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#0                                                DEZEMBRO DE 2010ZB E Z O U R O PA R A L E R N O M E T R Ô
BEZOURO #0             01
a             revista Bezouro é uma tentativa de abordar a cultura e a arte              de forma mais ampla,, fugindo ao ...
--------------------------------------------------15_crime e castigo                                         REVISTA BEZOU...
Para além de atrações internacionais, opanorama da produção de shows de rockem São Luís parece estar engatinhando         ...
A DIVULGAÇÃO Fora os tradicionalmente inócuos spots de rádio e TV, a divul-gação se fez majoritariamente boca a boca e pel...
AS BANDAS  A escolha das bandas foi feliz em privilegiar as que militam comtrabalhos autorais. A maioria tem músicas e víd...
fotos divulgaçãozeca   L BA EIRO   Responde por Bala na Agulha _ refle-   xões de buteco, pastéis de memória e   outras fr...
Bezouro: O livro fala sobre “filosofias de buteco”.Como surgiram estes textos? Foram realmente namesa de bar com os amigos...
Bezouro: No seu último álbum, você desfila por canções que vão                                                            ...
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Teatro Documentário       por Anissa Ayala Rocha da Silva Cavalcante e                           Raíssa de Souza Oliveira ...
P   ouco conhecido e estudado no                                   Brasil, o teatro-documentário                          ...
O       utra questão interessante que o teatro-do-                                                                 cumentá...
GOCRIME E    CASTI      inconfidências      por trás da malha-      ção de um judas.              por Ricardo Santos      ...
D             iz a lenda que a Igreja de São João Batista (Rua da Paz) foi erguida (1665) para pagar uma insólita promessa...
IGREJA SÃO JOÃO BATISTA17
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O  ndeEstá a  Pla- téia? OS PARADOXOS DA ILHA QUE  NÃO CULTIVA UMA CULTURA         CINEMATOGRÁFICA                  por Am...
S       ão Luís atravessa um período de crescimento em termos       de exibição de filmes do circuito não-comercial. É mai...
DESTERRO  personagens de um mundo decadente                       por Fábio Sabino                      “Submerso no des- ...
MARIA, A DEVOTA.“Meu filho, nesse mundo, a pessoa tem que ter trêsamigos: Deus, a justiça e a polícia”, foi o que me disse...
»   Era grande a presença de marinheiros, donos de loja, oficiais da polícia    e do exército que se reuniam nos clubes ná...
CREUDECY, A DESTERRADANão há uma definição oficial dos limites entre os bairros da    O tráfico parece ter ocupado o centr...
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Revista Bezouro #0

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"Para ler no metrô". Revista digital de cultura, com desing gráfico arrojado produzida por alunos de Comunicação da UFMA.

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  1. 1. #0 DEZEMBRO DE 2010ZB E Z O U R O PA R A L E R N O M E T R Ô
  2. 2. BEZOURO #0 01
  3. 3. a revista Bezouro é uma tentativa de abordar a cultura e a arte de forma mais ampla,, fugindo ao que se encontra nos manuais de turismo ou que costuma ser referendado pelas fontes oficiais. Trata-se de uma publicação para retratar e interagir com uma São Luís que teima em não se resumir ao oficialismo da cultura popular.A intenção é fazer uma análise crítica da produção cultural local,incluindo tam-bém o contexto social em que ela se insere, falando de arte sem fechar o olhopara o que está além.Esta publicação é resultado de um projeto de extensão do curso de Comunicaçãoda Universidade Federal do Maranhão, habilitação jornalismo e seu conceito é deautoria dos alunos de jornalismo em colaboração com estudantes de outros cur-sos da UFMA. São futuros profissionais que acreditam e apostam em iniciativasinovadoras que fogem à realidade do mercado de revistas maranhenses nestaárea.O número zero trás artes visuais, música, literatura, teatro, cinema, história, alémde uma reportagem revelando o bairro do Desterro, onde o descaso do poderpúblico pelo patrimônio convive com a prostituição.Todas as matérias seguem o critério de privilegiar trabalhos autorais e abor-dagens pouco comuns a respeito do que a cidade vive e respira. A linguagemtambém transita, em alguns casos, pelo jornalismo literário fugindo aos padrõeshabituais que se pratica em São Luís.Destaque para a diagramação e fotografias de Caroline Rêgo, aluna do curso deArtes da UFMA.Em tudo e por todo esse esforço que resultou neste produto final espera-se quea Bezouro assegure sua periodicidade bimestral e se torne um espaço paramuitos outros autores que queiram construir novas formas de se fazer jornalismode revista.O PDF poderá ser baixado no blog da revista (http://revistabezouro.blogspot.com/),incluindo um conteúdo exclusivo. Profa. Dra. Vera Lúcia Rolim Salles 02
  4. 4. --------------------------------------------------15_crime e castigo REVISTA BEZOURO # 0 ..................................................................................................29_poraí.................................................. --------------------___-----------------------------28_quadrinhos :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::20_onde está a platéia?::::::::::::::::::::::::::::: .....................................................................04_mulambo festival................................................ dezembro de 2010 >>>>>>>>>>>>>>>>>12_teatro documentário>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> -----__-----------------____________________07_zeca baleiro http://revistabezouro.blogspot.com ----------------------------------------------10_o ocaso da atenas UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO www.ufma.br 22_ desterro...................................................................................................................... REITOR Natalino Salgado Filho VICE-REITOR Antônio José Silva Oliveira CHEFE DO DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO Francisco Gonçalves COORDENADOR DO CURSO Esnel Fagundes COORDENAÇÃO EDITORIAL Profa. Vera Lúcia Rolim Salles COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO Pablo Habibe Figueiredo EDITOR CHEFE Pablo Habibe Figueiredo CONSELHO EDITORIAL Profa. Vera Lúcia Rolim Salles Pablo Habibe Figueiredo Jonilson Bruzzaca Fábio SabinoCapa: Eduardo Monteiro, baixista da MATÉRIASbanda Pedra Polida, fotografado duran-te o Mulambo Festival, por Amy lorenCaroline Rêgo. Pablo Habibe Leonardo Costa Anissa Ayala Rocha da Silva Cavalcante Raíssa de Souza Oliveira Ricardo Santos Fábio Sabino PROJETO GRÁFICO Caroline Rêgo FOTOGRAFIAS Caroline Rêgo REVISÃO GRÁFICA Jonilson Bruzzaca REVISÃO Profa. Vera Lúcia Rolim Salles Pablo Habibe Figueiredo COLABORADORES Marlon Silva foto baterista da página 06 03
  5. 5. Para além de atrações internacionais, opanorama da produção de shows de rockem São Luís parece estar engatinhando MULAMBOpara fora do amadorismo. O que antes eraum jogo de empurra entre donos de bares FESTIVAL por Pablo Habibee bandas, no que se refere à divulgação eorganização, cede lugar a uma cooperação,ainda que vacilante.De positivo, vemos quesurgiram intermediários interessados noproduto. O modus operandi de bandas ten-tando convencer don show voltadas os de bares e casas de cialmente esta mais para estilos comer- a ceder um e belecidos como o reggae não raro em spaço para seus eventos _ dos “mortos” dias da semana considera- va quanto um_ ainda existe, tão produti- ser, mas divide casamento infeliz pode organizadas. espaço com iniciativas mais Produtores (ba apostado nas b sarone e casanova) que tem ções lucrativas andas locais enquanto atra- trabalho que e têm assumido uma parte do possibilidades stá simplesmente além das não se vive de de músicos diletantes. Ainda rock, mas o ve “de fa xame de tocar vor” j á não é mais uma p risão. 04
