Your SlideShare is downloading. ×
Mesquita   elis regina neuhaus de - maternidade
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Thanks for flagging this SlideShare!

Oops! An error has occurred.

×

Introducing the official SlideShare app

Stunning, full-screen experience for iPhone and Android

Text the download link to your phone

Standard text messaging rates apply

Mesquita elis regina neuhaus de - maternidade

177
views

Published on


0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total Views
177
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
1
Actions
Shares
0
Downloads
5
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

Report content
Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
No notes for slide

Transcript

  • 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL DEPARTAMENTO DE ARTE E COMUNICAÇÃO CURSO DE ARTES VISUAIS MATERNIDADE ELIS REGINA NEUHAUS DE MESQUITA Campo Grande – MS 2008
  • 2. 2 ELIS REGINA NEUHAUS DE MESQUITA MATERNIDADE Relatório técnico - científico apresentado como exigência parcial para obtenção do grau de Bacharel em Artes Visuais à Banca Examinadora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, sob a orientação da Profª Drª Carla Maria Buffo de Cápua. Campo Grande – MS 2008
  • 3. 3 DEDICATÓRIA AO MEU ESPOSO Algumas pessoas marcam a nossa vida para sempre, umas porque nos vão ajudando na construção, outras porque nos apresentam projetos de sonhos e outras nos ajudam a construí-las. Quero lhe agradecer pelo simples fato de você existir, e fazer parte da minha vida, e, por estar comigo em todos os momentos precisos, nos bons e maus momentos me apoiando e me ajudando nesta longa caminhada, que para mim não é apenas uma realização profissional, mas sim pessoal. Dedico a você meu amor, por mais essa vitória. Te Amo!
  • 4. 4 AGRADECIMENTOS A DEUS Que em sua infinita bondade para com o ser humano, me deu forças para alcançar meus objetivos, levando-me assim à satisfação profissional e pessoal. AOS MEUS PAIS Pela minha vida, pelo meu caráter e pelo amor dedicado até os dias de hoje. AOS MEUS FILHOS E ESPOSO A vocês que são a razão do meu viver, que sempre me apoiaram, me deram forças para alcançar meus objetivos e anseios, amo vocês. AOS MEUS MESTRES A todos que fizeram parte da minha vida nesses quatro anos de lutas e conquistas, obrigado pelo apoio, carinho e amizade, que Deus abençoe a todos. AOS MEUS AMIGOS, COLEGAS E FUNCIONÁRIOS Agradeço a todos pela ajuda, pela compreensão e pela dedicação, com certeza levarei saudades de todos.
  • 5. 5 A finalidade da arte é dar corpo à essência secreta das coisas, não é copiar sua aparência. Aristóteles
  • 6. 6 RESUMO Neste trabalho coloco todas as pesquisas e as leituras realizadas para a obtenção do grau de Bacharel em Artes Visuais, sob a orientação da Profª Drª Carla Maria Buffo de Cápua. As formas femininas que sempre excitaram a criatividade dos artistas ao longo dos séculos também serviram como fonte inspiradora para o desenvolvimento deste projeto de bacharelado, o objetivo foi o de desenvolver em uma linguagem escultórica essas mesmas formas, nas quais a maternidade está em evidência. Esta temática foi uma escolha de caráter pessoal pelo fato de ser um sonho realizado e também por ter sido explorada pelos artistas ao longo dos séculos. Neste trabalho o elemento orgânico feminino é apresentado de forma especial. As esculturas se apresentam com linhas suavemente curvas, vazados e torções, que acolhem sempre uma forma ovóide, dando ênfase à maternidade. Esta poética encontra-se em várias obras de Henry Moore e Brancusi. As obras foram modeladas e argila, e, através da técnica da fôrma perdida, foram vazadas em massa plástica e pintadas com uma cor suave.
