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Câncer no colo do útero
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Câncer no colo do útero Câncer no colo do útero Document Transcript

  • Valéria Cristina FidélisCÂNCER NO COLO DO ÚTEROA importância do ampliar a consciência para o resgate da criatividade na mulherFACIS/IBEHESÃO PAULO2007
  • 2Valéria Cristina FidélisCÂNCER NO COLO DO ÚTEROA importância do ampliar a consciência para o resgate da criatividade na mulherMonografia apresentada àFACIS/IBEHE como requisito paraobtenção do título de especialista emPsicossomáticaFACIS/IBEHESÃO PAULO2007
  • 3AGRADECIMENTOSEm especial a minha mãe (in memorian) e a todas a mulheres que cruzaram minhavida, emprestando força para o enfrentamento da perda e a realização destetrabalho.A minha amiga Maria Noemia Baptista, que está sabendo resignificar sua existência,através da ampliação de sua consciência sobre o sentido de sua vida.
  • 4“...Aquilo que não fazemos aflorar à consciência aparece em nossas vidas comodestino...”“... a finalidade única da existência humana é a de acender uma luz na escuridão doser...”“...A luz recai sobre a vida à partir da morte, só quem, na sua alma está pronto paracaminhar através do portal da morte será um homem vivo... ”Carl Gustav Jung
  • 5RESUMOO estudo da psicossomática e pesquisa presente consolidou um processo dedesenvolvimento pessoal e profissional, ampliando o meu entendimento sobre a tãorepentina e dolorosa perda de minha mãe aos 57 anos. De maneira criativa tive apossibilidade de reviver o contato com diversas mulheres em consultas médicasambulatoriais com diferentes tipos de câncer.O convívio com pessoas portadoras de câncer, torna obrigatória a realizaçãode reflexões pessoais e filosóficas acerca do sofrimento da dor e da morte em suaforma concreta.Delimitei o estudo ao câncer de colo uterino; o segundo tipo de maiorincidência de morte no Brasil; mesmo existindo grande possibilidade de cura em seuestágio inicial, a previsão de morte é confirmada quando a mulher não tem por hábitoa acuidade consigo; evidenciei o quanto é importante o conhecimento e a exigênciados direitos da mulher no contexto social.Os resultados apontam para a importância do ampliar da consciência naprevenção, no tratamento e no enfrentamento da doença, bem como na estagnaçãodesta, podendo colaborar com o desenvolvimento da flexibilidade e da busca daintegridade da mulher no saber lidar com o fantasma da recorrência; ou ainda frenteà morte eminente.Palavras-chaves: Câncer de Colo do Útero. Psicossomática. Ampliação daConsciência. Espontaneidade. Criatividade
  • 6ÍNDICERESUMOI – INTRODUÇÃOII – OBJETIVOS / HIPÒTESESIII – PESQUISAS E CONCEITOS TEÓRICOSCAPÍTULO 1 – GENESE, NOME E EXPLICAÇÃO FISIOLÓGICA DA DOENÇA1.1 - Câncer de Colo Uterino1.2 -Fatores de Risco1.3 - Os aspectos sociais da doença1.4 - O diagnóstico1.5 – O tratamentoCAPÍTULO 2 – CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA ANALÍTICA DE CARL GUSTAVJUNG2.1– Breve relato de sua vida2.2– A obra do pai da psicologia analítica e as suas conceituações mais importantesCAPÍTULO 3 – OS ASPECTOS PSICOLÒGICOS NO PROCESSO DE AQUISIÇÃODA DOENÇA E NO SEU ENFRENTAMENTO3.1- Psicossomática e o câncer3.2 - Características de personalidades das mulheres que desenvolveram o câncerde Colo Uterino3.3 - A simbologia do Câncer de Colo Uterino3.4 - Porque as mulheres precisaram desta doença
  • 7CAPÍTULO 4 – A IMPORTÂNCIA DA PSICOSSOMÁTCIA NO RESGATE DAESPONTANEIDADE E NO ATINGIR OS OBJETIVOS: VIDA OU MORTE4.1 – A Importância da área da psicologia no âmbito hospitalar4.2 – A etiologia da doença, seu desenvolvimento e a oportunidade dedesenvolvimento pessoal no resignificar a doençaIV - CONCLUSÃO
  • 8I – INTRODUÇÃOA elaboração deste trabalho trouxe uma experiência enriquecedora naampliação bibliográfica do estudo da psicossomática e da psicologia analítica; emparalelo, a pesquisa sobre o câncer de colo uterino possibilitou uma vivência da realnecessidade de uma sociedade mais justa e voltada para o coletivo.O estudo foi delimitado no diagnóstico de câncer no colo do útero; o aspectopsíquico foi o ponto de partida de minha curiosidade sobre o tema, emboraencontraremos muitas outras variáveis apontadas pelas pesquisas; busquei entendero estado emocional da mulher, sua condição social e a simbologia da doença; oaprofundamento quanto a repressão das emoções foi apontada como influênciasignificativa no processo de aquisição do diagnóstico.Várias foram as indicações das dificuldades adaptativas das mulheres querecebem o diagnóstico do câncer de colo uterino; no primeiro capítulo busquei oentendimento sobre a doença e o órgão em questão, através da conceituação teóricaencontrei as explicações sobre o nome e as possíveis causas de seu aparecimentosob o ponto de vista da medicina tradicional, a gênese da doença foi explicadaapenas no âmbito fisiológico. Os dados apontam para a não acuidade de um modogeral da mulher consigo e sugere que o diagnóstico no seu início pode ser umgrande caminho para a cura, porém, as pesquisas evidenciam um descaso do poderpúblico em viabilizar o acesso à estas mulheres a exames de rotina pelaprecariedade do atendimento público, este que colabora muitas vezes para odiagnóstico tardio.
