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Geo   mundo rural e urbano
 

Geo mundo rural e urbano

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Este trabalho versa sobre o desenvolvimento das relações entre o mundo rural e o mundo urbano ao longo dos tempos e a forma como elas são actualmente encaradas. Dá, ainda, uma perspectiva sobre o ...

Este trabalho versa sobre o desenvolvimento das relações entre o mundo rural e o mundo urbano ao longo dos tempos e a forma como elas são actualmente encaradas. Dá, ainda, uma perspectiva sobre o caso português.

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    Geo   mundo rural e urbano Geo mundo rural e urbano Document Transcript

    • 1 RELAÇÕES ENTRE MUNDO RURAL E MUNDO URBANO - O CASO PORTUGUÊS1 – INTRODUÇÃOProcurámos neste nosso trabalho dar uma ideia geral do desenvolvimento das relaçõesentre o mundo rural e o mundo urbano ao longo dos tempos e a forma actual como sãoencaradas. Para além disso, não quisemos deixar de dar uma perspectiva sobre o casoportuguês. Consultámos, para tal, vários trabalhos, de vários autores que, esperamos,nos possam dar uma ideia, o mais aproximada possível, da realidade que pretendemosconfrontar.Tanto Afonso de Barros como João Ferrão se debruçam sobre as relações entre o mundorural e o mundo urbano e a problemática do espaço. João Ferrão critica as recentesvisões sobre o mundo rural que, segundo ele, revelam uma grande permeabilidade àideia de património como elemento estruturador de uma nova geração de estratégias epolíticas de desenvolvimento para este tipo de territórios. Também Afonso de Barrosanalisa o processo de reorganização territorial que vêm atravessando as sociedadesmodernas, tendo em conta as grandes linhas de transformação dos espaços rurais.Analisa o posicionamento da sociologia rural perante a problemática do espaçoconcluindo ser este que confere especificidade tanto à sociologia rural como àsociologia urbana e, ao mesmo tempo, como ponto de convergência entre ambas. João Ferrão apresenta, ainda, diversas orientações estratégicas para a definição depolíticas e medidas que visem uma nova complementaridade rural-urbano, mais sensívelaos ensinamentos da história, aos requisitos ambientais e às expectativas e necessidadesdas populações residentes em cada uma dessas áreas.Por outro lado, Teresa Barata Salgueiro e Aida Valadas de Lima dão-nos umaperspectiva do caso português. A primeira autora debruça-se, especialmente, sobre asrelações entre o mundo rural e o mundo urbano no nosso país. Dá-nos uma perspectivado desenvolvimento dessas relações ao longo dos tempos, assim como uma perspectivamais actual, definindo as novas formas de relacionamento entre estes dois mundos.Quanto a Aida Valadas de Lima debruça-se sobre a agricultura de pluriactividade e,complementarmente, sobre o que ela própria designa por construção social daruralidade. A autora procura colocar a questão da necessidade de redefinir as fronteirasentre o rural e o urbano. Tomando como realidade empírica de referência, a realidadeportuguesa, procura salientar a pertinência do paradigma da integração entre espaçossociais, sem deixar de questionar a imagem do “fim do rural”.2 – RELAÇÕES ENTRE O MUNDO RURAL E O MUNDO URBANO 1
    • 2 2.1 - A PROBLEMÁTICA DO ESPAÇO No plano do conhecimento, o processo de mudança na organização territorialveio a traduzir-se na emergência da problemática do espaço no domínio das ciênciassociais. Tornava-se inevitável romper com a perspectiva tradicional que consistia emvisualizar o espaço como mera categoria abstracta, como meio vazio. A problemática doespaço configura a questão fundamental com que a sociologia rural inevitavelmente seenfrenta na actualidade e aquela que porventura designa as suas perspectivas deevolução.Hoje em dia, o espaço social tornou-se expressão corrente em diversas ciências sociais esurge como referência cada vez mais obrigatória na análise sociológica.A evidência espacial que caracteriza alguns dos mais marcantes fenómenos das últimasdécadas contribuiu decisivamente para que assim houvesse acontecido. É o que sucedecom o crescimento e a transformação funcional das cidades; a ampliação e amodificação dos meios e das redes de