  • 7. 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO....................................................................................................09 CAPÍTULO I - A ESCULTURA ATRAVÉS DO TEMPO..........................................12 1. A figura feminina na escultura.................................................12 CAPÍTULO II – DO FIGURATIVO AO ABSTRATO...............................................21 1. A Trajetória...............................................................................21 1.1- Artistas Inspiradores..............................................................23 CAPÍTULO III – A CRIAÇÃO...............................................................................25 1. Procedimentos metodológicos..................................................25 1.1- Análise das obras...................................................................26 CONSIDERAÇÕES FINAIS..................................................................................32 BIBLIOGRAFIA.................................................................................................34 ANEXOS............................................................................................................36
  • 8. 8 LISTA DE FIGURAS Figura 1. Vênus de Willendorf.....................................................................12 Figura 2. Efebo de Crítios............................................................................14 Figura 3. Afrodite de Cnido.........................................................................14 Figura 4. A Visitação...................................................................................16 Figura 5. A Virgem e o Menino...................................................................17 Figura 6. Pietá..............................................................................................18 Figura 7. Figura Reclinada...........................................................................18 Figura 8. Princess X.....................................................................................19 Figura 9. Sol Poente.....................................................................................20 Figura 10. O Urutu.......................................................................................20 Figura 11. Concepção..................................................................................27 Figura 12. Nutriz..........................................................................................28 Figura 13. Materna.......................................................................................29 Figura 14. Protetora......................................................................................30 Figura 15. Mãe Mulher.................................................................................31
  • 9. 9 INTRODUÇÃO Tradicionalmente, dizemos que escultura é um corpo no espaço, é a técnica de representar objetos e seres através de variadas formas. Sua origem baseia-se na imitação da natureza, com o intuito maior de representar o corpo humano, a sensualidade e a beleza. Muitas esculturas desde a Pré-História foram associadas a poderes mágicos, quase sempre eram representadas através de formas femininas e sensuais. O homem, um ser que facilmente seria vencido pelos elementos da natureza, produziu muitos artefatos que o possibilitaram dominar e transformar o meio cultural. Dentro da cultura humana, as obras de arte não devem ser encaradas como algo extraordinário, mas devem ser vistas profundamente integradas na cultura de um povo, pois em certo tempo, retratam elementos de seu meio natural. O que está muito presente nas diversas culturas é a preocupação com a beleza dos objetos, até mesmo os objetos essencialmente úteis são concebidos de forma harmoniosa. Cresci contemplando esculturas, as criadas pelo engenho e arte dos homens, e as produzidas pela própria mãe natureza. Já é sabido no campo das artes plásticas, enunciado por diversos teóricos que escultura é uma arte que representa imagens plásticas em relevo total ou parcial. Existem várias técnicas relacionadas à escultura.Vários materiais se prestam a esta arte, alguns que duram muitos anos como o bronze ou o mármore, outros mais fáceis de trabalhar, como a argila, a cera, a massa plástica ou a madeira. Embora possam ser utilizadas para representar qualquer coisa, ou até coisa nenhuma, tradicionalmente o objetivo maior foi sempre