  • 9Foi possível entender que a própria condição social e cultural destas mulheresnão proporciona o discernimento de exigir os seus direitos enquanto cidadãs; osdados estatísticos são representativos e indica um maior índice na população debaixa renda que ficam a margem da sociedade; o que fez-me reforçar a importânciada consciência para àquelas mulheres que estão em condições socioeconômicasmais favoráveis, e que de alguma forma possuem o acesso à assistência médica enão se preocupam com a regularidade necessária em realizar os examespreventivos.Há indicativos de um possível re-estabelecimento para uma qualidade de vidaem harmonia após a aquisição de uma doença como o câncer de colo uterino, esteprocesso é mais favorável quando a mulher consegue um diagnóstico precoce dadoença.Foi detectado que o tratamento é muito invasivo e representa para a mulheruma grande mudança em sua rotina, exigindo uma flexibilidade adaptativa tantofísica como emocional em lidar com o mesmo; existe uma grande lista demedicações e formas de aplicá-las ao tipo de câncer em questão e a cada estágio dadoença; em nenhum momento foi encontrado a citação da importância de seequilibrar o estado psíquico da mulher, pois ainda é precário o atendimento médicohospitalar. Os dados sobre importância dos serviços de psicologia e sua escassez foiencontrado no trabalho que utilizei para trazer dados reais Neme (1999), e nãodeixar a pesquisa apenas no âmbito teórico, trazendo sentimentos verídicos demulheres em situações nos diversos tipos de estadiamento da doença.Para reflexão e entendimento do processo de aquisição da doença, utilizei asconceituações teóricas da psicossomática e da psicologia analítica que amplia anossa compreensão do comportamento sadio e patológico. Estas abordagens seaplicada a cada fenômeno que ocorre no organismo vivo, pode oferecer umacompreensão deste como um sistema integrado.Conforme exposto acima no capítulo 2 busquei apresentar o criador dapsicologia analítica, e para que o leitor compreendesse o meu raciocínio posteriortrouxe as principais contribuições teóricas de Carl Gustav Jung de maneira que
  • 10possa facilitar os conceitos e os significados abordados na leitura da psicossomáticaque será realizada nos próximos capítulos.Como a visão da doença teve um enfoque nos pressupostos teóricos dapsicossomática, no capítulo 3 realizei a correlação entre a etiologia da doença com oaspecto psíquico das mulheres que adquirem a mesma, explicando a simbologia dadoença, do órgão, do desenvolvimento da doença, no seu enfrentamento, e tenteibuscar o porque estas mulheres precisaram adquirir a doença.Ao longo do capítulo 4 busquei nas dissertações o entendimento da aquisiçãoda doença através da questão somática e de sua simbologia, para compreender ocaminho da remissão, minha preocupação foi achar uma teoria que se afina-se comminha hipótese de que o ampliar a consciência viabilizaria no processo de tratamentoe a possível estagnação da mesma, conclui-se através dos dados encontrados, queo câncer é um grande modelo de doença psicossomática que abrange os aspectosbiopsicossocial envolvidos na aquisição da mesma. Neste olhar foi possível tambémperceber o quanto as características de personalidade das mulheres que adquirem ocâncer de colo uterino, proporciona o entendimento e esclarece a simbologia dadoença, proporcionando uma visão mais ampliada do processo de adoecimento.No decorrer da pesquisa foi possível ampliar a minha visão sobre o termo:“cura”, pois através da teoria Jungiana foi possível entender que as experiências evivências do doente pode ampliar a consciência sobre a sua realidade e re-significara doença, ou ainda possibilitar a vivência e o conhecimento do sagrado (totalidade).Neste contexto a cura pode seguir dois caminhos: onde a pessoa podeidentificar-se com um novo propósito ou uma nova intenção de vida, resgatando avontade e a coragem para evoluir indo contra o destino e as expectativas, mantendo-se viva, ou ainda consciente e preparada para a morte e alcançar o maior nível dedesenvolvimento espiritual, o que Jung (1980), chamou de processo deindividuação, tornando-se o si mesmo e despojando-se da matéria (os invólucros dapersona), despindo-se das máscaras definada pelo social e que muitas vezes servepara o desempenho de alguns papéis.Ficou evidente a importância do ampliar a consciência como parte importanteno tratamento do doente, neste contexto o trabalho de pesquisa de doutorado
  • 11realizado pela PUC-São Paulo de NEME (1999), corroborou com os demaispesquisadores e com minha hipótese inicial.Diante de uma real reflexão, o resultado permite indicações para futuraspesquisas nesta área, sugestões quanto à sexualidade, aos serviços dapsicossomática, ampliação do conhecimento dos direitos das mulheres e de seupapel na sociedade, entre outros.Um estudo tão denso proporcionará à atualidade a reflexão sobre oscaminhos que podemos enveredar, mediante um novo olhar sobre o tema;chamando atenção para a falta de consciência do EU e da realidade a que ele estásujeito no processo de adoecimento, e da dificuldade num momento tão perverso deacreditar na aquisição da doença como um sintoma que pode ser re-significado; darênfase na falta de percepção da mulher sobre os seus sentimentos, vontades etambém a passividade diante de sua vida e principalmente sobre sua sexualidade,bem como, a responsabilidade, frente as suas escolhas no contexto social e nosdiversos papéis que assume e a constitui mulher.
  • 12II – OBJETIVOSTrazer a reflexão sobre as possibilidade de cura sob o ponto de vista daabordagem Jungiana e psicossomática.Específicos:1.Investigar os aspectos: fisiológicos, psicológicos e sociais da doença.2. Averiguar pesquisas realizadas neste âmbito para mostrar a importânciadas condições psicológicas para enfrentamento do câncer e suas conseqüências.3. Verificar a obtenção de estagnação da doença e conseqüentementevisualizar os recursos psicológicos, (internos e externos), necessários para o resgateda espontaneidade após a fase do convívio com o estigma de ter tido uma doença“incurável”.HIPÓTESEQue a ampliação da consciência sobre os aspectos stressores que interatuamna realidade de cada mulher; resgatem a espontaneidade das mesmas no re-significar o patológico de maneira a sobreviver harmonicamente com o futuro mesmoque este seja a transcendência.
  • 13III – PESQUISAS E CONCEITOS TEÒRICOS TEÓRICOCAPÍTULO 1 – GÊNESE, NOME E EXPLICAÇÃO FISIOLÓGICA DA DOENÇAGenericamente a palavra Câncer é utilizada para denominar uma grandevariedade de tumores “malignos” ou neoplasias (novos tecidos) que acabam deampliar-se gerando a destruição orgânica devido seu caráter invasivo edisseminador.Geneticamente o câncer acontece na formação de células, estas formadas portrês partes: a membrana celular que é a parte externa da célula; o citoplasma, queconstitui o corpo da célula; e o núcleo, que contém os cromossomos que por sua vezsão compostos de genes. Os genes são arquivos que guardam e forneceminstruções para a organização das estruturas, formas e atividades das células noorganismo. Toda a informação genética encontra-se inscrita no gene através de uma“memória química” – o ácido desoxirribonucléico (DNA).É através do DNA que os cromossomos passam as informações para ofuncionamento da célula, o que chamamos de mutação genética.As células cancerígenas dividem-se rapidamente, e tendem a multiplicarem-sede forma agressiva e descontroláveis, determinando a formação de tumores(acúmulo de células cancerosas) ou neoplasias malignas. Existem também ostumores benignos, são aqueles que se formam por uma massa localizada de célulasque se multiplicaram vagarosamente se assemelham ao seu tecido original,raramente constituindo um risco de vida.
  • 14Alguns experimentos sugerem como os maiores causadores do câncer osfatores ambientais (agentes químicos, radiações e viroses); apontam também que amaioria dos cânceres são doenças genéticas de origem somática. Porém, é validolembrar que são múltiplas as etapas e os fatores envolvidos no processo quedesencadeiam a doença, que podem ser externos ou internos, ou seja, para que umacélula normal se transforme em uma célula maligna as causas podem ser várias,estando ambas as possibilidades envolvidas e inter-relacionadas.O câncer em geral é a segunda causa de morte para as mulheres no Brasillogo após as doenças cardiovasculares (ABRÃO,1995).1.1- Câncer de Colo UterinoEm decorrência do alto índice estatístico nos últimos anos, vários são osgrupos de pesquisas que tentam buscar, caracterizar e investigar as causas destadoença.Sugere-se um suposto microorganismo sexualmente transmissível, na gênesedesta neoplasia maligna. Os resultados das pesquisas www.scielo.br/scielo.php,apontam hoje que não existe câncer do colo sem HPV. Evidência de certos tipos depapilomavírus humano (HPV sigla em inglês para Human Papiloma Vírus) seria umagente. Esta infecção não resulta em câncer, mas é comprovado que 99% dasmulheres que têm câncer do colo uterino, foram antes infectadas por este vírus, e ainfecção cervical pelo HPV, assim como condição que dela resulta, a neoplasiapropriamente dita. Estes estudos epidemiológicos demonstram que há grandeassociação entre a conduta sexual e o câncer de colo uterino, sendo que algunspesquisadores chegam a afirmar que se trata de uma doença sexualmentetransmissível. Cerca de 75% da população sexualmente ativa entra em contato como HPV e espontaneamente elimina o vírus do organismo, sem desenvolver qualquerdoença. Algumas até adquirem uma infecção transitória com duração média de 12 a18 meses e menos de 1% corre o risco de ter câncer do colo do útero. Segundoalguns médicos a aquisição do vírus em algumas mulheres deve-se ao stress.
