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1988 musicoterapia e saúde mental uma experimentação rizomática

  1. 1. PSICO Ψ v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007 Musicoterapia e saúde mental: relato de uma experimentação rizomática Raquel Siqueira da Silva Marcia Moraes Universidade Federal Fluminense (UFF) RESUMO Este artigo tem o objetivo de relatar uma experiência profissional na área de Musicoterapia no contexto da Reforma Psiquiátrica. A experiência teve seu início numa instituição manicomial na cidade de Volta Redon- da, no Rio de Janeiro e, em seguida, passou a ser realizada num Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). O trabalho musicoterápico teve como um de seus desdobramentos a criação de um grupo musical com os usuários dos serviços do CAPS. Utilizamos algumas noções da filosofia da diferença de Deleuze-Guattari para refletir sobre esta experimentação. Consideramos a Musicoterapia como um saber mestiço, híbrido e concluímos indicando que a experiência com o grupo musical nos permitiu refletir sobre algumas das for- mas de atuação e intervenção da Musicoterapia. Palavras chave: Musicoterapia; rizoma; saúde mental. ABSTRACT Music therapy and mental health: Report of an rhizomatic experience This paper has the aim to report a music therapy professional experience in the context of Psychiatric Reform. The experience began in a psychiatric institution situated at Volta Redonda, in the state of Rio de Janeiro and, later, it was transfered to a Psychosocial Support Center (CAPS). Music therapy working had as one of its consequences the creation of musical groupe with the CAPS services users. We based this paper with some notions from Deleuze-Guattari difference philosophy in order to reflect about this experience. We consider music therapy as an hybrid knowledge and we conclude to indicate that this musical groupe experience allowed us to think about some ways of acting with music therapy. Key words: Music therapy; rhizoma; mental health. INTRODUÇÃO mento em que a voz do usuário de serviços de saúde mental pudesse ser ouvida sem preconceitos. Este artigo tem o objetivo de relatar uma experiên- Neste artigo apresentamos a trajetória desta expe-cia profissional na área de Musicoterapia. A experiên- riência e nos perguntamos de que modo o grupo musi-cia que relataremos neste trabalho teve início na Casa cal Mágicos do Som nos leva a repensar as práticasde Saúde Volta Redonda (CSVR) onde uma de nós tra- em Musicoterapia no campo da saúde mental.balhava como musicoterapeuta. Neste contexto, nossotrabalho era desenvolvido com os usuários de serviçosde saúde mental ainda em internação psiquiátrica. A MUSICOTERAPIA NA CASA DE No campo da Reforma Psiquiátrica, o poder públi- SAÚDE VOLTA REDONDA – O SOM NOco municipal interveio na CSVR, um dos efeitos deste ESPAÇO-TEMPO DO MANICÔMIOencontro foi a criação do Centro de Atenção A Casa de Saúde Volta Redonda (CSVR), locali-Psicossocial (CAPS) Usina de Sonhos. Neste contexto zada em município de mesmo nome no sul do Estadofoi possível desenvolver um trabalho musicoterápico do Rio de Janeiro, é uma clínica psiquiátrica privadaque foi além das condições asilares e construiu uma que desde abril de 1994 está sob intervenção da pre-trajetória ousada. No âmbito do CAPS nosso trabalho feitura municipal. Esta intervenção ocorreu em funçãomusicoterápico levou à formação de um grupo – o de várias precariedades no atendimento ao usuário eMágicos do Som1 – que pretendia criar um funciona- irregularidades com os funcionários. Com o lema “Em
  2. 2. 140 Silva, R. S. da, & Moraes, M.Defesa da Vida”, a Secretaria Municipal de Saúde con- tava desestabilizar o lugar instituído da loucura. Portratou vários profissionais para promoverem a Refor- que prendê-los? Neste processo de desterritoriali-ma Psiquiátrica neste município. O slogan inicial pro- zação, essa linha de fuga pleiteava já a dissolvência dopagado era “Saúde não se vende, loucura não se pren- modelo manicomial para uma rede substitutiva dede”. A ousada proposta da equipe técnica, formada atendimento ao usuário de serviço de saúde mental. Apor psicólogos, assistentes sociais, musicoterapeuta, pretensão não era criar serviços que complementassempsiquiatras, enfermeiros e oficineiros2 era a de “des- o atendimento asilar, mas prescindi-lo totalmente.construir” o manicômio. As linhas mais observáveis eram as duras, extensi- Havia uma atmosfera de grande otimismo para vas, visíveis. Conviviam as linhas que demarcavam amudar as forças instituídas e territorializadas do hos- força dos instituídos da loucura com as linhas que sepício. As práticas de isolamento nas enfermarias fo- pretendiam de fuga, mas que também se apresentavamram invadidas por olhares e intervenções atentas da de forma identitária, conscientizadora... Mas haviaequipe que propunha dissolver a dinâmica cronificada espaços-tempos onde as intensidades pulsavam. Asdo funcionamento manicomial. O discurso da luta anti- assembléias foram uns dos espaços em que posterior-manicomial ecoou em todos os espaços de discussões, mente pudemos identificar como dos mais propulso-era o pulsar de uma empreitada que atravessaria nos- res de discussões que fragilizavam os enrijecimen-sos modos de trabalhar e de pensar a saúde mental. tos instituídos e institucionais. Eram assembléias dasMais do que um investimento do poder público muni- quais participavam todos os funcionários e todos oscipal, era uma aposta nas possibilidades de produção usuários. Os segmentos, os serviços, as atuações pro-de outras subjetividades, diferentes daquelas que ali fissionais, as queixas, os elogios etc., enfim todo o fun-predominavam: a do louco marginalizado, excluído, o cionamento da CSVR era problematizado. A Assem-sem razão. bléia era uma rede de conexões3 ocupando um espaço O primeiro projeto de musicoterapia da CSVR, de forma densa, mobilizando as formas e forças. As-escrito em abril de 1995, apresentava