PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAISCURSO DE MESTRADO EM PSICOLOGIAÁREA DE CONCENTRAÇÃO: PROCESSOS DE SUBJETIV...
FERNANDA ELEONORA MIRANDAA INFERTILIDADE FEMININA NAPÓS- MODERNIDADE E SEUS REFLEXOSNA SUBJETIVIDADE DE UMA MULHERDisserta...
FICHA CATALOGRÁFICAMiranda, Fernanda EleonoraM672i A infertilidade feminina na pós-modernidade e seusreflexos nasubjetivid...
Fernanda Eleonora MirandaA infertilidade feminina na pós-modernidade e seus reflexos na subjetividade deuma mulherDisserta...
Às mulheres que, como Rosa, lutam com coragem paraque a infertilidade feminina não seja estéril.
AGRADECIMENTOSAo Henrique, de novo, pela presença inspiradora.Ao Ril pela parceria.À Mamãe pela cumplicidade e doação de s...
RESUMOEste trabalho teve como objetivo discutir a infertilidade feminina napós-modernidade e seu impacto na subjetividade ...
ABSTRACTThis study had as objective discussing the female infertility in post-modernity andits impact in the subjectivity ...
SUMÁRIOPARTE I - TRABALHO INTRODUTÓRIO ..........................................................10INTRODUÇÃO ...............
4.5.1 Leitura sobre a feminilidade e sua relação com a infertilidadefeminina ................................................
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10PARTE ITRABALHO INTRODUTÓRIO
11INTRODUÇÃOA infertilidade feminina se apresenta como um desafio às mulheres embusca de novas possibilidades de criação. ...
12vem se consolidando desde 1997 no atendimento de mulheres que vivenciam ainfertilidade. Este estudo visa contribuir para...
13outras disciplinas” (BIRMAN, 2002, p.10). Em segundo lugar, esse trabalho exige autilização de conceitos psicanalíticos ...
14percurso histórico de maneira crítica, o que vai ao encontro dos objetivos destetrabalho. Sob essa ótica crítica, o conc...
15A princípio, indagou-se à psicanálise freudiana sobre a construção subjetivafeminina, procurando respostas acerca da rep...
16CAPÍTULO 1. DISCUSSÃO METODOLÓGICAEste estudo recorreu ao campo clínico amparado na linha de pesquisaqualitativa. Para C...
17um meio, ou então fará referência a uma mudança política ou um acontecimentoespecial. Ele visa fornecer explicações no q...
18Segundo D’Agord (2001), a clínica desafia constantemente a teoria ao exigir,diante de cada caso, um novo processo de teo...
19Queiroz (2002) aborda as questões éticas que envolvem o trabalho depesquisa que se apóia num caso clínico e aponta a nec...
20CAPÍTULO 2. A INFERTILIDADE FEMININA2.1 Entendendo a infertilidade femininaPara estudar a infertilidade feminina na soci...
21atravessa a relação do casal, além de poder afetar suas relações familiares esociais. A visão médica não nega a ocorrênc...
22A infertilidade, segundo Chatel (1995), apareceu discretamente e foiganhando importância como questão à medida que a gra...
23pelas mulheres e considerada como fundamental para a realização feminina. Ainfertilidade, então, abalaria o autoconceito...
24menina. Para Pines (1990), é como se a gravidez ajudasse a alcançar a etapa finalde identificação biológica com a mãe, o...
25Pode-se acreditar que a clínica da infertilidade explicita essa condição, pois alipercebe-se a dimensão psíquica de uma ...
26Talvez o analista possa lhes ajudar a passar pela dor, recuperando sua auto-estimaem outras áreas da vida e encontrando ...
27universal de representação da feminilidade. A idealização da maternidade contribui,ainda, para a criação de uma expectat...
28ela substitui a sexualidade e o erotismo na reprodução e, portanto, na geraçãosimbólica de um filho e das fantasias asso...
29espontânea, da experiência da gravidez, da continuidade genética. A infertilidade éum verdadeiro estigma que leva ao iso...
30dessa experiência. Este trabalho visa à construção de mais uma leitura que temcomo objetivo dar voz aos questionamentos ...
31PARTE IIENFOQUE CONCEITUAL : UM TRABALHO DESCRITIVO
32CAPÍTULO 3. A BUSCA POR DIÁLOGOS INTERDISCIPLINARES NACONSTRUÇÃO DE UM ENFOQUE CONCEITUAL MAIS AMPLO3.1 Diálogo com o di...
33assim, o racionalismo cartesiano anuncia um sujeito que possa dar conta dessastransformações.Surge, então, com Descartes...
34(2002b), a experiência subjetiva surge como uma saída no mundo moderno dianteda queda das tradições e da falta de referê...
35Francesa é, para o autor, um corolário destes valores. Segundo Bezerra, no séculoXIX o individualismo adquire uma outra ...
36feminilidade parecia atropelar a de singularidade, uma das facetas doindividualismo.Segundo Sledziewski (1995), a Revolu...
37A história da constituição dos sujeitos modernos a partir do século XVIIIcaminhava em paralelo com a idéia de feminilida...
38diante da falta de liberdade imposta por tão fortes determinações decorrentes dodiscurso sobre “a natureza feminina”? O ...
39Assim, pode-se concluir que o argumento da “feminilidade tradicional” sofreuabalos mas seguiu adiante, apesar dos ideais...
40estava viva em relação às mulheres contrariando aquilo que o pensamentomoderno definia como “sujeito”.Segundo Vaitsman (...
41Essa alienação nadaria contra a corrente dos princípios que sustentam anoção de sujeito no pensamento moderno, especialm...
42Até o século XIX, um fato tatuava a produção de subjetividade feminina e oideal social de feminilidade: as mulheres não ...
43de feminilidade e, conseqüentemente, o papel da mulher e seus referenciaisidentificatórios. Em seguida, são descritas es...
44fecundidade. O slogan feminista “um filho, se eu quiser, quando eu quiser” dá adimensão desta questão e aponta o desejo ...
45insistia no caráter temporário da incorporação das mulheres ao trabalho. Apesardisso, não se pode negar que para a mulhe...
46importância das ciências sociais nesse momento histórico americanoespecialmente no que se refere à situação das mulheres...
47Collin (1991) levanta uma discussão filosófica acerca da questão dadiferença entre os sexos baseando-se nas idéias do so...
48la em termos duais, segundo Collin (1991). Se o feminino existe é mais comodesconstrução do que como destruição do falog...
49anteriores. As feministas denunciam a relação feita entre masculinidade egeneralidade, o que gerava uma idéia equivocada...
50mulheres constituiriam um conjunto. As feministas precisaram também lutar paraexplicar a natureza das características co...
51Mas, para Ergas (1991), a unidade entre as mulheres suscitada pelaseparação, pela distinção e pela reapropriação nas cam...
52assumir sua singularidade; ganham autonomia e passam a lutar por condições deigualdade descartando o roteiro da feminili...
53expectativa de posicionamento em relação à infertilidade, espera-se algum tipo deimplicação, entram em cena as repercuss...
54como um espaço ameaçador para as mulheres. Também nessa época, graças àinfluência de médicos e higienistas, o trabalho f...
55vida profissional tem sua marca no imaginário social. Para a autora, se o Brasilacompanha à sua maneira as tendências in...
56representado pelo direito ao voto é alcançado em 1932 pelas brasileiras, mas asaspirações à cidadania no trabalho passam...
57A década de oitenta no Brasil, de acordo com Auad (2003) assistiu a umamaior visibilidade das denúncias de violência con...
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A infertilidade feminina na pós modernidade

  1. 1. PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAISCURSO DE MESTRADO EM PSICOLOGIAÁREA DE CONCENTRAÇÃO: PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃOLINHA DE PESQUISA: PROCESSOS PSICOSSOCIAISA INFERTILIDADE FEMININA NAPÓS-MODERNIDADE E SEUS REFLEXOS NASUBJETIVIDADE DE UMA MULHERFERNANDA ELEONORA MIRANDABELO HORIZONTE2005
  2. 2. FERNANDA ELEONORA MIRANDAA INFERTILIDADE FEMININA NAPÓS- MODERNIDADE E SEUS REFLEXOSNA SUBJETIVIDADE DE UMA MULHERDissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Psicologia daPontifícia Universidade Católica de Minas Gerais como requisitoparcial para a obtenção do título de Mestre em PsicologiaÁrea de concentração: Processos de subjetivaçãoOrientadora: Jacqueline de Oliveira MoreiraBELO HORIZONTE2005
  3. 3. FICHA CATALOGRÁFICAMiranda, Fernanda EleonoraM672i A infertilidade feminina na pós-modernidade e seusreflexos nasubjetividade de uma mulher / Fernanda EleonoraMiranda. Belo Horizonte,2005.193f.Orientadora: Jacqueline de Oliveira MoreiraDissertação (Mestrado) - Pontifícia Universidade Católica de MinasGerais. Programa de Pós-Graduação em Psicologia.Bibliografia1. Infecundidade feminina. 2. Pós-modernismo. 3. Psicanálise. 4. Mulher– Aspectos sociais. I. Moreira, Jacqueline de Oliveira. II. PontifíciaUniversidade Católica de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação emPsicologia. III Título.CDU: 159.964.2:612.663
  4. 4. Fernanda Eleonora MirandaA infertilidade feminina na pós-modernidade e seus reflexos na subjetividade deuma mulherDissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Psicologia da PontifíciaUniversidade Católica de Minas Gerais como requisito parcial para a obtenção do títulode Mestre em Psicologia, Belo Horizonte, em 25 de novembro de 2005.Jacqueline de Oliveira Moreira (Orientadora) - PUC MinasCarlos Roberto Drawin - UFMGMaria Ignes Costa Moreira - PUC Minas
  5. 5. Às mulheres que, como Rosa, lutam com coragem paraque a infertilidade feminina não seja estéril.
  6. 6. AGRADECIMENTOSAo Henrique, de novo, pela presença inspiradora.Ao Ril pela parceria.À Mamãe pela cumplicidade e doação de sempre.À Jacqueline pela orientação atenciosa e carinhosa, porincentivar e enriquecer este projeto.Ao Drawin pelas valiosas contribuições.À Riva, meio fada madrinha, com seu leve toque fezgrandes coisas acontecerem para mim.À Rosa por dividir comigo a sua história.
  7. 7. RESUMOEste trabalho teve como objetivo discutir a infertilidade feminina napós-modernidade e seu impacto na subjetividade das mulheres que a vivenciam,buscando contribuir para a abordagem dessas pacientes na clínica. Utilizou-seda construção de caso clínico como procedimento metodológico de pesquisa.Verificou-se a influência de características pós-modernas na vivência dainfertilidade feminina tais como o narcisismo, o papel de destaque do corpo e deseu controle, o imediatismo. Viu-se, por meio de um diálogo com o discursofilosófico e sociocultural, que a situação social das mulheres altera sua posiçãosubjetiva o que leva a particularidades na experiência da infertilidade feminina.Para uma mulher autônoma e livre a infertilidade associa-se à perda do poder deoptar ou não pela maternidade, direito conquistado socialmente e valorizado napós-modernidade. Pôde ser visto que a infertilidade feminina relaciona-se aonarcisismo secundário e ao ideal de eu relativo à maternidade que, por sua vez,diz respeito à gravidez natural e à barriga. Viu-se que a infertilidade pode sertomada como chaga narcísica que reativa conflitos relativos à castração e que,pela evocação do feminino que suscita, pode levar o sujeito a novaspossibilidades de criação mediante um rearranjo psíquico e social. Por meio docaso clínico pôde se ver a importância do conceito de inveja na clínica dainfertilidade feminina e pôde-se concluir que vivenciar a infertilidade como limite enão como limitação e mutilação pode levar o sujeito ao reconhecimento lúdico dafalta e à inventividade do desejo.Palavras-chave: Infertilidade feminina, pós-modernidade, subjetividade.