  6. 6. A DIVULGAÇÃO Fora os tradicionalmente inócuos spots de rádio e TV, a divul-gação se fez majoritariamente boca a boca e pela internet, ex- plorando canais de comunicação já estabelecidos pelas ban- das _ que, até onde sabemos, sugeriram promover o evento como um festival e ajudaram na venda dos ingressos. Podemos destacar o blog criado pelos grupos locais apenas para o festival (http://mulambofestival.wordpress.com), disponibilizan- do vídeos e entrevistas no meio já consagrado como principal veículo para divulgação de cultura independente em São Luís. O potencial local para a produção de peças publici- tárias poderia ter sido bem melhor aproveitado se acionado com mais antecedência. Fica a dica. O LOCAL O Circo Nelson Brito (“Circo da Cidade”) tem O FESTIVAL vantagens ainda insuperáveis para a realização Foi um processo em construção. O que de eventos de pequeno e médio porte. Trata- deveria ser apenas o show de um grupo se de um local com estacionamento e vizinho pernambucano (Mombojó) transformou-se, ao terminal de integração da Praia Grande, com a adesão de bandas locais, em um festival. Eventos recentes como o tem banheiros passáveis e pode ser esvazia- show de lançamento do CD da Ga- do rapidamente em caso de necessidade. ribaldo e O Resto do Mundo e os A organização escolheu bem, mas a polÍ- números da audiência de bandas cia não se fez presente o suficiente para como Pedra Polida e, principalmente, coibir a ação dos “flanelinhas”, que da Nova Bossa em sites como myspa- continuam transformando todos os mo- ce e youtube indicam que elas mais toristas de São Luís em reféns, inde- ajudaram do que pegaram carona. pendentemente de hora ou local. As bandas, aliás, tomaram a fren- te várias vezes, trazendo auxiliares próprios para iluminação, passagem de som e indicando fornecedores de equipamento, além de se preocupa- rem com o registro em fotos, áudio e vídeo de suas apresentações. 05
  7. 7. AS BANDAS A escolha das bandas foi feliz em privilegiar as que militam comtrabalhos autorais. A maioria tem músicas e vídeos disponíveis na internet e discos em produção, sendo que a Garibaldo lançou o seu primeiro CD recentemente. Vemos com bons olhos não só o fato de esta geração estar aumentando geometricamente a aposta em suas próprias composições, mas também pela quebra da barreira das refe- rências obrigatórias à “cultura popular” (que hoje incluem o reggae). Os grilhões do regionalismo não foram quebrados, simplesmente deixaram de fazer sentido. PEDRA POLIDA Provavelmente a banda mais antiga em formação e tempo de existência no Mulambo. A Pedra, já com quatro anos, está devendo um CD (está quase pronto), mas é uma das que mais ajudaram na formação da cena atual de São Luís. São cronis- O EVENTO tas da cidade e de sua geração soando pop, country e punk. No dia do show, 27 de novembro de 2010, a passagem de Causticamente engraçados normalmente, são suaves quando som, marcada para as 13:00, só começou com três horas querem e sádicos quando retratam nosso contexto. e meia de atraso (afinal, estamos em São Luís). Também GARIBALDO E O RESTO DO MUNDO houve hesitação a respeito de se colocar uma ou duas baterias no palco, visto que o Mombojó iria usar um set Única que já está com o CD na praça. Paulo Henrique (o Garibal- de equipamentos a parte. Ficou só uma. do) fez o disco sozinho com o produtor (Adnon Soares, da CASA- O show em si foi pontual e a Pedra Polida deu os pri- LOUCA) e montou a banda a partir daí. São bons músicos e soam meiros acordes às 20:30 (uma surpresa, afinal, estamos um pouco mais pesados que o disco, vale fazer a comparação. em São Luís). Fora alguns problemas com o volume Os slides da guitarra de Pedro dão o clima das músicas. dos microfones no início da apresentação da Nova Bossa, tudo correu sem maiores transtornos até a MEGAZINES apresentação da banda pernambucana. Costuma ter apresentações enérgicas, um peso pop O problema é que eles demoraram muito para chegar com solos de guitarra. Uma banda com um set list tão e o público chegou a se aglomerar perto do palco só organizado e até, as vezes, um pouco longo (não foi para descobrir que estavam vendo uma arrumação o caso no festival), também fica devendo um disco dos roadies e algumas mensagens dos patrocina- pronto. dores. Durante a espera a organização parece ter entrado num transe “estereóptico” e tocou uma FAROL VERMELHO seqüencia de reggaes, algo incompatível com o Alterna covers do Barão Vermelho e músicas auto- evento (afinal, estamos em São Luís). rais. Tem uma pegada rock com pitadas de blues Destaque para a “invasão” de palco perpetrada e soa um pouco punk. Quem dá a cara para ba- por integrantes das outras bandas durante a apre- ter com suas próprias músicas merece crédito, sentação da Farol Vermelho. Viu-se, pelo menos, mas é preciso fazer a aposta e mergulhar sem uma briga na platéia, do lado de fora da ten- salva-vidas, só falta tirar a última rodinha da da, sem qualquer intervenção dos seguranças bicicleta. (que só encontramos ao sermos revistados na entrada).O saldo é positivo, mas ainda é preciso VENTURA melhorar... Uma banda cover do Los Hermanos... 06
  8. 8. fotos divulgaçãozeca L BA EIRO Responde por Bala na Agulha _ refle- xões de buteco, pastéis de memória e outras frituras..., fala do Maranhão e outras amenidades. E ntre a passagem de som com banda e a dos outros cantores que participaram do show de 5 de novembro de 2010, a Bezouro entrevistou o cantor e compositor mara- nhense Zeca Baleiro. Na pau- ta, sua incursão literária com a compilação dos textos do seu blog no livro “Bala na Agu- lha”. Para além da sua entrada no mundo literário, Zeca tam- bém chega a uma nova fase da carreira agora com o selo de gravação próprio. 07
  9. 9. Bezouro: O livro fala sobre “filosofias de buteco”.Como surgiram estes textos? Foram realmente namesa de bar com os amigos? Bezouro: A música teve que ceder espaço para o livro ou a literatura é algo que você sempre fez e só mostrou agora?Zeca: Não foi exatamente na mesa de bar, embora eventu-almente alguma possa ter surgido na mesa de bar. Mas é Zeca: Bom, na verdade a escrita não é uma coisa tão estranha aoum tipo de discussão e de abordagem que eu faço que po- universo do compositor porque a canção é também uma obra lí- Bezouro: Quanto ao título do livro, contaderia ter nascido na mesa de bar. Por isso que eu chamei tero-musical, ou seja, metade literatura, metade música (se você para gente como foi feita a escolha dode reflexões de buteco. São aquelas conversinhas, debates, considerar que letra de música é também poesia). Então, a palavra nome “Bala na Agulha”?polêmicas que nem sempre ou quase nunca chegam a uma não é uma coisa totalmente estranha ao meu mundo. Assim, é ób-conclusão, mas que servem para apimentar a rodada de vio que escrever em prosa, textos opinativos, reflexivos, então isso Zeca: Bala na Agulha é o nome da sessão quechops, aquela conversa boa de bar entre amigos. Eu tento não é uma coisa nova para mim. Mas desde 2005 eu venho fazendo eu criei no site em 2005 para escoar essesestabelecer com o leitor essa cumplicidade, como se fosse- isso no meu site regularmente. Esse livro é uma coletânea desses textos. É uma alusão meio óbvia ao meumos amigos conversando numa situação descontraída, em- textos. No meio do caminho fui convidado também para revista Isto nome, Zeca Baleiro. A minha empresa sebora alguns assuntos lá sejam bastante sérios. É, virei colunista mensal. Isso também me deu mais