  • 10. 10 representar o corpo humano, a natureza divina ou formas abstratas. A escolha de um material normalmente implica a técnica que o artista vai utilizar. Com todas essas informações observei que Henry Moore, Barbara Hephworth ou mesmo Michelangelo, esculpiram figuras para representar a maternidade em diversas formas e momentos da vida da mulher. Por isso, e por entender que a família é a unidade básica da sociedade e é também um tema tradicional usado pelos artistas de todos os tempos, resolvi, então, desenvolver minha monografia baseada na importância da maternidade, pois sou mãe e tenho plena certeza da importância do amor recíproco entre mãe e filho. Se olharmos a nossa volta, poderemos ver que somos rodeados desse sentimento de carinho, amor em cada objeto criado. Desenvolvi meu projeto utilizando formas abstratas e antropomórficas, buscando a maternidade em suas curvas, deixando transparecer a figura terna e protetora desse ser tão precioso para a humanidade, desde os tempos mais recuados. Vemos por exemplo pela Vênus de Willendorf da pré-história que esta não pretendia ser um retrato realista, mas uma idealização da figura feminina, onde transpareceu uma relação forte com o conceito da fertilidade e maternidade, pois seus órgãos genitais, bem como a barriga e os seios são volumosos, em detrimento das outras partes do corpo. A mudança que ocorre em relação à mulher com a maternidade, seu corpo, suas curvas, seu ar de poder e ao mesmo tempo frágil me levou a estudar mais profundamente o assunto. Durante boa parte da história da arte vamos encontrar a mulher como conceito de amor, da fertilidade e maternidade. Podemos dizer que as formas femininas povoam os ideais dos artistas desde os tempos antigos, onde sua origem não é mais lembrada. De acordo com Tubert (1991:78),
  • 11. 11 Se olharmos a história, observaremos que o lugar e a valorização da maternidade no âmbito sociocultural se modificam e variam em função das diferentes épocas e contextos respondendo a interesses econômicos, demográficos, políticos, etc. Sem dúvida, parece evidente que em toda sociedade patriarcal a mulher entra em ordem simbólica apenas como mãe. Minhas obras escultóricas com o tema maternidade consistem em representar formas abstratas, feitas com a técnica da fôrma perdida, sendo produzidas em massa plástica e pintadas com cores suaves. Este trabalho encontra-se dividido em três capítulos. O primeiro capítulo apresenta um histórico da figura feminina como fonte inspiradora ao longo do tempo, e de que forma foram representadas pelos artistas. No segundo capítulo abordo a trajetória onde o figurativo sofre, e nasce então a abstração, levando o artista a enfrentar seus próprios medos e alegrias. Ainda no segundo capítulo abordo os artistas que me inspiraram para que eu pudesse concluir meu trabalho, e no terceiro capítulo coloco todos os procedimentos metodológicos e a análise das obras produzidas.
  • 12. 12 CAPÍTULO I A ESCULTURA ATRAVÉS DOS TEMPOS 1. A FIGURA FEMININA NA ESCULTURA No contexto da história da arte, a escultura é uma das artes mais antigas praticadas pelo homem e uma das mais propagadas por todo o mundo, desde a pré-história. Vemos por exemplo pela Vênus de Willendorf (Figura 1) da pré- história que esta não pretendia ser um retrato realista, mas uma idealização da figura feminina. A sua vulva, seios e barriga são extremamente volumosos, de onde se infere que tenha uma relação forte com o conceito da fertilidade e maternidade. Na realidade, como na pintura mágica, o artista talvez quisesse apenas ressaltar as características da fertilidade feminina: por isso acentuava- lhes os volumes (Proença, 2001). Fig. 1: Vênus de Willendorf, calcário, 24.000 a 22.000 a.C. Viena, Museu da História Natural (Proença, 2002)
  • 13. 13 Os gregos, aproximadamente no final do século VII a.C, no período arcaico começaram a esculpir grandes esculturas feitas em mármores. Procuravam fazer figuras realistas, deixando transparecer em suas obras o conceito de beleza. Na Grécia as estátuas não tinham função religiosa como no antigo Egito, sendo assim conseguiram evoluir livremente. Segundo Proença (2002), enquanto os egípcios procuravam fazer uma figura realista de um homem, o escultor grego acreditava que uma estátua que representasse um homem não deveria ser apenas semelhante a um homem, mas sim um objeto de beleza. A estátua conhecida como Efebo de Crítios (Figura 2) nos leva a entender como as esculturas do período grego superaram as convenções rígidas dos períodos anteriores. Ela nos mostra alterações neste aspecto, em vez de olhar bem para frente, esta tem a cabeça ligeiramente voltada para o lado, sendo assim, em vez de apoiar-se igualmente sobre as duas pernas, o corpo descansa apenas sobre uma delas, quando assume uma posição mais afastada em relação ao eixo da simetria. Como o material mais utilizado era o mármore, e este era muito pesado, muitas vezes acabava se quebrando, porque determinadas partes do corpo não estavam apoiadas, por isso a solução do problema foi trabalhar com um material mais resistente e que expressava melhor o movimento, como o bronze.
