A FORÇA QUE VERTE   DO CORAÇÃO                                          O/<6/8 I63D+8.<9 F+>3=>+A história de duas almas g...
A FORÇA QUE VERTE DO      CORAÇÃO     O/<6/8 I63D+8.<9 F+>3=>+  Ainda não impresso em celulose.       Santa Maria, RS, 2010
Título Original no Brasil:                    "A Força que Verte do Coração"               © Copyright 2010 Kerlen Elizand...
Dedico esta obra a uma bonita prática que, infelizmente, se         perdeu, devido à nossa desconfiança ao próximo        ...
ÍNDICEPRÓLOGO ............................................................................... 6CAPÍTULO 01 ..................
6                           PRÓLOGO       Não sou talentoso, tampouco consagrado literariamentee nem ambiciono ser rico es...
7      Se o amigo leitor quer dizer algo, entre em contato co-migo por e-mail. Eu adoraria ler qualquer coisa, em se trata...
8      CAPÍTULO 01       O céu, acima de mim, rugia! Apesar do frio de seisgraus centígrados, aqui em Santa Madalena, no e...
9       - Claro que sim!       - Ah tá! O meu eu esqueci... foi lá no Vargas. É queontem saiu um sol e eu esqueci ele!    ...
10rinha antes de empacotar?       - Mãe, por favor! As filas eram grandes, encontrei o Car-los na faixa e passei na banca ...
11        - Dá uma olhada aqui nesta caderneta, vê se tu encon-tra o telefone da minha irmã Erotides...        Meu pai, o ...
12figurado e funcionando...       - Tu me liga depois de tudo feito?       - Pode deixar.       Chegou a vez das 134 págin...
13dele e meu velho e surrado notebook K6 366MHz com placade rede PCMCIA, após as 134 páginas impressas finalizadas ecom as...
14      - O Sol está aí mãe.      - Mas como?      - São as nuvens que tapam ele... mas o Sol sempreesteve aí no céu...   ...
15      CAPÍTULO 02        A chuva se foi, mas naquela terça-feira, pela manhã,Santa Madalena já sofria com as consequênci...
16ele sabia consertar qualquer coisa em se tratando de paredes,teto, encanamentos e eletricidade. A vizinhança toda adorav...
17com isopor para assentar uns pedaços de brasilit. O granizome furou em uns doze lugares naquele bendito telhado.       -...
18pis. Felizmente não encontrei marcas a caneta, exceto na pri-meira página. Umas iniciais assinalavam: "D.S.: 18/04/96", ...
19um anúncio que li na "Planeta Rural", página 11, dentre os do-ze publicados. Ele era mais ou menos assim:      "Eu gosta...
20      CAPÍTULO 03       Por mais que eu lesse os outros anúncios de trocas decorrespondências, o que mais me prendia era...
21Rural"? Esperei uma semana, com rotina normal dos dias. Achuva foi-se e deixou temperaturas de regenlir os ossos, che-ga...
22casa dos 1GHz de processamento, a internet era coisa de grã-luxo. Eu tinha no máximo 15 minutos para usar um Pentium III...
23      - Ok, entendi.        Cerca de 63 provas corrigi aquela tarde... com o cora-ção ainda batendo. Eu aprendi a contro...
24tíveis tal a suavidade... mas os olhos... os olhos da moça mepetrificavam! Me imobilizavam! Tal uma deusa ou um anjo con...
25      CAPÍTULO 04       Dei-me conta da carta! A carta! Esperei meus sentidosvoltarem! Pudera!       Ao ler, as palavras...
26       Beijos. Espero que continue escrevendo para mim. Ado-rei tuas palavras.       Até breve.      Daiana"       Eu......
27da! Viajei, fiquei quatro dias lá no pai e a casa ficou chaveada.Mas muito obrigado.       - A cola funcionou?       - S...
28mas não no IFF. Ao voltar das aulas às 18h, comecei a respon-der a carta de Daiana. Argumentos foram fáceis. Eu estavain...
29garotos com certeza são mais jovens e mais intelectualizadosque eu, mas mesmo assim, se teu coração pertencer futura-men...
30      CAPÍTULO 05        Naquela ensolaradíssima terça-feira, coloquei a carta deDaiana no correio e fui no IFF retirar ...
31       - O casaco! vai estar frio pacas.       Rimos...       - Mas sério, Danilo, levo o quê?       - Uns seis reais pa...
32       - Tem certeza, kevin?       - Absoluta. Quem me dera se eu tivesse tino para algu-ma idéia nova que eu pudesse co...
33agradavelmente e se evaporou no ar em um segundo mais oumenos. No dia seguinte não comentei nada por que com cer-teza, e...
34mente e docemente, além de engraçadas.... Você é um espe-cialista em poesias hein? As meninas daí não se encantamcontigo...
35tua aluna de xadrez, Informática e Astronomia. Deve ser divinoobservar as estrelas e planetas pela tua luneta. percebi q...
36        Tudo na vida tem uma explicação e para estas pergun-tas faltavam-me algum esclarecimento...
37      CAPÍTULO 06        Naquela tarde eu estava desconcertado! Um turbilhãode perguntas passavam-me pela cabeça: Namoro...
38quem começa a se entrosar com o Espiritismo. Eu estavaamando cada momento e conhecimento assimilado.        As casas esp...
39Francisco Cândido Xavier, com os olhos estufados... mas mecontive para não chorar!        Desde este dia, uma vez por se...
40de mim e temo que você seja a próxima. Calma! Tenho saúdede ferro e não há nada de errado comigo, mas sou pé-frio parana...
41frente rebaixada e motor envenenado. Não quero mais nadacom ela, que inclusive começou a fumar e a beber... Maria An-tôn...
42        Que alegria em saber que tenho uma discípula. Saibaque estou às tuas ordens para que eu possa ser útil em algu-m...
43aos seus...        SERÁ QUE ERA VOCÊ... FORA DO CORPO???        Vamos estudar este fenômeno e tirar conclusões de-pois. ...
44tentar baixar uma atualização para o bendito antivírus. Conse-gui. Coube, comprimido, em quatro disquetes, mas não perce...
45e o Windows detectou um dispositivo desconhecido... seria oModem? Verifiquei. Um marimbondo seco entre dois pontos desol...
46       - Vou fazer um disquete de boot agorinha... me aguardeuns 50 minutos e não ligue o PC ok?       - Certo... vou pr...
47nilo. Ele estava arrasadíssimo. Três dias depois fiquei sabendoque ele desaparecera. A casa, que ele pagava aluguel, fic...
48Espíritos e presenteei Dona Vitorina, a mãe do Danilo, quaseum mês depois da morte do filho. Ela me abraçou e o seu es-p...
49ca doados por mim à biblioteca daquela escola.      O Estágio Supervisionado em Física rendeu-me 97% danota semestral e ...
50disparou como um louco desgovernado, de novo!       Tratava-se de um cartão desses que projeta um pano-rama sanfonado, c...
51ver agora se eu te decepcionarei ou não... porque estou comuns quilinhos a mais... pois bem, agora eu quero que você mef...
52werk. Ainda não ouvi mas farei isso... No demais temos muitoem comum com música. Tenho uns CDs do Raul Seixas, En-genhei...
53Cerveja é bom, mas devemos nos cuidar acima de tudo. Meupai adora cerveja mas ele exemplifica tomando raríssimas ve-zes....
54dura seis dias e tem até bailes, festas e divertimento noturno.A paisagem aqui é muito bonita, produz-se trigo, centeio,...
55nado no Colégio Cristo Rei. Adoro dar aulas! Vou te ligar daquia uma semana, aguarde...        Quanto ao meu tratamento ...
56      CAPÍTULO 07        De tudo o que li na carta, Daiana demonstrou-me seruma moça muito segura de si, confiante na su...
57da revolução Industrial. E as mulheres... são lindas, na Romê-nia!       Deduzi que as leis ambientais por lá são rigoro...
58de um potinho entupido de parafusos pequenos de todos os ta-manhos, alguns mouses, extensão elétrica, pilhas-de-BIOS epo...
59cujos olhinhos brilhavam de contentamento. Comecei em umasegunda-feira, distribuindo doces, lápis, borrachas, cadernos e...
60mer algo e esperar...        Foi o que eu fiz. Às nove e cinquenta o telefone toca eeu vôo em direção a ele:        - Al...
61       - Sim! De novo... os animais são seres espirituais comonós!       - Eu queria muito que isso não fosse simplesmen...
62       - Mas precisamos ser fortes. Somos imortais.       - Sim, Daianinha, e você é minha força, minha esperan-ça! E o ...
63      - Qual a data do teu aniversário?      - Dezoito de dezembro... tá longe...      - Não vou esquecer mais! Tenha um...
64      CAPÍTULO 08       A ligação de Daiana encheu-me de energia, disposiçãoe alegria. Mas o que me embatucava eram as c...
A força que verte do coração
A força que verte do coração
A força que verte do coração
A força que verte do coração
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A história de duas almas gêmeas que se redescobrem
e que passarão pela dura prova do amor eterno

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  1. 1. A FORÇA QUE VERTE DO CORAÇÃO O/<6/8 I63D+8.<9 F+>3=>+A história de duas almas gêmeas que se redescobrem e que passarão pela dura prova do amor eterno(Livro do tipo "open e-book. Concedido à publicação na internet, desde que os direitos autorais e a integridade do texto sejam preservados")
  2. 2. A FORÇA QUE VERTE DO CORAÇÃO O/<6/8 I63D+8.<9 F+>3=>+ Ainda não impresso em celulose. Santa Maria, RS, 2010
  3. 3. Título Original no Brasil: "A Força que Verte do Coração" © Copyright 2010 Kerlen Elizandro Batista Direitos Autorais Reservados. É proibida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma ou por qualquer meio, salvo com autorização expressa do autor. (Lei no 9610, de 19 de Fevereiro de 1998.)_____________________________________________________________ Batista, Kerlen Elizandro. A Força que Verte do Coração - Idioma original: Português doBrasil segundo as normas da ABNT e da Nova Reforma Ortográfica de1998 em vigor. 1. Auto-ajuda. 2. Romance de ficção dramática.3. Noções de Espiritismo. 4. Mensagens de Esperança.5. Baseado em Fato Verídico. 6. Espiritualidade e Espiritismo.7. Almas Gêmeas. 8. Romênia.9. Cartas Escritas. 10. Força e Coração.11. Além-Túmulo._____________________________________________________________ Índice para Catálogo Sistemático: 1. A Força que Verte do Coração: Esperança; Amor; Almas Gemeas 1a Edição
  4. 4. Dedico esta obra a uma bonita prática que, infelizmente, se perdeu, devido à nossa desconfiança ao próximo e ao nosso comodismo sedentário
  5. 5. ÍNDICEPRÓLOGO ............................................................................... 6CAPÍTULO 01 .......................................................................... 8CAPÍTULO 02 .........................................................................15CAPÍTULO 03 ........................................................................ 20CAPÍTULO 04 ........................................................................ 25CAPÍTULO 05 ........................................................................ 30CAPÍTULO 06 ........................................................................ 37CAPÍTULO 07 ........................................................................ 56CAPÍTULO 08 ........................................................................ 64CAPÍTULO 09 ........................................................................ 68CAPÍTULO 10 ........................................................................ 77CAPÍTULO 11 ........................................................................ 91CAPÍTULO 12 ........................................................................ 99CAPÍTULO 13 ...................................................................... 116CAPÍTULO 14 ...................................................................... 123CAPÍTULO 15 ...................................................................... 136CAPÍTULO 16 ...................................................................... 144CAPÍTULO 17 ...................................................................... 153CAPÍTULO 18 ...................................................................... 170EPÍLOGO ............................................................................. 178
  6. 6. 6 PRÓLOGO Não sou talentoso, tampouco consagrado literariamentee nem ambiciono ser rico escrevendo livros. Todavia há algoque pulula em nossa consciência de vez em quando. E temosque tomar uma atitude... É como se algo nos chamasse. A história (ou, conforme alguns queiram, "Estória") quetrato aqui respeita profundamente alguma coincidência queporventura poderá ocorrer com alguma família, região geo-gráfica, situação social ou ainda coincidência com algum outroromance, publicado em algum lugar. Inspirei-me com parciali-dade, à cidade onde nasci, Santa Maria/RS, e à Santa Cata-rina, estado em que sempre sonhei residir. O que eu quero transmitir é uma bonita mensagem, tal-vez uma resposta àlgumas mentes ainda irrequietas: Há real-mente uma justiça divina? O que Deus tem nos a dizer sobre avida? Precisamos nos unir sob uma mesma senda de fé ecrença, sem discordâncias, sem vaidades, sem ódio, sem ego-ísmo, sem ganância e sem falta de fé? Será que aceitamostodas as leis naturais que nos é inevitavelmente configurada? Quanto aos nomes e situações geo-sociais, fiz o quepude para maximizar a intenção de romance-ficção dramático.Baseei-me em um contexto que aconteceu com a vida real deuma pessoa que conheci (preservarei a identidade) e que ago-ra está na Espiritualidade. Espero que coincidências não exis-tam aqui, para este caso. Quero, outrossim, ser responsabiliza-do por uma contribuição à uma pequena parcela de percenta-gem, para mais, de pessoas neste país, que despertem para adelícia da leitura e da não-fronteira ao acesso às letras e à cul-tura nas supermassas.
