Paper - Onde está o negro operário?

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Paper - O Negro operário na Velha República. Trabalho de História do Brasil III

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Paper - Onde está o negro operário?

  1. 1. 1Universidade Nove de Julho – UninoveCurso: HistóriaDisciplina: História do Brasil III (2012-1)Professor responsável: Geraldo José AlvesEmerson Feliciano Mathias – RA – 2211106920 - Turma – 3º B - ManhãTEMÁTICA: A EXPERIÊNCIA OPERÁRIA VELHA REPÚBLICA (1889-1930) ONDE ESTÁ O NEGRO OPERÁRIO? O GATO COMEU? ...são quase todos pretos Ou quase pretos, ou quase brancos, quase pretos de tão pobres E pobres são como podres, e todos sabem como se tratam os pretos (“Haiti”, Gilberto Gil e Caetano Veloso)Encontramos grande dificuldade em analisar este tema, primeiro por ser muito difícilacharmos uma historiografia na Velha República que retrate o negro 1, segundo, o queé a classe operária? Para MARX (2003), “a classe operária (proletário), é definidacomo, classe de assalariados modernos que não tendo meios próprios de produção,são obrigados a vender sua força de trabalho para sobreviverem.” 2 A partir destaafirmação marxista, talvez toda forma de trabalho após a abolição, possa serconsiderada como “moderna”, portanto, o início de uma classe operária no Brasil.Onde foi parar o negro? Talvez tenha tirado “férias no Haiti”? Ironias a parte,verificamos a grande ausência após a abolição de documentos e fontes sobre o negronesta primeira República. Já sabemos das dificuldades, devido a destruição de grandeparte de documentos pelo “glorioso” Rui Barbosa 3, sem falar na Constituição de 1891,que proibiu o direito de voto aos analfabetos, pois sabemos que aproximadamente80% da população na época era analfabeta (ex escravos), mulatos, africanos, brancospobres, entre outros.1 Definimos “negro” neste artigo como toda a massa da população pobre e excluída (negros, mulatos, mestiços, africanos, entre outros).2 MARX, K., ENGELS, F., Manifesto Comunista. Instituto José Luís Rosa e Sundermann: São Paulo, 2003, p. 26 (nota de F. Engels à edição inglesa de 1888)3 Frequentemente se afirma que a maior parte dos registros históricos relacionados à escravidão no Brasil foram destruídos por decreto governamental na época da abolição, em 1888. A recente profusão de pesquisas sobre a escravidão no Brasil demonstra que não foi bem isso que aconteceu; ver também Robert W. Slenes, “O que Rui Barbosa não queimou: Novas fontes para o estudo da escravidão no século XIX”, Estudos Econômicos 13, 1 (1983), pp. 117-149. In: ANDREWS, George. Negros e Brancos em São Paulo. São Paulo: Edusc, 1998.
  2. 2. 2 (…) nas primeiras fábricas brasileiras trabalhava, muitas vezes, ao lado dos operários, um bom número de escravos. O fato de o proletariado surgir no interior de uma sociedade escravista dificultou e entravou, durante muitos anos, o processo de sua formação como classe. (HARDMAN, 1991:90)Fazendo uma reflexão sobre os dados coletados, podemos concluir que o escravo nofinal do século XIX, que trabalhava em fábricas no interior de São Paulo e também emMinas Gerais tinham conhecimento em algum ofício. Em outros estabelecimentos encontrava-se operários livres ao lado de escravos, no mesmo local de trabalho. (…) a partir de 1857, passavam a ser contratados alguns imigrantes, que recebiam da indústria o mesmo tipo de alimentação e alojamento fornecido aos escravos. Estes passavam a realizar, também, em determinados lugares, trabalhos que requeriam uma certa formação profissional. Alguns se tornavam por exemplo, bons metalúrgicos. Na fábrica São Miguel, em Minas Gerais, o engenheiro Monlevade empregava, em 1867 cerca de 150 escravos nos trabalhos de fundição em seus fornos e forjas. (HARDMAN, 1991:91)Vemos diversos autores como, Andrews, Maria Helena Machado, Lilia Scharcwz, 4 entreoutros, analisarem em seus trabalhos, diversas fugas e conflitos de escravos no finaldo século XIX. Podemos pensar que esse escravo provavelmente tenha vindo paraSão Paulo, Rio de Janeiro, ou em regiões próximas já com profissões importantespara a indústria em crescimento entre 1900 e 1930. Na periferia das cidades concentravam-se milhares de escravos, como é o caso de Santos, onde, nas vésperas da abolição, moravam cerca de 10.000 fugitivos em inúmeras favelas. E interessante assinalar o fato de que muitos dos escravos fugidos que se instalaram no bairro do Jabaquara, em Santos, conseguiram trabalho em indústrias locais, entre elas as Caieiras do Paquetá, ou então como carroceiros, ensacadores e carregadores de café no porto. (HARDMAN, 1991:95)Percebe-se aqui uma grande massa humana de trabalhadores esquecidos e excluídosdos modos básicos