  8. 8. ABSTRACTThis study had as objective discussing the female infertility in post-modernity andits impact in the subjectivity of the women who experience it, in order to contributeto the approach of these patients in the clinical practice. The methodologicalprocedure of research was based in the construction of clinical case. It wasverified the influence of post-modern characteristics in the experience of femaleinfertility, such as narcissism, the lead role of the body and its control, theimmediatism. It was seen, by means of a dialogue with the philosophical andsocio-cultural speech, that women’s social situation modifies their subjectiveposition, what takes to particularities in the experience of female infertility. For anautonomous and free woman, infertility associates with the loss of the power tochoose or not the maternity, right that was socially conquered and valued in post-modernity. It could be noticed that female infertility is related to the secondarynarcissism and to self idealism related to maternity that, in its turn, is regarded tonatural pregnancy and the belly. It was observed that infertility can be consideredas a narcissistic wound that reactivates conflicts referred to castration and that,by the evocation of the feminine that it suscitates, can bring the subject to newpossibilities of creation by means of a psychic and social rearrangement. Bymeans of the study of the clinical case it could be seen the importance of theconcept of envy in the clinic of the female infertility and it could be concluded thatto experience the infertility as a limit and not as limitation or mutilation can takethe subject to the playful recognition of the absence and to the inventiveness ofdesire.Key-words: female infertility, post-modernity, subjectivity.
  9. 9. SUMÁRIOPARTE I - TRABALHO INTRODUTÓRIO ..........................................................10INTRODUÇÃO ....................................................................................................11CAPÍTULO 1. DISCUSSÃO METODOLÓGICA .................................................16CAPÍTULO 2. A INFERTILIDADE FEMININA ................................................... 202.1 Entendendo a infertilidade feminina .........................................................202.2 Revisão da literatura sobre a infertilidade feminina ................................22PARTE II – ENFOQUE CONCEITUAL: UM TRABALHO DESCRITIVO .......... 31CAPÍTULO 3. A BUSCA POR DIÁLOGOS INTERDISCIPLINARES NACONSTRUÇÃO DE UM ENFOQUE CONCEITUAL MAIS AMPLO ................. 323.1 Diálogo com o discurso filosófico e sociológico: a noção de sujeitoe a posição da mulher .................................................................................... 323.1.1 No silêncio das mulheres a ausência de um sujeito .......................... 353.1.2 A mulher como sujeito no século XX: a conquista do falo da fala ... 433.1.3 A situação das mulheres no Brasil do século XX ............................... 533.2. Diálogo com o discurso sociocultural: um pouco da história damaternidade ..................................................................................................... 603.3 O discurso sociocultural, a pós-modernidade e o mal-estar nainfertilidade feminina ...................................................................................... 733.3.1 A pós-modernidade e o corpo infértil: o descompasso entre ocorpo, o desejo e o outro .............................................................................. 85PARTE III – MARCO TEÓRICO PSICANALÍTICO: PONTE PARA UMTRABALHO REFLEXIVO ................................................................................ 92CAPÍTULO 4. O DISCURSO PSICANALÍTICO E A SUBJETIVIDADE DAMULHER DIANTE DA INFERTILIDADE ........................................................ 934.1 Considerações preliminares: a noção de sujeito no sentidopsicanalítico ................................................................................................... 934.2 A construção da subjetividade feminina : aporia da psicanálisefreudiana à questão da infertilidade ............................................................ 974.3 Narcisismo e infertilidade feminina : à sombra de uma barriga quenão cresceu e de um filho que não veio ..................................................... 1064.3.1 Maternidade e infertilidade sob a égide do narcisismo ................... 1134.4 O sentido da castração: da imposição de limites ao horizonte depromessa ....................................................................................................... 1194.5 Da feminilidade ao feminino: um percurso na vivência dainfertilidade feminina .................................................................................... 124
  10. 10. 4.5.1 Leitura sobre a feminilidade e sua relação com a infertilidadefeminina ........................................................................................................ 1254.5.2 O território do feminino e a infertilidade feminina: abrindoportas para novas possibilidades de criação ........................................... 134PARTE IV – REFLEXÃO CASUÍSTICA: A CONSTRUÇÃO DE UM CASOCLÍNICO ........................................................................................................ 146CAPÍTULO 5. O CASO DE ROSA E O MISTÉRIO DA INFERTIIDADEFEMININA ..................................................................................................... 1475.1. Considerações preliminares ............................................................... 1475.2. O caso de Rosa numa perspectiva de re-escuta ............................... 1495.3. Considerações finais na construção do caso clínico ....................... 1716. CONCLUSÃO ........................................................................................... 181REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................. 188
  11. 11. 2
  12. 12. 3
  13. 13. 4
  14. 14. 5
  15. 15. 6
  16. 16. 7
  17. 17. 8
  18. 18. 9
  19. 19. 10PARTE ITRABALHO INTRODUTÓRIO
  20. 20. 11INTRODUÇÃOA infertilidade feminina se apresenta como um desafio às mulheres embusca de novas possibilidades de criação. A experiência da infertilidade revela-sedevastadora e provocadora para a mulher que a atravessa, uma experiência deencontro com a dor e um convite para novos arranjos da subjetividade com apossibilidade de ressignificação de conceitos como a feminilidade e a maternidade.Enquanto esperam o filho que ainda não veio, as mulheres vão gestando novasformas de subjetivação dos conflitos psíquicos, novos e antigos conflitos, queemergem no bojo da infertilidade.Estudar os eventos psíquicos relacionados à infertilidade feminina na pós-modernidade leva a trabalhar com questões ligadas à mulher e às invençõesfemininas atravessadas pelo contexto sócio-histórico que lhes empresta o colorido.Nesta rota se apresenta um percurso que vai da feminilidade ao feminino.Feminilidade enquanto conceito sócio-histórico dinâmico e mutante, um discurso dasociedade de determinado período que confere às mulheres um lugar e umaposição social e que oferece referencial para a construção da identidade feminina.O construto feminino, por seu termo, participa do percurso aqui traçado por apontarpara a singularidade e para as possibilidades de subjetivação próprias a cadasujeito; afinal, o feminino remete àquilo que convida o sujeito a transformar a falta,condição do humano, numa possibilidade infinita de invenções que se fazem e sedesfazem ininterruptamente.O tema deste estudo vem de um questionamento originado na clínica compacientes que em algum momento de suas vidas têm que se haver com aproblemática da infertilidade. Esta pesquisa, portanto, terá como apoio e comoinspiração a prática de uma clínica de caráter interdisciplinar com a medicina, que
  21. 21. 12vem se consolidando desde 1997 no atendimento de mulheres que vivenciam ainfertilidade. Este estudo visa contribuir para a abordagem dessas pacientes naclínica.Uma paciente, em tratamento médico para infertilidade, dizia que o processoprovocava ansiedade, que para ela era uma mistura de medo e de esperança. Orao medo se fazia presente ao longo do caminho, medo de não conseguir engravidare de sofrer, ora a esperança a tomava trazendo otimismo, esperança de poderrealizar seu sonho ao final do tratamento. Pôde-se perceber que oacompanhamento psicológico durante o tratamento de infertilidade oferece àsmulheres a oportunidade de lidar com o aspecto emocional que inevitavelmenteacompanha o processo. A escuta psicanalítica proporciona um espaço para que apaciente possa falar de seu “medo e de sua esperança”.Uma parte introdutória visou apresentar a metodologia eleita, apresentar oconceito de infertilidade e rever as publicações relativas ao tema. Uma partedescritiva veio depois e foi realizada através de um enfoque conceitual que buscoua contribuição dos discursos filosófico e sociocultural; em seguida fez-se umtrabalho reflexivo lançando mão do discurso psicanalítico que é tomado comomarco teórico de todo este trabalho e da construção de um caso clínico. A propostaé utilizar o eixo teórico psicanalítico confrontando a psicanálise com a atualidade, oque exige, de acordo com Birman (2002), um trabalho de mão dupla a fim deexplorar aquilo que é motivo de inquietação. Nesse fazer de mão dupla, emprimeiro lugar é preciso que a psicanálise se deixe sensibilizar e impregnar pelascontribuições de outros discursos, neste caso o médico, o filosófico e o sociológico.O trabalho de mão dupla visa promover o diálogo interdisciplinar da psicanálise, afim de que, “sem perder sua especificidade teórica, ela também possa avançar nasquestões cruciais da contemporaneidade pela interpelação fecunda trazida pelas
  22. 22. 13outras disciplinas” (BIRMAN, 2002, p.10). Em segundo lugar, esse trabalho exige autilização de conceitos psicanalíticos com o objetivo de explicitar e elucidar o queestá em questão, no caso desta pesquisa, a infertilidade para a mulher nasociedade contemporânea.Sendo o tema a infertilidade feminina na pós-modernidade e os aspectospsíquicos ligados a esta experiência, a adjetivação “feminina” coloca “as mulheres”na órbita deste estudo, o que torna fundamental um breve histórico sobre osdeslocamentos da situação delas na sociedade e as conseqüentes transformaçõesdas noções de feminilidade e maternidade, que vão influenciar a forma de seconceber a infertilidade. Diferentes momentos sócio-históricos proporcionam umcolorido contextual particular à situação das mulheres na sociedade, o que vaiemprestar particularidade às noções de feminilidade e maternidade na atualidade,conferindo, assim, um significado específico à experiência de infertilidade hoje. Otema está delimitado ao momento atual caracterizado pela pós-modernidade, mas,a fim de abordá-la, foi preciso lançar um olhar comparativo entre esta e amodernidade sem perder de vista nossas balizas: a feminilidade e a maternidade.Assim, foram trabalhados os constructos mulher, maternidade e feminilidade quesão reflexos do contexto histórico, tendo o objetivo de revelar os contornos de umoutro conceito em construção, a infertilidade feminina.O desenvolvimento do trabalho enfocou inicialmente o aspecto que se refereà contextualização histórica da situação das mulheres, fazendo um recorte dessasituação desde a modernidade até a pós-modernidade. A fim de realizar essareconstrução histórica, recorreu-se à noção filosófica de sujeito e à discussão sobrea aplicação desse conceito às mulheres desde o seu surgimento até os dias dehoje. Tomar a noção filosófica de sujeito como um referencial se justifica pois,assim, torna-se possível realizar um diálogo com o discurso filosófico fazendo o
  23. 23. 14percurso histórico de maneira crítica, o que vai ao encontro dos objetivos destetrabalho. Sob essa ótica crítica, o conceito filosófico de sujeito que surge namodernidade mostrou a sua não aplicabilidade às mulheres no momento de seusurgimento, em função da situação delas na sociedade nesse período histórico. Sóa partir de deslocamentos na posição social das mulheres é que o termo pôde seaplicar a elas, pois esses deslocamentos proporcionam a emergência do “sujeitomulher” no sentido filosófico do termo “sujeito”.Além de uma sustentação filosófica, o estudo buscou paralelamente umasustentação histórico-sociológica da posição da mulher no cenário moderno e pós-moderno, avaliando suscintamente sua história no Ocidente e no Brasil e osposicionamentos dela e da sociedade em relação à maternidade em diferentesmomentos históricos.Até então o estudo foi basicamente descritivo; a partir de então, um trabalhoreflexivo se impôs já que aqui interessam também os aspectos mais íntimos esubjetivos relativos à experiência da infertilidade. Assim, uma vez vencida aprimeira etapa do trabalho de mão dupla, em que as contribuições do discursofilosófico e sociocultural permitiram uma contextualização da situação da mulher eda mãe na sociedade, desenvolveu-se a segunda parte, que se constituiu de umaabordagem do singular mediante um trabalho de reflexão sobre o sujeito diante deuma experiência que o remete a uma ferida narcísica, à castração, ao feminino.Utilizando o marco teórico psicanalítico, manteve-se o foco nas balizas que entãoguiaram este estudo - a feminilidade, a maternidade e a infertilidade feminina,buscando-lhes acesso por meio do discurso da psicanálise freudiana e dacontribuição de autores pós-freudianos como Melaine Klein, Joel Birman, ZeferinoRocha e Maria Rita Kehl, entre outros.
  24. 24. 15A princípio, indagou-se à psicanálise freudiana sobre a construção subjetivafeminina, procurando respostas acerca da repercussão da infertilidade sobre aexpressão da subjetividade de uma mulher. Essa mesma questão guiou adiscussão sobre o narcisismo, a castração e o feminino. Pôde-se ver que ainfertilidade se apresenta como uma verdadeira chaga narcísica que reavivaconflitos adormecidos e que leva à emergência de conflitos referentes à questãoedípica e à castração. Por fim, um caso clínico foi apresentado numa perspectivade reescuta, e foi com Rosa, nome fictício do sujeito estudado, que se mostrou oimpacto da infertilidade sobre a expressão de sua subjetividade.Dessa forma, o caminho teórico se construiu do universal ao singular: dahistória das mulheres na sociedade à história de uma mulher retratada no casoclínico; de uma indagação sobre a infertilidade nas mulheres, encarnando ou não acondição de sujeito no sentido filosófico-sociológico, a uma indagação sobre osatravessamentos da infertilidade na construção subjetiva de um sujeito no sentidopsicanalítico; da esterilidade da infertilidade a uma subjetivação criativa de umainfertilidade.