  • 151.2- Fatores de RiscoCondutas sexuais que estão associadas a um maior risco de desenvolver-se ocâncer de colo uterino:- início precoce da atividade sexual- maior número de filhos- múltiplos parceiros sexuais masculinos- parceiro sexual masculino com múltiplas parceiras- lesão genital por papilomavírus humano – HPV (vírus do condiloma)- mulheres imunodeprimidas, qualquer que seja a causa, como por exemplo, as queusam drogas imunossupressoras após transplante renal- mulheres fumantes- mulheres virgens menopausadas com sangramentoA doença é detectável facilmente através dos cuidados que toda mulher deveter com o seu corpo, ou seja, exames periódicos são fáceis de identificar no seuinício, sendo assim, os casos de morte são mais previsíveis quando a mulher nãotem por hábito a visita ao ginecologista para realização de exames periódicos depapanicolau.1.3- Os aspectos sociais da doençaSegundo a dissertação de Carvalho, C.S.U, revista brasileira decancerologia 2004; 50(2) :135; o câncer de colo uterino retrata as condições sociaisdas mulheres no Brasil, pois estas pertencem ao segmento menos favorecidos dasociedade, o que as coloca em situações mais vulneráveis e aos riscos dedesenvolvimento da neoplasia; a pesquisa mostrou que a maioria das mulheresportadoras de câncer em estágio avançado caracteriza-se pelo seu referencial sócio-histórico como uma expressão da questão de desigualdade social e seu reflexo no
  • 16cotidiano das classes menos favorecidas, a faixa etária predominante é de 35 a 55anos de idade.Os estudos revelam que há limitações concretas de acesso ao controle eprevenção da doença em virtude dos precários serviços públicos de saúdeestruturados para dar atenção a mulher; o que torna compreensivo o diagnósticotardio da doença. Concomitantemente há também as condições de habitação e seuaspecto cultural que também não proporcionam conhecimentos específicos sobre aimportância de cuidados pessoais e exames preventivos.É relevante lembrar que os estudos não apontam índices de mulheres declasse social alta e de nível cultural diferenciado, acredito que neste caso aaquisição e a identificação do diagnóstico tardio, pode estar correlacionada tambémcom a falta de consciência da mesma no âmbito biopsicossocial, demonstrando deuma forma mais acentuada a importância da consciência sobre nossas ações navida.É válido lembrar que é necessária educação e principalmente a motivaçãoindividual para o controle do câncer de colo uterino.1.4- O diagnósticoCâncer é uma palavra assustadora mediante o recebimento do diagnóstico,algumas pessoas ainda na época de hoje mal mencionavam o seu nome, muitasvezes referem-se ao câncer como: “...aquela doença...” “...não quero nem falar onome...”.É difícil lidar com o diagnóstico, mesmo para alguns médicos diante de seuspacientes.A primeira reação das pessoas ainda é o desespero; o câncer ainda é vistocomo sinônimo da morte e para alguns, motivo para se esconder o diagnóstico, poisnum país capitalista onde a produtividade é o que impera, pode significar não serprodutivo no contexto social e familiar, e neste sentido encarar a rejeição, pois àsvezes essa família não está preparada para lidar com os aspectos inerentes adoença como o tratamento prolongado ou mesmo com a morte.
  • 17Mesmo sabendo conscientemente que com diagnósticos precisos, possuímostratamentos apropriados que se pode buscar a cura, ou controlar o tumor ou pelosmenos oferecer uma boa “qualidade” de vida. As pessoas portadoras de câncer namaioria das vezes não estão preparadas para receber o diagnóstico pois vivem avida como se não fosse morrer, o que de uma certa forma já colabora para que adoença não seja entendida às vezes como um símbolo a ser re-significado.Alguns relatos da pesquisa de Neme (1999), quanto ao recebimento dodiagnóstico:“Tenho muita mágoa. Sempre fui de luta e enfrentar tudo. Procurei logo omédico... Sou revoltada com esses erros no meu diagnóstico...Agora, a doença estádeste jeito...”(mulher entre 50-65 anos de idade; metástases ósseas).“Não consigo dormir... Fico ansiosa... às vezes melhoro, me animo; masdepois vem a tristeza de novo”(mulher, entre 50-65 anos; categoria de câncer; mama/útero/ovário)“Penso que a doença pode ser um castigo (pelo aborto que fiz)....e por tudo que fiz‘par minha mãe”(mulher, entre 19-33 anos; categoria de câncer; mama/útero/ovário)
  • 181.5- O tratamento medicamentosoNo decorrer do tratamento é possível evidenciar diversos tipos a saber:Radioterapia que inclui a teleterapia e a braquiterapia e a Quimioterapia utilizadacomo tratamento sistêmico; estes que desafiam a mulher a suportar diversasconseqüências físicas e emocionais. São recursos utilizados para impedir odesenvolvimento das células cancerígenas e /ou eliminar total ou parcialmente ostumores existentes, que também destroem células normais, estas que possuemmaior possibilidade de reparo.Neste contexto existe um efeito desgastante no cotidiano da mulher, pois osefeitos colaterais são os mais diversos: reações da pele, sensação de cansaço,alterações de apetite, sonolência, diarréia, disúria, além de vivenciar um intervalo deabstinência sexual, se em seu tratamento houver a impossibilidade de manter arelação sexual, entre outros.Os tratamentos podem ter resultados efetivos ou paliativos, vai dependermuito do estadiamento da doença. É fato que as mulheres submetidas a qualquertipo de tratamento que se faça necessário, ficam mais sensíveis e fragilizadas atantas exposições aos diversos tipos de tratamentos; a condição da ansiedade,fragilidade e insegurança se potencializam, fato que demanda uma atenção especialde uma equipe multiprofissional.Falas para ilustrar o aspecto psíquico:“ Sei que meu problema não é grave. Graças a Deus, foi detectado no examepreventivo de rotina. Já operei, fiz a rádio preventiva, e o médico (em quem eu confiomuito), já me disse tantas vezes, que eu posso morrer de câncer, mas não deste.Mas mesmo assim, é sempre um fantasma assustador. Vai ser muito difícil me livrardele”(mulher de 42 anos)Neme, (1999)
  • 19CAPÍTULO 2– CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA ANALÍTCIA DECARL GUSTAV JUNG2.1- Breve relato de sua vidaEm 26 de julho de 1875 na aldeia de Kesswil na suíça nasce Carl GustavJung, filho de Paul Achilles Jung (doutor em Teologia e Filosofia) e de EmiliePreiswerk (mulher com dons literários com fortes experiências espiritualistas).Dedicou-se aos estudos da mente desde muito cedo, tornando-se depoisaplicado pesquisador da medicina. Em virtude de suas próprias influencias familiarese vivencias de visões premonitórias e sonhos espirituais foi guiado em sua vida eobra por seu lado espiritual, sendo sua realidade mais autêntica a vasta curiosidadecientífica foi sobre a alma e transcendência.Desconfiado da fé dogmática vivida por seu pai e vivenciando muitas crises edivergências a respeito do assunto, após a primeira comunhão afasta-se da igrejapela falta de vitalidade na cerimônia, dizia que sentia na mesma a ausência de Deuse que não era um lugar de vida e sim de morte.Na adolescência passa por uma crise filosófica e começa a buscar leiturasaprofundadas não só em conteúdos religiosos mas também no campo da filosofia.Tornou-se médico preocupado com os males do espírito; para ele afastar-sedessa natureza humana e espiritual principalmente na meia idade seria a origem dasinúmeras neuroses. Contudo sua visão sobre religião difere do Cristianismotradicional, sobretudo a questão do Mal e concepção de Deus, que não considera só
