Filosofia medieval

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Filosofia medieval

  1. 1. Filosofia MedievalA Filosofia Medieval divide-se em:Filosofia Patrística, com três períodos: 1º - Patrística Incipiente (Sécs. I - III) - Tertuliano (Sécs. II - III) - Justino, mártir (Séc II) 2º - Apogeu da Patrística (Sécs. IV - V) - Santo Agostinho (354 - 430) 3º - Patrística Tardia (Sécs. VI - VIII) - Boécio - Pseudo-DionísioPré-Escolástica (Sécs. IX - X) - João Escoto ErígenaFilosofia Escolástica, também com três períodos: 1º - Escolástica Incipiente (Sécs. XI - XII) - Pedro Abelardo - S. Bernardo de Claraval - Santo Anselmo de Cantuária - Chartres - S. Vítor 2º - Apogeu da Escolástica (Séc. XIII) - São Boaventura, Doutor Seráfico (1221 - 1274) - Santo Alberto Magno, Doutor Universal (1206 - 1280) - S. Tomás de Aquino, Doutor Angélico 3º - Decadência Escolástica (Sécs. XIV - XV)
  2. 2. - Guilherme de Ockham I – Introdução Entende-se por Filosofia Medieval aquela que se desenvolveu na sociedadeFeudal da Europa Ocidental na época compreendida entre a queda do Império Romano 1(séc. V) até ao aparecimento das formas iniciais da sociedade capitalista (séculos XIV-XV). Esta expressão surge no Renascimento, nessa época a Idade média era tida comouma “longa noite” de mil anos. Ainda hoje utilizamos a expressão “medieval”pejorativamente para tudo que parece dogmático e retrógrado. A Filosofia Medieval apresenta na sua elaboração uma diferença em relação aFilosofia Grega, ela revela-se como um fruto do seu tempo, isto é, condicionado pelocontexto histórico da própria época. Ela caracteriza-se pela profunda unidade com areligião. Os filósofos medievais exprimem esta relação da seguinte forma: “Intellectusquaerens fidem” (a razão filosófica necessita da fé para saber) e “Fides quaerensintellectum” (a necessidade que a fé tem da razão para ser entendido). Outra novidade da Filosofia Medieval em relação a Filosofia Antiga reside noalcance mais profundo e radical da sua especulação metafísica. A Filosofia Medievalintroduz o conceito da criação do mundo a partir do nada de si mesmo. Aqui lançam-se assementes para a Filosofia existencial, que se propõe dar razão da própria existência detudo quanto existe. É existencial num duplo sentido: ela se propõe a dar razão do porquêdo ser do mundo (causa eficiente) e do para quê do mesmo mundo (causa final). Mas houve também quem tivesse visto a Idade Média como o crescimentomilenar. Foi a Idade Media que formou o ensino público, muito cedo surgiram as escolasnos mosteiros e nas catedrais, a partir do século XIII foram fundadas as primeirasUniversidades: Pádua, Paris, Salamanca, Bolonha, Oxford etc. Ainda hoje se conserva adivisão das disciplinas por grupos ou faculdades, como na Idade Média. Tudo isto só foi1 Com a queda do Império Romano no séc. V a religião lentamente surge como elemento agregador dosinúmeros reinos bárbaros formados após as sucessivas invasões. Os seus chefes são convertidos aocristianismo e a Igreja se transforma em soberania absoluta da vida espiritual do mundo ocidental. Acultura greco-romana quase desaparece nos períodos mais turbulentos da implantação do modo feudal deprodução, portanto permanece guardada nos mosteiros.Durante este período, uma constante se faz notar: a tentativa de conciliar a fé e a razão. A temáticapredominante é “crer para compreender e compreender para crê”.
  3. 3. possível graças aos materiais provenientes de fontes antigas e modernas - tornou-se ainvestigação mais ampla, profunda e imparcial e, deste modo, se viu cada vez maisclaramente que a Idade Média tinha filosofado, embora, como é natural peculiar. Tentou-se desvalorizar o filosofar medievo perante a produção invejável da épocaantiga e moderna, afirmando-se que se desenvolvia amparado a Igreja, Aristóteles e a S.Agostinho. Nesta afirmação há uma verdade parcial, contudo não atinge o essencial.Como homem, perguntava pelo fundamento e pela natureza das coisas, mas esta questãoencontrava-se subordinada a uma outra de maior alcance, mais urgente, que dizia respeitoa Salvação da alma e do mundo. Na resposta da fé cristã a essas perguntas, na crença, nopecado e na redenção não se esgotava o filosofar, mas ficava determinada a suaorientação. Precisamente a alta Idade Média caracteriza-se por um duplo esforço: 1- Delimitar as esferas da Teologia e da Filosofia, da Fé e da Razão, da Graça e da Natureza. 2- Construir a síntese mais completa possível destes dois domínios. Ao desintegrar-se a sociedade esclavagista, produziu também uma decadência daFilosofia. Perdeu-se até certo ponto a herança tradicional filosófica clássica até a segundametade do séc. XII, já que permaneceu desconhecida os conhecimentos outroradifundidos pelos sábios da Europa Ocidental. No contexto da época histórica, a ideologia dominante foi a religiosa, que se expandiunos países do próximo oriente, arábia, e os países do mundo árabe, tendo em conta duasvariantes: Catolicismo Romano e a Ortodoxia Bizantina. Durante vários séculos a Filosofia converteu-se em serva da Teologia “PhilosophiaeAncilla Theologiae”. Isto significa que a Filosofia enquanto serva da Teologiadesempenhou esta função nas obras dos apologistas e defensores do cristianismo contra opaganismo. A Filosofia nesta condição fundamenta os dogmas religiosos: demonstrar aexistência de Deus e demonstrar a imortalidade da alma. Dois são os denominadores dopensamento medieval: a patrística e a escolástica.
  4. 4. CAPÍTULO I. O PERÍODO DA PATRÍSTICA O termo patrística procede do latim pater, patris, denominando os pensadores destaépoca que desenvolveram a doutrina da igreja. Os padres da Igreja foram personalidadeseminentes do cristianismo, autores de obras apologéticas, anti-herétias, 2 comentários ehistórias. A ortodoxia só reconhece como padres da Igreja: Atanásio de Alexandria,Basílio o grande, Gregório de Nisa, Gregório de Nasianceso, Juan Damasceno, porém aIgreja Católica reconhece e canonizou: Clemente de Alexandria, Orígenes, Jerónimo,Ambrósio etc. O cristianismo para se defender dos ataques polémicos, das perseguições, e tambémpara garantir a própria unidade contra cisões e erros, teve de pôr a claro os própriospressupostos teóricos e organizar-se um sistema doutrinal, teve que apresentar-se comoexpressão completa e definitiva da verdade que a Filosofia Grega tinha procurado. A mensagem de Cristo apresenta uma resposta aos grandes problemas da humanidadeàs questões acerca de Deus, do Mundo e do Homem, mantendo-se dentro dos limitesreligioso. Contudo, na medida em que esta mensagem encontra a Filosofia no mundo dacultura helénica enfrenta-se com uma série de questões. Ao mesmo tempo a Filosofiapresta os serviços à estruturação da doutrina religiosa. Aos primitivos pensadores cristãosserviu também a Filosofia de instrumento que lhes permitiu discutir com o mundo pagão.É ela a linguagem com que defendem as novas verdades religiosas, das objecções eacusações que se levantavam no mundo grego, contra a nova doutrina. Nesta apologéticaé a Filosofia utilizada como auxiliar. 1.1- AS QUESTÕES FILOSÓFICAS DA DOUTRINA DE CRISTO 1.1.1- O conceito de Deus2 Heresia, etimologicamente, provem do grego que significa: escolher, compreender convencer-se. Entende-se por heresia os desvios aos dogmas oficiais de uma religião. As heresias pronunciavam-se contra ospontos básicos da dogmática cristã: a doutrina sobre a trindade, a predestinação e a cristologia.