os objetivos de: sembléia era o momento em que as vozes eram“ propiciar a integração entre usuários e os assistentes ouvidas, mas não somente as alucinatórias, ou asatravés da música; facilitar a auto-expressão criativa, cronificadas das posições hierárquicas, eram as vozesatravés do sonoro-musical; promover a abertura dos cujos efeitos se produziam nas práticas quotidianas.canais de comunicação através de técnicas musico- Era uma tensão e reflexão, um contraponto numa ins-terápicas”. O grupo musicoterápico começou a acon- tituição quetecer na sala de Terapia Ocupacional. Antes de ingres- os aprisiona no tédio infernal do Mesmo, na re-sar no grupo o usuário era entrevistado com a ficha petitividade sem história , num eterno presente quemusicoterápica, uma espécie de anamnese sonoro- é em si a imagem cinza de uma morte sem desfe-musical preenchida pelo musicoterapeuta, com vários cho (Pelbart, 1993, p.20).dados de sua história sonoro-musical, isto é recorrenteem atendimentos musicoterápicos tradicionais. Pelbart (1989 e 1993) escreve sobre uma invenção Muitos componentes que posteriormente partici- da loucura na qual se produziu historicamente umapariam do grupo musical Mágicos do Som freqüenta- loucura inútil, capturada, impotente, cheia de manei-vam este grupo de musicoterapia na CSVR durante rismos e revestida de uma segregação implícita, estasuas internações. A técnica musicoterápica mais utili- segregação também produzida. Outros espaços nazada era a re-criação musical, que consiste num fazer CSVR flexibilizavam este lugar, produziam mudançassonoro-musical livre, sem a exigência de estética mu- de posição, insistência, resistência. Vozes, vontades,sical específica. O cantar como exercício de re-criar a devires.música e o dançar coletivamente são freqüentes no Tanto as assembléias quanto as sessões de musi-emprego desta técnica. coterapia eram tempos ocupados por espaços diferen- Ao mesmo tempo em que forças propulsoras de ciados e, concomitante, espaços ocupados por tempostransformação do modelo manicomial (as linhas de não aprisionados e isto era uma resistência. Porquefuga) atuavam, práticas cronificadoras (linhas rígidas, neste “lá” (local e tempo) encontravam-se falas quevisíveis e de abolição) atravessavam o tempo e o espa- se ouviam, sons que poderiam ser manifestos semço. O espaço era manicomial, um prédio de hospício. asilamento, fontes sonoras que escapavam de grades e Ainda havia uma ação calcada numa cisão entre transpassavam os muros. Espaços e tempos de discus-dentro e fora, provavelmente produzida por uma sões, de propostas, de acordos respeitosos a cadadicotomia visível das velhas práticas manicomiais que voz, a todas e aos silêncios. Era possível sentir estana CSVR foram encontradas. Afirmar esta discussão orquestração e pretender ocupar outros espaços comfora do espaço asilar era um movimento que se acredi- esta lógica inclusiva. Práticas homogeneizadoras ePSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
  3. 3. Musicoterapia e saúde mental ... 141disciplinarizantes são recorrentes na história da saúde Questionar se o louco seria capaz de escapar a suamental, contrariá-las é resistir e produzir diferenças. história seria um falso problema, ele está o tempo todoAcolher a diferença é resistir ao despotismo da predo- produzindo linhas de fuga, seja em seu fazer artístico,minância. Nas palavras de Pelbart: seja em sua alucinação ou delírio. São escapes, dis- Recusar a homogeneização sutil mas despótica em rupturas, acontecimentos muitas vezes não comparti- que incorremos às vezes, sem querer, nos disposi- lhados ou abafados pelos dispositivos institucionais e tivos que montamos quando o subordinamos a um institucionalizados de apreensão de possibilidades de modelo único, ou a uma dimensão predominante. diferir. Quanto à discussão filosófico-histórica sobre (Pelbart, 1993, p. 23) loucura; embora esta não seja um invariante histórico, Pelbart sublinha que ao mesmo tempo que criamos A forma do grupo de musicoterapia alcançou os uma identidade para o louco, tornâmo-lo inofensivo,objetivos propostos pelo projeto inicial, mas ainda es- inoperante no seu processo de desterritorialização.tava na forma, era possível improvisar, expressar, to- O que escapa à história não é o eterno, mas o quecar, cantar, dançar, mas estávamos ali no espaço asilar, Nietzsche chamou de intempestivo ou inatural,compreendidos nesta linha de abolição, era uma fuga Foucault de atual, Deleuze de devir, ou aconteci-logo capturada. Os usuários de serviços de saúde men- mento. (Pelbart, 1993, p.83). [E mais adiante o au-tal, internados na CSVR, saíam da sessão e voltavam tor pergunta:]: “Será que a libertação do louco nãopara a enfermaria. Aquilo era incômodo, estranha- corresponde, no fundo, a uma estratégia de homo-mento, revolta, captura e submissão. geneização do social? (Pelbart, 1993, p.104). “Não é inútil lembrar que o tempo da criação artís-tica ou do pensamento também exige algo dessa or- Presenciamos uma tentativa homogeneizadora, umdem. Do dar tempo e paciência para que o tempo e a despertar de aforismos intelectuais que engendram umforma brotem a partir do informe e do indecidido”. saber despótico sobre a loucura, trata-se de uma sufo-(Pelbart, 1993, p.36 ). A idéia do grupo musical não cação de devires, provavelmente aspirada pela apro-surgiu no manicômio. Os internos despotencializados, priação indébita do que lhe é fortuito, a desrazão. Masmedicados, sonolentos, compartilhavam daquele mo- em ritornelos existenciais4 sempre há um espaço-tem-mento. Assim se expressavam e eram ouvidos. po para criar novas formas. Onde pensamos não ha- ver espaço podemos criá-lo, mas não com um saber A primeira coisa que chama a atenção de um visi- homogeneizante, talvez com um não-saber calcado no tante num hospital psiquiátrico é essa lentificação, que há de mais simples e, no entanto, mais complexo, esse ritmo específico, esse regime temporal dife- a