Poderes e limites da ciência - Ciclo de conferências Christopher Auretta

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Poderes e limites da ciência - Ciclo de conferências Christopher Auretta

  1. 1. Christopher Damien Auretta   24 de Abril, 10:30 Uma ética para o mundo técnico-científico: o que os artistas e os pensadores nos ensinam O poder e os limites da ciência: Que futuro para o século XXI? Ciclo de conferências – 2009
  2. 2. "Uma ética para o mundo técnico-científico: o que os artistas e os pensadores nos ensinam"   Abordaremos questões de ética no nosso mundo actual, tão profundamente caracterizado pela evolução da tecnociência. Privilegiar-se-ão várias datas significativas: 1) 1859, data da publicação da obra A Origem das Espécies de Charles Darwin, uma obra que nos permitiu pensar de modo revolucionário o nosso lugar no universo natural;  2) 1948, data da publicação da  Declaração Universal dos Direitos Humanos , um texto que pretende definir e preservar o ser humano como detentor de uma dignidade absoluta bem como dotado de um conjunto de direitos inegáveis, e, por último, 3) 1958, ano em que pela primeira vez se referiu às informações de tecnologia (IT) que hoje em dia constituem a vasta rede electrónica mediante a qual se processam o tratamento e a transmissão de informação em suporte digital. Estas datas e os textos referidos deram à luz outros muitos textos que exprimem por sua vez o impacte profundo que estes textos tiveram e continuam a ter sobre a nossa maneira de pensar, viver, conviver, sentir e imaginar. Será que o século XXI poderá elaborar os seus próprios textos fundamentais como os citados mais acima? Poderá criar uma ética atenta ao mundo que a ciência e a tecnologia alteraram tão profundamente? Será que esta ética encorajará um diálogo alargado entre todos os entes – humanos e não-humanos, naturais e artificiais?  Uma ética educa a mente e encaminha o coração. No século XXI, aprenderemos a tornar-nos seres deveras capazes daquilo que a ética exige, isto é, a capacidade de escutar o nosso coração e o do próximo? O nosso coração: esse estranho íntimo e íntimo estranho...
  3. 3. Antony Guidens
  4. 5. Ron Mueck
  5. 6. Premissa 1: Reconhecemos rapidamente nos outros a experiência do sofrimento e/ou da injustiça (ou ainda de qualquer outra experiência que nos indica a presença do mal) porque, na verdade, nós, na nossa própria vida, já sofremos na pele o que consideramos ser um acto de injustiça. O mal tem uma história, e essa história parece fazer parte da vida. E essa história, mesmo sendo a história doutros, é-nos familiar; é também a nossa história. Lição a tirar desta Premissa 1: Uma consciência ética surge no momento de uma solidariedade implícita e/ou explícita entre nós e aquele ser (ou aqueles seres) que vemos sofrer.
  6. 7. Premissa 2: Contudo, quando reconhemos o sofrimento dos outros, temos que tomar uma decisão, fazer uma escolha: podemos optar pela indiferença (e suprimir da nossa consciência a presença do Outro que sofre), dizendo que o que é exterior a nós está de facto longe das nossas preocupações, ou, alternativamente, podemos identificar nesse Outro que sofre uma linha de continuidade com a nossa própria experiência , com a nossa própria experiência problemática (problemática porque sabemos – sempre – quando e como sofremos também).
  7. 8. Ron Mueck
  8. 9. Ron Mueck
  9. 11. Lição a tirar desta Premissa 2: O sofrimento (ou outra manifestação do mal, inclusive a injustiça) provoca em nós uma espécie de impasse (na dor sentimo-nos imobilizados, prisioneiros, talvez um pouco alienados da nossa própria vida), mas é também um convite a uma consciência alargada da condição humana e de toda a vida no planeta, pois damo-nos conta de que toda a vida é vulnerável à experiência do mal. Portanto, essa vida – aparentemente alheia e exterior que sofre – não é apenas uma entidade abstracta mas, sim, um reflexo da nossa própria vida. Partilhamos uma mesma história face ao mal. Não somos apenas nós (na nossa individualidade imediata), mas, sim, somos quem somos porque estamos com os outros. Somos os laços que tecemos com os outros.
  10. 12. Ron Mueck
  11. 13. Premissa 3: Quando optamos por alargar a nossa consciência para além da nossa individualidade imediata (saindo de um estado de indiferença) tornamo-nos conscientes da vida tal como existe fora de nós (eventualmente à escala do mundo, pois nada existe num estado de isolamento ou numa realidade fechada). Assim, tornamo-nos conscientes da nossa participação na vida dos outros, tal como esses Outros participam também na nossa própria vida. A dor separa-nos de nós e dos outros. A ética traça o caminho do reencontro. A ética é a ciência que sobrevive à dor e que vai para além da injustiça. Tornamo-nos assim testemunhas .
