Ó ?      conversa fiada e papo de botequimFabio da Silva Barbosa
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Você ainda atua como blogueiro. Fale um pouco sobre esse trampo.Leyla Buk e eu mantemos o blog Canibuk, www.canibuk.wordpr...
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Thina Curtis e Olga Ribeiro na I Fanzinada- 2011 -Para celebrar o Dia Mundial do Fanzine (29 de abril), zineiros do ABC or...
não conhecem. Teremos muitas atividades e várias formas de expressão, como teatro,grafitti, poesia...Você já atua nesse me...
precisamente durante um bate papo com a escritora e agitadora cultural Dalila TellesVeras, proprietária de um espaço cultu...
Tem mais algum material vindo por aí?Ainda não estou preparando nada, mas já tenho bastante munição para uma próximaedição...
Agrotóxico HC- 2010 -De acordo com o dicionário Michaelis, agrotóxico é: agrotóxico (a.gro.tó.xi.co) =(cs) sm (agro3+tóxic...
Não para nós... Mas é plenamente possível você gastar todo o seu dinheiro nele!HahahaE a Red Star? Como anda?A Red Star é ...
A mídia comunitária na luta pela verdadeira democracia na comunicação- 2011 -Em todo o Brasil podemos observar o crescimen...
espaço para comunicação desse gênero - um espaço não só noticioso, mas de reflexão evalorização cultural e social. Mas a p...
O Aviso Final- 2011 -Chegando aos 21 anos, o Aviso Final ainda ecoa pelos quatro cantos do planetaredondo. Renato Donisete...
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  1. 1. Ó ? conversa fiada e papo de botequimFabio da Silva Barbosa
  2. 2. Pra começarQuem somos nós? Somos escritores, zineiros, loucos e sóbrios. Levamos um som,rabiscamos umas linhas e construímos veículos que se tornam pontes. E assim fuiorganizando essas entrevistas que realizei entre 2009 e 2011. Uma pesquisa frenéticapelo “universo paralelo”. Fui entrando em contato com a galera que curte as braçadasdesse longo nado contra a corrente. Cada um a seu jeito, cada pensamento um caminho.Enquanto muitos lamentam e se deixam levar pela maré, existem aqueles quemergulham de cabeça, os que contestam as verdades estabelecidas... os que trazempropostas, mesmo quando só querem expurgar, gritar, dançar.Desejo a todos uma boa viagem pelo mundo dos que tem, na livre expressão e naresistência, grandes armas na luta por algo a mais que a mesmice cotidiana.Fabio da Silva BarbosaFoto da capa:Por Fabio da Silva BarbosaFoto de homem bêbado dormindo – Trabalhada em PhotoshopTirada em uma esquina do Centro de Niterói, RJ.
  3. 3. Redson fala sobre vida, luta e Cólera.Agradecimentos a Deise (Revoluta Produções)- 2009 -Formado em 1979, na cidade de São Paulo, pelos irmãos Redson (Edson Lopes Pozzi)na guitarra e vocais e Pierre (Carlos Lopes Pozzi) na bateria, o Cólera foi um dosprimeiros grupos de punk rock brasileiro. O baixo ficava por conta de Hélinho, quemais tarde foi substituído pelo amigo Val (Valdemir Pinheiro), substituído depois porJosué Correia, seguido por Fabio Bossi. Participou da coletânea inaugural domovimento punk no Brasil, “Grito Suburbano” (1982), e desde cedo se destacou pelapostura pacifista, antimilitarista e ecológica. Duas coletâneas viriam depois – “Sub” e“O Começo do Fim do Mundo” (ao vivo), ambas de 1983. Seu primeiro LP, “TenteMudar o Amanhã”, saiu em 1984. O segundo, “Pela Paz em Todo o Mundo” (1986),tornou-se recordista de vendas, se tratando de uma produção independente (85 milcópias). Em 1987 se tornou a primeira banda de punk rock do país a excursionar pelaEuropa. Em 1989, gravações destes shows viraram um disco ao vivo. No mesmo ano abanda lançaria o LP “Verde, Não Devaste”. Nos anos 90 lançou o disco “MundoMecânico, Mundo Eletrônico” (1991) e “Caos Mental Geral” (1998). Em 2000 a bandaganharia novo destaque, uma vez que a Plebe Rude regravou a música “Medo” em seudisco ao vivo e os Inocentes apostaram na “Quanto Vale a Liberdade” em “O Barulhodos Inocentes”. Fábio saiu em 2006, sendo substituído pelo antigo baixista, Val. Em2008 fizeram a tour Européia comemorando os 29 anos de banda. Atualmente o Cóleraestá fazendo a Tour “30 Anos Sem Parar!”.Quem é Redson e o que é o Cólera?Redson sou eu, ainda me descobrindo. Até onde sei bem, Redson = Filho Vermelho.Cólera é uma expressão de ímpeto, indignação, impulso. É nome da bandaque faz um som diversificado, com raiz no punk rock e asas nasmensagens. Isso há 30 anos. Sua atuação como militante político vem desde antes do Cóleracomeçar. Conte um pouco sobre essa fase pré Cólera.Nos anos 70, antes de rolar o punk rock, eu estive presente naspasseatas de Sampa; de professores, estudantes, bancários... o quefosse contra a ditadura, eu tava lá! Isso durou na ativa uns três anos. Depois adoteiarmas mais poderosas: uma guitarra e um microfone. Já era !!!E depois que a banda deu certo, o que mudou?Mudou todo o cenário nacional. Nosso desbravamento dos possíveiscaminhos do som alternativo presenteia a cena nacional com bandas indoe vindo da Europa; cenário do faça você mesmo presente (mesmo que nãoesteja como queremos, está rolando atividade, está andando) e muitasoutras conquistas que não precisamos dizer.O que sempre foi legal: nossa definição, desde o início, de não termosbloqueios sonoros. Os primeiros sons eram um tipo de country punk, comletras surrealistas... Em 1979... hehehe.Como você, que canta pela paz e sobre ecologia há tantos anos, vê ainsistência do ser humano em promover uma realidade tão violenta eautodestrutiva?
  4. 4. Existem muitas guerras que vemos e que não vemos. Nosso próximo álbumtem uma ópera, a "A Ópera do Caos", que narra as guerras maisincomuns. O estado de estupidez que ainda mantém essas guerras nomundo é justamente uma guerra de meia dúzia de seres que nãocresceram, mas estão em cargos de muita responsa. Então, sugiro um bomterapeuta para tratar desta síndrome de Peter Pan que atacalíderes e manda-chuvas neste momento da história.Existe um discurso comodista que sempre lança contra qualquer tipode esforço: “Nada disso adianta. O mundo é assim e pronto. Nunca vaimudar”. O por que disso?Bem, o termo que consolida isso é SUPRESSÃO. Quando alguém vê sua conquista emaprender ou em buscar algo com forte expectativa;o supressor, vendo-se inferior em seu estado mórbido e de baixaauto-estima, logo deprecia a possibilidade, suprimindo sua ação. Não é brincadeira,mas teremos uma música no próximo álbum chamada Supressão... heheheheComo uma banda sobrevive tantos anos sendo independente?Com seus membros trabalhando fora, se virando pra sobreviver. Nunca vivemos dabanda.Como você se define política e ideologicamente?Mutante radical ou Idealista livre. É melhor. Como busco ser eu mesmo, é a ação maisforte que conheço politicamente. Atrai o melhor para todos.Agora vou dar alguns temas e gostaria que você falasse sobre eles:Mídia: Um veículo a ser usado com cautela (touro doido... hehehe)Terrorismo: MentirasDrogas: As drogas matam, as ervas curam. Plantas de poder podem serexcelentes veículos, sabendo pilotá-los, é claro.Indústria tabagista: Idade da pedraA atual situação política brasileira: Desrespeito. Faço meu dia a dia.Nem perco tempo vendo noticiário. Vejo os cataclismas e assuntosque me interessam para a sobrevivência. Se você for atrás, todasas notícias são as mesmas todos os dias em todos os órgãos decomunicação. Nossa!!! Só deve ter um jornalista em cada fato. Nãoexiste relatividade na informação. Eles governam sua cidade, fazemcaixa pra investir na campanha de governador e assim querem ir até otopo. E nós, com um imposto novo por bimestre, pagamos os panfletose vinhetas de última categoria.Quero deixar um salve aí pra todos que estão na vivência do faça vocêmesmo! Seja banda, zine, grafitte... Faça alguma coisa. Quem fica paradoé POSTE!!!Contatos da banda:http://colera.orghttp://www.myspace.com/coleraoficialhttp://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=28030
  5. 5. “A minha arte, o meu trabalho, a minha vida, obrigatoriamente, têm que serúteis.”- 2011 -Reflexão e arte é o trampo desse guerreiro. Eduardo Marinho divide com seu públicoexperiências vividas e traz importantes questões que costumam ser empurradas paradebaixo do tapete pelos demagogos de plantão. Cada obra um novo tijolo na construçãode um mundo mais justo e igualitário.Vamos começar por um assunto bem atual: O conflito no Rio de Janeiro. Solta o verbo.O conflito cotidiano é o mais cruel, porque despreza e exclui gerações e gerações.Milhões de vidas atiradas à barbárie, destruindo a alma, impedindo seudesenvolvimento pleno, debaixo de brutal repressão. A sociedade é mais cruel com osmais fragilizados, como os covardes. O massacre é cotidiano e é físico, moral epsicológico.Esse conflito que estamos vendo aí, por causa da copa, do pan e da disputa deterritórios entre facções e milícias – engrossando o caldo com os interessesimobiliários nas áreas que vão se valorizando – não é novidade. É mais uma tragédiacotidiana imposta às populações de baixa renda, com a “vantagem” da criação deterror, com o aparato de guerra ostentado nas operações. Em 2008 teve a mesmacoisa: guerra, mortes, tiros, terror. No fim, comemoraram a “retomada” com desfile ebanda de música no Alemão, no clima de “para sempre”. Que nem agora, combandeira lá em cima. Isso é um filme velho. Atrás, como sempre, interesses financeirose na exploração, no controle e na contenção da população pobre e excluída.O conflito principal da atualidade é o das mega-empresas contra os povos. É umconflito dissimulado pela publicidade, onde se convence o povo de que as empresas sãoótimas e nos amam e só pensam no bem estar geral – enquanto desalojam populações,induzem ao consumo compulsivo, financiam campanhas de políticos e pressionam porleis e isenções que as beneficiem, frequentemente às custas de malefícios gerais.Impedem os investimentos na educação pública, controlam as comunicações, mantêmbancadas no Congresso e nas assembleias legislativas locais, se infiltram no judiciário,no executivo. Mas isso não é só no Rio. É no mundo inteiro.E os indígenas? Essa galera também vive em eterno conflito pelo Brasil e diria até pelomundo (onde ainda tem população indígena expressiva). Como resolver tais questões?A invasão europeia iniciou a era do genocídio. Os povos originários são massacrados,expropriados, expulsos das suas terras, violentados, derrotados. Sem condiçõestecnologias para enfrentar as armas europeias, os indígenas foram exterminados porcinco séculos. Calcula-se que haviam cerca de 15 milhões, só na área do Brasil. Em1970, o censo indicou 180 mil originários no Brasil. Com as políticas indigenistas,mesmo cosméticas e restritas, o massacre diminuiu a intensidade e a população pôdeaumentar um pouco.Acontece que, para o sistema produtivo e consumista, essa estrutura social trazidapelos europeus que funciona com base na maioria pobre, que necessita produzirmiséria, o índio é um mau exemplo. Em princípio, as populações originárias produzemtudo o que necessitam sem depender das indústrias, sem ter o consumo como o centroda vida. O que o índio materialmente precisa, ele sabe fazer. Casa, rede, utensíliosdomésticos, armas de caça ou pesca, canoa, remédios, tudo tirado da natureza à suavolta, sem destruição, sem produção em massa, sem precisar da escravidão de umemprego mal remunerado, em péssimas condições de trabalho, de transporte, enfim, de