  • 14. 14 Figura 2: Efebo de Crítios,480 a.C Museu da Acrópole, Atenas. (Proença,2002) Já no período helenístico a representação da forma humana vem acompanhada de emoções, amor, liberdade, e é também onde aparece o nu feminino, como na escultura da Afrodite de Cnido (Figura 3), mas nos períodos anteriores a mulher era esculpida sempre vestida. Figura 3: Afrodite de Cnido, 370 a.C Museu Pio- Clementino, Roma
  • 15. 15 Os gregos criaram vários mitos para preservar a memória histórica de seu povo. Portanto para buscar um significado para os fatos políticos, econômicos e sociais, os gregos criaram uma série de histórias de origem imaginativa que eram transmitidas através de literatura. Grande parte dessas lendas e mitos chegou até os dias de hoje e são importantes fontes de informações para entendermos a história da civilização da Grécia Antiga. Enxergavam vida em quase tudo que os cercava, e buscavam explicações para tudo. A imaginação fértil desse povo criou personagens e figuras mitológicas das mais diversas, entre elas as ninfas que eram divindades femininas associadas à fertilidade. Embora não fossem imortais, as ninfas não envelheciam, tinham o dom de profetizar, curar e nutrir. Gregos, persas, medievais, renascentistas e modernos, todos acabaram de uma maneira ou de outra representando a figura feminina sob várias maneiras e formas, e o resultado foi bastante satisfatório para a arte. A visão feminina nas artes nunca provocou um sentimento de vergonha, pelo contrário, sempre foi considerada uma figura casta, amorosa, etc. Quando representadas com seus seios nus à mostra, o artista dava ênfase ao ato de amamentar, do amor entre uma mãe e seu filho, e não como uma figura sexual. Foi sobretudo na figura feminina, na maternidade que eles mais se inspiraram, desde a criança alimentando-se no seio de sua mãe, e nesse caso nem mesmo a figura da Virgem Maria e Jesus escaparam. Na idade Média, durante o período gótico a escultura estava quase sempre associada à arquitetura. Um exemplo fortíssimo dessa união é A Visitação (figura 4), as figuras perdem a rigidez, as pregas das roupas desdobram-se
  • 16. 16 crescendo e diminuindo os efeitos de volume corporal, o movimento do corpo, e o movimento das cabeças que se olham e se falam dando lugar a uma cena. Figura 4: A Visitação, c. 1250 Pedra, Portada Ocidental da Catedral de Notre Dame. Reims (Bozal, 2006) Ainda neste período, encontramos esculturas com autores identificados, é o caso de Giovani Pisano, um artista italiano, que nasceu em cerca de 1250 e que morreu por volta de 1315. Entre as muitas obras que Pisano esculpiu está A Virgem e o Menino (figura 5) que, diferentemente de uma estátua românica típica, que representava Maria rigidamente sentada e o menino Jesus de joelhos, esta está em pé, e segura o menino com o braço esquerdo, sugerindo que o braço direito ficasse livre para executar os afazeres da casa.
  • 17. 17 Figura 5: A Virgem e o Menino, Giovanni Pisano, Capela Arena, Pádua (Proença, 2002) No Renascimento o italiano Michelangelo Buonarroti (1475-1564) escultor, pintor, arquiteto, poeta e engenheiro representa o exemplo do gênio na Renascença. Seu talento transcende o tempo e continua a ser fonte de inspiração e influência para muitos artistas contemporâneos, um grande artista, que através da sua obra Pietá, (Figura 6) demonstrou o amor de uma mãe ao ver o filho morto em seus braços.
  • 18. 18 Figura 6: Pietá, Michelangelo, 1497-1500, 174x195x64 cm Basílica de são Pedro, Vaticano (Proença 1989: 92) Na arte contemporânea a mulher é representada através de formas abstratas, sinuosas e leves. O inglês Henry Moore (1898-1986) foi um escultor, cujas obras, em sua maioria, deixavam transparecer a figura feminina e materna em seu contexto. Sua escultura, Figura Reclinada (Figura 7), passa a ousadia de Henry Moore ao fazer buracos profundos tornando a figura algo mais abstrato. Ele utiliza o vazio como elemento da composição da obra. Fig. 7: Figura Reclinada, Henry Moore, 1938 Dimensão: 88.9x132. 7x73. 7 cm Tate Gallery, London.