comunicação; as alterações relativas ao uso dossolos determinadas por mudanças ao nível dos processos agrícolas; as movimentaçõespopulacionais de ignorada envergadura decorrentes, designadamente, dos processos deêxodo agrícola e rural; as modificações sem precedentes do meio ambiente.Este conjunto de fenómenos viria obrigar à definição e concretização de acções deintervenção política de directa incidência espacial, circunstância que, por sua vez, teveimportantes repercussões quanto ao estatuto do espaço de análise sociológica. É a partirde meados dos anos 60 que, paralelamente às políticas de ordenamento do território e deplanificação urbana, surgem novos objectos de pesquisa no seio da sociologia. Estaspesquisas têm por efeito levantar e legitimar novas interrogações sobre o espaço em simesmo e não apenas sobre os seus efeitos. 2.2 - RELAÇÕES RURAL-URBANO: HISTÓRIA A COMPREENDER Historicamente o mundo rural definia-se segundo os seguintes aspectos: Uma função principal: a produção de alimentos; Uma actividade económica dominante: a agricultura; Um grupo social de referência: a família camponesa, com modos de vida, valores e comportamentos próprios; Um tipo de paisagem que reflecte a conquista de equilíbrios entre as características naturais e o tipo de actividades humanas desenvolvidas.Este mundo rural secular estava claramente em oposição ao mundo urbano. Estaoposição era encarada como “natural”, campo e cidade eram complementares emantinham aparentemente um relacionamento estável, marcado pelo equilíbrio eharmonia de conjunto.A revolução industrial iniciada no século XVIII veio alterar a situação anterior. Asociedade rural sofreu um processo de transformação de uma sociedade pluriactiva emultifuncional num espaço social agrícola, económica e socialmente desintegrado.Ao transferir para a cidade as actividades agora designadas por industriais, a revoluçãoindustrial teve por efeito arruinar a produção rural de bens não agrícolas, organizada emforma artesanal e, por outro lado, quebrar, a montante, o ciclo produtivo agrícola,tornando a agricultura dependente dos inputs produzidos industrialmente no espaço 2
    • 3urbano. O campo via-se, assim, especializado unicamente na produção agrícola, a qualpor sua vez, se tornava cada vez mais directamente orientada para a cidade e pelacidade. No plano económico, quebrava-se deste modo, a integração no espaço rural.Mas não apenas no plano económico. A transferência de força de trabalho para a cidade,ao adquirir a dimensão de êxodo, veio romper o tecido social existente, contribuindodecisivamente para acelerar e aprofundar o processo de recomposição socialdeterminado pelo que se pode chamar “agriculturização” do espaço rural. No planosocial, também o campo perdia, deste modo, a natureza de espaço integrado.A mudança operada nas relações cidade/campo, traduzida em alargamento ediversificação, era comandada pela emergência do espaço social urbano/industrial, oqual, na sua lógica de afirmação e de inovação, se guindava a posição dominante esubordinava a si o espaço social rural. 2.3 - A NOVA DICOTOMIA PÓS-RURAL/URBANO As tendências que na actualidade se vêm afirmando apontam para panoramabem distinto. Dos espaços rurais especializados na agricultura, subordinados aosespaços urbano-industriais e socialmente desvalorizados, vai-se caminhando paraorganizações espaciais pluriactivas, multifuncionais e integradas. Correlativamente,assiste-se a um movimento de crescente revalorização social dos espaços rurais, de queé resultado visível o recente fenómeno de maior acréscimo demográfico destes espaços,por comparação com os urbanos, a que se assiste em diversos países do Noroesteeuropeu.O modelo de desenvolvimento concentrado, inerente à polarização urbano-industrial,entrou em crise, dá sinais de esgotamento e conhece já importantes inflexões. Astransformações tecnológicas decorrentes do processo com frequência designado porterceira revolução industrial favorecem diferentes formas de implantação industrial e,deste modo, têm vindo a contribuir para significativas alterações na organizaçãoespacial. A sensibilidade crescente às questões ambientais surge como um outro aspectoda crise que o industrialismo, enquanto forma concentrada e