  25. 25. 16CAPÍTULO 1. DISCUSSÃO METODOLÓGICAEste estudo recorreu ao campo clínico amparado na linha de pesquisaqualitativa. Para Chizzotti (1991), a abordagem qualitativa parte do fundamento deque há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito. Para ele, há umainterdependência viva entre o sujeito e o objeto, um vínculo indissociável entre omundo objetivo e a subjetividade do sujeito. O procedimento metodológico utilizadonesta pesquisa qualitativa foi o estudo de caso. O estudo de caso comometodologia de pesquisa atende aos objetivos propostos aqui na medida em quenão é, como nos diz Goode (1976), uma técnica de obtenção de dados, mas ummodo de organizá-los preservando o caráter unitário do objeto estudado.Elegeu-se o estudo de caso como metodologia por considerar-se queatravés dele consegue-se uma aproximação da clínica com o tema em estudo, jáque o instrumento de busca de informações foi um atendimento clínico. Uma dassuas principais características é a ênfase na singularidade com a preservação docaráter unitário do objeto estudado, o que faz com que o estudo de caso atendaaos objetivos deste estudo. O objeto é examinado como único, como umarepresentação singular da realidade historicamente situada, e para uma apreensãomais completa desse objeto, este método leva em conta o contexto. Além disso, oestudo de caso enfatiza os detalhes para uma melhor compreensão do todo.Esse procedimento metodológico valoriza o conhecimento experiencial eenfatiza o importante papel do leitor na generalização deste conhecimento.Segundo André (1984), diante do estudo de caso cabe ao leitor indagar-se: o queeu posso ou não posso aplicar desse caso na minha situação?Para Laville e Dionne (1999), o estudo de caso refere-se evidentemente aoestudo de um caso que pode ser o de uma pessoa, mas também de um grupo, de
  26. 26. 17um meio, ou então fará referência a uma mudança política ou um acontecimentoespecial. Ele visa fornecer explicações no que tange diretamente ao casoconsiderado e a elementos que lhe marcam o contexto. A vantagem mais marcantedessa estratégia de pesquisa é a possibilidade de aprofundamento que oferece, jáque os recursos se vêem concentrados no caso visado. Como nos mostram essesautores, ao eleger esse método de trabalho o pesquisador seleciona um caso quelhe pareça típico e representativo de outros casos análogos. Se o estudo de casoincide sobre um caso particular, a generalização não é por isso excluída, contudo,as conclusões deverão ser marcadas pela prudência. A partir de um caso típico, opesquisador pode extravasar do particular para o geral na medida em que leva emconsideração não só os aspectos que convêm a ele pesquisador, mas todosaqueles que possam se verificar pertinentes.O fundamento teórico deste trabalho é a psicanálise e o estudo de caso lheé próprio e à sua construção desde Freud. Ele caracteriza a pesquisa psicanalíticapois impele o pesquisador a construir e não a repetir; cada caso traz o novo, quedemanda novas interpretações. Tomou-se a “construção de caso clínico” como umestudo de caso em psicanálise.Para Nasio (2001), na “construção de caso clínico” o termo “caso” denota ointeresse particular que o analista dedica a um de seus pacientes. O estudo de umcaso em psicanálise se faz através do relato de uma experiência única que fala deum encontro entre paciente e terapeuta que possa respaldar um progresso teórico.Esse autor defende a idéia de que o caso transmite a psicanálise através daimagem e que o conceito teórico ganha corpo por meio de uma história clínica. É oque pretendemos fazer através do caso de Rosa, deixar que sua história emprestevida aos conceitos relativos à infertilidade feminina.
  27. 27. 18Segundo D’Agord (2001), a clínica desafia constantemente a teoria ao exigir,diante de cada caso, um novo processo de teorização. Referindo-se à “construçãode caso clínico”, a autora cita Fédida que afirma que em psicanálise “o caso é umateoria em gérmen, uma capacidade de transformação metapsicológica. Portanto,ele é inerente a uma atividade de construção” (D´Agord, 2001, p.12 ). Para aautora, o pesquisador em psicanálise trabalha em condições mutáveis esurpreendentes, sendo desafiado a construir e não a repetir diante da exigênciaque cada caso impõe de um novo processo de teorização. A construção do casoserá nossa ferramenta para uma teorização a respeito da clínica da infertilidadefeminina, já que, como nos diz Queiroz (2002), na produção de pesquisametapsicológica, o caso clínico surge como ancoragem necessária. É importanteapontar que, de acordo com o que pensa D´Agord (2001), o caso em psicanálise seinscreve em uma clínica da escuta e, por isso, privilegia um processo do qual fazparte o próprio pesquisador enquanto terapeuta. Isso leva a crer que a escuta lançao pesquisador dentro de sua pesquisa, contrariando os princípios da neutralidade eapontando limites. Para Nasio (2001), o caso é uma ficção já que “o relato de umencontro clínico nunca é o reflexo fiel de um fato concreto, mas sua reconstituiçãofictícia”; para ele o caso é o relato criado por um clínico que o rememora através dofiltro de sua vivência.A construção do caso clínico neste trabalho tem como objetivo contribuirpara fazer avançar a clínica da infertilidade e procurar interrogar sobre umapsicopatologia da infertilidade feminina. Procurar-se-á, ainda, tomar o caso comoexemplo de uma vivência particular da infertilidade, exemplo que se tornamovimento demonstrativo de uma curiosidade teórica que faz parte do métodoinvestigativo.
  28. 28. 19Queiroz (2002) aborda as questões éticas que envolvem o trabalho depesquisa que se apóia num caso clínico e aponta a necessidade de mascaramentodos dados e a adoção de medidas que objetivem não interferir no processoterapêutico do paciente e nem na sua vida. Já que o caso de Rosa está pautadoem alguém efetivamente existente, os dados relativos a ela foram mascarados eseu processo terapêutico já havia sido encerrado ao ser trabalhado teoricamente eaqui discutido.A construção do caso clínico, então, oferece a oportunidade de escuta dosujeito além de possibilitar uma formalização da prática clínica. A discussão docaso clínico visa a uma articulação entre prática e teoria, uma oportunidade delançar mão dos conceitos teóricos complementando-os. Este é um caminho quepossibilita construir a sustentação de uma prática.Ainda no que se refere à discussão metodológica, é importante frisar quecomo método de leitura foi eleito aquele sugerido por Birman (2002), o trabalho demão dupla, que visa promover o diálogo interdisciplinar da psicanálise com outrosdiscursos, e a utilização de conceitos psicanalíticos com o objetivo de elucidar otema da infertilidade feminina.Dando seqüência ao trabalho introdutório vem o capítulo que define ainfertilidade feminina e explora as publicações encontradas relativas ao tema.
  29. 29. 20CAPÍTULO 2. A INFERTILIDADE FEMININA2.1 Entendendo a infertilidade femininaPara estudar a infertilidade feminina na sociedade atual enfocando osimpasses psíquicos vividos pela mulher diante da experiência da infertilidade, emprimeiro lugar torna-se necessário conceituar infertilidade. Os termos infertilidade eesterilidade são comumente associados à dificuldade ou impossibilidade deengravidar. No meio médico alguns autores como Olmos (2003) e Chedid (2000)definem esterilidade como a dificuldade para engravidar; um quadro de esterilidadese define quando não se consegue a gravidez após um período de tentativasregulares. Por sua parte, a infertilidade é definida pelos autores citados como aincapacidade de levar a gravidez até o fim. Neste trabalho adotou-se infertilidadecomo um termo genérico, definindo essas duas situações.No meio médico o termo “infertilidade” é em geral associado ao termo“conjugal”; portanto, a infertilidade é um problema do casal que tem dificuldadespara engravidar e conceber, independentemente de as causas serem ligadas aohomem ou à mulher. Até mesmo as estatísticas geralmente se referem àinfertilidade conjugal; estima-se que hoje aproximadamente um em cada seiscasais (mais de 15%) não consegue ter filhos (Chedid, 2000). Segundo Olmos(2003), as estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que decada cem casais, pelo menos vinte têm algum grau de dificuldade de engravidar.Pode-se entender que, no que se refere aos aspectos psíquicos, ainfertilidade é também um problema que afeta o casal já que implica a interrupçãoou o adiamento de um projeto de vida que é de ambos. Diante da dificuldadetrazida pela infertilidade, vive-se um mal-estar que afeta cada sujeito e que
  30. 30. 21atravessa a relação do casal, além de poder afetar suas relações familiares esociais. A visão médica não nega a ocorrência e a importância de aspectosemocionais relacionados à infertilidade, como é o caso de Chedid (2000) queafirma que o medo do fracasso, a frustração e a ansiedade são eventos psíquicosque, via de regra, permeiam a vida dos casais com problemas de fertilidade. Damesma forma, Olmos (2003) afirma que a ansiedade gerada pela infertilidadeatinge o casal e o acompanha desde as primeiras consultas médicas. A ansiedadeacaba sendo uma conseqüência natural de um tratamento que pressupõe espera eincerteza, de um tratamento que lida com possibilidades e não com certezas. Alémdisso, os procedimentos médicos de tratamento da infertilidade têm um graucrescente de complexidade e devem ser cumpridos passo a passo, degrau pordegrau. Esse passo a passo obriga a uma convivência com a frustração ao longodo processo. As pressões geradas pela realidade da infertilidade acabam porimpactar as relações conjugais e sociais além, é claro, de impactar o própriosujeito.A infertilidade é um problema conjugal mas tem uma representação diferentepara homens e mulheres. Levando-se em consideração mitos e crençassocialmente partilhados, Avelar et al. (2000) acreditam que há uma associaçãoentre fertilidade e virilidade por parte dos homens e entre fecundidade efeminilidade por parte das mulheres. Essa associação feita pelas mulheresrelaciona-se ao objeto de estudo deste trabalho já que ele pretende focalizar eexplorar as particularidades da vivência psíquica da infertilidade por parte damulher na atualidade. O casal é afetado pela infertilidade feminina mas ela remeteinexoravelmente à mulher, pois é no seu corpo que a gravidez se processa, ou não!A infertilidade obriga as mulheres a um diálogo com o seu corpo pois é ele que,afetado, inscreve uma realidade: a reprodução não se faz de forma natural.