  • 19. 19 Constantin Brancusi (1876-1957), considerado um dos mais importantes escultores do século XX, criou formas abstratas simples que acabavam despertando sensações táteis no observador. Na obra Princess X (Figura 8) podemos perceber a simplicidade com que o artista trata suas obras. Quando Brancusi produzia suas obras em mármore ou metal, ele dava a elas um polimento esmerado, resultando assim um aspecto luminoso e provocando sensações táteis em quem observa a obra. Fig.8: Princess X, Brancusi Museu Nacional de Arte Moderna, Paris (www.brasilescola.com/princess.com.br) Segundo Braga (2004), na pintura Tarsila do Amaral (1886-1973), muito viva e inteligente aos 16 anos foi estudar música em Barcelona, na Espanha. Passado algum tempo, Tarsila resolveu seguir sua vocação artística, começando pela escultura e modelagem, e em seguida estudou desenho e pintura. Em Paris, na Academia Julian, desenhou figuras femininas em tons pálidos. Tarsila já demonstrava seu jeito diferente de pintar e cheio de novas idéias, cores e formas mais simplificadas.
  • 20. 20 Tarsila passou por várias fases, entre elas o antropofagismo, onde representa suas figuras com formas irregulares e volumosas. Suas paisagens eram feitas com sonhos e formas abstratas como podemos verificar na tela o Sol Poente (figura 9), e também faz o uso de ovos em suas pinturas como na obra O Urutu, (Figura 10). O elemento ovóide utilizado por Tarsila pode ser percebido nas obras de Brancusi, assim como nas minhas. Nestas, ele simboliza também o início da vida, do ser, o filho desejado. Fig.9:Sol Poente, Tarsila do Amaral,Óleo sobre tela,54x65 cm Coleção Geneviéve, Rio de Janeiro (Braga, São Paulo, 2004) Fig.10:O Urutu, Tarsila do Amaral, Oléo sobre tela, 60x 72,5 MAM, Rio de Janeiro (Braga, São Paulo, 2004)
  • 21. 21 CAPÍTULO II DO FIGURATIVO AO ABSTRATO 1.1- A TRAJETÓRIA Denominar uma obra de arte como figurativa ou abstrata é uma forma não só de estabelecer parâmetros classificatórios, como também determinar algumas das vertentes ocorridas no campo das artes plásticas, principalmente ao longo do século XX. De uma maneira geral a arte figurativa corresponde à representação da natureza e de objetos passíveis de serem reconhecidos, enquanto a arte abstrata corresponde exatamente ao contrário. Segundo Argan (1992), se caracteriza aí uma passagem com a descoberta de uma nova e profunda estrutura da forma. Entretanto, quando procuramos entender tais linguagens como forma de expressão relativa a um movimento estético, seus significados ganham outra dimensão. Assim durante o próprio século XX, a forma de expressão figurativa se manteve sempre presente como ainda se mantém, a despeito do modo como pudesse e pode ser desenvolvida. Foi com o abstracionismo inaugurado pelo artista russo Kandinsky em 1910, que a história da arte conheceu suas mais profundas e radicais rupturas, propiciando o surgimento de diversos segmentos os quais, grosso modo, podem ser genericamente entendidos como abstratos. Desse modo, foi tomando como referência os elementos mais básicos que compõem a estrutura de uma figura, como forma, cor e linha, que o concretismo se desenvolveu na Europa a partir dos anos 30. Nos anos 50, já bastante disseminada, a arte concreta encontrou no Brasil uma série de artistas que souberam fazer dessa linguagem uma espécie de expressão predominante,