arrogantemente alheia aomeio ambiente, vem conhecendo e desenha-se como factor que impele para novasformas de relacionamento espacial.A implantação industrial em meios rurais, em modalidade de industrialização difusa,tem por efeito imediato modificar o quadro das actividades rurais, quebrando amonicidade da agricultura e, até, conforme já acontece em diversas regiões, retirando-lhe a primazia tanto económica como social. Acresce que, ao propiciar odesenvolvimento da agricultura a tempo parcial, este fenómeno vem a traduzir-se nadisseminação de novos modos de relação indústria/agricultura, tendo por eixo principalo homem (representado na figura do operário-agricultor) e não, como era tradicional, ofluxo intersectorial de bens e serviços. Por outro lado, através dos fenómenosdesignados por “rurbanização” e por “novos rurais” diversifica-se o uso do espaço rural,que de meio de produção tende, em algumas zonas, a passar a meio de recriação.Despontam novas configurações espaciais ao mesmo tempo que se organizam novasformas de vida no campo e se constituem novas redes de relacionamento entre o campoe a cidade. 3
    • 4A industrialização da agricultura criou duas realidades distintas: o mundo ruralmoderno e o mundo rural tradicional. A oposição rural-urbano deixa de ser a maisdecisiva, na medida em que a modernidade deixa de constituir um exclusivo das áreasurbanas. Ganha, assim, consistência uma nova dicotomia pós-rural/urbana, que valorizaa oposição existente entre o mundo moderno (urbano-industrial ou rural) e um mundoarcaico (predominantemente rural).A atractividade de que a vida urbana tem sido objecto nas sociedades industrializadastem vindo a experimentar sucessivo decréscimo sob o impacto de múltiplos factores(poluição, stress, impessoalidade, solidão) em que se traduz a crise da civilizaçãourbano-industrial. Em contrapartida, a repulsividade do espaço rural desvanece-se e vaidando lugar, em diversos casos, a uma cada vez mais nítida atractividade, baseada nãoapenas em melhores condições de vida e em maiores oportunidades de emprego que osmeios rurais, actualmente vêm proporcionando por comparação com um passadorecente, mas também na busca de formas de vida alternativas às características doespaço urbano-industrial.Todos estes factores se conjugam para quebrar a tendência desintegradora que oindustrialismo imprimiu ao espaço rural. Diversificado no plano das actividadeseconómicas, redimensionado ao nível funcional, complexificado na organização social,o campo ganha capacidade integradora, em novos e bem distintos moldes em relação àque possuía na época pré-industrial.Mas a integração espacial assume uma outra e mais fundamental dimensão quandoperspectivada em termos de relação cidade/campo. Na verdade, o processo que se temvindo a referenciar implica a constituição de redes de relacionamento entre o campo e acidade, entendidos como espaços morfologicamente distintos, cada vez maisdiversificadas e apertadas. Nessas redes, os elos pessoais assumem uma importânciacada vez maior no relacionamento cidade/campo. A diversificação territorial dasactividades e o espectacular incremento dos sistemas de comunicação estão na origemdeste fenómeno.Nos anos 80 assiste-se à invenção social de uma nova realidade: o mundo rural nãoagrícola, o que introduz novos elementos no modo de encarar os mundos rural e urbanoe a forma como se relacionam.Em primeiro lugar a função principal do mundo rural deixa de ter de sernecessariamente a produção de alimentos e a actividade predominante pode não seragrícola. Em segundo lugar, a valorização da dimensão não agrícola do mundo rural ésocialmente construída a partir da ideia de património. Em terceiro lugar, as actividadesque contribuem para manter vivo o mundo rural devem de ser remuneradas não apenaspelo seu valor económico mas também pelas funções sociais e ambientais queasseguram. Finalmente, em quarto lugar, a problemática do mundo rural profundo foisendo crescentemente abordada à luz de uma nova concepção: a dos espaços de baixadensidade, não só física, associada ao despovoamento intenso que caracteriza estasáreas, mas também relacional.A ideia de um mundo rural não agrícola que importa preservar em virtude do valorpatrimonial vem alterar, uma vez mais, as relações urbano-rural. É na procura urbanaque parece residir o essencial da evolução futura das áreas rurais onde a actividadeagrícola orientada para o mercado não alcança uma expressão significativa. 4