  31. 31. 22A infertilidade, segundo Chatel (1995), apareceu discretamente e foiganhando importância como questão à medida que a gravidez se tornava maistardia, por ser adiada em virtude de uma dedicação profissional ou por umadificuldade em se decidir pela maternidade e, ainda, à medida que as mulheres setornavam cada vez mais exigentes, com pressa de engravidar sem demora, commedo de serem estéreis.A contracepção representou uma revolução para as mulheres. Uma daslutas levadas a cabo pelo movimento feminista era a da liberação da mulher queconsistia numa tomada de poder em relação à procriação. Através da contracepçãoa ciência se aliou às mulheres na satisfação de sua demanda de poder escolherentre “eu quero” e “eu não quero” fazer um filho. Diante da infertilidade, mais umavez as mulheres fazem uma demanda à ciência: querem retomar o poder sobre aprocriação. A ciência, por sua vez, se mistifica ao conferir às mulheres apossibilidade de liberdade real e imaginária de fazer o que se quer quando se quer,e acaba por produzir novas formas de subjetivação. É neste contexto que aspacientes buscam a medicina, porta-voz dos avanços tecnológicos e científicos,buscam de forma explícita um tratamento para sua infertilidade, enquanto carregamsilenciosamente suas fantasias e seus conflitos psíquicos aguçados pelainfertilidade.2.2 Revisão da literatura sobre a infertilidade femininaEm dissertação apresentada à PUCSP, intitulada Aspectos Psicológicos daEsterilidade Feminina, Yin (1987) realizou uma pesquisa com sete mulheresestéreis que consistiu de entrevistas e aplicação de teste projetivo TAT. Oresultado de sua pesquisa apontou que a maternidade era desejada e idealizada
  32. 32. 23pelas mulheres e considerada como fundamental para a realização feminina. Ainfertilidade, então, abalaria o autoconceito das mulheres gerando sentimentos defrustração, culpa, vazio, fracasso, sentimentos de inferioridade em relação aosoutros com prejuízo para seu relacionamento social e conjugal, inclusive sexual. Oautor observou ainda um maciço uso de mecanismos de defesa por parte dasmulheres para evitar confrontos diretos com seus conflitos.Na clínica pode-se perceber essa dificuldade pelo fato de, comumente,muitas pacientes se apropriarem dos detalhes médicos do tratamento dainfertilidade, preocupando com os mecanismos concretos utilizados para suafertilização como forma de evitar o enfrentamento de conflitos psíquicos que oacompanham; algumas vezes, a paciente sabe falar detalhes sobre exames emedicamentos mas não sabe falar de si e dos aspectos emocionais, que sãodifíceis de ser enfrentados.Pines (1990), psicanalista inglesa que se dedica ao tratamento de pacientesinférteis, diz que esses pacientes a fazem tomar consciência do profundosofrimento emocional que experimentam. Ela afirma que no passado as pacientestinham apenas as alternativas, aceitar que não poderiam ter filhos, ou optar pelaadoção. Hoje, a tecnologia disponibiliza inúmeras opções de reprodução assistida eartificial. Contudo, para aceitar estes métodos é necessário primeiro aceitar suaincapacidade de engravidar naturalmente, vivenciando a vergonha e a culpa, quesão elementos associados ao sofrimento emocional presente em situações deinfertilidade.Para a autora, a confiança em sua capacidade de reproduzir é umcomponente importante da auto-imagem de homens e mulheres. Para a mulher,porém, a gravidez faz parte do processo de identificação com a mãe, umaidentificação corporal que contribui para o cumprimento de um ideal de eu de uma
  33. 33. 24menina. Para Pines (1990), é como se a gravidez ajudasse a alcançar a etapa finalde identificação biológica com a mãe, o que possibilitaria uma visão de si como umser adulto e contribuiria para a efetiva separação em relação à mãe. Segundo aautora, para a menina, a confiança em sua capacidade futura de dar à luz, como ofez sua mãe, é decisiva para um desfecho confiante do sentido de sua feminilidade,de sua identidade sexual e de sua auto-estima. Ainda segundo ela, a gravidez fazparte de um projeto a ser alcançado por uma menina na vida adulta, sendoreferência para a constituição da identidade feminina. Assim, mesmo as mulheresque adiam a gravidez em função de sua profissão, continuam tendo fé na suacapacidade reprodutiva.De acordo com a experiência da autora, quando enfrentam a dolorosarealidade de não poder conceber, essas mulheres sentem-se devastadas. Aimpossibilidade de controlar a capacidade reprodutiva do próprio corpo constituiuma enorme crise emocional, um golpe no narcisismo, uma deterioração darelação consigo mesma, um abalo da representação de sua imagem corporaladulta e de sua sexualidade. A sexualidade é comprometida também pelo fato deas relações sexuais tornarem-se mecânicas quando o tratamento da infertilidadeimpõe restrições à sua espontaneidade. Pines acrescenta ainda que a vidaemocional de uma paciente que se sente diminuída em sua sensação dematuridade física e psíquica para uma gravidez se complica por meio de umatransferência regressiva com o médico, que passa a ocupar um espaço íntimo nasua vida. Nesses casos, deposita-se no médico a fantasia de ser ele capaz de dara vida, como se fosse o progenitor poderoso do passado, o próprio pai.Pines (1990), no seu trabalho com mulheres inférteis, percebe o esforço quemuitas delas fazem para satisfazer seu desejo infantil de conceber e levar um filhodentro do corpo, alcançando dessa forma um ideal de eu relativo à maternidade.
  34. 34. 25Pode-se acreditar que a clínica da infertilidade explicita essa condição, pois alipercebe-se a dimensão psíquica de uma barriga, o ideal de eu relativo àmaternidade associa-se a uma barriga grávida e ao fato de portar o filho no corpo,e para muitas mulheres é impossível ressignificar essa condição.Além disso, em relação à constituição da identidade feminina, Pines (1990)diz que a experiência que uma mulher tem com sua própria mãe relativa àmaternagem e a maneira como a mãe lidou com sua própria feminilidade têm umaimportância fundamental no estabelecimento da identidade feminina madura. Elaainda afirma que, na sua experiência, a maioria de suas pacientes inférteis tiveramuma relação difícil, conflitiva e frustrante com suas mães. Sobre essa afirmação daautora cabe perguntar: numa clínica da neurose, independentemente da ocorrênciade infertilidade, não se tem mesmo uma relação conflitiva e frustrante com a mãe?Pines (1990) aponta também para o desespero que muitas mulheresdemonstram ao passar por tentativas repetidas de fertilização, o que reflete aangústia por não ser capaz de controlar o próprio corpo. Segundo Pines, comfreqüência, o que se percebe na análise é que elas parecem querer recuperar umaposição onipotente por intermédio de um maior conhecimento de seu corpo,esperando assim deter controle deste. Para a autora, a gravidez, por si só, reavivafantasias, conflitos edípicos e até pré-edípicos. Dessa maneira, para cumprir seudesejo infantil de dar à luz um filho, toda mulher tem que lidar com essa situaçãolevando a cabo a tarefa de integrar a realidade e a fantasia, suas esperanças esuas ilusões. Mas a incapacidade de engravidar impõe uma tarefa adicional àsmulheres. Para Pines (1990), talvez seja tarefa do analista ajudar essas mulheres aaceitar a dura realidade de não poder conceber, apesar de que, segundo ela, aesperança das pacientes parece nunca desaparecer até que chegue a menopausa.
  35. 35. 26Talvez o analista possa lhes ajudar a passar pela dor, recuperando sua auto-estimaem outras áreas da vida e encontrando outros tipos de satisfação.Fiorini (1999), psicanalista argentina, faz um paralelo entre maternidade einfertilidade. Ela procura atualizar um debate acerca da maternidade e dasexualidade feminina à luz das novas técnicas reprodutivas, neste contexto demudança na família nuclear, de auge do narcisismo no discurso social e deindiferenciação sexual. Ela diz que uma idealização da maternidade pode contribuirpara a busca pelas técnicas de fertilização, e também pode mascarar uma ênfasena vertente reprodutora da maternidade e na concepção de maternidade enquantomandado da natureza, que se apóia na idéia de destino feminino inevitável. Para aautora, contudo, é preciso discriminar reprodução de maternidade. A primeiraestaria mais ligada à ordem da natureza, mas a segunda representaria umaexperiência na qual se interpõe o amor e o desejo. Além disso, haveria um suportecorporal sempre erógeno e significado sobre o qual se produz a experiênciamaternal e não uma máquina reprodutora chamada corpo. A idealização damaternidade levaria, então, a uma espécie de alienação que, segundo a autora,conduziria à exclusão das condições eróticas nas quais se assenta a maternidade,assim como das condições de uma feminilidade desejante e desarticulada damaternidade, feminilidade alienada que esquece que a condição femininatranscende a maternidade.Para Fiorini (1999), a separação maternidade versus sexualidade é umamarca dos dilemas que afetam o desenvolvimento psicossocial da mulher, e aequivalência mulher-mãe seria um álibi diante do dilema. A autora acredita que oque conduz a uma equivalência entre maternidade e sexualidade feminina é umaidealização da figura materna que privilegia a subjetivação feminina por meio damaternidade. É dessa forma que, segundo ela, a maternidade adquire valor
  36. 36. 27universal de representação da feminilidade. A idealização da maternidade contribui,ainda, para a criação de uma expectativa de que o filho seja tudo para a mãe, acompletude da subjetividade materna. A autora não nega o componente narcisistaque se põe em jogo na maternidade, contudo, esta não é e não deveria ser umacondição exclusivamente narcisista para que haja um corte e uma separaçãopossível entre mãe e filho. A não realização da expectativa de completude pelofilho geralmente provoca culpa e frustração na mãe diante da experiência materna.A autora propõe, então, uma desarticulação na equação mulher-mãe que possibilitepensar a maternidade de forma desidealizada e como uma configuração múltiplaque permita novas formas de articulação simbólica que redefinam a relaçãomaternidade-feminilidade numa complexidade maior.Há, contudo, um outro aspecto a ser considerado que se refere à relaçãomaternidade-feminilidade: não se pode deixar de considerar a grande influência docontexto sócio-histórico, o que, de acordo com a hipótese trabalhada neste estudo,seria decisivo para a configuração das formas possíveis de articulação simbólica.Zalusky (2000), do Instituto Psicanalítico da Califórnia, discute a infertilidadeem tempos de tecnologia e diz que esta tem modificado a maneira comonascemos, vivemos e morremos, conseqüentemente, os avanços tecnológicosalteram muito a maneira de se vivenciar a infertilidade. A tecnologia tem ampliado anoção do que é possível indo ao encontro de nossa fantasia de onipotência. Ostratamentos para infertilidade, possibilitados pelas novas tecnologias, tornam maispermeáveis os limites entre ficção e realidade, evocam ansiedades e uma série defantasias, além de requererem novos posicionamentos morais e éticos e degerarem uma tensão relativa às regras milenares ligadas à maternidade, àpaternidade e à família. Pode-se ver que a intervenção da tecnologia merecedestaque nos tratamentos da infertilidade, principalmente naqueles casos em que
  37. 37. 28ela substitui a sexualidade e o erotismo na reprodução e, portanto, na geraçãosimbólica de um filho e das fantasias associadas à geração desse filho.Apfel e Keylor (2002), psicanalistas americanas, num artigo intituladoPsychoanalysis and infertility, afirmam que a análise é um tratamento valioso paraquem vive a infertilidade, um espaço para elaborar a realidade e os dilemascomplexos que a experiência da infertilidade suscita. As autoras defendem queexistem múltiplas causas para a infertilidade e que a infertilidade psicogênica é ummito. Dentro desta perspectiva de enfocar a gênese da infertilidade, elas realizamuma revisão da literatura recente e concluem que duas problemáticas psicológicassão geralmente associadas à infertilidade. A primeira delas seria a falta deelaboração de um luto prévio, como a perda de um dos pais no passado. Asegunda questão refere-se à falta de ambivalência quanto à gravidez e àmaternidade, freqüentemente observada nas mulheres inférteis; observa-se umarepressão de sentimentos e pensamentos negativos que acabam por impactar afertilidade. Essa perspectiva de trabalho que tem a causa da infertilidade comoreferência é bem diferente da proposta deste trabalho.Apfel e Keylor (2002) revelam também um dado curioso: na sua pesquisa asmulheres com infertilidade crônica apresentam um perfil psicológico semelhante aodas mulheres com câncer, com doença cardíaca, dor crônica ou infectadas porHIV. As autoras se baseiam na sua experiência para afirmar que os anos detrabalho com pacientes inférteis mostram que cada caso é único e complexo, o quehá em comum entre os casos são os sentimentos de ansiedade, dor,desesperança, depressão, raiva, inveja e a presença de pensamentos mágicos.Segundo elas, uma outra conclusão pode ser generalizada: a infertilidaderepresenta mais que a perda de fertilidade, representa a perda da sexualidade
  38. 38. 29espontânea, da experiência da gravidez, da continuidade genética. A infertilidade éum verdadeiro estigma que leva ao isolamento.Ribeiro (2004), psicanalista brasileira, no seu livro Infertilidade e ReproduçãoAssistida: desejando filhos na família contemporânea, afirma que a infertilidadereativa e estimula conflitos psíquicos relacionados ao desejo de ter um filho comosendo conflitos ligados à sexualidade, à relação primária com a mãe, à identidadede gênero e ao conflito edípico. Para ela, a infertilidade tem um potencialtraumático considerável, pois o desejo de ter um filho se origina e permanecevinculado, no inconsciente, à questão da sexualidade infantil e suas feridasnarcísicas.O ponto de vista deste estudo é que a infertilidade é um evento conflitivo porreavivar impasses psíquicos, mas se ela será vivida como um evento traumáticoisso dependerá de cada sujeito.Segundo Ribeiro (2004), a vida das mulheres fica dedicada às tentativas deengravidar, o que paralisa os investimentos em outras áreas de interesse. A autoraentão se pergunta: será que o desejo pela maternidade é tão intenso ouintensificou-se pela frustração? Ela acredita que, na experiência da infertilidade, ofilho fantasiado desde a primeira infância e atualizado na vida adulta torna-sehiperinvestido e hiperlibidinizado. De acordo com Ribeiro, é importante ressaltarque a infertilidade abala narcisicamente as pacientes e deixa a vida dos casais emsuspenso, aguardando o desfecho da infertilidade.Todos estes trabalhos mostram o profundo impacto psíquico provocado pelaexperiência da infertilidade. Pode-se perceber que a infertilidade traz à tonaquestões complexas sobre as quais a psicanálise contemporânea vem sendoconvocada a refletir. A revisão desses estudos mostrou que a literaturapsicanalítica tem-se ocupado da infertilidade e proporcionado diferentes leituras
  39. 39. 30dessa experiência. Este trabalho visa à construção de mais uma leitura que temcomo objetivo dar voz aos questionamentos nascidos da clínica de pacientes cominfertilidade e explorá-los buscando respostas ainda insatisfeitas. Este percursoteórico avançará em seguida através de um trabalho descritivo que visa ao estudode um enfoque conceitual no qual será utilizado o diálogo com os discursosfilosófico e o sociocultural. É preciso dialogar com outros campos de saber a fim deenriquecer uma interpolação à psicanálise sobre a infertilidade feminina; é precisorecorrer ao passado a fim de que ele lance luz sobre o presente. Assim, a fim debuscar bagagem para esta discussão, será focalizada a seguir a posição social damulher e os deslocamentos femininos relacionados à feminilidade e à maternidadeatravés da história. Estas transformações é que, segundo a hipótese aquiapresentada, geram um significado muito particular para a infertilidade feminina naatualidade.
