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  • 1. 155 COLUNA/COLUMNA. 2007;6(3):155-161 Avaliação da incidência das lesões por arma de fogo da coluna vertebral Evaluation of the incidence of the gunshot wounds to the spine Evaluación del índice de las lesiones por arma de fuego de la columna vertebral ARTIGO ORIGINAL / ORIGINAL ARTICLE Trabalho realizado no Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Hospital de Clínicas e do Hospital do Trabalhador da Universidade Federal do Paraná – UFPR – Curitiba (PR), Brasil. 1 Médico Ortopedista e Membro do Grupo de Cirurgia da Coluna do Hospital do Trabalhador e Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná – UFPR – Curitiba (PR), Brasil. 2 Chefe do Grupo de Cirurgia da Coluna do Hospital do Trabalhador e Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná – UFPR – Curitiba (PR), Brasil. Recebido: 02/08/2006 - Aprovado: 04/04/2007 Marcel Luiz Benato1 Ed Marcelo Zaninelli1 Xavier Soler I Graells2 RESUMO Objetivo: os ferimentos por arma de fogo (FAF) estão se tornando mais freqüentes, principalmente nas grandes cidades. O objetivo deste trabalho é demonstrar a incidência das lesões por arma de fogo que atingiram a coluna vertebral nos pacientes atendidos em um Pronto-Socorro. Métodos: o estudo realizado apresenta a incidência dos FAF atendidos em um grande pronto- socorro. Resultados: verificou-se que a maioria dos pacientes afetados foi do sexo masculino, com média de idade de 25 anos.Amaior parte deles chegou ao hospital por meio de ambulâncias de resgate estadual (SIATE). Tais lesões foram mais freqüentes nos finais de semana, principalmente no período noturno. A maioria dos pacientes apresentou lesões associadas, prin- cipalmente abdominais. A coluna torácica foi a mais afetada, especi- ficamente T12. A lesão neurológica mais freqüentemente encontrada foi a completa, Frankel A. Foram mais ABSTRACT Objective: gunshot wounds are becoming more frequent, especially in large cities. Methods: the developed study presents the incidence data from the lesions attended at a large emergency center of the town, from January 2002 to march 2005. Results: this lesion was more frequent in male patients, an average of 25 years. They were brought to the hospital by the state rescue system. The lesions happened more during the weekend, especially at night. The majority of patients presented associated lesions, and the more common were the abdominal. Thoracic spine was the most affected, especially T12. The most common neurological lesion was the total one, Frankel A. Transfixing shots were more common. The majority of patients were treated in a non-surgical way, and the surgical indication for the others followed precise indications related in the literature. Eleven patients presented complications. RESUMEN Objetivo: las heridas por arma de fuego se están convirtiendo en las más frecuentes, principalmente en ciudades grandes. El estudio realizado presenta datos del índice de las heridas por arma defuegoatendidasenunpuestodesalud grandedelaciudad.Métodos:elestudio fue realizado entre enero de 2002 y marzo de 2005 en un puesto de salud grande de la ciudad. Resultados: se verificó que la mayoría de los pacientes afectados fue de sexo masculino, con edad promedio de 25 años. La mayoría de ellos llegaron al hospital trasladados por ambulancias del servicio de rescate estadual. Tales lesiones fueron mas frecuentes en los fines de semana, principalmente en el periodo nocturno. La mayoría de los pacientes presentó lesiones asociadas, principalmente abdominales. La columna torácica fue la más afectada, especialmente T12. La lesión neurológica más frecuentemente encontrada fue la completa, Frankel A. Fueron más comunes las heridas por pag_155_161.pmd 26/9/2007, 13:17155