    • 5Registam-se novas situações de integração cidade/campo: viver no campo e trabalhar na cidade; viver na cidade e trabalhar no campo (na agricultura ou na industria); viver e trabalhar na cidade e usar o campo para efeitos de tempos livres; viver e trabalhar na cidade e manter relações regulares com familiares que vivem no campo e inversamente; viver e trabalhar no campo em articulação com a cidade, nomeadamente através das redes de comunicação à distância;Este processo tem sido qualificado com frequência como urbanização, perspectivadoeste fenómeno como a “difusão do sistema de valores, atitudes e comportamentos quese resume sob a designação de cultura urbana”. É, simultaneamente, um processo deurbanização e de ruralização. À medida que a integração espacial se vai efectuando,modificam-se, tanto no campo como na cidade, os sistemas de condutas e decomportamentos e geram-se novas formas de relacionamento social que tantoincorporam elementos de origem urbana como de origem rural. A integração espacialnão pode ser vista como o campo que se urbaniza ou como a cidade que se ruraliza, mascomo um processo de reorganização social com forte evidência espacial traduzido numacrescente interpenetração territorial. 2.4 - PISTAS PARA UMA NOVA RELAÇÃO ENTRE O MUNDO RURAL E O MUNDO URBANO A construção de uma nova relação rural-urbano desenvolvida na óptica dos espaços rurais poderá assentar, segundo João Ferrão, em dois objectivos de âmbito geral: consolidar relações de proximidade mutuamente benéficas e de natureza sinergética em detrimento de relações assimétricas e predadoras do mundo rural; transformar as cidades em pontes efectivas entre as áreas rurais e o mundo exterior;Sendo a baixa densidade física e relacional um dos problemas principais de grande partedas áreas rurais, importa rediscutir a questão das condições de acesso a infra-estruturas,equipamentos, serviços e competências cujo grau de especialização é incompatível comuma localização rural ( João Ferrão dá o exemplo das escolas do 1º ciclo deescolaridade obrigatória que estão a ser alvo de um processo de encerramento).O desenvolvimento de relações de proximidade mutuamente benéficas e de naturezasinergética pressupõe a capacidade de conciliar uma articulação territorial (coesão) euma articulação funcional (integração) entre centros urbanos e áreas rurais envolventes.Por comparação com o passado recente, torna-se evidente que a reformulação dasrelações que se estabelecem entre os mundos rural e urbano depende, crescentemente,da capacidade de identificar e concretizar soluções organizacionais adequadas. Estaabordagem implica uma visão de conjunto das áreas geográficas de intervenção, umaforte capacidade de diálogo institucional e ainda a existência de condições humanas,técnicas e financeiras de monitorização das soluções concretizadas. Isto impõe que seabandonem as abordagens tradicionais baseadas exclusivamente numa óptica de procuraou de oferta. 5
    • 6Importa alterar atitudes e comportamentos por parte das pessoas e das organizações emelhorar as condições reais de acesso, não apenas físico mas também económico esocial, a infra-estruturas, equipamentos e serviços não locais mas de proximidade sub-regional ou até regional. Só esta visão evitará a falsa alternativa entre duas opçõesextremas: manter, a qualquer preço, iniciativas sem qualquer viabilidade económico-financeira ou encerrar e impedir a criação de novas estruturas incapazes de sobreviverem termos de mercado (João Ferrão dá o exemplo do serviço de transporte postogratuitamente à disposição das populações por algumas grandes superfícies comerciaislocalizadas em aglomerados urbanos de média e reduzida dimensão).Por outro lado, o essencial das instituições de interface localiza-se em áreas urbanas.Assim sendo, uma relação de complementaridade menos assimétrica e mais simbióticaentre as populações e as organizações dos mundos rural e urbano implica que os meiosurbanos funcionem como veículo redistribuidor entre as