disciplina, mais chama Ponto de Bala Produções, e isso tudo cancha para escrever com mais freqüência, mais profissionalmente é meio relacionado. Então como já era uma falando. Mas eu sempre gostei de escrever, só que eu não tinha sessão conhecida, eu não quis mexer nisso. exposto isso. A literatura não roubou um espaço da canção porque Só acrescentei o subtítulo: reflexões de Bute-Bezouro: O seu último álbum inaugura uma nova fase são textos que eu escrevo na espera de aeroportos de passagem de co, pastéis de memória e outras frituras, queda sua carreira por ser lançado com selo próprio. Para som, de avião atrasado, hotéis, essas coisas todas. A vida do músi- explica um pouco mais o que é o livro. Essasvocê, o que muda com isso? co é muito feita de espera, então se nesses intervalos tem alguma tais reflexões, um pouco da verdade das mi- idéia pululando na cabeça, eu vou lá e escrevo. Eu consigo ter uma nhas memórias, da minha infância, da minhaZeca: A princípio está trazendo muito trabalho, porque do- disciplina interna razoável para equilibrar os dois. adolescência, que eu passei no Maranhão,brou o trabalho. Além de ser o criador, o cantor, o divulga- parte em Arari, cidade onde eu vivi minhador, eu também sou o empresário. Eu tenho que dar conta primeira infância na casa dos meus pais, e adas contas, das coisas todas. Mas eu sempre gostei também outra parte é em São Luís.desse outro lado, de ter um certo controle da própria carrei-ra. Quando você trabalha com grandes gravadoras, você temum conforto de jogar na mão deles e só aparecer lá bonitinho e penteado. E quando você faz isso, você fica maisinteirado das coisas, do esquema que há por trás da distribuição, da divulgação, da promoção do trabalho. Eu jáfazia isso, meio assim, de fora porque eu produzia pelo meu selo discos de outros artistas. Mas agora é a primeiraexperiência com o meu próprio trabalho. Tem sido um aprendizado e tanto. Eu acho importante o artista tomar as Bezouro: No livro, assim como nas suasrédeas e parar com essa postura romântica de que “ah, eu sou artista e só artista”, entende? O mundo não com-porta esse tipo de postura, embora o cara seja genial. Eu acho importante o artista tomar as rédeas da sua carreira. composições, está refletido o retrato do que você pensa? Existe alguma preten- são em disseminar um pensamento comBezouro: Quais foram as maiores dificuldades enfrentadas para chegar ao reconhecimento que tem o seu trabalho?hoje? O que está diferente das condições de quando você começou a carreira? As dificuldades são Zeca: Acho que sim. Afinal, eu não sou só umas mesmas? animador de auditório, embora eu ache im- portante essa faceta da música dançante que alegra a vida das pessoas, que leva luminosi-Zeca: Os anos passam e as dificuldades de um músico permanecem praticamente as mesmas. Hoje o que se dade. Eu acho isso bacana. Mas eu não que-tem a favor e contra é o mercado, e muito a favor são as novas tecnologias. No meu tempo de iniciante era uma ro ser só um animador de platéia, eu quero,dificuldade para gravar um CD. Eram pouquíssimos estúdios de gravação que tinha na cidade. Tinha um que era óbvio, disseminar meu pensamento entre asdo finado Maestro Nonato, que foi um cara pioneiro. Mas quando o cara queria um disco, uma coisa mais re- pessoas e se possível encontrar eco. Eu achobuscada, tinha que ir para Belém, Recife, e os centros mais movimentados eram São Paulo e Rio. Era tudo muito que o artista deveria ser, pelo menos, um pen-precário mesmo. E mesmo lá para São Paulo era muito difícil ter acesso a um estúdio profissional, poder pagar sador do seu tempo, da sua época, da sua so-músicos e tudo mais. Isso tudo simplificou muito com o grande advento da tecnologia de áudio, produtos, vários ciedade. Eu acho que é um papel natural quesoftwares e tal. Simplificou e hoje no quintal da casa, no quartinho de casa o cara pode fazer um grande disco, o artista desempenha. Lógico, tem um tipo decomo fez Lobão, que eu participei e foi vendido em lojas de disco. Ele foi feito na dependência de empregada do artista que é voltado só pra entretenimento,produtor, lá em Laranjeiras, no Rio. Então isso mudou muito, facilitou, criou um acesso maior para as pessoas, só para essa alegria, essa animação e tal, edemocratizou. Mas as dificuldades estão no negócio. É muito difícil você erguer a cabeça acima da manada e que eu não desprezo. Eu respeito e admiro.ganhar uma distinção, um destaque. Primeiro porque tem muita gente produzindo coisas boas, e isso também Mas eu acho que o meu trabalho e o lugar emfoi uma coisa que a tecnologia contribuiu. As pessoas produzem melhor as coisas. Antigamente, às vezes, o cara que quero me inserir é esse, de um cara quetinha umas músicas lindas e na hora de produzir, de levar para o disco, aquilo ali ficava tão chocho, tão sem vida além de fazer isso, também pode fazer as pes-que não atraia a atenção de ninguém. Hoje em dia as pessoas produzem melhor com todas essas coisas que vão soas se mobilizarem e refletirem sobre a vida.simplificando. Por outro lado, não tem mais o grande suporte das gravadoras, não tem mais acesso às rádios,que eu acho uma coisa fundamental para a música ser propagada. Eu devo muito ao radio. Minhas músicastocaram muito, e ainda tocam um pouco menos do que antes, mas ainda tocam no rádio. Isso eu acho que é omaior caminho para a propagação da música popular. Infelizmente o rádio hoje é o que a gente sabe, um meionada democrático. Enfim, mas as dificuldades são as mesmas, basicamente. 08
  10. 10. Bezouro: No seu último álbum, você desfila por canções que vão de Cartola a Camisa de Vênus, e de Assis Valente a Foo Fighters. Bezouro: Você que já saiu do Maranhão e volta sempre, como vê a situação do estado considera- Por que? do o mais pobre do país, baixos índices de IDH, etc.? Zeca: [risos] Esse disco, a princípio, era um disco de releituras. Era Zeca: Isso é uma coisa que transborda da música, da cultura e vai para um assunto que é política. É um disco em que eu ia cantar outros compositores que de algu- um assunto do qual eu nem gosto de falar porque me desagrada muito. É uma tristeza que o Ma- ma forma tiveram ou tinham alguma importância na minha histó- ranhão seja o segundo estado mais miserável do país, perdendo apenas para Alagoas. Não à-toa, ria, ou lá atrás, ou mais recentemente. E com o tempo ele foi se esses estados são dominados por “senhores feudais”. Isso é uma triste realidade que a gente tem transformando, foi virando um CD metade de releituras, metade aqui, e que, pelo jeito, se eternizará. Eu fico triste por ser um maranhense, sabendo o potencial que de músicas autorais que eu compus e acabei fazendo um mix. Mas o estado tem, não só cultural, mas econômico. A culi- ele, a priori, é um disco de releituras. Foi feito com músicas que eu nária maranhense, por exemplo, é uma das mais belas gostava de cantar, e que, talvez num disco de carreira, produzido no e ricas do país. Tem tanta riqueza natural ainda, tanto Bezouro: Quais foram suas maiores influências inte- estúdio, isso ficasse uma grande barafunda. Mas num disco ao vivo, verde, tanta terra que é injustificável essa pobreza que lectuais? com uma sonoridade muito específica, só de violões, eu achei ficou a gente vê, especialmente no interior. Eu viajo muito. Zeca: Eu fiz faculdade de agronomia na UEMA e jor- tudo uniforme, ficou coerente. Eu aproveitei também para escoar Sempre que venho faço viagens, nas férias inclusive. nalismo na UFMA. Não me formei em nenhuma, esse projeto para livrar minha alma para os próximos trabalhos. Vou a minha cidade, Arari, vou a Pedreiras, e vejo mas me relacionei com muita gente. Às vezes pes- um quadro de miséria muito assustador que não era soas mais velhas, com mais