  • 2. 156 COLUNA/COLUMNA. 2007;6(3):155-161 Benato ML, Zaninelli EM, Soler I Graells X comuns os FAF transfixantes. Houve possibilidade de tratamento conser- vador na maioria dos pacientes. O tratamento cirúrgico obedeceu às normas citadas na literatura. Onze pacientes apresentaram complicações. Conclusão: o estudo confirmou e reproduziu todos os dados citados na literatura acerca de tais lesões. DESCRITORES: Coluna vertebral; Ferimentos por arma de fogo/ epidemiologia; Ferimentos e lesões; Traumatismos da coluna vertebral Conclusion: the study confirmed and reproduced all the mentioned data in the literature regarding this type of lesion. KEYWORDS: Spine; Wounds and injuries/ epidemiology; Spinal injuries arma de fuego trasficciantes. Hubo posibilidad de tratamiento conservador en la mayoría de los pacientes. El tratamiento quirúrgico obedeció las normas citadas en la literatura. Once pacientes presentaron complicaciones. Conclusión: el estudio confirmó y reprodujo todos los datos citados en la literatura acerca de tales lesiones. DESCRIPTORES: Heridas por arma de fuego/ epidemiología; Traumatismos vertebrales; Heridas y traumatismos; Columna vertebral INTRODUÇÃO O aumento da violência é uma constante que pode ser verificada diariamente nos noticiários do mundo todo. A incidência de crimes violentos tem aumentado a cada ano entre a população civil1 de todos os países, e com isso pôde- se verificar, também, o aumento nos índices de ferimentos por arma de fogo entre tal população. Dentre os ferimentos por arma de fogo (FAF) mais graves, estão os que afetam a coluna vertebral2 . Estima-se que, a cada ano, cerca de 17% dos traumas raquimedulares sejam causados por tal mecanismo de lesão1-2 . Correspondem à segunda causa de lesões medulares, superados apenas pelos causados por acidentes automobilísticos3 . Os FAF podem acometer qualquer segmento vertebral, sendo mais comuns os torácicos2,4 . Já os cervicais, apesar de menos comuns, são os responsáveis pelas seqüelas mais graves2 , pois o potencial para dano neurológico é maior. Essas lesões ocorrem com mais freqüência nos finais de semana2 , com acometimento predominante de pacientes jovens, entre 15 e 34 anos, do sexo masculino2,4-7 . Atualmente, estima-se que estejam vivendo nos Estados Unidos cerca de 183 a 203 mil pessoas com lesões medulares, e as estimativas de gastos com estes pacientes variam de acordo com a gravidade da lesão e a idade na época da lesão. Por exemplo, uma lesão em um indivíduo de 25 anos com quadriplegia alta custa aproximadamente US$ 1.350.000,00, enquanto uma pessoa de 50 anos com paraplegia custa em torno de US$ 326.000,008 . Com base nos dados citados, percebe-se a importância do melhor entendimento dessas lesões, haja vista sua gravidade e as repercussões a elas associadas. O presente estudo tem por objetivo demonstrar a incidência referente às lesões por arma de fogo que atingiram a coluna vertebral nos pacientes atendidos no Pronto- Socorro do Hospital do Trabalhador, que atualmente responde por 45% das ocorrências de casos de trauma de Curitiba e da Região Metropolitana. MÉTODOS Foramcoletados,prospectivamente,dadosreferentesaospacientes acometidos por lesões da coluna vertebral por arma de fogo, atendidosnoperíodocompreendidoentreJaneirode2002eMarço de 2005, com base nos registros do Pronto-Socorro e do AmbulatóriodeCirurgiadaColunadoHospitaldoTrabalhador– UFPR. Nenhum paciente foi excluído do estudo, pois todos necessitaram de internação hospitalar e foi possível preencher os dados do protocolo específico em todos os casos. A incidência obtida diz respeito ao sexo, idade, modo de chegada ao hospital, dia da semana