áreas rurais e o mundo exterior,tanto de forma ascendente (condições de mobilidade e de acesso a mercados distantes)como descendente (condições de atracção e de disseminação ao nível local). Esta funçãoredistributiva depende grandemente da disponibilidade evidenciada por parte dasinstituições existentes para integrarem as necessidades e os interesses do mundo rural.Assim, o patamar de exigência nos dias de hoje deve ser colocar na agenda dasinstituições de sede urbana os problemas do mundo rural. O papel dos órgãos decomunicação social e dos movimentos de opinião pública é decisivo para quedeterminados assuntos ganhem não só visibilidade mas também notoriedade,reconhecimento social e credibilidade.É possível defender que os meios urbanos serão uma ponte entre as áreas rurais e omundo exterior, tanto mais eficiente quanto conseguirem transformar-se em focos deuma cultura de ruralidade susceptível de contribuir não só para consolidar a visãopatrimonialista actualmente dominante mas, também, para a ultrapassar, reintroduzindoa componente produtiva com a centralidade que esta merece.3 – O CASO PORTUGUÊS 3.1 – MODELAÇÃO DO SISTEMA URBANOA configuração do sistema urbano reflecte as condições naturais e históricas deocupação do território e os movimentos da população, mas deve-se principalmente aomodelo de desenvolvimento económico escolhido para o país e ao modo como tem sidoaplicado; concretamente, expansão económica baseada na industrialização ecrescimento do sector terciário, privilegiando a faixa do litoral.Os investimentos relacionados com a industrialização foram canalizados principalmentepara o litoral, com destaque para as regiões próximas de Lisboa e Porto. Como nãoforam acompanhados de medidas de enquadramento da agricultura que, por isso, nãoregistou aumentos de produtividade nem modernização, contribuíram para aumentar osdesequilíbrios regionais e favoreceram a intensificação dos movimentos de abandono dointerior. Os processos de estagnação e declínio das estruturas agrárias, industrializaçãogeograficamente localizada e êxodo rural crescente estão na origem do acentuar dasdesigualdades espaciais. 6
    • 7Em Portugal tem-se vindo a assistir ao crescimento geral da taxa de urbanização, bemcomo ao reforço da concentração demográfica, num movimento contínuo e lento. Àmedida que o processo de abandono do interior se amplia e generaliza nota-se progressonas taxas de urbanização distritais, visto que a população global tende a diminuir e osque permanecem o fazem sobretudo nos lugares de maior dimensão.O desenvolvimento do sistema urbano fez-se através da multiplicação do número delugares e do alargamento das áreas cobertas pela rede definida por estes, não obstante osgrandes desequilíbrios espaciais ainda revelados pela distribuição das aglomerações.Nos séculos XVIII e XIX deram-se importantes alterações no espaço económico esocial, com fortes implicações na distribuição das povoações. No inicio do século XXencontrava-se no essencial configurada a posição dos centros urbanos. Pode dizer-seque entre 1801 e 1911 se acentua o carácter de macrocefalia, assiste-se ao declínio dascidades do interior e ao desenvolvimento das industriais e de todos os portos, bem comoao crescimento acentuado de alguns núcleos nas imediações das cidades de Lisboa ePorto, que vêm assim esboçados os seus primeiros subúrbios. A penetração deestruturas económicas de tipo capitalista tiveram consequências assinaláveis nadistribuição do povoamento. Cidades do sul, como Évora, ou do interior, como Viseu,vão manter-se como sedes de regiões agrícolas relativamente estagnadas e por issoperdem posição face aos núcleos onde a industria prosperou, como Setúbal, Braga, VilaNova de Gaia, Covilhã e Guimarães. De 1960 a 1981 acentuam-se os desequilíbrios espaciais e inicia-se um grandecrescimento das áreas metropolitanas, bem como a consolidação da urbanização nosdistritos próximos de Lisboa (Leiria, Santarém, Setúbal). Apesar do desenvolvimentoindustrial e da maior e mais rápida modernização das suas estruturas produtivas, Lisboamanter-se-á como um centro onde predominam as actividades administrativas ecomerciais (ou ligadas com a circulação), enquanto o Porto se afirmará como póloindustrial. Verifica-se