de sobrevivência. Para MARX, “o homem só pode viver seencontrar trabalho, que lhe garanta o mínimo sustento para repor suas forças eperpetuar sua raça.”5 Porém, a visão que a elite política fazia dessa população negraera bem diferente da marxista. Segundo comentário do então, prefeito de São PauloWashington Luís: Percebe-se logo de início que aquela população da várzea, descrita como “vivendo em uma promiscuidade nojosa, composta de negros vagabundos, de negras edemaciadas pela embriaguez habitual, de uma mestiçagem viciosa, quase sempre aparece carregando trouxas, cestos, tabuleiros e balaios; lavando roupas; tratando cavalos; conduzindo carroças; ou talvez esperando carregar mercadoria4 Pesquisadores com grandes obras sobre a escravidão brasileira. Ver bibliografia.5 MARX, K., ENGELS, F., Manifesto Comunista. Instituto José Luís Rosa e Sundermann: São Paulo, 2003, p. 32.
  3. 3. 3 em frente dos mercados. (SANTOS, 2008:97)Nos parece estranho que vagabundos e bêbados, tenham disposição para lavar roupa,tratar de cavalos, carregar mercadorias, trouxas, tabuleiros, conduzir carroças, entreoutros afazeres. Wlamyra Albuquerque escreve em seu livro O Jogo da dissimulação –Abolição e cidadania negra no Brasil. “(...) A escravidão foi a grande mazela brasileira,os ex escravizados continuavam a ser meras peças manipuláveis do mecanismo quealimentou as relações escravistas.” (ALBUQUERQUE, 2009:185). Para Karl Marx, “aclasse dominante de uma época, é também o pensamento dominante desta.” “(...) raramente é mencionada a presença dos não imigrantes neste processo, especialmente os da parcela pobre da população – os chamados negros, índios, brasileiros, os da terra, ou quando ocorre de serem considerados, é de forma quase sempre depreciativa em relação à sua participação.” (SANTOS, 2008:15)Cremos que não se faz mister, aprofundarmos neste artigo alguns problemas geradospela escravidão/abolição em nosso país no quadro social, político e econômico.Estamos apontando alguns fatos para não perdermos o foco de nosso tema, “achar” onegro operário na Velha República. No livro, Nem tudo era italiano vemos: Escrita em 1929 por Jules Broz, delegado da Internacional Comunista na América Latina, a carta diz: - Ainda que não existam preconceitos de raça no Brasil, segundo as informações de nossos camaradas, uma coisa chama logo a atenção (…) os trabalhadores da estiva, os homens de trabalho pesado, são todos homens de cor, enquanto que os comissários, os contramestres, aqueles que manejam a pena e os funcionários, as mulheres bem vestidas etc., são todos brancos. (PINHEIRO E HALL, V. I, 1979 apud SANTOS, 2008:16)Negros vagabundos no trabalho pesado? Homens de “cor”(que cor?), embriagados ecarregando peso? Qual a importância da importação e da exportação para qualquerpaís? Achamos que a citação acima no mínimo nos faz pensar. Se não fosse otrabalhador negro assalariado ou não, quem realizaria tais tarefas? (…) no Brasil, em consequência da República de 89, progresso de democratização étnica, através das oportunidades, não que o 15 de novembro criou – pois elas já eram flagrante realidade – mas, de certo modo, estendeu, de ascensão social, em geral, e especificamente política, em particular, a homens de cor, mestiços de africanos, aos próprios negros retintamente pretos, valorizados uns pela sua situação econômica, ainda outros por serviços militares prestados ao novo regimén. (FREYRE, 2000:519)Apesar das visões equivocadas nas duas citações acima no que se refere ao racismo 6no Brasil, esses relatos servem para que possamos verificar que mesmo de forma6 Ver FREYRE, Gilberto. Casagrande & Senzala. (mito da democracia racial)
  4. 4. 4reduzida, uma pequena parcela de homens negros eram atuantes na política, serviçosmilitares (guerra do Paraguai), Força Pública, comerciantes, entre outros. Vemos norelato de Jules Broz, o negro operário (estivador, vendendo a força de seu trabalho).SANTOS (2008), narra em seu livro, que os mercados de rua exercidos pelos“caipiras” (negros, mulatos, mestiços), nos bairros periféricos próximos de São Paulotão depreciados por Washington Luís, foram de suma importância para o crescimentourbano nas primeiras décadas da República. Esses mercados onde se vendiam avessilvestres, legumes, verduras, ervas medicinais e gêneros alimentícios, barateavam opreço dos alimentos entre a população e auxiliava na circulação e no desenvolvimentoda cidade. Embora uma minoria, haviam operários negros nas fábricas e entre elesalgumas crianças, provavelmente seus filhos.7 Nas famílias operárias do período, todos os membros trabalhavam. As crianças menores de onze anos, impedidas por lei nos fins da década de 10 e inícios de 20 (código sanitário) de