e período do dia em que ocorreram as lesões (final de semana/período noturno), lesões associadas(torácicas,abdominaise/ououtrasfraturas),segmento acometido(cervical,torácico,lombaresacral),vértebraacometida, lesõesneurológicas(FrankelA,B,C,D,E),métodosdiagnósticos (radiografiase/outomografiacomputadorizada),tipodeferimento (intra-ósseo, intracanal, transfixante), tipo de tratamento (conservador/ cirúrgico), tempo de internamento e complicações associadas.Ospacientesforam,inicialmente,avaliadosdeacordo comprotocolodopronto-socorroparaatendimentodeemergência (Advanced Trauma Life Support – ATLS), tratando, portanto, as lesões mais graves na primeira abordagem.Após a estabilização do paciente procedia-se ao atendimento secundário, incluindo os exames complementares de imagem disponíveis, no caso radiografias em pelo menos duas incidências ortogonais e tomografia computadorizada, ambos os exames realizados em todosospacientesdoestudo.Aavaliaçãoneurológicadospacientes era feita de acordo com a classificação de Frankel para lesões neurológicas,sendoogrupoAcorrespondenteaospacientescom lesões completas e o grupo E àqueles sem lesões neurológicas. A escolha do tratamento conservador ou cirúrgico obedeceu a critérios de estabilidade das fraturas, bem como a presença de projéteis alojados em espaços naturais de disco intervertebral, canalmedularouintramedular,deacordocomoesquemaproposto por Barros Filho et al.4 . Foram avaliadas as complicações decorrentes das lesões, representadas pelas infecções superficiais ou profundas e os óbitos. pag_155_161.pmd 26/9/2007, 13:17156
  • 3. 157 COLUNA/COLUMNA. 2007;6(3):155-161 Avaliação da incidência das lesões por arma de fogo da coluna vertebral RESULTADOS A casuística compôs-se, então, de 90 pacientes. A distribuição quanto ao sexo foi de 86 pacientes masculinos (95.5%) e quatro femininos (4.5%). A idade variou de 13 a 62 anos, com média de 25 anos (Gráfico 1). 68,8%), sendo a lesão completa a mais comum (FrankelA– 42 pacientes; 67,7%); desses pacientes o segmento vertebral mais acometido foi o torácico (21 casos; 50%). Dentre os pacientes com lesão medular incompleta, cinco eram Frankel B, quatro Frankel C e três Frankel D. Não apresentaram lesões neurológicas associadas 28 pacientes (31,1%) (Gráfico 5). A grande maioria dos pacientes (n=88; 97,7%) foi trazida ao hospital pelo sistema municipal de atendimento de emergência (SIATE), e apenas dois pacientes (2,3%) vieram por meios próprios. Dos 90 pacientes, 76 (84,4%) sofreram lesões no final de semana, ou seja, entre sexta-feira à noite e segunda-feira pela manhã.Agrande maioria dessas lesões ocorreu no período noturno (n=83; 92,2%) (Gráfico 2). Gráfico 1 Distribuição dos FAF por faixa etária Dos pacientes analisados, 38 não apresentaram lesões associadas (42,2%). Os 52 pacientes restantes apresentaram grande variedade de lesões associadas, sendo mais comuns as lesões torácicas e abdominais (Gráfico 3). O segmento vertebral mais acometido foi o torácico (33 casos; 36,6%), seguido do cervical (32 casos; 35,5%). O segmento lombar foi atingido em 23 casos (25,5%) e o sacral em dois casos (2,2%) (Gráfico 4). O nível vertebral mais acometido na coluna torácica foi T12 (oito casos; 25%), na coluna cervical foi C5 (13 casos; 40,6%), na coluna lombar foi L3 (seis casos; 26%) e no segmento sacral o único nível acometido foi S1. A maioria dos pacientes apresentava déficit neurológico (62 pacientes; Gráfico 2 Distribuição dos FAF por dia da semana Gráfico 5 Distribuição das lesões neurológicas associadas (Frankel) Gráfico 4 Distribuição dos FAF por segmento vertebral Gráfico 3 Lesões associadas pag_155_161.pmd 26/9/2007, 13:17157