  5. 5. O Deus de Israel era considerado criador e senhor do mundo, inconcebível pelohomem como Deus da Filosofia Grega, devido a sua natureza diferente: espiritual einatingível pelo homem pecador. Cristo acrescenta a Deus as feições de pai amoroso,perante o qual somos filhos. Esta concepção modificada da divindade determina também de maneira nova arelação entre Deus e o mundo. A criação é um acto de amor divino. Deus como senhoramoroso e livre reina sobre a criação e salva o homem, tornando-o criatura pecadora,mercê da sua graça. Com a nova visão de Deus e do homem surge uma profunda alteração dasconcepções morais. Cristo acentua o amor do próximo que não conhece excepção e incluio amor aos inimigos. 1.1.2- Os elementos filosóficos em S. Paulo e S. João O conceito platónico de Deus (Demiurgo) com o seu monoteísmo, ademonstração da existência de Deus dos estóicos, a doutrina estóica de providência, a suaideia de identidade de todos os homens, a concepção platónica da imortalidade da alma emuitas outras noções poder-se-iam interpretar como preâmbulo do conhecimento cristão. As cartas de S. Paulo escritas a várias comunidades cristãs contêm apologias dadoutrina fundamental de Cristo, admoestações, conselhos, prescrições rituais e conceitosda nova religião, que serviriam nos séculos seguintes nas disputas teológicas e dasinterpretações filosóficas assim recapitulando. 1- A cognoscibilidade natural de Deus. Deus é cognoscível através das suas obras que revelou. 2- A doutrina do pecado original e da revelação pela fé em Cristo. “Por um homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte” 3. A redenção do pecado realiza-se pela fé em Cristo. 3- O conceito da graça como acção salvadora de Deus através da fé. 4- O contraste entre a vida segundo a carne e a vida segundo o espírito.3 Bíblia Sagrada. Versão Digital. Romanos 5, 19
  6. 6. 5- A identificação do reino de Deus com a Igreja. O conceito joanino de Logos. “No princípio o logos estava em Deus e o logos eraDeus. No princípio Ele estava em Deus. Tudo foi criado através d`Ele e do que foi feito,nada fez-se sem Ele. N`Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens. E a luz apareceunas trevas as trevas não O receberam” cf. Jo. 1,1-5. 1.2- Os apologetas do século II Os apologetas são os escritores cristãos dos séculos I e II dC. O seu aparecimentoé por si só, um fenómeno religioso de maior importância. Eles são homens educados nasabedoria grega, convertidos ao cristianismo, com as suas publicações defendem-se dosataques dos pagãos. Os apologetas procuraram justificar, demonstrando a superioridade da dignidadeespiritual de Cristo. O plano de comparação não é religioso mas filosófico; e ocristianismo deve opor-se as convicções pagãs como filosofia superior. Os apologetas não impugnaram apenas o paganismo, mas os seus ataques tambémincidiram sobre as correntes religiosas que nas suas próprias fileiras, sob a forma de ummisticismo4 especulativo, ameaçavam destruir a nova doutrina. Os apologetas foram obrigados a lutar contra duas frentes: a) No interior, pela exacta compreensão da doutrina revelada; b) Externamente, por uma justa apreciação dessa doutrina. 1.2.1- SÃO JUSTINO (falecido depois de + 160) Teve educação grega. Depois dos mais variados sistemas o terem deixado insatisfeitos, encontroutranquilidade no platonismo até a sua conversão ao cristianismo. S. Justino encontrou no cristianismo “a Filosofia mais certa e mais salutar” que édevida a revelação divina e por isso transcende, em verdade e vigor, toda a sabedoria.4 Devoção religiosa em elevado grau, vida contemplativa.
  7. 7. Enquanto Cristo é a verdade plena, o logos actua em todos os homens. Tudo aquilo, quesempre foi proclamado como verdadeiro, é cristão. Assim também todos aqueles quesempre viveram segundo o logos, tais como Sócrates, Heráclito, Abraão e Elias foramcristãos. S. Justino afirma que Platão conheceu o judaísmo e o Antigo Testamento. Adoutrina de livre arbítrio, da imortalidade da alma e da justiça eterna tomou-as de Moisése dos profetas da Antiga Lei. Segundo S. Justino Deus é uno, sem nome e inexprimível. Criou o mundo. A almahumana é parte da criação, graças a força divina, nela contida, é a alma, como o princípiovital, dotado de razão e liberdade. Graças a estas faculdades ela (alma) pode voltar-separa Deus. 1.2.2- TERTULIANO (160-220) Padre latino, jurista convertido ao cristianismo. 1- O ponto de partida de Tertuliano é a condenação da Filosofia. A verdade da religião funda-se na tradição eclesiástica; da Filosofia só nasce heresias; não existe nada de comum entre o filósofo e o cristão, entre o discípulo da Grécia e dos Céus. Segundo Tertuliano os filósofos são os patriarcas dos heréticos. A raíz de todas as heresias está nos filósofos gregos. Valenteiro, o gnóstico era discípulo de Platão. Para negar a imortalidade da alma recorre-se aos epicuristas; para negar a ressurreição da carne, ao acordo unânime dos filósofos. Quando se fala de um Deus fogo recorre-se a Heráclito. E a coisa mais inútil de todas é a dialéctica do desgraçado (grifo nosso) Aristóteles que serve tanto para edificar como para destruir e que se adapta a todas as opiniões (ABAGNANO, N. Vol. II páginas 142-146). 2- Na doutrina do Logos, Tertuliano liga-se expressamente aos estóicos. “Deus criou todo mundo, com a palavra, com a sabedoria e com a potência.” Também os vossos sábios chamam Logos, isto é, a palavra e sabedoria ao artífice do universo. Zenão chama-lhe de autor da ordem que depôs todas as coisas. 3- Tertuliano admite a subordinação do Filho e do Espírito Santo ao pai. O ser pertence principalmente ao Pai, do qual se comunica ao Filho e, através deste ao
  8. 8. Espírito Santo. Tudo aquilo que o Filho é, vem-lhe da substância do pai; a vontade e o poder vêm do Pai. 4- O Logos tem um duplo nascimento: a) O imanente é gerado na sensibilidade do pai, de Deus; b) O emanente afasta-se do pai e procede à criação do mundo. (ABAGNANO. N, Vol II página 146. 5- Ele defende uma doutrina sensualista do conhecimento, uma espécie de metafísica materialista “as almas e Deus são corpóreos”. Deus é concebível a partir da criação como ente supremo, Ele é uno, eterno e livre. 6- Ele admite o traducionismo em relação a alma, ela é imortal e livre, quer para o bem como para o mal. 7- O seu ponto de vista em relação a liberdade religiosa interpreta a liberdade de opção. Não se deve forçar a veneração nem para o homem nem para Deus, porque se se forçar está-se a contrariar a natureza religiosa. 1.3- A GNOSE O conceito de gnose tem a sua origem na língua grega significando conhecimento e posteriormente ciência e sabedoria. Enquanto os apologetas por um lado se dão por satisfeitos em provar a hierarquiamais elevada das verdades cristãs em confronto com a Filosofia pagã, servindo-se emparte da Filosofia grega para a defesa e exposição do cristianismo, uma interpretaçãocompleta do mundo. Deseja progredir da crença para o saber cristão. A gnose apresenta-se como a primeira tentativa de uma Filosofia do cristianismo. A doutrina dos gnósticos constituiu um ecletismo teosófico5 que pretendeconciliar todas as religiões e explicar-lhes o sentido profundo através de umconhecimento esotérico6 e perfeito das coisas divinas comunicável por tradição e poriniciação. Os gnósticos pensam que o conhecimento é a condição necessária para asalvação.5 Conhecimento sobre Deus e das coisas divinas mas comunicadas unicamente aos adeptos conhecidos eescolhidos pela sua inteligência e moralidade.6 É a doutrina segundo a qual a ciência não deve ser vulgarizada. O ensino é feito no interior da escola, paraos discípulos completamente instruídos.