  12. 14. Lição a tirar da premissa 3: A testemunha é muito mais do que um espectador da dor dos outros. A testemunha diz: quando sofremos, sentimo-nos sós mas também solidários. Quando somos testemunhas da vida e do mal de que sofrem os outros, fazemos desse sofrimento que nos parece exterior uma espécie de sofrimento interior . Chama-se solidariedade e também exige de nós um estado de empatia para com os outros, em relação a essa realidade “exterior”. O ser indiferente é uma espécie de muralha; a testemunha é um ser poroso. E é também um chamamento. A arte responde profundamente a este chamamento de testemunha.
  13. 15. Maria Archer, “A vida tem preço”, in A Urgência de Contar , org. Ana Paula Ferreira. Lisboa: Caminho, pp. 199-205) A beleza de Elsa era uma espécie de condão feliz que a natureza lhe dera ao nascer. Toda a gente considerava essa beleza como um bilhete de lotaria premiado com o casamento rico. Por volta dos quinze anos deslumbrou-se com os européis do palco e quis ser actriz mas a família opôs-se com escândalo e alarido. Actriz, ela, que podia casar rica? Devia educar-se e ser honesta e conservar boa reputação, porque esses trunfos são preciosos no jogo matrimonial e uma rapariga bonita, como ela, casa com quem quer.
  14. 17. Na longa noite de insónia a Elsa mediu o seu novo destino no compasso da própria resistência. Pobre? Uma existência modesta de senhora divorciada, pobre, que procura marido? Viver numa casa de renda económica, usar vestidos arranjados, perder as relações de categoria, estragar as mãos na cozinha, descer ao nível da humanidade vulgar? Não chorava pelo Rui: chorava pelo luxo que perdia perdendo o Rui. A família calcula que ela saiu alta noite, subtilmente, porque ninguém a sentiu. Tomou um táxi para Caxias. O motorista ainda a viu, em Caxias, a caminhar na avenida, uma mão poisada na balaustrada da praia. Em Caxias desapareceu. Todas as pesquisas foram inúteis e não se achou nem o seu rasto nem o seu corpo. (De Há-de Haver uma Lei , Lisboa: Editora Argo, 1949, pp. 245-254)
  15. 18. Premissa 4: No mundo moderno, nós transformamos o mundo, aumentando a soma das coisas que se encontram nele (a sociedade contemporânea inventa novos objectos por via da tecnologia e das ciência actuais, por exemplo). O mundo é composto cada vez mais das nossas invenções. Mas o mundo não é um palco passivo: esse mundo “aumentado”, essa soma de coisas inventadas por nós (esse mundo cada vez mais recriado pela tecnologia) transforma-nos a nós também . O que se encontra aumentado em nós é: a nossa consciência de responsabilidade precisamente porque somos criadores de um mundo cada vez mais recriado por nós. O mundo é, portanto, natural bem como fruto das nossas intervençoes nos processos da vida, ou seja, é um mundo artificial .
  16. 19. “ Experimental" de Robert Wallace (n. Springfield, Missouri, USA, 1932) Choose a maple wing, dry and grey if you prefer. Holding it between thumb and forefinger, split the casing. Delicate as spring green, folded, miniature, a life waits to unfurl and journey toward the sun. _______________________________________________________ (In Poems of Science , Penguin, 1984)
  17. 20. “ Experiência científica” de Robert Wallace Pega num broto de acerácea ressequido e desbotado (à tua escolha). Segura-o entre o polegar e o indicador, com ajuda da unha do outro polegar, esmaga o invólucro. Delicado de um verde renascente, iminente, miniatura, uma vida espera por desabrochar e rumar ao sol. ____________________________
  18. 25. Premissa 5: A ética compromete-nos a uma história diferente : a partir de uma situação de injustiça e de sofrimento, a consciência leva-nos a construir uma história pessoal e social mais exigente, mais responsável, mais complexa, a efectuar actos de comunicação em que a escuta mútua é essencial , e a uma nova maneira de nos exprimirmos com as palavras (com todas as linguagens artísticas). Estas linguagens devem ser cada vez mais sintonizadas à realidade deste mundo por nós inventado, um mundo complexo, exigente, em perpétua transformação, isto é, para sempre inacabado.
  19. 26. Ron Mueck
  20. 27. Lição a tirar desta Premissa 5: A ética não é uma ciência acabada: é um processo de alargamento da nossa consciência. A ética é um processo de aprendizagem nunca concluído. A ética é uma ciência que passa pelo indivíduo mas que visa a transformação de toda uma comunidade humana. Até certo ponto a ética coloca-nos num terreno especial: somos, na óptica da ética, seres mistos: ao mesmo tempo individuos e comunitários, singulares e plurais, unos e múltiplos. Como estabelecer, então, um bom diálogo entre nós e NÓS?
  21. 30. Premissa final: A ética é uma ciência que nasce com os seres humanos: sabemos que, para vivermos, devemos conviver com outros (não temos alternativa!), e, para aprendermos o que é deveras necessário para sobrevivermos neste mundo, devemos estabelecer regras essenciais de convivência e de compreensão mútua. Finalmente, para produzirmos uma cultura realmente ética, devemos fazer da nossa consciência ética uma prática diária e concreta.

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