informações que foram para ter. Então, isso tem a ver com a má gestão, com a passando livros e discos. Foi tudo muito errático, usura mesmo dos políticos. Nossos políticos são uma muito sinuoso. Não tenho uma formação acadêmi- vergonha, isso é fato. Aliás, os políticos brasileiros são ca, escolar ou universitária de fato, do ciclo formal. uma vergonha, né? E quanto mais no recanto do país, Eu fui aprendendo com a vida, pegando coisas que no Brasil profundo, pior isso fica. Eu já confio mais na me interessavam, lendo bastante. Eu sempre gostei sociedade civil, confio mais que as pessoas individu- de ler, por culpa do meu pai, que era um cara que almente possam fazer transformações profundas do quase impunha para gente ler, e hoje eu agradeço. E é isso, foi uma formação autodidata, portanto, toda que pelas vias da política. cheia de acidentes, cheia de improvisos. Bezouro: Com a cultura popular e os artistas locais engajados como estão pelas verbas estatais aqui no Bezouro: O estado deve ter algum papel enquanto mecenas? QuemMaranhão, você acha que a saída para a independência deve decidir que obras merecem apoio e visibilidade? artística local ainda é o aeroporto? Zeca: Eu acho que em um estado como o nosso não tem saída, tem mesmo que patrocinar. O que também gera alguns vícios, porqueZeca: Eu espero que não. Para mim não foi doloroso sair tem essa coisa do clientelismo, aquela coisa do cara que vai sema- porque eu não saí daqui para nada. Eu saí porque eu nalmente ali e debruça o cotovelo no balcão da secretaria de cultu- queria sair, eu queria conhecer outras cidades, outras ra e fica esperando verba. Não sabe fazer nada, nenhuma canção se pessoas, outros lugares, outros modos de fazer arte, não tiver uma verba. Esse é o lado ruim. Mas em um estado como inclusive. Eu não saí só porque “não tinha saída além o Maranhão, ainda com o processo cultural e mercadológico num do aeroporto”. E eu acho que nem todo mundo tem estágio ainda tão primitivo, digamos assim, eu acho que é inevi- essa estrutura. Tem gente que tem um apego com a tável, é imprescindível mesmo que o estado patrocine. Patrocínioterra, com a família e que não gosta, nem tem estrutura esse que, também, dificilmente será justo, porque sempre vão seremocional para sair. Então, eu acho que é uma violência beneficiados alguns e outros não. É impossível ser justo com todos.para essas pessoas terem que sair para fazer a sua vida, Mas eu acho que é um primeiro passo. Quando o Joãozinho Ribeiro, o seu caminho. Seria muito bom se as pessoas pudes- que é compositor, amigo, parceiro, poeta, foi secretário de cultura sem permanecer no seu lugar de origem e ainda assim ele tentou. Teve o seu mandato interrompido por razões políticas, produzir e conseguir fazer uns trabalhos que se susten- mas ele fez uma coisa bacana, que foi criar mandatos de toda sorte tem. Isso seria bacana, mas por enquanto, isso no Ma- para abrir concorrência, como deve ser um processo democrático. ranhão é um sonho, uma utopia, uma coisa distante de Infelizmente, nem todo mundo pode ser contemplado, porque há se realizar. Há cidades que já são um pouco mais auto- uma infinidade de gente produzindo. Mas eu acho que é um primei- suficientes. Salvador, Recife, Belém, Fortaleza... Essas ro passo. E a atitude do povo eu acho que tem que ser transforma- cidades maiores, mais ricas e culturalmente mais avan- da, talvez através de campanhas. Algo tem que ser feito. Uma coisa çadas – não no sentido de produção, mas de ter merca- que eu sempre me preocupava quando morava aqui, e ainda me do para escoar essa produção. Culturalmente, São Luís preocupo é com a formação de platéia. São Luís já fez parte de um é uma sombra. O Maranhão é um estado riquíssimo, circuito de shows interessantes. Eu mesmo quando estudava aquique eu ponho entre os mais ricos, interessantes e pecu- gazeava aula e ia ver shows de tanta gente bacana que eu vi, como liares. Isso, não por eu ser maranhense, mas porque eu no projeto Pixinguinha, nos anos 80. Então já fez parte de um circui-enxergo isso. Mas ainda vai levar muito tempo para que to que hoje não faz mais. Hoje tem um monopólio do Axé, do Pago- a gente consiga. É uma coisa de educação mesmo, de de. Nada contra nenhum gênero específico, mas quando um mono- educação do povo, de formação de platéia. É um pro- pólio muito grande, monocultura, o povo vai se desacostumando cesso lento e a gente mal começou. dos outros tipos de música, o que não é saudável. Tem muita coisa a ser feita pelos artistas, pelas autoridades e também pelo povo. 09
  11. 11. o s s ss s Os s OCAS OCASr ss da ATENAS sSão Luís e a crise da cultura de leitura por Leonardo Costa 10
  12. 12. E s s nredada à sombra de um ufanismo intele ctu cesa lhe deu o nome de batismo, não é ma al, a “Hélade” dos trópicos, cuja herança fran- is por sucessivas gerações. Abraçada a uma sag que uma fotografia em preto e branco, cultuada tradição oitocentista da “Atenas Maranhen a quixotesca, São Luís acorrento de projetos educacionais mais audaciosos, se”, enquanto a presente vida cultural des u-se às raízes da de incentivos governamentais contribuem somada aos exorbitantes preços do mercadofalece. A ausência s para a quase inexistência de uma cultura editorial e à falta livresca na capital. s O problema, no entanto, não está restrito às variantes locais, sobretudo no que diz respeito ao baixo s índice de leitores. Dados da última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em, 2007, pelo Insti- s tuto Pró-Livro (IPL), apontaram que 4,7 livros são lidos, em média, por pessoa durante um ano, dos quais 3,4 são indicações obrigatórias de escolas ou universidades. Em termos regionais, o Norte (3,9 livros per capita/ano) e o Nordeste (4,2 livros per capita/ano) ocupam as últimas posições. No caso de São Luís, o estudante e livreiro José Lorêdo Filho acrescenta: “Aliado ao fenômeno nacional da aversão ao hábito de ler, existe uma grande dificuldade para a circulação de determinadas obras, principalmente os clássicos”. s s s Outra queixa recorrente são os altos preços dos livros, explicados, em parte, pelos impostos que recaem sobre o papel, sua matéria-prima, e pela produção a partir de pequenas tiragens, o que eleva o preço unitá- rio do produto. Não bastassem esses fatores, a internet também passou a ser uma grande concorrente dass livrarias ludovicenses, porque as editoras acabam oferecendo o mesmo desconto a quem faz encomendas virtuais. “Devido à quantidade cada vez mais rara de leitores, não se pode estocar livros sob pena de sair fi- nanceiramente prejudicado. Trabalha-se, agora, com a consignação: o que não for vendido, a livraria devol- ve para a editora”, afirma Marlene dos Santos, funcionária de um dos mais importantes estabelecimentos desse gênero na cidade. Perguntada sobre os motivos da discrepância entre as instalações das livrarias de São Luís e as das demais localidades, quase sempre dotadas de cibercafés e outras comodidades para os clientes, Marlene é taxativa: “Aqui se lê muito pouco. Seria um investimento alto e sem possibilidade de retorno”. Poucas são as iniciativas das esferas de poder com vistas à promoção da leitura. A exceção fica por s conta da Feira do Livro, que tem a organização da Fundação Municipal de Cultura (Func) e acontece s anualmente na Praça Maria Aragão, congregando escritores, artistas, vendedores e a população. Embora a circulação do público seja um dado considerável (na edição de 2010, foram 220 mil pessoas), o evento parece não receber o tratamento merecido. “Não há nenhum respeito com os livreiros: estamos dentro de um ambiente quente, sujo e empoeirado. Isso demonstra que a Feira do Livro não é de interesse dos governantes e só acontece por força de uma lei