exercerem trabalho remunerado em qualquer tipo de estabelecimento, ocupavam-se em geral de biscates, pequenos serviços que completavam os ganhos da famílias. No decorrer da década de 20, no entanto, inúmeros estabelecimentos industriais onde não existia assistência médica organizada burlavam a legislação existente, o que permite supor que, sempre que possível, mesmo menores de doze anos trabalhavam regularmente. (DECCA, 1987:25)Em nossa busca pelo negro operário, achamos mais um indício nesta citação deHeloísa de Faria Cruz8: O estabelecimento dos carroceiros, ajudantes de carroceiros e carregadores como profissionais independentes no mercado tornava-se possível devido aos baixos custos que representava a construção de uma carroça. Conseguir madeira para construção de uma carroça de mão ou de uma parelha de bois para equipará-la era condição necessária e suficiente para que um trabalhador se estabelecesse no mercado como carroceiro. (Cruz, 1990 apud SANTOS, 2008:138)Ainda como informa a autora na nota desta página, se havia só uma empresa decarroceiros, o negro detinha uma grande parte deste mercado muito útil e importantepara a cidade de São Paulo naquela época, além disso, esse trabalho só era realizadopelos “excluídos e despossuídos”, portanto é quase certo que na empresa Express doBrás, a maioria dos trabalhadores eram negros. Vamos voltar um pouco no tempo,para analisar superficialmente questões que levam a reflexão sobre o que podemoschamar de classe operária e onde está o negro operário. Segundo Paulo Sérgio7 Ver fotos no anexo.8 Ainda segundo a historiadora. “Durante o período estudado, identificamos uma única empresa – a Express do Brás – que atuava no ramo de transporte de mercadorias utilizando as carroças”. In: CRUZ, Trabalhadores em serviços: dominação e resistência (São Paulo – 100/1920), 1990, p. 30.
  5. 5. 5Pinheiro (1993), o regime Monárquico é o grande responsável pelos problemas quevemos atualmente em nossa sociedade. As violações dos direitos humanos, oracismo, a corrupção, a exploração do trabalho, a desumanização dos pobres, a faltade controle democrático do governo. Tudo isso, devido a séculos de escravidão, peloautoritarismo do Império na figura de Dom Pedro II, onde ocorreram as maioresbarbaridades contra os escravos. Pinheiro, faz uma critica a Monarquia e a acusa dese sustentar em um regime que não respeitou famílias escravas, filhos eram vendidosseparados dos pais, assim como as esposas de seus maridos, eram torturados,crianças supliciadas, famílias dizimadas, ou seja, o regime monárquico fez de tudopara adiar ao máximo o fim da escravidão. Parece-nos que para autor a questão vaialém da política e da economia, passa por uma moralidade que a elite não teve paracom o escravo, onde o autor diz, “a família, só para os brancos”.9 A História temvários pontos de vista e merece sempre análises profundas de todos os assuntos,porém dentro deste raciocínio, achamos que Paulo Sérgio Pinheiro, retratou bem esseestruturalismo da elite na passagem da Monarquia para a República. o "povo" assistiu à proclamação da República completamente "bestializado". Mas, como bem observou José Murilo, mais do que "bestializado" o povo foi "bilontra" (esperto), já que, de algum modo, percebeu o sentido histórico de um ato que mudava o regime, mas mantinha a exclusão e a desigualdade na sociedade, ainda que desde 1888 a escravidão estivesse extinta. (ENGEL, apud VAINFAS, 2002:631-34)Percebe-se que o estruturalismo da sociedade escravagista continuou com aRepública. Vemos essa ideologia da elite burguesa (industrial), na implantaçãodas fábricas nas grandes cidades. Com a política de “embranquecimento” eeuropeirização de São Paulo. Era necessário fixar esse proletário oriundo da imigração, assegurar sua manutenção e reprodução como força de trabalho “pura” e barata. (…) o sistema de servidão burguesa representado pelas vilas operárias (…) o sistema de vilas operárias chegou a ser utilizado com frequência, pela burguesia industrial, em grandes fábricas do setor têxtil de São Paulo e Rio de Janeiro. Nessas cidades, combina-se essa forma de “aprisionamento” do proletariado com o próprio isolamento étnico-espacial a que estavam condenados os bairros proletários. (…) o que a massa dos senza-pátria teria como contribuição, numa Pátria de bacharéis e oligarcas, a não ser a sua própria presença (…). (HARDMAN, 1983:59-60)Constatamos que apesar de toda dificuldade devido a falta de documentação, o negroestava presente intensamente no cotidiano das grandes cidades, principalmente emSão Paulo. Onde percebemos sua atuação em diversas formas e meios de trabalho,9 Ver: PINHEIRO, Sérgio Paulo. Folha de São Paulo, Domingo, 14 de março de 1993, 1-3.