  7. 7. 7 Se o amigo leitor quer dizer algo, entre em contato co-migo por e-mail. Eu adoraria ler qualquer coisa, em se tratandode opinião, a respeito deste romance. Se ele sobreviveu combravura à entrada na lista dos piores, então é sinal que resisti. Muito obrigado, querido leitor. Divirta-se. kerlen@zipmail.com.br
  8. 8. 8 CAPÍTULO 01 O céu, acima de mim, rugia! Apesar do frio de seisgraus centígrados, aqui em Santa Madalena, no extremo-suldo Brasil, a previsão afirmava granizo e mais queda de tem-peratura. O Carlos tinha me ligado para tomarmos chimarrão e fa-zermos uma autêntica galinhada crioula ao fogão-de-barro,mas acontece que dos meus dois pares de tênis disponíveis,um estava completamente encharcado, da chuva. O outro,mais novo, aguardava o retorno à sala-de-aula que me prome-tia em 22 de Abril. - Kevin! Venha cá me fazer um favor. - Fala, mãe. - Vai lá no mercado me comprar farinha de milho. Voufazer uma polenta amanhã, mas amanhã é feriado de Tiraden-tes e acho que tudo vai estar fechado. - Onde tá o meu guarda-chuva? - Lá com teu pai, pega lá. Meu pai tinha a árdua mania de pegar qualquer guarda-chuva da despensa e ir até seu galpão para fumar. Em seus 70anos de idade não distinguia, não sei se de propósito, qual erao seu guarda-chuva dos demais. Mas a droga é que faltavamvinte minutos para o mercado fechar e meu computador tinhavírus até no fio da tomada; probleminha técnico este que eu ti-nha que sanar até terça-feira, dia 22, para conseguir imprimircerca de cento e trinta e quatro páginas de artigos para meusalunos do ensino médio do estágio supervisionado. - Pai? O guarda-chuva, por favor? - Esse é teu? (Ele fazia uma cara de inocente para ter aesperança de eu levar o dele, que eu nem sabia onde tinha idoparar...)
  9. 9. 9 - Claro que sim! - Ah tá! O meu eu esqueci... foi lá no Vargas. É queontem saiu um sol e eu esqueci ele! - Preciso ir no mercado, quer alguma coisa? - Me traz veneno pra mosquitos. Noite passada foi umnojo! Entrou tanto mosquito no meu quarto que fiquei quaselouco. Bem... abaixo de uma grossa chuva com o céu rugindoem minha cabeça, cheguei ao mercado encharcado da cinturapara baixo. É como se São Pedro achasse o guarda-chuvasum invento humano irrelevante ou... ou ele não ia com minhacara. No meu retorno, o Carlos me encontra. - Ô, bagual? Vamos fazer a galinhada? - Carlos, teremos que adiar. O céu vai desabar maiságua aí em cima, meu computador tá entupido de vírus e te-nho um cliente para formatar o disco rígido e instalar o Win-dows. Preferencialmente dia 29, que recebo aquele baita sa-lário de professor estadual. Daí as peças do frango é por mi-nha conta. Mas tu paga a cerveja hein? Rimos... - Parece que o Valdemar irá jantar com a gente. Mas épreferível adiar-se a galinhada. Este tempo não está para brin-cadeira! Olha só os relâmpagos, meu Jesus! Tu vai pra casa? - Vou passar ali na banca para ver se chegou uma revis-ta que aguardo. Dali vou embora. - Se vemos dia 29 então? - Com certeza! Vai pela sombra, Carlos. Ele riu de novo... - Até breve... - Ihhh, parece que o cara aquele mandou fabricar a fa-
  10. 10. 10rinha antes de empacotar? - Mãe, por favor! As filas eram grandes, encontrei o Car-los na faixa e passei na banca da locadora. O que é que tuquer mais? - Tu vai tomar banho agora? - Sim! E Eu me viro com a janta, Pode ir dormir. - Vê se tu fica com a roupa molhada e amanhã terei quete levar pro hospital. Minha mãe é assim mesmo: Costureira desde tenraadolescência, gostava de contestar algumas decisões minhas.Como eu sou portador de rinite alérgica, ela adorava me lem-brar que amanheceria de nariz congestionado e com fortetosse, se porventura ficasse com a roupa molhada no corpopor mais de meia hora. Naquela manhã de sábado de Tiradentes, o Sol apare-cia tímido por entre as nuvens ainda ameaçadoras. A partemais difícil foi ter coragem de tomar banho a uma temperaturade dois graus celsius... Eu tinha muito o que fazer: Defenestrarcerca de uns quarenta vírus no bendito computador que tei-mava em travar, trocar minha roupa de cama, imprimir as centoe trinta e quatro páginas divididas em uns nove artigos paraminhas turmas, ressarcir o sistema operacional do computadorde uma loja de automóveis usados na esquina da minha ruacom a rodovia e... uma outra coisa... ahh sim: dar uma olhadaem uma página de interesse em uma revista que me chamouatenção e que comprei na video locadora, embora o assuntopredominante nela não fosse de minha alçada. E lá fui eu pro batente. - Kevin? Ih, era o Velho meu pai... - O que é?
  11. 11. 11 - Dá uma olhada aqui nesta caderneta, vê se tu encon-tra o telefone da minha irmã Erotides... Meu pai, o Sr Luiz, nos seus 70 anos, tinha tracoma pro-fundo, consequência de uma diabetes crônica que lhe tirou obrilho dos olhos aos 60 anos. Precisava da ajuda constante dealguém para procurar alguma coisa e isso, quase diariamente,envolvia acima de tudo, futilidades bobas que quase sempreterminavam em discussão. - Do geito que esta caderneta está... o senhor terá queesperar uns dez minutos... - Então deixa... é para isso que se cria os filhos... paranão fazerem nada pela gente... Tomou bruscamente a caderneta de minha mão e foi aoseu galpão. Ele era assim mesmo. Eu me conformava por eleser doente, bem "fora da casinha". Odiado pela vizinhança e com esperanças depositadasem seus irmãos e irmãs espalhados por São Paulo e pelo Nor-deste, que nunca ligavam, o Sr Luis levava uma vida solitária edesorganizada, tendo como únicas opções o cigarro, a TV,com mais de 12h por dia ligada, um farto almoço e seu sonometade da tarde e depois cedo da noite. Lá pelo quadragésimo segundo vírus excluído do meucomputador o telefone toca. - Alô? - Oi. E aí Kevin? - Anderson? - Ele mesmo. Posso buscar o computador? - Bem... o Windows está em seus 78% de instalação e anotícia boa é que consegui recuperar a planilha de seucontrole de vendas, estoque, clientes e fornecedores... - Bah cara! Valeu mesmo! Esta planilha é trabalho deseis anos! Quanto vai dar tua mão-de-obra? - Ainda não sei Anderson e só direi depois de tudo con-
  12. 12. 12figurado e funcionando... - Tu me liga depois de tudo feito? - Pode deixar. Chegou a vez das 134 páginas... e eu já estava pre-parando os nervos e as orelhas para enfrentar até a uma horada tarde uma impressora matricial do final dos anos 80... A estas alturas comecei a ler a revista "Planeta Rural",que se tratava dos assuntos à quem morava exclusivamenteno interior, em meio a lavouras e natureza. Foleei à página 11onde algo me chamou atenção: Uma página inteira somente depessoas querendo conhecer pessoas... uma idéia interessante. Em meio a configurações de placas de PC no Windows,a páginas intermináveis de artigos escolares sobre Física e aoestrondo de trovões os quais iniciaram uma nova chuva de las-car, eu me perdia em tudo isso, sem falar no meu pala de in-verno, do qual me obriguei a vestir ante uma queda de tem-peratura de -1o C! Após o almoço, com minha mãe reclamando do silênciode uma impressora matricial de nove agulhas, mas regado afrango com polenta italiana, lá fui eu tratar de descobrir quediabos de placa de rede "onboard" o Sr. Anderson possuia,tarefa que me foi inútil com a simples abertura do tampo dogabinete. Tive que iniciar o bendito PC com um CD BOOT damini distribuição Slackware Live Linux. Ante ao comando relevante para tal, lá estava ela:"Ethernet Controller Device: Davicon inc. PCI 9101." Procurar odriver para Windows 2000 desta tal, na internet, era mais oumenos o mesmo que encontrar uma mosca branca em umasala com interior pintado de preto fosco em Moscou, na Rús-sia. Sorte que o Sr Anderson possuía o luxo da internet em suaconcessionária, coisa que eu jurava que eu iria possuir emminha próxima reencarnação... E para lá fui com o gabinete
  13. 13. 13dele e meu velho e surrado notebook K6 366MHz com placade rede PCMCIA, após as 134 páginas impressas finalizadas ecom as orelhas em estado de socorro. - Beleza, Kevin! Estas palavras entravam como alívio para meus ouvi-dos... depois de duas horas ininterruptas de pesquisa. - Ahhhh este google maravilhoso! Acha até pente de ca-dáver em banheiro público! Rimos... Gravei em um CD tudo o que o Anderson precisava... oserviço deu vinte e cinco reais e pela primeira vez vi um clienteespantado: - Só isso? - Só! Afirmei com convicção. - Muito obrigado! Vou te chamar de novo quando estacarroça incomodar, Kevin... - Anderson, me faça dois favores? - Até dez! - Ok: Use um antivirus decente e limpe a ventoinha como dissipador do teu processador uma vez por mês, com com-pressor de ar... Ele riu... me despedi e regressei. - Sabe quem ligou e perguntou de ti? - Quem, mãe? - A Terezinha Bueno, te lembra? - Sério?? Sim! Lembro... o que ela queria? - Ela passará aqui semana que vem para eu fazer uns"penses" em duas calças delas, que folgaram... só não veiohoje por que o tempo tá muito nublado e frio. Ela quer esperaro sol voltar.
  14. 14. 14 - O Sol está aí mãe. - Mas como? - São as nuvens que tapam ele... mas o Sol sempreesteve aí no céu... Depois de eu rir muito e ouvir os resmungos da velhacostureira minha mãe, fui ler a "Planeta Rural", sem interrup-ções.