experimentação. Experimentar, experienciar, presen- renciado. Sim, às vezes isto se deve aos efeitos dos ciar, presentificar; estamos falando de conviver, mis- psicofármacos, às vezes à lentidão burocrática das turar-se, confundir-se heterogeneamente e descobrir grandes instituições... (Pelbart, 1993, pp. 39-40) diferenças antes impensadas. Outras formas de criar A experimentação do trabalho musicoterápico pre- diferenças, produzi-las, ou simplesmente deixar quetendia produzir intensidades naquelas vidas tão parali- elas brotem rizomaticamente como erva proibida, aosadas, medicadas, rotineiras, com poucas perspectivas mesmo tempo desejada e reprimida. Sempre há tantase surpresas, rotinas cortadas por crises logo abafadas. forças em sintonia, tantas pragas de coerção, mas aEmbora as aparências de sonolência e lentidão esti- estranheza da desrazão permite escapar a esta clausuravessem mais visíveis, nem a internação, nem a crise, da inconsistência.nem a medicação continuariam da mesma forma por Pelbart (1993, p. 95) afirma que a modernidadetodo o tempo; esta era uma esperança, apostar nos capturou o estranho, domesticou-o. Ele sublinha a im-devires, embora muitas vezes imperceptíveis. Os rit- portância do Pensamento do Fora que seria a expe-mos não se aglomeram nem se decompõem, eles coe- riência que se dá no Desconhecido. O autor acrescentaxistem, se misturam no tempo, a música se dá no tem- que “o Pensamento do Fora é aquele que se expõe àspo e atravessa espaços. A única forma de reter a músi- forças do fora que transforma a Força em intensidade”ca de um momento é na memória, este é um legado. E (Pelbart, 1993, p. 96). O poder despótico da razão emaquelas pessoas internadas guardavam algo em suas nossa cultura ocidental e o enclausuramento dos lou-memórias. Apreciar as histórias contadas nas sessões, cos a partir do século XVII nos remete a várias ques-sem se preocupar com sentidos ou verdades era um tões sobre o porquê da insistência do modelo mani-exercício no tempo, como ocorre na música. Embora comial, ainda que este modelo tenha se mostrado im-as linhas de fuga, de desterritorialização fossem rapi- procedente para muitos autores. Pelbart lembra quedamente capturadas pela máquina manicomial, as en- “enquanto a cidade trancafiava os desarrazoados, ogrenagens apresentavam falhas propulsoras de devires. pensamento racional trancafiava a desrazão e ainda PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
  4. 4. 142 Silva, R. S. da, & Moraes, M.afirma que “é preciso recusar o império da Razão” to para a Experiência como para a Arte... duas faces(Pelbart, 1993, pp. 106-107). Para isto, precisaremos da mesma moeda. (Pelbart, 1989, p.107)mudar muitas coisas. Os trabalhadores, usuários, mili- Produziu-se nas sessões um som louco, diferentetantes, familiares, todos os que estão direta ou indi- do som do louco, com todas as possibilidades de trans-retamente envolvidos com a saúde mental, podem se gressões de ordem estética, várias matizes sonoras,beneficiar com esta discussão, posto que a escravidão uma loucura desarrazoada e alegre, uma experimenta-em relação à lógica racionalista não leva apenas ao ção não marcada pelos muros manicomiais que impu-enclausuramento do louco, mas a outros aprisiona- tam à desrazão. Para se estar fora é preciso se implicarmentos. nestas possibilidades criativas que a arte, a paixão Pelbart em duas de suas obras (1989 e 1993) e a loucura proporcionam, experiência-limite, limiaraprofunda a discussão do Fora em relação à loucura e de desterritorialização. Processos de territorialização,à desrazão. desterritorialização e reterritorialização são propulso- Enquanto a desrazão era afetiva, imaginária e res da dança existencial do ritornelo. Podemos nos atemporal, a loucura será temporal, histórica e so- considerar não loucos, mas não precisamos abandonar cial. É assim que no próprio momento em que a as possibilidades da desrazão. desrazão é silenciada, a loucura é exibida de for- Poderíamos dizer que a viagem musical proposta ma organizada e explícita, no escândalo de suas seria uma viagem para algo diferente da loucura ins- formas e, por trás das grades, numa distância pro- tituída, um entre, uma possibilidade de diferir. Uma tegida. (Pelbart, 1989, p.60) abertura para o Fora é, não necessariamente a loucura aprisionada pela história, mas sim uma desrazão des- Não foi possível enclausurar a desrazão, esta não territorializante da loucura instituída. A loucura não éconfigura uma antítese à razão. Podemos chamar de a única manifestação da desrazão, a loucura seria ape-Fora uma experiência-limite que tangencia os limites, nas uma clausura do Fora. Pelbart (1989) fala de umamas se encontra no entre . Blanchot ( apud Pelbart, p. liberação da desrazão como uma importante modifica-98) chama de O Fora o que está exposto às forças não ção nas modalidades de relação com o Fora. “A loucu-visíveis, a relação com o estranho, a alteridade. Do ra é, com efeito, uma viagem para Fora, um vagar nomesmo modo não é possível enclausurar a música, ain- aberto”(Pelbart, 1989, p. 138).da que ela possa ter uma estrutura, uma melodia, uma Esta discussão profícua entre desrazão, loucura eharmonização, um ritmo, algo sempre pode escapar. Fora remete às forças que engendram os dispositivosQuando se produzia um som, por exemplo, nas ses- de libertação do louco de tantas clausuras, diremos quesões de musicoterapia da CSVR , articulavam-se co- este movimento na Reforma Psiquiátrica assume o an-nexões cujos efeitos abriam linhas. Nesse movimento damento musical de allegro ma non tropo, um anda-não existia um certo ou errado, não havia exigência mento vibrante, porém ainda lento.estética, existiam possibilidades estéticas, éticas e po-líticas, forças e formas. Deleuze afirma que “Nas ar-tes, tanto na pintura como em música, não se trata de O MUSICOTERAPEUTA-MESTIÇO Ereproduzir ou inventar formas, mas de captar forças...” CARTÓGRAFO SONOROe complementa que “ a tarefa da