  9. 9. Carpócrates (cerca de 160, de origem platónica) pensa que as almas tinhamcontemplado o eterno, no lugar do Deus imutável, antes de se unirem aos corpos terrenos.E quanto mais uma alma consegue manter-se pura, tanto mais lhe é do alto participada aforça de maior intensidade, de tal modo que, após uma vida pura e imaculada alcança denovo Deus. “Jesus é o ideal do homem perfeito, capaz de uma alma completamentepura”.7 O pensamento de S. Paulo acerca da lei como via que nos conduz a Cristo,provavelmente teria influenciado, homens como Cerinto (cerca de 115) e Sartonilo(cerca de 155) à ideia de que o Deus dos judeus, que criou o mundo, era diferente doverdadeiro Deus de Jesus. 1.3.1- A OPOSIÇÃO À FALSA GNOSE S. Irineu e Hipólito lutaram pela verdadeira gnose, contra a falsa. A falsa gnosetinha transformado a verdade parcial do helenismo em base da sua doutrina, enquanto ocristianismo encontra a verdadeira gnose nos escritos dos Apóstolos. O erro da falsagnose consistiu em estabelecer uma diferença entre o Deus criador do mundo e o Deussupremo. Deus é inconcebível para o entendimento humano e tudo o que se sabe acercadele foi graças as manifestações que revestem três aspectos: na natureza onde Deus serevela pelas obras, no Antigo Testamento e no Novo Testamento. O Logos (Jesus) não é uma entidade intermediária subordinada, mas idêntica aoPai. Fez-se verdadeiro homem e com Ele ressuscitarão o nosso corpo e a nossa alma que,por natureza são mortais. A continuidade que os apologetas orientais a começar com Justino tinhamestabelecido entre o cristianismo e a filosofia pagã consolida-se e aprofunda-se. Ocristianismo apresenta-se assim como uma autêntica filosofia que observa e leva averdade o saber antigo, do qual pode e deve servir-se para trazer elementos e motivospara a própria justificação. As doutrinas fundamentais do cristianismo encontram,mediante este trabalho, s sua sistematização definitiva. O período que vai de 200 à 450 é7 Heneman, Fritz. A Filosofia do Século XX. Fundação Calouste Gulbenkian 2ª edição sd, página126.
  10. 10. decisivo para a construção de todo o edifício doutrinal do cristianismo. O primeiroimpulso para tal investigação foi dado pela escola de Alexandria. 1.4- A ESCOLA CATEQUÉTICA DE ALEXANDRIA Esta escola já existia há muitos anos, quando em 180 se tornou seu chefe Pantano,que lhe deu características de uma academia cristã, na qual a sabedoria grega era utilizadapara os fins apologéticos do Cristianismo. Denomina-se Escola Catequética de Alexandria, ao conjunto de ideias filosóficasque se desenvolveram na cidade de Alexandria durante os três primeiros séculos da nossaera, destacando os seguintes pensadores: Fílon, S. Clemente e Orígenes. Ao declinar a discussão apologética do cristianismo com o paganismo cresce cadavez mais o desejo de um aprofundamento interno e de uma estruturação sistemática dadoutrina cristã. Trata-se de contrapor aos sistemas acabados da Filosofia Grega uma visãocristã do mundo, igualmente ampla. Se a Filosofia concedera aos apologetas uminstrumento que lhes possibilitava o diálogo com o paganismo, vai agora servir aospensadores cristãos no seu esforço de desenvolver o conteúdo da fé em todos os aspectose numa construção sistemática. As primeiras grandes realizações desta exposição sistemática encontram-se naEscola Catequética de Alexandria. 1.4.1- Fílon de Alexandria (25 aC, Judeu) 1- Procura fazer uma síntese entre a Sagrada Escritura e a Filosofia Platónica. A visão platónica da realidade é idêntica à da Bíblia em substância. Fílon identifica o Deus de Moisés com o Bem platónico. O mundo sensível não procede directamente de Deus, d´Ele procede imediatamente o Logos (razão ou pensamento, palavra). No Logos encontramos as Ideias ou arquétipos das Ideias e por sua vez é o logos que faz o mundo.88 História da Filosofia. Dos pré socráticos à Idade Média I Vol. Passim.
  11. 11. 2- O universo apresenta uma estrutura piramidal. O vértice da pirâmide é ocupado por Deus. Entre o vértice e a base há uma série de seres tanto mais perfeitos e menos numerosos quanto mais próximo de Deus, e tanto menos perfeitos e mais numerosos quanto mais próximo da matéria. 3- Deus e a matéria são eternos e não criados, ao passo que todos os seres intermédios são criados por Deus, os seres corpóreos são criados por Deus com auxílio dos seres espirituais. A parte superior é ocupada pelos seres espirituais na seguinte ordem: Deus, Logos, Potências e Ideias. O Logos e as Ideias são os Demiurgos, os coordenadores que ajudam Deus na criação e no governo do mundo. As Ideias são os modelos espirituais dos quais Deus e os ministros se servem para criar as coisas materiais. 4- A parte inferior da pirâmide é ocupada pelas coisas corpóreas. O homem encontra-se na zona limítrofe entre as duas partes. Mas esta colocação não é definitiva, ele tem a possibilidade de separar-se do mundo corpóreo e de subir até Deus. Pela prática da ascese, desapegando-se dos sentidos e de tudo que é corpóreo e o fascina, ajudado pela divina revelação, contida na Lei o homem pode retornar à esfera das Ideias; pode mesmo subir mais alto até as Potências, ao Logos e ao Próprio Deus. 9 1.4.2- TITO FLÁVIO CLEMENTE (S. Clemente 150-215-6)Obras: 1- Protréptico ou Exortação aos gregos aproxima-se da literatura apologética do século II. 2- Pedagogo em três livros, procura educar na verdade cristã o leitor que apartou-se do paganismo. 3- Stramata ou Tapetes, isto é, Tecidos de Comentários científicos sobre a Filosofia. Exposição científica da Verdade revelada cristã.9 MONDIN, B. Curso de Filosofia, Vol. I pp. 122-125.