  6. 6. vida. Para o índio, a coisa mais importante da vida é viver e viver bem. Isso é umperigo para os valores tão hábil e meticulosamente plantados no inconsciente coletivo,que levam as pessoas a aceitarem vidas massacradas como se não houvesse outraopção. Narcotizadas pela mídia, desarmadas pela falta de um ensino que merecesse onome, as pessoas não questionam o modelo de sociedade em que vivemos. Os “maus”exemplos não podem ter perdão, precisam ser destruídos, ao menos moralmente, mas,se possível, fisicamente.Você me pergunta como resolver... Como é que vou saber? A resistência taí, as ações,lentamente, vão aparecendo. O Estado continua submetido pelos interesses dolatifúndio, agora rebatizado de “agro-negócio”, com a entrada de diversasmultinacionais no meio, reforçando as remoções, os ataques, a difamação. Vi umautidor, lá no Espírito Santo, posto pela Aracruz Celulose – empresa que poluiu oambiente, encheu de eucaliptos uma área enorme do estado e expulsou os originários,décadas atrás – dizendo que “A Aracruz trouxe empregos, a Funai trouxe os índios”. Éuma das maneiras de jogar a população contra os indígenas. São táticas sórdidas. Masa internet, hoje, tornou-se uma arma de defesa, divulgando as informações que a mídiaesconde, trocando informações entre os movimentos de resistência e defesa contra osataques, denunciando os crimes e convocando apoios às lutas.Se formos minimamente justos, veremos que o Estado deve reparação a todos os povosindígenas. Primeiro, reconhecer o genocídio secular, físico e cultural. Retirar osinvasores de suas terras e por em prática os direitos que já foram reconhecidos, masque o poder econômico da minoria não permite que sejam postos em prática.Você sempre comenta sobre o governo atrás do governo. Fale um pouco sobre.Falo sobre os poderes atrás dos governos. Talvez seja melhor dizer acima. Os cartéisbancários, o mercado financeiro, as grandes indústrias – farmacêutica, de armamentos,alimentícia, da construção, da comunicação, etc.-, fizeram do Estado um teatro demarionetes, usando os políticos como os bonequinhos. Eles não aparecem segurando osfios, pois controlam os holofotes da mídia, que focalizam a política, não o poder. Comono teatro, parece até que as marionetes controlam o espetáculo. Essa é a maestriadeles. Mas sempre acontecem os vazamentos. Me parece que cada vez vaza mais. Nogoverno que entra, anuncia-se uma luta neste sentido. Ano passado houve aConferência Nacional de Comunicações, em que mandaram os representantes da mídiaprivada e as conquistas foram poucas. Eu vi o blog deles, no fim do ano. Tinha cerca de30 seguidores, apenas. E o problema afeta quase a totalidade da população, com adistorção das informações, a formação insidiosa dos valores baseados no consumo,desde a mais tenra infância, a exploração da sabotagem educacional, o estímulo aosexo, à violência, à competição desenfreada, etc, etc. Na minha opinião, uma dasprincipais frentes de luta, hoje, é romper o bloqueio da mídia, democratizar, pulverizare acabar com esse poder incontestável de pressão sobre os poderes que, afinal, sãopúblicos, lembremos. E fiquemos atentos ao processo que se inicia com o próximogoverno.Uma questão que poucos te perguntam, mas sei que você entende alguma coisa, é sobrea importância da alimentação. Ter uma boa alimentação pode vir a ser um atorevolucionário? Pode e deve. A alimentação industrial não tem o menor compromisso com a nutrição,com a saúde. Ao contrário. A impressão que tenho é que há um acordo entre a indústriaalimentícia e a farmacêutica. A alimentícia acaba com os nutrientes, enche de químicasnocivas à saúde, conservantes, colorantes, aromatizantes e outros que dão até medo,
  7. 7. quando se lê nos rótulos – fora o que não vai escrito. Induz-se o consumo destaalimentação, a população adoece e precisa de medicamentos, dando lucro também àindústria farmacêutica. Ou seja, a indústria alimentícia tira o que presta, enche do quenão presta, as pessoas adoecem e precisam se medicar. Alguém já viu algum médicoreceitar arroz integral? Não. Ele receita complexo B. No arroz integral tem todo ocomplexo B.Mas o que se come é o arroz branco, que é muito mais amido. Na raspagem do arroz,eles vendem a película (que contém as vitaminas e a fibra) para os laboratóriosfarmacêuticos. Não parece combinado? Eu não me espantaria. É possível se alimentarcom os produtos da terra, sem precisar de quase nada industrial. É muito melhor prasaúde e é um ato revolucionário que afeta o poder da indústria. A Monsanto enfiou ostransgênicos goela abaixo do Brasil, onde era proibido o plantio e a comercializaçãode tais produtos. Os venenos necessários ao plantio de transgênicos são os mais fortesque já existiram. Desde 2007 o Brasil é o maior consumidor de venenos agrícolas domundo – tá na Caros Amigos de novembro, página 9. Várias pesquisas apontam oaumento de aborto e outras doenças nas povoações próximas aos campos de sojatransgênica. Uma pesquisas do INCA (Instituto Nacional do Câncer) e da UFCE(Universidade Federal do Ceará) comprovaram o aumento na incidência de câncersobre a população brasileira, devido ao aumento do uso de agrotóxicos. É a guerra dasempresas contra os povos. O inimigo está infiltrado e enraizado na administração doEstado, sabotando o próprio povo e controlando as comunicações.Escolher bem o que se come, neste contexto, é uma atitude revolucionária e de autopreservação.A arte obrigatoriamente tem de ser útil?A arte é um instrumento de diálogo com o abstrato do ser. Falando assim, pode parecerestranho, mas falo da sensibilidade, do emocional, do psicológico, do inconsciente, dossentimentos. Se o artista vai trabalhar no sentido de libertar ou aprisionar, dedenunciar ou disfarçar, conscientizar ou alienar, ou mesmo fazer trabalhos neutros,decorativos, sem nenhum engajamento humano, político ou social, aí é uma questãopessoal de caráter, de temperamento, de mentalidade. Eu poderia dizer que é até umaquestão de solidariedade com a família humana. Mas, com os valores vigentesapontando para o “cada-um-por-si”, hábil e artisticamente plantados no inconscientecoletivo através dos noticiários, das novelas, dos filmes e dos programas de tv, rádio,revistas de futilidades e panfletos anti-povo e pró consumo desbragado, o estímulo totalao egoísmo, não é de espantar a raridade dos artistas dedicados à evolução dasociedade e do ser humano. Além do mais, a arte que aprisiona, ilude, aliena, futiliza eesconde a verdade é muito bem paga. Os melhores são transformados em celebridades,como se a fama fosse um objetivo em si. Já o outro tipo de arte é marginalizado,omitido, desprezado e até perseguido.A minha arte, o meu trabalho, a minha vida, obrigatoriamente, têm que ser úteis, têmque existir nessa direção. Bom, a palavra útil aí pode servir pros dois lados. A arteprostituída é útil aos que pretendem manter esse estado de coisas em que vivemos. Éfácil ser artista, difícil é viver de arte e não a prostituir.Mesmo vendo tanta merda ao nosso redor, o otimismo está sempre em seu horizonte.Como ser otimista diante de tanta crueldade e egoísmo.Não vejo o otimismo em meu horizonte. Vejo o horizonte e vou andando na direçãodele, atento à minha volta. Enquanto de um lado vejo crueldade e egoísmo, do outrovejo generosidade e altruísmo. Tenho visto muito trabalho de conscientização, de
  8. 8. atendimento, de esclarecimento, de sensibilização. Claro que são poucos, raros, oEstado não assume suas obrigações... Podemos mudar isso, mas não sabemos dissoainda. Por isso o ensino é sabotado (o público) e controlado (o privado e o superiorpúblico). Para que sejamos fáceis de conduzir pela mídia, pelo massacre publicitário,em nossos valores, nossos conceitos, nossos objetivos de vida. Aí está um grande focode trabalho. É preciso espalhar, causar reflexão, alcançar as pessoas reflexivas eangustiadas, mostrar como a estrutura funciona e como somos todos levados asustentar, com nosso comportamento e nossa submissão moral, essa estrutura socialinjusta, covarde e suicida, que sabota, aprisiona e martiriza a maior parte dapopulação. Há muitos trabalhando na corrosão dessa estrutura. Esse é o nossotrabalho. Sem ele a vida perde o sentido. Se dará resultado, se será logo ou não, é umaquestão menor. O destino é a caminhada, o objetivo é o trabalho no sentido dailuminação, da claridade, do esclarecimento, da sensibilização e da conscientização.
  9. 9. Armagedom- 2011 -Em 1982 nascia a banda Última Chance, que mais tarde deu origem ao Armagedom.Aprendendo a tocar tocando, os caras criaram uma forma impar de expor seu ponto devista. Ferocidade e impacto é o que se pode esperar. O que mais dizer? Deixa que oJavier fala ao responder as perguntas que lhe enviei. Afinal, ele sabe mais sobre a bandaque eu. Mete bronca, Javier. O espaço é teu.O Armagedom sempre teve uma sonoridade diferenciada e um estilo de letra muitopróprio. Quando a gente faz algo que não está dentro de um padrão é sempre maisdifícil e mesmo assim vocês conseguiram garantir o espaço. Como foi esse processo decriação da banda e qual a reação inicial do público?Eheh... Realmente, querer fazer algo um pouco diferente é bem difícil, principalmentequando é uma banda que não sabia tocar nada!! EheheEu, sinceramente, não sei como conseguimos nosso espaço. Muita gente fala das letrase das mensagens... Acho que se você faz algum projeto com sinceridade e se expressade verdade, com certeza terá seu espaço. Essa é a mensagem. É possível sim!!!No início, nós tocávamos muito mal e éramos garotos tentando fazer algo. Tivemos umareceptividade razoável e conseguimos gravar um LP (o que foi incrível!!!). Nós nãorealizamos muitos shows no início. A cena punk era bem complicada naquela época.Tudo que fizemos foi com muita vontade e sinceridade. Criamos a banda semconhecimento musical nenhum. Foi complicado, mesmo por que não tínhamos nada(instrumentos, conhecimento, local, nada). Conseguimos ensaiar no estúdio do Cólera ecomeçamos a aprender. O que tínhamos?? Ideias, vontade e amizade. Foi isso quesustentou e sustenta a banda até hoje.Muitas bandas citam vocês como referência e existe um público que reconhece aimportância do trabalho.Sempre ficamos muito felizes com esse reconhecimento. É muito legal e acho que é omais gratificante nesse tempo todo. Tanto nos shows em várias cidades daqui do Brasilcomo da Europa, um pessoal sempre comenta com a gente a respeito do nossotrabalho. Eu não imaginava que teríamos tantos amigos em tantos lugares diferentes.Pode ter certeza que isso é muito, muito importante para a banda. Nos dá mais energiapara continuarmos com nosso trabalho.No meio underground existem muitas bandas, fanzines e produtores de vídeos que estãopassando por uma espécie de esquecimento das raízes e acabam perdendo asreferências, mas vocês continuam firmes no mesmo estilo, sem deixar de evoluir, éclaro. Manter-se fiel ao estilo e a proposta do trabalho é fundamental?Para nós é fundamental, mas os tempos mudam e todo mundo precisa evoluir eentender o que se passa ao redor. Conhecemos bandas muito boas nesses anos todos,mas imaginar que somente o antigo é bom parece muito reacionário e antiquado.Somos influenciados pelo passado e pelo presente. Isso é importante. Acho que éimportante manter certa linha de pensamento, uma coerência para enviar suamensagem e não parecer apenas um modismo ou oportunismo, mas acho que cada umtem o direito de escolher o que é melhor para si. A única coisa que lamento é verbandas muito, muito boas que terminaram de um momento para outro. É uma pena.Antigamente as bandas duravam mais. Acho que a facilidade de fazer e refazer projetosacaba por tirar um pouco da garra de manter um projeto vivo. Algo para se pensar.