  • 4. 158 COLUNA/COLUMNA. 2007;6(3):155-161 Os FAF transfixantes foram os mais comuns (54 casos; 60%); houve 17 projéteis que se alojaram no canal medular (18,8%), sendo um deles intradural; dez projéteis atingiram e penetraram nos corpos vertebrais, permanecendo intra- ósseos (10%) e nove projéteis atingiram elementos posteriores ou apêndices ósseos. Dos 10 projéteis intra- ósseos, três permaneceram em contato com o espaço discal (Gráfico 6). As indicações cirúrgicas foram baseadas nos consensos de literatura. Todos os projéteis que se encontravam dentro do canal medular foram removidos, tendo sido necessária a estabilização com parafusos pediculares em dois casos apenas, cujo motivo será abordado na discussão. Cinco projéteis transfixantes causaram fraturas instáveis e obrigaram a realização de artrodese com parafusos pediculares. Dois projéteis intra-ósseos causaram grande destruição de corpos vertebrais, o que motivou o procedimento cirúrgico de retirada dos projéteis e artrodese. Outros dois projéteis estavam alojados no corpo vertebral de L2 e L3, porém em contato com o disco intervertebral, e também foram removidos. Um projétil se alojou por dentro da dura-máter e foi removido após laminectomia ampla seguida de artrodese do nível abordado. O tempo médio de internação dos pacientes foi de nove dias, variando de um até 90 dias. Como complicações houve dois casos de meningite, um de discite infecciosa e oito óbitos. Todos os pacientes que apresentaram complicações infecciosas tiveram lesões associadas de vísceras abdominais, porém foram tratados com antibióticos específicos e obtiveram melhora satisfatória. Não foi utilizada a corticoterapia endovenosa em nenhum paciente. DISCUSSÃO O atendimento a pacientes vítimas da violência urbana é cada vez mais comum nos centros hospitalares de atendimento de emergência. As lesões por arma de fogo, outrora raras, têm se tornado o dia-a-dia dos médicos plantonistas. Cientes das conseqüências de tais lesões, é notável a incidência maior das mesmas em pacientes jovens, o que traz prejuízos pessoais e materiais enormes à sociedade.Aliteratura mostra freqüência maior de tais lesões em pacientes jovens e do sexo masculino, entre 15 e 34 anos2,4-7 , dados perfeitamente reproduzidos na casuística apresentada, que indica 95,5% de prevalência em homens com idade entre 19 e 30 anos em 50% dos casos. Foi possível verificar a importância dos serviços de resgate no atendimento de tais lesões, uma vez que 97,7% dos pacientes chegaram ao hospital por meio de tais viaturas. Pode-se interpretar tal dado dentro do grande contexto do aumento do número de atendimentos a tais pacientes, uma vez que os mesmos chegam mais rapidamente ao hospital e, portanto, com maiores chances de serem tratados em tempo. Verifica-se a sazonalidade de tais lesões relatada na literatura9-11 , com ocorrências mais freqüentemente registradas nos dias do final de semana. Na casuística apresentada pôde-se confirmar tal dado, com mais de 84% dos casos atendidos no período compreendido entre a noite de sexta-feira e a manhã de segunda-feira, constatando que o período do dia mais relacionado com tais lesões foi o noturno, com mais de 90% das ocorrências. A avaliação dos pacientes acometidos por FAF deve ser multidisciplinar. O protocolo ATLS, mundialmente aceito para avaliação inicial dos pacientes vítimas de traumas, De acordo com a classificação de Barros Filho et al.4 , obteve-se: tipo IA = 25 casos; IB = 29 casos; IIA = 13 casos; IIB = 3 casos; IIIA = 1 caso; IIIB = 2 casos (Gráfico 7). Todos os projéteis, ao exame macroscópico, eram de armas de fogo de uso civil, ou seja, de baixa-energia. A grande maioria dos pacientes foi tratada de forma conservadora (64 casos; 71,1%). Houve necessidade de tratamento cirúrgico em apenas 26 casos, o que correspondeu a 28,8% do total (Gráfico 8). Gráfico 6 Tipo de trajeto dos FAF Gráfico 8 Distribuição do tratamento dos FAF Benato ML, Zaninelli EM, Soler I Graells X Gráfico 7 Distribuição dos FAF segundo Barros Filho et al.4 pag_155_161.pmd 26/9/2007, 13:17158