  • 22. 22 como se, com isso as expressões figurativas deixassem de ter sua devida importância e presença. Identificar essas categorias parece fácil, é só pensarmos que tudo aquilo que se parece com o que conhecemos no mundo natural faz parte da categoria figurativa e, ao contrário, tudo o que não se parece com o que podemos reconhecer no mundo natural, faz parte da categoria abstrata. Simples e direto. As imagens abstratas não se parecem muito com aquilo que conhecemos. Entretanto, devemos nos lembrar que esta forma de arte tem nome por fazer parte de uma construção intelectual humana, são produtos culturais e não produtos da natureza, portanto, são realizações humanas, logo, são figuras da cultura e não do mundo natural. De acordo com Ostrower (1990:55), Portanto, é justamente esta compreensão, e a plena aceitação do fato, o respeito pelos limites que dão ao artista, ou ao cientista, a liberdade de se aprofundar na matéria sem medo de perder, sondar sua essência sem medo de violentá-la, com vistas à descoberta, em novas formas, de novos relacionamentos significativos. Muitas pessoas acreditam que as pinturas ou esculturas abstratas são apenas obras sem formas, com cores absurdas e figuras distorcidas da realidade. A diferença entre a escultura abstrata e a escultura figurativa é que na abstrata o artista representa o elemento como ele o vê, enquanto na figurativa ele retrata o elemento de maneira mais próxima à realidade. A obra passa a expressar não a realidade palpável do exterior, mas o interior do artista. (Argan, 1992)
  • 23. 23 1.1.1 – ARTISTAS INSPIRADORES Henry Moore (1898-1986) no começo de sua carreira trabalhou principalmente com entalhes, tanto em madeira como em pedra, para os quais desenhava esboços em papel. Para o artista, a necessidade de envolver-se diretamente com esses materiais, era de extrema importância, respeitando o caráter particular de cada um deles em vez de tentar fazê-lo parecer outra coisa. Moore era um homem quieto e despretensioso, sempre muito apegado aos seus ateliês. Viajava pouco, quando o fazia era por motivos profissionais. Possuía uma enorme sensibilidade, e conseguiu estabelecer um diálogo entre o passado clássico e a modernidade. Teve grande influência da arte pré-colombiana, da arte renascentista, do surrealismo e do construtivismo. Segundo Argan (1992), “O grande feminino” e a “grande mãe” constituem, pois, sua imagem arquetípica, e ele elabora na realidade concreta do material da escultura, ao qual nunca irá renunciar, embora numa tendência pessoal a abstração, à qual, por outro lado, nunca chega, permanecendo, dessa forma, sempre ligado a concretude da realidade. Em suas enormes figuras humanas estilizadas, o artista sintetiza estéticas arcaicas, abstracionistas, naturalistas e surrealistas fazendo cavidades para valorizar espaços interiores e valorizar as formas, e desdobrar a figura humana. Conforme Wittkower (1989), Henry Moore era um entalhador tão
  • 24. 24 determinado quanto Brancusi, mas segue os passos de Hildebrandt inconscientemente talhando diretamente sobre a pedra. Moore queria que nos alimentássemos ao olhar para suas criações. Este não principiava olhando para o modelo, principiava observando a pedra queria fazer alguma coisa dela, mas não fragmentá-la nem reduzi-lá em pedaços, mas procurava descobrir o que a pedra queria. Ele não queria fazer uma mulher de pedra, mas sim uma pedra que sugerisse uma mulher. Para Argan (1992), Constantin Brancusi (1876-1957) é um dos expoentes, desde o início do século XX, da escultura internacional, à qual, com extraordinária sintetização expressiva, dava uma guinada decisiva rumo a uma nova formulação abstratizante. Por sua vez, tentou chegar às formas mais despojadas, libertando-se das aparências de superfície para revelar a beleza íntima dos próprios materiais utilizados. Brancusi, considerado o pai da escultura moderna, em busca do segredo da matéria, procurava a essência das coisas, simplificando incessantemente as formas buscando o original. A sensibilidade e a expressão de cada linha e cada curva nos dão a sensação de paz. Essa fascinação pela maternidade é que me ajudou a criar algumas formas. Como Henry Moore e Brancusi, meu trabalho tende à simplificação das formas, dando ênfase à temática.