  10. 10. O hard Core nacional sempre influenciou bandas de países distantes, como a Finlândia,e com o Armagedom não foi diferente. Como se deu esse contato?Eheheh... Na verdade, desde o início fomos influenciados por Riistetyt, Terveet Kadet eoutros. Na década de 90, tive contato com o pessoal do Força Macabra, que são muitoirmãos da gente. O Força Macabra nos ajudou em muitas coisas e sou muito grato aeles pela continuidade do Armagedom. É incrível como bandas do meio punkconseguiram criar esse cenário de fraternidade. Me parece o meio onde isso ocorreudo modo mais anárquico e fraternal possível. Realmente é muito legal!!Houve um grande período em que a banda parou. Por que pararam e por que voltaram?Ficamos um bom tempo parados entre 1993 e 1999. Foram questões pessoais quecomplicaram a continuidade da banda. Às vezes você precisa abdicar de algumascoisas para cuidar de sua família, principalmente quando seus filhos são pequenos enecessitam de você. Isso ocorreu com a banda e ficamos esse tempo fora do ar.Voltamos porque eu, o Ricardo e o Eduardo tínhamos vontade de continuar com nossotrabalho e decidimos retornar ao ver que já haviam condições para retornarmos. Jápodíamos encaixar a banda novamente em nossas vidas de um modo legal eequilibrado.Quais as principais diferenças dos shows de hoje e os shows do passado?Ehehe... Essa é boa! Bom... Agora sabemos tocar muito melhor, os instrumentos sãomuito, muito, muito melhores, as casas têm melhores condições, o público vai paraassistir ao show e não para matar uns aos outros e tudo funciona muito melhor. No meuponto de vista, acho que os shows são melhores e quem vai assistir sai satisfeito com abanda e as condições em geral.Vocês faziam idéia que o Armagedom ainda iria estar tocando em 2011?Sinceramente não fazia idéia, mas posso dizer que gostamos muito de tocar e queestaremos por aí por muito tempo ainda. Tem muito o que rolar!!O que vem por aí?Estamos finalizando os sons para um novo disco com o nosso novo vocal, Thrash, eacho que está ficando muito bom mesmo. Estamos muito contentes com o resultado atéagora. Temos uma faixa na internet (www.myspace.com/armagedom) e no facebook(armagedom the deathcore) que o pessoal está gostando bastante. É uma amostra doque vem por aí!!! No próximo ano, com certeza, estaremos fazendo mais uma tour naEuropa e vamos nessa!!!Javier X X ///email armagedom@hotmail.commyspape www.myspace.com/armagedomfacebook armagedom the deathcore
  11. 11. Ric Ramos e a Janela Poderosa- 2011 -Troquei uma ideia com Ric Ramos, editor do zine Janela Poderosa. Querem ver o resultado?Então, lá vai.Como surgiu o Janela Poderosa?Surgiu da necessidade de fazer um material independente. Eu nunca tive tempo paramontar um zine e quando fiquei doente, a quatro anos atrás, em casa, sob licençamédica, é que finalmente tive a oportunidade de criar um. Não parei mais.E a edição especial que coleta os 8 primeiros números? Qual a intenção destapublicação?Não só eu, como muitos outros zineiros, tem dificuldades em manter seus zines por umacerta periodicidade. Muitos morrem no meio do caminho. Eu considero estas últimasedições importantes por conseguirem grande aceitação dos leitores. É o que me motivaa não parar e por isso o Janela sobreviveu até estas edições. Além de alguns acertos epequenas modificações a serem feitas, deixa de ser experimental compreendendo o seuamadurecimento. Alternando com este material, criei a “Edição Dedicada” e as microséries em quadrinhos.Pude observar algumas entrevistas muito interessantes nessa edição coletânea, como adaquela senhora que participa de uma turma de mulheres na índia que literalmente vão aluta por seus direitos. Como você consegue essas entrevistas e como romper a barreirada língua?Sim, a Sra Sampat. Os indianos são muito simpáticos. Pra editar o Janela, sempre façomuitas pesquisas e contatos. Estava fazendo a pesquisa sobre gangues americanasquando achei uma matéria sobre este grupo na Índia. Entrei em contato com o autor dotexto que me passou para um contato na Índia e este intermediou o contato com elapor e-mail.Meu inglês não é muito bom e voltei a exercitar pra melhorar isto. Mas eu não sei bemcomo consigo os contatos. Me identifico como zineiro convidando para uma entrevistae aí vai. Consigo mais entrevistados estrangeiros do que aqui no Brasil. Não era praser assim. A cultura do zine lá fora é forte, enquanto aqui acredito que não seja tãorespeitada ainda.Você considera esses 8 primeiros números como uma fase experimental, issosignificaria que a partir deste momento o Janela teria uma abordagem definitiva?Considero este modelo definitivo. Formato, proposta e etc. E como eu disseanteriormente, este modelo compreendi pelo modo de aceitação dos leitores e por issocriei outros seguimentos do Janela para não descaracterizá-lo.Além de leitores brasileiros, o Janela possui uma galera de outros países que curte otrampo. Como se deu esse intercambio?Também não sei bem, mas é fácil de imaginar. A culpa disto é da internet. No início foium leitor português que me perguntou se era possível receber um exemplar. Negar umzine para mim é o mesmo que negar um copo com água. Mando até hoje pro cara.Depois foi a paraguaia, Mônica, do blog Zinesfan - Possivelmente foi a partir dela quedesencadeou. Fora os contatos pra conseguir entrevistas e dados.
  12. 12. Depois, entrei em contato com zineiros americanos e entrei para uma rede social só dezineiro, a “WE MAKE ZINES”. Lá, fazemos vendas e trocas. Foi quando tive de criar aedição em inglês.Qual a principal função de um zine?A principal função é de informar, mas este tipo de mídia tem o poder de transcender eligar os setores.Qual os próximos passos do Janela?Alcançar leitores marcianos?... Não sei. Aos poucos o Janela anda sozinho. Em poucotempo ele alcançou uma notoriedade. Eu planejo poucas coisas e elas vão tomandoforma e caminhos não planejados. Até então, está divertido! Vamos ver aonde o ventolevará este barco?
  13. 13. A Falha de São Paulo- 2010 -O jornal Folha de São Paulo retirou o blog Falha de São Paulo do ar e está pressionandoos responsáveis pela sátira. Com um processo de 88 páginas, a Folha acusa os irmãosLino e Mario Ito Boccini de uso indevido da marca, danos morais e pede indenização.Os criadores do blog já dispõem de um novo espaço virtual (Desculpe a Nossa Falha) eestão engajados na luta pela liberdade de expressão. Mandei algumas perguntas para meinformar e divulgar o que está acontecendo.Para quem não conhece, conte sobre o que seria A Falha de São Paulo.Era uma paródia, um blog que criticava a Folha de São Paulo de forma dura eabertamente cômica. Hoje estamos proibidos pela Justiça de divulgar o conteúdo, masalguns outros blogs reproduziram alguma coisa. Pra ver, precisa caçar por aí...O porque de criticar a Folha de São Paulo? Como se deu a escolha pela crítica a Folha enão a outros veículos como O Globo?Escolhemos a Folha porque muita gente ainda acredita que o jornal é moderninho,imparcial. Há um senso comum que ouço desde a época da faculdade que diz que oEstadão é “de direita”, e a Folha, “mais moderna”, seria “de esquerda”, o que éobviamente uma bobagem. A Folha é tão conservadora e partidária quanto o Estadão,com a desvantagem de ser muito mais hipócrita, finge na maior cara lavada que nãotem suas preferências políticas e editoriais. Sobre O Globo, eles merecem também!Fica a dica para outro amigo que esteja disposto a encarar um processo (“O Bobo”,“O Grobo”?...).A Folha de São Paulo alega que o processo não seria censura, mas sim uso indevido damarca. Isso procede?Não. Fosse apenas essa a questão, como eles alegam, não teriam pedido e conseguidouma liminar cassando o endereço direto no Registro.br e nem estariam nos cobrandodinheiro. Fora que “uso indevido da marca” é algo muito vago. O Bussunda fazia usoindevido da imagem do Lula, por exemplo? Se for para ir pela lógica da Folha, serãomilhares os processados. Eles próprios inclusive, por conta das charges do Angeli e decolunas do Zé Simão, por exemplo.O Glauco Mattoso, nos anos 70, tinha o Jornal Dobrabil, que era um fanzine cujo nomefazia alusão clara ao Jornal do Brasil. Isso, em uma época em que a liberdade, pelomenos na teoria, era bem menor. Como entender que em pleno 2010 uma sátira possaincomodar tanto?É a prova cabal de que a Folha é uma empresa antiga, gerida por pessoas com ideiasultrapassadas e que segue uma lógica datada. Não adianta fazer propaganda com atorouvindo jazz e usando gola rolê ou estar no tal do iPad se você tem saudades daditadura, se você ainda não entendeu o que é a internet, a crítica, a paródia. O “Jornaldo Futuro” é do futuro só na sua publicidade.A banda Planet Hemp foi muito perseguida, ao ponto dos caras chegarem na porta doshow e já ter um mandato esperando. O Roberto Carlos se sentiu incomodado econseguiu tirar sua biografia de circulação. A Xuxa não queria macular sua imagem esumiu com o filme "Amor, estranho amor". A impressão é que a liberdade de expressãoestá sempre em segundo plano, principalmente quando algo incomoda quem tem grana.
  14. 14. Se eu, que vivo uma situação financeira precária, em um momento de desespero,assaltar um supermercado e minha foto sair na primeira página de um jornal, alguémdaria ouvidos se eu reclamasse meu direito de imagem? Acredito que não. (reflitasobre) É óbvio que, num episódio assim, ninguém dará a menor pelota para você. Bastaver o que acontece quando um jornal ou uma TV noticia um crime cometido por umpobre. Eles não têm o menor pudor de pôr a cara do infeliz pra todo mundo ver,chamam de “bandido”, “assaltante” etc. Mas quando o envolvido é de classe média oualta, sempre é tratado com todos os cuidados, qualificado como “suspeito”, seu rosto épreservado... A liberdade de expressão no Brasil não está ameaçada pelo governo,conforme a turma que está por cima da carne seca da comunicação vive reclamando.Está ameaçada por eles mesmos e pelo resto do pessoal da grana. É aquela história:Liberdade irrestrita de expressão? Claro, mas para a minha turma.Qual a principal função do "Desculpe a nossa falha"?Denunciar a barbaridade da Folha, mobilizar as pessoas contra esse processo, que éum atentado contra toda a internet brasileira, e ainda nos dar um espaço para falarmossobre os assuntos que a Justiça ainda nos permite.Considerações finais:Acho sempre bom ponderar que o grande problema desse ataque da Folha é oprecedente que ele abre. Se eles ganharem essa na Justiça, abre-se uma jurisprudênciahorrorosa de coerção ao livre direito de se expressar, que pode inclusive voltar-secontra eles próprios.Outro ponto é como uma atitude dessas mostra claramente que os jornalões, a mídiatradicional, não estão preparados para o novo momento da comunicação brasileira,mais livre e capilarizada, principalmente com a Internet. A Folha vem com essa peçaabsurda de censura e os demais mostram que também não estão preparados ao ignorarsolenemente o assunto, evitando mesmo de noticiá-lo.