música- diria Klee- é O lugar de musicoterapeuta tradicional, o lugar dea de tornar sonoras forças insonoras... por exemplo o terapeuta, de psicóloga, passaram por uma estranhezaTempo, que é invisível e insonoro...” (Deleuze apud na experimentação do Mágicos do Som. Não mais sa-Pelbart, 1989, p.103) Que forças insonoras foram beríamos em alguns momentos que lugar estávamostangenciadas por este trabalho musicoterápico? As for- ocupando, estávamos caminhando no entre das posi-ças não são visíveis, embora não deixem de ser per- ções, num u-topos, um não lugar. Era uma mistura,ceptíveis. As formas podem ser visíveis. existia uma relação respeitosa entre nós, mas não hie- As sessões de musicoterapia na CSVR, juntamen- rárquica e/ou segregadora.te com o dispositivo de assembléia, ocuparam um lu-gar em potência de vida naquele manicômio. Os movi- Pouco em equilíbrio, e também raramente emmentos de construção/produção de formas e suas desequilíbrio, sempre desviado do lugar, errante,desconstruções reverberaram no CAPS Usina de sem moradia fixa. Caracteriza-o o não lugar, sim,Sonhos. o alargamento, portanto a liberdade ou, melhor Quando a arte se coloca à disposição das forças de ainda, o desaprumo... (Serres, 1993, p. 20)um modo específico, ela entra em contato, através do Com o trabalho com o grupo musical Mágicos doestremecimento daí resultante, com um fora do quadro Som podemos dizer que ocupávamos o não-lugar, istoe um fora da arte- com o Fora. Fora e forças são... tan- é, o lugar do limiar, do entre cujo sentido não é o dePSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
  5. 5. Musicoterapia e saúde mental ... 143falar pelos outros ou de estar no lugar dos outros. A que se movem. Uma rede móvel construída em cadaproposta era a de que os usuários de serviços de saúde contato, em cada aproximação e afastamento. A apren-mental pudessem ocupar os lugares que eles escolhes- dizagem do Mágicos do Som abriu no corpo da mu-sem, conquistando seus interesses. Esta também era, e sicoterapia um lugar de mestiçagens. Mestiçagens comainda é, uma prerrogativa da Luta Antimanicomial. Se a estética da música, com outras estéticas, mestiçagensnós nos propuséssemos a ocupar o lugar do usuário do setting musicoterápico.estaríamos construindo uma relação manicomial e Eis o novo. Não mais ingenuamente oposta ao dia,sufocando a voz do usuário, ao invés de promover o como a ignorância ao conhecimento – que belacontrário. chance é o ritmo nictemeral para aquelas simples e Ele, o lugar mestiço, se semeia no tempo e no es- cruéis divisões entre o erro e a verdade, a ciência e paço. No meio da janela que atravessa, o corpo os sonhos, o obscurantismo e o progresso... (Ser- sabe que passou para fora, que acaba de entrar em res, 1993, p. 53). outro mundo (Serres, 1993, p. 18). O lugar mestiço que ocupamos com o Mágicos do MESTIÇAGEM – HÍBRIDOS-ACTANTESSom deu-se a partir de nossos encontros. Mestiço por-que permaneceu num entre. A experiência de estar nes- Evocamos um tema já problematizado por Chagaste lugar provoca uma sensação de que este é o limiar (2001), quando discute a Musicoterapia como profis-que se ocupa em todas as experiências profissionais são híbrida, na complexidade do exercício de uma prá-de um terapeuta. “Toda evolução e todo aprendizado tica profissional entre fenômenos de hibridação e deexigem a passagem pelo lugar mestiço” (Serres, 1993, purificação. A Musicoterapia está na tentativa de sep. 19). estabelecer enquanto categoria profissional dentre Na produção do Mágicos do Som os lugares não outras já existentes na contemporaneidade, o desafioestavam dados ou já constituídos, ocupávamos luga- de práticas que navegam entre a modernidade e ares mestiços, funcionávamos de modo rizomático, sem contemporaneidade. Os humanos e, ao mesmo tempo,que houvesse um centro unificador do qual partissem não humanos presentes na produção do grupo musicalas decisões. Nas palavras de Serres: em questão compõem a rede de actantes. Híbridos ou actantes constituem os nós dessa rede, que através ... o lugar mestiço, em torno do qual bate o ritmo e dos encontros, dos agenciamentos das multiplicidades, vibra a música. (p.31) Onde soa o centro do pia- configuram os engendramentos do “modelo de acopla- no? Em torno do terceiro lá? Ouça o xis ou o ixe mento ou hibridação, em que se parece apostar numa da escala ascendente da esquerda para a direita, e espécie de estrutura ou funcionalidade híbrida” (Pe- encontre, nas proximidades de algum meio, a cas- dro, 2003, p.167 ). Cada actante, uma construção aber- cata de notas escorrendo do alto para o baixo; es- ta, se transformava com as produções dos agencia- cute a quimera e o ponto de encaixe. Neste ponto, mentos na história, ao mesmo tempo contínua e des- vernal, jaz a encruzilhada... (Serres, 1993, p. 25) contínua do grupo Mágicos do Som. A experiência do Mágicos do Som e tantas outras, ... pensar a partir dos coletivos, do que nos ligaincitam a acreditar que possamos fazer algo mais, aos não-humanos, tem por objetivo estratégicocriar coletivamente novos modos de trabalhar. “... nada abrir espaço para que possamos problematizar nos-aprendi sem que tenha partido, nem ensinei ninguém sa própria constituição – enquanto sujeitos, en-sem convidá-lo a deixar o ninho ... Quem não se mexe quanto humanos – e transformação, na medida emnada aprende” (Serres, 1993, p. 14). que somos transformados por aquilo que aprende- O Mágicos do Som partiu, partiu de si enquanto mos (Pedro, 2003, p. 175-176).usuários, do manicômio, do lugar, do tempo enclausu-rado. O grupo se mexeu e detonou um aprendizado, Serres nos esclarece sobre o campo de possibilida-multiplicidade, intensidade. des nas multiplicidade destes processos de mestiça- gens quando afirma que “estamos imersos numa espé- Esquece sua própria terra, sobe, viaja, vagueia, cie de “oceano de possíveis”, cujo alcance e direção conhece, observa, inventa, pensa. Não repete mais. não podemos saber de antemão, e no qual estamos Eu penso ou eu amo, portanto eu não sou; eu pen- aprendendo a navegar” (apud Pedro, 2003, p. 177). so ou eu amo, portanto eu não sou eu; eu penso ou eu amo, portanto eu não estou mais aí. Zarpei do ser-aí. (Serres, 1993, p. 39). O MÁGICOS DO SOM Aprendizagem mestiça, aprendizagem de um lugar No CAPS Usina de Sonhos um grupo processaque se move, de relações que se movem, de instituídos rizomaticamente criação e contágio, inventando cole- PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