  • 5. 159 COLUNA/COLUMNA. 2007;6(3):155-161 proporciona o aperfeiçoamento da equipe médica e do tempo disponível para o atendimento. Existem particularidades no atendimento desses pacientes, uma vez que as fraturas causadas por FAF são, geralmente, estáveis12-13 .Aavaliação da lesão vertebral, portanto, deve ser feita posteriormente à avaliação de eventuais lesões vasculares cervicais, lesões de faringe e esôfago – sabidamente relacionadas a maiores taxas de infecção2 , avaliação cardio-pulmonar e abdominal. Nos pacientes paraplégicos ou tetraplégicos a avaliação desses itens pode ser difícil, haja vista a perda da sensibilidade visceral2 . Os FAF sacrais são descritos como os mais freqüentemente associados a complicações hemorrágicas14 . Os dados referentes ao estudo mostram taxas de lesões associadas de 57,8%, principalmente de lesões abdominais e torácicas, o que é compatível com a literatura. Houve um número relativamente alto de pacientes sem lesões associadas.Talvez haja relação desse fato com a coincidência de terem sido verificados, ao exame macroscópico dos projéteis, FAF de baixa-energia no estudo, os quais podem poupar estruturas adjacentes de lesão quando comparados com os FAF de alta-energia. Parece haver consenso sobre o segmento vertebral mais acometido. A literatura mostra taxas de até 62,5% de acometimento da coluna torácica2,4,5 , segundo Barros Filho et al.4 pelo seu maior comprimento. Nos dados apresentados pôde-se confirmar a mesma tendência, com 36,6% dos pacientes atingidos no segmento torácico, especificamente em T12 (25% dos casos). Duas radiografias ortogonais podem auxiliar a detectar fraturas e fragmentos dos projéteis. Na seqüência de investigação, imagens de tomografia devem ser obtidas2 . Segundo Bono e Heary2 , essa é a modalidade de escolha para avaliação dos FAF espinhais, pois mostra com mais clareza fragmentos no canal vertebral e permite que se localize melhor o projétil dentro do segmento vertebral. Tais autores recomendam cortes de 1a 3 mm, com a ressalva dos artefatos que podem ser produzidos pelo material metálico existente. Os mesmos autores referem que o uso de imagens de ressonância magnética (RNM) é controverso, pois o projétil pode ser deslocado pelo forte campo magnético criado e produzir lesões neurológicas adicionais. A RNM, entretanto, proporciona melhor avaliação dos tecidos nervosos, com menos artefatos decorrentes das partículas metálicas15 . Dos 90 pacientes do estudo, 62 apresentaram lesão neurológica. Quarenta e dois desses (67,7%) apresentavam lesão completa (Frankel A). O segmento vertebral mais relacionado com a lesão Frankel A foi o torácico, correspondendo a 50% dos casos. Esse dado está de acordo com a literatura mundial2,4,15 , tanto no que diz respeito à prevalência de lesão completa quanto ao segmento vertebral16 . Outros autores também relataram tal tendência, apesar de apresentarem percentagem sensivelmente maior de lesões completas, em estudo de 1000 pacientes4 . Tal dado incita o pensamento pecuniar de tais lesões, haja vista o alto custo de tais pacientes para o sistema hospitalar, chegando, de acordo com a literatura americana, a valores de US$ 50.000,00 apenas no primeiro atendimento. Cabe salientar, ainda, a relativa freqüência de lesões completas em nível cervical alto, cursando, portanto, com perda do controle respiratório e, em conseqüência, prolongados períodos de internação em ambiente de