  12. 12. Doutrina 1- Procurou elaborar um conceito próprio de gnose cristã; mas a fé é a condição do conhecimento. Entre a fé e o conhecimento existe a mesma relação que os estóicos estabeleciam entre o conhecimento preliminar dos primeiros princípios e a Ciência. A Ciência pressupõe o conhecimento preliminar, assim a gnose pressupõe a fé. A fé é tão necessária ao conhecimento. Nesta subordinação da Filosofia à Fé reside o carácter da gnose cristã. A gnose dos gnósticos é falsa porque estabelece uma relação inversa entre a filosofia e a fé. Se aos gnósticos fosse dada a possibilidade de escolher entre a gnose e a salvação eles escolheriam a gnose, porque julgam ser superior a todas as coisas. 2- Acerca do conhecimento de Deus ele sustenta que o homem enfrenta duas dificuldades: a) Os limites próprios do homem; b) A singularidade do objecto do conhecimento. Assim não haveria nenhuma demonstração da existência de Deus, considerando-adesnecessária, e aderindo ao mesmo tempo à convicção cada vez mais forte noplatonismo da época, (Plotino) segundo a qual a essência de Deus seria completamenteincognoscível. Deus não pode ser captado em nenhum conceito positivo. Para ele só épossível conhecermos o Logos. 3- O mundo foi criado por Deus por isso é bom, o mal origina-se apenas na vontade livre das criaturas, sendo por isso algo negativo. A alma humana é por natureza mortal, porém mercê de uma vida virtuosa alcança a imortalidade. 1.4.3- ORÍGENES (185-6-254-5) 1.4.3.1- DEUS E O MUNDO 1- Ele afirma a espiritualidade de Deus, pois, Ele não é um corpo nem está no corpo, Ele é espiritual e simplíssima. O seu ser homogéneo, indivisível e absoluto não
  13. 13. pode ser considerado nem como um todo nem como uma parte, porque o todo é feito de partes. Para indicar a unidade de Deus Orígenes faz recurso ao termo pitagórico de mónada ou a conceito neoplatónico de énada que expressa a singularidade absoluta de Deus. 2- O mundo foi criado por Deus mas é eterno, sem início. Deus contínua a ser criador da matéria e actua omnipresente no universo. Temporal é apenas o mundo actual, anteriormente existiram outros, bem como outros se seguirão. A criação desde a eternidade é exigida pela imutabilidade de Deus (Deus não muda). Para a criação do mundo Deus serviu-se do Logos que é filho de Deus e Deus, mas inferior ao Pai (como o Espírito Santo é inferior ao Filho). O logos cria antes o mundo dos espíritos donde pertence as almas dos homens. Os espíritos sendo finitos não são bons por natureza como a divindade, mas por sua opção, livre arbítrio se afasta da plenitude do ser, própria de Deus e se perde no inferior, porque se fosse bom por natureza não praticava o mal. O mundo sensível cria-se a partir da queda ou afastamento a Deus. O mundo é o lugar de expiação dos pecados. Os frutos da redenção não se limitam apenas aos homens mas a todos os espíritos incluindo o demónio. Assim a redenção efectua o retorno de todas as criaturas à Deus, este retorno chama-se restauração. Neste retorno consiste a superação do mal que é escatológico. 1.4.3.2- RELAÇÃO ENTRE A FÉ A RAZÃO Quanto a relação entre a fé e a razão, Orígenes pensa que ela indica a passagemdo significado literal ao significado alegórico das Sagradas Escrituras, indicando assim apassagem da fé ao conhecimento, porém o conhecimento é superior a fé. 1.5- SANTO AGOSTINHO (354-430) Santo Agostinho (Agostinho de Hipona, Tagaste) nasceu no norte de África actualArgélia. Filho de pai pagão e mãe cristã (Santa Mónica) segue a carreira de professor deeloquência.
  14. 14. As obras de Cícero (Hortênsio) e de Aristóteles (Protréptico) desperta-lhe ointeresse pela Filosofia. A avidez de leitura põe-lhe em contacto com o AntigoTestamento de que não aprecia o modo de exposição e onde encontra doutrinas que lheparecem contrariar a razão. Todavia agrada-lhe o maniqueísmo, pois com a admissão deum duplo princípio parece dar uma resposta satisfatória ao problema do mal. A soluçãodo problema do mal no mundo satisfaz Agostinho mas em breve o seu espírito indagadortropeça com outras doutrinas maniqueístas, passa através da academia céptica para oneoplatonismo até que finalmente, mercê da pregação de Santo Ambrósio, a quem escutaatraí-se ao cristianismo. Ele reconhece Platão, Plotino e Porfírio, segundo ele, todos os pensadores gregossão os que juntamente com Platão se encontram mais próximo do cristianismo. Noplatonismo elogia a Metafísica do ser que considera Deus como princípio supremo, fontede todo ser e portanto, ao mesmo tempo fonte de todo o conhecer e norma da vida.Interpreta a doutrina neoplatónica da emanação no sentido de uma criação de todas ascoisas por Deus, única fonte do ser, realidade absoluta, impossível de captar mediante ascategorias. É igualmente unidade absoluta em que todas as propriedades coincidem como próprio ser. OBRAS CONFISSÕES (400 dC): nas confissões sua autobiografia, fala-nos da suainfância, um comovente retrato da personalidade da sua mãe e as confissões da suapersonalidade sexual enquanto rapaz. Queria, mas também, não queria libertar-se da suaescravidão ao sexo. “Senhor torna-me casto, mas ainda não”. DIÁLOGO CONTRA OS ACADEMICOS: nela retoma os diálogos de Cícero erefuta a Filosofia Céptica da Nova Academia defendendo a possibilidade doconhecimento pela verdade revelada. Não podemos saber nada, ou que é impossíveltermos a certeza de alguma coisa, ou ainda que seja, na verdade é possível duvidarmos detudo, sendo essa a base de toda a posição defendida pelo cepticismo. Para duvidar de tudoe excluir “tudo” é preciso que existam necessidades e, portanto, a minha própria
  15. 15. existência é algo que me é impossível duvidar. Uma vez que o facto de eu existir é umaverdade que eu conheça com absoluta certeza. DIÁLOGO (DE MAGISTRO): dirigido a seu filho Adeodato. A CIDADE DE DEUS (413-426): nesta obra fala de como cada indivíduo ésimultaneamente um cidadão de duas comunidades diferentes: por um lado existe o reinode Deus, o qual é imutável eterno e baseado em valores verdadeiros, enquanto por outrolado existe os planos altamente instáveis deste mundo, que vão e vem com uma rapidez edesconcertante e são baseados em falsos valores, nós vivemos em ambos.Outras obras: Sobre a Doutrina de Cristo. Retractationes. Sobre a Trindade. Contra os Maniqueus onde ele refuta o maniqueísmo ao qual anteriormenteaderira. 1.5.1. AS POLÉMICASSanto Agostinho teve três polémicas: a) Polémica contra o pelagianismo,10 esta doutrina religiosa foi fundada por Pelágio declarada herética no Concílio de Éfeso porque negava o pecado original, a corrupção da natureza e a necessidade da graça para a santidade. b) Polémica contra o donatismo11 doutrina fundada por Donato de las Casas Negras, que afirma a absoluta intransigência da Igreja diante do Estado. Como comunidade de perfeitos a Igreja não deve ter contacto com a autoridade civil, as autoridades religiosas que toleram tais contactos cometem traição e perdem a capacidade de administrar os sacramentos.10 ABBAGNANO, N. História da Filosofia. Vol. II pág. 219-22211 Idem pág. 217-218
  16. 16. c) Maniqueísmo12, seita típica da antiguidade, surgida na Pérsia nos séculos II – III dC, fundada por Manes. Proclamava uma teoria da salvação em parte religiosa e em parte filosófica. O mundo era explicado a partir de dois princípios: bem-mal, vida-morte, trevas-luz, espírito-matéria etc., através de seu espírito os homens podiam elevar-se acima do mundo material e deste modo criar a base para a salvação da sua alma. 1.5.2- DEUS E A SUA EXISTÊNCIA Deus era concebido como a forma de todas as formas e, deste modo tudo o quenão é realmente deste mundo. Santo Agostinho estudou Deus, a sua natureza e a sua existência cuja fonte é opróprio homem: “In interiore homine habitat veritas”, isto é, no interior do homem habitaa verdade. Não saias de ti, volta-te para ti mesmo, a verdade habita no homem. Ele pensaque é possível chegar-se a Deus mediante indícios cosmológicos: ordem do universo econtingência das coisas. Estes indícios encontram-se mais no homem que no cosmo. Namente humana estão presentes verdades eternas, absolutas e necessárias que a mentecontingente e imutável não pode produzir, logo Deus existe, razão suficiente destasverdades. Assim Agostinho conclui, que, se existe alguma coisa superior a verdade estacoisa é Deus, mas se não existe nada mais excelente do que ela, então a própria verdade éDeus. Em todo caso, não podeis negar que Deus existe, e esta era precisamente a questãoque tínhamos propostos a debater. 1.5.3- A RELAÇÃO ENTRE A FÉ E A RAZÃO Conforme a gnose cristã, Santo Agostinho, também não separa o saber da fé. Osimples saber não possui valor. Tão pouco basta a simples fé. O problema consiste muito mais em elevar o que é objecto da fé a algo sabidoracionalmente. Daí definir a fé como assentimento (anuência) a um pensamento. Repousa12 Idem pág. 215-217
  17. 17. portanto num acto da vontade. Neste acto da vontade participa tudo o que conhecemos,mas não é possível conhecer tudo aquilo em que acreditamos. A fé é mais ampla que osaber e inclui em si este último. 1.5.4- MUNDO E TEMPO O mundo foi criado por Deus não como resultado da natureza divina, mas da livrecriação a partir do nada, segundo as ideias, arquétipo que se encontram no logos, sendo asua manutenção uma permanente acção criadora. Uma questão se coloca: Quandoocorreu a criação, no tempo ou na eternidade? Para Santo Agostinho, o tempo é a duraçãode uma natureza finita que não pode ser simultaneamente, tendo por isso necessidades defases sucessivas e contínuas para realizar-se completamente. As fases do tempo são:passado, presente e futuro. O tempo é um agora que passa (nunc transiens). A eternidadeé um tempo que não passa (nunc stans). O tempo não existe fora de nós, ele mede-se naalma onde deixa uma impressão enquanto passa, comparamo-lo entre tempos vividos. Para Deus não há tempos, mas uma eternidade intemporal. Por isso, a criação nãodeve representar-se como acontecendo no tempo, porque só com a criação o tempo segerou. 1.5.5- A QUESTÃO DO MAL E DA LIBERDADE A causa do mal no mundo não pode ser Deus, sendo o mal a privação de umaperfeição devida, Deus não pode ser seu autor. O mal é uma consequência do livrearbítrio e gera-se do desprezo do valor e da beleza da criação. Deus é um bemincondicionado e por isso a sua criação é boa em si. Não se deve opor ao bem um malabsoluto, como substância como fazem os maniqueístas: o mal pressupõe o bem e existeapenas como sua negação. Como poderia com efeito, aquele que é causa do ser de todas as coisas ser a causado não ser? Logo a causa do mal não é Deus, mas a criatura. O mal é a ausência do bem,de Deus, ele não tem existência própria é algo que não é, porque a criação de Deus éapenas boa.