  15. 15. 15 CAPÍTULO 02 A chuva se foi, mas naquela terça-feira, pela manhã,Santa Madalena já sofria com as consequências: Inundaçõesnas periferias. Particularmente, um bairro a apenas 9km domeu, o Santo Inácio do Oeste, foi tomado pelas águas. Famí-lias inteiras perderam tudo, desde as roupas até televisores. Onoticiário da manhã focava somente estes pormaiores. Ventosde até 74km/h destelharam casas e a chuva fez o resto. Felizmente houve somente uma morte; um homem de 80anos que não conseguiu sair a tempo de seu quarto em umacasa localizada no sopé de uma ribanceira, que veio abaixo,desmoronando-se. Felizmente nosso bairro, Caiçari, situava-se em um pon-to dos mais altos do município. Nossa casa, embora de mate-rial, era modesta e houveram só algumas infiltrações. - Kevin. - Fala, mãe. - Dê uma varrida no pátio, que está cheia das folhas dospé-de-plátano que cairam com a ventania. Vou sair, entregarumas verduras para nossa vizinha pobre, ali embaixo. - A Dona Marialva? - Sim, ela mesma. - Diga que eu mandei um abraço! - Pode deixar. O sol prometia uma terça-feira esplêndida e mesmo atemperatura estando a sete graus positivos, as pessoasanimavam-se, reorganizando os pátios, jardins e sacadas. Aténosso vizinho, Seu Odílio, apareceu e perguntou para meu paise ele gostaria de reparar as infiltrações. Felizmente Seu Odí-lio, em seus 68 anos e avô de quatro crianças, tinha uma inve-jável lucidez. De uma humilde descendência de família italiana,
  16. 16. 16ele sabia consertar qualquer coisa em se tratando de paredes,teto, encanamentos e eletricidade. A vizinhança toda adorava-o porque sempre estendia a mão para ajudar quem fosse, dealguma maneira. - Seu Luiz, precisamos de uns três litros de desin-filtrante. E um pouco de cimento seca-rápido para arrematar oscanais abertos pelo mofo. - Kevin. - Fala, pai. - Vá ali no Portinari e compra três litros de desinfiltrantee um pacote de um quilo de seca-rápido. - Só? - Sim, mas vá logo porque amos aproveitar o calor dosol para isso tudo secar rápido. É nessas horas que eu agradecia a Deus por ter umbom par de pernas e amar minha bicicleta! A ferragem do Por-tinari ficava a um quilômetro e portanto, era rapidinho. No tra-jeto, passei nos correios e comprei uns cinco selos e enve-lopes. Alguma coisa na revista "Planeta Rural" me inquietava eeu tinha que tentar. - Kevin? Alguém me chamou... olhei para os lados... - Ô Valdemar! Quanto tempo! - Vamos almoçar sexta que vem? - Depende... se meus clientes me derem espaço e eu te-nho que fazer outras coisas. Mas se eu for, ligo pra ti para con-firmar. - Certo. Por acaso tu tem um pouco de gasolina? - Gasolina? - Sim Kevin, gasolina viu... tenho que fazer uma cola
  17. 17. 17com isopor para assentar uns pedaços de brasilit. O granizome furou em uns doze lugares naquele bendito telhado. - Vamos ver. Tenho que entregar isso aqui lá em casa.Houve infiltração e meu pai conseguiu um técnico. Que chuvahein? - Estou chateado viu? Lá em casa, em Lorena dasMissões, meu pai perdeu quase todo o fumo que ele plantou ecuidou com tanto carinho... Agora tenho que enviar dinheiro dabolsa no final do mês para ele providenciar uma estufa de lonagrossa. Parece que semana que vem choverá mais ainda... edaí sim né, já viu? - Passo lá amanhã tá? Levarei a gasolina para ti. - A que horas? - Nove? - Tenho aula às dez e meia. Mas vai, tudo bem, preparoaté um chimarrão. - Combinado. Enquanto Seu Odílio consertava a infiltração, que tei-mava em continuar mofando a parede maior da cozinha, meupai preparava as coisas que ele precisava sem descer daescada e o tempo era economizado. Minha mãe, ao voltar daDona Marialva, veio com um pequeno livro debaixo do braço... - Kevin. A Dona Marialva te mandou um presente. - Ahhh querida! Vejamos. Tratava-se de um exemplar do "Nosso Lar", de AndréLuiz, que ela tinha adquirido no sebo do camelódromo do Bair-ro São Caetano, famoso por venderem algumas coisas em suamaior parte furtadas. Com a capa desbotada e bem surrada, indicava quepassou pela mão de inúmeros leitores. Em posse de papel-contact, reforcei-a e aparei com cola os cantos da lomba. Ficouquase novo de novo depois que apaguei as marcas feitas a lá-
  18. 18. 18pis. Felizmente não encontrei marcas a caneta, exceto na pri-meira página. Umas iniciais assinalavam: "D.S.: 18/04/96", jun-tamente com uma pequena frase, produzida com a mesmabela letra das iniciais: "Fé raciocinada é a integral aceitação danossa condição, na Natureza". Pela tardinha, recomeçou-se minhas rotinas escolares.Com as 134 páginas de artigos, lá fui eu para o Colégio Joa-nna D´Arc, às seis da tarde, ministrar mais uns capítulos deMovimento variado, Hidráulica e Eletricidade para as minhastrês turmas de EJA. Tive os cinco períodos completos. Osmeus alunos achavam minha empolgação o máximo... - Haja cabeça hein professor? - É maravilhoso dar aulas, adoro! Mesmo em se tratan-do de estágio supervisionado. Vez em quando um manifestava-se meio cético e excên-trico: - Mas Física é para quem gosta né? Graças a Deus, procurei ser o mais simples possívelnas explicações, nunca corridas. Devagar e com calma,reexplicava quantas vezes fosse necessário, com o preço docronograma atrasar abruptamente. Isto, de uma certa forma mepreocupava, mas nunca me foi cobrado cronograma algum.Mas como eu gostava de dar aulas de Física! Meus alunos atériam, quando eu tornava o conteúdo descontraído e divertido,nunca desviando da pauta do dia, firmemente. Minhacriatividade se modificava a cada dia para esta adaptação. Eas aulas quase geralmente eram um sucesso, exceto nos diasde forte frio ou forte calor, onde os jovens sofriam com atemperatura momentânea, mas eu os animava, de pronto. Quarta-feira de manhã, após comprar uma sacolada deseis litros de leite no armazém da faculdade técnica, me con-centrei de verdade e busquei entusiasmo e argumentos para
  19. 19. 19um anúncio que li na "Planeta Rural", página 11, dentre os do-ze publicados. Ele era mais ou menos assim: "Eu gostaria de me corresponder com garotos de 19 a28 anos, que não tenham vícios, que sejam solteiros e quecurtam palavras de inteligência e sabedoria. Sou loira, 1,70m,25 anos, universitária e moro no interior. Daiana Stackerborensku Rua Cristo Rei, 173, Santo Agostinho (Cidade Alta) Nova Romênia da Serra, SC" 88370-000"
  20. 20. 20 CAPÍTULO 03 Por mais que eu lesse os outros anúncios de trocas decorrespondências, o que mais me prendia era aquele, sejapela inteligência das palavras ali colocadas, seja quanto a umsentimento interno que me ascendeu. Algo que eu sentia masnão entendia direito. Busquei inspiração e lá fui eu. Arrisquei aescrever a primeira carta: " Santa Madalena do Sul, 23 de Abril de 2000. Cordiais saudações, Daiana. Descobri teu anúncio na revista "Planeta Rural", destemês e resolvi escrever-te. Meu nome é Kevin, um ano maisnovo que você (espero que não se importe), faltando poucotempo para me diplomar em Física e já estagiando em umaescola cujo trabalho durará seis meses. Tenho 1,80m de al-tura, solteiro, não tenho filhos. Espero que esta seja uma dasvárias cartas as quais nos trocaremos. Pelo que vi, a concor-rência será muito grande porque você deve ser muito bonita einteligente. Obrigado pela tua valiosa atenção e aguardo-te. Minhapróxima carta virá com foto. Beijo. Kevin Barreto. Av. Olavo Bilac, 633, Caiçari, Santa Madalena do Sul, RS 93230-180" Depois da carta enviada, a expectativa... será que euescolheria outra pessoa das publicadas na lista da "Planeta
  21. 21. 21Rural"? Esperei uma semana, com rotina normal dos dias. Achuva foi-se e deixou temperaturas de regenlir os ossos, che-gando até -1o C, com ventos dando a impressão de ser maisbaixa ainda. Guardei a revista na intenção de, se porventuraDaiana não retornasse com a resposta, eu escolheria outrapessoa. Haviam mais quatro jovens, mas todas de bem longe:Minas Gerais, Tocantins e Mato Grosso do Sul. Com o decorrer do tempo, com os trabalhos redobradose com a aproximação das provas trimestrais, eu me via bematarefado entre a Faculdade, meu estágio e meus clientes deinformática. Um dêstes últimos cometeu o absurdo de entortardois pinos do seu disco rígido a ponto de me responsabilizarpelo dano! Educadamente, eu afirmei que os pinos 39 e 40 já es-tavam tortos quando o HD chegou com o PC, motivo este delevir aqui. A arrogância do homem, dos do tipo "não gosto de medeixar perder", fez com que ele virasse as costas sem me pa-gar e sem sequer a palavra "obrigado". Até hoje o sistema delenunca mais falhou devido ao meu empenho, mas a arrogân-cia... ahhh este veneno que destrói... Em uma semana fiz três provas na faculdade e aquilome roeu com as idéias. Destas, apenas em uma tirei abaixo de70%, a média do Instituto Federal Farroupilha. Eu tinha queesperar a data do exame, em Física Quântica. De resto, no meu estágio, minhas turmas até brincaramde amigo secreto, nas vésperas de conclusão da Turma 9 doEJA. Presenteei com um livro sobre pensamentos espíritas"Todo dia" e ganhei uma caneta-relógio lindíssima. Não acre-ditei. Quase chorei no discurso de vinte segundos. No dia seguinte, lindíssimo, ensolarado três de maio, fuienfrentar a fila para ler meus e-mails no CPD. Naquela re-cuada época, ter e-mail era luxo. Os computadores estavam na
  22. 22. 22casa dos 1GHz de processamento, a internet era coisa de grã-luxo. Eu tinha no máximo 15 minutos para usar um Pentium IIIde 700MHz. A conexão não ajudava tal era a lerdeza e sóhaviam dois e-mails: Um do Carlos e outro do Valdemar. Êsteme comoveu muito: Seu pai, em Lorena das Missões, teve quevender algumas coisas de sua propriedade de oito hectarespara pagar as sementes do fumo, endividadas no banco. OValdemar largou das aulas para acudir o pai e eu e o Carlospreparamos a cola para soldar o brasilit no telhado. Felizmenteo sol brilhava lindamente por quatro dias, apesar do frio ab-surdo que fazia. Fedendo a solvente, gasolina e suor, chego em casa.Na caixa de correios uns comunicados do Banco, uns folhetosde propaganda de pizza e de partidos políticos e... uma carta.Seu remetente: Daiana Stackerborensku. Juro: não escondi a alegria!!! Inacreditável! Estava ali,com letras de caneta bic cor de rosa, toda floreadinha e comum aroma perfumado bem suave, por fora... dentro de mim,meu coração dava socos e solavancos!! Mais do que depressa, tomei um banho. Minha mãe meseguiu pelo rastro do cheirinho de solvente... dei-a as cartasde bancos e a de Daiana coloquei em minha gaveta daescrivaninha. - Tu foi no Carlos? - Sim, mãe, ajudei a tapar os furos do brasilit da casadele com cola de isopor, gasolina e solvente. - Depois do almoço tu vai sair? - Não. Vou corrigir umas provas de alunos e só depoisdarei uma passadinha no mercado. - Vou no meu ortopedista ver os raios X da minha colu-na. Se alguém ligar querendo costura, só depois das cinco datarde.
  23. 23. 23 - Ok, entendi. Cerca de 63 provas corrigi aquela tarde... com o cora-ção ainda batendo. Eu aprendi a controlar meus desejos...Abriria a carta da Daiana após meus afazeres e daí sim, mepreparava para lê-la. E por volta das quatro da tarde foi issoque eu fiz. Ao abrir, meu coração bateu muito mais forte do que decostume. A primeira coisa que tirei foi um lindo cartão de car-tolina, desenhado caprichosíssimamente com flores... prova-velmente flores de palmas e copos-de-leite, adornados comaquela cola brilhante colorida que as crianças costumam usarnos carnavais e artes escolares criativas. Abaixo das flores, afrase: "Oi, meu querido! Você está bem?" Confesso... eu já não me sentia mais... anestesiadox Juntinho ao cartão, a carta. Alguma coisa caiu dela...uma foto!!! Daiana tinha enviado-a! Não acreditando no real, passei a olhar aquela foto porquase 40 minutos. Sempre duvidei de anjos, mas ali... EM MI-NHA FRENTE, um acabou de ser fotografado. Daiana era alva de branca, com olhos azul-esverdeadoscomo uma baía-de-mar caribenho. Seu cabelo, loiro, escorrialisamente ombos abaixo, como que uma cascata monótona. Suas espáduas tinham umas linhas perfeitíssimas. Logoabaixo da espádua esquerda quase que de encontro ao ombro,notei uma pequena mancha que parecia de nascença. Mas oolhar da moça me paralisou!!! Me senti uma presa, capturada eimobilizada facilmente! Os olhos de Daiana, sob sobrancelhas bem desenha-das, clarinhas na cor e perfeitíssimas, expressavam como seela estivesse pedindo ou solicitando alguma coisa... seus olhoseram penetrantes! Haviam covinhas nas maçãs do rosto, quase impercep-
  24. 24. 24tíveis tal a suavidade... mas os olhos... os olhos da moça mepetrificavam! Me imobilizavam! Tal uma deusa ou um anjo con-forme as antigas lendas latino-européias. Eu... eu estava per-plexo!
  25. 25. 25 CAPÍTULO 04 Dei-me conta da carta! A carta! Esperei meus sentidosvoltarem! Pudera! Ao ler, as palavras, escritas a mão, foram as seguintes: " Nova Romênia da Serra, 02 de maio de 2000. Oi Kevin! Foi com intensa alegria que recebi tua cartinha, bem bo-nita e organizada, há três dias atrás. Muito obrigada pela tuadoçura e pela tua sinceridade. Sou Daiana, já caracterizada na revista e aqui agora, nafoto. Não tenho namorado, faço faculdade de biologia naFIPSC e gostaria de me corresponder com pessoas que sejamverdadeiras, espiritualmente elevadas, que gostem de palavrasinteligentes e que sejam sensíveis. Pelo que senti, você é assim. Das cartas que recebi,mais de 40, a sua foi digna de retorno da minha resposta comfoto. Desculpe se eu te desapontei. Quero apenas ser umapessoa comunicativa, amiga em todas as horas, quero me-lhorar minha comunicação interpessoal e fazer muitas ami-zades. Se eu encontrar o jovem certo, quem sabe até namorar(risos...). Amo escrever cartas. Desculpe a letra. Ainda não com-prei um computador; falta-me o tempo ($$). Estagiarei em Junho de 2001 aqui mesmo em minhacidade ou em Joinville, cidade próxima a minha. Minha família está economizando para comprarmos umtelefone rural. Onde moro é muito isolado e sua carta vêm paraa casa de uma tia minha que mora na cidade e que ela é umasegunda mãe para mim: A tia Vera Lúcia. Assim que adquirir-mos o telefone, te passarei o número.