  • 20bom e protetor mas também tentador e destruidor. Não sendo compreendido apesarde considerar-se cristão, foi acusado pelo Cristianismo dogmático de ser umoutsider, sofrendo inúmeras perseguições. Em alguns desabafos ele dizia que naIdade Média ele teria sido queimado; sua necessidade de compreender Deus emexperiências imediatas era vital, embora não tenha conceituado Deus.Como estudante de medicina leu tudo de significativo sobre espiritismo, damesma maneira como estudou os primeiros trabalhos de Freud (pai da psicanálise).Depois desenvolveu as primeiras teorias psicológicas fundamentadas noinconsciente. Quando terminou medicina escolheu a psiquiatria e então começa suabusca incessante pelo entendimento dos enigmas misteriosos da loucura; suaatração especial no início era o tratamento de psicóticos.Inicialmente tomou partido de Freud, mais tarde por discordância de idéiassobre a espiritualidade e a parapsicologia afasta-se por não querer desligar-se deseus verdadeiros objetivos. Sofre imensamente com os afastamentos de amigos econhecidos e passa-se por místico, experimentando uma dolorosa humilhação.Se Jung tivesse se reprimido com as discordâncias encontradas, seriafatalmente vítima de um desequilíbrio mental, porém, utilizou-se desta criseconfrontando-se com seu inconsciente e obtendo uma experiência científica efetuadasobre o si mesmo, esforçando-se por mostrar que os conteúdos psíquicos são reaise de experiências coletivas, não apenas pessoais. Foram diversos anos elaborandoe inscrevendo-se no quadro de sua obra científica, interessando-se por conteúdosmarginalizados e desprezados pelo meio científico e recusando-se a concordar coma ideologia de massas e do progresso mecanicista, desconfiando de todas as teoriasgrandiosas e de toda busca filosófica por fundamentos em certezas universais.2.2– A obra do pai da psicologia analítica e as suas conceituações maisimportantesPodemos encontrar diversos assuntos estudados e conceituados por Jung; paida psicologia analítica suas contribuições não teve como finalidade a “cura” em si,mas o resgate das possibilidades criativas do indivíduo, levando a prática da
  • 21psicoterapia para fora da psicopatologia, conferindo sentido e propósito aos sintomaspsíquicos.Entre as inúmeras contribuições quatro teorias são consideradas as maisimportantes:1. Estrutura e dinâmica da psique consciente e inconsciente, bem como, oinconsciente se manifesta. Com o conceito básico de complexos;2. Tipos Psicológicos (introvertido/extrovertido);3. Estudo sobre a psicologia do desenvolvimento da personalidade, articulado noconceito de individuação;4. Descrição aprofundada dos conceitos de Arquétipos, derivados da psique doinconsciente coletivo, entre eles: Self, a Anima, o Animus, o Ego etc.Concebeu o aparelho psíquico como um sistema energético dinâmico e emconstante movimento, esta energia geral designou de libido que flui em 2 opostos. Aresultante dialética entre o consciente e o inconsciente denominou de processo deindividuação, juntamente com o processo do Self que constitui seu ponto de apoioteórico.Ao contrário das críticas acirradas que recebeu, Jung colocou a psicologia nocampo da ciência, sua obra é a expressão de uma abordagem empírica eexperimental, no final de sua vida deixa uma das maiores contribuições aopensamento moderno através do estudo da física nuclear que é o reconhecimentoda realidade da mente e a redescoberta da idéia da psique como um cosmo.Dentro do exposto considero que sua teoria é muito importante para oentendimento e leitura dos pressupostos da psicossomática que também é umaciência contemporânea, separei alguns conceitos para que possamos realizar aleitura através da psicologia analítica:
  • 22Inconsciente: na psique designa uma parte dos conteúdos reprimidos e esquecidosque já foram conscientes. Constitui-se de conteúdos sem energia psíquica suficientepara atingir a consciência.Inconsciente coletivo: uma camada do inconsciente pessoal mais profunda que jánão tem origem em experiências ou aquisições pessoais e nunca foram conscientes,são inatos e hereditários.Amplificação: técnica para aprofundar e aumentar as imagens do inconsciente dopaciente, por meios de associações dirigidas e sobretudo partindo da história de suaconcepção de vida individual e coletiva.Arquétipo: São representações de imagens e temas ou padrões universais queestiveram presentes em todo tempo e lugar comum a toda a humanidade, existem napsique como energia potencial na vida psicológica inconsciente de todos. Ex:Nascimento, Morte, Maternidade, Paternidade, etc... (experiências arquetípicas),outros já são ativados com base em experiências pessoais como os complexos.Complexos: conjunto de idéias, imagens, temas, capazes de nos afetar. Sãoconteúdos psíquicos carregados de afetividade, agrupados pelo tom emocionalcomum, muitas vezes reprimido e capaz de provocar distúrbios psicológicos.Anima e Animus: Personificação arquetípica da natureza feminina no inconscientedo homem e da natureza masculina no inconsciente da mulher.Coniunctio: Conjunção, casamento sagrado; integração com a ajuda da consciênciade aspectos insconscientes da personalidade. Esta união leva à transformação deatitude do próprio Ego e da consciência.Ego: é o sujeito da ação consciente, sendo o primeiro complexo a se formar, centroda consciência, estrutura-se com base no inconsciente.
  • 23Self: centro organizador do aparelho psíquico, abrangendo o consciente e oinconsciente como se fosse uma imagem de Deus em nós. Seria o arquétipo datotalidade impossível de ser alcançada.Individuação: é o processo de realização do self; seria a realização progressiva daunidade da vida em cada ser humano e tomando a forma de um confronto entre oconsciente e o inconsciente na busca de um ser individual em ação unidadesingular). Nunca haverá uma realização total da unidade, apenas a melhor possível.É importante nas situações da vida a submissão consciente ao poder do consciente;e reconhecer o direcionamento sugerido pelo Self, havendo colaboração paciente doEgo para o atingir dos objetivos que é a integração da consciência com oinconsciente, neste caminho o indivíduo se desenvolve ao reconhecer e integrar ossignificados de suas perdas e limitações. O objetivo da individuação é tornar oindivíduo mais diferenciado da coletividade ampliando suas relações com o mesmo,para individuar-se é preciso evitar tendências coletivas alienantes e evitar oegocentrismo individual (inflação do Ego), pois a individuação inclui o universo.Função transcendente: é um aspecto da auto-regulação da Psique que semanifesta de um modo simbólico e é experimentada como uma nova atitude em facedo si mesmo e da vida. Mantém a união entre o consciente e o inconsciente tendoum papel fundamental no processo de individuação, ela é resultante da relação entreos conteúdos do Ego/Self.Numinoso: o inexprimível, experiência imediata do divino que inspira temorreverencial fora do alcance racional.Sombra: são sentimentos e comportamentos proibidos que surge na parte maisescura e negada de nós mesmos, e não são conscientes; reconhecê-la é um passoinicial para o processo de individuação.
  • 24Símbolo: é uma imagem simbólica, uma expressão da situação psíquica, que incluielementos tanto da consciência como do inconsciente, viabiliza e pode canalizar aenergia psíquica inconsciente para a consciência se reconhecida e apreendida peloEgo.Sincronicidade: Coincidência entre um evento do mundo interior (imagem, sonhos,idéias ou premonições) com uma situação objetiva do exterior, ou seja, conexãoacausal entre a psique pessoal e o mundo.Mito: configura representações da consciência coletiva, ditas e reditas em cadageração. Expressa valores de grande irradiação que podem ser adequadamenteexpressos por conceitos ou de forma racional, Ramalho (2002).