  18. 18. Há uma relação entre a culpa e o sofrimento, a causa do sofrimento é a culpa, e oresponsável pela culpa é o homem. Este voltou costas a Deus, ao bem superior eimutável, devido a liberdade. O homem pratica o mal pelo livre arbítrio da vontade. Aliberdade apresenta-se como o bem de superior importância, porque é a condição damoralidade. Se a nossa acção humana não fosse livre não poderia ser aprovada oureprovada. Deus deveria simplesmente evitar o mal mas preferiu pôr o mal ao serviço dobem. 1.5.6- A TEOLOGIA DA HISTÓRIA A sua visão de história difere-se da grega, pelo facto dos gregos conceberem-nacomo períodos de movimentos circulares repetindo-se ciclicamente; S. Agostinhoconcebe a história como o caminho em linha recta que sobe da terra para o céu. Sendo ahistória alguma coisa que sempre traz consigo a sociedade humana, Santo Agostinhointerpreta o total decurso histórico como a luta entre as duas comunidades, a comunidadedos bons e agradáveis a Deus e a comunidade dos maus. A influência destas duasestruturas criadoras da história é seguida por S. Agostinho ao longo dos sucessoshumanos até ao seu tempo, com especial referência ao Judaísmo e História dos ImpériosOrientais. Santo Agostinho estava certo de que a igreja era a comunidade dos Santos, deDeus, mas colocava algumas dúvidas em relação aos que se encontram fora da Igrejavisível não pertencem realmente a comunidade de Deus. Agostinho acredita que ahistória trata do modo como o combate entre a Cidade de Deus e a Cidade Terrena éconduzido. Estas duas cidades são estados políticos distintos um do outro. Lutam pelopoder de cada homem. A cidade de Deus está presente na Igreja e a Cidade terrena nosestados políticos, ex. o império romano. 1.5.7. A CONCEPÇÃO SOBRE A CIÊNCIA E A QUESTÃO DO CONHECIMENTO A sua posição quanto às ciências esteve sujeita as oscilações: ao princípioencontra-se inclinado a reconhecer na ciência o caminho para a sabedoria e portanto, para
  19. 19. o conhecimento de Deus, é uma ajuda e preparação para a fé, mais tarde, sobretudo nasRETRACTACIONES assume um ponto de vista mais rigoroso em face do saber destemundo. Por si mesmo o saber é neutro. O seu valor determina-se pelo uso que o homementende fazer dele. Santo Agostinho discutiu as questões gnoseológicas, isolando-as do seu tempo,isto devido a sua evolução espiritual. Quando nas suas obras impugna os académicos, éporque teve de superar o seu próprio cepticismo. Com esta fundamentação pessoalantecipa já o que futuramente Descartes evidenciará o significado, como por ex, o pontode partida da dúvida metódica acerca da verdade e da possibilidade do conhecimento daverdade e da superação dessa verdade pela consciência que o espírito possui de si mesmo.Em duas esferas tem a dúvida um limite: posso duvidar de que me movo, mas não possoduvidar de que duvido, penso, quero. Igualmente é indubitável a verdade dos juízosdisjuntivos. Que o mundo exista ou não exista, é uma proposição que não tem sentidodiscutir. Diante do exposto, podemos assegurar que é possível saber diante das dúvidascépticas. O saber não é só possível mas também necessário ao homem. O fim de toda aactividade prática era para os antigos a eudamonia. O saber encontra-se ao serviço dafelicidade, e mesmo para o cepticismo era importante a demonstração de que a renúnciaao saber era prejudicial à felicidade.
  20. 20. 2ª PARTE CAPÍTULO II. O PERÍODO DA ESCOLÁSTICA É um adjectivo que significa escolar. De Scholasticus = padres da Igreja.Inicialmente chamava-se escolástico aos mestres das escolas claustrais e catedraismedievais. A. Lobo no seu Dicionário de Filosofia concebe a escolástica como ”Forma deFilosofia e Teologia Medieval em que se conciliam de modo exemplar as exigências dacrença e da razão. A escolástica é a especulação filosófico-teológico que se desenvolveu do SéculoIX até ao renascimento Séculos XIV-XV. Tem este nome por ter sido dominante nasescolas que começaram a surgir durante o renascimento carolíngio (Carlos Magno). O imperador Carlos Magno preocupado em incrementar a cultura, funda escolasmonarcais e catedrais junto aos mosteiros e Igreja, contratando para o efeito muitossábios dentre eles Alcuino. 2.1- Características da Escolástica 1- Gera-se nos quadros da cultura medieval, de cariz religioso; 2- Apresenta a síntese mais elevada da Ciência racional e da crença na revelação cristã. 2.2- Escolas e Universidades As mais importantes escolas claustrais foram: Tours, Fulda, Reichenau, SãoGalle, Monte Cassino, Bec e Paris. As mais importantes escolas catedrais foram: Utrecht,Doornik, Reims, Chatres e Paris. As universidades criadas pelos fins do século XII e inícios do século XIII foram:Paris, Oxford, Bolonha Pádua e Salamanca que espalhando-se por toda a Europatornaram-se focos de reflexão Filosófica.