  26. 26. 26 Beijos. Espero que continue escrevendo para mim. Ado-rei tuas palavras. Até breve. Daiana" Eu... estava tonto! Não acreditava no que estava ocor-rendo. Reli-a umas três vezes aquele dia. Depois de uma ida ao mercado, fui à escola. Faltoumuita gente àquele dia, devido ao frio que fazia, mas mesmoassim enriqueci a noite com exercícios e explicações maisdetalhadas e vagarosas. Rendeu desde que a turma entenda...Ao faltar água lá pelas nove e meia da noite, a direção cortou orecreio e fomos liberados 40 minutos mais cedo. Ao chegar emcasa lá pelas 10:15 da noite, antes de dormir, reli a carta deDaiana e vi mais uma vez a foto. Será que eu estava sonhan-do?? Rezei, fiz uma oração especialmente para ela. Ao deitar,não sei porque motivo, um calafrio, como se fosse uma micro-massagem com pomada analgésica mentolada, varreu minhaespinha dorsal de cima abaixo... O que fora aquilo?? No dia seguinte, ajudei minha mãe nas tarefas do dia.Ela alegava dores na coluna e eu fui solidário: Lavei a louça,fiz um café para ela e fui ao mercado comprar leite e pão. OValdemar me ligou às 10h da manhã: - Alô? - Alô, Kevin? -É ele! - Muito obrigado viu? - Como assim? - Por tu ter ajudado o Carlos no conserto de meu te-lhado. Só que mesmo assim minha roupa de cama ficou mofa-
  27. 27. 27da! Viajei, fiquei quatro dias lá no pai e a casa ficou chaveada.Mas muito obrigado. - A cola funcionou? - Sim, secou e ficou uma rocha! O telhado está prontopara o próximo granizo. - Nem fale! Como está teu pai? - Arrasado. Ele deve ainda uns 6 mil pro banco e nemsabe o que fazer. - E o que irão fazer agora? - Acho que ele irá vender uma casa que tem na cidadeou hipotecá-la. - Mas a casa vale mais que 6 mil? - Sim, vale 34 mil com o terreno. Mas quando se perdetudo por causa da chuva, enchente e/ou granizo, temos quemuitas vezes apelar para o absurdo. Se ele pegar alguma coi-sa pelo banco, será uma sobra de uns seis mil. O banco nuncate dá o valor que vale. - É verdade! Olha, comprei as peças de coxa e sobreco-xa e estão congelados. Quando jantamos? - Assim que o Carlos voltar sábado, às seis da tarde, senão chover. - Não vai chover mais por um mês, acho! - Até lá então e muito obrigado viu? Quanto deu a ga-solina? - Alguns centavos (menti inocentemente. Dera 2 reaismas não cobrei.). Deixa assim, de presente. - Pessoas assim são difícil viu? Rimos... - Até sábado Valdemar! - Até. Piquei vagens e tomate às onze e meia. Minha mãe ti-nha clientela à toda pela manhã. Era meu dia de folga no EJA,
  28. 28. 28mas não no IFF. Ao voltar das aulas às 18h, comecei a respon-der a carta de Daiana. Argumentos foram fáceis. Eu estavainspirado. "Santa Madalena do Sul, 16 de Maio de 2000. Querida e honrada Daiana Stackerborensku. Com imensa alegria recebi sua carta, o lindo e criativís-simo cartão e... a tua foto. Depois de uma paralisia de cinco minutos, seguida dequase desmaio, conclui que você é... inigualavelmente linda! Bem, onde tirar as palavras ideais agora? Quais usar-se? Linda? Palavra ridícula perto do que és; Anjo? Idem; Inteligente? Eu seria taxado de miserável; Um ser sublimado? Bem... é verdade, ÓBVIO, mas o ób-vio não se afirma por ser automaticamente verdadeiro. Penso, logo fede a cabeça, como dizia o Descartesfalsificado. O que dizer? Daianinha: As palavras por mim usadas neste planetapoder-se-ão ser miseráveis perto de uma descrição real de vo-cê. Uma descrição em uma palavra? ÉS O UNIVERSO!!! Muito obrigado por confiar em mim! Muito obrigado portudo! Obrigado, Senhor Deus Supremo, pela Daiana existir! E isso é pouco... uma miséria ainda... será que você édeste mundo? Uma coisa é certa: A estas alturas você deve ter unscento e poucos escreventes de cartas... abobalhados como eu,olhando uma foto... uma foto de um Anjo, destas que a própriaNASA pagaria para colocar em exposição. Que chances eu teria? Uma em cem milhões? Os outros
  29. 29. 29garotos com certeza são mais jovens e mais intelectualizadosque eu, mas mesmo assim, se teu coração pertencer futura-mente a um deles, saiba que eu fiz o melhor de mim e que OTEU ROSTO é inesquecível, tal como um anjo, emissário di-reto do Supremo Deus. Aqui está minha foto... calma.... ela espantará as catur-ritas da lavoura de milho ou girassol se porventura teus paisresolverem cultivar. Sem veneno.... foto ecológica, os bichosdão no pé sem morrerem. Bem, pergunte o que quiser, por carta ou telefone. Fiquea vontade mesmo, sem medo de perguntar. Aqui segue umcartão... ele é industrializado... sou péssimo desenhista, istoprova que minha evolução espiritual não chega a 1% da sua.Minha preguiça é tanta que até as cartas são digitadas a com-putador. Meu número é (57) 4226 98 11. Pode ligar a vontadeok? Um grande abraço aos teus pais, à tua amável tia VeraLúcia e espero que brilhes com intensidade máxima no teucurso de Biologia. Só por favor não concorra a Garota Modelode Santa Catarina porque as demais concorrentes irão pro-testar, acharão covardia, acharão injusto, perderão e dirão "As-sim não valeeeeeee!!!!! Droga!" Posso te ensinar informática, Física, Matemática, Xa-drez (amo jogar xadrez) e te explicar alguma coisa de Astro-nomia. Tenho uma luneta que dá para ver Marte, Júpiter e Sa-turno da janela do meu quarto. Posso ser-te útil para algo? Peça. Quem sabe trocando conhecimentos a gente nãoevolui mais rápido? Beijos diversos e aos punhados! Conte comigo sempre. Aguardo tua resposta... Kevin Barreto."
  30. 30. 30 CAPÍTULO 05 Naquela ensolaradíssima terça-feira, coloquei a carta deDaiana no correio e fui no IFF retirar meu tão esperado re-sultado do exame em Análise Estatística. Tirei 73%. " Raspan-do a trave" como diziam meus colegas, especialmente o JoãoDanilo, o mais festeiro deles e o que me estendia a mão quan-do eu me apertava em alguma disciplina. Fora ele que meexplicou os métodos da regressão linear e curva-sinoidal não-linearizada. Eram tantos dados para tabelar que quase tive umtroço, mas consegui!!! No final de Maio, alguns alunos, colegas meus de Fí-sica, foram promovidos a bolsistas do CNPq. Eu não tive estaoportunidade infelizmente. Eu era fraco em disciplinasaltamente científicas como Física Quântica e MecânicaEstatística das Partículas. Eu as adorava, claro, mas nãocompreendia a maioria dos capítulos e aquele surradodicionário de português-inglês verde-oliva pouco ou nadaadiantava na hora de traduzir textos inteiros para eu poderestudar para as provas. Fora o fato da biblioteca do IFF serrestritíssima. Um livro era disputado. Tinha que tirar fotocópiade todo ele e devolver rápido. Muita gente esperava-o. Opessoal sofria mas se divertia. Uma vez o João Danilo me ligou: - Alô? - Kevin? E aí figura? - Beleza? - Ahan. Tá afim de participar de uma festinha na casa deum formado? Vamos ter ceva e churrasco. - Quando? - Amanhã de noite. - Levo o quê?
  31. 31. 31 - O casaco! vai estar frio pacas. Rimos... - Mas sério, Danilo, levo o quê? - Uns seis reais para a consumação da ceva apenas. - Ok, onde vai ser? - Na casa dele, a cinco quadras da tua, na Barão do Ita-raré, 158. - Ao lado da mecânica do Francisco? - Exatamente! - Estarei lá. - Valeu. - Até? - Até. Em 30 de maio compareci ao já mencionado "HappyHour", patrocinado por seis físicos, destes quais quatro forma-ram-se em licenciatura e que eu tive a felicidade de partilharalguma idéia. O Ernesto, por exemplo, seguiria para o Mestra-do em semi-condutância, do qual ele me mencionou qualquercoisa sobre algumas propriedades do Berílio oxidado. Lá pela sétima cerveja (eles estavam recém começandomas eu já estava dois copos além da conta... de meu fígado),passamos a contar piadas de nível universitário. Perguntaramsobre meus planos futuros... - Diz aí Kevin? - Ahh... sei lá, estou estagiando em uma escola esta-dual lá em outro bairro, a 17km daqui e estou adorando! - Fará mestrado em quê? (pergunta do Fabiano, um dosmais "crânios", já tendo a convicta certeza de que todos queingressam em Física com certeza irão para um mestrado...) - Não sei... minha quota de burrice acusa que não ultra-passarei a uma especialização na Uninter... Caíram na risada!
