português “encarnar” – pela carga de significado que possui em relação à importância do corpo como lugar através do qual habitamos o mundo. Devo Bibliografía também esclarecer que, reconhecendo a autoridade de Csordas (2002) sobre o paradigma do embodiment, minha interpretação do Aguião, Silvia. 2007. “Aqui nem todo mundo é igual”: termo aproxima-se da visão de Ingold (2000) que não prioriza Cor, mestiçagem e homossexualidades numa favela do Rio uma noção cultural sobre outra natural do corpo, mas reconhece de Janeiro. Dissertação de Mestrado em Saúde Coletiva. seu caráter biológico. Assim, e seguindo Bateson (1972), Ingold supõe o embodiment como um modo relacional de pensar o corpo, IMS/UERJ. Rio de Janeiro. no qual o sujeito adquire (embodifica) as habilidades que utilizará para socializar (habitar o mundo). A partir deste ponto de vista, Almeida, Glaucia. 2005. Da invisibilidade à o embodiment permite continuar uma lógica de pensamento que vulnerabilidade: Percurso do “corpo lésbico” na cena perpassa o grande divisor entre Natureza e Cultura, atuando como brasileira face à possibilidade da infecção por DST e Aids. uma ponte entre ambos. Tese de Doutorado em Saúde Coletiva. IMS/UERJ. 16 Em A dimensão oculta (1977) Edward T. Hall distingue quatro tipos ou zonas de distância entre as pessoas que se localizam no que Rio de Janeiro. ele chama de ‘espaço informal’: 1 distância íntima: a presença da outra pessoa é inconfundível. A vista, o olfato, o calor do corpo, o Amster, Mathew. 2008. The social optics of space: som da voz, o cheiro e a respiração da outra pessoa dão sinais claros, Visibility and invisibility in the borderlands of Borneo. os corpos podem estar em contato físico ou quase, sussurrando-se ao Space and Culture. 11: 176-195. ouvido. O sistema visual se distorce e perde o valor semântico que tem nas outras distâncias; 2.) distância pessoal: pode ser pensada como Aquino, Luís Octávio Rodrigues. 1992. As derivas do uma espécie de bolha que protege e separa os corpos, permitindo uma desejo: processos de construção, manutenção e manipulação distinção que os individue. A esta distância as pessoas contam com a possibilidade de se tocar ou não, a visão adquire novamente sua de identidades lésbicas em um conjunto de mulheres A arquitetura do desejo: gramáticas espaciais e socializações lésbicas• 13
  16. 16. S E X U A L I D A D E S em Porto Alegre. Dissertação de Mestrado em Elias, Norbert e John Scotson. 2000. Os estabelecidos e Antropologia Social. IFCHS Instituto de Filosofia os outsiders. Rio de Janeiro: Zahar Editora. Ciências Humanas. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. Facchini, Regina. 2005. Mujeres, homosexualidades y salud: visibilizando demandas y caminos. Boletín Bateson, Gregory. 1972. Form, substance and ciudadaniasexual.org, no. 26. difference. Em Steps to an ecology of mind: Collected essays in anthropology, psychiatry, evolution, and _____. 2008. Entre umas e outras: Mulheres, epistemology, ed. Gregory Bateson, 448-466. New (homo)sexualidades e diferenças na cidade de São York: Ballantine Books. Paulo. Tese de doutorado em Ciências Sociais. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Blázquez, Gustavo. 2004. Coreografias do gênero: UNICAMP. Campinas. Uma etnografia dos bailes de cuarteto. (Córdoba, Argentina). Tese de doutorado em Antropologia Facchini, Regina e Regina M. Barbosa. 2006 Social. PPGAS-MN- UFRJ. Rio de Janeiro. Dossiê saúde das mulheres lésbicas: promoção da equidade e da integralidade. Belo Horizonte: Borges, Jorge Luis. 1994 [1949]. “La casa de Rede Feminista de Saúde. Asterión,” Em Obras completas, 1923-1949, v. 2, 569-570. Buenos Aires: Emecé Ed. Figari, Carlos. 2007. @s Outr@s cariocas. interpelações, experiências e identidades homoeróticas no Rio de Janeiro. Bourdieu, Pierre. 1988. La distinción. Madrid: Século XVII ao XX. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Editorial Taurus. Editora da UFMG/IUERJ. Butler, Judith 2002 [1993]. Cuerpos que importan. Foucault, Michel. 1994. Dits et écrits: 1954-1988, eds. Sobre los límites materiales y discursivos del “sexo.” Daniel Defert e François Ewald, com a colaboração de Buenos Aires: Paidós. Jacques Lagrange. Paris: Gallimard. Fry, Peter e Edward MacRae. 1985. O que é Carrara, Sérgio e Sílvia Ramos. 