  • 25. 25 CAPÍTULO III A CRIAÇÃO 1. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Para a escolha da linguagem artística não foi difícil decidir pela escultura, matéria com a qual sempre tive identificação desde o começo do curso de artes visuais, e a temática “maternidade” que me acompanha há anos. Primeiramente através de estudos bibliográficos, realizados em livros, internet, artigos, revistas, fiz um levantamento de dados com a intenção de dar um suporte teórico ao meu trabalho. Logo após começaram os esboços bidimensionais feitos em desenho e no grafite. Comecei então a desenvolver as esculturas tridimensionais em miniaturas, utilizando a técnica da modelagem em argila, que me proporcionou uma visão melhor do volume e das formas obtidas em cada uma delas. Com o preparo de um suporte feito de madeira, comecei a modelar as peças em argila. Depois da peça pronta, esta foi dividida ao meio com chapas de raio-x . Então, utilizando a técnica da fôrma perdida, técnica esta que consiste em retirar apenas uma peça como produção final, pois a fôrma ao término do processo é quebrada, comecei a banhar a peça com gesso. Com a fôrma pronta e limpa, usei vaselina como desmoldante e vazei massa plástica para a reprodução final da peça. O acabamento das peças foi feito com lixas de diversas gramaturas utilizando a lixadeira elétrica e
  • 26. 26 também o trabalho manual e, em seguida com a ajuda de um compressor foi feita a aplicação de tinta esmalte na cor pétala para valorizar a temática escolhida. Este procedimento foi utilizado para a criação das cinco obras para apresentação final do curso de Bacharelado em Artes Visuais. Todo o processo prático pode ser visualizado nos anexos. 2. ANÁLISE DAS OBRAS As obras foram compostas através de pesquisas, buscando uma poética individual. Como já foi citado, referem-se ao tema maternidade remetendo à figura feminina, que é insinuada por formas orgânicas antropomorfas nas quais predominam as linhas curvas. Para compor as minhas obras utilizei poucos elementos, visando a sensualidade e simplicidade das formas. Para tanto utilizei linhas suavemente sinuosas, curvas, explorei a expressividade dos cheios e vazados, dos cortes, alongamentos, etc. Das formas orgânicas nascem cinco obras, Materna, Concepção, Vida, Proteção e Mãe Mulher. Essas devem ser observadas por vários ângulos, cada espectador deve mover-se para apreciá-las por completo. As superfícies são facilmente visíveis, as curvas e as reentrâncias contribuem para proporcionar ao espectador a noção de seu real volume. As esculturas remetem a uma sensação de movimento, do qual formas parecem brotar, nascer da superfície em que se encontram.
  • 27. 27 2.1 – CONCEPÇÃO Fig.11: Concepção Esta obra é constituída por uma figura distinta que representa o ventre de uma mãe com o seu ovo já fecundado. Nela explora-se a expressividade do cheio e do vazado, as curvas sinuosas deixando transparecer o prazer pelo ovo concebido. O ovo é a unidade de equilíbrio, é o elemento da fusão entre a figura feminina e a figura materna. Simboliza a matriz fecundada, o momento da concepção, o início do ser embrionário.
  • 28. 28 2.2 – NUTRIZ Fig.12: Nutriz A forma feminina nutre seu filho, enquanto ela o segura em seus braços. A cabeça reclinada identifica a atenção de uma mãe ao ver se seu bebê está seguro e bem nutrido. Composta por uma forma cheia, compacta, suas curvas suaves se derramam sobre a criança deixando em evidência carinho e o cordão umbilical existente entre uma mãe e um filho.
  • 29. 29 2.3 - MATERNA Fig.13: Materna Esta é uma obra que simboliza o cuidado de uma mãe para com o seu filho, envolvendo-o em seus braços. Esta forma reflete toda a ternura e amor para com sua prole. É uma figura constituída de duas partes, o corpo feminino que segura em seus braços ainda o ovo, simbolizando seu filho. Esta obra é constituída por elementos simples, sinuosos, formando uma figura sensual e ao mesmo tempo materna.
  • 30. 30 2.4 – PROTETORA Fig.14: Protetora Essa figura foi constituída em duas partes separadas, o corpo da mãe, e as figuras ovóides simbolizando seus filhos. Esta obra aparece sentada de forma despojada, sua cabeça levemente voltada para frente, observando sua prole, preocupada em protegê-la. As pernas dispostas ao redor dos ovos formam uma espécie de ninho, simbolizando a segurança do abrigo, do calor materno.
  • 31. 31 2.4 - MÃE MULHER Fig.15: Mãe Mulher Como todas as outras obras, esta também é composta por volumes curvos, retorcidos, formas despojadas e sensuais. Esta aparece derramada horizontalmente sobre o plano transmitindo a sensação de movimento. Esta obra é composta por uma figura antropomorfa bastante feminina, com uma silhueta bem definida que sugere a sensualidade e erotismo de uma mulher.