  • 25CAPÍTULO 3 – AS INFLUÊNCIAS DOS ASPECTOS PSICOLÓGICOS DA MULHERNO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO DA DOENÇA E SEUENFRENTAMENTO3.1 – Psicossomática e o CâncerO processo de aquisição e enfrentamento da doença é entendido como acapacidade de lidar com a relação do stress; um processo psicofisiológico, quedesencadeia respostas gerais e específicas, ou seja, para entendermos o processode adoecimento, precisamos entender a psique (mente) e a soma (corpo); e acapacidade de adaptação do organismo aos agentes nocivos a saúde.Em sua pesquisa Neme, (1999) salienta que o termo stress acarreta muitasconfusões e controvérsias entre os cientistas e leigos, mas a melhor definiçãoencontrada por ela foi:”...marcada discrepância entre as demandas feitas sobre um organismo e acapacidade deste organismo responder...” ou ainda: um processo de inter-relaçõesfuncionais e atua no organismo por meio de estímulos originais no sistema límbico-hipotalâmico, os quais incluem relações com a dinâmica psíquica, cognições eemoções. (Rossi, 1994;Vasconcelos, 1998)Já MELLO e Cols.(1992), concentraram-se sob a perspectiva psicofisiológicas,psicológicas e psicossociais, tendo assim uma visão mais holística do ser,envolvendo-se na análise das estruturas sociais, pensando-as como um dos fatores
  • 26de risco na cadeia etiológica da doença, ou seja, o organismo humano desenvolve-se em interação como meio ambiente onde está inserido, sendo assim muitas dasfunções orgânicas são influenciadas e determinadas socialmente. As emoções sãopercebidas pela comunicação e o seu conteúdo ideológico, sendo assim, o indivíduobuscará através de sua percepção e expressão solucionar o estado que foi criado, seo processo for bloqueado a solução ficará prejudicada e a emoção ficará contida,então será manifestada indiretamente e de forma simbólica, ou seja, a doença é osintoma de uma emoção contida que não teve solução.O estudo da psicossomática demonstra que a fragilidade das mulheres emadaptar-se as vicissitudes da vida, propicia uma maior chance de desenvolvimentode uma doença como o câncer, desencadeando desequilíbrios metabólicos queresultam em comprometimentos da concentração de substâncias orgânicas edeficiências da regulação homeostática (condição de equilíbrio do sistemapsiconeuroendócrino necessários à sobrevivência), com diminuição das funçõescelulares que são responsáveis pelo sistema imune. Foi demonstrado que háaumento considerável da divisão celular, inclusive das células cancerosas, bemcomo, redução da capacidade reparatória do DNA e das Imunoglobulinas, resultandoem falência do sistema imunológico e maior probabilidade de desenvolvimento dedoenças.Neste processo precisamos considerar o indivíduo como um ser único, sendoa concordância entre os estímulos e as sensações suas respostas ao meio interno eexterno de acordo com suas funções sensoperceptivas; ou seja, transformar umasituação stressante ao organismo depende exclusivamente do indivíduo, e na suaforma em lidar com o estímulo estressor (Ballone, e outros 2007).Alexander (1989), denominou a doença como um “sintoma conversivo” queseria a expressão simbólica de um conteúdo psicológico emocionalmente definido,neste sentido a mesma seria uma tentativa de descarregar a tensão emocionalexpressando-se no fisiológico. Como este estado stressante é desenvolvido noestado psicofisiológico denominou este de “neurose vegetativa” que funcionandoconstantemente ou voltando periodicamente tem a função primordial de expressar ealiviar tensões, porém, estas respostas fisiológicas dos órgãos a estados emocionais
  • 27se realizada, sem modificação em sua rotina, e sem a busca de uma novaadequação do organismo aos estímulos psíquicos internos e externos, podeocasionar em determinado momento numa lesão ou a destruição celular.Sobre os enfrentamentos considera-se a “evitação e a negação” como defesasque tem funções adaptativas inerentes ao contexto stressor, dentro desta perspectivaentendo que o tempo interno de elaboração de cada pessoa em lidar com a situaçãode stress também tem interferência no processo de defesa do organismo ou nabusca da estagnação e desenvolvimento da doença.No estadiamento da doença foi observado que os motivos da demora nabusca do diagnóstico, refere-se a baixa escolaridade e ao baixo índice de realizaçãode exame de rotina, estes que poderiam detectar o câncer no seu início. Estarealidade pode ser entendida pelas condições sociais menos favorecidas.Esta variável indica o tempo de duração desse evento de estresse (câncer), oque possibilita a compreensão de como o indivíduo lida com o contexto da doença;emuitas vezes sua realidade não viabiliza uma rápida elaboração, sendo melhorracionalizar ou negar os sintomas existentes.Foi observado que a maioria das pessoas que participaram das pesquisas emambulatórios médicos possuíam menções de existência de conflitos e problemasfamiliares, visto pelas pessoas que participaram da pesquisa como significativos emsua história de vida. Os resultados apontam que 50% dos envolvidos relatavamdificuldades estressoras. Percebe-se na pesquisa que 67% referiu-se a problemasrelevantes na vida adulta relacionado a conflitos familiares e perda de familiares pormorte. Os pequenos acontecimentos repetidos por longos períodos de tempo eexperimentados quase que imperceptivelmente pelos indivíduos, podem serpotencialmente mais patogênicos do que as ocorrências extraordinárias ocasionais,para os quais são facilmente encontrados recursos e estratégias para superá-los.
  • 28Na vida adulta percebeu-se que o stress antes da doença também eraevidente; exemplos:“...Sinto-me bem, para 76 anos... Sempre tive problemas de relacionamentoscom a família. Meu marido era muito distante, frio...brigava muito. Minha família (deorigem) também é cheia de problemas e eu me afastei deles. Os momentos bons domeu casamento foram poucos; os ruins, foram muitos...”(mulher, 76 anos, categoria: câncer de mama/útero/ovários)“... Sempre fui cheia de problemas de saúde. Foi uma luta para engravidar.Conseguia e perdia. Aí consegui segurar a gravidez, mas perdi dois filhos recém-nascidos...”(mulher, entre 19-33 anos, categoria de câncer: colo de útero/ovário/Mama)Neme (1999)As situações de enfrentamento são configuradas pelos fatores intra-individuaise situacionais com características específicas, fatores estes interdependentes e quedevem ser considerados na realidade de cada indivíduo, o que realmente ele faz,(pensa e faz), não pode ser confundido com seus resultados, visto que não existemformas melhores ou piores, os tipos e a natureza do evento estressor temcaracterísticas específicas vividas e percebidas no âmbito individual, sendocomplexas de ser avaliadas.3.2- Características de personalidade das mulheres quedesenvolveram o Câncer de Colo UterinoExplorando a conceituação de stress pela visão psicossomática, podemoscompreender o doente, como um organismo dinâmico que entrou em desequilíbrio ea doença seria a expressão de suas emoções.
  • 29Nos relatos das mulheres portadoras de câncer de colo do útero foiconfirmado personalidades: depreciativas, com pouca espontaneidade, no que refereas suas necessidades e vontades; e que se submetem aos sistemas relacionais oufamiliares e não reclamam por mudanças; quer e não consegue receber, dificuldadede expressar (comunicação) agressividade (passiva).Podemos entender estas mulheres com pouca ação ou respostas adequadaspara as situações velhas ou novas a enfrentar em suas vidas, cabe aqui umacitação:“... O que temos em comum são as idéias criadoras, a motivação, ainteligência, as aptidões e a educação. O que os separa é a espontaneidade que, noscasos bem sucedidos, habilita o seu portador a dominar completamente essesrecursos, enquanto que os que fracassam ignoram o que fazer com todos os seusrecursos; eles sofrem de deficiências em seus processos de aquecimentopreparatório. Neste sentido a espontaneidade tem três reações possíveis que oindivíduo pode manifestar:1. Nenhuma resposta numa dada situação, ou seja, quanto maisprofundamente é o desejo de produzir uma resposta e esta estiver ligada àincapacidade de produzi-la, maior será a calamidade.2. Uma velha resposta a uma nova situação e 3. Nova resposta a uma novasituação...Criatividade: É o ato espontâneo... ” MORENO, J.L. (1993)Existe pouca persistência na busca de seus sonhos e seus propósitos de vida,Ballone et al. (2007), conceitua esta personalidade como do tipo C, onde há ummaior risco para a aquisição do câncer, mencionando algumas características como:- personalidade que sobressai a negação das experiências mais traumáticas;- não demonstra suas emoções e tendências a raiva;- possuem um excesso de cortesia às vezes contrariada;- não reconhecem seus conflitos mais profundos da alma e/ou coração;- desejam exageradamente ser reconhecida socialmente;- obrigam-se forçadamente a ter um comportamento harmonioso;