  40. 40. 31PARTE IIENFOQUE CONCEITUAL : UM TRABALHO DESCRITIVO
  41. 41. 32CAPÍTULO 3. A BUSCA POR DIÁLOGOS INTERDISCIPLINARES NACONSTRUÇÃO DE UM ENFOQUE CONCEITUAL MAIS AMPLO3.1 Diálogo com o discurso filosófico e sociológico: a noção de sujeito e aposição da mulherO advento da modernidade traz consigo as noções de autonomia, deindivíduo, de liberdade e de igualdade. Estas noções tornam possível oaparecimento da categoria “sujeito”. O homem, contudo, nem sempre se percebeucomo sujeito; a noção de subjetividade como algo privado e a de liberdadeindividual são característicos da modernidade. O cristianismo introduziu adimensão da interioridade e a valorização da experiência íntima e, para Bezerra(1989), é no início da era cristã que encontramos os primeiros vestígios daconcepção de sujeito. Contudo, segundo esse autor, é no mundo moderno que aconfiguração “sujeito” se naturaliza. A valorização da categoria sujeito acontececom o pensamento moderno.Para Pacheco (1996), o termo sujeito é um constructo, e como tal foiproduzido e construído numa época como resultado de interesses desse momentohistórico. Um constructo é cúmplice do contexto no qual emerge e no qual seafirma. A noção de sujeito como fundamento, atrelada à noção de indivíduo, deprivado, de autonomia, tal como a conhecemos hoje, surge na era moderna. Oconceito de sujeito é resultado de interesses da modernidade. Neste contexto demundo, o individualismo emerge em detrimento do holismo, a unidade se quebra eemerge a multiplicidade. A revolução copernicana provoca a queda de um forteparadigma causando a necessidade de um novo posicionamento do homem e,
  42. 42. 33assim, o racionalismo cartesiano anuncia um sujeito que possa dar conta dessastransformações.Surge, então, com Descartes no século XVII, o sujeito reflexivo, pensante,pautado pela razão. O sujeito cartesiano é o sujeito consciente, que “pensa logoexiste”, é o sujeito da representação já que o mundo existe porque o sujeito pensa.O sujeito cartesiano é pautado pelo limite – diante do universo infinito, a presença epossibilidade de ação do sujeito são necessariamente finitas.Segundo Renaut (1998), o individualismo emerge pelo rompimento com astradições; o indivíduo faz um movimento de emancipação da alienação presentenas sociedades tradicionais e hierárquicas tendo como princípio a liberdade e aigualdade. Como resultado, nas sociedades modernas o que se observa é aafirmação do indivíduo como princípio e como valor, nelas o indivíduo só irásubmeter-se a si próprio. “O individualismo traduz-se em primeiro lugar pela revoltados indivíduos contra a hierarquia em nome da igualdade” (RENAUT, 1998, p.26).A noção moderna de sujeito estaria, então, de forma coerente com este contextode mundo, atrelada à noção de indivíduo.A concepção de sujeito estaria entrelaçada também à noção de privado eportanto de subjetividade. A idéia moderna de sujeito deveria se adaptar à idéia deuniverso infinito, de instabilidade no domínio do humano e conferir uma unidaderelativa perante o desequilíbrio, ainda que pela via da subjetividade. O processo devalorização da subjetividade coincide com a revolução copernicana e éconseqüência dela. O descentramento astronômico leva a uma ruptura, a umafalência das tradições; a noção de universo infinito traz o novo, o estranho, oincerto. A experiência subjetiva passou a ser uma possibilidade de alcançarsegurança, tornou-se um porto seguro num mar de incertezas. Para Moreira
  43. 43. 34(2002b), a experiência subjetiva surge como uma saída no mundo moderno dianteda queda das tradições e da falta de referência externa:Diante da falência de tradições e da falta de referência estável resultante daabertura de infinitos espaços, o pensamento moderno tenta constituir um novopólo de certeza. O que nos resta depois da destruição do cosmos finito e deDeus? O Eu, responde o pensamento moderno (MOREIRA,2002b, p.20).A sociedade moderna caracteriza-se, então, como uma sociedadeindividualista, que tem como base a liberdade e a igualdade. Esse contexto oferececondições para o aparecimento do sujeito enquanto agente e fundamento. Estaconcepção de sujeito pressupõe a idéia da autonomia, que é característica dopensamento moderno. A noção de sujeito autônomo já é delineada na filosofiacartesiana com a emergência do individualismo e ganha substância com oIluminismo do século XVIII. No século das Luzes, a idéia de Natureza substitui aidéia de Deus e, como os deuses se desmistificam, é o homem que se mistifica.Mas, de acordo com Renaut (1998), a idéia moderna de autonomia parece firmar-se com Kant, para quem o conceito de liberdade está atrelado ao de autonomia davontade. “Definida como autônoma, a vontade moral, que é ao mesmo tempoagente e princípio (o valor supremo) da moralidade, nada quer além de si mesmaenquanto liberdade que dita a lei à qual se submete” (RENAUT, 1998, p.15). Aprópria essência do moderno está expressa pela vocação do sujeito à autonomia.De acordo com Renaut (1989), a Declaração dos Direitos do Homem de1789 afirma o individualismo e consagra a igualdade por oposição à hierarquia,sendo esta considerada pedra angular do holismo. A Declaração consagra tambéma liberdade no sentido de independência, pois os homens deixam de ser membrosde um todo para voltar-se para si. A liberdade do século XVIII é, na visão deBezerra (1989), um correlato da emancipação de tudo aquilo que oprime,constrange e diferencia os homens, ou seja, as marcas do social. A Revolução
  44. 44. 35Francesa é, para o autor, um corolário destes valores. Segundo Bezerra, no séculoXIX o individualismo adquire uma outra faceta e a liberdade representa apossibilidade de o indivíduo assumir sua singularidade, como ser insubstituível.Mas, em relação às mulheres, qual a posição delas no cenário detransformações que levaram ao surgimento do sujeito moderno? Haveriapossibilidade de as mulheres se encaixarem na noção moderna de sujeito que secunhava? Caberia às mulheres a inclusão na categoria de indivíduo? Seriaaplicável a elas o conceito de autonomia naquele momento histórico em que oconceito se firmava? E quanto aos princípios de liberdade e de igualdade, como seaplicariam às mulheres? É o que se verá na próxima seção.3.1.1 No silêncio das mulheres a ausência de um sujeitoComo se pôde ver, no século XVIII, o século das Luzes, a idéia de“natureza” substitui a idéia de “Deus”. Assistimos a um processo de desmistificaçãodo divino. Mais tarde, o movimento de transformação se consolida graças à forçado positivismo científico que englobava a teoria darwiniana da evolução. Isso éparticularmente interessante no que se refere à posição das mulheres nestecenário. À idéia de “natureza” se aliava a idéia de “natureza feminina”, que era umaprodução discursiva da cultura européia dos séculos XVIII e XIX que levava asmulheres a uma adequação àquilo que lhes seria natural: o espaço doméstico, afamília, a maternidade. Naquele momento histórico, a feminilidade retratava umdiscurso que se referia à docilidade, ao recato e ao papel social de mãe e esposaatribuído às mulheres. Para Kehl (1998), tratava-se de “um discurso consistentecuja função é indicar às mulheres um único lugar - a família - de acordo com suaverdadeira natureza, a feminilidade” (KEHL, 1998, p.60). Essa noção de
  45. 45. 36feminilidade parecia atropelar a de singularidade, uma das facetas doindividualismo.Segundo Sledziewski (1995), a Revolução Francesa proporcionou àsmulheres “a idéia de que não eram crianças. Reconheceu-lhes uma personalidadecivil que o Antigo Regime lhes negava, e elas tornaram-se seres humanoscompletos, capazes de fruírem e exercerem seus direitos. Como? Tornando-seindivíduos” (SLEDZIEWSKI, 1995, p.44). Para a autora, a Declaração de 1789reconhece a cada indivíduo a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistênciaà opressão. A liberdade, contudo, ainda era vetada à mulher, assim como apropriedade mas as mulheres não manifestavam reação contra a silenciosaopressão ditada pela feminilidade que reafirmava essa exclusão. Para Sledziewski(1995), a Revolução ousou, por uma decisão política, pôr em causa a hierarquiados sexos, lançou uma semente da qual “os seres destinados naturalmente àsujeição vão doravante tirar proveito” (SLEDZIEWSKI, 1995, p.44). Por outro lado,aquilo que, graças ao espírito revolucionário, a lei passou a garantir, a sociedadeinsistia em não instituir, a sociedade ia na contramão da lei.Para Vaitsman (1994), a sociedade moderna trouxe a noção de indivíduocomo categoria histórica nos países ocidentais capitalistas. Ao indivíduo atribuíam-se os princípios de liberdade e igualdade pautados na noção de propriedade.Diante desta associação tanto a liberdade como a igualdade estariamcomprometidos, deixando de fora da categoria “indivíduo” os não proprietários e asmulheres. Indivíduos seriam seres donos de propriedade, donos de seus corpos ede seu trabalho. As mulheres eram excluídas em função de não terem posses, denão terem controle do próprio corpo, já que não dispunham de métodosanticoncepcionais, e eram excluídas também por serem consideradas pelaideologia moderna como incapazes de emancipar-se.