  15. 15. Rael – A intensidade do fazer- 2011 -Rael Brian é um daqueles caras que mergulham de cabeça em suas viagens. Atualmenteestá exibindo seus trabalhos de arte-colagem na exposição Destruindo Rostos, noCentro Cultural da Juventude Ruth Cardoso, em São Paulo. Quem não puder ir, outraoportunidade de conhecer as produções desse cara é no seu bloghttp://raelbrian.blogspot.com/. E vamos à troca de idéias.Artista plástico, fotógrafo e, de quebra, ainda tira um som. Fale um pouco sobre essestrampos e onde eles se encontram.Cara, não existe glamour em nenhum deles. É somente o que gosto de fazer e sai tudomeio que por instinto. Não é algo que eu planeje muito. É claro que todos têm ligação.Além dessas atividades, existem outras facetas do Rael?Ser preguiçoso e arredio. hahahahhahahhahaaQual a principal motivação para se dedicar a arte com tanta intensidade?Não tenho vontade de fazer outra coisa, de ter nada... Sou meio desacreditado com oque rola por aí e isso é o que me motiva.Uma palavra que defina seu trabalho:Intensidade.E o Rael pessoa? Quem é, de onde veio...De Brusque, SC. Faço parte da turminha dos tortos e desajeitados... hahahhaa A arte como atividade transformadora:Não tenho ambição em mudar algo, de levantar bandeira. Acho que a arte fala por si ecada um tem uma impressão diferente que pode ou não influenciar suas atitudes.Objetivo ou subjetivo?É relativo. Na arte prefiro o subjetivo.Consciência ou inconsciência?A vida:Às vezes bela e quase sempre uma merda.A morte:Vi na rodoviária do Tietê. Sinistro. Hahuahauhuhahuauhauhahua
  16. 16. E aí? Vamos curtir um ästerdon?- 2011 -Ué... Que isso? Você nunca curtiu um ästerdon? Pera aí então que vou te apresentarmais esta.Uma das características que chamam a atenção na ästerdon é a rotatividade dosmembros.Quando a banda começou, mais ou menos em 2003, era um projeto meu e do Punkinho(ex-Grinders e Ação Direta). A gente tinha ideia de fazer um som stoner e íamoschamando os camaradas do ABC pra tocar, mas sem muito compromisso, apenas forfun. Então, em 2004, decidimos encarar o projeto com um pouco mais de seriedade efoi aí que a formação “clássica” se estabeleceu. Eu no vocal, Punkinho na guitarra,Ideia no baixo e Viola na bateria. Essa formação durou de 2004 a 2009, e gravou umademo (“it had to start somewhere”), um EP (“...and it starts”), um single virtual decovers (“[ from ]”) e participou das coletâneas “sinfonia de cães” e “loco gringoshave a party”.E a formação atual? A quantas anda?A única mudança na formação atual foi a saída do Ideia. Hoje, o baixista é o AlexandrePudou (ex-ROT e Bandanos), um amigo nosso de longa data.Os integrantes atuais possuem outros projetos?Eu tenho um projeto chamado 93 Foundation, junto com o Edu Zambetti (ex-SapoBanjo e Slush Gods): Um projeto de covers, para tocar e gravar alguns sons quecurtimos. Já soltamos na net um single, com versões pra músicas do Band of Horses eGuided By Voices. O Punkinho está bem envolvido com música eletrônica, com aalcunha de DJ Mattiello, e já lançou dois EPs de Deep House. O Viola e o Pudou, nomomento, não possuem projetos paralelos. Mas, se você me perguntar isso na semanaque vem, talvez a resposta seja diferente... (risos)E o nome da banda? O que é e de onde surgiu a idéia?Cara, longa história, mas não custa nada contá-la novamente. Numa das inúmerasturnês do Ratos de Porão na Europa, eles conheceram uns malucos da Venezuela, deuma banda de metal, se não me engano. Eles estavam na Alemanha (outra vez “se nãome engano”) e esses malucos tinham chegado recentemente da Holanda, e estavamnaquela vibe de “podemos fumar maconha em todos os lugares”. Só que a Alemanhanão é a Holanda. Para tornar o quadro ainda mais surreal, os venezuelanos ficavamtentando arranhar um portunhol e foi nessa que apareceu a frase “Porque lá noasterdon”... Eles queriam dizer, na verdade, Amsterdam, mas saía asterdon, sei láporque cargas d’agua... O roadie do RDP, na época era o Gian Coppola, voltou proBrasil e não parava de falar isso. Era asterdon pra cá, asterdon pra lá... E issocontaminou a galera. Nessa mesma época estávamos montando a banda e achamos queasterdon era um nome que soava bem, não significava nada e já estava difundido entrenossos amigos. A trema no A foi um enfeite que decidimos acrescentar comohomenagem ao Motörhead e ao Hüsker Dü. É isso.Quais as principais influências?
  17. 17. A banda que mais influenciou a gente foi o Fu Manchu. Foi ouvindo Fu Manchu quedecidimos montar uma banda de rock básico, duro, que misturasse stoner tradicionalcom punk rock. Além do Fu Manchu, acho que outras bandas que influenciarambastante nosso som foram o Motörhead, Black Sabbath, AC/DC, Nebula, Jimi Hendrix,Slayer, KYUSS e Mark Lanegan. São as coisas que nos inspiram pra fazer nosso som.Isso não quer dizer, necessariamente, que você vai encontrar similaridade musical, atéporque cada um processa e aplica suas influências de maneira distinta.Por mais que surjam novos estilos e bandas, o bom e velho Rock está sempre ecoandopor aí. Como um estilo musical pode resistir a tanto tempo e ainda continuar commesmo vigor e impacto?Essa é uma ótima pergunta, e gostaria de ter uma resposta contundente, mas não tenho.Não sei o segredo e nem sei se existe esse segredo. Pensando em termos delongevidade, acho que o rock ainda tem muita lenha pra queimar. Afinal, são “apenas”60 anos de história. Se você comparar com a música erudita/clássica, que existe há unsbons séculos, a constatação é que a história do rock está apenas começando. Isso, semdúvida, é animador. Essa vontade de fazer um som alto, com guitarras no talo, bateriabrutal e gritar para exorcizar nossos demônios internos é uma parada atemporal. Essaforça do Rock é o que garante a sua sobrevivência em meio aos modismos e sub-genêros horrorosos. Permanece porque é bom e necessário. E permanece, também econtraditoriamente, porque não necessita de explicações: É rock, porra!O que a ästerdon está reservando para o segundo semestre deste ano?Boas novas! Acabamos de gravar o material para o nosso novo disco. E foi umprocesso muito legal, pois conseguimos a autorização da Prefeitura de São Bernardodo Campo (SP) para gravar o disco no Teatro Lauro Gomes. Fizemos seis sessões noteatro, registradas pelo produtor Angelo Hypolito. Nossa ideia foi usar a ambiência deum teatro pra conseguir captar um som melhor, mais encorpado, e fugir um pouco datradicional gravação trancado em sala de estúdio. Uma experiência única e bemdiferente pra todos nós. Agora estamos na fase de mixagem do material e o álbum deveser lançado nesse segundo semestre. Além disso, filmamos toda a gravina no teatro evamos tentar também disponibilizar esse material de alguma forma.
  18. 18. Poesia que sangra, fede e vomita- 2011 -Músico, poeta, desenhista, blogueiro (http://atunalgun.blogspot.com/) e zineiro. Esse éIvan Silva. Mais um grande talento que vem de Goiânia.Para quem ainda não conhece: Quem é Ivan Silva?Alguém a ser apresentado a mim mesmo.O que é arte e para que serve? Arte é vida. Acho que ela serve para nos ensinar. Ora a observar mais antes deconcordar com qualquer coisa, ora a perceber que, inconscientemente, maisdesaprendemos do que aprendemos a viver.Por que um artista deveria ser levado em consideração? E por que não acreditar naqueles que dão importância a troca de ideias?Considero artista aquele que desconfia de muita coisa (muita coisa mesmo).Principalmente das conclusões que ele não tira. A ideia de trocar ideias é justamenteessa. Descobrir o que é que o sujeito tem na cabeça.Como foi seu contato com a poesia e como você passou de leitor para escritor?Foi bem estranho. Choquei-me com a poesia através da música, quando comecei atocar e também quando descobri que tinha gosto pela leitura. Mas ela, a poesia, sempreesteve comigo, desde a infância. Eu é que não entendia o porquê daquele desânimo nasaulas de português. Era quase sempre gramática! E quando a professora passavaalgum livro de estória pra gente ler então que era aquilo? Eu é que não entendia...Não sabia o nome dessa loucura que faz a gente se sentir muito mais leitor do queescritor. Sem contar nos dedos, acho que comecei a escrever aos dezenove.E seu blog? Como surgiu e qual o foco?O blog também tem a sua história. Criei numa época de amor platônico quesimplesmente não vingou (se vingou). Vi-me despencando do céu, de cabeça pra baixo,como um avião de guerra abatido, a mil e não sei quantos pés chulezentos de altura.Parecia uma coisa que não tinha fim. Era a inocência no lugar da esperança. Fiqueinuma cegueira louca! Ahh época romântica... Essa não volta mais. Enfim, não sabia,mas quando o blog surgiu, o foco era esse: Derramar todas as lágrimas que um jovemsem bigode pode derramar, até se curar da ilusão enfadonha. Nesse mesmo baque dosurgimento, conheci o blog (http://paranoiafreud.blogspot.com/2009/03/caminhos-e-descaminhos-uma-introducao.html) do meu amigo irmão proseador Diego El khouri epassei a viajar na poesia da subversão, do carnal massacrado, do espírito preso edelgado, bullynizado pelas prensas do capitalismo. Coisa sufocante. Um antrodemoníaco ao mesmo tempo que erótico. Simples, mas profundo. Depois disso, fiqueimeio afastado, escrevendo só em papel. Voltei e não sabia também, mas de lá pra cá ofoco do blog mudou. É esse: disseminar os trabalhos que acho essenciais e que não medeixaram esquecer da merda mundial.Tem um zine que acabou de nascer. Qual a proposta dele?O Jornalquímico, apesar das poucas palavras e da minha ingenuidade de mancebo,mexe muito com o lado visual. Tem todo um aparato do que acontece no meio da
  19. 19. sociedade e as pessoas vêem, percebem, mas não refletem sobre. É o caso da TV,que apresenta nos jornais da noite chocantes casos de estupro infantil, um atrás dooutro, todo dia, e depois, para tranquilizar o telespectador (milhões de pessoas),vem passando a cena da novela, livre para todas as idades, como todas asoutras, que insiNUA um homem e uma mulher trepando. Não quero proibir ninguém deassistir TV (novela, jornal, futebol, sociedade filmada) com um zine, mas haja reflexão!É sua primeira experiência nesse meio?Como zineiro, é sim. Sempre fui observador, fiz meus cartoons, tive minhas idéias quesurgiram do nada... Mas, como zineiro, sofri influências. Tenho feito mais coisas alémde mostrar ou falar só do que faço. Tô sabendo que vão rolar umas camisas com seus desenhos. Como o pessoal vai fazerpara conseguir uma?Basta entrar em contato com a marginal Anna Alchuffihttp://recantomarginal.blogspot.com/2011/06/vendendo-peixe.html. Mas não tem dataprevista ainda.Tenho conhecido muitos talentos da arte marginal vindos de sua área. As condições daíestão propícias para o surgimento dessa galera, ou como é?Tem acontecido vários eventos, saraus, amigo indo poetar na casa de amigo... Isso temdespertado um pouco esse lado de interação na galera. Mas acho que a ferramentaprincipal foram os zines que vieram assim à tona, de todos lados, trazendo ainformação alternativa (trabalhos de vários artistas) que, pela mídia, não chega aténós. Outra coisa também, pra mim, o Diego El Khouri, esse poeta nosso mano, que nãoé ferramenta, foi quem dialogou, sentiu, viu em pessoas que tinham receio no quefaziam, arte, poesia... consciência à amadurecer.Qual a maior dificuldade enfrentada por essa turma para fazer circular suas idéias eproduções?A maior dificuldade tem sido a falta de grana. Até mesmo pra quem tem o material doparceiro em mãos e quer ajudar a divulgar. A opção que fica são os meios da internet(blog, facebook, e-mail) ou então ler e passar pra frente.O mundo ideal seria...Sem preconceito e sem escravidão.Agora solta a fera. Libera os demônios. Quebra tudo.Agora fomos apresentados.
  20. 20. Petter Baiestorf- 2011 -Nasceu no dia 13 de Novembro de 1974 e fundou a Canibal Filmes em Agosto de 1992para produzir seus roteiros. Esse é Petter Baiestorf, uma verdadeira referência docinema independente.A descoberta do cinema como forma de expressão e a definição do estilo a ser seguido:Desde criança percebi que cinema pode funcionar como ferramenta política. Parecemeio alien falar disso nos dias de hoje, quando o cinemão (tanto aqui no Brasil, quantoUSA, Europa e Asia) voltou a ser uma forma alienante de diversão (dados o grandesucesso de super-produções ou filmes de baixo orçamento imitando essas super-produções e o desenvolvimento de tecnologias imbecilizantes como o 3D), mas acreditono cinema que tenha algo a dizer. Minha formação em cinema é a de cinéfilo em buscade produções obscuras. Tudo que é diferente me interessa. Produzo um cinema quepode ser chamado de livre por não ficar preso a nenhuma fórmula. Acho que minhafórmula é misturar fórmulas e quebrar a lógica das fórmulas. Os elementos estão aípara serem combinados e recombinados, a experimentação não encontra limites.A Canibal Filmes existe desde 1992. Como manter um projeto, que não participa dogrande circuito, por tanto tempo?A Canibal Filmes é o Petter Baiestorf, ou vice-versa. Enquanto eu estiver vivo ela vaiexistir e vai continuar fazendo sua arte, seus filmes. Vai continuar lançando por aífilmes que pouquíssimas pessoas gostam. Formei a Canibal Filmes em 1992, estamospara completar 20 anos de existência, produzindo sempre com dinheiro do meu própriobolso os projetos que acho interessantes. Não me interessa ser igual aos outros.Procuro incansavelmente, durante este tempo todo, dar continuidade ao meu peculiarestilo de fazer filmes aqui no Brasil. Segredo de tanta longevidade: Teimosia! CanibalFilmes, ou Petter Baiestorf, ainda existe pela teimosia. Por saber que sou um dosúnicos caras no Brasil com essa visão de querer ser um autor numa época que todossão incentivados a pensar igual a todos. Sei a fórmula de fazer filminhos populares,mas isso é fácil demais. Cadê o desafio? Nossa época está cada vez mais moralmentefascista. Enquanto eu viver vou continuar fazendo uma arte que vá contra essa idéia dofascismo nas artes, da censura estética e financeira que mutila tantos artistas. Hoje oartista é podado no papel, antes mesmo de começar a sua produção. A simples idéia deque seu filme precisa dar “n” número de espectadores já faz ele se auto-censurar prágarantir sua esmolinha!E o Manifesto Canibal?É a teoria que veio da prática. É a teoria de tudo que aprendemos a fazer em anos deprodução independente. Em 2002, com problemas de dinheiro para a produção defilmes baratos, sentei e comecei a colocar várias coisas no papel com a idéia de lançarum fanzine sobre produção independente de cinema. Saiu o que ficou conhecido como“Manifesto Canibal”. Dois anos depois, em 2004, a editora anarquista Achiamé, doRio de Janeiro, me pediu pra aumentar aquele zine e transformá-lo num livro. ChameiCoffin Souza pra me ajudar na tarefa e lançamos o livro “Manifesto Canibal”, que trásuma pequena luz de como produzir à todos que queiram se aventurar na produçãoindependente. Esse livro teve tiragem de 1000 exemplares e atualmente está esgotado.Uma hora faremos uma segunda edição, revisada, ampliada e mais sarcástica.