  6. 6. 6em uma definição marxista, podemos dizer que o negro era sim um operário na VelhaRepública, pois vendia sua força de trabalho em troca de sua sobrevivência. SegundoSANTOS (2008), as ruas tornaram-se palcos onde esses sujeitos aprenderam aganhar seu sustento (vendendo produtos), criaram uma cultura, com cantorias ebatuques, com as mais diversas manifestações culturais de origem popular. (…) manifestações essas que, ao aproximar os “pregoeiros” - verdadeiros artistas – dos fregueses, permitiam a circularidade de valores culturais e comportamentais. Porém, como todo espetáculo, existia uma preparação anterior que envolvia pessoas da própria família, vizinhança e da comunidade no fabrico dos quitutes, da cachaça, outros produtos e na entrega, geralmente feita por garotos, como acompanhamos em muitas fotos de menores circulando nas ruas com cestos e balaios. Essas ocupações eram formas de sobrevivência que envolviam homens, mulheres e crianças individualmente e/ou famílias e comunidades inteiras. (SANTOS, 2008:146)Enfim, conseguimos vislumbrar uma luz no fim do túnel referente a esse tema.Localizamos a existência do negro operário na Velha República, porém existem váriaslacunas e indagações a serem feitas. Deixaremos essas análises para trabalhosfuturos. “(...) A burguesia rasgou o véu sentimental da família, reduzindo as relaçõesfamiliares a meras relações monetárias.” (MARX, 2003:29) Meu pai sempre dizia, meu filho tome cuidado Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado (“Dança da Solidão”, Paulinho da Viola)
  7. 7. 7BIBLIOGRAFIAALBUQUERQUE, Wlamyra R. O jogo da dissimulação: Abolição e cidadania negra noBrasil. São Paulo: Cia. das Letras, 2009.ANDREWS, George. Negros e brancos em São Paulo. São Paulo: Edusc, 1998.DECCA, Maria A. Guzzo. A vida fora das fábricas: cotidiano operário em São Paulo(1920-1934), RJ: Paz e Terra, 1987.ENGEL, Magali G. – Republicanismo, in: VAINFAS, Ronaldo (dir.) – Dicionário do BrasilImperial, RJ, Objetiva, 2002, pp. 631-634.FREYRE, Gilberto. Ordem e Progresso. Rio de Janeiro: Record, 2000.HARDMAN, Foot. E LEONARDI, Victor. História da industria e do trabalho no Brasil(das origens aos anos 20). São Paulo: Ática, 1991.HARDMAN, F. F. Nem pátria, nem patrão. São Paulo: editora Brasiliense, 1983.MACHADO, Maria H. “Teremos grandes desastres, se não houver providênciasenérgicas e imediatas”: a rebeldia dos escravos e a abolição da escravidão. In:Grinberg, Keila & Salles, Ricardo. O Brasil Imperial 1870-1889. Ed. CivilizaçãoBrasileira, 2009.MARX, K., ENGELS, F., Manifesto Comunista. Instituto José Luís Rosa e Sundermann:São Paulo, 2003.PINHEIRO, Paulo S. Da coroa escorre sangue. Folha de São Paulo, Domingo, 14 demarço de 1993, 1-3.SANTOS, CARLOS J. F. dos. Nem tudo era italiano: São Paulo e pobreza (1890-1915),3ª edição. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2008.SCHARCWZ, Lilia. Retrato em branco e negro. Jornais, escravos e cidadãos em SãoPaulo no final do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

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