  32. 32. 32 - Tem certeza, kevin? - Absoluta. Quem me dera se eu tivesse tino para algu-ma idéia nova que eu pudesse colocá-la em mestrado e mes-mo que eu tivesse, não sobreviveria às disciplinas de Me-cânica Relativística 2 ou Quântica 2... eu entraria pelo halo deum buraco negro com certeza! Novas risadas. O Magnus, um dos bacharelados, adian-tou-se: - Que é isso cara! Você precisa ser otimista e confiante. - Concordo contigo, Magnus. Mas meu campo de ta-lento e competência não vão além da sala-de-aula do EnsinoMédio. Conheceram o Fernando? Ele plantava arroz com o paino Bairro Nossa Senhora da Saúde e agora está fazendo oque farei daqui a um ano, se é que eu passar no concursopúblico do estado em Janeiro de 2001. Farei o concuso. Os meninos prestavam muita atenção no que eu dizia.Sabiam que a conclusão de um Mestrado ou Doutorado nãoera a garantia de um emprego certo e em se tratando de Brasil,a sala-de-aula, no Ensino Médio ou Universidade, era inevitá-vel. - Laboratório apinhado de cientistas, meus amigos, écoisa para NASA, Intel, Pentágono, CIA ou ainda a Nokia. NoBrasil, só Embraer, Aproquímica, Eberle, INMET ou Rio Doce.E acabou. Muitos cientistas, meus companheiros de ceva, es-tão procurando trabalho e contentam-se em lecionar onde querque esteja... - É isso aí Kevin. Pior é que é... A churrascada durou até uma da manhã. Voltei antes.Despedi-me de meus amigos. Na volta para casa, a poucosmetros, não sei se foi ilusão minha ou se eu estava tonto, masvi, próximo ao portão de acesso um vulto de aspecto feminino,com rosto até que bonito, que olhou para mim, meio que sorriu
  33. 33. 33agradavelmente e se evaporou no ar em um segundo mais oumenos. No dia seguinte não comentei nada por que com cer-teza, era efeito da minha tontura, graças a Deus leve, pois seimaneirar na cerveja. Sorte minha que o churrasco não tinhamuito sal. No dia 05 de junho, às 11 horas, recebo uma carta daDaiana... e meu coração começava a dar pulos... Depois de ajudar minha mãe na cozinha e de almoçar,fui correndo lê-la. Ao abrir, outro cartão confeccionado quaseque igual ao primeiro, exceto pelas flores serem rosas e mar-garidas e pela mensagem ser esta: "Você é o perfume bom domeu jardim, Kevin." De resto, a misteriosa e deliciosa fragrân-cia na carta que, escrita a mão, dizia assim: "Nova Romênia da Serra, 02 de Junho de 2000. Oi, Kevinho? Foi com imensa alegria que recebi tua adorável carti-nha... seu maroto! Quase morri de tanto rir! Primeiramente o que dizer com tantos elogios a mim?Com certeza você exagerou! Não sou assim tão bela e nem tãoanjinho. Tenho lá minhas fraquezas humanas... E tembém digoque não irei colocar tua foto para as caturritas desapareceremporque elas virão igual devastarem o milho plantado pelo meupai. Aliás ele, Sr. Cezarino, já me questiona sobre você... eleficou curioso em conhecê-lo e eu falei o que sabia. Bem... voltando aos teus dulcílimos parágrafos, os quaiseu ria muito (e continuo...), muito obrigada pelos elogios. Claroque você exagerou, mas amei cada palavra sua... eu tinhaquase certeza que iria te desapontar, o que não ocorreu. Emocionei-me com lágrimas ao me chamares de Univer-so... Eu nunca vi alguém usar as palavras tão bem, tão franca-
  34. 34. 34mente e docemente, além de engraçadas.... Você é um espe-cialista em poesias hein? As meninas daí não se encantamcontigo? Quanto à minha confiança em você, você já a con-quistou desde a minha primeira carta. E digo que de todos osrapazes que escreveram-me, você é o que apresentou maiorcordialidade, maior sinceridade e maior disposição em trocarpalavras acadêmicas... e o que mais me fez rir! Seu sapeca! Muito obrigada mesmo pelo que você é! E por favor,continue assim e mais um por favor ainda: Me escreva! Euqueria ter 10% da tua inteligência em escrever cartas, coisaque ainda não conquistei. Bem, já que você concedeu-me de eu perguntar antes,lá vai: 1. Quais são os nomes dos teus pais? 2. Você almeja outra profissão além da de ser professorde Física? 3. Que músicas você curte? 4. Você confiaria em um namoro a distância? (Risos...fiquei vermellhinha, desculpe...) 5. Você gosta de viajar? 6. Você já namorou antes? Durou muito tempo? 7. Você é filho único? 8. Você fuma? Ou bebe? 9. Qual é sua crença religiosa? Desculpe se fui atrevida em algum momento, meu que-rido, mas não quero te ofender. Quero apenas te conhecer me-lhor. Saibas que você conquistou um lugar especial em meucoração. Tua foto coloquei sob minha cabeceira e tuas cartasreleio antes de dormir. Obrigada por tudo, especialmente peloque você é... Minha tia adorou o abraço que você enviou. Aceito ser
  35. 35. 35tua aluna de xadrez, Informática e Astronomia. Deve ser divinoobservar as estrelas e planetas pela tua luneta. percebi que ésum grande gênio de potencialidade ímpar! Puxa... já tens umadiscípula admiradora. Beijos, meu querido. Assim que me sobrar uns trocadosaqui, irei te ligar (de orelhão). Esteja certo disso. Estou ini-ciando um tratamento médico e agora irá mais um pouquinhodas minhas economias. Por sorte, além do estágio, sou remu-nerada por uma bolsa do Fiex e trabalho em um laboratório deestudo e análise das Pteridófitas. Amo plantas, especialmenteflores... Acho que tentarei uma vaga para Mestrado daqui adois anos se o destino deixar e Deus permitir. Olha, eu tive um sonho por estes dias, mais ou menosna madrugada de 30 de Maio ou coisa assim... Sonhei que viteu rosto por poucos segundos. Você estava próximo a um por-tão de cor escura, frente a uma casa branca e se não meengano tinham duas palmeiras na calçada, toda de grama.Mas foi tudo muito rápido... deixa pra lá, acho que estou fican-do fora da casinha... (risos...) Vários beijos para você. Com carinho: Daiana." As palavras que eu acabara de ler me petrificaram!!! Aorelatar seu sonho, Daiana não só me descrevera discre-tamente, como descreveu exatamente como era minha casa,as árvores e o pátio da frente!!! E o mais incrível, na mesmadata em que eu voltava da festa da casa do João Danilo! Teria eu presenciado Daiana, fora do seu corpo mate-rial? Teria ela afino espiritual apurado a ponto de pensar emmim e assim vir a meu encontro? Teria ela o desejo de me verenquanto dormia?
  36. 36. 36 Tudo na vida tem uma explicação e para estas pergun-tas faltavam-me algum esclarecimento...
  37. 37. 37 CAPÍTULO 06 Naquela tarde eu estava desconcertado! Um turbilhãode perguntas passavam-me pela cabeça: Namoro a distância?tratamento médico? O sonho? Tudo isso fervia em minha cons-ciência tal qual a água levada ao fogo para purificar-se... Eu encontrava-se na biblioteca do IFF. Eu estava soli-citando um endereço IP para meu notebook que eu tinha aca-bado de adquirir, depois de meses de economia e de uma tro-ca de meu usado e surrado 366MHz. Era um "Duron 900 MHz"com 256Mb de RAM e Windows 2000. Se eu me descuidasseele esquentava demais e tinha que dar um tempo de esfria-mento... No Google comecei a pesquisar sobre interpretações desonhos e viagens extra corporais, os quais surpreendi-me aoaparecerem links sobre espiritismo, Alan Kardec, magnetismoespiritual e paranormalidade. Baixei alguns textos para ler de-pois e na própria biblioteca existia um exemplar de "O Livrodos Espíritos". Evidentemente que o peguei e retirei-o. Abiblioteca me deu um prazo de sete dias, mas minhacuriosidade era tanta que o li em cinco dias, em paralelo comas disciplinas da faculdade tais como Metodologia de Ensinoem Física, Estrutura da Educação e Metodologia Física La-boratorial. Mas fora em Física 4 que algo me chamou atenção:Qualquer coisa sobre os Hádrons e Bárions, que poderiamassumir dois lugares ao mesmo tempo ou dois tempos em ummesmo lugar, segundo as Teorias de Einstein, se porventuraeles ultrapassassem a velocidade da luz e se tornassem tá-quions. Minha curiosidade era tanta que descobri um Centro Es-pírita em minha cidade. Passei a frequentá-lo e a fazer pergun-tas. Por verter da crença católica, a maior parte dos meusquestionamentos advinham de trivialidades banais típicas de
  38. 38. 38quem começa a se entrosar com o Espiritismo. Eu estavaamando cada momento e conhecimento assimilado. As casas espíritas são lugares simples, mas rigidamentelimpos, com pessoas dedicadas ao ser humano como a umirmão próximo. Eu ajudava no que podia... passei a frequentar commais perseverança. Com frequência aparecia alguma criançadas classes pobres pedindo roupas, comida e... acreditem...até atenção e carinho! Certo domingo me veio uma idéia: Ao conversar com Patrícia, a presidente da casa, tive aidéia de passar desenhos animados para as crianças. Era fácilde obtê-los nas locadoras ou baixá-los da internet. E eu aindatraria alguns doces para as crianças... Patrícia adorou a idéia e aceitou-a! Sextas-feiras, omais oportuno dos dias da semana, era o melhor, pois serviamas crianças com leite e pão ao meio-dia. E às duas da tarde eucostumava ficar livre de meus afazeres até às seis da tarde.Dia ideal! Na locadora, peguei um filme clássico dos Flinstones epassei-o para uma galerinha de 35 crianças de no máximo 10anos de idade! Elas amaram. Distribuí grande quantidade degominhas doces e coloridas, bombons e pirulitos! Elas ado-raram. Amauri, de apenas sete anos e com sintomas iniciais doHIV, me abraçou e me beijou no final do filme! Ele disse: - Obrigado, "tio", pelos doces e pelos filmes. Eu queriaque todos os outros tios fossem iguais ao senhor... Espero queesteja sempre com a gente. Após este discurso, as crianças me abraçaram e disse-ram, em coro: - Obrigado, Tio Kevin, pelo teu coração tão bom! Saí às 16:45 da Sociedade Espírita Luz e Esperança
  39. 39. 39Francisco Cândido Xavier, com os olhos estufados... mas mecontive para não chorar! Desde este dia, uma vez por semana, eu retornava àSociedade Espírita com novos doces e novos filmes. Eu mesentia novinho em folha, pronto para o que der e vier, depoisdeste prazeiroso momento com as crianças! Aquilo me faziaum bem enorme!!! Desde então, ler romances espíritas fez parte da minharotina, juntamente com meus clássicos universitários como porexemplo o Sílvio Salinas, de Mecânica Estatística, ou oMoyses Nussenzweig, de Física Moderna. Eu patinava emalgumas disciplinas, com notas mais ou menos, mas eliminava-as nos exames, com garra! Em 12 de Junho sobrou-me tempo para escrever para aDaiana, depois de tantas tarefas. "Santa Madalena do Sul, 12 de Junho de 2000 Cordiais saudações, princesa catarinense. Com muita alegria recebi novamente tua correspondên-cia e eis-me aqui de pronto a respondê-la. Obrigado pelas per-guntas que me fizestes. Que bom que adquirimos um mutualis-mo de confiança, carinho e afeto. Isso engrandece, enobrece esensibiliza o coração. É bom saber que algumas bobagens mi-nhas te fazem rir. Isso me deixa imensamente feliz por queestou melhorando este dom. Sempre gostei de fazer as pes-soas rirem e sorrirem perto de mim. Mas a distância, bem...você é pioneira. Parabéns por rir, gatinha linda. Meu coraçãoestá em festa. Obrigado por isso. Respondendo às tuas perguntas: A) Sou especialista em poesias e com tua permissãofarei-te um poema. Quer? B) As meninas não se encantam comigo... elas fogem
  40. 40. 40de mim e temo que você seja a próxima. Calma! Tenho saúdede ferro e não há nada de errado comigo, mas sou pé-frio paranamoro. 1. Meu pai: Luis Barreto. Natural da Bahia. Soldado doExército Brasileiro aposentado. Não subiu de carreira por nun-ca gostar de estudar; Minha mãe: Tereza Maria Ferrari Barreto, de descen-dência italiana. Adora uma polenta! Com ela aprendi todosmeus dotes culinários (sei cozinhar muito bem e lido com qual-quer coisa na cozinha). Fora professora na rede particular deensino e se aposentou assim. Lecionava em um internatocatólico no centro da minha cidade. Este internato é o mais an-tigo colégio daqui e foi criado pelos imigrantes italianos porvolta de 1898. 2. Sim almejo outra profissão: Ser meteorologista ouastrônomo ou cavar um poço de petróleo na Arábia Saudita eme aposentar (risos...). Estou brincando, Daiana. Almejo traba-lhar entre pessoas necessitadas como agora faço na Socieda-de Espírita Francisco Cândido Xavier. 3. Exceto sertanejas, funk e pagode, curto as demais.Adoro ouvir Enya, Kraftwerk, Vangelis, Jean Michel Jarre e se-melhantes. Das brasileiras, curto Raul Seixas, Ritchie, Enge-nheiros do Havaí, Titãs e Paralamas do Sucesso. 4. Sim, confiaria em namoro a distância... ainda maisdepois que te conheci, isto virou um sonho. Também fiqueivermelho e sem jeito com essa... você é incrível... 5. Sim, gosto de viajar, e como, mas não conheço tuacidade nem teu estado. Só as daqui de perto da minha comoSão Gabriel, Jaguari, Bagé, Dom Pedrito, Lavras do Sul e aspraias do Cassino e Rio Grande. 6. Meu último namoro durou um mês. Ela, minha ex, nãoera lá essas coisas e o novo namorado dela têm um carro e foipor isso que ela ficou com ele. O carro: Um opala 1978 com
  41. 41. 41frente rebaixada e motor envenenado. Não quero mais nadacom ela, que inclusive começou a fumar e a beber... Maria An-tônia é cinco anos mais nova que eu. E parou de estudar... 7. Tenho uma irmã, a Marilene, seis anos mais velha ejá mãe. Minha sobrinha, Rafaela, tem nove anos. 8. Nada disso! Nem fumo nem bebo. Uma cerveja so-cialmente lá de vez em quando ao ser convidado, mas nuncaabusei. 9. Sou espírita recém-convertido. Fisgado pela curio-sidade e por várias perguntas em meu subconsciente, leio in-tensamente as obras de Allan Kardec, Chico Xavier, DivaldoFranco e Raul Teixeira. Assumi o espiritismo há uma semana.Minha família é de vertente católica, o que não é de se es-tranhar, uma vez que 95% dos espíritas atuantes vêm do cato-licismo e isso é normal. Muito bem, Daiana. Das perguntas que me fizeste,agora refaço-as para você. Acrescentadas de: 10. Como é tuacidade? Daiana: Você não foi atrevida. Pelo contrário; tenho in-tensa admiração por pessoas tais como você: comunicativas,verdadeiras, francas, inteligentes e sociáveis, e a você acres-cento mais um: carinhosa. Adorei a notícia de que você colocou minha foto na tuacabeceira. Pulei de alegria aqui do outro lado. Inacreditável! Farei o mesmo com a sua... Obrigado mil vezes maispelo que você é e representa para minha esperança. Vou tentar te ensinar xadrez na próxima carta. Quer? Vamos uma coisa por vez. No que eu concluir Xadrezpasso para Matemática e assim por diante. Quanto ao grandegênio... julgaste a pessoa errada; pobre de mim... logo quemum gênio?