  • 30- tem excesso de paciência (e às vezes dissimulada);- usa a razão de forma decisiva e muito agressiva;- tem um rígido controle sobre a expressão emocional.Mais uma vez percebe-se que são mulheres que se utilizam excessivamentede um mecanismo de defesa, ou seja, fazem uso excessivo da negação e repressãode suas experiências e sentimentos; citam como exemplo os casos de infidelidadeconjugal, onde um dos cônjuges em processo terapêutico nega de forma dissimuladaa traição existente.3.3- A simbologia da doença: CâncerO corpo é o palco onde as doenças expressam sua linguagem; o organismode cada indivíduo possui um órgão de choque, determinando uma fragilidadegenética; frente a constantes tensões emocionais podendo ou não desencadearalterações celulares com posterior destruição do órgão.Segundo Jung os símbolos nos dão sentido à vida, podemos constantementetransformar um símbolo vivo, como se fosse uma bandeira que nos faz ter aexperiência da emoção.Para Dahlke (1996), existe uma importância no significado da doença, pois amesma pode nos levar ao caminho do desenvolvimento, do re-significar a doença ebuscar a cura, no entanto é importante buscar o significado do local afetado paraaquele indivíduo e correlacionar com suas emoções reprimidas.Simbolicamente e socialmente podemos entender a pessoa que adquiriu umcâncer, como uma pessoa com perfeita adaptação social (normopatia) e com umaconvivência boa à subordinação, não sabendo impor os seus próprios interesses edesejos da alma. É como se a busca da imortalidade e onipotência da alma em vezde estarem na consciência do indivíduo para sair do sistema da normopatia e daaceitação submissa e desenvolver-se, fossem canalizadas do inconsciente para
  • 31células cancerígenas, por isso se tornam tão poderosas, pois a energia reprimida noinconsciente alimenta a reprodução destas células destruidoras.Podemos correlacionar o corpo como o espelho da destruição da terra, epodemos ainda fazer uma analogia com o próprio contexto social capitalistaselvagem que invade e aniquila o poder das mulheres de classes inferiores nas suasnecessidades mais intimas de resolução de saúde no seu significado mais amplo ecomplexo, invadindo o sistema imunológico sem consideração e pensando apenasna realização de seus próprios interesses, tornado a pessoa com câncer o espelhoda terra pelas pessoas que pensam de maneira individual e com falta de umaconsciência mais coletiva.Neste palco resta a mulher que adquiriu a doença resgatar as forças, criarcoragem e não deixar-se submeter as regras e ordenações, encontrar para sua vidaum lugar nesta grande “ordem”, ou seja, deixar crescer os seus próprios objetivos esonhos descobrindo o amor, abdicar do corpo e colocar a alma em primeiro lugar;“...não regredir e não se afastar da linha de desenvolvimento rever e resgatar oconceito de realização e de liberdade...“(Dahlke,1996).3.4– A simbologia do Câncer no Colo do ÚteroPor que será que o templo que acolhe a vida criando o homem com umsignificado tão pleno pode ser destruído? Por que o órgão que dá vida, também podetirá-la e ser eliminado de uma forma tão perversa?Vários foram os significados encontrados sobre o órgão em questão, entreeles: a entrega, a maternagem, fecundidade,a acolhida, produtividade, fertilidade demundo, sexualidade, poder, agressividade, força de domínio.Verifica-se no plano sintomático que muito antes do câncer do colo do úteroinstalar-se, há recidivas de inflamações vaginais; no plano simbólico este sintomapode indicar conflitos crônicos de altas frustrações não resolvidas; tendo em vistaque as inflamações ocorrem pelo ato sexual, podemos associar a insatisfação damulher com o seu relacionamento sexual.
  • 32Mediante as características das mulheres no relacionar-se com o outro econsigo, o processo simbólico indica um comportamento submisso frente a suasexualidade, sendo que a manutenção de seu relacionamento deve acontecer deforma subserviente à ataques e abusos ofensivos de seus parceiros.Em outro contexto pode haver o afastamento da via do desenvolvimento doexercício da maternidade, como se esta não fosse vivenciada por diversos motivos.É válido salientar que no contexto biopsicossocial, são mulheres que nãovivem uma vida por si, mas pelo outro, ficando em segundo plano, ou aindaencontram-se com uma diversidade de complexos maternos Jung (1980), queinviabiliza uma abertura para o ver e viver a sua realidade. Desta maneira, a energiareprimida no inconsciente atuará novamente no plano corporal desenvolvendo o queconscientemente não foi possível desenvolver; infelizmente nem sempre háconsciência para buscar a espontaneidade e resolver antes, e às vezes a doença foià alternativa encontrada.3.5 - Porque as mulheres precisaram desta doençaNo processo de somatização, devemos considerar os tipos de respostasemocionais resultantes da avaliação que a pessoa faz da realidade e seusmecanismos pessoais e particulares de enfrentamento das diversas situações emsua própria vida.Porém, tendo o útero o símbolo da fertilidade, criatividade e proteção; talvez amulher precisou adquirir a doença para re-significar seu desenvolvimento no caminhoanímico-espiritual. Dahlke (1996), sugere que estas mulheres possam não ter vividosua maternagem e acredita que o caminho a se descobrir está no campo dacriatividade e da identidade, ou seja, vivenciar e desfrutar conscientemente amaternidade; e abrir os horizontes para as próprias idéias; ceder aos impulsos(mesmos que selvagens) de crescimento e relembrar e tornar a vivenciar os sonhosde uma vida relacionados aos temas, deixar que o hormônio do amor instale-se naalma e direcione seus desejos.
  • 33Ocorre que muitas vezes, a mulher precisou chegar ao extremo dedesenvolver o câncer para adquirir consciência de algo que está lhe incomodando einfelizmente às vezes pode ser tarde para tomar as rédias e re-direcionamentos desua vida.
  • 34CAPÍTULO 4 – A IMPORTÂNCIA DA PSICOSSOMÁTCIA NO RESGATE DAESPONTANEIDADE E NO ATINGIR OS OBJETIVOS: VIDA OU MORTE4.1 – A Importância da atuação da psicologia no âmbito hospitalarQuanto ao tratamento psíquico no âmbito desta pesquisas, ficou nítida aquase inexistência da atuação do profissional de psicologia e, a pesquisa evidenciouo quanto à preocupação ainda é medicamentosa e de especialidade da medicina.Cabe aqui ressaltar a importância de inserção dapsiconcologia/psicossomática no contexto hospitalar, utilizando como recurso a seragregado aos tratamentos do câncer em geral.Segundo Neme (1999), não há nos hospitais uma área de atuação e pesquisa,a maioria das intervenções baseiam-se na psicologia clínica e na prática dapsicoterapia de forma individualizada; temos poucos profissionais preparados paraeste tipo de atuação, sendo um campo potencial para o desenvolvimento detrabalhos específicos que possam ser eficazes para o alívio da dor psíquica,minimizando estados de pânico e temor, ou preparando-as para:- exames invasivos;- cirurgias;- aceitação do tratamento indicado e seus efeitos colaterais;- redução de seus conflitos;- diminuição do estresse, entre outras necessidades emocionais.