  21. 21. Você ainda atua como blogueiro. Fale um pouco sobre esse trampo.Leyla Buk e eu mantemos o blog Canibuk, www.canibuk.wordpress.com. É um blogexclusivo de divulgação de cultura underground. Aliás, quem quiser ter sua artedivulgada lá, mande pra gente que podemos ajudar na divulgação. Canibuk englobacinema, pintura, música, pornografia, fetiches, erotismo, comida vegetariana, medicinanatural, anarquismo, bizarrices em geral e uma série de entrevistas que estamosfazendo com realizadores undergrounds. Nomes como Fernando Rick, Joel Caetano eFelipe Guerra, são fonte de pesquisa para os que quiserem falar sobre cinemaunderground brasileiro. Aos poucos iremos colocando tudo que gostamos no blog, queé atualizado diariamente por Leyla ou eu.Na RioFan 2011 (festival de cinema fantástico), aconteceu o caso de censura ao filme ASerbian Film. Como você vê esse tipo de atitude em pleno 2011?Esse tipo de censura, como ocorreu com o “A Serbian Film”, rola a vida toda. Façofilmes extremos a tanto tempo que vivo sendo censurado em tudo que é lugar, cada vezmais. Meu filme “Gore Gore Gays”, de 1998, nunca pode ser exibido em mostraalguma por discutir a sexualidade humana. O povo tem que deixar é de ser acomodado.Ninguém comenta isso, mas os deputados brasileiros estão cada vez maisconservadores e criando as leis mais absurdas. Repito sempre que conhecer a históriado nosso país e do mundo é algo muito importante. Quem conhece a história sabe quenunca, desde 1930, a sociedade esteve tão próxima do fascismo quanto nos dias atuais.Temos toda uma geração acomodada na frente dos PCs, sem se importar com nada quenão seja download ou fofoquinhas da vida alheia em redes sociais. Tá na hora decrescer e fazer a diferença. Mas, hoje em dia, percebo que os jovens sentem desconfortoem pensar diferente ou, simplesmente, pensar. Prá mim, a chave de tudo é garantir umaeducação de qualidade para todos, garantir que os jovens entendam a importância depensar por si próprios e entendam que as diferenças e a tolerância entre os diferentes éalgo básico para o bom funcionamento da sociedade. Um povo educado e inteligentepode ver qualquer expressão artística extrema sabendo separar realidade de arte. Soucontra qualquer forma de proibição!5 filmes que devem ser assistidos:Não gosto de listas porque isso limita quem está buscando informação a um caminhoindicado apenas. Minha dica é: TODOS OS FILMES DEVEM SER ASSISTIDOS,TODOS OS LIVROS DEVEM SER LIDOS, todos os assuntos devem ser discutidos.Cinco filmes que admiro muito são “United Trash”, de Christopher Schlingensief;“Sweet Movie”, de Dusan Makavejev; “Yuke, Yuke, Nidome no Shojo”, de KojiWakamatsu; “Pastoral”, de Shûji Terayama; “Sedmikrásky”, de Vera Chytilová; “ElTopo”, “The Holy Mountain” e “Santa Sangre”, de Alexandro Jodorowsky; “Viva LaMuerte”, de Fernando Arrabal; os curtas de Jan Svankmajer; os curtas de GeorgeKuchar; o senso de humor de John Waters. Mas quem não conhece o estilo de meusfilmes, não fique achando que minhas produções são na linha desses filmes que citei.O sentido da vida:Agir com responsabilidade, coisa que nem sempre conseguimos, mas que não achodifícil. Você é o único responsável por seus próprios atos. Tenha isso sempre em mente.O que te importa?
  22. 22. Tudo me importa, mas, atualmente, a ignorância da humanidade é o que mais tem meassustado. Falta pouco pros “donos da verdade”, os “donos das leis”, começarem a seachar no direito de queimar pessoas em praça pública.Como adquirir as produções da Canibal Filmes?Entra em contato comigo via e-mail (baiestorf@yahoo.com.br). Não me deixe recadosno blog ou em redes sociais porque posso demorar a responder.Considerações finais:Obrigado pelo espaço, Fabio. Em breve teremos novidades.
  23. 23. Com 15 anos de estrada, o Fungus & Bactérias dá a palavra- 2011 -Como nasceu a Fungus & Bactérias?Foi meio que no susto. Como, na época, fazia pouco tempo que estava morando emNiterói, logo tratei de me enturmar e comecei a recrutar tudo e qualquer tipo demaluco que soubesse tocar alguma coisa para o meu projeto de montar uma banda depunk rock. Mas, por incrível que pareça, as coisas começaram a dar certo com otempo. Até mesmo por eu não ter muito conhecimento de bons músicos e amigos quesoubessem tocar algum instrumento nessa época e nesse corre-corre só foi ficando agalera que estava realmente afim de levar um trabalho com seriedade.Por que Fungus e não Fungos? Para poder fazer uma diferença do convencional. Deixamos o "us" no final do nomecomo forma de marca registrada e poder associar o nome da banda ao trabalhomusical como um todo, como se fosse uma unidade de pensamento compactada numacorrente de ideais ligada ao nome da banda.Mesmo citada como uma banda de punk-metal, vocês tem um som bem próprio. Comose dá construção desse som?No início a ideia era tocar punk rock ou heavy metal tradicional, mas, com o passar dotempo, o trabalho e a sonorização das músicas foram tomando outros rumos. Somosmuito ecléticos no que diz respeito ao que cada um de nós ouve particularmente,independente do nosso trabalho de banda. Gostamos de músicas que tenham qualidade,independente do estilo. Talvez seja essa liberdade que criamos dentro da banda que nosproporcionou a criação de um estilo próprio dentro do universo de trabalho do Fungus& Bactérias.Letras como Papai Comprou Maconha e Cogumelos Amarelos demonstram esse ladocriativo e livre da banda. De onde vem a inspiração para essas letras?Algumas por conhecimento de causa, fatos ocorridos com pessoas próximas ou aquelassituações que a própria sociedade nos impõe para conviver dentro de um tabu. Muitosse sentem desconfortáveis em debater determinados assuntos quando circundam oâmbito das drogas, homossexualidade, sexo e coisas do gênero. Sendo assim, nossentimos na obrigação de esclarecer sobre o assunto em nossas letras, já que muitasbandas tem uma certa cautela em cantar letras "proibidas". Tudo que se canta sobredrogas e putaria dá ibope e a molecada, hoje em dia, assimila bem o recadinho quedamos em nossas letras.Qual a principal diferença entre uma banda independente e uma banda que estejainserida no mercado musical?A possibilidade de abranger uma melhor cobertura de pessoas que possam conhecer otrabalho da banda. Eu nem falo sobre qualidade porque tem muitas bandasunderground que tem uma qualidade de trabalho formidável, tão boa ou até melhor quecertas bandas que já foram inseridas na mídia. O que acontece na cena independente écomo se fosse uma estrada plana que não há degraus a serem galgados, enquanto quena mídia sempre há um apoio forte por parte de empresários, patrocinadores egravadoras que visam o lucro financeiro.E o cenário independente? Como está?
  24. 24. A cena independente desconhece a força que exerce sobre a galera. É um movimentoforte, porém desorganizado por parte das próprias bandas e de produtores picaretasque prezam pela exploração das bandas iniciantes, extorquindo seus míseros trocadospara tocar em seus fúteis eventos. As bandas que não se dão o devido valor aceitamesses termos de exploração. Acredito que as coisas irão melhorar quando todoscomeçarem a pensar e agir de forma coletiva e não de forma individualista. Já estamoscansados de vivenciar essa palhaçada que assola o nosso querido underground. Se essamentalidade não mudar, todos sairão perdendo: as bandas, os produtores e o própriopúblico de uma forma geral.Uma lista das músicas que fizeram a diferença para a Fungus ser o que é?Como já comentei em uma resposta anterior, fica até difícil classificar uma lista demúsicas em especial, mas posso afirmar que ouvimos de tudo, sem preconceito deestilo, e a lista seria extensa para poder citar cada música. Para resumir o assunto,podemos dizer que somos um liquidificador de estilos, tentamos absorver a essência daqualidade e trazer para um melhor desempenho do Fungus & Bactérias...
  25. 25. Diego EL Khouri – O filho da exclusão- 2010 -“Meu nome é Diego El Khouri. Nasci em 21/03/ 1986. Descendente de libanês, filho daexclusão. Antes mesmo de andar, já esboçava vários desenhos e passei minha vidasonhando e respirando arte. Uma criança excluída na infância e pré adolescência tantona escola, quanto por alguns parentes de “dinheiro”. Apanhava direto na escola por serum moleque introspectivo. Nos meus desenhos e textos me vingava dos carrascos. Euera o palhaço sem graça, que tinha taras estranhas e as escondia com um grande temor.Volta e meia as revelava na minha arte. Meu primeiro livro (não publicado) foi aos 8anos de idade. Um livro de 100 páginas chamado REI VERGONHA, onde revelo meuego, minhas inquietações e revoltas, além do desejo de amor e paz reinando em todoplaneta. Uma visão idílica da sociedade.” Diego EL KhouriVamos começar por um assunto crítico: Guerra. Fale sobre o Líbano, a região deonde originou sua família.Meu avô, Jamil Hanna El Khouri, teve que abandonar seu país de origem, pois seuirmão mais velho, o então ministro do Líbano, Ibrahim Hanna El Khouri, que lutavapela unificação dos países árabes, foi considerado pelo partido de oposição comofacista. Meu avô, depois de rodar o mundo todo, foi parar na cidade de Orizona(Goiás), em 1951. Se apaixonou por Zélia de Castro e se casaram. Tive outros parentesque também fugiram da guerra e vieram parar no Brasil. A cultura árabe é rica edigna. Respira arte e alegria, apesar de tudo. A guerra é apenas um lixo político queainda sustenta suas paredes. Sempre vi a guerra como um lixo. Ela tolhe os membros edestrói a beleza. Mas a cadeia do mundo ocidental fere muito mais e é nessa que vivo eque não tem mais cura.Minha essência está completamente ligada a exclusão, desde aminha infância, quando esboçava os primeiros desenhos. Minha vida é uma cadeia deloucos. Minha família sempre foi unida e desunida ao mesmo tempo. Ela é um dosalicerces de minha arte; a minha dor, minha raiva, minha revolta.Quando você escreve uma mensagem, em algum momento pensa no receptor?Escrevo apenas para lavar minha alma, exorcizar minha dor e dizer que respiro.Apesar de tudo, ainda respiro.A verdade existe?Hoje, pra mim, o que existe é a busca pelo equilíbrio que a vida e alguns astros negrosme impedem de alcançar.A vida tem sentido?“As convicções são cárceres” como dizia o filósofo do martelo, grande Nietzsche, meuguru espiritual. Vivo sem os braços e pernas, totalmente mutilado. Anjo desnudotragando a morte. Como um profeta bêbado, bebo vinho e saboreio o nada. Prefiro seresse ser pedante e demodé, totalmente sem graça. Às vezes caio numas e me vem umdesespero brutal e cuspo na vida o pior que há em mim, minha vã melancolia. Se aexistência é sem sentido ou uma causa perdida, não me interessa mais. Prefiro dançar eabandonar correntes que me impossibilitam de caminhar.Uma solução final.Uma noite de extrema volúpia e poesia...