que, enquanto os distritos de Lisboa e Porto concentram umpouco mais de 1/3 da população do país, detém uma parte muito mais significativa daactividade económica. Embora apenas metade das empresas aqui estejam sediadas,encontram-se entre estas tanto as mais importantes como as que têm capital social maiselevado.Existem grandes disparidades na taxa de urbanização entre as várias regiões do país (verfigura 1 em anexo). Para além das zonas metropolitanas, as áreas onde maior número depessoas reside em lugares com 5.000 e mais habitantes são os distritos do Sul e as Ilhas.Os menos urbanizados são os do Centro Interior e os do Norte, apresentando o LitoralOcidental características de transição. No continente, a atracção do povoamento pelaorla litoral é devida, não só à menor altitude, como também à maior fertilidade dos solose, principalmente, à facilidade de comunicações. O povoamento e a rede urbana dasregiões autónomas reflecte ainda com mais clareza esta vocação pelas posições litorais.Situadas no mar, foi pelo mar que viram chegar os primeiros povoadores que, através danavegação, mantinham o essencial dos contactos entre si e com o exterior.Os lugares com uma população de 5.000 e mais habitantes são particularmentenumerosos no litoral, de Setúbal a Viana do Castelo, no Algarve e mesmo no AlentejoInterior, enquanto as menores ocorrências se verificam no Alentejo litoral e no interior anorte da Cordilheira Central (ver figura 2 em anexo). Isto prende-se com um conjuntode razões histórico-geográficas nas quais avultam a facilidade de comunicações e amaior fertilidade das terras baixas atlânticas, as marcas da tradição urbana muçulmana 7
    • 8avivadas pelo modelo de divisão da terra adoptado depois da Reconquista, e os efeitosda proximidade da fronteira.Os factores histórico-culturais têm expressivos reflexos nos contrastes existentes entre oNorte e o Sul, enquanto a oposição litoral-interior parece reflectir mais fortementecondicionantes geográficas e económicas.O noroeste é uma região de povoamento disperso em que o crescimento económicorecente continua a dar-se nos ramos tradicionais, com destaque para as indústrias têxteise do mobiliário, que apresentam uma estrutura empresarial bastante pulverizada peloque o seu desenvolvimento não implicou alterações profundas na estrutura dopovoamento. Quanto à dimensão dos lugares nota-se o predomínio pouco nítido dosmais pequenos e uma rede relativamente equilibrada em termos demográficos, com apopulação a distribuir-se quase equitativamente entre grandes, médios e pequenoscentros. Os distritos de Aveiro, Coimbra, Leiria e Santarém têm uma posição detransição entre o norte menos urbanizado e o sul mais citadino. O povoamento algarvio conta com núcleos urbanos de dimensão apreciável. O distritode Faro mostra, assim, uma taxa de urbanização elevada e dispõe de uma rede urbanarelativamente equilibrada. Na Região Centro existe uma distribuição equilibrada depovoações médias, mas faltam as de pequena dimensão não existindo centros dedimensão intercalar entre os centros médios e os muito pequenos. Esta situação podeestar relacionada com o enorme despovoamento a que foi sujeita esta área por via daemigração, e com a reduzida actividade industrial e até agrícola.O Alentejo apresenta uma rede simples, que traduz a sua fraca densidade populacional eas condições de relativa homogeneidade física e de fácil acessibilidade existentes.Região com povoamento aglomerado e importante tradição urbana, tem uma elevadataxa de urbanização que registou aumento pronunciado nas últimas décadas, devido aocrescimento de Setúbal e ao declínio demográfico dos outros distritos.Em Trás-os-Montes, ao contrário do Alentejo, verifica-se a falta de centros de grandesdimensões. Com povoamento de tipo aglomerado mas escassamente habitada e sem atradição urbana do sul, esta região apresenta um número reduzido de centros urbanos,que pouco têm aumentado e se situam nas classes de pequena e média dimensão. Ascaracterísticas da rede urbana devem-se à falta de gente, à pequena procura demobilidade e ao atraso na formação do sistema urbano num território com grandesobstáculos naturais à comunicação. De facto, a reduzida acessibilidade das regiõestransmontanas e a ausência de tradição urbana explicam que duas regiões interiores eigualmente pouco populosas apresentem aspectos tão diferentes do ponto de vistaurbano. 8