municipal”, desabafa Silvia Diniz, responsável por um dos stands armados no Espaço Cultural, antigo galpão situado na Avenida Beira-Mar. A perda do prestígio cultural de uma capital que já possuiu os melhores grêmios literários do país não está ligada somente aos espaços reservados à comercialização do livro. Na verdade, não há uma política articulada de publicação e editoração das obras, restando apenas atitudes isoladas de algumas instituições, a exemplo do Fundação de Amparo a Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tec- nológico do Maranhão (FAPEMA) e da Academia Maranhense de Letras (AML). “Na maioria das vezes, existem bons escritores querendo publicar livro e tendo que arcar do próprio bolso, inclusive recorrendo a empréstimos bancários, ou correndo atrás de patrocínios, freqüentemente negados”, assevera o editor Claunísio Carvalho. A concretização de uma realidade promissora, no tocante à formação de um número significativo e influente de leitores, dependerá enormemente das escolhas realizadas no âmbito da cidadania, tendo como meta a valorização da educação. Importante saber que o crescimento econômico por si só, acom- panhado de efeitos colaterais devastadores, como os congestionamentos no trânsito e a especulação imo- biliária, não levará São Luís a recuperar o tempo áureo de sua efervescência cultural. 11
  13. 13. Teatro Documentário por Anissa Ayala Rocha da Silva Cavalcante e Raíssa de Souza Oliveira 12
  14. 14. P ouco conhecido e estudado no Brasil, o teatro-documentário está baseado num trabalho de busca por registros como fo- tos, diários, testamentos, dentre outros documentos que captem a realidade, evitando a interferên- cia da ficção. Quem deseja tra- balhar com esse gênero precisa organizar um discurso a partir de cuja encenação se promova uma discussão pública. A aluna do 6º período do Curso de Teatro da UFMA, Delcianny Garcês, já está trabalhan- do com essa modalidade. Ela coordena o projeto de extensão intitulado “Experimento Anne: memória e gênero na cena documental”, que denuncia a violência sexual sofrida por meninas maranhenses, com mais ou menos 13 anos, trabalhando com as referências doDiário de Anne Frank. O grupo já realizou apresentações em escolas, encontros, centros de artes cênicas e, recentemente, o projeto foi apresentado, também, em formato de pôster no encontro da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas (ABRACE). Para Delcianny, o teatro-documentário não possui um conceito específico, se baseando a partir do dra-ma-documentário. Esse gênero é “todo drama feito em cima de documentos históricos, não tem estética e sim dramaturgia pautada na não-ficção”.O trabalho envolve alunos do curso de serviço social, teatro e comunicação. Anderson França, aluno do curso de rádio e TV da UFMA, participa do projeto no intuito de divulgar aos acadêmicos o teatro-documentário e, com isso, mostrar como essa arte se aproxima da comunicação em termos de pesquisa e interdisciplinaridade. “O meu interesse em participar do grupo surgiu da necessidade de apresentar aos alunos de comunicação, através de workshops, as outras ver- tentes da nossa área, assim como a comunicação digital ou comunicação do teatro-documentário, for- mas pouco conhecidas pelos acadêmicos”, afirma Anderson. 13
  15. 15. O utra questão interessante que o teatro-do- cumentário aborda é quanto ao discurso. O dado não-ficcional só será válido se houver, por parte do público, um sentido a respeito do que ali é encenado. É o caso de Tallysson Ramon, aluno da UFMA, um apreciador das artes cênicas e que conta como foi sua percepção diante de um modelo de teatro-documentário. “Eu assisti somente a uma peça de um outro grupo. Não consegui compreender bem o propósito que eles pretendiam passar. Tal- vez porque eu não tinha conhecimento do fato histórico ou pelo discurso trabalhado por eles, não ter sido bem construído”, es- clarece Ramon. As dificuldades em se manter uma atividade cultural independente como esta são gran- des, principalmente pela questão financeira e pelos custos com figurinos e cenários. O projeto de Delcianny conta com recursos próprios para se manter e com ajuda da equipe e demais colaboradores que acredi- tam na sua importância.Isso mostra como é necessário seguir um discurso abordado pelo teatro-docu-mentário, a fim de proporcionar ao público uma boa recepção e um bom posi-cionamento daquilo que é encenado. “O texto é feito em cima do diário de Anne Frank, ou seja, toda a nossa dramaturgia se baseia nesse documento fazendo o ligamento com outros autores teatrais e usando depoimentos de meninas estupradas no Maranhão”, declara Delcianny e acrescenta: “Acre- dito que conseguimos uma boa percepção do nosso público, pois, quando fizemos a apresentação na Escola Mário Meireles, passamos um questioná- rio (recepção teatral) e eles responderam bem pautados no assunto”. O projeto de extensão termina em agosto de 2011, porém o grupo preten- de continuar com a divulgação do trabalho em outras cidades. A equipe já está presente no Orkut _Factual Experimentações Cênicas_ disponível para contatos com outras pessoas interessadas no tema. “Esse projeto começou sendo individual, depois passou a ser profissional e hoje, é a nossa vida” finaliza Delcianny. 14
  16. 16. GOCRIME E CASTI inconfidências por trás da malha- ção de um judas. por Ricardo Santos 15
  17. 17. D iz a lenda que a Igreja de São João Batista (Rua da Paz) foi erguida (1665) para pagar uma insólita promessa; o santo deveria impedir que a sociedade descobrisse o caso do governador Ruy Vaz Siqueira com uma senhora casada. É uma iro- nia que algo construído para encobrir uma traição tenha vindo a guardar os ossos daquele que foi “eleito” pela república como o traidor nacional: Joaquim Silvério dos Reis, o delator do Tiradentes.A história da Inconfidência Mineira é conhecida por todos, tomou vulto a ponto de a execução de Tiradentes marcar o único feriadonacional dedicado a uma personalidade ausente da Bíblia, em que pesem as semelhanças forjadas e coincidências. A consagração demártires é expediente comum na gestação de nações e símbolos, união de povos em torno de ideais. Assim, o enforcamento de Tiraden-tes foi utilizado pelos republicanos para derrubar o Império e consolidar o regime.Entra aí a figura necessária do Coronel de Cavalaria Joaquim Silvério dos Reis. Acumulando em si todos os defeitos e vergonhas dealguém que trai seus amigos por dinheiro (no caso uma dívida) e contribuindo para a idealização do seu companheiro de armas, oAlferes da Silva Xavier. Esse drama com símbolos religiosos foi bastante trabalhado na construção da imagem de um sacrifício cristão.As pinturas reproduzidas incessantemente nos livros escolares trazem o mártir de cabelos longos, barba grande e olhar sofrido, um Cris-to medieval ou renascentista. Ora, Joaquim José da Silva Xavier era militar e, nessa época era comum que sua posição o levasse a terum mínimo de cuidado capilar. Houve uma intencionalidade na comparação: Tiradentes só passava por Cristo porque tinha um Judas. “Melhor negócio que Judas fazes tu, Joaquim Silvério: que ele traiu Jesus Cristo, tu trais um simples Alferes.” (Romanceiro da Inconfidência - Cecília Meireles) Silvério sofreu muitas perseguições e atentados nos anos após a morte de Tiradentes. Pela delação, passou a viver uma situação ambígua: para o império lusitano foi um súdito leal, enquanto, para aqueles que queriam autonomia, um homem que se vendeu por pouco. Chegaram a tentar incendiar sua casa no Rio de Janeiro, um entre outros atentados que ele sofreu. Depois da Inconfidência, apesar de sua “delação premiada”, sua situação financeira seguiu prejudicada. Em Portugal tentou viver na corte, mas foi rejeitado pelo príncipe, futuro Dom João VI. Devido às guerras napoleônicas que assolavam a Europa, a corte portuguesa vem para o Brasil e Joaquim Silvério decide retornar. Ao fim da vida vem para o Maranhão, terra que ele nunca mais deixará. Seus ossos foram enterrados na Igreja que fica em frente a um prédio conhecido como Palácio das Lágrimas. O seu túmulo não pode mais ser visto. Sucessivas reformas resguardaram seus ossos, que lá continuam, mas não sua lápide ou qualquer memorial de seu destino. As grandes histórias tem sua força por serem contadas e recontadas sempre e sempre, mesmo que se mudem as personagens e os sentidos. Religião, política e história são formas que o homem desenvolveu naturalmente para se entender e se situar no mundo. Uma não precede à outra na construção da realidade humana. É só prestar atenção e ver como os grandes dramas se sobrepõem e se mis- turam no imaginário, tal é o misto de lenda e esquecimento que tornou-se o fim, a vida e a “obra” de Joaquim Silvério dos Reis. 16