  42. 42. 42 Que alegria em saber que tenho uma discípula. Saibaque estou às tuas ordens para que eu possa ser útil em algu-ma coisa. Peça! Obrigado desde agora. Espero tua ligação com grande expectativa. À noite, es-tou em casa às sextas-feiras e fins-de-semana. Durante o diafico fazendo minhas coisas como enfrentar uma fila daquelaspara usar a internet, que infelizmente ainda é coisa para pou-cos. Envolvo-me com a faculdade cujas provas são agora maisfrequentes (final de semestre) e aos relatórios de minhas aulasde estágio supervisionado obrigatório no Colégio JoannaDArc. Se você não me levar a mal, poderia me explicar melhoreste teu tratamento médico? Espero que seja coisinha pouca,como ocorreu comigo estes dias, que senti uma dor de cabeçaforte e o diagnóstico acusou ingestão de leite coalhado, doqual ataca-me o fígado e a dor de cabeça aflora... Dormi aque-le dia, à tarde, por quatro horas, faltei duas disciplinas do dia,mas a dor se foi! Amei ao dizeres que relê minhas cartas antes de dormir.Adotarei esta mania... relerei as tuas, meu coração. Diga o que descobristes sobre as pteridófitas. São sa-mambaias ou coisas assim? Consultei o Aurélio da Língua Por-tuguesa (Amansa-burrão) e ele mencionou "samambaia". Quanto ao sonho que você teve, você descreveu direi-tinho minha casa. Ela é a única da Avenida Olavo Bilac a terduas palmeiras, as grades do portão são marrons, minha casaé branca (pintamo-la faz um ano e meio) e minha calçada defrente à rua não tem lages ou lajotas, outrossim é grama mes-mo. Conclusão: VOCÊ NÃO ESTÁ FORA DA CASINHA... enaquela noite do teu sonho eu vi um vulto que se desfez emminha frente e fiquei ali parado completamente, por estar im-presssionado. Não comentei nada com ninguém do que vi. Ovulto era feminino e tinha a face branca e os cabelos iguais
  43. 43. 43aos seus... SERÁ QUE ERA VOCÊ... FORA DO CORPO??? Vamos estudar este fenômeno e tirar conclusões de-pois. Foi o que fiz aqui e isso me puxou para publicações espí-ritas. Agora, as leio muito. Leia algo sobre viagens extra corporais. Tente o google.Eu achei várias coisas aqui sobre isso... fascinantes. Ganhei um livro de uma grande amiga nossa daqui dobairro. "Nosso Lar", psicografado por Francisco Xavier. E oque descobri? As iniciais D.S. com letra igual à tua e, coin-cidentemente, as iniciais são do teu nome e sobrenome. Incrível, não? Estou mergulhado em pensamentos. Beijos multiplicados por mil e com direito a bis... (risos) Penso em ti o tempo todo. Existe possibilidade da gen-te se ver pessoalmente? Vamos fazer o carteiro trabalhar? Até breve, querida. Com saudade e carinho: Kevin." Depois de colocá-la no correio, às 16h, no intervaloentre Física 4 e Estrutura da Matéria, no campus do IFF, dei-me por conta que era dia dos namorados... mas eu não pudefazer nada por que afinal, nem nos conhecemos a não ser porfoto, além de eu ser temeroso a precipitações... A noite caiu e a notícia de falecimento de um dos pro-fessores da escola, devido a derrame cerebral, fez com que asturmas fossem para casa mais cedo, às 21h 30min. Só resolvidúvidas àquela noite e ao chegar em casa, constatei que meurelatório de estágio estava infectado com um vírus perigoso, eeu não havia feito atualização do antivírus faziam três se-manas! No dia seguinte, em 13 de Junho, abaixo de uma chuvade encharcar e de uma temperatura agradável, fui no CPD
  44. 44. 44tentar baixar uma atualização para o bendito antivírus. Conse-gui. Coube, comprimido, em quatro disquetes, mas não percebique um deles estava com setores físicos ruins e não conseguideletar o vírus pois a instalação da atualização falhou em63%... Meu relatório de estágio foi ralo abaixo e o maldito, umtal de BUSWORM32.MS, só foi retirado no dia seguinte. Tiveque fazer o almoço e ajudar minha família a limpar e reor-ganizar a casa, toda prejudicada pela infiltração que intensi-ficou-se na sala dos fundos. Agradeci a Deus por ter todo orelatório feito a mão, produzido desde a sala-de-aula conformeexplicava e conforme avançavam os dias do estágio. Redigitei-o em quatro dias, trabalhando pela manhã. A semana mal deutempo de respirar. Do dia 16 para o dia 17, meu antivírus identificou eeliminou cerca de 19 cópias do vírus BUSWORM32.MS. Desdeeste dia, com uma caixa de disquetes novinha em folha, eu iano CPD e baixava várias cópias da atualização do dia. Destamaneira, se um disco falhava, tinha outro exatamente igual. Mesmo assim o Windows fez mais uma das suas. Nãosei como, mas o arquivo NTDETECT.COM simplesmente su-miu do sistema e eu tive que reinstalar todo o Windows denovo... Ócios de um ofício fastidioso. No ensolarado dia 19 de Junho, três clientes batem àminha porta para a resolução de problemas de computadores.Um deles, o desaparecimento repetino do NTDETECT.COM eda atitude homicida do BUSWORM32.MS em defenestrar do-cumentos de editores de texto... Em um dos gabinetes, ao ser aberto, pois eu costumavadar uma limpeza "de cortesia", um ninho com três marimbon-dos os quais um deles alcançou minha bochecha esquerda.Todo mundo perguntava do porquê daquele estranho inchaço.Sou um cara de sorte... meu antivírus não matou os marimbon-dos. Ao remover o ninho, feito de barro , religuei o computador
  45. 45. 45e o Windows detectou um dispositivo desconhecido... seria oModem? Verifiquei. Um marimbondo seco entre dois pontos desolda, na placa-mãe. O Windows... ahhh o Windows... E em meio a tudo isso: Prova de Quântica 2 às 14h 30min... suei frio naquele dia e voltei cabisbaixo... - Alô? - Alô, kevin? - Deixa eu ver... João Danilo? - Ele mesmo. Como anda bicho? - Sempre correndo feito rato de gato! Perdi até 4 qui-los... - É o seguinte: Meu PC tem um problema. Eu já ia dizer NTDETECT.COM e BUSWORM32. MS...até que... ele se adiantou: - Minha noiva, a Tânia, instalou um jogo aqui. É um bi-chinho que joga paciência contra você. Mas o tal bichinho co-meçou a rir depois que ele venceu e os dados sumiram!!! Atela ficou preta. - Ai meu Deus... - O que foi Kevin? Grave? - Tu tá sentado? - Sim... aiaiai... fala vai. - Ela baixou, na verdade, uma variante do Tamagoshi.worm32, que se instala na BIOS e ... detona com tua partiçãoFAT... tu tinha backup dos teus dados? - Não... minha tese de Doutorado... ah não... Não temcomo recuperar? - Infelizmente não, João Danilo. Posso tentar gratuita-mente para ti, mas não garanto nada... A voz murcha, triste e mortífera do João Danilo me co-moveu dali por diante: - Eu te daria 400 reais se tu conseguisse Kevin...
  46. 46. 46 - Vou fazer um disquete de boot agorinha... me aguardeuns 50 minutos e não ligue o PC ok? - Certo... vou preparar umas pipocas para nós... tô fer-radíssimo e acabado... Quase uma hora e meia depois cheguei à casa do Da-nilo. Ouvi da calçada externa. Ele discutia suavemente com al-guém: - Tu, ô cabeça oca, não deveria ter instalado aquelaporcaria de jogo! Lá se vai um trabalho de um ano e setemeses! Toquei a campainha... ele atendeu... mais amarelo queagricultor tibetano... - Kevin, minha única e última esperança... Entrei sem rodeios e já comecei um boot pelo disquete. - Danilo: O fdisk não acha partição alguma, é como seela nunca tivesse existido. E agora? - Agora vou sumir de vez! Vou me mudar para o Uru-guai, em Trinta Y Trés, e plantar soja com meus primos. Ao ingressar na BIOS do computador, eu quase encolhi-me de aterrado. O tal bichinho do jogo de paciência estava lá,avermelhado, sorrindo cinicamente... estático, com uns medo-nhos caracteres ASCII em torno dele... - Como vou matar este tal tamagoshi agora? - Se tu não sabe, Kevin, imagine eu... Ai meu Deus...estou passando mal... Após dizer estas palavras, Danilo foi ao banheiro, cha-veou-se lá e começou a vomitar... Não consegui sequer criar uma partição no PC dele. Ovírus bloqueava... Tânia avisou qualquer coisa que iria paracasa da mãe dela, no Bairro Amadeo Sartori, e sumiu... Entardecia e a escola me esperava. Despedi-me do Da-
  47. 47. 47nilo. Ele estava arrasadíssimo. Três dias depois fiquei sabendoque ele desaparecera. A casa, que ele pagava aluguel, ficoucom os móveis e algumas roupas. Pensei: Ele foi mesmo parao Uruguai... ledo engano. A Polícia encontrou seu corpo na saída para Pinhal daSerra, ao norte da nossa cidade, enforcado em uma imbira, àsmargens da BR 169. Tudo indica que ele percorreu os 17km dasua casa até ali, na subida para a serra. Meus olhos não acre-ditavam... Rezei para ele. Em seu velório encontrei colegas decurso e até treze ex-alunos do meu tempo de Ensino Médio noColégio Giuseppe Garibaldi. Os pais do Danilo choravam empânico e aquilo começou a me fazer mal. Na hora, compileimentalmente uma oração aos Espíritos Superiores e curiosa-mente as pessoas começaram a diminuir a lastimosidade doschoros e se aliviarem um pouco. Nunca me esqueci do Danilo. Esforçado, doce e queridoele era disputado nas rodas de amigos. Ajudava a tudo e a to-dos, com sorriso nos lábios. Tânia, sua noiva, era quieta, introvertida, de poucosamigos e com um ar de traiçoeira. Eu não a vi no velório doseu "querido", mas dezessete dias depois encontrei-a traba-lhando no camelódromo da Vila São Caetano, a 21km de meubairro. Lugar com fama de perigoso devido às classes baixasda população. Detalhe, ela já estava noiva de um sujeito dequase dois metros de altura, corpulento, piloto de uma moto de1100 cilindradas e que vendia cigarros e bebida alcoólica emuma das outras bancas. E mais: O geito dele lembrava-me ode um viciado ou traficante de drogas. Somente uma coisa me atraía naquele camelódromo:um cebo de livros usados. Lá encontrei "Memórias de um Sui-cida" por sete reais, e também "Estela", de Camille Flamma-rion, que me saiu por quatro reais e meio. Comprei O Livro dos
  48. 48. 48Espíritos e presenteei Dona Vitorina, a mãe do Danilo, quaseum mês depois da morte do filho. Ela me abraçou e o seu es-poso, Sr. João Batista, ávido lavrador em terras arrendadas,me convidou para matearmos juntos, com bolinhos fritos e al-gumas histórias... Eles começaram a ir na Sociedade ChicoXavier quatro dias após minha visita com o presente e não fo-ram poucas vezes que os vi chorar. Continuaram a frequentara sociedade, fazendo como eu: distribuindo gibis e doces àscrianças portadoras de HIV ou qualquer outro tumor, que alifrequentavam quando podiam. No que eu disse o nome de mi-nha mãe à Dona Vitorina, ela quase pulou! Dona Vitorina foraaluna de minha mãe no Colégio Interno! Após a formatura do Antigo Ginásio, Dona Vitorina ca-sou-se com João Batista e despediu-se de minha mãe. Forammorar em Bento Gonçalves onde ambos trabalhariam em umavinicultura por quinze anos. O casal sempre fora apaixonadopor uvas e vinhos! Poucos dias depois Dona Vitorina visita-noscom uma rara alegria e minha mãe não acreditou quando elaapontou no portão. Sem exagerar, "prosearam" até à meia-noi-te! Julho chegou e com ele as provas finais. Infelizmentenão consegui concluir a disciplina de Quântica. A prova fora di-fícil. Mas não perdi as esperanças, por que das cinco foi aúnica que não fui bem sucedido. Apesar do vírus ter destruido a primeira versão de meurelatório de estágio, em quatro dias consegui reconcluir suas78 páginas... A turma "308" do Colégio Joanna D´Arc des-pediu-se de mim como despediu-se de um rei: Chás, bolinhos,doces e um presente ganhei da Equipe de Professores eFuncionários: Uma linda bússola com inscrições no estilo his-tórico do século XV, com algarismos romanos e um mapa daAmérica Antiga no plano-de-fundo da bússola. Diseram-meque era um agradecimento aos mais de quarenta livros de Físi-