  21. 21. 2.3- Programa de estudos método de ensino O ensino consistia na maioria dos casos nas artes liberais e na doutrina cristã. Asartes liberais recebem esta designação para as distinguir das artes dos ofícios, poisaquelas não visam fins lucrativos, possuíam um carácter contemplativo como expressãoda natureza espiritual do homem. As artes liberais dividiam-se em artes da palavra: gramática, dialéctica e retórica(trivium); e artes das coisas: geometria, aritmética, astronomia e a música (quadrivium).Foram consideradas vias cuja finalidade era de carácter religioso, estudo da Bíblia. O método de ensino era muito simples nas escolas medievais: lia-se e explicava-se um autor. No estudo das artes liberais lia-se Porfírio, Aristóteles, Boécio etc, no estudoda Teologia, a Sagrada Escritura lia-se os padres da Igreja. 2.4- ANSELMO DE AOSTA (1033-1109) Nasceu em Aosta e exerceu o episcopado em Cantuária, foi abade Beneditino deBec, na Normandia. Foi maior pensador do séc. XI. Escreveu três Obras principais: Monologium (Monologo), Proslogium (Dialogo) eCur Deus Homo (Porque Deus {se fez} Homem, obra sobre a Encarnação. Nestas obras ele estuda entre outros, dois problemas de fundamental importância,para a Filosofia Cristã. 2.4.1 O PROBLEMA DA RELAÇÃO ENTRE A FÉ E A RAZÃO A relação entre a fé e a razão motivou-lhe a fazer profundas investigações que lhe dãoao direito de ser considerado um dos pensadores de maior relevo da idade média. Estarelação espessou-se nas seguintes palavras “Credo ut intelligam”. Este aforismo nosensina duas verdades: 1- A necessidade da fé para o conhecimento da verdade religiosa e moral.
  22. 22. 2- A necessidade de usar a razão para que a adesão a fé não seja cega e meramentepassiva. As verdades religiosas e morais não se apreendem senão pela fé, mas é necessáriocompreende-las e demonstrá-las. Os resultados da sua investigação podem ser resumidos da seguinte forma: 1- A Sagrada Escritura abrange toda a verdade; 2- A fé exige inteligência do seu conteúdo, fundamentos racionais, experiência e compreensão que ao princípio é aceite devido a autonomia pura e simples; 3- A experiência da fé é o pressuposto de todo o conhecimento; o conhecimento é a recompensa da fé; 4- O crente que não pode penetrar até ao conhecimento não se deve orgulhosamente insurgir, mas curvar-se necessariamente, com humildade e venerar o incompreensível. 2.4.2- O PROBLEMA DA EXISTÊNCIA DE DEUS (Argumento Ontológico) Para demonstrar a existência de Deus S. Anselmo segue métodos diferentes noMonologium e no Proslogium. No primeiro, procede a posteriori, isto é, teve como pontode partida os factos. S. Anselmo faz um recurso às provas tradicionais baseado nacontingência dos seres finitos e nos graus de perfeição. No segundo procede a priori, isto é, teve como ponto de partida a definição de Deuspara dela deduzir a sua existência. No Diálogo, ele procura uma prova irrefutável daexistência de Deus, uma prova que não possa ser negada nem pelo Salmo 13 que diz “noseu coração não há Deus”. “Deus existe, é um ser que não se pode pensar nenhum maior do que Ele”. Mas, aquilo do que o qual não se pode pensar nada, não pode existir só no intelecto. Porque, se existisse só no intelecto, poderia ser pensado outro que existisse também na realidade, e este seria maior. Se, pois, aquilo maior do que o qual não se pode pensar nada existisse só no intelecto, aquilo maior do que o qual não se pode pensar, nada seria, ao contrário, aquilo maior do que o qual se pode pensar alguma coisa.
  23. 23. Mas isto é certamente impossível. Logo, não há dúvida de que aquilo maior do que o qual não se pode pensar nada existisse tanto no intelecto como na realidade. Deus não pode ser pensado senão como existente, por isso, se se pode pensar Deus, énecessário pensá-lo como existente. 2.5- S. ABELARDO (1079-1142) Vida e obras: nasceu em Palais – França. Autor de duas famosas obras:“Dialectica” e “Historia Calamitatem Mearum”. Do ponto de vista filosófico é PedroAbelardo a figura mais importante do séc. XII, denominado por S. Bernardo um segundoAristóteles13 a sua segunda obra é a Auto Biografia mais interessante e instrutiva da IdadeMedia. Foi ele que deu a possível solução ao problema dos universais. 2.5.1- O MÉTODO Ele é considerado, o criador do método escolástico sic et non. Na esferaTeológica chegou mesmo a utilizar a “dúvida metódica”. Este método consiste, em reunirteses opostas sobre diversos assuntos, deixando ao leitor a responsabilidade de decidir deque lado está a verdade, o seu objectivo é dialéctico e não céptico. A dúvida levantadapelas teses opostas, deve estimular a pessoa a pesquisar com vista a encontrar a solução. 2.5.2- A ÉTICA (doutrina da intenção) Pedro Abelardo foi considerado pai da ética medieval. Ele distinguiu entre leinatural e lei positiva. A acção moral funda-se na aspiração ao bem supremo, e a vontade é o caminhoque conduz a esse fim. Ele frisa com toda agudeza, o significado da intenção subjectivacomo critério próprio da moralidade. O conceito de consciência transforma-se nele numconceito central.13 Assim foi considerado pelo facto de procurar sempre a verdade no et...et não no out... out.
  24. 24. Segundo S. Abelardo, a moralidade de uma acção não depende do objecto, nemdas circunstâncias, nem das paixões, mas unicamente da intenção. “A Deus não importa oque fazemos, mas com qual intenção o fazemos; o nosso mérito não depende da acção,mas da nossa intenção”. 2.5.3- A QUERELA DOS UNIVERSAIS O problema dos universais foi o problema fundamental da Escolástica: a essênciae o valor dos conceitos, cujas raízes remontam a Platão e Aristóteles (teoria das ideias).Existe ou não ideias universais a parte da coisa, em si mesma? Platão as admitia masAristóteles não. Quanto a este problema foram encontradas três soluções: a) Solução nominalista defendida por Roscelino (1050-1120)14, ele parte da verificação de que todas as coisas são particulares e as nossas ideias para serem verdadeiras devem também ser particulares. Logo, os universais, não existem, nem na mente nem na realidade e não são mais do que um flactus vocis (emissão de voz), a função do universal é exercida pela palavra enquanto pode ser aplicada a muitos indivíduos. b) Solução conceptualista cujo defensor foi Guilherme de Champeaux (1170-1120). Ele parte da verificação de que temos conceitos universais e de que eles só serão verdadeiros se a eles corresponder algum ser universal. Por isso, conclui que existem coisas universais da mesma natureza dos conceitos. Assim existe o ser universal Homem, Planta etc. c) Solução realista defendida por Abelardo rejeitou as duas soluções precedentes e mostrou que a primeira conduz-nos a cepticismo e a segunda ao panteísmo. Segundo Abelardo, o universal não é uma coisa, nem um simples “flactus vocis” mas um conceito tirado das coisas por abstracção. Sendo tirado das coisas o universal tem com elas uma correspondência parcial: correspondência quanto ao conteúdo, mas não14 Roscelino