  6. 6. 144 Silva, R. S. da, & Moraes, M.tivamente um modo de operar seus sonhos e sua caminhar o funcionamento do Mágicos do Som pro-musicalidade. “A música nunca deixou de fazer pas- duziu uma dinâmica onde todos os envolvidos fugiamsar suas linhas de fuga, como outras tantas ‘multiplici- do lugar instituído, era uma composição louco-músi-dades de transformação’... ” (Deleuze e Guattari, 2004, co, um devir músico no louco e um devir louco nop.21). O grupo musical Mágicos do Som pode ser con- músico. “Não há um termo do qual se parta, nem umcebido como uma composição contemporânea; que ao qual se chegue ou ao qual se deva chegar... Pois ànão totaliza, heterogênea, deixando passar suas linhas medida que alguém se transforma, aquilo em que elede fuga, tentando desterritorializar o instituído da lou- se transforma muda tanto quanto ele próprio” (Deleuzecura. Desterritorialização como um movimento que e Parnet, 1998, p.8). Uma transição em movimento,deriva do território, mas que harmoniza com este, uma um caminhar no entre, um híbrido que expressava suarepetição da diferença no ritornelo. música e ampliava sua voz e seus sonhos, um concerto Há uma função desterritorializante da música, que de intensidades, musicalmente interagindo em propul- lhe permite transversalizar, e atravessar diversos são de contágio. O fluxo molecular com suas “linhas modos de subjetivação, ou diferentes ‘mundos flexíveis, devir... operando aberturas para um campo próprios’ – esta é uma das funções da arte como de multiplicidades” (Neves, 2002, p.45). Cada som dos um todo. Mas esta qualidade, a música a tem em instrumentos, cada opinião nas discussões, cada crise maior grau. (Rauter, 1998, p.162). constituía-se num repensar, refazer, refletir as práticas. Cada ator fazendo conexão com os outros. As regras Composição que opera um caminhar no entre, eram construídas na experiência, a partir de acordospassagens, rupturas, criação, estado de coisas e fuga. coletivos após discussões. Uma experimentação deComo uma fuga musical, melodias que criam movi- “processualidade onde a variação é contínua e as rela-mentos, escapam e harmonizam. Dissonâncias não ções são produzidas por conexões de fluxos intensivosdicotômicas, sem binarismos, ritmo assimétrico. e heterogêneos” (Neves, 2002, p. 46). O desejo de criar um grupo musical emergiu emmeio aos encontros dos usuários deste CAPS com assessões de Musicoterapia, com os instrumentos musi- RIZOMA – COMPOSIÇÃO MICROPOLÍTICAcais, com as práticas de assembléias em que todos po- E SUAS RESSONÂNCIASderiam expor suas idéias e estas eram compartilhadas. A música não se detém no espaço. A música acon-Este desejo de criar um grupo musical foi se agencian- tece no tempo, ela se constitui em sons e silênciosdo com uma busca coletiva de levar adiante ideais de concomitantes. Assim também se constituem os doisafirmação de uma potência de vida em detrimento a planos indissociáveis, o plano molar e o molecular,uma visão segregadora e impotente direcionada a estes são “dois modos de recortar a realidade” eles seusuários de serviços de saúde mental. “O agencia- atravessam o tempo todo e correspondem ao quemento é a liga do desejo na produção de mundos. Ele Rolnik chama “duas formas de individuação, duaspõe, em cena, os funcionamentos e os movimentos espécies de multiplicidades, ... duas políticas” (Rolnikarborescentes e rizomáticos do desejo nesta produção” apud Neves, 2002, p. 45). O molar corresponderia ao(Neves, 2002, p.112). O Mágicos do Som desejava plano das formalizações, “plano da segmentaridaderomper com o instituído da loucura, esse era o sonho, dura, do visível, dos processos constituídos” ... e oconstituir-se como qualquer grupo musical fora da molecular ao plano das intensidades, “plano da forma-construção da loucura. Eles queriam um outro lugar, o lização do desejo, do invisível, ... nele temos a predo-de músicos. Eles acreditaram nessa ousadia e constru- minância das linhas flexíveis-fluxos, devir” (Rolnikíram coletivamente uma dinâmica de funcionamento, apud Neves, 2002, p.45).engendrando possibilidades de expansão de territórios O plano macropolítico ressoa/afina-se com o mo-existenciais. Seguindo o fluxo molar, o “plano da lar assim como o platô micropolítico ressoa/afina-sesegmentaridade dura, do visível, dos processos consti- com o molecular e ambos podem ser audíveis numatuídos...” (Neves, 2002, p.45), podemos dizer que o harmonia contemporânea sem que as dissonâncias se-grupo musical foi se constituindo a partir de vários jam consideradas desafinação. Como um acorde comagenciamentos: com o poder instituído do CAPS, com a sétima nota, a dissonância é constitutiva.o Poder Público Municipal e o apoio para gravar um Na ocasião em que o grupo Musical Mágicos doCD, para fazer um vídeo-clipe da música de trabalho e Som começou a funcionar, neste contexto, em confor-com os recursos para apresentações em vários municí- midade com os ideais da Reforma Psiquiátrica, erapios. Estes agenciamentos produziram de um lado a recorrente a discussão acerca da necessidade devisibilidade do grupo através da mídia local e de outro reinserção social dos usuários de saúde mental atravéslado, o apoio de mais pessoas da comunidade. No seu de dispositivos como a música. As idéias de reabilita-PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