unidades de tratamento intensivo. Na série em questão obteve-se o número de 13 pacientes com lesões cervicais, oito dos quais apresentavam lesões acima de C4. Quando analisadas as informações acerca dos trajetos dos FAF, pôde-se perceber grande semelhança dos dados obtidos com os existentes na literatura mundial, mostrando o predomínio dos FAF transfixantes (60%), seguidos daqueles alojados no canal vertebral (17,7%)2,4,6 . Esses dados parecem estar relacionados à alta prevalência de lesões neurológicas completas, relatadas em todas as séries de pacientes acometidos por FAF. Incluindo a pertinente classificação de Barros Filho et al.4 , e a aplicando aos pacientes estudados, percebe-se certa discrepância em relação ao relato original daquele autor. A maioria dos pacientes desse estudo pertence ao grupo A, ou seja, sem lesões de vísceras abdominais, ao passo aquele autor citou como mais comum o grupo B, que se refere aos pacientes com tais lesões. Os valores encontrados, entretanto, são bastante semelhantes, com 47% no estudo atual contra 51% no artigo original do autor. Foi peculiar o achado de lesões causadas exclusivamente por FAF de baixa-energia, ao menos naqueles pacientes que apresentavam outros projéteis alojados ou que foram submetidos a remoção dos mesmos. Esse dado deve, com relativa segurança, ser diferente em séries de outros centros, principalmente de cidades maiores, onde o uso de armas de alta-energia seja mais comum. Pode-se citar como exemplo um estudo que mostra incidência de 16% de lesões por FAF de alta-energia em pacientes da cidade de Nova Iorque em 199517 . Existe consenso na literatura de que as lesões por FAF são de tratamento conservador em grande parte dos casos2,4 , seja porque as fraturas causadas são, geralmente, estáveis ou porque a descompressão medular nem sempre é indicada. Na série apresentada a maioria dos pacientes foi tratada conservadoramente (71,1%), o que está de acordo com a literatura mundial. Barros Filho et al.4 descreveram indicações precisas para o tratamento cirúrgico desses pacientes. Segundo eles, os pacientes com FAF de entrada posterior com fratura associada da lâmina, causando compressão extrínseca, FAF alojados dentro do canal vertebral e do disco intervertebral devem ser abordados cirurgicamente. Waters et al.18 relatam benefícios evidentes em descompressões medulares de T12 a L4 quando comparadas ao tratamento não-cirúrgico. No estudo apresentado os pacientes tiveram suas indicações baseadas nos itens anteriormente citados, ou seja, projéteis intracanal (Figura 1), fraturas instáveis e projéteis intradiscais. Dois dos pacientes com projéteis intracanal necessitaram de artrodese via posterior instrumentada com Avaliação da incidência das lesões por arma de fogo da coluna vertebral pag_155_161.pmd 26/9/2007, 13:17159
  • 6. 160 COLUNA/COLUMNA. 2007;6(3):155-161 parafusos transpediculares, pois houve necessidade de laminectomia ampla para a remoção do projétil e, em conseqüência da mesma, gerou-se instabilidade adicional secundária. Os projéteis transfixantes que foram abordados cirurgicamente causaram fraturas instáveis, principalmente dos pedículos vertebrais, e também motivaram artrodese via posterior transpedicular (Figura 2). Dois projéteis cervicais causaram grande destruição do corpo vertebral, que determinou a inversão da lordose cervical fisiológica e motivou a artrodese via anterior com enxerto tricortical de ilíaco e placa cervical (Figura 3). Também foram abordados cirurgicamente os FAF que atingiram o disco intervertebral. Não há consenso na literatura acerca do momento ideal para a realização da cirurgia. Cybulski et al.19 não encontrou diferença significativa quanto à melhora neurológica