  18. 18. IGREJA SÃO JOÃO BATISTA17
  19. 19. 18
  20. 20. 19
  21. 21. O ndeEstá a Pla- téia? OS PARADOXOS DA ILHA QUE NÃO CULTIVA UMA CULTURA CINEMATOGRÁFICA por Amy Loren 20
  22. 22. S ão Luís atravessa um período de crescimento em termos de exibição de filmes do circuito não-comercial. É mais um esforço de pessoas engajadas nesse meio do queuma demanda por esse segmento. Pontos de cultura, iniciativasuniversitárias e meios de comunicação de grande circulação têmpromovido a exposição de filmes que geralmente são exibidosapenas em festivais. A estrutura (muitas vezes precária) é sem-pre receptiva, mas conta com uma audiência limitada.Essa realidade apresenta uma faceta da cultura para a qual nãoé dada visibilidade. Ao contrário do que diz o senso comum,segundo o qual a produção cultural alternativa seria cara, logoinacessível, vivemos em São Luís um momento curioso. UNão se pode dizer que em São Luís nunca houve um público ma tentativa paraapreciador da sétima arte. As exibições, geralmente realizadas reverter esta situaç idealizou um proje ão partiu do jornal to de exibição de fi O Imparcial, queno antigo teatro São Luíz, atual Teatro Arthur Azevedo, eram local tem uma boa lmes batizado com estrutura e oferece o Cine Ímpar. Ocheias. Nos anos 70 , o cinema foi aos poucos perdendo espaço nativo, indo de pro sessões de filmes duções européias do circuito alter-para outras formas de entretenimento. e amplamente div a japonesas. As ex ulgadas. “Para atra ibições são todas gr ponsável até criou ir o público para n atuitas a ‘sessão secreta’, ossas sessões, a eq É conhecido o conceito de que a questão sócio-econômica na hora da aprese na qual o nome do uipe res- ntação. Infelizmen filme é revelado so interfere diretamente no consumo de produtos culturais esperado”, explica te, a presença do mente o coordenador do público não cresce pelas classes menos abastadas. Sempre em pauta, as dis- Espaço Ímpar, Célio u como o Sérgio. cussões sobre o espaço público e as dificuldades impostas pela Outro grupo é o C ineclube Casarão U Indústria Cultural, em geral apontam para a dificuldade enfren- ligado ao Departa niversitário, projeto mento de Comunic de extensão da UFM tada pelo trabalhador no consumo de peças teatrais e literatu- O grupo realizou a ação e que promo A, Semana de Audiovi ve exibições às qu ra. Os preços seriam muito altos. No que diz respeito à platéia res premiados com sual na Universidad intas-feiras. o Cícero Filho (Ai Q e. O evento trouxe dos ditos filmes alternativos, São Luís anda na contramão. Mesmo assim as ex ue Vida) e Eliane C direto- ibições promovidas affé (Narradores d pelo Casarão aind e Javé).O público significativo a não alavancaram . um Cine Praia Grande, espaço já consagrado na cidade por sediar festivais e ser um centro de atividades culturais Não se pode dizer, portanto, que São Luís não tenha uma base para o desenvolvimento com boas condições para a exibição e acessibilidade, da cultura cinematográfica. Aqui é promovido um evento de cinema nacionalmenteraramente se encontra lotado. A resposta do público aos filmes respeitado, o Festival Guarnicê de Cinema.em si é muito fraca, recrudescendo somente com a presença de Em um cenário em que o discurso é de que o consumo desses bens não se dá da mes-“celebridades’ em eventos como o Guarnicê. Tudo isso com um ma maneira que o dos produtos comerciais, o que explica que a arte cinematográficapreço baixo (R$ 4) e três sessões diárias. seja oferecida com acesso facilitado e mesmo assim a resposta do público continue fraca? Quais são os fatores que levam a este quadro? 21
  23. 23. DESTERRO personagens de um mundo decadente por Fábio Sabino “Submerso no des- cuido, apartado do interesse público de preservar algo que ninguém sabe o que é, ou mesmo se já foi um dia.” 22
  24. 24. MARIA, A DEVOTA.“Meu filho, nesse mundo, a pessoa tem que ter trêsamigos: Deus, a justiça e a polícia”, foi o que me disseDona Maria quando indagada sobre seus ”negócios”e sua boa relação com as autoridades públicas, tendoela como pano de fundo, uma infinidade de imagensde Nossa Senhora da Conceição,Ao comentar sobre o fluxo de prostitutas na porta deseu estabelecimento, desconversa: “Eu tenho meu baraqui, essas mulheres ficam por aí, eu até evito elas,tem umas desbocadas, que não sabem se comportarno ambiente. Já falei pra elas, bagunçou aqui eu po-nho logo pra rua! Mas eu não mexo com isso, quem LUZIA, A SUICIDAtraz umas meninas dos interiores é essa tal aí (refe-rindo-se à dona de uma pousada na mesma rua). Eu Diferente do que aconteceu na Manaus do inicio do séculoprocuro ajudar, dou trabalho aqui no bar, tem uma até XX, o que todos os relatos e pesquisas apontam é que aqui, Apesar de “maldita” e malvista, quem movimentava oque queria se matar, eu levei ela para igreja e ela hoje na “belle époque” ludovicense, difícilmente encontraría- comércio naquela época era a zona, e sua permanênciatá boa. Tem umas que saem daqui até casadas”. mos cocottes francesas e polonesas em bordéis dançando pode ser atribuída ao fato de ter se tornado um pontoA proprietária do bar São Sebastião (que a mesma bolero. Como afirma Dona Andrelina Macedo, antiga mora- rentável, próximo ao centro comercial e histórico da ci-resistiu chamar de cabaré ou ainda inferninho) con- dora (que após 5 ou 6 cervejas descubro também ter “feito dade, com um grande número de trabalhadores infor-ta que há mais de 40 anos trabalha na região e que salão”) “dava mesmo era muita paraíba, cearense e umas mais e um fluxo considerável de turistas.vivenciou ascensões, quedas e promessas que fazem caboca da Maioba, desses interior aí! . Restaurantes, quitandas, pequenas lojas de roupa, emo nome “Oscar Frota” ser bem mais do que o de uma O relato mais precioso sobre a prostituição na área acabou suma, o comércio em geral, dependia quase que exclu-extinta fábrica. por vir da própria Dona Andrelina. Ao ser indagada sobre a sivamente de um outro, o sexual. Boa parte dos produ- visão da comunidade sobre a ZBM, acabou por contar sua tos era negociada com as donas de pensão. Segundo Na pequena rua em formato de L, onde se encontra própria história. Maria “elas (as madames) não vinham comprar pessoal-um enorme esgoto a céu aberto e onde é mais fácil A vida de Andrelina era algo que lembrava em muito uma mente, mandavam alguém para negociar com a gente,encontrar prostitutas, mesmo durante o dia, a “fauna rapsódia, um improviso folclórico que parecia até inven- ou então, a gente deixava as mercadoria lá”. Havia todaurbana” é bastante variada. Fora do horário de funcio- tado de tanto que resumia bem o que seria uma “vida de uma demanda por alimentação, remédios (em especialnamento dos “bares” surgem mototaxistas, funcioná- puta”: Aos doze anos saíra da casa dos pais, segundo ela, para anemia e preparação de ”receitas abortivas”) e pe-rios das onipresentes gráficas, entregadores de bebida para visitar uma tia no centro e só voltou 5 anos depois. ças de vestuário de toda natureza. As moças eram rece-e um ou outro membro do baixo clero do funciona- Nesse entretempo, foi morar na casa de uma madame (es- bidas e preparadas pelas madames. Deveriam “descer”lismo público, em alguns casos agindo com perfeita tamos falando aqui dos anos 60) na rua 28 de julho, onde se sempre bem vestidas e bem alimentadas. Quando saí-naturalidade e em outros, fugindo de cruzar olhares revezava no trabalho de “agradar” os clientes e se esconder am para atender um cliente, não voltavam para o salãoe andando com passo aflito de quem tomou a rua er- da polícia, num velho guarda roupa. com o mesmo vestido, trocavam desde o sapato até asrada. Sobre o público que freqüentava o lugar e a lembrança de jóias, que pertenciam às donas de pensão.O Oscar Frota, ao mesmo tempo substituto e conti- alguma autoridade da época: políticos, promotores, juízes, Nesse enredo de relativa prosperidade, houve quemnuação dos cabarés e pensões das ruas da Palma e 28 que desfrutaram dos seus serviços, respondeu: “Isso eu não fizesse muito dinheiro, houve quem gastasse tão rápi-de julho, concentra a prostituição feminina da área. sei dizer, mas umas amigas eram bancadas por umas figuras do quanto se ganhava. “Eu não repetia roupa. QuemEnquanto os seus precursores tornaram-se marca do ricas da época, uns tão até vivos hoje (confesso nessa hora freqüentava o salão era gente de dinheiro e ninguém iapassado áureo, datado da metade do século XX, os ter feito mentalmente um exercício especulativo). Nesse pra lá desarrumado, feito meninote” afirma Dona Jan-inferninhos atuais são marca da região chamada “de tempo era de mais respeito. A gente não podia passá nem dira, ex-mulher de salão. “Eu tinha tudo do bom quecima” do Desterro, ponto de tráfico e de uma prosti- na calçada que eles (os donos dos melhores hotéis) não fosse possível conseguir naquele tempo, esbanjava,tuição decadente. O status da década de 1950, fase deixavam. Tocava até banda militar nas festas e os homens mas aí peguei menino e tive que sair no mundo, por-considerada, por alguns historiadores como de gla- do quartel (situado onde hoje é o Convento das Mercês), que mulher buchuda não ficava, não! Depois é que fuimour da ZBM (Zona do Baixo Meretrício), passa, nos donos de embarcações e de trapiches vinham conhecer ‘as arranjar marido.”anos 70, a ser retratado como reino da promiscuidade meninas novas’ e tomar uísques. Nesse tempo não tinhae da marginalidade freqüente nas páginas policiais dos criança fazendo ponto, vadiando e cheirando droga e nemjornais da cidade. briga de vagabundos como hoje”. » 23
  25. 25. » Era grande a presença de marinheiros, donos de loja, oficiais da polícia e do exército que se reuniam nos clubes náuticos dos portugueses e depois se dirigiam para a zona. Até que, segundo Andrelina, o assassi- nato de um tenente, de nome Marinho, por causa de uma briga entre o exército e a marinha, acabou por marcar o principio da “decadência” da ZBM. Aproveitei para questionar um pequeno grupo de profissionais se poderíamos ter uma conversa rápida sobre as suas vidas e seu trabalho. Entre respostas entrecortadas como Cabe lembrar que essa visão da saudosa boemia não mantinha, na “vai ter que pagar a hora”, “pra conversar é mais caro”, recebi um “sim” do grupo, com a época, o mesmo prestígio de hoje, sendo também alvo de suspeitas de condição de que pagasse algumas cervejas, o que resultou na breve entrevista abaixo: degeneração dos costumes. Agora que se tornou parte da memória, integrou-se à paisagem imaginária da versão bucólica do bairro. Como é a rotina do trabalho de vocês? Passadas algumas décadas, somam-se um sem número de casos e - Tem uns clientes que nem querem nada, só conversar, beber cerveja. E a gente conver- “causos” acerca de como a rotina local girava ao redor da vida na zona. sa. Tem muita coisa misturada nessa coisa da prostituição. Só que a gente não aceita dizer Locais de festividades e de circulação das pessoas “honestas”, pontos essas coisas da gente. Todo mundo pensa mal do trabalho, mas ninguém sabe de nada. de encontros de jovens tinham como referência negativa o “puteiro”. - A gente tem mais liberdade é com o horário, tem dia que dá pra fazer um dinheiro até Da mesma forma “putas famosas” são mencionadas incessantemente bom, apesar de que queima muito a gente com as pessoas, mas ninguém quer pagar pelos moradores mais idosos. nada de ninguém, né? Só falar mal. O caso de Luzia é o mais curioso e se afasta um pouco do perfil médio E quanto aos filhos e maridos? encontrado. Como revelou Maria, a devota, Luzia, a suicida, foi trazida - Filhos, umas tem outras não. Umas aqui já perderam filho. A gente vai criando, a maio- do interior por familiares poucos anos atrás e, desde o início, atraiu a ria aqui é preocupada com a criação dos filho. Marido (uma voz dissidente grita: é tudo atenção da dona de bar. A razão seria a menina ter uma “tristeza que corno... risos...risos) tem umas aqui que tem, umas dizem que tem, uma é até sapata, não passava” e ficar pensando obsessivamente em se matar. No dizer mas não vou dizer quem é. Mas a maioria é só fica ou umas descolam um coroa e tal. da católica fervorosa, graças a Nossa Senhora, após muitas orações e um longo tempo, Luzia melhorou , sendo designada para os trabalhos E o lance com os clientes? de casa e hoje, passada a “tristeza”, leva rotina normal e me serviu a - Tem os fixos e uns que aparecem. A gente fica no bar só sacando, umas ficam na rua cerveja que temperou a entrevista com sua patroa (embora não tenha mesmo. O cara aparece, a gente acerta e pronto! Dá uma volta, rapidinho e volta. Chato perdido o olhar suicida). é que tem uns malas que arranjam confusão, fica rebaixando preço, tem uns esperto que ainda quer bater, mas aí fede pro lado deles, cara de mulher não se bate. ELAS, AS MENINAS Como é a freqüência de clientes? Vêm caras ricos? Rola disputa entre vocês? A prostituição de hoje parece obedecer a uma lógica distinta, até por- - Dá muito cliente sexta, sábado depois que os ônibus vem deixar os peões das fábricas e que há competição com a de luxo, negociada por telefone ou internet, os caras da lojas terminam expediente. Mas é só liso, uns mineiros, baianos que traba- feita em geral por meninas de classe média. No universo dos atuais lham nessas empreiteiras que alugam quartos pra eles por aqui. Com grana mesmo, só inferninhos, misturam-se mulheres de idade muitas vezes indefinível, um ou outro esquema, mas é por fora daqui. Tem uns caras que se fingem de rico quan- com adolescentes. A maioria diz ter vindo da periferia de São Luis, do do tão bêbados, mas são só esses cara de moto, empregado de loja, tudo liso. interior do estado, de regiões pobres da Baixada. Algumas têm casa - De vez em quando sai umas brigas de umas mulheres por causa de homem, de dinheiro. própria, filhos ou mesmo maridos (que algumas disseram saber do seu Mas não é toda hora. ofício). No começo da tarde vão saindo dos casarões e pousadas, descendo Como vocês acham que a comunidade vê o trabalho de vocês? nas paradas de ônibus do Mercado Central ou transitando ao lado do - Tem gente que fala, tem quem passe e nem olhe. Tem umas mulheres que trabalham esgoto a céu aberto e, em meio a uma confusão de máquinas caça- pras pousadas, faz comida, lava roupa, faz manicure, pedicure da gente. Mas é só das níqueis e corredores apertados entre as mesas, cada uma vai tentando dona de bar e das meninas que morar aqui mesmo. As que moram longe só vem aqui pra