  49. 49. 49ca doados por mim à biblioteca daquela escola. O Estágio Supervisionado em Física rendeu-me 97% danota semestral e fora a minha mais alta. Na noite de 05 de Julho, o telefone: - Alô? - Kevin? - Pois não? - É a Dona Vitorina... - Que alegria! A senhora está bem? - Sim, agora melhor que nunca! Estou me sentindo mui-to renovada porque um dos médiuns da Sociedade Chico Xa-vier recebeu uma mensagem, acerca da situação do meu fi-lho... O que eu acabara de ouvir fez meu coração disparardentro de mim, como uma bomba desgovernada... - A senhora tá brincando?? - Não, meu querido. Recebi-a hoje. Estou com ela emmãos! Anotei. - Passarei um dia aí para vê-la? - Sim. quando quiseres. Conclui a leitura do Livro dosEspíritos. Três vezes por semana eu e meu esposo vamos ao"Chico Xavier" para assistir às palestras. Uma delas me como-veu muito: sobre suicídio. - Continuem frequentando e parabéns pela iniciativa!Até breve! - Até breve meu querido! A este meio tempo, ao saír para ler meus e-mails, o car-teiro entrega-me uma papelada nas mãos e em meio às já co-nhecidíssimas propagandas de lojas e contas a pagar, duascorrespondências de Daiana: Uma era particularmente grande,excepcionalmente florida e aromática. Ao abri-la, meu coração
  50. 50. 50disparou como um louco desgovernado, de novo! Tratava-se de um cartão desses que projeta um pano-rama sanfonado, como um cartão 3D. Montanhas, árvores,uma cascata e um aroma de flores e uma musiquinha de fundoquase me fizeram desmaiar! Lindo! Nele uma inscrição dou-rada dizia: "O amigo sincero, fiel e verdadeiro não tem preço enada se compara ao seu valor!" Escrito a mão, outro dizer: "Kevin: Minha cidade é assim... mais ou menos! Teaguardo se vieres. Beijos vários da menina que pensa demaisem ti: Daiana." Guardei a bicicleta, nem saí... meus olhos se recusavama abandonar o cartão. E para minha surpresa, na carta convencional, uma fotode Daiana, de corpo inteiro. Ela vestia um biquini de banho eestava com um coco nas mãos, sorvendo a água pelo canu-dinho. Seu rosto irradiava uma angelicalidade profunda... seucorpo, perfeito até demais, fez-me estremecer e o coração dis-parar irremediavelmente. Tive que me sentar e massagear meupeito! A impressão que eu tive foi de meu coração querer abrirum buraco em mim, tais eram os socos das batidas. Nunca ha-via até então experimentado uma sensação igual... Eu nãoacreditava nos meus olhos. E a carta dizia: "Nova Romênia da Serra, 28 de Junho de 2000 Oi, meu doce Kevinho!! Que alegria receber e responder tuas cartas. Estou tãoanimada e feliz que anexei uma foto minha que tirei em fe-vereiro no Balneário Orquídeas, perto de onde moro. Vamos
  51. 51. 51ver agora se eu te decepcionarei ou não... porque estou comuns quilinhos a mais... pois bem, agora eu quero que você mefaça o poema conforme me prometeu... já pensou se eu meapaixono por você? Pobrezinho do Kevin... sobrará para ti meaturar (risos...). Quanto a você ser pé-frio para namoro, eu duvido muito.Você é lindo... então já que estás livre eu acho que vou quererte namorar... hahahaha... querido! Você nem imagina as poten-cialidades que tens... vá que você conheça uma concorrenteminha por aí e esqueça desta chata que só te amola? Com imenso prazer te responderei às perguntas queagora eu te devo: 1. Meu pai: Sr. Cezarino Stackerborensku, de 58 anos,natural daqui mesmo, agricultor, sapateiro e exímio confec-cionador de selas para cavalos, ama tudo o que faz. Ah, eletem lavouras de trigo e milho. Sua descendência é romena. Minha mãe: Sra. Verenita Radensku Stackerborensku, écostureira, foi professora e agora é aposentada em seus 56anos. Doceira de mão cheia, é cabelereira e floriculturista. Elamontou a microempresinha dela aqui em casa. Vende flores,costura para fora e faz uns bolos e doces que, em parte, ex-plicam meus quilinhos em excesso (risos...). Ela é muito in-teligente e vez em quando andamos de bicicleta. 2. Minha profissão dos sonhos? Ser bióloga e tanto fazse professora ou pesquisadora. E quero ser como minha mãe:muito inteligente, aprender a cultivar flores e fazer doces. Bem... já sei fazer isso, mas quero ser tão profissionalquanto ela, que tem um dom mágico! 3. É... também não gosto de funk e pagode, mas nãodispenso uma música sertaneja de vez em quando. Meu paitem uma coleção de mais ou menos uns 1000 discos de vinil.Ele não é fã dos CDs, gosta dos velhos tempos... e eu vi quedentre a imensa coleção dele tem um disco de vinil do Kraft-
  52. 52. 52werk. Ainda não ouvi mas farei isso... No demais temos muitoem comum com música. Tenho uns CDs do Raul Seixas, En-genheiros e Titãs. Se quiseres, faço um CD para você comumas coletâneas, quer? 4. Eu também confiaria um namoro a distância... mas...será que daria certo? Nunca tentei. Eu até gostaria de experi-mentar. O problema é aguentar a saudade, mas por outro ladonão se brigam... A distância impede isto... 5. Viajei pouco, mas adoro. Do teu estado, só conheçoalgumas cidades: Erechim, Iraí e Santa Rosa. Minha mãe temuma prima que mora em Erechim. Aqui em SC conheço umasdoze cidades, pertinho da minha. Cito três como exemplo: RioNegrinho, Joinville e Timbó". 6. Comovi-me muito do seu relato sobre sua primeiranamorada. Eu cheguei a "ficar" só uma vez com um garoto dosmeus tempos de ensino médio. Eu tinha algumas espinhas euns quilinhos a mais. Ele, conheceu uma moça mais velha queeu e até mais bonita. Mas depois foi ficando com outras... umgrande galinhão! Ele, o José Alcides, sumiu daqui. Dizem quefoi a Florianópolis trabalhar como confeiteiro de restaurante. Nunca mais namorei ninguém pois me frustrei. Decidiesperar para ver o que o tempo irá decidir. E descobri que amoescrever cartas... 7. Sou filha única. Mas não era para ser. Verônica, nas-cida quatro anos mais tarde que eu, faleceu de uma doençarara após o nascimento, que lhe atrofiou o sistema nervoso eimunológico. Viveu entre nós por apenas dois anos... Ela tinhaos olhos azuis mais lindos que eu já vira em minha vida! Erainteligentíssima! Aos nove meses de vida já arriscava em ler aspalavras grandes nas capas de revistas e jornais e issochamava atenção das pessoas. 8. Sou frontalmente contra os vícios do fumo e do ál-cool. Em meu aniversário só consumo refrigerante e veja lá.
  53. 53. 53Cerveja é bom, mas devemos nos cuidar acima de tudo. Meupai adora cerveja mas ele exemplifica tomando raríssimas ve-zes. 9. A princípio, minha família é de religião ortodoxa, taiscomo meus avós e antepassados que vieram da Romênia. Já liuns romances espíritas e achei bem interessantes. Eu tive umlivro há muito tempo atrás: "Nosso Lar", do Chico Xavier e tudoindica que ele está em tuas mãos agora!! Por acaso ele nãotem uma frase mais ou menos assim: "Fé raciocinada é aintegral aceitação da nossa condição, na Natureza"? O meninoque tentei namorar furtou-me o livro depois que emprestei paraele na época que o danado sumiu para a capital e não maisvoltou. Como foi parar aí o livro?? Bem, conforta-me a possibilidade de voltarmos, pela re-encarnação, para termos novas chances, novas possibilidades,novas tentativas. Nunca tinha pensado sobre isso e comecei a refletir.Tomara que seja possível e real, porque nossa vida é pequenademais para tantos aperfeiçoamentos, responsabilidades e ro-deios. Li um livro lindíssimo estes dias: "Violetas na janela".Você já o leu? Espero que ocorra de verdade aquela passa-gem após a morte. A vida eterna não pode ser assim triste esem esperança no horizonte conforme dizem os cristãos tradi-cionais. A fé inteligente deveria se sobrepor à fé burra. Infeliz-mente isso não ocorre entre os fiéis. 10. Minha cidade? É bem pequena, 4500 habitantes,montanhosa, no topo da Serra do Contestado (885m acima donível do mar), faz um frio danado nos meses de inverno e noverão nunca subiu dos 260 C. Mas é bonita: Cuidada, canteirosfloridos, casas enfeitadas com flores, tinta nova, essas coisas.A prefeitura dá imenso valor à preservação, tanto, que o ria-chinho que passa no centro não é poluído e as crianças pes-cam lambaris! Temos o Festival das Flores e Doces, que
  54. 54. 54dura seis dias e tem até bailes, festas e divertimento noturno.A paisagem aqui é muito bonita, produz-se trigo, centeio, fumo,soja, milho, amendoim e alho. Tem duas vinícolas famosas:São Valentim e Sangue da Serra. As vindimas são enormes.Os vinhos, deliciosos. Quase todo mundo conhece todo mun-do. O prefeito joga baralho com meu pai e saem até para caçarlebre juntos. Aliás, lebres por aqui é o que não falta. Moramos a 5km do centro. A cidade é uma paz quedói... O último e único homicídio ocorreu em 1982. Disputa deterras entre pai e filho... OBS: A Avenida principal: São Gotardo, concentra aprefeitura, a câmara de vereadores e todas as lojas da cidade.E ainda possui imbiras e carvalhos de mais de 200 anos! Obrigada pelos teus elogios, meu querido kevinho! sãotantos... obrigada por confiar em mim. Nunca pensei que al-guém me achasse carinhosa. Será que sou? Bem... gostariade que você me conhecesse e experimentasse minha persona-lidade para realmente comprovar. Eu adoraria ser carinhosacom alguém que mereça meu coração. Será este alguém vo-cê? Eu queria que fosse... (fiquei vermelhinha...). Eu queria teconhecer e te abraçar, Kevinho... Quanto ao xadrez, aceito as aulas, mas não sei ondeconseguir um tabuleiro com as peças. Os bazares daqui nãotem muita variedade mas irei tentar e estarei pronta para a pri-meira aula. Você é sim... um gênio! Um cientista! Te consideroum menino muito devotado à cultura, aos estudos, ao futuro... Por favor, se não for abusar da tua vontade, você des-cobriria um livro para mim? Trata-se do "Dendrologia das Pteri-dófitas". Aqui não existe, nem em lugar nenhum que eu co-nheça. Esqueci até o autor. Diga-me o preço do xerox que eute enviarei, certo? Seria um favor e tanto... Não vejo a hora de começar o meu estágio supervisio-
  55. 55. 55nado no Colégio Cristo Rei. Adoro dar aulas! Vou te ligar daquia uma semana, aguarde... Quanto ao meu tratamento médico, o laboratório aindanão liberou os resultados por que os exames vão a Florianópo-lis e demoram semanas para virem. Mas é coisa pequena. Opreço dos medicamentos é que me preocupam. Provavelmenteeu terei que depurar o sangue com remédios. Mas está tudobem; não sinto nada de errado. Quanto ao meu menino, cuide para que não fique maisdodói... já que estou longe de ti, peço-te para que te cuides...Você é meu poeta! Bem, quanto ao sonho que tivemos, temos que estudarmelhor o caso para não nos precipitarmos em conclusões. Foiestranho, de fato. Naquela noite eu adormeci pensando em ti eprovavelmente nos aproximamos espiritualmente. Pelo que po-demos ver, Deus é muito mais do que aquilo que supunha-mos. O amor vence barreiras e quanto à espiritualidade, minhaintuição me diz que devemos aprender muitas coisas indepen-dentemente da nossa crença ou religião. Algo me diz que nos-sa vida material é ilusão e que a espiritual é verdadeira. Procurarei na biblioteca da minha faculdade ou na bib-lioteca da nossa igreja ortodoxa alguma coisa sobre o assuntoe te direi o que descobri. Se você quiser vir me ver, fique a vontade. Avise-me,para que possamos ver se o tempo e a ocasião sejam opor-tunos para mim e para você. A propósito, qual é tua data deaniversário? A minha foi 12 de Junho. Fiz 26 anos. Aguardo tua cartinha, meu anjo amado, hoje e sempre.Beijinhos doces de chocolate. Já estou com saudade, querido. Da tua discípula espiritual: Daiana."