  46. 46. 37A história da constituição dos sujeitos modernos a partir do século XVIIIcaminhava em paralelo com a idéia de feminilidade tradicional. Para Kehl (1998),aos ideais de submissão feminina se contrapunham os de autonomia do sujeitomoderno; aos ideais de domesticidade se contrapunham os de liberdade eigualdade da categoria “indivíduo”; à idéia de uma vida voltada para o casamento epara a maternidade se contrapunha a idéia moderna de que cada sujeito deveescrever seu próprio destino.O pensamento das Luzes, apesar de produzir o embrião de idéiasfeministas na Europa, mantém a idéia de “natureza feminina” como universal ealiada ao casamento, ainda que escolhido livremente pela mulher, o que definiráseu lugar social: o lar na condição de mãe. A “concepção da mulher talhadaespecialmente para o privado (e incapaz para o público) é a mesma em quasetodos os círculos intelectuais do final do século XVIII” (HUNT, 1991, p.50). Otratado de Roussel de 1775, intitulado Do Sistema Físico e Moral da Mulher,tornou-se referência ao discurso sobre as mulheres. Nele as mulheres sãoidentificadas por sua sexualidade e seu corpo, já os homens por sua energia eespírito. E Hunt acrescenta:Na época, pensava-se que o sistema reprodutor feminino era particularmentesensível, e que essa sensibilidade era ainda maior devido à debilidade intelectual.As mulheres tinham músculos menos desenvolvidos e eram sedentárias poropção. A combinação de fraqueza muscular e intelectual e sensibilidadeemocional fazia delas os seres mais aptos para criar os filhos. Desse modo, oútero definia o lugar das mulheres na sociedade como mães. O discurso dosmédicos se unia ao discurso dos políticos (HUNT, 1991, p.50).O discurso científico, e especialmente o discurso médico, corroborava o quea sociedade definia como “as determinações biológicas e naturais” relativas àfeminilidade contribuindo, dessa forma, para que na prática as mulheres fossemexcluídas da recente categoria de indivíduo. Essa categoria se baseava, como sesabe, na liberdade e na igualdade. Mas como considerar a mulher “indivíduo”
  47. 47. 38diante da falta de liberdade imposta por tão fortes determinações decorrentes dodiscurso sobre “a natureza feminina”? O mesmo se pode pensar em relação àigualdade. Conseqüentemente, diante desta realidade, a noção de sujeito ainda eraembrionária no que se refere às mulheres.A posição social e cultural delas altera os contornos da relação entremasculino e feminino, além de conferir diferentes contornos à feminilidade etambém à maternidade. Mantendo-se à margem da nova categoria, as mulheressilenciosas e silenciadas assujeitavam-se ao discurso ideológico vigente. Afeminilidade, enquanto discurso do outro social sobre as mulheres, corroborava amarginalidade em relação à categoria “sujeito” que se cunhava. Talvez, nessemomento, assim como a maternidade, a infertilidade representasse uma imposiçãoda natureza feminina num cenário de mundo em que os homens, produtores dediscurso, iam criando o “sujeito” e vestindo as suas vestes modernas. Às mulheresainda cabiam as velhas roupas e o silêncio.É claro que as idéias filosóficas do Iluminismo de valorização daemancipação e de autonomia do sujeito repercutiram entre as mulheres. Essasidéias levaram muitas européias a questionar sua posição submissa no casamento,a maternidade como prisão e sua exclusão do mundo intelectual, da glória e dopoder. A Revolução Francesa, ao romper as fronteiras que no Antigo Regimeseparavam a esfera pública da privada, leva a um esboço de desordem social noséculo XVIII: as mulheres saem às ruas ávidas por participação cívica erevolucionária. Godineau mostra que as mulheres estiveram à frente de váriasmanifestações, ocupando as ruas de Paris em outubro de 1789, em maio de 1793e na primavera de 1795. Até que em 1795 “os deputados proibirão as mulheres dese juntarem em número superior a cinco, sob pena de prisão” (GODINEAU, 1995,p.23).
  48. 48. 39Assim, pode-se concluir que o argumento da “feminilidade tradicional” sofreuabalos mas seguiu adiante, apesar dos ideais revolucionários e emancipadores daRevolução. As mulheres continuavam excluídas do direito de cidadania e adespeito do desempenho de um grupo de mulheres, não se verificava a formaçãode um novo senso comum questionando as diferenças “naturais” entre os sexos.Isto sustenta a hipótese deste trabalho de que a noção de sujeito no sentidofilosófico, apoiada nos pressupostos da liberdade individual, igualdade eautonomia, ainda não se aplicava às mulheres no período pós-Revolução. Naexpressão de Kehl (1998):Se a idéia de natureza tem um valor emancipador quando utilizada com um efeitode “desencantamento”, deslocando o homem do centro do universo e eliminandotoda causa metafísica, divina, para o comportamento humano, por outro lado,quando se trata da mulher, torna-se um argumento poderoso para escravizá-la àsvicissitudes de seu corpo. Poucos homens, mesmo entre os intelectuais maisrevolucionários, aceitaram o estado de abandono que parecia ameaçar seus lares,seus filhos e a vida conjugal como um todo, em decorrência da fúria com que asmulheres se atiraram para fora de casa nas Revoluções (1789 e 1848). Muitosrevolucionários... fizeram apelos para que as mulheres revolucionárias nãoabandonassem o lar (KEHL, 1998, p.66-67).No século XIX, ainda se afirmava a superioridade dos homens em relação àsmulheres como algo natural, inclusive por parte das próprias mulheres. É o queaponta Gay (1999) ao referir-se a cartas de mulheres a uma revista parisiensedizendo do erro que seria colocar-se em dúvida a visão comum da superioridademasculina sobre as mulheres. Além disso, como explica Kehl (1998), a medicinadas Luzes ainda conferia às mulheres do século XIX o lugar de eternas doentes, jáque a sua fragilidade física era apontada como argumento contra aprofissionalização, contra abusos nos estudos e contra excessos sexuais. Sobestes aspectos pode-se pensar, uma vez mais, nos princípios de igualdade e deliberdade e em como eles não se aplicavam às mulheres. A noção de hierarquia
  49. 49. 40estava viva em relação às mulheres contrariando aquilo que o pensamentomoderno definia como “sujeito”.Segundo Vaitsman (1994), o discurso da sociedade capitalista, endossadopelo discurso médico do século XIX, associava a natureza feminina ao mundoprivado. O imaginário social pretendia casar a mulher ao lar e à família. Assim, anoção moderna de igualdade impedia que a cidadania se aplicasse a homens emulheres da mesma forma.No aspecto que se refere à noção de autonomia, que, como se viu, afirmou-se com Kant e é fundamental para o conceito de sujeito, percebe-se um grandeapartamento das mulheres. Segundo Fraisse (1995), Kant defendia a idéia deincapacidade civil e de dependência natural das mulheres. Embora eleconsiderasse a mulher como “um ser de razão”, seria exatamente a razão quedestinaria as mulheres a seu papel de reprodutora da espécie submissa aosinteresses da família. Ainda na expressão de Fraisse (1995), em Hegel toma-se aracionalidade para definir papéis e os das mulheres deveriam ligar-se à família e àpassividade. Para a autora, Hegel conferia respeitabilidade ao espaço doméstico eestatuto de sujeito às mulheres do lar (grifo nosso).Kehl (1998) aponta para duas formas de alienação das mulheres até oséculo XIX. A primeira se refere ao aspecto político já que as mulheres, de modogeral, se mantinham à distância do poder que definiria seu próprio destino,demonstrando uma aceitação passiva desta condição. A segunda forma dealienação a que Kehl se refere diz respeito à alienação subjetiva. A autora escreve:Ao aceitar a posição do “outro do discurso” as mulheres renunciaram ao falo dafala, e durante quase todo o século XIX deixaram de participar do que Freudchamou ‘as grandes tarefas da cultura’, permanecendo socialmente invisíveis.Não se trata de negar a importância da maternidade, nem de negar que aorganização da vida doméstica confira um grande poder às mulheres... Trata-sede apontar para o fracasso de uma posição subjetiva que não produz discurso, daqual só se espera que corresponda ao que já está designado no discurso do Outro(KEHL, 1998, p.82-83).
  50. 50. 41Essa alienação nadaria contra a corrente dos princípios que sustentam anoção de sujeito no pensamento moderno, especialmente a de autonomia.Diante do exposto até aqui, conclui-se que a concepção moderna de sujeito,fundada no conceito de indivíduo que, por sua vez, está fundado nos princípios deliberdade, de igualdade e na autonomia, não poderia ser estendida às mulheres,pelo menos até o século XIX. Isto porque, como pôde ser visto, o discurso social ecultural excluía as mulheres da categoria indivíduo por não conferir a elasliberdade, igualdade e autonomia. As mudanças propostas pela Revolução emrelação às mulheres não haviam sido incorporadas no dia-a-dia, e a elas eraconferido um lugar à parte em função de sua natureza. A concepção de sujeitoestaria dessa forma abalada em seus fundamentos se fosse aplicada às mulheresnesse período histórico. Isso, contudo, não quer dizer que as mulheres fossemvítimas de uma imposição social, nem tampouco infelizes com aquela situação.Aponta, isso sim, para o fato de que um determinado cenário socioeconômico epolítico propõe diferentes ideais e valores para homens e mulheres que, no seuprocesso de socialização, vão internalizando esses valores e ideais. Nessemomento sócio-histórico, as mulheres, de modo mais geral, não pareciam aindaaspirar à condição de sujeito e de indivíduo. No horizonte da feminilidade dasociedade vitoriana não se encontrava o construto sujeito mas, sim, a submissão, adocilidade, a passividade e a fragilidade femininas.Desde o início da modernidade até o século XIX, o construto “mulher” nãocompatibilizava com o construto “sujeito” pautado na liberdade, igualdade eautonomia e, nessas condições, o direito à escolha não parecia protagonizar arelação das mulheres com a feminilidade e nem tampouco com a maternidade,denunciando uma posição subjetiva de submissão às imposições biológicas esociais.
  51. 51. 42Até o século XIX, um fato tatuava a produção de subjetividade feminina e oideal social de feminilidade: as mulheres não tinham controle sobre o próprio corpo;isso fazia da reprodução uma imposição biológica, tolhia uma liberdade sexual,amarrava a sexualidade à reprodução e lhes roubava o direito à propriedade e àposse do bem mais próximo, o seu corpo. Provavelmente, isso dava sustentaçãoao fato de que um dos requisitos da feminilidade naquele momento fosse asubmissão e a docilidade, o que acabava conferindo à própria feminilidade umcaráter de imposição social. Movimentos de reação por parte das mulheres diantedessas imposições aconteciam até o século XIX, porém não mostravamexpressividade no conjunto da sociedade.Dessa forma é que, neste contexto, assim como a função reprodutiva eratomada como imposição, a incapacidade de exercer essa função provavelmentenão fosse tomada de modo diferente. A infertilidade seria, assim, uma imposição amais no destino daquelas já habituadas a conviver com imposições advindas da“natureza” e da cultura. O prefixo “in” da palavra infertilidade revela o não, anegação. Será que o não da infertilidade remete apenas à negação de umafertilidade? Se se pensar que a infertilidade remete à negação da fertilidade etambém à negação de poder desejar e escolher, quando não se tem propriedadesobre o próprio corpo, quando não se tem liberdade, igualdade e autonomia,portanto, quando não se é sujeito, provavelmente infertilidade seja apenassinônimo de esterilidade. Para a mulher que não ascendeu à posição de sujeito,neste sentido filosófico, a infertilidade remeteria mais ao outro que a ela mesma,importaria mais a situação do parceiro privado de filhos e de herdeiros do que a daprópria mulher.A posição social da mulher, contudo, não permanece assim. Uma grandemudança no cenário social ainda estaria por vir, alterando profundamente a noção
  52. 52. 43de feminilidade e, conseqüentemente, o papel da mulher e seus referenciaisidentificatórios. Em seguida, são descritas estas transformações que culminaramcom a ascensão das mulheres à categoria moderna de sujeito.3.1.2 A mulher como sujeito no século XX: a conquista do falo da falaO século XX assistiu a uma crescente emancipação das mulheres, o queapontava na direção de sua inclusão na noção moderna de sujeito. Essaemancipação guardava uma curiosa tensão interna: construir uma identidadefeminina e ao mesmo tempo demolir a representação de feminilidade tradicional.Nesse século a história dos feminismos e dos movimentos de mulheres é parte dahistória política do Ocidente. Para Thébaud (1991), o século XX é aquele em que,muito tempo depois dos homens, as mulheres ocidentais acedem à modernidade.O século XX é o século da tecnologia; níveis de educação e saúde setornam mais elevados, as sociedades de consumo se estabelecem assim como aurbanização. Para as mulheres isso traz uma modificação no trabalho doméstico eno regime da maternidade permitindo maior participação social. Nas palavras deThébaud, o século XX representa para as mulheres “a conquista de uma posiçãode sujeito, de indivíduo de corpo inteiro e de cidadã, a conquista de uma autonomiaeconômica, jurídica e simbólica...” (THÉBAUD, 1991, p.16). Foram várias asconquistas femininas no campo das leis que se refletiram no espaço privado e nodia-a-dia das mulheres. A pílula contraceptiva, reflexo do avanço tecnológico doséculo, suscitou o debate público da liberação da contracepção, a despeito daquestão religiosa, como é o caso da inflexibilidade da igreja católica, que semanteve conservadora. A liberalização da contracepção possibilitou às mulheres areapropriação do seu corpo e da sua sexualidade, dando-lhes o domínio da