  • 35Enquanto psicoterapeutas e especialista em psicossomática é precisoentender o doente com câncer além da visão simplista , pois não é possível ajudá-lomediante a concepção de que a doença é algo anormal, ou seja, a normalidade éaquilo que o deixou doente, e neste sentido o câncer apresenta um conjunto deelementos psicossomáticos a ser entendido na complexidade do doente. Voltar a“normalidade” é permanecer na doença; sendo assim no caso de uma psicoterapiaresgatar os propósitos amortecidos mais íntimos de sua vida, mediando previamentequalquer intenção de trazê-lo para a nossa realidade. Porém é importante alterar osignificado atribuído à situação, dando mais esperança e mais tranqüilidade paracom outros aspectos também importantes na vida neste momento, resgatando osrecursos intrapessoais necessários para que a pessoa possa manejar as múltiplasdemandas da situação.É importante re-valorizar o tempo, pois para o doente este é diferente eindeterminado; cada encontro pode ser o último e é preciso ponderar a regressão. Otrabalho deve ser desenvolvido no aceitar sua nova condição de realidade, e navivência de possíveis perdas que são constantes no desenvolvimento da doença,afetando diretamente não só o estado fisiológico como o psicológico, exemplos:perda do útero, do cabelo, da rotina antiga, entre outros.Sem o conhecimento destes elementos envolvidos, fica difícil para opsicoterapeuta obter algum resultado de valor; sem contar que o convívio com arealidade o coloca frente à possibilidade de uma recidiva ou metástase.É importante enquanto psicoterapeuta trabalhar com a questão do quanto tudose modifica com o diagnóstico da doença, pois muitas vezes o paciente tem em suaestrutura psíquica o conceito de voltar à vida “normal” e isso não é uma verdadetendo em vista a lesão obtida com a doença.O psicoterapeuta só poderá intervir de forma adequada com o doente seentender que sua vida a partir do diagnóstico é diferente, através desta perspectivapoderá buscar readequar a sua vida no convívio social e familiar.O trabalho de Neme,1999 mostra através dos relatos de pacientes os ganhosdo ponto de vista das mulheres em tratamento com o processo de terapia brevecolaborando com o ampliar da consciência, embora relatassem que o tempo era
  • 36curto, salientando a importância de continuar a trabalhar os diversos aspectos desuas vidas, algumas mulheres recebem alta mais saudáveis no enfrentamento desuas realidades.A seguir alguns relatos coletados:“ Está sendo importante...contei toda minha vida... Resolvi falar com a minhafilha... acho que preciso falar com ela... Também quero que ela não avise (de suamorte) os parentes de .... (cidade): eles me abandonaram há seis anos, e não é agoraque vão precisar vir... “(mulher, entre 66-82 anos; câncer avançado: útero/ovários. Foi acompanhada até oóbito).“Acredito que a doença veio..., também para me mostrar alguma coisa... Soumuito sensível aos problemas dos outros, e me incomodava muito isso. Mas depoisde estar passando por isto, de ter ficado “arrasada”, vi algumas coisas (também coma terapia) e mudei. Até o meu relacionamento com a família, mudou com estadoença”.(mulher, entre 50-65 anos; categoria câncer: útero/ovário)“ Quando o médico falou para eu vim, eu estava muito desanimada, mesentindo muito mal com o tratamento (quimioterapia). Não queria mais fazer. Com asconversas, consegui me reeguer, fiquei mais alegre e tive forças para fazer otratamento. Acho que fui socorrida na hora certa. Boa parte desta recuperação que eutive, tenho certeza que foi deste tratamento (psicoterapia)”(mulher, entre 44-47 anos, categoria: mama/útero/ovário)
  • 37“Consegui realizar com a terapia, uma coisa que sempre quis fazer, masachava que não ia conseguir (escrever). Agora, aqui no hospital, estou escrevendo(um tipo de diário, com pensamento e poesias). Isto está me ajudando muito. Não mesinto mais sozinha e tenho mais confiança em mim e no tratamento”.(mulher, 50-57 anos; categoria câncer: mama/útero/ovários)“ É um trabalho muito bom este que vocês estão fazendo.... Para mim, eu seique não vou ter cura. Não tenho medo de morrer. Estou na paz de Deus, e recebi oseu chamado para ir embora... tive uma vida formidável, um grande amor (maridofalecido há 6 anos). Com a minha idade, já vivi o que devia...” As vezes parece queestou fora do corpo... não queria voltar”.(mulher, entre 66-82 anos; categoria: útero, ovário, mama)Neme (1999)4.2 – A etiologia da doença, seu desenvolvimento e a oportunidade dedesenvolvimento pessoal no re-significar a doençaA conceituação de Mello, Filho e cols (1992), é bem propícia paraentendermos este processo, ele define Ego como o conjunto de elementos orgânicose psicológicos que uma pessoa entende como integrantes de sua estrutura. Sendoassim, no processo da mitose as células em constante mutação em algunsmomentos são células cancerígenas que podem ser reconhecidas pelo organismocomo parte integrante do Ego e permanecer em crescimento ao invés de seremespelidas normalmente, neste sentido entender o câncer como doença externa eevasiva pode ser considerado um mito, pois seu desenvolvimento tem origem e fazparte do Ego, que em seu desequilíbrio ocorrido pelo estressor emocional nãopermitiu que o organismo se adequasse as vicissitudes de sua realidade e nãoreconheceu a célula cancerígena como tal e as integrou como parte do sistemabiológico.
  • 38Apenas para entender o desenvolvimento da doença e salientar o mito doinvasor, é importante saber que o câncer se instala no organismo no período de 2 a15 anos, infelizmente ele só pode ser diagnosticado quando possui 1cm3, sendo queneste início a possibilidade de cura é maior; segundo pesquisas sobre a suaetiologia, o câncer não é incontrolável e anárquico como sugere o senso comum,pois como semelhante pode ser tratado como seus tumores observadosanteriormente. Porém, não é concebível ainda dizer que a cura é obtida em todos oscasos, pois por mais precoce que seja o diagnóstico em alguns casos não modifica oprognóstico.Mediante tal evidência podemos acreditar que o organismo se estimulado(mente/corpo) pode controlar este crescimento, desde de que haja consciência doindivíduo sobre o seu poder de reconhecer a vulnerabilidade e de eliminar a doençajá que viabilizou mesmo que inconscientemente sua instalação e permitiu quehouvesse a integração como estrutura psicorgânica.Não podemos pretender entender o porque do câncer apenas no planoorgânico, precisamos entender na perspectiva do individuo como ser integral, pois noplano orgânico geral pensando o ser humano numa visão sistêmica, não háconhecimento geral.Frente a estes dados, começa a correlação entre o sintoma da doença físicacom a psicológica em seu aspecto simbólico, ou seja, as causas externasrelacionam-se ao meio ambiente e aos hábitos e costumes próprios de um ambientesocial e cultural. Já as internas podem ser geneticamente pré-determinada atravésda hereditariedade; na maioria das vezes ter ou não a doença pode ter ligação com acapacidade do organismo de se defender das agressões físicas ou psicológicasinternas. Pensando na defesa das questões externas, o próprio homem através deseus hábitos e o estilo de vida que adotam, podem ou não determinar tipos decâncer.A psicoterapia pode colaborar ou facilitar no desenvolvimento de formas maisadaptativas de lidar com a doença (o que é facilmente realizado se não for precisomudar de estilo de personalidade).
  • 39O descobrimento da doença em seu início pode sinalizar o nível deconsciência de um indivíduo. Neste contexto, a espontaneidade pode colaborarimensamente no processo de ampliação da consciência e na estagnação da doença.Através da consciência da situação vivida, o individuo pode promover orestabelecimento da defesa do organismo, as células que estão em crescimentodeixariam de crescer, e neste movimento pode resgatar o sentido da existênciapessoal, fazendo com que o indivíduo sobreviva a doença e não o inverso.Em nossa cultura é muito valorizada a vida e, o viver com saúde, como sefossemos imortais, tornando a vida o único objetivo. Desta maneira estamos poucopreparados para as doenças e para a morte que também é um objetivo que pode serconseguido pelo doente neste momento.Através da psicologia analítica entendemos como fatores internos oinconsciente e o consciente, que pode ou não determinar a ação sobre o livre arbítriodo doente em querer viver ou morrer ou ainda transcender através da morte física,como salienta Jung em seus estudos sobre a morte, onde ele acredita no processode mutação para o desenvolvimento de um novo ser, e afirma: “...nosso nascimentoé uma morte e a nossa morte é um nascimento...” . Neste sentido a morte pode serentendida como um processo de cura.A proposta é olhar o doente e não a doença, os sintomas são expressões dasemoções e podem ser utilizados para interferir na ampliação do olhar do doente demaneira que este busque o desbloqueio de suas emoções e conseqüentemente aestagnação da doença. A vivência do doente com os arquétipos coletivos sobre amorte, possibilita o desenvolvimento do processo alquímico (transformação dascélulas); e conseqüentemente pode restabelecê-lo, o irromper com o materialcoletivo possui um significado extraordinário para o processo de cura. Só conseguecurar-se quando identifica-se um propósito, uma intenção de vida, vontade ecoragem para evoluir e manter-se vivo.Muito embora manter-se vivo, está muito além de ir contra o próprio destino eas expectativas; é estar consciente e preparado para a morte, é alcançar o maiornível de desenvolvimento espiritual e de conscientização.