  25. 25. quanto ao modo. Pelo universal apreendemos o que está na coisa, mas não como está na coisa. 2.6- S. TOMÁS DE AQUINO (1225-1274) Nasceu em Roccasecca, perto de Aquino, Itália. Monge dominicano, estudou emNápoles, foi discípulo de Alberto Magno, ensinou na Universidade de Paris. As obras de S. Tomás dividem-se em Quatro grupos: 1- Obras sistemáticas: Suma contra os gentios; Suma Teológica. 2- As questões disputadas: Sobre a Verdade; a Potência; o Mal; a Verdade; a Alma; a Virtude. 3- Comentários filosóficos de Aristóteles: Física, Metafísica, Ética, Política, Analíticos Posteriores. 4- Sobre o Ser e a Essência, Sobre os Governos dos Príncipes. A Filosofia de S. Tomás de Aquino é a conciliação entre o cristianismo e oaristotelismo através da concepção do ser segundo a qual o ser é a perfeição absoluta. Aorigem dos entes deve-se à criação; esta é uma participação por semelhança da perfeiçãodo ser por parte dos entes, entre cada um dos entes e o ser há somente analogia. 2.6.1. A RELAÇAO ENTRE A FÉ E A RAZAO Ao abordar a questão entre a fé e a razão Tomás de Aquino baseia-se nos seguintesprincípios: 1- A fé e a razão são modos diferentes de conhecer. A razão aceita a verdade por causa da sua evidência intrínseca; a fé aceita a verdade por causa da autoridade de Deus. São duas ciências diferentes: Teologia e Filosofia. 2- A fé e a razão, a Filosofia e a Teologia não podem contradizer-se, porque Deus é seu autor comum: logo a verdade da razão não pode entrar em conflito com a verdade revelada. Quando há oposição é porque não se trata de verdade mas de conclusões falsas ou não necessárias. “Atribui a Filosofia o objectivo de tratar os
  26. 26. problemas de Deus, do mundo e do homem por intermédio do entendimento e a partir dos dados da experiência enquanto a Teologia, que possui como fundamento a revelação divina, procura desenvolver o seu conteúdo o mais universalmente possível, com a ajuda do pensamento humano" 15. Também há analogias entre a Teologia e a Filosofia. Se se encontra algo contrário nas afirmações dos filósofos não deve ser atribuída isso a Filosofia mas a um mau uso da Filosofia devido a uma falha da razão. 3- A razão pode conhecer as verdades fundamentais de ordem natural mas por si só é incapaz de penetrar nos mistérios de Deus. 4- A razão pode prestar um precioso serviço à fé de três modos: a) Demonstrando aquelas coisas que são preâmbulos da fé; b) Ilustrando por meio de semelhanças as coisa que pertencem a fé; c) Opondo-se as coisas que são ditas contra a fé.Por este facto S. Tomás de Aquino chama a Filosofia serva da Teologia. 2.6.2. A TEOLOGIA NATURAL Segundo S. Tomás, Deus não pode ser demonstrado a priori, a partir do conceitode Deus, porque o nosso conceito da essência divina é imperfeito. Segundo S. Tomás oconceito que temos de Deus não é “aquilo de maior do que o qual nada pode ser pensado”mas aquilo que supera todos os nossos pensamentos. A existência de Deus pode serprovada somente a posteriori, pelos seus efeitos. Hoje podemos nos perguntar se Deus existe realmente? Isso é discutível, porqueninguém viu Deus. Mas, ainda hoje, a maior parte das pessoas admitiriam que pelomenos a nossa razão não pode provar que Deus não existe. S. Tomás foi mais longe,acreditando mesmo em poder provar a existência de Deus com base na Filosofiaaristotélica. Eis a sua reflexão que sustenta as cinco vias do conhecimento de Deus. 1- Via do Movimento (motor imóvel): no mundo há coisas que se movem, cada coisa em movimento pressupõe um motor, e sendo impossível um processo até ao15 HEINEMANN, Fritz. A Filosofia do Século XX. Fundação Calouste Gulbenkian 2ª ed. Lisboa s/d, pág.120.
  27. 27. infinito, a constatação do movimento exige que aceitemos um primeiro Motor Imóvel: Deus. 2- Via da Causalidade: no mundo há uma ordem de causas existentes, em que cada uma remete a outra, não sendo um processo até ao infinito, deve-se aceitar a existência de uma causa Primeira não Causada: Deus. 3- Via da Contingência: as coisas do mundo são contingentes, isto é, estão sujeitas ao nascimento e a destruição, de maneira que podem existir e não existir. Como aquilo que existe começa a existir em virtude de um outro e não podemos proceder até ao infinito; os seres contingentes postulam a existência de um Ser Necessário que nem só é, mas que não pode deixar de ser: Deus. 4- Via dos Graus de Perfeição: no mundo há seres mais e menos perfeitos; o mais e o menos devem dizer respeito ao máximo, segundo se aproxima ou se afasta dele. Deve existir, pois, um ser que contenha em si todas as perfeições em grau máximo que seja a causa de todas as perfeições parciais dos seres sensíveis: Deus. 5- Via do Governo do mundo (Ordem): todos os seres do mundo, até aqueles que não têm conhecimento, tendem a cumprir seu fim, agem intencionalmente; agora bem, aquilo que carece de conhecimento não pode tender ao seu fim a não ser que alguém o dirija. Deve existir um ser inteligente que dirija todos os seres para o seu fim: Deus. A ideia essencial que anima essas “cinco vias” é que Deus invisível e infinito édemonstrável pelos efeitos visíveis e finitos. Podemos saber que Deus é (existe) emboranos seja impossível saber como Deus é. Por isso, segundo S. Tomás, a razão não podeavançar mais. Deus mostra-se como causa da existência do mundo, a razão não podeatingir os motivos da criação que são postulados da fé. 2.6.3- A FILOSOFIA DO SERA essência da metafísica tomista: 1- A perfeição máxima é o ser, não a sua ideia mas o acto de ser. Os seres pelo Ser são da mesma origem, são finitos, semelhantes e agem. Tudo origina-se do Ser
  28. 28. por participação na sua perfeição; são finitos porque a sua participação limita-se; são semelhantes porque todos são aparentados pela mesma perfeição; estão em condições de agirem porque o agir é a irradiação do ser que possuem. Para isto S. Tomás usa os seguintes argumentos: a) De tudo que existe o Ser é o mais perfeito. “Esse est inter omnia perfectissimum”. b) O Ser é a actualidade de todos os actos e, por isso, a perfeição de todas as perfeições. As coisas são a partir do ser. c) O que em qualquer efeito é mais perfeito é o Ser. d) A excelência de uma coisa depende do seu ser.As Razões avançadas por S. Tomás: a) Ao ser não se pode acrescentar nada que lhe seja estranho porque nada lhe é estranho, com excepção do não ser, que não pode ser nem forma nem matéria. b) O ser é o que de mais íntimo tem uma coisa e o que de mais profundo existe em todas as coisas. c) O ser é o fim último de todas as coisas. 2- Os seres procedem do Ser por criação. “O Ser subsistente não pode ser mais de um (…). Logo, todos os seres diversificados (…) necessariamente devem ser causados por um Ser Primário Perfeitíssimo”. A comunicação do ser aos seres dá- se não por emanação16 mas por criação, produção a partir do nada, de alguma coisa que participa da perfeição do ser. 3- A criação é uma participação dos seres, por semelhança, na perfeição do ser. Os seres se comunicam e participam da perfeição do ser. Os seres não participam do ser como as fatias participam do bolo. Se assim fosse o ser e os seres teriam a mesma natureza. Mas os seres participam do ser como uma cópia participa do seu modelo. É uma participação por semelhança e não por essência. 4- A limitação da perfeição do ser nas criaturas é devido a potência, isto é, a capacidade dos “seres de vir-a-ser”. Há uma necessidade de existir algo que limite a perfeição do ser, por si infinita nos graus finitos que ela tem.16 Processo pelo qual as coisas se originam de uma.