  56. 56. 56 CAPÍTULO 07 De tudo o que li na carta, Daiana demonstrou-me seruma moça muito segura de si, confiante na sua intuição e nascoisas que lê e descobre, além de ser excepcionalmente sim-ples e ter convicta franqueza. Qualidades raras em um ser-humano. Mas o que me deixou triste foi de eu ter perdido o ani-versário dela sem enviar nada. Em parte, foi bom, por que evi-tou precipitações de minha pessoa, mas quando ela afirmouque seu aniversário fora em 12 de Junho, dia dos namorados...daí sim meu coração inquietou-se... mas o jeito era dar tempoao tempo e ver as coisas amadurecerem devagar. Eu estavaesperançoso de namorá-la, mas como? Nossas cidades se-paravam-se a uma distância de 685km aproximadamente. Eu nunca tinha conhecido alguém de descendência ro-mena no Brasil. Há pouco tempo descobri, por pesquisas nainternet, que os romenos vieram junto com os alemães e ita-lianos no século XIX, de 1850 a 1870, na mão-de-obra agrícolaque o Brasil tanto precisava. Agora, se Nova Romênia da Serra fora fundada só poreles, isso seria uma novidade para mim, por que a maior partedas cidades no Sul do Brasil foram fundadas por italianos, ale-mães, poloneses ou russos, mas romenos era algo que eununca imaginaria. Eu entusiasmava-me com a História da imi-gração no Brasil e vez por outra, dava uma olhadinha na Inter-net a respeito da Romênia. E o que descobri me fascinou: Terra do Imperador Vlad, o Drácula, que sacrificavapessoas e animais para banhar-se em sangue, há mais oumenos 700 anos atrás. Terra tembém das últimas florestasintocadas da Europa, de inúmeras grutas e cavernas e de umafauna fascinante. Ali, parte do povo europeu ainda vive nas ati-vidades agropastoris mais ou menos como a Europa era antes
  57. 57. 57da revolução Industrial. E as mulheres... são lindas, na Romê-nia! Deduzi que as leis ambientais por lá são rigorosíssimastal é a beleza do país em se tratando de florestas, montanhase animais. Mas a realidade cotidiana me voltou quando o telefonetocou. - Alô? - Kevin? - Sim! - Aqui é a Patrícia, presidente do Chico Xavier com aboa notícia... - E qual? - Consegui o espaço físico para você montar a sala doscomputadores para as crianças... Do outro lado, quase explodi de alegria... - Tá brincando??? - Não. É sério, você já pode desencaixotar os micros do-ados e começar a instalar... - Neste sábado? - Pode ser! - Patrícia! Muito obrigado!! Não tenho palavras! Sábadoàs 14h estarei aí. - Feito. Até lá e um abraço! A notícia, para mim, fora espetacular. O que me preocu-pava era o fato das pessoas, e muitas, doarem computadoresem excesso, obsoletos para elas, e me faltar espaço para tra-balhar, mas eu usei a cabeça... No sábado marcado, já na segunda metade de julho, láfui eu com uma pendenga de coisas na minha mochila e na bi-cicleta: um soldador de estanho, um jogo de sete chaves-phillips, cinco de chaves-de-boca e oito chaves-estrela, além
  58. 58. 58de um potinho entupido de parafusos pequenos de todos os ta-manhos, alguns mouses, extensão elétrica, pilhas-de-BIOS epor aí foi... Entusiasmado, nem olhei a palestra da tarde e me perdino tempo... Dos quinze gabinetes doados, dois tornaram-seinúteis e deixei seis funcionando, prontos para receber o Win-dows. O chato foi os estabilizadores. Dos dez, um apenas con-tava com o fusível bom, os demais com os fusíveis queimados.No domingo seguinte eu já tinha tirado as cópias das chaves-de-acesso ao prédio e recomecei... só terminei à noite, semcessar e nem a chuva que começou a cair às quatro da tardeme desanimou. A sorte é que o vizinho da frente da Sociedade ChicoXavier tinha sete fusíveis e deixei sete dos nove esta-bilizadores inoperantes funcionando. Seu Aldo Corrêa aindame cedeu três teclados, três mouses e quatro caixas de dis-quetes de 1.44Mb. Abracei-o tal a generosidade do coração econtinuei meu trabalho, tapado de poeira e óxidos de ferrugemimpregnados nas mãos. Na hora de voltar, e o fiz às 8h da noite, onze com-putadores estavam com o Windows e um com placa-mãe pi-fada. Voltei para casa e na semana entrante providenciei osfusíveis faltantes, alguns mouses, drives de CD, Hub de rede eplacas de rede. No finalzinho de julho eu já estava com olaboratório quase pronto, com suas mesas e cadeiras. Aindame faltavam os cabos de rede que, pacientemente, medi asdistâncias dos gabinetes até a hub, na parede, para provi-denciar. A sala para mim cedida possuía uma área de 40m2 ,tinha prateleiras e uma mesa da qual era a "mesa de cirurgia"dos computadores. Já em agosto, com a retomada das aulasno IFF, eu já estava com tudo pronto para começar com ascrianças matriculadas no Xico Xavier. Onze crianças pobres
  59. 59. 59cujos olhinhos brilhavam de contentamento. Comecei em umasegunda-feira, distribuindo doces, lápis, borrachas, cadernos eapontadores para eles. Minhas sextas-feiras eram quase livres, apenas com Fí-sica Quântica às 8h da manhã. As demais disciplinas que mematriculei eram nas terças e quintas. Sexta-feira de tarde erameu dia sagrado para com as crianças pobres. Eu ensinavanoções triviais e elementares de datilografia e introdução aoWindows. Pacientemente resolvia as dúvidas dos pequenos eos fazia rir muito às vezes. Como fora gostosa esta partilha de existências! Porémàs vezes, o destino nos testa os parâmetros do amor e dosofrimento. No meio de Agosto um dos meus alunos, o Amauri,de apenas 11 anos, falece, vítima do HIV que possuía. Naquele dia fomos ao velório, mas fiquei por 10minutos; os demais de minha classe de alunos ficaram. Tiveque correr para a aula de "Metodologia de Cálculo Com-putacional". No mesmo sábado da semana corrente, o tema napalestra espírita no Chico Xavier fora justamente sobre a Es-piritualidade e as Doenças Incuráveis. Ao chegar em casa, por volta das 9h da noite, exausto,vi o que parecia o vulto de um gato branco pular a grade dojardim da frente. Ele parou, me olhou por dois segundos esumiu na folhagem das hortências. Verifiquei cada arbusto enada... O bicho evaporara como que por encanto. Ele não es-tava onde deveria estar!! Entrando na cozinha, com fome de cão, minha mãe co-mentou: - Kevin, Daiana te ligou... Após ouvir isso, meu coração parou... eu não acreditei! - A que horas? (quase gaguejando...) - Foi às oito. Ela disse que tentará te ligar às dez... - Ai! Puxa vida!!! Terei que tomar um banho rápido, co-
  60. 60. 60mer algo e esperar... Foi o que eu fiz. Às nove e cinquenta o telefone toca eeu vôo em direção a ele: - Alô? - Oi? O Kevin, por favor? - E... ele! (quase gaguejando...) - Oi meu amor? - Daiana!!!! Que alegria!!! Não acredito, Deus! - Tudo bem contigo, meu querido? - Agora mil vezes mais! Estou ouvindo a tua voz! E con-tigo, princesa do Universo? - Nem tanto. - Uai! O que houve desta vez, doçura? - Branquinho morreu atropelado anteontem. Era meuúnico gatinho de estimação. Ele se meteu em um buraco entreduas pedras para caçar um ratinho, em meio à nossa estradamunicipal. Daí veio uma patrola da prefeitura para começar aterraplanagem, a lâmina passou em cima das duas pedras eele morreu esmagado. Chorei o dia todo. Ainda choro. Ele fal-tava falar. - Ele era todo branco????? - Sim. Como uma bolinha de neve... e adorava se es-conder em arbustos ralos. Naquele instante um arrepio me percorreu a espinha dacabeça aos pés, me dando uma sensação de gelo até no co-ração. - Daiana! Nossa! Ahh meu Deus! Ontem vi um vulto deum gato branco como se pulasse a grade de nosso jardim nafrente. Ele me olhou rapidamente e se evaporou próximo a umarbusto de hortências. Fui lá verificar para ver se ele con-tinuaria a fugir se me visse, com o barulho típico da folhagemde arbustos... mas ele não estava lá!!!!! - Aconteceu de novo então?
  61. 61. 61 - Sim! De novo... os animais são seres espirituais comonós! - Eu queria muito que isso não fosse simplesmente umafrase de consolo ou de auto-ajuda, Kevinho... - Daianinha: A medida que nossa educação moral enossa integridade de caráter se aprimora, o que é místicopassa a ser oficialmente científico. Creio em Deus que fez ascriaturas, mas não no deus fajuto que o homem fez. - Você é um amor, meu coração. Estou me sentindomelhor agora... Só você mesmo para voltar a me fazer sorrir. - E teus exames médicos? - Chegarão amanhã. Terei que retirá-los. Senti uma dorestranha na altura do baço e do fígado. Não sei explicar. - Estou preocupado, Daiana!! Ai... - Calma. Vai dar tudo certo. Segunda feira tenho examegeral marcado, de sangue e de amostras de urina e fezes. Agora a boa notícia: Meus pais compraram nosso tele-fone, anote: 42 3006 6005. Pegou? - Que alegria!!! Anotei! Vou te ligar aos domingos, ser-ve? - Amanhã? - Sim! À noite? - Tudo bem. - Que alegria Daiana!!! Teu gatinho não sofre mais...não fique triste! Com o tempo, você conseguirá outro filhoti-nho... - Igual ao Branquinho vai ser difícil... - Otimismo, menina! Força! És fortíssima, mais do queeu com certeza! - Certo! Você não existe! Teu dia foi bom? - Terminei a construção do laboratório de informáticadas crianças no Chico Xavier e dois dias depois um dos meusalunos falece de HIV. Fiquei tão triste...
  62. 62. 62 - Mas precisamos ser fortes. Somos imortais. - Sim, Daianinha, e você é minha força, minha esperan-ça! E o teu dia? - Ajudei a mãe hoje. A clientela dos doces e dos cortesde cabelo disparou e eu tive que botar a mão na massa... - E as aulas? - Matriculei-me em quatro disciplinas apenas. Ainda bemque não repeti nenhuma. A mais importante é sobre a Dendro-logia das Pteridófitas. Base para as gimnospermas, depois. - Claro! Teu livro! Consegui um usado, serve? - Sim! Sério mesmo? - Te mandarei por sedex. - Quanto custa? - Vamos ver... a calculadora... hãhã... aqui. - Quanto? - Nada. É de grátis! - Kevinho, seu sapeca! - É presente de aniversário atrasado. Já era tarde quan-do tomei conhecimento. Mas te devo outro ainda e irei mandar. - Dois? Como assim? - Sim: Por ser teu aniversário e... pelo doze de junho. (fi-quei absolutamente vermelho). - Ahhh... namorados!!! Que doce!!! Você me namoraria,Kevin? - (engoli seco e... quase gaguejando, tasquei) Sim! - Eu também, Kevin! (segundos de silêncio... que pareceram mil anos) - Aguarde os presentes, minha namorada... Você é tudode bom!!! - Sim, meu doce amado e querido! Quero te ver pes-soalmente! És lindo! (Mais um pouco daqueles segundos-mil-anos) - Puxa! Obrigado! Quero te amar!
  63. 63. 63 - Qual a data do teu aniversário? - Dezoito de dezembro... tá longe... - Não vou esquecer mais! Tenha uma boa noite, meugatinho amado! Sonharei contigo. - Boa noite, doce dos doces! Anjo mil anos a frente daHumanidade! Nunca hei de esquecer tuas palavras e voz! ÉsDeus! Beijos! - Beijos e até amanhã.
  64. 64. 64 CAPÍTULO 08 A ligação de Daiana encheu-me de energia, disposiçãoe alegria. Mas o que me embatucava eram as coisas que ocor-riam no decorrer do tempo. Novamente presenciei umamaterialização espiritual? O gato de estimação dela havia mor-rido e um dia depois eis que um gato exatamente igual apareceem nosso jardim. Nossa vizinhança não possui gatos brancos,a não ser de raça, como ciameses, persas e birmaneses, masnenhum gato comum branco! Ao dormir, naquela noite, sonhei primeiramente queAmauri, meu ex-aluno falecido, veio a mim e me disse: "Estoubem, sem dores como antes e aqui onde estou há compu-tadores e estou aprendendo! Obrigado, professor, pelo teuamor e pelos doces! Nunca vou te esquecer!" Acordei às 2h da manhã, com o coração aos pulos! To-mei água com açúcar e voltei a dormir... e no segundo sonho,veio-me Daiana!! Não foi nada bom. Ela encontrava-se efermasob um leito hospitalar. Todo o ambiente era branco e límpido,mas ela sofria com dores. E ela me disse: "Não se preocupe.Sofro mas as dores se irão. O amor legítimo é eterno e é parasempre. E é isto que eu sinto por ti". Eram 6h 30min da manhã. Eu repensava os sonhos commeu aluno falecido e com Daiana. Apesar de ser domingo desol, fui reparar o que faltava no Laboratório do Chico Xavier.Durante a configuração via CD de drivers de quatro placas derede faltantes, senti que alguém estava me observando e virei-me. Nada vi. Ao concluir a instalação, senti a mesma sensa-ção. Nada via. Procurava pelo CD no 3 dos drivers de placasde rede... saco! Cadê ele?? Já nervoso pois era quase meio-dia, alguém ao meu lado sussurrou: "- Está na mochilinha dabicicleta, professor."

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