tirar dali o dinheiro do pão (da televisão nova ou para pagar o aluguel trabalhar. Eu não sei nem te dizer, nêgo diz que falam pelas costas que aqui só tem vaga- da kitnet). bunda e tem drogado. Mas aqui eu trabalho muito mais que muitas por aí, que ficam só Recostadas pelos muros ou nas mesas avaliando os clientes (ou mesmo nas costas de marido. descansando), as prostitutas sustentam uma postura quase sempre ar- redia a olhares e questionamentos indiscretos, mas, ao mesmo tem- (Em tempo: a respeito da placa que indicava uma obra de saneamento e drenagem a ser po, a de quem está ali, afinal, para comercializar. A reação esperada à realizada no Portinho pela prefeitura e, que, segundo relatos poderia por abaixo toda a figura de alguém com caderno e gravador na mão fazendo perguntas área do Oscar Frota, responderam que não acreditavam nisso e se fosse verdade, ficariam aos donos de bares é, no mínimo, de estranheza, e é de se supor que peladas em frente à prefeitura). gerasse mal estar, mas, surpreendentemente, isso fez com que muitas delas se movessem de um, as vezes rude, senso de reserva e intimida- de, demonstrando curiosidade e mesmo perguntando, ironicamente, se eu era da policia ou tinha “gazeado” aula. 24
  26. 26. CREUDECY, A DESTERRADANão há uma definição oficial dos limites entre os bairros da O tráfico parece ter ocupado o centro da vida eco-Praia Grande, Desterro e Portinho. Perguntando a dois mo- nômica da área, que, durante um longo período, foiradores distintos, provavelmente serão obtidas respostas de empresas como OLEAMA, CEMAR, fábricas devariadas ou mesmo opostas. gelo e do comercio portuário. Vendedores de crackEmbora esteja em local reconhecido nos planos de urba- e maconha ocupam uma parte considerável de ca-nização como Desterro, a antiga ZBM parece ao mesmo sarões, habitados ou não, e favorecem a evasão dostempo não pertencer a nenhuma dessas áreas, pois muitas moradores.pessoas que constantemente transitam entre esses limites A antiga separação entre zona de “classe” e o Des-dificilmente reconhecem os cabarés e pousadas como par- terro, apontada como zona de violência, onde fun-te do “seu” bairro (embora o Oscar Frota mantenha uma cionavam casas de cômodos, cabarés inferiores serelação de troca de serviços com o entorno). comparados aos da ZBM, foi, pelo menos no imagi-Parte da atual antipatia se explica pela penetração do cra- nário popular, o que, como afirma Creudecy em suack e dos traficantes que parecem espreitar a todo tempo tese, reforça a existência de uma suposta divisãode dentro de prédios abandonados. Essa razão não explica, oficial em relação à área que abrigou a antiga ZBMentretanto, todos os sentimentos que circundaram a região de São Luís. Segundo a professora essa “divisão”,ao longo tempo. Segundo Luzia Margareth Rego, antropó- não só é muito simplista, como, provavelmente, jáloga, “o baixo meretrício vem inevitavelmente associado desapareceu na geléia geral do tráfico e dos muitosà idéia da animalidade da carne, da bestialidade do sexo abandonos sofridos pela área.(...) atestando o último degrau de degradação atingido pela Hoje, o lugar que antes recebia com os cuidados quehumanidade. Tudo aí passava pelo crivo do negativo, do o dinheiro pudesse pagar, parece ter sumido no des-sombrio, da brutalidade humana”. Numa sociedade que cuido e no interesse público de preservar algo quedesejava para seus meninos e meninas o amor respeitável ninguém sabe o que é, ou mesmo se já foi um dia.do casamento futuro, não seria aceitável a concorrência do Sobrou o rastro, de um lado, da zona de “segundaamor–ladrão. linha”, do xirizal, pobre e inverossímil e, do outro, daNa opinião de Creudecy Silva, professora, pesquisadora e ZBM iluminada, tão chique quanto ficta, concentra-ex-moradora do Desterro “o principal problema hoje são da na rua da Palma, que era freqüentada por gran-as drogas. Eu tenho uma filha e quero que ela cresça num finos de terno, sapato e empáfia, onde , segundoambiente saudável, e o Desterro, faz tempo, já não é esse dizem, até Valdick Soriano já foi.lugar ”. Ela afirma que, de certa forma, foi sendo “expul-sa” do lugar onde viveu sua infância e adolescência e ondeainda vivem seus familiares, pelo abandono da comunidadepor parte de iniciativas públicas e privadas. “O que se deno-minava Zona do Baixo Meretrício já se encerrou há muitotempo e o que resta são, talvez, resquícios da ZBM associa-dos ao tráfico de droga”, acrescenta. 25
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  29. 29. _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ quadrinhos Ricardo Santos28
  30. 30. poraí___________________________________ DE ASSALTO Quanto um homem pode ansiar pelo seu algoz? Qual o humor e a roupa adequada para receber o gatuno que espreita? É provável que você nunca tenha se detido em pergun- tas como essas e é a partir desse mote que o já premiado dramaturgo Igor Nascimento, em parceria com o Grupo DRAO Teatro da (in)constância, parte para um rocambo- lesco monólogo sobre os temores, invectivas e meneios de um homem solitário que, na madrugada, se vê com a casa sendo invadida por um ladrão. Fica claro no monólogo “De Assalto” que o autor quer, e por vezes consegue, criticar e expor, humoristicamente, a “solidão-do-tamanho-de-um-apartamento” da qual o homem moderno padece. Embora este tema seja pra lá de mastigado na literatura e no teatro contemporâneo, trata-se de um verdadeiro cavalo de tróia na estética maranhense e a abordagem vale o ingresso. Nosso des-herói é “posto em carnes” pelo ator Nuno Lilah Lisboa que, descontado certo histrionismo, demonstra grande do- GARIBALDO E O RESTO mínio do “fazer teatral” e magnetismo so- DO MUNDO bre um público pouco acostumado à mo- nólogos. Fica aqui o destaque para o som e Este primeiro disco da Garibaldo e O Resto do Mun- a iluminação que dão vivacidade às pausas do, lançado em 2010, trás a possibilidade de se fazer no texto e dialogam constantemente com uma comparação interessante com o som que a banda os humores e ações do personagem. produz ao vivo. O projeto foi gestado e produzido por O trabalho de Igor Nascimento desponta Paulo Henrique (o Garibaldo) com o produtor Adnon (pela ótima qualidade somada à falta de Soares (ESTÚDIO CASALOUCA). A banda veio depois, concorrência) como uma opção alentadora com o CD pronto. para quem se interessa por algo além de Com todos os instrumentos gravados ou programados “Um Lindo, Quase Teatro”. por Adnon, que participou de algumas composições, O monólogo voltará a ser apresentado em e Paulo Henrique, o disco é mais denso do que pesa- 2011 em datas e locais a serem definidos. foto divulgação do. O peso é mais presente nas apresentações ao vivo. FICHA TÉCNICA A banda, com destaque para os slides da guitarra de ESPETÁCULO: “De Assalto” Pedro, não fica devendo nada, tratando-se apenas de Duração: 45 minutos uma abordagem um pouco diferente e igualmente in- Direção: Igor Nascimento. teressante. Elenco: Nuno Lilah Lisboa Nazareth Adnon e Paulo Henrique souberam aproveitar bem o Iluminação: Milena Silva. estúdio, fazendo intervenções geralmente felizes como Operadora de luz: Milena Silva. o “comunicado” em espanhol de El Paso (que ficaria Operador de Som: Denis Carlos. melhor sem o que pareceram uns scratches no início) e jogando bem com efeitos como delay e re- verb em faixas como Veludo. No final, o resultado agrada. O disco não se prendeu às limita- ções que existem em apresenta- ções ao vivo da mesma maneira que a banda achou abordagens interessantes no palco sem adul- garibaldo e o terar o CD. Vale a pena comprar resto do mundo tanto o ingresso quanto o disco. 2010 foto caroline rêgo 29
  31. 31. ZRevista Bezouro
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