  29. 29. 5- Entre os diversos seres e entre eles e o ser há analogia ou semelhança. Os seres todos procedem da mesma fonte, logo eles devem ter algo de comum que os torna semelhantes. Se os seres pertencem à mesma espécie a semelhança é específica; se pertencem a mesmo género é genérico. Se não pertencem nem ao mesmo género, nem a mesma espécie há semelhança por analogia. Entre os seres e o ser há semelhança por analogia, porque os seres participam na perfeição do Ser.2.7. GUILHERME DE OCKHAM2.7.1- Vida e Obras Nasceu em Ockham no ano de 1290, ingressou na ordem Franciscana com poucomais de 20 anos de idade, realizou os seus estudos universitários em Oxford ondecomentou as Sentenças de Pedro Lombardo, conseguindo assim o título de Bacharel.Guilherme de Ockham é a última figura da Filosofia Medieval, começando assim a severificar o declínio paulatino desta Filosofia nesta idade; mas é também aquele quepreparou o fim desta Filosofia, repudiando as bases sobre as quais se fundavam: o valoruniversal e o objectivo do conhecimento humano e a harmonia entre a fé e a razão. Em 1317 e 1324, ele escreveu a “Lectura Libre Sentetiarum” e a “ ExpositioAureia”. Em 1324 transfere-se para o convento franciscano de Avignon, onde o PapaJoão XXII o convocou para responder a acusação de heresia. Escreveu mais obras como“Errorum Papae Joannis XXII onde defende de forma rigorosa o conceito de pobreza.2.7.2- A NAVALHA DE OCKHAM (princípio da economia) A navalha de Ockham uma linguagem metafórica que quer exprimir um princípioanti-platónico, segundo o qual “não é necessário multiplicar os seres sem necessidade”.Faz a primeira crítica a metafísica das essências de Platão e aos aspectos aristotélicos quecontinham elementos platónicos. Ele rejeita a metafísica tomista do ser analógico e do serunívoco de Escoto. Juntamente com o conceito metafísico de ser analógico, cai também o
  30. 30. conceito de substância, ele diz que nós conhecemos as coisas, as suas qualidades ouacidentes através da experiência. A navalha de Ockham abre caminho para um tipo de considerações económicasda razão que tende a excluir do mundo e das ciências, os entes e conceitos, a começarpelos entes e conceitos metafísicos que imobilizam a realidade e a ciência configurando-se como normas metodológicas que mais tarde seria definida como rejeição dashipóteses, por outro lado, tal crítica parte do pressuposto de que não é necessário admitirnada fora do pressuposto de que o conhecimento fundamental é o conhecimentoempírico. Esta navalha teve também a sua influência na ciência, tanto mais que foi usado oupopularizado na sua formulação original, dizendo que entre duas teorias que explicam osmesmos factos, a mais simples é a correcta, isto é, se uma explicação simples basta, nãohá necessidade de se buscar outra mais complicada.2.7.3- A INTERDEPENDÊNCIA DA FÉ EM RELAÇÃO A RAZÃO Segundo G. de Ockham, há uma fragilidade teórica da harmonia entre a razão e afé, bem como do carácter subsidiário da Filosofia em relação a Teologia. As tentativas deTomás, Boaventura e Escoto, no sentido de mediar esta relação, usando os elementosaristotélicos ou agostinianos, através da complexa construção metafísica e gnoseológicasão tentativas inúteis e danosas. O plano do saber racional baseado na clareza e evidência lógica, e o plano dadoutrina da teologia, orientado pela moral e baseado na luminosa certeza da fé, sãoplanos assimétricos. Não se trata apenas de distinção mas de separação. Os artigos da fénão são princípios de demonstração nem conclusões e nem mesmo prováveis, já queparecem falsos para todos, ou para a maioria ou para os sábios 17. As verdades da fé nãosão evidentes por si mesmo, como os princípios da demonstração. A Filosofia não é servada Teologia que não é mais considerada ciência mais um complexo de proposiçõesmantidas em vinculação não pela coerência racional mas pela força da coesão da fé.17 Aqueles que se entregam a razão natural.
  31. 31. 2.7.4- CONHECIMENTO INTUITIVO E ABSTRACTO O primado do indivíduo levado ao primado da experiência, na qual se baseia oconhecimento a esse respeito, é necessário distinguir entre o conhecimento nãocomplexo, relativo aos termos singulares e aos objectos que lhes designam e oconhecimento complexo relativo as proposições compostas de termos. O conhecimento intuitivo se refere a existência de um ser concreto, e por isso,move-se na esfera da contingência porque atesta ou não, a existência de uma realidade. Aimportância do conhecimento intuitivo consiste antes de mais nada no facto de ser umconhecimento fundamental, sem o qual os tipos de conhecimentos não seriam possíveis.É com este conhecimento que chegamos a saber se uma coisa existe ou não, assim ointelecto julga de modo imediato sobre a realidade ou irrealidade de qualquer coisa. O conhecimento intuitivo pode ser tanto sensível (conhecer a mesa) comointelectual, enquanto o intelecto conhece também os seus actos e os movimentos da almatais como: amor, desejo ou prazer. No entanto o empirismo de Ockham é sem dúvidaradical. O conhecimento abstracto deriva do conhecimento intuitivo que pode serentendido de dois modos: “de um modo quando se refere a algo abstraído de modosingular, por outro lado, enquanto faz abstracção da existência e não existência das coisascontingentes”18. Consequentemente os objectos de ambos conhecimentos são idênticosmas captados sob aspectos diversos. O intuitivo capta a existência ou inexistência de umarealidade. Ao passo que o abstracto prescinde esses elementos.2.7.5- O UNIVERSAL E O NOMINALISMO Em muitas oportunidades sem vacilações, Ockham afirmou que o universal não éreal. A realidade universal, é contraditório, devendo ser total e radicalmente excluída; arealidade é essencialmente individual. Os universais são nomes, não uma realidade,nem algo com fundamento na realidade, a realidade é portanto essencialmenteindividual.18 Reale Giovanni. Modos de Conhecimento página 304.
  32. 32. Desta forma cai por terra o problema do princípio de individuação do indivíduoque tanto preocupara a mente dos clássicos, porque se considera infundada a passagem danatureza específica ao indivíduo singular. Assim se o nome “Sócrates” se refere adeterminada pessoa, o nome “Homem” é mais genérico e abstracto, porque se refere atodos os indivíduos que podem ser indicados pela forma geral.2.7.6- A C ONTRIBUIÇÃO DE OCKHAM PARA A CIÊNCIA FILOSÓFICA A sua contribuição foi valiosa para a Filosofia, nomeadamente na Lógica onde fazuma crítica ao pensamento clássico, negando absolutamente a presença de naturezascomuns nas coisas; na epistemologia, ele é céptico a respeito da capacidade cognitiva damente humana; com a sua metafísica, procurou elaborar um objecto diferente dametafísica clássica, o ser comum; na teodiceia afirma que a existência de Deus não podeser provada a priori, somente a posteriori; quanto a política ele foi um defensor daindependência do estado em relação a igreja. Ele revoluciona todas as concepções da sua época, quer a nível da explicação dosfenómenos naturais e sociais. Propõe um novo método: a experiência. LÓGICA: Para ele a lógica é fundamental para o avanço do conhecimento. É oinstrumento, a arte mais apta, aquela sem a qual nenhuma outra ciência poderia serperfeitamente conhecida. Na sua obra MAGNA SUMA LOGICA, que se divide em três partes na primeiratrata dos termos, na segunda trata das proposições, e na terceira parte trata dossilogismos. BIBLIOGRAFIA 1- AAVV. História da Filosofia. Dos pré-socráticos à Idade Média I Vol. 2- ABBAGNANO, N. História da Filosofia. Vol. II Presença. Lisboa 3- BÍBLIA SAGRADA. Versão Digital, Junho de 2006 4- BRYAN, Magee. Os Grandes Filósofos. Ed. Presença Lisboa. 5- CHAUI, Marilena et al. História da Filosofia 6ª ed. SP. 1986
  33. 33. 6- HEINEMANN, Fritz. A Filosofia do Século XX. Fundação Calouste Gulbenkian 2ª ed. Lisboa s/d7- MARIAS Julian. La Filosfia en sus textos. Vol. I Barcelona 19508- MONDIN, B. Os Filósofos do Ocidente Vol I Ed. Paulinas S. Paulo

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