  7. 7. Musicoterapia e saúde mental ... 145ção psicossocial estiveram presentes de modo mar- próprio caminhante como parte do caminho (pensa-cante na literatura sobre saúde mental no Brasil. mento taoísta). As dicotomias, dualismos, binarismos No entanto, algumas discussões teóricas problema- são dispensáveis no funcionamento rizomático. A gra-tizam a concepção binária (incluído × excluído) pre- ma brota e se espalha pelo meio. “As multiplicidadessente neste campo e propõem um modo de pensar a são rizomáticas e denunciam as pseudomultiplicidadessaúde mental longe das dicotomias, cartografando as arborescentes” (Deleuze e Guattari, 2004, p.17).forças que engendram o funcionamento dessa máqui- A idéia de multiplicidade substantiva, diferente dana, incitando forças propulsoras de disrupção do insti- idéia de múltiplo adjetivado, nos remete a pensar otuído da loucura para o escape da linha de fuga da rizoma com inexistência de unidade que sirva de pivô,desrazão. Conceber a pertinência da desrazão se cons- ou estrutura, ou divisão a priori entre sujeito e objeto.titui numa necessidade ao lidar com a loucura. Corte- Formam-se dimensões que se agenciam e mudam defluxo, variações intensivas, diferença produzindo di- natureza. “Um agenciamento é precisamente este cres-ferença. Talvez seja possível afirmar que no grupo cimento das dimensões numa multiplicidade que mudamusical Mágicos do Som ocorreu um movimento no necessariamente de natureza à medida que ela aumen-sentido da reinserção psicossocial. Porém, é preciso ta suas conexões” (idem, p. 17).salientar que este movimento não seguiu um roteiro Bruno Latour (1994), antropólogo francês, faz usopreviamente estabelecido, ao contrário ele foi produ- da noção de rizoma quando lança as bases da teoriazido de modo imanente e não dicotômico. Os binômios ator-rede. O autor trabalha com a noção de rede e su-terapeuta-cliente, normal-anormal foram se desconfi- blinha a importância da articulação entre humanos egurando e se constituíram num funcionamento rizo- não humanos na produção de efeitos em rede. Subjeti-mático. vidade e objetividade são para o autor efeitos das arti- culações entre humanos e não humanos. Uma rede éFuncionamento rizomático: improvisação um plano de conexões, de agenciamentos no qual astonal e atonal ao mesmo tempo diferenças se produzem. Na construção do Mágicos Um rizoma é feito de platôs, mas há composições do Som, os actantes usuários de saúde mental co-tonais, há dimensões, mas sem totalizações. As linhas nectaram-se com a música, com os instrumentos musi-constitutivas do rizoma podem ser tanto de segmen- cais, com os poderes instituídos... e esta rede compôstaridade, de estratificações, onde o estado de coisas uma música contemporânea por esses agenciamentos/forma constructos visíveis, quanto de fuga ou de conexões. Em cada um desses actantes conectados,desterritorialização, as quais abrem brechas às forças novas perspectivas, novos funcionamentos foram en-do caos. Um movimento do ritornelo. Há entradas por gendrados.qualquer parte do rizoma e as saídas sempre são múlti- “Como multiplicidade substantiva que comportaplas. Porque rizoma é um rio que rói suas margens e termos heterogêneos, o agenciamento estabelece entreganha velocidade pelo meio (Deleuze e Guattari, 2004, os termos relações diferenciais imanentes, de modop. 37). Ele “procede por variação, expansão, conquis- que um termo da relação não se torna outro, se o outrota, captura, picada” (Deleuze e Guattari, 2004, p. 32). já não se tornou outra coisa” (Neves, 2002, p.112). NoUm rizoma é um sistema a-centrado que rejeita qual- grupo musical Mágicos do Som, as lideranças, os pa-quer modelo estrutural, não hierarquizado, mas pode péis, as funções, todas as formas apresentavam varia-se propagar de forma fascista, o enrijecimento da for- ções ao longo do percurso. A cada apresentação musi-ma ou uma priorização de um dos elementos do terri- cal fazíamos uma reflexão sob todos os aspectos des-tório, ou mesmo a idéia de uma estrutura profunda e ta. Utilizando música, palavras e sons, compartilháva-lideranças apoteóticas podem produzir um rizoma de mos as diferenças, sem idealizações, apenas pela pos-funcionamento fascista. Torna-se necessário que a sibilidade de estarmos nessa convivência de formaheterogeneidade não sucumba a uma idéia de homo- prazerosa, sem nos perguntarmos quem era o terapeutageneização, tentativa de um acorde perfeito maior e quem era o cliente, ou quem era o normal e quemidealizado. “O rizoma é o método do antimétodo, e não o era. Transformávamos a nossa forma de atuar,seus ‘princípios’ constitutivos são regras de prudência de conviver, de pensar e de interagir. Na multiplicidadea respeito de todo vestígio ou de toda reintrodução da não há necessidade de unidade. Não há necessidadeárvore e do Uno no pensamento” (Zourabichvili, 2004, de divisão entre uno e múltiplo.p.99). Há que se caminhar sob os cuidados da prudên-cia nas construções coletivas, olhar atento sob as len- Um rizoma não cessaria de conectar cadeiastes polidas pela ética. Remeter-se a ética como uma semióticas, organizações de poder, ocorrências quelanterna numa estrada ao caminhar. Porque funcionar remetem às artes, às ciências, às lutas sociaisrizomaticamente é construir o caminho no caminhar, o (Deleuze e Guattari, 2004, p.15-16). PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