  26. 26. O sofrimento passado foi importante?Importante para ter a clara noção que tudo passa rápido e temos que buscar aquilo queos gregos sonhavam: Transformar a vida numa obra de arte. Mesmo sendo um milagrevivo da ciência, vi a Morte de perto e ouvi dos médicos “fim de linha”. Vi no rosto defamiliares o prazer de me ver fraquejar. Mesmo assim, me sinto em ação. A dor me levaà poesia e a arte, e eu a abraço sem medo. Sentindo as vezes repulsa e desespero, masentre um sonho e uma punheta, tudo continua em total harmonia com os clowns douniverso, os deuses de barbas e metralhadoras nos dentes.A poesia para você:A única capaz de não me levar ao suicídio.Fale sobre sua pintura.É uma continuação de minha poesia. Gosto de encarar a arte como uma espécie delaboratório. Experimento tudo. Todas as técnicas. Até desenho com sangue próprio jáfiz. Este, inclusive, expus no Teatro Basileu, França, nesse ano. O resultado, às vezes,soa estranho... Às vezes indigesto... Bebi na fonte de mestres como Modigliani e FridaKahlo as cores de minha própria característica. Também encaro a pintura com umasalvação.Os fanzines:Uma noite de bebedeira e pronto. Criei o fanzine chamado Vertigem, com algunsamigos. Empolgado e com a ajuda da internet, divulguei no Brasil todo. Mas, percebi odescaso dos membros. Queriam que o negócio rendesse, mas não corriam atrás. Depoisde um tempo, saí do projeto e sem mim ele morreu. Entrei em outro. Uma bosta! Enada! Foi um longo período. Entrei em projetos de pintura que não renderam nada.Aprendi a trabalhar só. Como sou leigo em computador, dependia dos outros.Passaram os dias e fui desenhando, escrevendo e tal. Chegou um momento que resolvicomprar, no susto, um computador e lancei o zine CAMA SURTA, o “folhetimcoprofágico filosófico desimportante” como costumo dizer. Foi num período de críticase reflexão. É um zine que pretende combater a arte extremamente racional dos diasatuais. Uma volta à um certo parnasianismo. Um parnasianismo corcunda e sem graça.Projetos:Continuar editando meu zine e publicar meu primeiro livro de poesias em 2011.Fui!!!Tenho problema terrível com o fim. Sempre me corta a alma. Melhor abrir uma cervejae ver no que vai dar
  27. 27. Pedro de Luna e a História do Rock em Niterói- 2011 -Enquanto alguns resumem o rock como mais um estilo musical, há aqueles que têm omesmo como um estilo de vida. Pedro de Luna é um destes. Para registrar o rock e suaexperiência de vida na cidade de Niterói, essa verdadeira Pedra da Lua lançou o livro“Niterói Rock Underground (1990-2010)”. A seguir, bateremos aquele papo.Por que escrever um livro e por que um livro sobre rock?Acho que eu devia isso pra mim e, sem soar pretensioso, para compartilhar com agalera. Quando o Rodrigo, vocalista do Dead Fish, comprou o livro, ele me falou:“Obrigado De Luna por preservar a nossa memória”. Acho que é por aí. Hojeseguimos uma linha do novo. Só a novidade interessa. Só o aparelho tecnológico maisnovo. Queremos o corpo novo, jovem pra sempre. E por conta disso renegamos opassado. E é olhando pra trás que a gente consegue mesmo enxergar o que será ofuturo.O fato de ser sobre rock, é fácil. O rock é a trilha sonora da minha vida, meu lifestyle.Como se dá a aventura de lançar um livro de forma completamente independente? No início, em 2007, seria pela editora pública Niterói Livros, que teria tudo a ver. Oprojeto era maior, contemplava CDs com as fitas k7 digitalizadas, exposição edocumentário. Mas sempre fiz as coisas de forma independente. Nunca foi empecilho afalta de patrocínio. Não fui acostumado com edital, lei de incentivo, nada disso. Fuialuno na escola do “faça-você-mesmo”.Falando em cena independente, você já tem uma história na cena independente deNiterói. Comente um pouco sua experiência no submundo cultural da cidade.Se eu fosse escrever tudo, não caberia na página. O livro já conta essa trajetória, quecomeçou como estagiário da rádio Fluminense FM, passando por selo independente,produção de shows e campeonatos de skate e editando o fanzine Shape A.Por que uma cidade com tantos talentos, nas mais diversas áreas culturais, não recebenenhuma forma de incentivo da Prefeitura ou dos órgãos competentes.Adoraria que você conseguisse uma resposta deles. Na época da campanha, fomosconvidados por Marcos Sabino (presidente da Fundação de Arte de Niterói) para umareunião com Jorge Roberto, que acabara de voltar de Liverpool. Tanto lá quanto nareunião pública no Clube Central, se prometeu mundos e fundos. Não consigo entendercomo um prefeito roqueiro tem um braço direito roqueiro e ignora solenemente osartistas independentes. Nos sentimos traídos. Como a música da Beth Carvalho, “vocêpagou com traição...”. Só que eu nunca dei a mão pra eles. Estou apenas reivindicandomeus direitos como cidadão que paga seus impostos.Você também atua nos quadrinhos. Existe algum projeto de livro nesse campo?Yes! É meu próximo livro. Mas prefiro contar em breve. Aguarde.. . E o Araribóia Rock? De quando começou até hoje, o que mudou e o que permaneceu? Começou em 04 de dezembro de 2004, que é por lei o Dia Municipal do Rock emNiterói (lei de 2007). Muita gente já se engajou, já chegou junto e já se afastou. Muitasbandas boas já encerraram os trabalhos e outras começaram. O que a gente percebemais é que os locais de shows só diminuem. Nos anos 90 tinham vários. Depois abriram
  28. 28. outros como Sala Para todos, Dragon Jack, Arab´s Café, mas todos fecharam asportas. Hoje só temos o bom e velho Convés, o São Dom Dom e a Box 35. Lastimávelpara uma cidade com tantos músicos.Hoje estamos mais engajados e mais cascorados também. Estamos formando um núcleoque se reúne de 15 em 15 dias. Em meio a centenas de bandas, são 15 ou 20 músicosque se unem pra desenvolver uma cena. Isso mostra que ainda há muito egoísmo nomeio artístico.O que você aconselharia aos escritores que têm seus trabalhos na gaveta e nãoconseguem oportunidade de lançar seus livros?Existem vários caminhos. Um deles é publicar de graça na internet. Tudo depende doque a pessoa quer. Uns querem a fama e o dinheiro do Paulo Coelho. Outros queremapenas ser lidos. Para esses, um blog resolve. Têm editoras que lançam livrosprojetados em blogs. Também pode fazer como os poetas, que lançam pequenos livretose vendem nas ruas, em eventos culturais. Possibilidades existem, o que falta é coragemde ir pra rua e ralar.Muitas editoras, inclusive as que se consideram independentes, preferem ficarrelançando obras antigas que abrir espaço para o novo. Isso seria comodismo ou puracovardia por parte dessas editoras?Não me sinto confortável de julgar ninguém, mas acredito que existem muitos fatores, efalta um editor curador de fato, que pesquisa, que vai atrás do que é bom. Assim comoaconteceu no jornalismo. Quase não tem repórter na rua, apurando, descobrindo fatos.A maioria fica na redação, de forma passiva, recebendo releases por email. Acho que épor aí. Penso seriamente em abrir uma pequena editora pra lançar novos autoresindependentes.Para fechar, resuma seu livro em uma frase:Da fita cassete ao Arariboia Rock, 20 anos de lembranças e transformações marcantes.;-))
  29. 29. Devotos- 2010 -Em 1988, no bairro Alto José do Pinho, Recife, surgiu o Devotos do Ódio (atualDevotos). Não teve dificuldade capaz de parar essa rapaziada. E olha que não forampoucas. A banda está até hoje na ativa e tive a oportunidade de estabelecer contato como vocalista, Canibal, que me concedeu uma entrevista.Valeu, Canibal.A banda sempre foi marcada por sua iniciativa e pela postura "Faça você mesmo",inclusive tendo construído seus primeiros instrumentos com sucata.Na verdade, o que queríamos era nos expressar através da música. Como não tínhamosgrana para comprar os instrumentos, o Neilton montou sua guitarra e o Celo, com aajuda do seu primo Lee, montou uma bateria. Algumas bandas da época nos davamforça, dividindo os ensaios ou emprestando os instrumentos. Bandas como: CambioNegro HC, SS-20 e Moral Violenta.Não queríamos que essa história de fazer os próprios instrumentos virasse a principalhistória da banda. Uma banda pobre, do morro, que para tocar fez seus própriosinstrumentos. O que queríamos, na verdade, era ter os instrumentos dos nossos sonhose realizamos isso depois de nove anos de banda, quando gravamos o 1º CD. Agora távalendo.A mídia sensacionalista fode a cultura do subúrbio. Cultura não tem classe social, maseles fazem questão de separar. Tem toda uma fantasia nessa parada de fazer osinstrumentos, mas há coisas mais importantes que ninguém fala. Ex: Somos uma bandade Punk Rock HC e moramos no Nordeste do Brasil, onde não se tem apoio para nossoestilo. Nem de mídia, nem de lugares para tocar. Recebemos propostas de morar emSP. Para nosso som seria melhor, mas resolvemos ficar aqui em Recife. E já se fazem22 anos.A indústria cultural tem como característica transformar tudo em produto descartável.Como resistir a tentação do lucro fácil e manter um trabalho autêntico?Quando uma banda tem caráter, não tem como ela fazer diferente. Não rola. Omovimento mangue é um exemplo disso. A maioria das bandas colocou tambor, fizeramum som diferente e só ficou quem realmente tinha aquilo no sangue.Para uma coisa dar certo você tem que ser original e verdadeiro. Você pode até mudarpara agradar ou ganhar uma grana, mas não vai demorar muito para a máscara cair.O que você destacaria atualmente na cena cultural independente?CONTRATAQUE - palcomp3.com/contrataque e-mail: banda_contrataque@hotmail.comPLUGINS - www.myspace.com/pluginsbandAlém da banda, que todo mundo conhece, ouvi falar sobre alguns outros projetos emque você está envolvido.Sempre fizemos projetos sociais aqui na comunidade. Nós, do DEVOTOS, junto comoutras bandas e amigos, montamos uma ONG chamada Alto Falante. Não temos sede.A maioria das ações são feitas na rua. Em 2002, tivemos ajuda do DAD, uma ongAlemã, junto com a Fase, e montamos uma rádio comunitária, onde todos dacomunidade podem participar, fazendo programas ou mandando informações. Essa