  • 32. 32 CONSIDERAÇÕES FINAIS Pude perceber que durante todo o período da história da arte estudado do 1° ao 4° ano do Curso de Artes Visuais, a mulher foi a figura mais representada pelos artistas. Essa fascinação pelas formas femininas não é difícil de entender, pois as curvas e formas arredondadas nos fazem valorizar a sensualidade exibida. Propus-me a realizar este trabalho para expor à sociedade o quanto é importante a maternidade nos dias de hoje. A mudança que ocorre em relação à mulher com a maternidade, seu corpo, suas curvas, seu ar de poder e ao mesmo tempo frágil me levou a estudar mais profundamente o assunto. O maior objetivo ao desenvolver este trabalho é deixar transparecer a importância e a força que a palavra mãe tem perante a sociedade e o mundo. A partir daí, nasceu um trabalho escultórico bastante expressivo que valoriza a sensualidade das linhas curvas e os volumes arredondados que ressaltam as formas femininas e acentuam o sentido da maternidade, utilizando poucos elementos e explorando os cheios, vazios, alongamentos e torções. Para chegar a essas formas tive muita dificuldade, para sair da figuração e construir formas abstratas, precisei fazer muitos exercícios de desenho e modelagem. Elaborar um trabalho sobre uma questão vivida há milhões de anos é fascinante, e pensar que esta nunca deixará de existir, nos aguça a investir em um estudo mais profundo para que possamos nos conhecer.
  • 33. 33 Como Henry Moore e Brancusi, minha produção escultórica tende à simplificação das formas, dando ênfase à temática. Creio que ao término deste trabalho, consegui adquirir uma linguagem própria, apesar das dificuldades que não foram poucas e que muitas vezes pareciam intransponíveis. Agora, ao olhar para trás, a sensação do dever cumprido se faz presente, e pude constatar o quão válido foi para meu crescimento profissional. Pode -se concluir ao final deste trabalho, que a linguagem escultórica utilizada, e o suporte teórico aliado a prática, foram de grande valia para o descobrimento de uma linguagem própria, que, com certeza, continuará a se desenvolver.
  • 34. 34 BIBLIOGRAFIA ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo: Editora Schwarcz, 1992. ARNHEIM, Rudolf. Arte e Percepção Visual: Uma psicologia da Visão Criadora. São Paulo: Editora Pioneira Thomson Learning, 2002. BRAGA, Ângela. Mestres das Artes no Brasil. São Paulo: Editora Moderna, 2004. BOZAL, Valeriano. Escultura I. (História Geral da Arte). Madri: Ediciones Del Prado, 1995. ________________ Escultura II. (História Geral da Arte). Madri: Ediciones Del Prado, 1996. _________________Escultura III. (História Geral da Arte). Madri: Ediciones Del Prado, 1996. GOMBRICH, E.H. A História da arte. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1993. HADDAD, Denise Akel. A Arte de Fazer Arte. São Paulo: Editora Saraiva, 1° Ed. 1999. JACKSON, Deborah. Ser Mãe: Maternidade: uma Experiência sem Fronteiras. Rio de Janeiro, 1º edição, 2006. KRAUSS, Rosalind E. Caminhos da Escultura Moderna. São Paulo: Martins Fontes, 2001. PROENÇA, G. História da Arte, 1° Ed. São Paulo: Ática, 2001. PRYOR, Karen. A arte de amamentar. São Paulo: Summus, 2º edição, 1981. RAFFA, Ivete. Fazendo Arte com os Mestres. São Paulo: Editora Escolar, 2007. TUBERT, S. Mujeres sin Sombra. Maternidad y Tecnologia. Madrid: Alianza Forma, 1984. WITTKOWER, Rudolf. Escultura. São Paulo: Martins Fontes Editora, 1989.
  • 35. 35 ZANINI, Walter. Tendências da Escultura Moderna. São Paulo: Editora Cultrix Ltda, 1980.
  • 36. 36 ANEXOS 1: Fotografias de algumas etapas da construção das esculturas.