  8. 8. 146 Silva, R. S. da, & Moraes, M. O SOM DO RITORNELO5 nelo quando o agenciamento é sonoro ou ‘dominado’ pelo som. (Deleuze e Guattari, 1997, p.132). Um caldeirão caótico musical configurava as ses- Ritornelo é o retorno. Em teoria musical, tem asões de musicoterapia no CAPs Usina de Sonhos, uti- função de repetição. É um símbolo que demarca deter-lizávamos predominantemente a técnica de re-criação minado trecho que deverá ser repetido, sendo necessá-musical, na qual as regras estéticas da música não são rios dois sinais para fazer essa delimitação na partitu-priorizadas e a expressão sonoro-musical brota con- ra (de abertura e fechamento do trecho). Ele facilita aforme o pulsar da musicalidade. O desafio de produzir escrita musical por não ser necessário que se reescre-o grupo musical Mágicos do Som, um desvio que dife- va a parte que se quer repetir. Mas a repetição no fazerrenciava a relação com a música; uma organização musical não acontece de forma absoluta, posto que adessa musicalidade expressiva caótica para uma cada repetição, novos componentes musicais e inter-formatação estética que permitisse a expressão musi- pretativos são expressos. Como já escrito anteriormen-cal para apresentações em público. Uma ordenação vi- te, essa repetição expressada na música Preconceito,sível da musicalidade emergente. Em discussões cole- marcava ao mesmo tempo uma sonata e uma fuga, umativas, acordou-se que o grupo se propunha a tentar sonata que propunha uma forma previsível e uma fugamodificar a idéia estigmatizada sobre os usuários de ser- que incitava uma mudança de lugar, um deslocamen-viços de saúde mental, eles gostariam de apresentar ao to. De louco e músico todos nós temos um pouco, é opúblico seu ideário contra o preconceito que identifica- que diz o ditado popular, mas quando o músico e ovam nas suas relações com as outras pessoas ditas nor- louco se instauram num híbrido e se expressa confor-mais. Neste contexto, surgiu a primeira música, que du- me lhe convém, as noções de diferença e igualdade,rante todo o período que estivemos juntos foi repetida em ou a heterogeneidade da proposta toma uma certatodas as apresentações. Samba composto e cantado por ousadia. Repetia-se este canto como num ritual, era aRegina Serrão,6 componente do grupo. A música de tra- marca do grupo, este canto, este cantar, este encantar.balho do primeiro CD – intitulado Saúde Musical – erauma música protesto, manifesto, expressão e apelo. Esta não foi a única música composta pelos com- MOVIMENTOS DO RITORNELOponentes do grupo, mas era a mais executada nas apre- O ritornelo possui três movimentos: territoria-sentações e se repetia como uma marca que expressa- lização, desterritorialização e reterritorialização. Eleva o ideário do grupo. Na letra desta música busca-se os torna simultâneos ou os mistura: ora, ora, ora. Asuma aceitação, mas seria a aceitação de uma diferen- forças do caos se organizam, cria-se uma ordem, umça? Uma tentativa de igualdade “somos bem pareci- traço de ordenação de um espaço-tempo. Mas estados...” ou um protesto contra os fluxos de segregação ordem não é homogênea, há algo de desorganização.ao usuário de serviço de saúde mental? Esta composi- O território abriga em si forças cósmicas de abertura.ção sintetiza sem homogeneizar a idéia, sem fechar, Em algum momento insurge a improvisação, o lançar-uma voz, várias vozes, uma polifonia. Como a própria se, no qual as forças presentes movimentam-se des-música incita “ você não tem o direito de me querer territorializando as antes instituídas. Forças de trans-aprisionado”, um exercício de buscar o significado da formação. Cria-se, modifica-se a ordem acessando asmúsica nos parece enfraquecedor de sua potência, não forças do caos. Mas este movimento de desconstrução,buscamos uma representação. em algum espaço-tempo, reterritorializa-se. Forças O grupo surgiu no contexto da luta antimani- centrífugas e centrípetas redimensionam e propõemcomial, uma luta que não se detém em acabar com os outra organização, ou melhor, outro arranjo, que não émuros dos hospícios, mas acabar com o enclausu- mais o anterior, mas contém algo dele.ramento da desrazão, acabar com o instituído da ver- O ritornelo é o próprio princípio gerador de movi-dade sobre a loucura e acabar com a lógica antagônica mento, através das composições de forças dos fluxosque propõe uma segregação sobre uma forma de pen- desejantes. O ritornelo não é outra coisa senão umsar a realidade e de vivê-la que não seja uniforme, movimento de retorno da diferença. O desejo manifes-formatada, extensiva. ta-se em ciclos, em ondas, com velocidades e intensi- Deleuze e Guattari buscam na música o conceito dades diferentes. O ritornelo é o desejo que flui. “Asde ritornelo para pensar o fenômeno de territoria- forças da desordem (as do caos), as forças terrestreslização. O ritornelo pode ser definido como: todo con- (que implicam uma marcação territorial) e as forçasjunto de matérias de expressão que traça um território, cósmicas; tudo isso se afronta e concorre no ritornelo”e que se desenvolve em motivos territoriais, em pai- (Deleuze e Guattari, 1997, p.118). Nesse pulsar de umsagens territoriais (há ritornelos motores, gestuais, manifesto, ouve-se uma sonoridade impune, um pro-ópticos, etc.). Num sentido restrito, falamos de ritor- testo que seduz. Um canto de pássaro que marca seuPSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
  9. 9. Musicoterapia e saúde mental ... 147território e é conhecido por este canto. Não há um dizer Latour, B. (1994). Jamais fomos modernos. São Paulo: Ed. 34.sobre a loucura que a totalize e quanto a arte, há o escape, Moraes, M. (2006). A ciência como rede de atores: ressonâncias filosóficas [online]. Hist. ciênc. saúde-Manguinhos, 11, 2, pp.o escape da desrazão, talvez, por vezes, aprisionada ou 321-333, maio/ago. 2004 [citado 09 de março 2006]. Disponí-contida em formas de produção de subjetividade capi- vel em: <http://www.scielo.br/scielo.php>.talista. Cantar a diferença, repetir a diferença, brincar Moraes, M. (1998). Por uma Estética da Cognição: A Propósitocom a diferença, desejar a diferença, produzir a dife- da Cognição em Latour e Stengers. Informare, 4, 1, 49-56.rença, diferenciar a produção... esta foi a ciranda na Neves, C.E.B. (2002). Interferir entre desejo e capital. [Tese deconstrução do grupo musical Mágicos do Som. Doutorado], Departamento de Psicologia Clínica, PUC-SP, São Paulo. Pelbart, Peter P. (1993). A nau do tempo-rei: 7 ensaios sobre o CONCLUSÃO tempo e a loucura. Rio de Janeiro: Imago. Pelbart, Peter P. (1998). Da clausura do fora ao fora da clausura- O grupo musical Mágicos do