  30. 30. rádio, na verdade, é uma difusora. São caixinhas que colocamos nos postes etransmitimos a programação. Tipo aquelas rádios de interior, tá ligado? É muito difícilconseguir concessão da Anatel para fazer funcionar uma rádio comunitária. Eles sódão concessão as Igrejas e aos políticos. Mas, para nós, que queremos realmente fazervaler o estatuto das rádios comunitárias, não conseguimos ter concessão. Mas,também, qual governo quer instruir seu povo sobre suas leis, seus deveres e seusdireitos? Quanto menos soubermos, melhor para quem quer fuder esse país.* Esse ano, fui para Santiago de Cuba participar de um debate sobre a impontânciadas rádios comunitárias.* Esse ano, também finalizamos um projeto chamado Jardim Periférico, onde fomos em5 comunidades aqui de Recife e reghião metropolitana para dar enfaze a importânciadas rádios comunitárias e falar um pouco sobre como uma banda como DEVOTOSsobrevive por mais de 20 anos.* O jornalista Hugo montaroyos escreveu um livro chamado DEVOTOS 20 ANOS,falando sobre a banda, claro, mas falando também sobre o movimento no Alto José doPinho. Tem depoimento do Faces do Suburbio, Matalanamão e alguns moradores eprodutores que conhecem a banda e o movimento cultural aqui na comunidade. Esselink fala um pouco do livro e também da nossa viagem para a Europa, que rendeuumvinil chamado Victoria:http://www.revistaogrito.com/page/blog/2010/08/09/devotos-20-anos-de-hugo-montarroyos/www.myspace.com/oficialdevotosAí tem fotos e videos da tur.Por que o Devotos do Ódio virou Devotos?Para ganhar dinheiro. Não é isso que a maioria das pessoas que não nosconhecem pensam? Só digo uma coisa: Você pode mudar seu nome, mas não podemudar seu caráter!!!!O que a galera que curte o som de vocês pode esperar daqui para frente? Tem algumanovidade em andamento?O DVD que gravamos aqui no Alto José do Pinho. Já vai fazer dois anos que estamostentando editar, mas agora vai!!!Esse video é tirado dele: http://www.youtube.com/watch?v=In--WIYft28
  31. 31. Thina Curtis e Olga Ribeiro na I Fanzinada- 2011 -Para celebrar o Dia Mundial do Fanzine (29 de abril), zineiros do ABC organizaram a IFANZINADA. O evento ocupará toda a tarde do sábado, dia 30, no Espaço CulturalGambalaia, em Santo André. É a primeira vez que a data será comemorada na regiãocom um evento deste tipo. A I Fanzinada contará com exposição e divulgação de zines,o lançamento do Anuário de Fanzines, idealizado pelo Coletivo Ugra Press (São Paulo)que reúne mais de 100 publicações espalhadas pelo Brasil, lançamento das novasedições dos zines Aviso Final (Renato Donisete), Spell Work (Tina Curtis), VestindoOutubros (Letícia Mendonça e Fernanda Aragão), Zine Zero Quatro (Zhô Bertolini eJurema Barreto de Souza), exposição dos grafiteiros Daniel Melim e Dedot, HQs doquadrinista Thiago Gomes, esquete teatral com o Ator Adilson Magno (Dill) e com aexibição do documentário Fanzineiros do Século Passado. Após a exibição, haverá umdebate aberto sobre os rumos do fanzine na era digital.O evento é gratuito e aberto à todos os interessados. O Espaço Cultural Gambalaia ficana Rua das Monções, 1018, Bairro Jardim em Santo André.Trocamos uma idéia com duas das responsáveis pelo evento:Thina CurtisThina Curtis é uma verdadeira guerreira dos fanzines e uma das responsáveis pela IFANZINADA. Fala aí:O que será a I Fanzinada?Um evento que reunirá a maioria dos zineiros(as) e artistas do ABC Paulista paracomemorar algo que nunca aconteceu aqui no ABC e também uma forma de mostrar oque está acontecendo, divulgar trabalhos e trocar ideias.Na verdade, a ideia surgiu entre eu e o Renato (Aviso Final) no ano passado, quandoqueríamos ter feito isso e não deu. Estávamos meio cansados de participar e fazereventos em SP. Nada contra, eles são ótimos, mas acabamos não fazendo nada nanossa região, que é praticamente o berço dos fanzines, onde, até mesmo, surgiu omovimento punk. Nisso, reencontrei um velho amigo, o Rogério (Oficinativa), ecomeçamos a amadurecer a idéia. Como estou para lançar a 8° edição do meu zine(Spell Work), resolvi que desta vez iria lançar o zine e comemorar o dia do fanzine. ORenato e o Rogério compraram a idéia (rs).Tentamos conversar com alguns órgãos públicos da região, mas houve um descaso, atépelo tamanho da ignorância em não saber como esta arte agrega tantas linguagens...Aí a Olga (Imprensa Alternativa), jornalista que pesquisa sobre publicaçõesindependentes, se juntou ao grupo (eu, Renato, Daniel, Melim (zineiro e grafiteiro) e asmeninas do Vestindo Outubros), depois de um encontro no dia da poesia e lançamentodo zine dos cigarristas Zho e Jurema (poetas ativistas). Fizemos uma reunião eacabamos fechando no Gambalaia, que nos cedeu o espaço. Aí, já tínhamos algunsoutros amigos zineiros e ativistas de sampa e adjacências, como o job, do CartaBomba, o Tiago Nanquim, aliás, a arte do flyer é dele... Com certeza, iremos organizarmais atividades como esta, o que já é meio passo andado para um coletivo.Qual o principal objetivo?Lançar nossos zines, divulgar nossas atividades, trocar idéias e informações e reuniramigos, é claro. Também queremos trazer pessoas que gostem dos zines e aquelas que
  32. 32. não conhecem. Teremos muitas atividades e várias formas de expressão, como teatro,grafitti, poesia...Você já atua nesse meio há muito tempo. Como foi início?No início, tudo é mais difícil. Não tínhamos tanta tecnologia e informação.As cartas demoravam, a qualidade da xerox era horrível e a grana pro correio nãoexistia para divulgar legal. Muitas publicações foram abortadas porque você ficavalimitado.O que mudou de lá para cá?Muita coisa! Acho que nossa realidade, hoje em dia, é outra. Porém, mesmo em épocasde globalização e internet, as pessoas ainda fazem fanzines. Isso é uma necessidadequando você faz fanzine. Ele tem sua identidade, seus ideais, desabafos, questõespolíticas, sociais e culturais. O legal é que você faz sozinho ou no coletivo. Vocêescolhe o que quer.Por que fazer fanzines?Olha, eu, hoje, não me vejo sem fazer fanzine. É algo que já está em mim. Mas vejo nofanzine um mundo de possibilidades para se fazer, tocar e, para mim, foi e é um meiode muito conhecimento e amizades.Hoje em dia, trabalho com isso. Sou arte educadora e dou oficinas de fanzines naFundação Casa. Também peguei editais de oficinas de fanzine. Através do Fanzine emSala de Aula valorizamos os talentos artísticos, auto estima, visão política e social e ainteração. Os alunos fazem grafitti, colagem, músicas, desenhos, começam a ter umolhar crítico sobre as coisas, a lerem mais sobre direitos, deveres, cidadania epesquisam sobre vários assuntos.Com toda essa movimentação e ressurgimento dos fanzines existe a perspectiva de queisso tudo vire uma constante e até cresça ou é apenas um momento em que o ventoresolveu soprar mais forte?Realmente, esse revival dos fanzines me pegou de surpresa e me deixou muito feliz. Euacho isso ótimo. Hoje em dia, tem uma nova geração de artistas que também sãoativistas, embora pessoas que, como eu, façam fanzines e tem neles o estilo de vida,nunca tenham parado e sempre tenham estado aqui e aliNesse encontro mesmo, no ABC, teremos isso. Podemos dizer que será um encontro davelha guarda e da nova geração (rs). Eu, por exemplo, faço zines desde os 14 anos deidade e tem pessoas achando que meu nome é fanzine (rs).Olga Ribeiro DefavariOlga Ribeiro será nossa segunda entrevistada. Além de pesquisadora de mídiasalternativas e autora do livro A Imprensa Alternativa no ABC, Olga está entre osorganizadores do evento.Como surgiu o relacionamento com a imprensa alternativa do ABC?A partir de uma pesquisa que iniciei na faculdade, em 2005, dentro no núcleoMemórias do ABC, da Universidade Municipal de São Caetano do Sul. O “Memórias”é um projeto que visa levantar aspectos interessantes, mas pouco estudados da históriada região. Como na época cursava jornalismo e por me interessar pelas práticasculturais, achei na imprensa alternativa um meio que une ambas as coisas. Mas foi
  33. 33. precisamente durante um bate papo com a escritora e agitadora cultural Dalila TellesVeras, proprietária de um espaço cultural em Santo André, que descobri que aimprensa alternativa, também colecionada por ela, ainda não possuía um merecidoestudo, no caso especifico, as publicações do ABC Paulista. Foi então que decidi otema da minha iniciação científica. Logo no inicio da pesquisa, descobri que os museuse centros responsáveis pelos arquivos da região, não catalogavam ou mesmo sabiam oque era essa tal imprensa alternativa.E como chegou ao ponto de pensar: "Vou lançar um livro sobre esse assunto"?Achei que minha pesquisa podia sair do âmbito acadêmico e que merecia umavisibilidade maior, pois percebi que havia muita gente interessada no assunto. Um dosinteressados, o poeta Zhô Bertolini, veterano da imprensa alternativa no ABC, sugeriuque eu inscrevesse o projeto do livro no Fundo de Cultura de Santo André. Inscrevi efui contemplada em 2008. Para escrever o livro, ampliei a pesquisa, busquei outraspublicações e tentei dar ao texto um aspecto mais literal e menos acadêmico.O que você acrescentaria e o que você retiraria em uma nova edição. Ah, tem muita coisa para acrescentar. Desde a publicação e a posterior criação doblog (http://imprensaalternativanoabc.blogspot.com) recebi muito material. Na maioriafanzines. Eu pouco conhecia dos fanzines. Até o início da pesquisa, o foco do livro eramos jornais e revistas de caráter independente, por isso dediquei apenas um capítulo aoszines. Hoje, percebo que eles mereciam um espaço maior. Relendo o livro, penso quemuita coisa eu escreveria de forma diferente. São planos para uma próxima edição....Por que o foco no ABC?O foco foi estabelecido pelo Núcleo Memórias do ABC, que abrange apenas as trêscidades: Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul. Talvez, em umapróxima edição, seja possível incluir as sete cidades que formam o Grande ABC:Ribeirão Pires, Diadema, Mauá e Rio Grande da Serra.Qual a principal diferença entre os veículos alternativos e os convencionais? Como o próprio nome diz, os veículos alternativos são uma alternativa à imprensaconvencional. Essa imprensa independente dá espaço para assuntos que não temgrande importância ou não são divulgados na mídia oficial. São muitas diferenças. AIA, normalmente, não obedece a regras de periodicidade, distribuição, venda, assuntose número de páginas. Tudo é feito de forma independente. Alguns mais profissionais,outros menos... Mas sem o compromisso de alcançar um retorno financeiro. Acreditoque a idéia principal de quem decide editar uma dessas publicações é poder escreversobre o que quiser, da forma como quiser e quando quiser. É este o espírito da coisa!Qual a maior importância deste tipo de veículo? Na história do Brasil, a IA teve grande importância, principalmente na época doregime militar. Esses jornais denunciavam abusos de poder e ajudavam a manter beminformada parte da população interessada, já que a mídia oficial omitia muita coisa.Claro que muitas dessas publicações sofreram pressões e precisaram ser fechadas. Issoaconteceu também com veículos na região do ABC, porém aqui a história da IA é maisbranda e está mais ligada à literatura, poesia, humor e a cultural de forma geral. Creio que a grande importância no ABC foi promover a cultura, os poetas, as bandas,os cinemas, os escritores e abrir caminhos para outras publicações.
  34. 34. Tem mais algum material vindo por aí?Ainda não estou preparando nada, mas já tenho bastante munição para uma próximaedição. O que vem por aí é uma comemoração que estamos organizando para o diaMundial do Fanzine, que será no dia 30 de abril, no Espaço Cultural Gambalaia, emSanto André. No meu blog tem mais informações.