entre pacientes tratados com laminectomia em até 72 horas do trauma e aquelas realizadas após esse período. As taxas de infecção, entretanto, foram maiores nos pacientes operados tardiamente. Cita-se também a freqüência mais alta de fístula liquórica em pacientes operados precocemente7 . O único dado que parece ser consenso é a indicação cirúrgica de emergência quando há lesão neurológica progressiva2 . Complicações relatadas na literatura incluem infecção, intoxicação por chumbo, dor neuropática, artropatia neuropática de Charcot (em pacientes com lesão medular), migração do projétil, entre outras2 . Recomenda-se que seja feita a profilaxia do tétano em todos os pacientes ainda na sala de emergência2 . Antibioticoterapia de amplo espectro também é indicada, tão logo seja possível. A duração da antibioticoterapia varia de 2-3 dias em FAF sem lesão de vísceras ocas até 14 dias em casos de perfuração colônica2,4 . No presente estudo verificaram-se 3 casos de complicações infecciosas (2 discites e 1 meningite), todos eles ocorridos em pacientes com lesões associadas de vísceras abdominais. Figura 2 FAF transfixante causando fratura dos pedículos de L1 (A: tomografia computadorizada pré- operatória); submetido a artrodese via posterior instrumentada L1-L2 (B: aspecto pós-operatório em radiografia AP; C: aspecto pós-operatório em radiografia em perfil) A B C Figura 3 FAF cervical transfixante causando grave lesão óssea e discal anterior, com alteração da lordose cervical fisiológica (A e B: radiografias pré-operatórias), tratado cirurgicamente com artrodese via anterior com placa cervical e enxerto de ilíaco (C) A B C Benato ML, Zaninelli EM, Soler I Graells X Figura 1 Projétil alojado no canal medular (A: radiografia AP; B: radiografia perfil), submetido à laminectomia para remoção do mesmo (C) A C B pag_155_161.pmd 26/9/2007, 13:17160
  • 7. 161 COLUNA/COLUMNA. 2007;6(3):155-161 A intoxicação por chumbo é rara20 , bem como a corrosão dos projéteis por líquor2 . Cita-se que o líquido sinovial é um solvente mais eficiente do que o líquor21 .Assim, projéteis nas proximidades das facetas articulares ou do disco intervertebral têm maior chance de causar tais complicações2 . Tal complicação, apesar de rara, foi vista em um paciente proveniente de outra cidade não incluído no estudo, porém atendido pelo mesmo serviço (Figura 4). Não foi utilizada corticoterapia em nenhum dos casos do estudo, conforme já estabelecido na literatura22 . Diversos autores referem não haver melhora do quadro clínico com tal tratamento, mesmo nas lesões incompletas. Várias complicações, ao contrário, têm sido relatadas, entre elas pancreatite e infecção secundária22 . CONCLUSÃO Os ferimentos por arma de fogo (FAF) foram mais comuns em pacientes jovens, do sexo masculino, trazidos ao hospital pelo sistema estadual de resgate.Amaioria deles apresentava lesão associada, sendo mais comuns as abdominais. O segmento vertebral mais acometido foi o torácico, especificamente T12. A maioria dos pacientes apresentou Paciente com projétil alojado no espaço discal, evoluiu com corrosão do projétil e difusão do chumbo pelo disco e canal medular lesão neurológica completa, Frankel A. O trajeto mais comum dos FAF foi o transfixante. Houve discreto predomínio de casos do grupo A da classificação de Barros Filho et al.4 . A maioria dos pacientes foi tratada de maneira conservadora. Os que foram operados enquadravam-se nas indicações cirúrgicas citadas na literatura. Houve onze complicações, entre as quais oito óbitos. REFERÊNCIAS 1. Kitchel SH. Current treatment of gunshot wounds to the spine. Clin Orthop Relat Res. 2003; (408):115-9. 2. Bono CM, Heary RF. 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