    • 9 3.2 - O SURTO URBANO ACTUAL A urbanização começa a não estar apenas confinada aos perímetros urbanos einvade outras áreas. Se os emigrantes são o veículo privilegiado de urbanização, aproliferação de residências secundárias contribui fortemente para aquilo que algunschamam de rurbanização. Também a localização de algumas indústrias e grandessuperfícies comerciais na área peri-urbana, para isso contribui.Em paralelo com esta disseminação do “habitat” individual nas periferias, assistiu-se aoincremento da construção em altura, mesmo em vilas de pequena dimensão onde oespaço não escasseia.É depois da Segunda Guerra Mundial que o movimento de suburbanização adquiremaior vigor, estimulado por uma procura crescente de habitações a que a cidadetradicional não podia dar resposta. O alojamento suburbano tende, então, a ser fornecidoatravés da construção de imóveis cada vez mais altos, procurando minimizar a subidado preço dos terrenos e a obtenção de maiores lucros.Nos anos 60, em paralelo com a progressão das urbanizações, começa a assistir-se aoloteamento ilegal de importantes áreas da periferia urbana. Num período de fortecrescimento demográfico, grandes bloqueios no mercado habitacional e acentuadaespeculação, muitos desses lotes serão utilizados para construção neles surgindo prédiosde elevado número de andares, em resultado de práticas de corrupção, suborno eespeculação. Nascem, assim, os bairros clandestinos, que se multiplicam comocogumelos nos anos seguintes.O crescimento das áreas urbanas processa-se através da conversão do uso do soloagrícola na periferia, de modo que avanço da urbanização implica o sacrifício de áreascultivadas, não raras vezes com grande fertilidade. Este processo faz-se através dotransbordar da zona urbana, cobrindo todas as áreas envolventes ou privilegiando certoseixos dotados de maior acessibilidade. A progressão urbana pode também ser feita deforma mais difusa, sobre áreas muito vastas, inserindo-se as residências ou algumasactividades económicas de tipo urbano no meio rural, no qual subsiste a agricultura.Este processo é desencadeado pela utilização do território por residências secundáriasdos habitantes de uma grande cidade, caso em que a rurbanização pode chegar bastantelonge, mas pode também resultar do emprego de rurais na cidade, sem envolvermigração residencial, podendo estes activos conservar uma actividade agrícola a tempoparcial (agricultura de pluriactividade). A importância dos migrantes pendulares é ummecanismo importante de conservação, tanto da estrutura agrária, como dos processosprodutivos existentes.Fora das duas áreas metropolitanas, o processo de urbanização/suburbanização vem-seefectuando sem a grande aglomeração de alojamentos em espaços restritos,característica dos subúrbios tradicionais de tipo dormitório. Assim, o aumento damobilidade individual e a própria alteração dos padrões locativos da indústria permitemuma ocupação mais dispersa do território, tanto pelas actividades económicas, comopelos trabalhadores, muitos dos quais mantém esquemas de pluriactividade. Aurbanização dissemina-se no tecido rural, produzindo-se paisagens de característicasmistas, típicas do que se costuma chamar urbanização difusa ou rurbanização. 9
    • 10 3.3 - AGRICULTURA DE PLURIACTIVIDADE E INTEGRAÇÃO ESPACIAL As novas e complexas configurações espaciais resultantes das transformações sociais ocorridas nos últimos 15 a 20 anos parecem por em causa duas das grandes dicotomias sobre as quais assentava o modelo espaço-temporal do pensamento clássico: agricultura/indústria, rural/urbano. Porém, as transformações da agricultura e do espaço rural induzidas por essas transformações sociais não significam que a agricultura e espaço rural deixem de existir; a especialização do espaço agrícola e diversificação do espaço rural, por via do surgimento nesse espaço de novas funções e do recuo da actividade agrícola, conduzem a uma ruralidade transformada mais do que a uma dissolução da ruralidade.A questão que se coloca hoje é a da articulação/integração entre espaços