  35. 35. Agrotóxico HC- 2010 -De acordo com o dicionário Michaelis, agrotóxico é: agrotóxico (a.gro.tó.xi.co) =(cs) sm (agro3+tóxico) Defensivo agrícolaMas, hoje, vamos conhecer um novo tipo. Agrotóxico = Banda Paulista de Hard Core.Como surgiu o Agrotóxico?O Agrotóxico foi formado em 1993, por iniciativa do Mauro, primeiro baixista evocalista da banda, e logo depois entrou o Edú (baterista) e eu (Marcos) na guitarra. Apartir daí, começamos a compor os sons e tocar pelas quebradas de SP.Depois de terem passado por várias formações, shows para diversos tipos de público eganharem espaço fora do Brasil, qual o maior aprendizado adquirido pela banda?Evoluímos musicalmente (não muito), ganhamos maior consciência política eatualmente os shows estão melhores. Acho que esse é o caminho de todas as bandasque levam a coisa de maneira séria.Agrotóxico e Olho Seco são duas bandas que sempre se relacionaram de alguma forma.Como se deu essa amizade e qual a principal influência que o Olho Seco exerceu sobreo Agrotóxico?Eu trabalhava no centro e por volta de 1995 frequentava a galeria em meus horários dealmoço, especialmente a loja do Fábio (Olho Seco). Falávamos sempre sobre sons esobre o próprio Olho Seco. Quando gravamos o Caos 1998, tivemos a idéia de chamaro Fábio para participar e ele topou. Pouco tempo depois, ele nos convidou para nosjuntar ao Olho Seco para uma volta da banda, o que foi sensacional! O Olho Secosempre nos influenciou. Acho que, ao lado do RDP, é a maior banda de hardcorebrasileira. Aprendemos muito tocando no Olho Seco, com o qual, inclusive, fizemosnossa primeira turnê na Europa.O Rasta Knast e o Riistetyt são algumas das bandas internacionais com as quais vocês játiveram oportunidade de trabalhar. Como foi esse contato e qual a principal diferençaentre a cena hard core do Brasil e a do exterior?O contato foi excelente. Embora tenhamos realidades muito diferentes, o fato é que aspessoas são sempre iguais e após o primeiro contato tudo se torna natural. A cenaeuropéia é muito maior que a nossa. Praticamente em todas as cidades há umaestrutura para shows punks, bandas e principalmente público, além, é claro, dafacilidade de excursionar por outros países, já que lá tudo é mais perto e fácil. Alémdisso, não podemos nos esquecer do padrão de vida mais elevado que permite que aspessoas dediquem maior tempo aos seus projetos pessoais e tenham maior chance deadquirir equipamentos, etc.O som punk nacional ainda rola direto lá fora?Há muitas bandas com um bom reconhecimento lá fora. Posso citar: Olho Seco, Ratosde Porão, Lobotomia, Social Chaos e o próprio Agrotóxico. Mas, atualmente, muitasbandas nacionais (como o Paúra, o Devotos e o Questions, por exemplo) têmexcursionado lá. Isso faz com que o nome do Brasil fique cada vez mais forte quando sefala de Hardcore.É possível sobreviver apenas com o trabalho underground?
  36. 36. Não para nós... Mas é plenamente possível você gastar todo o seu dinheiro nele!HahahaE a Red Star? Como anda?A Red Star é um projeto que começou para lançar o Agrotóxico e acabou tomandoproporções maiores. Hoje, ela pertence somente ao Jeferson e está sempre lançandograndes bandas nacionais e gringas. Se não me engano, o último lançamento foi oSimbiose, de Portugal. Mas o selo possui, em catálogo, grupos como D.O.A., RastaKnast, Lobotomia, Periferia S/A, etc.E a luta antifascista?Vivemos em um país onde boa parte da população possui um viés fascista e isso ficaevidente com diversas atitudes com as quais nos deparamos diariamente. Para citarcomo exemplo, nossa eleição presidencial foi quase decidida por uma campanhafascista do José Serra acerca de questões como aborto, Estado Católico,criminalização da homofobia (à qual ele era contrário), etc. E isso mostra muito bemcomo nosso povo ainda é conservador. Além disso, é comum que a mídia veiculenotícias como ataque a homossexuais, violência e assassinatos cometidos por policiaise muitas outras atitudes eminentemente fascistas muito comuns em nossa sociedade. Oque, a meu ver, determina que quem quer que se diga participante da cena Punk ouHardcore deva participar da luta contra essas mazelas que ainda são tão presentes emnosso País. Embora hoje em dia exista quem se diga “hardcore” e defenda idéiasconservadoras e preconceituosas. O que é, evidentemente, um absurdo. Observo que a união entre os diferentes estilos do meio underground está cada vez maissólida. Aquelas tretas antigas, que começavam muitas vezes por umasimples diferença de gosto, estão desaparecendo. Isso é ótimo, por demonstraramadurecimento, união e respeito.Acho que diferenças musicais não são e nem podem ser motivos para tretas oudiscussões. Existem características políticas diferentes nas diversas cenas dounderground que, aí sim, podem e até devem gerar uma separação, mas é claro queisso não pode ser algo tão banal quanto mero gosto musical.Mensagem final:Apóiem a cena local. Compareçam a shows, organizem-se politicamente, escrevam,protestem, comprem discos das bandas nacionais e, enfim, contribuam com omovimento ao qual fazem parte e não sejam apenas expectadores. O Punk não temlíderes ou ídolos. Somos todos iguais.
  37. 37. A mídia comunitária na luta pela verdadeira democracia na comunicação- 2011 -Em todo o Brasil podemos observar o crescimento da mídia comunitária. Um segmentoque visa dar voz a grupos de pessoas que normalmente não tem espaço para se expressarde forma livre, com autonomia, valorizando seu modo de falar e pensar. São veículosque possuem os mais diversos formatos: jornais, revistas, zines, rádios, tvs, sites...Todos os meios disponíveis são usados. Mas um grande bloqueio ao crescimento destesmeios de comunicação é a falta de apoio e incentivo. As políticas que deveriam auxiliaro desenvolvimento dos veículos comunitários ainda deixam muito a desejar.Podemos destacar as rádios comunitárias como as que mais sofrem pela falta decompreensão do poder público. Além de não receberem o incentivo necessário, aindasão perseguidas e rotuladas como rádios piratas. Um filme que trata do assunto é o“Uma onda no ar”, que relata a história da Rádio Favela, de BH, Minas Gerais. No anopassado assistimos também a mais um conflito do Rapper Fiell com a polícia, desta vezpor causa da rádio comunitária que mantém no Morro Santa Marta, Rio de Janeiro. Sãoinúmeros casos a serem relatados.No Rio de JaneiroJá faz alguns anos que venho acompanhando e participando da mídia comunitária noRio de Janeiro. Posso afirmar então, por experiência própria, que a situação no estadonão é diferente do resto do país. Embora muitos projetos e veículos surjam e continuemdando impulso a estes meios de comunicação, as dificuldades são inúmeras e o descasodo poder público é marcante. O interesse político dos que estão no poder (não só ospolíticos partidários, mas os empresários que financiam suas campanhas também)sobressaem a necessidade de uma imprensa realmente comunitária, alternativa eindependente. Mas o pessoal não desiste e continua tocando suas ideias. Em muitasfavelas cariocas podem se encontrar veículos de comunicação comunitários autênticos.Pessoas que, além da batalha pelo pão de cada dia, ainda encontram energia parasuportar uma luta desigual e injusta pelo direito a voz.Cleber Araújo apresenta o BarracoEntre as entrevistas que fiz com lideranças comunitárias, movimentos e agentes sociais,antes de me mudar para Porto Alegre (no início deste ano), selecionei essa que fiz como jornalista e cria da Rocinha, Cleber Araújo. Nela, podemos conhecer um pouco dosobstáculos enfrentados por esses verdadeiros guerreiros da comunicação.Para começar, apresente o Barraco.Barraco@dentro é um espaço virtual destinado, principalmente, aos moradores decomunidades, mas também está aberto a todos os que se interessam por assuntoscomunitários. A finalidade do site é oferecer aos moradores de comunidades um outroolhar sobre a sua realidade - diferente das mídias convencionais - usando uma lentejornalística que não seja preconceituosa, nem superficial.De onde surgiu essa ideia?A ideia da construção do site já é um pouco antiga. Desde os tempos da faculdade,ficava imaginado um meio de comunicação diferente dos tradicionais. O fato de sermorador da favela da Rocinha também influenciou na decisão de querer criar um
  38. 38. espaço para comunicação desse gênero - um espaço não só noticioso, mas de reflexão evalorização cultural e social. Mas a principal inspiração desse projeto só conhecidurante a produção do meu trabalho de conclusão de curso, quando fiz umdocumentário sobre a TV Tagarela, da Rocinha. Uma galera que faz a diferença.Dentro de suas produções, procuram levar aos moradores um pouco de reflexão sobreo cotidiano da favela, desenvolvendo a conscientização sócio-política.Qual o maior benefício que um veículo como esse pode trazer para as comunidadescarentes?Espero que, ao adentrar nas comunidades, o Barraco esteja ajudando a valorizar umacultura que é excluída, a desenvolver a conscientização social e política e, acima detudo, enfatizar os verdadeiros valores das pessoas dessas regiões que não sãoreconhecidos pela classe média alta, nem por sua mídia representante.Você já trabalhava com blogs. Como eles vão ficar? O Pauta Grande continua ou para?O blog Pauta Grande teve e tem duas funções na minha vida, apesar de não seratualizado com frequência. Primeiro: Foi uma forma de manter-me ligado ao meusonho de exercer o jornalismo cidadão. Já que o mercado jornalístico está difícil deemprego, principalmente para pessoas que queiram trabalhar por um mundo melhor,tive de criar meu próprio espaço para expor minhas reflexões e críticas. A segundafunção do blog: Funcionar como válvula de escape, uma fuga do estresse cotidianoatravés dos meus pensamentos e palavras escritas. Quanto a continuar alimentando oblog, isso ainda é incerto. Primeiro vou ter que organizar meu tempo e me empenharbravamente para o obter o sucesso esperado com o Barraco@dentro.Fale sobre seu curta.Bom, o curta "TV Comunitária de Rua: Uma Boa Alternativa" foi produzido no ano de2008 para conclusão do meu curso de jornalismo. Na verdade, é um documentário feitocom a TV Tagarela, que tem como finalidade mostrar a importância desses tipos deiniciativas dentro de uma comunidade e também revelar como funciona e asdificuldades para se fazer TV comunitária. O legal é que acabei realizando um tipo deprodução escassa no meio acadêmico.Voltando para o site: Como a galera faz para participar?Minha intenção é criar uma rede com os blogueiros e com os sites que já atuam nomeio comunitário. Não pretendo publicar somente o que é produzido pelo barraco, masdisponibilizar espaço para outras pessoas e instituições que partilham do mesmo ideal.O que estou propondo não é nada novo. Isso é uma prática comum entre os blogueirose os sites de esquerda que funcionam com muito sucesso. De um lado aumenta oconteúdo e do outro aumenta a visibilidade. Vamos sempre estar receptivos à artigos,matérias, entrevistas, fotos, vídeos e também críticas pelo e-mail:contato@barracoadentro.com ou cleberaraujo@barracoadentro.com.Uma mensagem para fechar bonito:Só vamos viver numa pátria mais justa e mais fraterna quando o povo tiver aconsciência de que a vida política não se vive apenas de quatro em quatro anos nasurnas, mas que é um dever e direito cotidiano de todos.Barraco@dentro: http://barracoadentro.com/TV comunitária de rua: uma boa alternativa: http://www.videolog.tv/video.php?id=642118
  39. 39. O Aviso Final- 2011 -Chegando aos 21 anos, o Aviso Final ainda ecoa pelos quatro cantos do planetaredondo. Renato Donisete trocou uma idéia a respeito e dividiu um pouco de seu tempoconosco.Como nasceu o Aviso Final?Nasceu de uma conversa que tive com o Laércio Gonçalves, no início de 1990, noensaio da banda Insulto Oculto, da qual ele era guitarrista. Até então eu eracolaborador do fanzine paulistano Mundo Underground. Falei do meu desejo deescrever sobre as bandas do ABC paulista e ele deu o maior apoio para fazer meupróprio zine. Isto está indo para 21 anos. O zine ainda existe e nossa amizade sóaumentou. Legal, né?Do começo até hoje: O que mudou e o que ficou?Por incrível que pareça, ainda tenho o mesmo entusiasmo do início. Fico ansioso nacopiadora...Muita coisa mudou. Eu amadureci e acredito que o texto e a parte gráfica melhoraram.Sem contar que o cenário musical é outro.Como você vê o resurgimento e a valorização dos zines?Fico muito feliz com toda esta movimentação. Muita coisa acontecendo (Encontro dezineiros, Anuário de fanzines, documentário, etc). Isto é positivo na medida que todomundo pode colocar suas idéias em prática, divulgar seus textos e trabalhos artísticos.Enfim, ser autor de uma obra. Fazer fanzine é isto!A característica fundamental, que nunca pode ser perdida:VERDADE no que você faz!!!!O que é o sucesso?Circular suas idéias e através delas criar amizades.E o fracasso?Impossibilidade de desenvolver seus projetos, seja de que natureza for.Consciência ou inconsciência?Consciência e responsabilidade sempre!!!!Improviso ou roteiro?Roteiro, mas de vez em quando é necessário improvisar. Quantas vezes tive queadequar meus projetos devido a grana curta ou outros imprevistos. Olha que já lanceidezenas de edições, duas coletâneas em cd, etc. Nesta hora o improviso é fundamentalpara não deixar a peteca cair.AVISO FINAL ZINE: CAIXA POSTAL 1035, BAIRRO BARCELONASÃO CAETANO DO SUL - SPCEP 09560-970.www.fotolog.com/aviso_final

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