  • 40Para Jung (1980), a vida é um intervalo entre o antes e o depois, e nesteprocesso aceitar a morte é entender a volta para o UNO (cosmos) e ir de encontro aosagrado. A existência psíquica nesta travessia continua sendo um mistério; aceitar amorte é tomar consciência do fim da corporalidade neste intervaloExemplo:“... Agora faço direitinho o meu tratamento médico. Me viro sozinha, mesmocom tanta dificuldade, vou levar a sério...”Minha filha precisa de mim(mulher, entre 34-49 anos; categoria de câncer: mama/útero e ovários)Neme (1999)Cada ser humano é único e reage diferentemente frente ao stress, inclusive noque se refere à doença psicossomática, ao pesquisar sobre o afeto podemosentender que os fatos e eventos da vida são percebidos de forma exclusiva e comvalor específico por cada pessoa e o evento é enfrentado de maneira particulardependendo muito da própria personalidade. Evidentemente a pessoa avalia osignificado e a importância das situações que vive mediante seu conhecimento e suaemoção, comportando-se ou reagindo conforme o significado ou interpretaçãosubjetiva realizada sobre seus pensamentos, crenças, valores e vivências; estas quefornecem a dimensão dos significados pessoais de cada situação a ser enfrentada.A doença na visão de Jung é uma simbologia que quando o protagonistaentende seu símbolo/significado e o torna consciente, consegue re-significar adoença e buscar o desenvolvimento da cura.Para Jung o sentido da vida é a ampliação da consciência, o que ele chamavada busca da individuação pessoal. Acreditava que o Self precisa de uma consciênciapara entender o Ego, alma e o espírito e é nela que se tem toda a possibilidade decura e a possibilidade de atrair outras coisas e a agir no mundo provocandomudanças em si mesmo e isto é resultante de forças da própria consciência, se está
  • 41fragilizada, possibilita a abertura para entrar em um padrão simplificado. Sendoassim, não basta só desejar as coisas que elas acontecem, temos que desejar nasua totalidade. É preciso estar conectado com o todo, e este todo é intra e extrapsíquico, onde é preciso começar com o micro e aí, você avança para o macro.Podemos completar que a psicoterapia pode nos ajudar a começar com omicro, ou seja, nós enquanto parte do todo (universo) e neste sentido, entender anossa missão, dando um sentido maior para a vida física.
  • 42IV - ConclusãoA pesquisa aqui dissertada nos remete a reflexão dos enfrentamentos quetemos ao longo de nossa história; através da visão psicossomática é possívelentender que a doença pode ser um sintoma que favorece no desenvolvimento doprocesso de individuação.Foi possível concluir que uma pessoa portadora de câncer de colo no útero,passa por diversas situações de stress em uma dimensão muito individual de lidar,criando estratégias de respostas que pode ser de distanciamento ou de evitaçãosobre o que circunda a sua realidade ou de reavaliação de valores e objetivos.Percebe-se um valor agregado quando há em paralelo ao tratamentomedicamentoso o acompanhamento psicológico do doente, que pode ajudar deforma individual na ampliação de sua consciência, melhorando: a sua percepção,facilitando no manejo das situações de stress, viabilizando os recursos internos eexternos, na diminuição da ansiedade, e ainda tornando o processo de adoecimentoe o seu re-estabelecimento (vida ou morte) com uma maior sensação de bem estar.Sendo a percepção e o entendimento muito individual, o que determinará aforma de lidar com a sua realidade para alguns pode ser o auto-engano e paraoutras um alívio entendendo que a morte pode ser o melhor objetivo neste momentoe de forma consciente preparar-se para ela, pois apesar das variações interpessoaisquanto à avaliação da situação stressante, existem aspectos de diagnósticosconcretos que pode determinar o prognóstico.
  • 43A doença remete a pessoa refletir sobre a vida, seus paradigmas, sua rotinacomum entre outras variáveis; quando o processo de transformação ocorre, ou seja,quando o self consegue atuar de maneira que o ego recue para dar espaço para omelhor caminho como objetivo, o aspecto sombrio da doença desaparece, parte dasombra se faz luz, ampliando a consciência, fortalecendo e possibilitando suarelação com o self.Se aceitarmos que cada um de nós é potencialmente um transformador deexperiência, pode haver uma maneira mais saudável de se ter uma doença ouencontrar uma maneira mais espontânea de enfrentar uma crise como a aquisição decâncer. As transformações positivas provocadas no processo do adoecimento, talvezseja uma possibilidade das mais singulares e concretas que temos para refletir eentrar em contato com o nosso inconsciente e pode sugerir mesmo que tardio umaconceituação do que venha ser a saúde humana.Acredito que as mulheres que perderam sua espontaneidade para vida,deixaram de acreditar na capacidade feminina de lidar com as vicissitudes da própriavida e responder às adversidades com a força da coragem e da emoção quepossuem.Embora numa situação de aquisição de câncer o stress é incomensurável,acredito que o trabalho revelou a minha hipótese do resgate da espontaneidadeatravés do ampliar a consciência, porque toda mulher possui em si o dom maispoderoso da vida que é o de gerar e manter a própria vida; se houver tempo e arealidade não estiver tão comprometedora, esta pode conseguir romper com osarquétipos coletivos sobre a questão da morte resignificando de maneiraextraordinária o sintoma e estagnar a doença, arrumando forças para enfrentar ofantasma de ter tido uma doença incurável, para isto, além de resgatar o sentido paraa vida é preciso integrar-se com o todo e requer a colaboração da personalidade noâmbito da consciência e do inconsciente.
  • 44BIBLIOGRAFIASABRÃO, Fauzer Simão. Tratado de oncologia genital e mamária. São Paulo: Roca,1.995ALEXANDER, Franz– Medicina psicossomática: seus princípios e aplicações. Trad.Fischmann Célia Beatriz. Porto Alegre: Artes Médicas,1989ANIELA, Jaffé, Rohn Liliane Frey; Franz,Marie Louise Von Franz. A morte a luz dapsicologia. São Paulo. SP: Editora Cultrix, 1980BALLONE, Geraldo José; ORTOLANI, Ida Vani; NETO, Eurico Pereira. Da emoção àlesão: Um guia da Medicina Psicossomática. Segunda Edição. revisada e ampliada.Barueri , SP: Manole,2.007DAHLKE, Rudiger . A doença como linguagem da alma: Os sintomas comooportunidade de desenvolvimento. Trad. Pigantari, Dante. São Paulo: SP. Cultrix,2005. págs. 01 a 87DAHLKE, Rudiger, com a colaboração de Margit Dahlke, Cristiine Schrodl, Dr. RobertHossl e prof. Dr. Volker Zahn. Tradução: Saulo Krieger e revisão de Maria SuzeteCasellato . A doença como símbolo. Pequena Enciclopédia de psicossomática:Sintomas, significados, tratamentos e remissão. São Paulo. SP: Editora Cultrix, 2006.págs. 01 a 28, 108-109, 112 a 113
  • 45JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo - 5a. Ed. TraduçãoMaria Luiza Appy, Dora Mariana R. Ferreira da Silva . Petrópolis. RJ: Editora Vozes,2007MELLO, Filho de Julio e cols. Psicossomática Hoje. Porto Alegre: RS. ArtesMédicas,1992MORENO, Jacob Levi. Psicodrama. Editora Cultrix. São Paulo. SP: 1993. págs. 80a 205NEME, Carmem Maria Bueno – Enfrentamento do Câncer: Ganhos terapêuticos coma psicoterapia num serviço de psiconcologia em Hospital Geral. Tese apresentada àBanca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, comoexigência parcial para a obtenção do título de Doutora em Psicologia Clínica, sob aorientação da Profa. Dra. Mathilde Neder. São Paulo. SP: 1999 – Biblioteca daUnicsul 615.851 (043.21) N352eRAMALHO, Cybele M. R. Ramalho. Aproximações entre JUNG e MORENO. SãoPaulo. SP: Agora, 2002RAMOS, Sergio dos Passos (2.007). Citações e referências a documentoseletrônicos http://www.gineco.com.br/hpvceara.htm acesso em 02 de dez 2007.REVISTA BRASILEIRA DE CANCEROLOGIA. OUT. NOV. DEZ. 2002 V.48 NO. 4REVISTA TÉCNICA – Cientifica Enfermagem. www.nursing.com.br. Rio de Janeiro,2005. ano 8. Revista Nursing, v. 80, págs. 23 a 29SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE. Fundação Oncocentro de São Paulo.Câncer de Colo Uterino: Controle no Estado de São Paulo Manual de Orientação,1996. BRASIL.