  53. 53. 44fecundidade. O slogan feminista “um filho, se eu quiser, quando eu quiser” dá adimensão desta questão e aponta o desejo de fazer surgir uma nova relação entrea mulher e a maternidade que extrapole o mero desempenho de uma função.Os movimentos das mulheres proclamavam “as mulheres” como umaunidade a fim de possibilitar uma mobilização e a conquista de mudanças, mas amultiplicidade e as diferenças eclodiam dentro deles. O feminismo acabou pordescobrir a multiplicidade dos sujeitos femininos em função do desacordo entrediferentes coletivos, das contradições entre brancas e negras, entre as européias,americanas e as mulheres do Terceiro Mundo.Marcado por duas guerras, o século XX mostra, entre outras coisas, que operíodo das guerras parece redefinir a relação masculino-feminino. Durante aguerra as mulheres se entregavam a novas responsabilidades e a novasprofissões: chefes de família, operárias. Já os períodos pós-guerra enaltecem aespecificidade das tarefas tradicionalmente femininas e assim revelam o carátersuperficial e provisório das mudanças.Do início do século até 1914 assistiu-se a uma movimentação diversa porparte das mulheres objetivando, entre outras coisas, a igualdade política,particularmente o direito ao voto. Com a Primeira Grande Guerra acontece umadesmobilização desses movimentos e percebe-se uma certa harmonia sexual.Fortificam-se os sentimentos familiares e o mito do homem protetor da pátria. Deinício, as mulheres se dedicam a proporcionar uma retaguarda que era aencarnação do ideal feminino burguês: servir era a palavra de ordem para asmulheres. Só com o prolongamento da guerra é que estas retomam as tarefasdeixadas pelos maridos e a mão-de-obra feminina começa a ser assimilada pelomercado, ainda que lentamente e com resistências. Não eram incomuns ascontratações em que já se assinava a futura carta de demissão. A sociedade
  54. 54. 45insistia no caráter temporário da incorporação das mulheres ao trabalho. Apesardisso, não se pode negar que para a mulher foi uma experiência inovadora viversozinha, assumir sozinha responsabilidades familiares e profissionais. Com o fimda guerra e o retorno dos homens, houve uma tentativa de que tudo voltasse aoque era antes da guerra, inclusive no que se refere às relações masculino-feminino.O que se verifica, então, é o caráter superficial das mudanças para as mulheres e amanutenção da subordinação dos papéis femininos aos masculinos. A volta dadicotomia sexual no pensamento social e político parecia uma tentativa dereencontrar a paz e a segurança abaladas. Contudo, algumas mudanças seincorporaram, e exemplo disso é que no pós-guerra se observa um maior acessoaos estudos por parte das mulheres.No período entre as duas guerras as mulheres manifestavamcomportamentos de independência mas, como diz Thébaud (1991), não seinscreviam num contexto de conjunto e eram abafados pelo discurso consensualsobre a mulher-mãe. O feminismo desse período aceitava as concepções comunsde masculino e feminino como elementos da natureza. Há que se sublinhar nesseperíodo a valorização da maternidade como função social. Assim, para a autora, oséculo XX só conhece tardiamente uma modificação das relações masculino-feminino, mudança que não acontece antes dos anos sessenta.Por sua vez, na América dos anos 20, a urbanização, aliada aos hábitosmodernos de consumo e à redução da natalidade, levava ao estabelecimento doestilo de vida americano e, também, de uma imagem da mulher modernaamericana. De acordo com Cott (1991), para as jovens dos anos 20 essa imagem émais um produto de consumo massificado e o reconhecimento da sexualidadefeminina passava mais por uma questão de alinhamento com o comportamentodominante do que por uma questão de rebeldia. Não se pode deixar de ressaltar a
  55. 55. 46importância das ciências sociais nesse momento histórico americanoespecialmente no que se refere à situação das mulheres. Enquanto um novo saber,as ciências sociais prometiam contribuir para o estabelecimento de uma ordemsocial moderna, realista, eficaz e democrática, o que vinha ao encontro dosobjetivos dos americanos. Mas para Cott (1991), as ciências sociais tendiam a selimitar à ordem sexual já existente e a confirmá-la. Dessa forma, tinham assimiladoo velho preconceito relativo ao ajustamento das mulheres. Ainda na década de 20,os publicitários americanos, baseados na psicologia, vendem às mulheres imagensdelas mesmas e acabam por embalar a modernidade das mulheres comomercadoria. A mulher moderna ideal é, por esta via, mais enérgica e sociável,gosta de se divertir e é atraente para os homens. Essa imagem se ajustava bem auma sociedade de consumo e a atração sexual se anunciava como um grandenegócio. Um exemplo da invasão do consumo na formação dos novos ideaisfemininos é um anúncio da época: “A mulher de hoje obtém tudo o que quer. Ovoto. Finos forros de seda para substituir volumosos saiotes... O direito a umacarreira. Sabonete a condizer com as cores da sua casa de banho” (COTT, 1991,p.110). Para a autora, a publicidade subverte a ênfase feminista ligada ao lugar damulher e à sua liberdade de escolha ao consumismo individual. O modeloamericano da mulher emancipada é também exportado ao mundo através docinema americano, desde essa época uma importante indústria.Pode-se dizer que o século XX caracterizou-se pelo desenvolvimento dassociedades de consumo, a massificação da cultura, a redefinição público-privado epor uma profunda mudança na posição feminina à medida que o século avançava.Uma maciça escolarização das mulheres leva-as ao encontro da palavra e, talvez,as conseqüências disso podem ser sentidas nos movimentos femininos quecaracterizaram o século.
  56. 56. 47Collin (1991) levanta uma discussão filosófica acerca da questão dadiferença entre os sexos baseando-se nas idéias do sociólogo e filósofo G. Simmelno amanhecer do século. Ele acreditava que não só haveria uma diferença entre ossexos como haveria dois registros sexuais heterogêneos, dois modos derelacionamento com o mundo e com a sexuação. Uma harmonização entre elesseria, então, difícil e, se possível, só se daria à medida que um se alienasse aooutro. Seguindo o pensamento de Simmel, Collin (1991) acrescenta que asmulheres têm um modo de funcionamento específico que consiste na imanência,na relação consigo próprias, diferente da especificidade masculina que se dariaatravés da exteriorização e na realização de si através dos objetos. Dessa forma,haveria duas maneiras de estar no mundo mas apenas uma maneira de neleinscrever a sua marca pois há apenas uma linguagem. Nas palavras de Collin:... a dualidade sexual é orientada para a unicidade do processo de simbolização,sempre masculino. Quer isto dizer que o particular dos homens é universalizável, odas mulheres unicamente particular. Há, de fato, dois sexos, mas há apenas umacultura, que é a cultura de um deles, na qual o outro participa (COLLIN, 1991, p.318).Em meados do século XX surge a corrente pós-moderna e acontece umamudança de valores, como nos diz a mesma autora:... a razão como dominação totalizadora que aspira ao uno, à luz, à ordem, é postaem questão, em benefício não do irracional mas de uma outra razão, intimamenteassociada com a obscuridade, o não-uno, a alteração. Esta alternativa abre umespaço de pensamento e de relação com o mundo que poderá surgir como... aevocação do feminino no masculino... (COLLIN, 1991, p. 333).A autora se reporta, ainda, ao pensamento de Derrida, por volta dos anossessenta, e à sua crítica ao “falogocentrismo”, que seria uma ampliação da críticaheideggeriana do logocentrismo, acrescida de uma crítica ao falocentrismo.Quando aborda a questão do masculino e do feminino, Derrida recusa-se a colocá-
  57. 57. 48la em termos duais, segundo Collin (1991). Se o feminino existe é mais comodesconstrução do que como destruição do falogocentrismo, como instânciairredutível à lógica dual. Para Derrida, se nas suas lutas as mulheres como gruposocial são levadas a definir os sexos em termos de oposição, esta prática foiestratégica e deveria visar a sua própria ultrapassagem, afinal, ela revela a lógicafálica como lógica dualista.Os elementos diferentes da diferença sexual não são objetiváveis: a diferença dossexos não pertence à ordem do visível, do definível, mas...da interpretação. Entreos sexos há, certamente, ruptura, mas “ruptura que não produz separação ou queproduz separação produzindo ao mesmo tempo reparação” (COLLIN, 1991, p.334).É certo que estas idéias sobre a diferença entre os sexos, veiculadas desdeo início do século e aquecidas pelas discussões que suscitavam, além dasmodificações sociais que garantem conquistas políticas às mulheres dão fôlego aomovimento feminista a partir dos anos sessenta. De acordo com Ergas (1991), oséculo XX assiste a uma crescente participação das mulheres na força de trabalho,a um aumento do número de divórcios, de famílias monoparentais, a uma série demudanças legislativas que acompanham as conquistas no campo profissional (leisrelativas a salário, proteção do emprego, licença maternidade) e no campo social(proteção contra a violência conjugal). Ao longo do século XX atenua-se a idéiabaseada na natureza ou na razão que justificava a crença na superioridade dohomem sobre a mulher.O pensamento feminista, a partir dos anos setenta, sofre a influência domarxismo, da psicanálise, do pós-modernismo, etc. Isso justificaria a sua grandediversidade. O feminismo de então recorre à idéia de igualdade, mas umaigualdade de direitos que respeita as diferenças individuais ou coletivas. Assim, oséculo XX vem modificar uma concepção de igualdade desenvolvida nos séculos
  58. 58. 49anteriores. As feministas denunciam a relação feita entre masculinidade egeneralidade, o que gerava uma idéia equivocada de igualdade. Um dos reflexosdo feminismo é o questionamento do caráter transcendental e, portanto, assexuadoda categoria moderna “sujeito”.Segundo Ergas (1991), o feminismo dos anos sessenta aos anos oitenta nãodeve ser expresso no singular, havia vários feminismos e pode-se observar umamadurecimento dos movimentos na medida em que se defrontavam comquestões polêmicas. Importante ressaltar é a sua marca histórica e política e,conseqüentemente, as mudanças deles geradas. Para a autora, o termo feminismoindica historicamente conjuntos variados de teorias e práticas centradas em tornoda constituição e da legitimação dos interesses das mulheres.Para Ergas (1991), o feminismo contemporâneo guarda uma tensão interna:a necessidade de construir a identidade “mulher” e dar-lhe um significado políticosólido paralelamente à necessidade de destruir a categoria mulher e desmantelar asua história, bastante sólida. Isso porque desde os anos sessenta uma questãopolemizava os movimentos: uma luta pela simples abolição da diferençaincorporada pela ordem social poderia conduzir a uma perda de identidade. Seriaum equívoco por parte das mulheres a assimilação de modos de existênciamasculinos.Para as feministas dos anos setenta, Simone de Beauvoir representava umareferência. A pergunta de Beauvoir “O que é uma mulher”, no seu clássico OSegundo Sexo, expressava um ponto temático comum para os feminismos daépoca. Naquele momento, concepções muito variadas sobre os direitos e asidentidades das mulheres coexistiam e rivalizavam. O feminismo contemporâneolevou à distinção entre sexo e gênero e à politização deste espaço. Os movimentosfeministas precisaram se debater com a questão de saber em que sentido as
  59. 59. 50mulheres constituiriam um conjunto. As feministas precisaram também lutar paraexplicar a natureza das características comuns às mulheres. Esta preocupaçãocom a especificidade e a reconstituição do sujeito mulher ecoou de formasemelhante em muitos países. A busca pela distinção do conjunto “mulheres” gerouuma prática de separação. O separatismo representou uma estratégia para aconquista de autonomia por muitas feministas: passo crucial na tentativa paraconstituir as mulheres como sujeito específico.O feminismo trouxe, ainda, uma explosão do saber, o pensamento feministainvadiu todos os domínios da vida cultural. Havia um interesse particular peloestudo da reconstrução da história das mulheres, pelo que unificava a condiçãodas mulheres em contextos diferentes, além do estudo da origem e dasimplicações da diferenciação dos papéis e identidades sexuais. Tudo isso tornoupossível redefinir e legitimar o conjunto das mulheres ao estabelecer elementoscomuns com os quais elas podiam se identificar umas com as outras, serviu parailuminar a afirmação de um sujeito social feminino.As feministas levantavam questões relativas ao duplo fardo com o empregoe a casa, além do cuidado com os filhos; a injustiça das leis de casamento e dafalta de emprego para as mulheres. Mas eram as políticas do corpo que mais asmobilizavam apontando para a auto-apropriação feminina, pois revelavam aestreita ligação entre o reino do corpóreo e a constituição da subjetividade. Noreino do corpóreo estaria a sexualidade feminina e seus desdobramentos: aquestão do prazer sexual, a luta pela liberalização da contracepção e do aborto.“Donas do nosso ventre”, proclamavam feministas holandesas. As mulheresmobilizavam-se para reconquistar seu corpo e o poder sobre ele delegado durantetanto tempo.