Som produziu um loucura e desrazão. São Paulo: Brasiliense.diferencial nas práticas muscoterápicas tradicionais. Pedro, R. M. L. R. (2003). Reflexões sobre os processos deVoltou-se sobre os muros manicomiais na busca de subjetivação na sociedade tecnológica. In: Machado, J. A. S.substituí-los por outras formas de atuação, ampliou o (Org.). Trabalho, economia e tecnologia: novas perspectivas para sociedade global. São Paulo: Práxis.setting ou criou outros settings. Uma dinâmica de fun- Rauter, C. (1998). Clínica do esquecimento: construção de umacionamento que acreditamos permite-nos inventar no- superfície. Tese (Doutorado). PUC São Paulo, São Paulo.vos modos de trabalhar em Musicoterapia, apostando Serres, M. Filosofia Mestiça. (1993): Nova Fronteira.nos coletivos heterogêneos e nas linhas que forem se Zourabichivili, F. (2004). O vocabulário de Deleuze. Rio de Ja-desenhando a partir das experimentações. Expandir a neiro: Relume Dumará.clínica musicoterápica ou produzir desvios a partir de Notas:fluxos inesperados, construindo settings além de con- 1 Várias pessoas compuseram o grupo musical Mágicos do Som no períodosultórios de saúde mental. Uma clínica no espaço da de 1997 à 2003, são eles: José Antônio Pátio Filho, Maria Lúcia Jacinto, Regina Lúcia Serrão, Jorge Luiz Silva, Josias Moraes, Hélio Cirineu, Se-vida ou um espaço de vida na clínica. bastião Venâncio, Rosiléia Cândido, Marco Antônio da Costa Marques, A construção mestiça da música, a nossa experi- Carlos Nilson Mendes, Wanderley Brasil, Gilmar, Aridéia, Rinaldo, Márcia Ferreira, Marco Aurélio, Sônia Maria, Vera Gonçalves. E também Donamentação mestiça no grupo, permitiram-nos uma mis- Cida, Jurema e Fernanda (familiares) e Raquel Siqueira (musicoterapeuta). 2 Os profissionais de nível médio que desenvolviam oficinas artesanais eramtura capaz de transgressões e ousadias. Desvios, pos- chamados de oficineiros.sibilidades de lidar com os grupos sem a segmen- 3 Conforme Moraes (1998) a noção de rede “não remete a nenhuma entidade fixa, mas a fluxos, circulações, alianças, movimentos. A noção de rede detaridade das hierarquias enrijecidas dos modelos atores não é redutível a um ator sozinho nem a uma rede. Ela é composta demanicomiais. Um dos efeitos da produção do Mágicos séries heterogêneas de elementos, animados e inanimados conectados, agen- ciados. Por um lado, a rede de atores deve ser diferenciada dos tradicionaisdo Som para as práticas musicoterápicas foi a aposta atores da sociologia, uma categoria que exclui qualquer componente não-nos encontros das multiplicidades e nas produções de humano. Por outro lado, a rede também não pode ser confundida com um tipo de vínculo que liga de modo previsível elementos estáveis e perfeita-mais mestiçagens como artifício para o diferir como mente definidos, porque as entidades da quais ela é composta, sejam elas naturais, sejam sociais, podem a qualquer momento redefinir sua identida-potência de vida. Potência de criação, possibilidades de e suas mútuas relações, trazendo novos elementos para a rede. Nestede inventar modos de trabalhar, criar modos de estar e sentido, uma rede de atores é simultaneamente um ator cuja atividade con- siste em fazer alianças com novos elementos, e uma rede que é capaz deatuar no mundo, convivendo com as produções hete- redefinir e transformar seus componentes”. 4 Abordaremos este conceito mais adiante, aqui referimo-nos à Deleuze quan-rogêneas. E que não se restrinja este modo de pensar do escreve: “Lembremo-nos a idéia de Nietzsche: o eterno retorno comoà relação dos usuários dos serviços de saúde mental pequena cantilena, como ritornelo”. (1997, p. 159-160) 5 Agradecemos a Rosana Saldanha Silva cuja parceria permitiu que escrevês-apenas em suas comunidades. Que estes e outros mo- semos este trecho do artigo que versa sobre o conceito de ritornelo.dos de trabalhar possam ser utilizados em outras arti- 6 Preconceito: Autora: Regina Serrão. Preconceito é besteira/Seja de raça ou de cor/Seja de perto ou de longe/O que vale é o amor/Essa idéia afasta,culações, outros agenciamentos, outros encontros de separa, ignora/Causa dor e sofrimento/Só o sabe quem o sente/Dói bastante dentro da gente/ Não somos perigosos/Muito menos desumanos/Temos di-multiplicidades substantivadas que somos nós. A pro- reito à vida/Temos direito ao amor/Podemos parecer diferentes/Podem nospulsão Mágicos do Som ainda reverbera. O pulso ain- achar esquisitos/Com paciência mostramos/Que somos bem parecidos/O amor é uma virtude/Preconceito um pecado/Você não tem o direito/De meda pulsa. querer aprisionado. Autoras: Raquel Siqueira da Silva – Psicóloga. Especialista em Musicoterapia pelo REFERÊNCIAS Conservatório Brasileiro de Música. Coordenadora do curso de graduação em Musicoterapia do Conservatório Brasileiro de Música. Mestranda no Progra-Chagas, M. (2001). Musicoterapia desafios da interdiscipli- ma de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense. naridade entre a modernidade e a contemporaneidade. [Dis- Marcia Moraes – Doutora em Psicologia Clínica, PUC-SP. Professora do Pro- sertação de mestrado], EICOS, Universidade Federal do Rio grama de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense. E-mail: mmoraes@vm.uff.br de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ.Deleuze, G., & Guattari, F. (2004). Mil platôs: capitalismo e Endereço para correspondência: RAQUEL SIQUEIRA DA SILVA esquizofrenia (3ª ed.) (Vol. I). São Paulo: Ed. 34. Conservatório Brasileiro de Música – Centro UniversitárioDeleuze, G., & Guattari, F. (1997). Mil platôs, capitalismo e Av. Graça Aranha, 57, 12º andar – Centro esquizofrenia (Vol. 4). São Paulo: Ed. 34. CEP: 20030-002, Rio de Janeiro, RJ, Brasil Fones: (21) 9631-9409 / (21) 2610-0827Deleuze, G., & Parnet, C. (1998). Diálogos. São Paulo: Escuta. E-mail: raqsiqueira2000@yahoo.com.br PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007

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