2005. Política, homossexualidade. São Paulo: Abril Cultural e direitos, violência e homossexualidade: Pesquisa 9ª Editora Brasiliense. parada do orgulho GLBT – Rio 2004. Rio de Janeiro: Centro Latino-americano em Sexualidade e Direitos Gluckman, Max. 1987. Análise de uma situação Humanos-Instituto de Medicina Social; Centro de social na Zululândia Moderna. Em Antropologia Estudos de Segurança e Cidadania. das sociedades contemporâneas: Métodos, ed. Bela Feldman-Bianco, 227-305. São Paulo: Global. Carvalho, Tâmara. 1995. Caminhos do desejo: Uma abordagem antropológica das relações homoeróticas Guimarães, Carmem Dora. 2004. O homossexual visto femininas em Belo Horizonte. Dissertação de Mestrado, por entendidos. Rio de Janeiro: Ed. Garamond. Depto de Antropologia UNICAMP. Campinas. Hall, Edward. 1977. A dimensão oculta. Rio de Cassey, Edward. 1998. The fate of place. Los Angeles: Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora. University of California Press. Halberstam, Judith. 2005. In a queer time and place: Chisolm, David. 2005. Queer constellations: Transgender bodies, subcultural lives. New York: New Subcultural space in the wake of the city. Minneapolis: York University Press. University of Minnesota Press. Haraway, Donna. 1995. Ciencia, cyborgs y mujeres. La Cosgrove, Dennis. 1989. Geography is everywhere: Culture reinvención de la naturaleza. Madrid: Ediciones Cátedra. and symbolism in human geography. Em Horizons in Heilborn, Maria Luiza. 1996. Ser ou estar human geography, eds. Derek Gregory e Rex Walford, homossexual: dilemas de construção da identidade 118-135. London: MacMillan. social. Em Sexualidades brasileiras, eds. Richard Csordas, Thomas J. 2002. Body/Meaning/Healing. Parker e Regina Barbosa, 136-145. Rio de Janeiro: New York: Palgrave Macmillan. Relume Dumará. 14 • Number 4
  17. 17. Ingold, Tim. 2000. “People like us”: The concept of the Scott, Joan W 2000. La experiencia como prueba. anatomically modern human. Em The perception of the environment: Essays on livelihood, dwelling and skill, 373- En Feminismos Literarios, eds. Neus Carbonell e Meri 391. London: Routledge. Torras, 77-112. Buenos Aires: Edelp. Lacombe, Andrea. 2006 “Para hombre ya estoy yo”: Souza, Érica R. 2005. Necessidade de filhos: Maternidade, Masculinidades y socialización lésbica en un bar del centro de família e (homo)sexualidade. Tese de doutorado em Rio de Janeiro. Buenos Aires: Ed. Antropofagia. Ciências Sociais. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, UNICAMP. Campinas. Lemos, Luiz. 2008. Posição social, consumo e espaço urbano: Um estudo sobre a dinâmica sócio-espacial nas áreas nobres do Velho, Gilberto. 1999. Os mundos de Copacabana. Em Rio de Janeiro. Tese de doutorado em Planejamento Urbano e Antropologia urbana: Cultura e sociedade no Brasil e em Portugal, Regional. IPPUR-UFRJ. Rio de Janeiro. ed. Gilberto Velho, 11-23. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Leap, William L. 1999. Introduction. Em Public Sex, _____. 2006. Patrimônio, negociação e conflito. Mana. Gay Space, ed. William Leap, 1-23. New York: Columbia 12(1): 237-248. University Press. Massey, Dorren. 2005. For space. London: Sage. Medeiros, Camila Pinheiro. 2006. Mulheres de Kêto: Etnografia de uma sociedade lésbica na periferia de São Paulo. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós- Graduação em Antropologia Social. Museu Nacional, UFRJ. Rio de Janeiro. Menirz, Nádia Elisa. 2005. Entre mulheres. Estudo etnográfico sobre a constituição da parceria homoerótica feminina em segmentos médios na cidade de Porto Alegre – RS. Dissertação de mestrado. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. UFRGS. Porto Alegre Muniz, Jacqueline. 1992. Mulher com mulher dá jacaré: uma abordagem antropológica da homossexualidade feminina. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós- Graduação em Antropologia Social, Museu Nacional, UFRJ. Rio de Janeiro. Nogueira, Nadia. 2005. Invenções de si em histórias de amor: Lota Macedo Soares e Elizabeth Bishop. Tese de doutorado em História - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, UNICAMP. Campinas. Preciado, Beatriz. 2004. Trashgender. Ordure et genre: Une critique queer de l’architecture de la merde. Trouble(s) – sexualité/politiques/cultures. (2 ): 64-6 Rodman, Margaret. 1992. Empowering place: Multilocality and multivocality. American Anthropologist, New Series. 94(3): 640-656. Rooke, Allison. 2007. Navigating embodied lesbian cultural space: Toward a lesbian habitus. Space and Culture. 10(2): 231-252, A arquitetura do desejo: gramáticas espaciais e socializações lésbicas• 15
  18. 18. The architecture of desire: Spatial grammars of lesbian socializations Andrea Lacombe Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil

×