  60. 60. 51Mas, para Ergas (1991), a unidade entre as mulheres suscitada pelaseparação, pela distinção e pela reapropriação nas campanhas de autopossessãofemininas revelou fragilidades. O caráter unitário de “a mulher” logo passou a serquestionado. No final da década de setenta, a atenção das feministas se voltou doselementos comuns que uniam as mulheres para as diferenças que as separavam.Para a autora, a questão da multiplicidade dos sujeitos mulheres e da pluralidadedos feminismos tornou-se notória quando as mulheres do Terceiro Mundoacusaram as brancas ocidentais de imperialismo e tendências coloniais. Estacrítica vinha marcar que as mulheres não constituíam um grupo homogêneo.Pode-se perceber que os movimentos feministas buscavam a constituiçãode um sujeito-mulher coletivo e social. A fim de se conseguir uma mobilização eranecessário que as mulheres se constituíssem como um conjunto-unidade. Contudo,ao pôr em causa o direito à liberdade, à autonomia, à apropriação de seu destino ede seus corpos, as mulheres se depararam com a subjetividade e com asingularidade, e, portanto, com a diferença dentro do próprio conjunto dasmulheres.Em meados dos anos oitenta as transformações do contexto históricotiveram sua influência nos movimentos feministas. Estes movimentos foramvulneráveis às condições políticas que marcaram seu florescimento e seuamadurecimento. A mudança de contexto permitiu transformações na forma e nafinalidade dos movimentos feministas que, àquela altura, já lutavam pelaconsolidação das mudanças alcançadas. O cenário pós-moderno de mundo, queenfatizava cada vez com mais força o “eu” em detrimento dos ideais coletivos,deixava seus reflexos no social, inclusive nos movimentos feministas.Assim, no século XX as mulheres acendem à categoria sujeito na medidaem que passam a almejar liberdade individual, liberdade que lhes possibilitasse
  61. 61. 52assumir sua singularidade; ganham autonomia e passam a lutar por condições deigualdade descartando o roteiro da feminilidade tradicional e partindo para aconstrução de uma nova noção de feminilidade que acolhesse a possibilidade deprodução de um discurso próprio à mulher. A nova noção de feminilidade semanifesta inicialmente pela desconstrução de um modelo limitante e impositivoveiculado pelo cultural. A alienação das mulheres vai se desfazendo ao questionaro masculino como geral que exclui as particularidades delas. É o falo da fala que asmulheres parecem conquistar ao produzir um discurso sobre si e assim, irconquistando autonomia, liberdade e igualdade.Foi visto que o movimento feminista foi decisivo para possibilitar às mulheresalcançar as mudanças. O feminismo representou a quebra do silêncio daalienação, através dele as vozes femininas saíram da sombra e se projetaram nasociedade. Mas o feminismo buscou derrubar um discurso totalizante sobre amulher substituindo-o por outro, igualmente totalizante, através da afirmação de umsujeito social feminino. O mesmo parece ter acontecido na sociedade americanapela mão da publicidade: o modelo da feminilidade tradicional declinava e no seulugar emergia um novo modelo igualmente totalizante, adequado a uma sociedadede consumo, modelo comercializável, alienante e alienado.Assim, as mulheres se firmaram como sujeito, categoria definidora de umindivíduo autônomo e livre no século XX; a partir das conquistas e dos tropeçosforam garantindo sua condição de cidadãs, de indivíduos, de produtoras dediscurso. A nova posição das mulheres levou a uma conquista de autonomiasimbólica e também a uma nova relação com a maternidade: atrelaram-na ao seudesejo. Nessa nova relação com a maternidade, as mulheres querem poderdesejar e é exatamente isso que a infertilidade retira desses sujeitos. A novaorientação das mulheres diante da maternidade e também da infertilidade cria uma
  62. 62. 53expectativa de posicionamento em relação à infertilidade, espera-se algum tipo deimplicação, entram em cena as repercussões psíquicas da infertilidade e aspossibilidades de resposta mais que de reação da mulher diante desta experiência.A contracepção ou a busca pela concepção assistida são marcos que sereferenciam a diferentes momentos da história das mulheres no Ocidente. Pode-seacreditar que o “in” da infertilidade, a partir do século XX até o momento atual,significa mais que um não à fertilidade; ele retira das mulheres o direito de escolha,de optar ou não pela maternidade, imprimindo uma relação bem mais complexa damulher com a infertilidade. Antes de discutir essa complexa relação do sujeito coma infertilidade feminina, será apresentada a seguir a situação contextual específicadas brasileiras neste mesmo século XX.3.1.3 A situação das mulheres no Brasil do século XXNo Brasil do século XX, ainda que a seu modo, os acontecimentos históricosconduziam a uma situação bem similar à das mulheres no resto do mundo. Nasprimeiras décadas do século, grande parte do proletariado era constituído pormulheres, como aponta Rago (1997). A vida das operárias era marcada por longasjornadas de trabalho, baixos salários e assédio sexual. A força de trabalho dasmulheres e também das crianças era utilizada nesse momento histórico por serabundante e barata. Mas, apesar de presentes nas primeiras fábricas brasileiras,as mulheres vão sendo substituídas pela força de trabalho masculina à medida quea industrialização avançava.Já na década de 20, de acordo com Rago (1997), o crescimento urbano dascidades brasileiras é grande e leva um grande contingente de trabalhadores paraos bairros operários. Diante disso, a sociedade passa a tomar o mundo público
  63. 63. 54como um espaço ameaçador para as mulheres. Também nessa época, graças àinfluência de médicos e higienistas, o trabalho feminino fora do lar passa a ser vistocomo ameaçador pois, segundo eles, poderia levar à desagregação da família. Asprofissões femininas são associadas à degradação moral. As feministas que desdeo início do século defendiam os benefícios do trabalho feminino fora do lar, porvolta dos anos trinta afirmam que uma mulher profissionalmente ativa e comparticipação política tem melhores condições de desenvolver seu lado materno. Asociedade, contudo, pelo menos até a década de 60, ainda acredita que a mulher,tendo sido feita para o casamento e para a maternidade, não deve envolver-se napolítica, não deve ir a bares e boates desacompanhada e nem deve fumar empúblico. A figura da “mulher pública” era freqüentemente desqualificada, bemdiferente da figura do “homem público”.Do início até meados do século XX, a situação das brasileiras assemelhava-se à situação das européias do fim do século XIX. No discurso oficial do EstadoNovo (1937 a 1945), a mulher era vista como dependente do marido e suasexualidade reduzida à procriação. As forças sociais ligadas ao Estado Novofaziam apologia da família como fundamento da nação, uma família conjugal,moderna e patriarcal. Este padrão de família, entretanto, não se generalizou noconjunto da sociedade mas se difundiu como ideal de comportamentos e papéissexuais, ainda que diferentemente da prática corrente, como afirma Vaitsman(1994).Para Bassanezi (1997), com o fim da Segunda Guerra Mundial o Brasilassiste a um grande crescimento urbano e a uma intensa industrialização, comaumento das possibilidades educacionais para homens e mulheres. Contudo, otrabalho da mulher, mesmo cada vez mais comum, continuava subsidiário ao dohomem e cercado de preconceito. A idéia de incompatibilidade entre casamento e
  64. 64. 55vida profissional tem sua marca no imaginário social. Para a autora, se o Brasilacompanha à sua maneira as tendências internacionais de modernização e deemancipação feminina, é também influenciado pelos movimentos externos que,com o fim da guerra, passam a defender a volta das mulheres ao lar e aos valorestradicionais da sociedade. Na família-modelo da época, os homens detêm aautoridade, o poder sobre as mulheres e são responsáveis pelo sustento da família.Isso, porém, contrastava com a realidade das brasileiras pobres que precisavamconciliar o trabalho doméstico com alguma outra fonte geradora de renda paraequilibrar o orçamento doméstico. As ocupações domésticas, o cuidado com filhose marido representam o desempenho do papel feminino, segundo o modelo que sedifundia de família. A feminilidade se caracterizava pelo instinto materno, pureza,resignação e doçura. A maternidade, entretanto, era aceita desde que no âmbito docasamento, pois as mães solteiras sofriam fortes discriminações. A moral exigiadas mulheres contenção sexual e até certa ignorância sexual.Segundo Vaitsman (1994), após 1955, com a internacionalização docapitalismo, lançam-se as sementes de uma sociedade de consumo restrita a 20%da população, não tão sofisticada como a do Primeiro Mundo. A moderna divisãosexual do trabalho permanece e a família conjugal patriarcal continua como modelodominante entre a classe média.No Brasil, os governos militares provocam um atraso na emancipação dasmulheres. Segundo Giulani (1997), os governos que se seguem ao golpe de 1964têm grande influência sobre o curso dos acontecimentos sociais no que se refere àsituação das mulheres. Os programas sociais desses governos reafirmam aassimetria entre homens e mulheres. O público-alvo dessas políticas é a famíliaconstituída em torno da figura do chefe de família. Nesse contexto as mulheres sãoconsideradas apenas indiretamente como cidadãs. O direito à cidadania política
  65. 65. 56representado pelo direito ao voto é alcançado em 1932 pelas brasileiras, mas asaspirações à cidadania no trabalho passam por um silêncio só interrompido entre1979 e 1985.No início da década de setenta, a participação universitária das mulheres vaise equiparando à masculina. Ao aumento da participação feminina na educaçãosegue-se o da força de trabalho. Os anos setenta, de acordo com Vaitsman (1994),assistem aos novos movimentos sociais, a novas linguagens de expressão dasubjetividade, o que leva à emergência da problemática do “outro”. Isso fez reflexono âmbito das relações de gênero, “expressou-se na constituição das mulherescomo sujeitos, indivíduos, desafiando discursos e práticas patriarcais” (VAITSMAN,1994, p. 70).Parece, então, que no contexto brasileiro a afirmação da mulher comocidadã e indivíduo com liberdade, igualdade e autonomia vem se firmar apenas nofinal da década de setenta; até esse momento, em função do contexto reacionáriodo país, o patriarcado rivaliza com a possibilidade de conferir à mulher a condiçãode sujeito.Ao longo dos anos oitenta, de acordo com Giulani (1997), acontece umamudança na imagem social da feminilidade, reafirma-se a eqüidade entre os sexose são debatidas modificações culturais e jurídicas. A autora ressalta o papel dosmovimentos feministas neste cenário ao tocar em temas como desigualdade,submissão, violência sexual e doméstica, direito à opção de ter ou não filhos, odireito ao prazer sexual. A Constituição de 1988 vem regulamentar mudanças econtemplar novos direitos, como, por exemplo, ao instituir a reciprocidade nocasamento, a igualdade entre homem e mulher e ao reconhecer o direito de chefede família também à mulher.
  66. 66. 57A década de oitenta no Brasil, de acordo com Auad (2003) assistiu a umamaior visibilidade das denúncias de violência contra a mulher; a um aumento daparticipação das mulheres nos sindicatos de trabalhadores, inclusive nos sindicatosrurais; à instalação dos Conselhos Estaduais e Nacional da condição feminina edas delegacias especializadas em crimes contra a mulher. O Estado só passou aassumir a criação destes equipamentos públicos de atenção às questõesespecíficas das mulheres por força dos movimentos feministas e de mulheres emgeral, inclusive com a implantação do plano de atenção integral à saúde da mulher,pelo Ministério da Saúde.No curso dos anos 80, os modelos centralizadores entram em crise. Oprivado, o local, o particular, o micro em oposição ao público, ao central, ao geral eao macro recebem nova ênfase. O Brasil entra no rol das sociedades pós-modernas e fragmentadas do final do século XX. A instabilidade política eeconômica, o processo inflacionário, que impossibilitava um planejamento a longoprazo, radicalizam o transitório, o fugidio.Na década de 90 a sociedade brasileira reconhece a pluralidade e adiversidade das mulheres. Observa-se o surgimento das casas de apoio ealbergues para mulheres em situação de risco e vítimas de violência; o surgimentode redes feministas que articulam diferentes grupos e entidades em prol da saúdedas mulheres, do parto humanizado, do fim da violência. Além disso, o movimentode mulheres ganha espaço nas conferências da ONU.Nos anos noventa, no que se refere à cidadania, é difícil falar das mulheresnum sentido geral no Brasil em função da disparidade de recursos econômicos eculturais na sociedade e nas diferentes regiões brasileiras. As trabalhadoras, demodo geral, conseguem formular princípios sociais e jurídicos sobre a igualdade degênero. Assim, na história recente, as mulheres brasileiras buscam iniciativas que

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