sociais. Maisdo que votar ao “ostracismo” a designação rural, a questão fundamental passa porredefinir teórica e metodologicamente o modo de apreender as realidades socio-espaciais à luz do novo modelo de acumulação e regulação económica e social.A agricultura de pluriactividade constitui-se cada vez mais numa nova articulação entrea agricultura e outros sectores de actividade económica. Em Portugal a integração daagricultura e do espaço rural na economia e na sociedade englobantes tem-se feito, até àdata, sobretudo através do mercado de trabalho e não tanto através do mercado deprodutos a montante e a jusante do sector agrícola. De facto, a industrialização daagricultura encontra-se, em Portugal numa fase de atraso relativamente a outros paísese, porventura, de certa forma comprometida. Em contrapartida, a significativa expressãonumérica da agricultura praticada numa base de pluriactividade conduz, sobretudo noNorte e Centro Litorais do País, a configurações socio-espaciais onde a clássicadicotomia rural/urbano se dissolve.Na base da importância económica e social deste tipo de agricultura estão processos deurbanização difusa e de industrialização em meio rural, que vão da implantação nosespaços rurais da indústria cujos centros de decisão estão localizados fora dessesespaços, até a formas industriais de carácter endógeno, a designada industrializaçãodifusa.Em Portugal, a agricultura de pluriactividade representava em 1979, 48% do total dasexplorações agrícolas e cerca de 32% da área total. A esmagadora maioria deste sectorencontra-se confinado à pequena agricultura (42,5%). O que é especifica à situaçãoportuguesa é que o grosso destas explorações constituem uma agricultura a tempoparcial de base camponesa. Trata-se, na maior parte das situações, de uma agriculturaque funciona como retaguarda de outras fontes de rendimento, designadamente dosalário. A agricultura, principalmente a pequena agricultura familiar, assume assim, umpapel decisivo na reprodução da força de trabalho assalariada noutros sectores. Algumasevidências empíricas localizadas nos distritos do Norte e Centro Litorais ( os focosregionais da pluriactividade agrícola em Portugal) parecem apontar para uma maiorintensificação agrícola entre os agricultores pluriactivos do que os agricultoresmonoactivos.4 – CONCLUSÃO 10
    • 11Esperamos com este nosso trabalho ter conseguido, por um lado, dar uma perspectivado pensamento dos quatro autores escolhidos e, por outro, contribuir para a reflexãosobre as novas orientações estratégicas de forma a poder olhar para o futuro do mundorural à luz das grandes linhas de evolução das relações campo-cidade observadas nospaíses mais evoluídos.Tendo em conta o evoluir do movimento teórico que tem vindo a guindar o espaço,tentámos dar, neste trabalho, uma ideia do novo posicionamento da sociologia ruralperante a problemática do espaço. O campo e a cidade não são compreensíveis em simesmos, à margem das relações entre ambos existentes. A problemática espacial vem-se desenhando, com precisão crescente, como representando o campo analítico e aperspectiva de análise susceptíveis de conferir especificidade tanto à sociologia ruralcomo à urbana e, ao mesmo tempo, como ponto de convergência entre ambas.Gostaríamos de poder olhar para o futuro com esperança na sustentabilidade do meioambiente. É para isso necessário olharmos para as relações cidade-campo tendo emconta os requisitos ambientais e as expectativas e necessidades das populações queresidem em cada uma dessas áreas.BIBLIOGRAFIA: - Ferrão, J., 2000, “Relações entre mundo rural e mundo urbano”, Sociologia - Problemas e Práticas, nº 33, Lisboa: CIES - ISCTE, pp. 45-54. - Barros, A., 1990, “A Sociologia Rural perante a problemática do espaço”, Sociologia - Problemas e Práticas, nº 8, Lisboa: CIES - ISCTE, pp. 43-53. - Lima, A. Valadas, 1990, “Agricultura de pluriactividade e integração espacial”, Sociologia - Problemas e Práticas, nº 8, Lisboa: CIES – ISCTE, pp. 55-61. - Salgueiro, T. B., 1992, A cidade em Portugal, Porto: Afrontamento, pp. 55-79, 200-209.TRABALHO DE: José Paulo da Costa Neves – Turma: SPA3 – Nº: 22700 Maria Luísa Ekila Madeiras – Turma: SPA3 – Nº: 22707 11
    • 12 ANEXOS FIGURA 1FIGURA 2 12